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Trotes

Trote Universitario

Pode ser que eu esteja ficando mesmo muito velho, eis uma hipótese a se considerar. Entretanto, eu tenho uma opinião a respeito de trote universitário. Eu acho muito chato. Chato mesmo, irritante e me incomoda ver a maneira como continua sendo conduzido. Aqui em Porto Alegre eles iniciaram de novo, no centro da cidade, o trote com tinta, farrapos, roupas ridículas e pedidos de “esmola”. Todos sabemos que a “esmola” irá para a cerveja dos veteranos, que vão se divertir alcoolicamente com a humilhação dos calouros (e a colaboração dos incautos).

Sim, eu também sei que os calouros não se importam, e isso faz parte do exibicionismo dos “geniais” alunos que passaram na universidade federal. Mas eu pergunto: “E o que eu tenho a ver com isso?” Terei eu que patrocinar a cerveja de marmanjos, filhos de papai, classe média alienada, que fazem esse tipo de trote chato, cafona, exibicionista, brega e desagradável? Quando os universitários se aproximam eu respondo com um sorriso e um abano, mas fico pensando que ainda prefiro dar as moedas para um sem teto do que financiar a beberagem de universitários ricos. E isso sem falar das tragédias que, vez por outra, acontecem. Lembram do rapaz japonês em São Paulo, na piscina? Uma tragédia, que foi fruto deste tipo de abuso. Eu acho que este tipo de “rito de passagem” poderia terminar, pelo menos neste formato.

O triste é ver a perpetuação do modelo. Os próprios “bixos”, depois de passado o trote, já ficam imaginando a “vingança” com os calouros do próximo ano, num circulo vicioso sadomasoquista que só pode terminar quando alguém tiver a coragem de se levantar e dizer: “Gente, isto aqui é um modelo brega e sem graça. Está na hora de amadurecer esse processo. Vamos fazer uma coisa mais produtiva. Quem sabe agradecer o fato de estarmos numa universidade pública, financiados pelo povo, que paga a nossa entrada aqui. Não haverá uma forma mais politicamente madura de passar por esse rito?”

O trote público é o que mais me irrita… cortaram o meu cabelo em casa quando eu passei. Sei que isso era também um tipo de exibicionismo da minha parte, mas não me importei porque não foi forçado e nem agressivo. Fazia parte da brincadeira da família e dos amigos. Mas expor publicamente os alunos me parece grosseiro e desnecessário. Mostra apenas uma face sádica daqueles que estão na universidade.

Cena presenciada pelo meu sobrinho na esquina da Av. Ipiranga com a Ramiro Barcelos. Os “bixos” pedindo esmola para os carros que paravam no semáforo e sendo expulsos pelos pedintes “donos do ponto”, pois os calouros estavam afastando os seus “fregueses”. É ridículo ver meninas de classe média aos berros com os mendigos, pelo acesso aos carros. É muito tolo isso, e mostra a profunda alienação dos estudantes com o significado de entrar em uma universidade. Existe um afastamento completo da noção de responsabilidade social que carrega um estudante que chega ao ensino superior. E isso se expressa desde cedo, na própria entrada na Universidade, com o tipo de ritual que se impõe. Como diria a professora Robbie Davis-Floyd, um ritual se compõe de 3 elementos básicos: repetição, padronização e simbolismo, todos eles presentes no trote. Mas o simbolismo de um ritual nos leva ao âmago dos valores propostos por uma sociedade, e o simbolismo do trote, com sua necessária humilhação e degradação, nos mostra que os valores dessa sociedade são individualistas e egocêntricos, e não valorizam a participação dos “escolhidos” na melhoria das condições de vida da população que os sustenta na universidade.

Eu gostaria de saber quantos alunos efetivamente curtiram ser pintados e quantos foram constrangidos, e só permitiram o trote para poderem ser aceitos por seus pares. E o pior para mim não é o trote, mas a humilhação e a desconexão com com a sociedade ao redor. As vezes eu encaro os trotes da mesma forma que vejo os casos de assédios; quem vê de fora parece consentido, mas no fundo existe uma pressão para que a pessoa se comporte de uma determinada forma. Sei que posso estar exagerando, mas já vi pessoas me descrevendo trotes exatamente assim. Um constrangimento para se comportar como um palhaço, caso contrário os veteranos não terão um bom conceito de você.

Ok, ritualizemos as conquistas e as passagens, mas de uma forma mais civilizada, nobre e inteligente. Por isso eu admiro o “trote solidário” que meu filho está promovendo na sua faculdade, a Ciência da Computação: doação de sangue. Este é um exemplo entre tantos outros do que se pode fazer de positivo para integrar alunos em sua “nova casa”, a universidade. Sem humilhações, sem degradação e sem exibicionismo do tipo “passei na faculdade, olhe para mim como sou maravilhosa(o)“.

Apenas participação na sociedade, fraternidade e solidariedade.

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Ideologias

A mais elementar definição de ideologia é provavelmente a conhecida frase do livro de Marx, “O Capital”…      

“Eles não sabem o que fazem, mas ainda assim, o fazem”.  

Nada se aplica de forma mais clara e cristalina à conduta obstétrica contemporânea. Lembro um exemplo muito simples, que aparece no texto da professora Simone Diniz. Lá se insere a fala de uma jovem obstetra que afirma de forma singela: “Eu sei que não devo fazer a episiotomia, mas minha mão vai sozinha“.  

Essa frase sempre me intrigou, porque nunca pude crer que se tratava de uma fala sincera. Minha resposta a ela, se pudesse lhe oferecer, seria: “Não, doutora, sua mão não vai sozinha. Uma mão, composta de carnes, fibras, nervos e veias, não se move por vontade própria. Há um determinante inconsciente, algo do obscuro e “não sabido” que determina a ação e conduz seus movimentos. Sua mão vai porque, mesmo que não saibas a razão do gesto, ele se faz guiado por uma força para além de sua consciência. Sua mão é guiada pela ideologia, doutora.“.  

A reluzente tesoura – que corta sem pudor o tecido inocente da genitália – sequer imagina que as ideologias que permeiam a assistência ao parto operam como cordões invisíveis a nos prender a modelos constituídos sobre os valores fundamentais desta cultura e neste tempo. No nascimento humano, tais forças implacáveis são determinadas por uma visão da mulher como ser defectivo, a condescendência com a intromissão no seu corpo e a complacente intervenção sobre seus ritmos e sua natureza.  

Somos todos, pacientes e médicos, governados pelas ideologias aplicadas à atenção à saúde. Como o ar que respiramos, elas nos envolvem sem parecer que estão ali, por toda parte, penetrando nossas narinas e pulmões, ao mesmo tempo que nos iludem com sua invisibilidade.  

Para mudar o nascimento, e assim também a humanidade por consequência natural, há que mudar a própria ideologia sobre a mulher, a natureza, a fisiologia alargada do nascimento e o entendimento que temos do mundo. Parafraseando o mestre Odent, “Para modificar o nascimento é necessário mudar o mundo em que vivemos, e o primeiro lugar a transformar é o interior de nossas mentes, para que o olhar que lançamos para fora realce o valor que tais momentos nos oferecem”.    

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Linhas Retas

Não existem linhas retas na natureza, e as linhas do universo simbólico são necessariamente tortas. Entre um ponto e outro de nossa compreensão se entrecruzam fatores que as ciências exatas não podem medir. Se é verdade que não podemos creditar todos os eventos humanos às “artimanhas do inconsciente” (o mestre já dizia que muitas vezes “um charuto é apenas um charuto”) também é verdade que não podemos nos cegar às evidências de que as intencionalidades recônditas precisam ser encaradas com discernimento e coragem. Sem os antigos psicologismos, manifestos pela volúpia do “furor interpretans“, a visão de causalidade emocional pode nos oferecer múltiplas chaves para a compreensão dos enigmas do adoecimento. Mas não todas, por certo.

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Felicidade

Dizem que teve uma vida infeliz com o príncipe de Mônaco. Ela, entretanto, viveu o sonho feminino mais ancestral, desde o advento do patriarcado: ser uma princesa de verdade. Viveu a fantasia mais antiga das meninas: um mundo rodeado de encanto em um castelo, ao lado de um príncipe. Mas eu pergunto: será que a vida na realeza lhe garantiu a felicidade? Teria sido ela mais feliz se não tivesse recebido graciosamente da natureza tamanho dote de beleza e talento? Se fosse tão somente uma mortal, como qualquer dessas pessoas que vemos todos os dias atravessando rapidamente a rua, teria a mesma chance de ser “feliz e realizada”? O que, afinal, pode nos garantir uma vida plena, repleta de alegria e contentamento? Serão o dinheiro, a fama, o prestígio, a beleza, a inteligência ou o poder capazes de nos garantir uma boa noite de sono, a sensação de plenitude, a brisa fresca da paz de espírito a nos enlevar e refrescar a alma? Ou será mesmo verdade que tudo o que nos propicia momentos de felicidade, mesmo os mais frugais e passageiros, é algo incomensurável e impossível de contabilizar?

Talvez o que nos falta é a capacidade de entender que, se a tal sentimento existe e pode ser alcançado, ele certamente não se conecta com as construções elaboradas da vida cotidiana; nem sequer com o dinheiro, o poder, o reconhecimento e a fama. É provável que tal sensação se liga às questões mais profundas e primitivas da nossa existência: o carinho, o suporte, o afeto e a segurança de ser amado.

E quanto a isso, não há dinheiro suficiente que possa comprar.

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Mulheres que Cuidam

As mãos, que não as suas, no colo entrelaçadas, enquanto a lágrima bruta rola da face lívida. A dor que sente num corpo que não é seu; a palavra que brilha no breu das dúvidas, abrindo um clarão de esperança na noite do corpo. A fadiga sentida como sua, as mesmas interrogações que outrora se fizera. A necessidade de gritar, que sente imperiosa na boca que se entreabre, e o lamento que escorre do olhar que recebe. O tempo que passa, como um navio que, pequenino no horizonte, se aproxima do porto com o vagar dos séculos. A hora sorrateira que se esconde por trás do relógio que, dissimulado, se finge paralítico. E o som de si mesma que silencia na garganta, mas que se escuta a cada dor, a cada onda e a cada movimento.  

Ela olha, observa, chora, lamenta e goza um gozo que não é seu, uma dor que fez para si, para retirar da irmã que, ao se lado, se contorce, transmuta, descasula e emerge.  “Sim, pensa ela. Se algo posso dar, que seja meu silêncio e minha humilde presença. Se algo tenho a oferecer, que seja minha esperança e meu amor. Se algo posso pedir, que me ofereças o privilégio de estar contigo enquanto, através de tuas dores, constróis o milagre cotidiano da vida se fazendo”  

Minha homenagem às mulheres que dedicam suas vidas a exaltar o feminino no nascimento humano, e cuidam de suas irmãs nos momentos mágicos e deslumbrantes do parto.   Mulheres que cuidam de Mulheres…

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Joaquin Phoenix, soberbo

Queria deixar aqui o meu voto para o premio de melhor ator para o Oscar 2013. Vi todos os filmes com os atores concorrentes ao Oscar desse ano: Denzel Washington (Flight), Daniel Day-Lewis (Lincoln), Bradley Cooper (Silver Linings Playbook), Hugh Jackman (Les Miserables) e Joaquin Phoenix (The Master), e todos com interpretações muito boas (inclusive Hugh Hackman cantando). Entretanto, nenhum dos outros quatro chega perto do desajustado e sequelado Freddie Quell interpretado por Joaquin Phoenix. O filme, ambientado no período de pós-guerra nos Estados Unidos, mostra o jovem Freddie, com problemas de adaptação depois de passar por experiências traumáticas na família, com um amor do passado (Doris), na guerra e com uma pessoa que ele “talvez tenha matado”. Alcoolista e inadaptado, acaba por encontrar-se com Dodd Lancaster, o “Mestre”, que comanda uma seita baseada em reencarnação, conhecimento de vidas passadas, cura de doenças e hipnotismo. O encontro desses dois personagens gera uma forte ligação de dependência entre eles, que é o centro de onde emerge toda a dramaticidade da história.

O filme me tocou de uma maneira especial e significativa por abordar a influência dos gurus, dos “mestres” dos “escolhidos” e dos “iluminados” , desnudando a alienação patrocinada por essas figuras carismáticas, que desemboca na anulação do desejo de um sujeito. A aversão sistemática à racionalidade, mesclada com o obscurantismo dos pressupostos defendidos, nos apresenta um “Mestre” – protagonizado pelo oscarizado Philip Seymour Hofman – humano e bondoso, ao mesmo tempo que tem um comportamento sedutor, manipulador e despótico.   Um desempenho espetacular de Joaquin Phoenix na personificação de um jovem consumido pelo álcool, dramas do passado, dívidas emocionais e carências afetivas. Um grande filme para quem se preocupa com a liberdade e com o desenvolvimento de uma das mais complexas virtudes: a capacidade de criticar as suas crenças mais profundas, mais arraigadas e sólidas.

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Amamentação e Continuum

O cenário de dificuldades criado pela crescente intervenção no ciclo gravido-puerperal através da utilização de tecnologia(s) não pode ser negligenciado. Para além das invasões sobre seu corpo, reflitamos sobre as questões emocionais e psicológicas que tomam conta desta mulher contemporânea. Um dos questionamentos mais naturais seria: “se não fui capaz de parir como as minhas antepassadas, porque conseguiria amamentar como elas?” Assim, ao mesmo tempo em que estimulamos a amamentação para qualquer puérpera que assim o deseje (inclusive as que foram submetidas a uma cesariana) devemos refletir insistentemente sobre o “continuum da humanização”. Não existe limite verdadeiro no processo de nascimento; gravidez, parto e amamentação devem manter-se conectados por uma linha de respeito à fisiologia e a autonomia, e na defesa da integridade do binômio mãe/bebê.

Uma cesariana é uma ruptura – brusca e violenta – neste processo, mesmo quando bem indicada. Apesar de não impedirem a amamentação, as intervenções intempestivas sobre o parto colocam-na sob evidente ameaça. Para discutir o acesso livre e facilitado ao aleitamento materno, é também imperioso debater tudo o que acontece antes deste bebê aproximar-se do seio, já sobre o ventre materno. Para que a semente da amamentação germine é fundamental que o solo esteja preparado e adubado com um nascimento digno e empoderador.

As intervenções sobre o parto, quaisquer que sejam, não o melhoram, servindo apenas para auxiliar nos desvios da normalidade. Qualquer interferência na delicada tessitura fisiológica do parto poderá ter consequências negativas sobre as etapas seguintes. Obstaculizar a livre manifestação dos eventos fisiológicos, psicológicos e emocionais que operam no processo de nascer tem como resultado previsível uma “cascata de repercussões” negativas na amamentação. E isso é um fato, e não uma especulação. Se quisermos uma amamentação plena, prazerosa e satisfatória, lutemos também por um parto livre de coerções e interferências inadequadas e intempestivas. Entendamos o “continuum da humanização” como um rio ao qual não interpomos nenhum obstáculo artificial, e cujo desaguar no oceano da saúde será a consequência natural e esperada.

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Fé inabalável

fé 03

E agora? Eu achei que ele foi muito mais coerente do que ela. Seus argumentos foram muito mais sólidos e precisos, mesmo carecendo de substância. Ela foi apenas indignação. Compreensível, mas desordenada. Aliás, ela ainda conseguiu ser mais arrogante do que ele. Entretanto, dentro da lógica específica que ele utiliza, que se baseia na observância cega de preceitos religiosos e uma leitura enviesada de textos “sagrados”, seus argumentos fazem sentido. Minha pergunta é: como pode alguém ser condenado por desenvolver, disseminar ou abraçar uma crença, por mais estranha que possa parecer? Como pode alguém ser perseguido por acreditar que determinado comportamento, seja qual for, é deletério, baseado tão somente na sua fé? Como coibir uma visão discriminatória do mundo, que – mesmo que não estimule a violência – estabelece que determinadas condutas humanas são pecaminosas?

Tenho uma amigo meu que criou uma teleologia na qual a figura do anticristo (ou demônio) assume um papel preponderante, alinhado com as doutrinas dualistas contemporâneas. Mais além de ressaltar a figura de Satanás ele afirma que o anticristo já teria nascido (ou reencarnado) e que escolheu a Argentina como país de nascença. Nosso vizinho do Prata seria a base de ação de sua doutrina e onde ocorreria a disseminação de seu anti-evangelho. Meu amigo não apresenta nenhum dado coerente para justificar essa crença, apenas sua fé cega nos “sinais” que captou do infinito cósmico. Criou, por sobre essa crença básica, uma série de entrelaçamentos fáticos que se correlacionam uns com os outros, fazendo sentido e lhe oferecendo confiança na correção de seus postulados.

Argumenta por sobre gráficos, coincidências de datas, signos, efemérides, números que se repetem. Se você reconheceu nessa descrição o filme “Uma Mente Brilhante“, meu caro amigo é uma espécie de equivalente tupiniquim do gênio da matemática John Nash. Para quem está dentro daquele sistema lógico, fechado e coerente, tudo faz sentido. Para quem está de fora, trata-se de uma confusão incoerente e inaceitável. Se é possível criticar os postulados, com base em dados, fatos, ciência, observação e análise aprofundada das evidências, eu acredito ser impossível condenar alguém cuja crença o levou a pensar dessa forma. Portanto, não se trata de combater suas ideias, porque para a sua crença as críticas não fazem sentido, já que não levam em consideração sua lógica pessoal, subjetiva, e que se baseia em elementos irracionais.

Minha posição é de que uma crença não é passível de julgamento, pois que é fruto de uma visão pessoal e subjetiva do sujeito que a adota. Para que ela seja combatida, é necessário que ela se solidifique em ação. Desta forma, eu continuo acreditando que a autonomia para pensar de forma bizarra deve ser preservada, desde que respeite os limites estabelecidos pela lei. A liberdade de criar uma visão pessoal para o sentido do universo (se é que ele existe) é muito mais importante do que a correção dessas ideias. Afinal, o que nos parecia bizarro e incoerente até poucas décadas, agora estava sendo defendido apaixonadamente pela loira de olhos azuis…

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Empresários da Intolerância

Eu prefiro ver a emergência de sentimentos discriminatórios nas últimas entrevistas com “pastores” de igrejas evangélicas através de uma análise mais mercadológica. Os tais defensores dessas visões homofóbicas sabem que existe uma parcela minoritária da população que simpatiza com as teses de extrema direita. Os consumidores desse tipo de visão de mundo são frequentemente sexistas e preconceituosos, brancos, moralistas e muitas vezes ligados a uma religião. Fundamentalistas e oportunistas, tentam explicar a sua condição social superior através de uma espécie de “essencialismo”, ao estilo de Calvin Candie em Django Livre, que justifica as diferenças sociais ligadas às raças com explicações genéticas e frenológicas estapafúrdias. Para esse grupo “reacionário” sempre haverá prepostos, “escolhidos” para levar adiante suas ideias. E essa escolha por um “nicho de mercado” está relacionada aos 20 bilhões de reais que verteram para as igrejas brasileiras no ano de 2011. Muito dinheiro para ser dividido entre alguns poucos empresários da fé.

Bolsonaro, militar aposentado e deputado do Rio de Janeiro, é popular por essa mesma razão: ele representa essa parcela minoritária – mas significativa – da população. Os disseminadores das teses da direita falam àqueles que se sentem amedrontados com o surgimento de uma maior liberdade sexual. Quanto mais livre a sexualidade, mas ela é ameaçante à vista de alguns. Enquanto o homossexualismo era a explicação mais fácil, tornado desvio e doença pela oficialidade que redigia o DSM, ele estava restrito aos consultórios médicos. Após a queda do “Muro de Pedra” (Stonewall, boate gay de Nova York que foi invadida pela polícia no início dos anos 70), e a consequente reação do universo homoerótico, o mundo não seria mais o mesmo. Surgia a homossexualidade e os conceitos de “opção” e posteriormente “orientação sexual”.

Mas a liberdade cobra seus preços. Entre eles a “homofobia”, fruto da abertura sexual, exatamente porque a liberdade de expressão é opressiva para aqueles que se julgam ameaçados pela pluralidade de opções. Esses grupos reacionários normalmente atacam o que mais temem, e usam explicações de ordem religiosa (assim como Calvin Candie usou a Genética, em Django Livre, para explicar a escravidão) para levar adiante suas ideias segregacionistas. Minha posição, diante dessa especial visão do problema, é ignorar os arautos da “decência sexual”, não dar publicidade aos seus pressupostos e não difundir suas ideias (que é exatamente o que eles querem quando expõem suas declarações escandalosas). E isso não é omissão, pelo contrário. Trata-se de uma estratégia para manter esses grupos como minoritários, e não permitir que suas ideias grosseiras e discriminatórias se propaguem.

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Paralaxe

Apesar dos avanços democráticos, e da disseminação exponencial de conceitos e visões de mundo, ainda não estamos plenamente preparados para escutar o que o outro tem a dizer. Liberdade de expressão e de pensamento é uma utopia. Acreditamos que temos a verdade e a liberdade como meta, mas basta que pisem nos nossos calos para que viremos feras. Algumas palavras dissonantes de nossas crenças profundas são suficientes para que, em poucos minutos, o mais aberto dos democratas esteja pegando em armas, ou impedindo seu oponente de falar. É duro escutar o que o outro tem a dizer, principalmente quando isso agride crenças arraigadas, que acalentamos de forma muito intensa.

Meu pai sempre me dizia para estar preparado para escutar as pessoas que tinham ideias bastante diferentes da minha. Fui além: construí uma vida inteira de marginalidade, exercitando-me a pensar de forma diversa dos outros. Pensar alternativamente é um exercício, como ir à academia; precisa persistência, e além de tudo força de vontade. E resiliência, sem a qual facilmente mergulhamos no oceano de ideias confortáveis e acalentadoras.

Outra coisa que meu pai dizia: “Pense em algo que acreditas com todo o fervor. Pode ser a visão humanista, a igualdade dos povos e gêneros, a ideia de fraternidade ou a importância das instâncias psíquicas na conformação do sujeito. Pensou? Então agora, relativize-as, critique-as, coloque-as como simples ideias dentro de uma panela gigantesca de pensamentos controversos, com visões ora próximas, ora distantes da sua. Olhe para seus conceitos como elementos relativos, passageiros, frágeis e diáfanos. Está realmente preparado para olhar para suas crenças como figuras tão frágeis? Ou ainda vai precisar tratá-las como dogmas por muito tempo?“

Escutar a voz do outro, sua visão específica do mundo, suas posturas diversas é uma forma muito complexa de gerir a vida. É preciso uma vigilância constante, um exercício brutal de alteridade e um esforço hercúleo de paralaxe. Para olhar o mundo com uma visão abrangente faz-se necessário um cuidado constante com a segurança fugidia que encontramos na dogmatização. Se ela por um lado acalma nossas angústias, oferecendo um caminho unívoco, ao mesmo tempo paralisa nossa natural criatividade. Os pensamentos consensuais muitas vezes produzem o mesmo efeito; se por um lado produzem unidade, por outro refreiam nosso pendor transformador. Construir um mundo mais digno e justo para todos que aqui vivem é tarefa de todos nós. Permitir que as vozes distantes da nossa sejam ouvidas é um ato de coragem. Somente se pudermos enfrentar a razão alheia poderemos ter certeza da correção de nossa rota. Caso contrário, teremos apenas uma visão parcial, pessoal e única, que não poderá ser oferecida aos outros que nos acompanham.

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