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Neimá

É importante não cair na sedução de misturar os dois temas: a pessoa e o jogador Neymar. Existe, sem dúvida, uma espécie de boicote a Neymar protagonizado pela imprensa (em especial o Casagrande), que insiste nas críticas ao comportamento do jogador, menospreza suas conquistas e ressalta de forma insistente os fracassos nas Copas. Essa rejeição também ocorre por uma parte grande da torcida, em especial a esquerda identitária e festeira, que mistura a figura pública com sua performance futebolística. No caso de Neymar, assim como na vida de muitos heróis e ídolos de muitos aspectos da cultura, há uma mistura entre “autor e obra”, mas sabemos o quanto existe de esforço para denegrir a obra de alguns autores quando sua mensagem interessa à burguesia, ao mesmo tempo que “passamos pano” e esquecemos falhas graves de muitas personalidades quando sua exaltação vai no mesmo sentido dos interesses da classe que está no poder. Sabemos do interesse do imperialismo em destruir ídolos e líderes nacionais, exatamente porque eles funcionam como canalizadores de desejos populares, que via de regra não coincidem com aqueles da burguesia. .

Destruir ídolos populares é um projeto colonialista de destruição dos seus heróis nacionais, através de uma iconoclastia que não surge da humanização desses personagens, mas como uma estratégia muito bem elaborada de “desprezo moralista”, com o claro objetivo de fomentar a dominação comandada pelo imperialismo. A perseguição injusta e covarde contra Lula é o exemplo mais simples e fácil para entender o quanto as grandes potências, interessadas na subserviência nacional, apostam nesta perseguição.

Porém, mesmo sabendo que existe interesse de alguns em atacar aspectos da personalidade Neymar Júnior, ainda acho que é apressado tratá-lo como o melhor jogador de futebol do mundo, acima de Cristiano Ronaldo, Messi, Modric, Lewandowski, Benzema, etc. Acho um exagero, uma “pachecada”, e não o vejo nessa posição. Ele é top 10, por certo, mas não me parece ter atingido o posto de melhor do mundo. Todavia, como dito acima, pode se tornar caso destrua nessa Copa. Messi, ao que tudo indica (escrevo essas palavras logo após a desastrosa estreia da Argentina para a Arábia Saudita), vai fracassar de novo.

Torço por Neymar e pela seleção, e não vou me deixar seduzir pela campanha de desprezo que alguns fazem contra nosso produto mais famoso e valioso.

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Adiós, Pablo

Mais do que um cantor cubano de músicas românticas e com sonoridades magníficas, Pablo Milanés era um artista de raro talento e múltiplas facetas. Pablo nasceu em 24 de fevereiro de 1943 em Bayamo, capital da província de Granma, uma das maiores cidades da região do Oriente da ilha. Pablo era filho de um soldado chamado Ángel Milanés e sua mãe, uma costureira na cidade, se chamava Conchita Arias.

Diz-se que sua mãe exigiu que a família se mudasse para Havana para que Pablo tivesse mais oportunidade de estudo, e a partir daí passou a frequentar o conservatório de música. A década de 1950 do século passado foi considerada por muitos como a fase de ouro da música cubana, com grandes músicos e intérpretes despontando inclusive na cena artística dos Estados Unidos. Nesta sua ida para Havana ele aprendeu piano com os grandes artistas da época, explorando harmonias e tonalidades que marcaram seu estilo musical.

Com a chegada dos grupos rebeldes, liderados por Fidel Castro, e com a subsequente queda do ditador Fulgêncio Batista em 1959, um movimento cultural e nacionalista floresceu, calcado nas ideias do nascente socialismo que se enraizava no povo cubano. Surge aí o movimento “Nova Trova“, criado por Pablo juntamente com baluartes da música cubana como Silvio Rodriguez e Noel Nicola. Pablo Milanés foi casado cinco vezes e foi em homenagem à sua segunda esposa, Yolanda Benet, sua música mais famosa, a qual compôs e que rodou o mundo em inúmeras versões. Também dedicou “Cuando tú no estás” à sua última esposa, a espanhola Nancy Pérez, com quem viveu na Espanha desde 2004.

A reputação de Pablo Milanés cresceu como um dos pioneiros desta novo movimento artístico, uma corrente profundamente associada à crescente onda de libertação na América Latina. Uma das marcas deste movimento foi sua temática anti imperialista, que criticava a política dos Estados Unidos em relação à América Latina.

Pablo Milanés, por fim, teve um desacerto com seu amigo Silvio Rodriguez (foto) em especial por declarações que Silvio considerou “grosseiras e implacáveis”, e “sem o menor compromisso com o afeto”, isso no ano de 2011, quando Pablo já estava vivendo fora de Cuba.

Hoje, 22 de novembro de 2022 – o dia do músico – morreu Pablo Milanés devido a problemas hematológicos, dos quais sofria há muitos anos. Desde 2017 mudou-se para Madri na Espanha para poder tratar melhor de sua doença. Hoje, aqui no Brasil, muitos dos que acompanharam sua carreira estão cantarolando mentalmente a belíssima canção “Yolanda” para homenageá-lo. Eu, entretanto, só consigo pensar em “Canción por la Unidad Latinoamericana“, que aparece nas vozes de Milton e Chico Buarque no espetacular disco “Clube da Esquina 2” de Milton Nascimento. Esta é a música que nos mostra um Pablo Milanés apaixonado pela visão anti imperialista, a qual buscava a unificação de todos os países da América Central, Sul e Caribe.

Na juventude eu costumava declamar os versos dessa canção só para me exibir, pois ela nos conclama para algo que as esquerdas sempre levaram como bandeira: a unidade dos povos da América para se contrapor ao imperialismo brutal, cruel, desumano e destrutivo aplicado a todos nós pelas nações do norte. É uma música que canta a esperança de um porvir de solidariedade entre os povos, exaltando a proximidade cultural que nos conecta – na religião, na cor, na música, nos costumes e no passado de lutas e exploração – e deixando claro que nossas diferenças são artificiais, construídas pelos colonizadores que exploram nossos povos.

Naquela época nós cantávamos a versão de Chico Buarque, que não tinha na letra os heróis da libertação que constam na versão original de Pablo Milanés, provavelmente porque a ditadura militar jamais permitiria a inclusão de personagens tão odiados pelas classes burguesas, cuja memória e evocação trazem pavor a todos os opressores. Deixo aqui, então, a letra que ele escreveu com a homenagem merecida a Bolívar, Martí y Fidel, grandes heróis da luta pela unidade das Américas, na busca pela liberdade, pela autonomia e em direção ao socialismo.

“…Lo pagará la unidad
De los pueblos en cuestión
Y al que niegue esa razón
La Historia condenará
La historia lleva su carro
y a muchos los montará
Por encima pasará
De aquel que quiera negarlo
Bolívar lanzó una estrella
que junto a Martí brilló
Fidel la dignificó
Para andar por estas tierras
Bolívar lanzó una estrella
que junto a Martí brilló
Fidel la dignificó
Para andar por estas tierras.”

Gracias Pablito, por tus sueños, tu alegria, tu passion e tu verdad!!!

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Ludopédio

O futebol, além dos seus elementos estéticos e anticapitalistas (como disse Túlio Ceci Villaça), mais um fator importante, que eu poderia chamar de decisivo para que seja considerado o rei dos esportes: seu caráter democrático, que inexiste no basquete, no vôlei e até no tênis: você pode ser um gênio da bola e ter apenas 1.70m de altura, como Pelé, Maradona, Messi e Romário. Também dois pares de Havaianas já fazem um campo, ou mesmo se pode armar uma cancha em lugares improváveis, como o famoso jogo improvisado entre alemães e ingleses na trégua das batalhas da 2a Guerra Mundial. Por certo que isso seria muito pouco provável nos outros esportes, com suas redes e cestas nas alturas.

Em todos os outros esportes com bola a qualidade superior dos poucos atletas em quadra fará o resultado na maioria das vezes. As zebras são muito mais raras. Já no futebol o medíocre por vezes ganha do excelente e, exatamente por isso, faz história. O “maracanaço“, nosso mais amargo insucesso, foi a derrota para um time tecnicamente inferior, mas com uma garra e determinação invejáveis, elementos “mágicos” do futebol. Nossa derrota ofereceu ao Uruguai o mito fundador de uma escola inacreditável de craques, impossível de imaginar para um país que não é maior do que alguns poucos bairros da cidade de São Paulo.

E paro por aqui para não falar da “Batalha dos Aflitos”, o acontecimento mais épico da história do futebol. Só este esporte é capaz de tamanha magia…

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Mérito

Vejam bem… as mesadas do meu pai, todas juntas, dos 12 aos 20 anos, seriam capazes de comprar apenas uma passagem de avião para o nordeste, desde que eu jamais gastasse um tostão sequer em um cachorro quente, um ingresso para o cinema, uma calça Topeka, um kichute, uma camisa da Gang ou uns discos do Emerson, Lake & Palmer.

Pois eu vi agora no Facebook a história de um jovem empreendedor que durante anos guardou a mesada de seu pai, e cujas “sobras” foram suficientes pra comprar um apartamento (!!!) e depois abrir sua primeira “startup”. Quando li isso acompanhado da sua conclusão – “só não é rico quem não quer” – percebi que ele não pode estar usando o mesmo conceito de “mérito” que eu acredito ser justo.

Essas histórias de gente muito rica que tem inteligência econômica para ficar mais rico ainda servem apenas como ironia, ao estilo “ela é minha sobrinha, mas a promovi porque é muito capaz”. Ou a famosa história da Bettina da Empiricus, que depois soubemos se tratar de uma fábula inverídica sobre “começar do zero”. Ignorar o fosso existente entre as castas brasileiras, e as oportunidades completamente diversas que são oferecidas a cada uma delas, é não se dar conta da enorme iniquidade que nos caracteriza e que nos separa, neste apartheid social que nos formou.

A verdade é que existe, sim, meritocracia para os milionários e até entre os abastados da classe média. Há ricos que não se mantém assim, enquanto há outros que multiplicam sua fortuna através de trabalho e talento. Não há como negar estes fatos. Todavia, essa é uma comparação que só se torna possível entre eles, e não quando os comparamos com a imensa maioria do povo que os sustenta.

Os ricos podem fracassar em vários empreendimentos que sempre haverá de onde tirar mais; o contrário acontece com os pobres que desejam vencer. O melhor exemplo para essa realidade é George Bush Filho, que era alcoolista, usuário de drogas, mau aluno e que jamais teve um emprego até os 40 anos, quando então se tornou o novo mandatário do país mais poderoso do mundo por ser filho de um ex presidente. Por muitas vezes ele pôde errar, fazer más escolhas, desistir, errar de novo, fracassar, afundar-se no vício e ainda assim sua classe social o acolhia e lhe oferecia uma nova oportunidade.

Já o pobre, se quiser ser rico, não pode errar jamais; o cavalo passa encilhado uma única vez. Ele só tem uma bala no cartucho, e não há nova chance caso venha a falhar. Seu tiro precisa ser certeiro e único, ao contrário dos ricos burgueses que podem errar indefinidamente até acertarem – para então, quando finalmente têm sucesso, nos dizerem que chegaram lá por “méritos próprios”.

Não, definitivamente as condições iniciais são muito diversas para que o esforço do pobre e aquele que se exige dos ricos possa ser emparelhado e comparado.

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Perseguições

Vamos deixar uma coisa bem clara: Janja incomoda porque é a mulher do Lula, e não porque é uma “mulher livre”. Janja não será objeto de ódio porque “namora”, porque “transa”, ou porque está feliz e bem casada. Isso, inclusive, é tão sexista quanto falar das mulheres “mal amadas”, ou daquela que “está feliz porque transou”. Mulheres merecem ser tratadas com mais respeito: a vida delas não circula somente em torno da sua vida sexual. Minha mulher é livre, mas ninguém a ataca, e a razão disso é porque o marido dela é um pé rapado. As mulheres dos poderosos sofrem, e isso ocorre em qualquer lugar.

A mulher do Temer, “recatada e do lar”, foi muito atacada. Foi tratada como a “vitrine do atraso” das conquistas feministas. Foi chamada – sem dó – de interesseira por ter se casado com um idoso. A mulher do Bolsonaro foi bombardeada sem nenhuma pena, tratada por todos como a “Micheque“. Não havia uma semana sem um bombardeio, envolvendo sua religião, seu fanatismo, seu oportunismo evangélico, a respeito de Queiroz (e o tal cheque que lhe deu o apelido) e sua família com ficha corrida. Agora surgiu a suspeita, sem provas, de que ela apanha do marido, que ainda vai dar muito o que falar.

Dizer que Janja é atacada porque é “livre” não explica nada, apenas reforça o mito de que os homens “morrem de medo” das mulheres livres. Homens tem tanto medo de mulheres livres quanto as mulheres tem rejeição aos homens sensíveis e delicados. Estas figuras fogem dos modelos arcaicos da organização patriarcal, mas não estamos mais na idade média. O mundo mudou, e apenas uma minoria hoje em dia aceita se submeter a estes medos e estas rejeições.

Uma prova inquestionável é o que aconteceu com Dilma. Poucos mandatários foram tão atacados quanto ela, mas ela não tinha parceiro(a). Era solteira e não namorava – ao menos de forma explícita e pública. E também não acredito que Dilma ou Janja foram atacadas por serem mulheres. Elas foram e serão agredidas incansavelmente por se contraporem aos interesses da burguesia e do imperialismo e por estarem ligadas ao PT. Serem mulheres apenas acrescenta, mas por certo que não é o fator preponderante dos ataques. Existe muito mais no embate político do que esse machismo tacanho que algumas jornalistas tentam impor como narrativa preponderante. Sem dúvida ele existe, mas não com a importância que tentam apresentar.

Janja será inevitavelmente atacada por ser a mulher do presidente da República. Pior ainda, por ser um presidente de esquerda, assim como Dona Marisa o foi anteriormente, com todas as mentiras, falsidades, dinheiro da Avon, conta milionária e os múltiplos ataques que recebeu – que, ao meu ver, a levaram à morte prematura. Será alvo dos insatisfeitos e dos perversos como todas foram, e isso não acontece apenas aqui…. vide Trump e sua mulher Melania. Este é o preço da notoriedade.

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Match

Na adolescência eu sempre perguntava aos meus amigos gays como eles sabiam que outro sujeito era gay. Eles caiam na gargalhada com a minha pergunta ingênua e tola, e a resposta que me davam era… “pelo olhar“, o que hoje se chama “gaydar“.

O que eles tentavam me dizer é que o desejo do sujeito transparecia nas fissuras do discurso, nos detalhes, nos mínimos gestos, nas sugestões, nos sorrisos, na escolha das palavras e nos silêncios. Tudo o que levamos para fora de nós mesmos é mensagem, inclusive a roupa – ou mesmo a falta estratégica de tecido a desvelar os corpos.

Mas se os amores se encontram pelos sinais não-verbais, também as patologias fazem match…

Não haveria como ser diferente. Da mesma forma, os psicopatas se comunicam por estes detalhes minúsculos e imperceptíveis aos olhos desarmados. Na juventude eu me impressionava com as histórias de Bonnie & Clyde, e tantos outros casais unidos pelo crime. Algumas duplas eram capazes de perversidades impensáveis, que conjugavam tortura, morte e obsessões sexuais. Na época eu pensava: como estes perversos conseguiram se encontrar? Como acharam suas almas gêmeas sem expor publicamente suas paixões criminosas?

Se os amantes conseguem se encontrar pelo desejo, buscando sinalizadores nas filigranas do comportamento, também as mais bizarras perversões saem à tona por estes meios. O desejo não se contém nos limites do corpo e poreja através de cada detalhe, cada frase, cada pausa no discurso. Se o humano precisasse da linguagem articulada para se expressar ainda estaríamos na floresta, morando nas árvores. Somente há poucos milênios usamos as palavras para enviar mensagens, mas nossa história com as formas mais sutis de comunicação já tem alguns milhões de anos.

Por isso é que nós humanos – em especial as mulheres, mas essa é outra questão – desenvolvemos as habilidades de ler o outro através dos sinais enviados de forma velada e codificada. Estas são, por certo, as mais importantes ferramentas do nosso lento processo evolutivo.

(Após uma provocação de Maury Braga Gutierrez)

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Bob Justus

Escutei apenas alguns flashes da entrevista do Roberto Justus para o programa “Flow” e me surpreendi (não deveria) com a quantidade de tolices que ele disse. Sobre Lula, sobre Bolsonaro, sobre o mito dos “ministros técnicos”, sobre a “culpa” de Lula, sobre o governo e sobre o país. O fato de ser milionário e bem relacionado não garante a ninguém a capacidade de enxergar o país acima das perspectivas de seu grupo. Ele é um representante legítimo do que existe de mais atrasado, mesquinho e medíocre nas classes abastadas do Brasil

Entretanto, é forçoso reconhecer que ele, ao contrário de uma parte majoritária da população brasileira, sabe a classe à qual pertence. Ele percebe com precisão que as falas do Lula em direção ao povo mais pobre e no combate à fome, atingem sua classe, o poder e a hegemonia tão arduamente conquistadas pela burguesia. Ele entende que se Lula fizer uma guinada à esquerda – como muitos de nós desejamos – os financistas, os rentistas e a burguesia calhorda desse país serão afetados. Roberto Justus – um troglodita com ternos caros e botox – tem a consciência de classe que eu exijo do proletariado e das classes trabalhadoras.

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Privacidade

Gal Costa era casada com Wilma, e com ela tinha um filho. Entretanto, negava-se a falar publicamente sobre o assunto. Apesar de ser algo de conhecimento popular, ela nunca “saiu do armário” publicamente, declarando-se abertamente homossexual. Algumas pessoas chamaram sua atitude de “auto preconceito”, típica de alguém que não se aceitava. Outros elogiaram o sigilo, exaltando a importância da inviolabilidade da vida privada.

Esse diagnóstico é arriscado. Não há como saber o que exatamente a fez manter privada sua orientação. Pode ter sido por vergonha, assim como pode ter sido motivada por pudor. Ahhh, o pudor, o mais belo (e raro) dos atributos em uma sociedade saturada de hiper exposição.

Talvez a escolha por manter fechado esse aspecto de sua vida seja a simples postura de valorizar sua arte e não permitir que sua sexualidade ocupasse mais as manchetes do que o seu cantar. Muitas mulheres voluptuosamente bonitas se sentem constrangidas ao notar que sua beleza ofusca seus outros talentos, escondidos atrás de uma formosura estonteante. Alguns atores e atrizes ficam até feios de propósito com o objetivo de demonstrar virtudes para além da beleza, como o fizeram magistralmente Tom Cruise em “Trovão Tropical”, Charlize Theron em “Monsters”, Jared Leto em “Capítulo 27” e Christian Bale em “O Maquinista”. Talvez Gal desejasse que sua música fosse a razão única para ser admirada.

A tese que mais me seduz é de que ela pode ter tentado tão somente proteger seu amor, que seria um alvo fácil da imprensa de escândalos. Manter incógnito seu afeto pode ter o objetivo singelo de garantir que sua parceira não seria perseguida, constrangida e invadida pelas hordas de gente interessada em puro voyeurismo de celebridades.

Não há como saber o que realmente leva as pessoas a esconder uma parte tão significativa de suas vidas. Além disso, não há como agradar um público sedento por identificações. O julgamento destas atitudes vai depender sempre de elementos afetivos. Se você não gosta da pessoa vai dizer que ela foi covarde e que a exposição de sua vida amorosa ajudaria outras pessoas a não sentirem vergonha de amarem igualmente desta forma “especial”. Já se você a admira, vai preferir acreditar que todos temos o direito sagrado à privacidade, e que o exercício deste direito por parte dela demonstra o valor que dá à sua arte, impedindo que seja eclipsada pela imprensa que sobrevive de fofocas.

Como sou um sujeito reservado, entendo perfeitamente o silêncio de Gal Costa. Responderia da mesma forma a qualquer intromissão que julgasse indevida. “Não estou vendendo exposições da minha privacidade. Ofereço minha arte e minha emoção. Caso não a queiram, não me peçam um escândalo em troca”, seriam minhas palavras. E acho que foi exatamente o que Gal tentou dizer….

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Pornografia

A palavra é composta de “pornos” (prostituta) e “graphô” (escrever gravar). Acho interessante esta origem, porque remete ao comércio do sexo, mas que agora é o comércio das expressões auditivas e visuais do sexo. Ou seja, da materialidade para a virtualidade.

Muitas vezes encontro na internet postagens que condenam a pornografia, dizendo que ela na verdade “perverte” a sexualidade “natural”, ou “normal”, por sua agressividade, seu culto à performance e, mais ainda, por relegar às mulheres um papel secundário e submisso. Sempre achei esse debate fascinante porque nos obriga a pensar nos limites da fantasia e da própria expressão sexual dos humanos. Aqui caberia uma discussão de 3 mil páginas sobre o que é “sexualidade normal” (para quem?), “sexualidade natural” (não há nada de natural no sexo e no parto) e sobre “fantasia e realidade”. Um homem masculino, vigoroso, forte, poderoso pode ter a fantasia sexual de se vestir de mulher e ser passivo e dócil em suas relações, sem que isso implique ser submisso na sua vida cotidiana, certo Sr. Hoover?

Um livro que li na juventude me chamou muito à atenção sobre o tema. Já no prefácio de “O Erotismo” de um psicólogo italiano chamado Francesco Alberoni, ele nos convoca a debruçar sobre o fenômeno da pornografia. Ele chamava a atenção para as bancas de revista onde, de um lado se escondia a “pornografia masculina”, com suas capas veladas, dentro de plásticos invioláveis, contendo a expressão crua do ato sexual ou, ao menos, mulheres exuberantes com pouca ou nenhuma cobertura além da pele aveludada e sedosa que as cobria. Eram o sonho dos garotos adolescentes, extasiados com a magia do sexo que ainda desconheciam. Todavia, na frente das bancas, sem nenhum pudor ou invólucro a lhe cobrir a capa, estavam as revistas de “pornografia feminina”. Sim, lado a lado, com capas cor-de-rosa ou azul claro, estavam as revistas Júlia, Sabrina e revistas “pornográficas” como “Sétimo Céu”, com suas fotonovelas românticas.

Para este autor, a pornografia se expressava de maneira diversa entre os homens e as mulheres tanto por razões essenciais (aqui Freud poderia nos ensinar muito) e também culturais. Para ele, descartadas quaisquer avaliações de caráter moral – e afastando as questões sociológicas ligadas à indústria da pornografia – ambas tinham o mesmo valor, e se ligavam aos desejos mais profundos e constitutivos dos sujeitos. Não há pornografia “suja” e “limpa”, “moral”ou “imoral”, mas apenas variações relacionadas aos conteúdos fantasmáticos de cada um.

Desta forma, causa estranheza falar de homens “destruídos” pela pornografia, como vejo em tantos lugares, como se a pornografia pudesse – por si só – destruir a sexualidade de um sujeito, condicionando-o às suas práticas espetaculosas, performáticas e agressivas. Da mesma forma poderíamos dizer que é muito pouco provável que o consumo de pornografia feminina seria capaz de “destruir” as relações afetivas e amorosas de mulheres, fazendo com que o “fetiche” do amor romântico destrua sua capacidade de se relacionar livre e prazerosamente com seus parceiros.

De maneira geral, pornografia é consequência, não causa. Colocar a pornografia com causadora dos distúrbios da sexualidade de alguém é culpar o suor pelo cansaço. O que leva o sujeito a procurar pornografia está imbricado na estrutura constitutiva do próprio sujeito. Não se trata de um “mau hábito”, mas de uma fixação em elementos psíquicos muito precoces que o estruturam.

Combater a pornografia é tão pouco efetivo quanto eram as campanhas contra a masturbação nos anos 50. Também teria tão pouco efeito quanto a falida guerra contra as drogas, porque sempre partimos da crença de que a droga é a “causa”, quando em verdade é o resultado do desajuste social do sujeito. Nesse caso o proibicionismo tem o mesmo efeito da “lei seca”. Elimina-se a manifestação do desequilíbrio, não sua causa, e com isso o sujeito se obriga a burlar a proibição ou procurar outra solução igualmente aditiva.

Mais uma vez repito: não estou me referindo à “indústria da pornografia”, que é um debate totalmente diferente, e que inclui, por certo, questões como bandidagem, opressão, tráfico de pessoas, exploração, drogas, máfia, etc. Não me aventuro a debater as questões sociológicas que estão relacionadas a esta indústria, mas tão somente aos elementos psíquicos e subjetivos. Falo apenas da excitação produzida por imagens, que não me parece que possa ser combatida por campanhas. Pessoas que procuram na pornografia satisfação devem encontrar dentro de si as respostas para esta dependência, que as faz buscar na pletora de imagens e cenas a satisfação de seus desejos. Tratar o resultado disso como o mal em si é um erro.

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Distopias

Tomei contato com um debate interessante, que passa por Blade Runner, Matrix, O Exterminador do Futuro, O Dia Depois de Amanhã e Star Wars, entre outros: por que nossa literatura e nosso cinema insistem em desenhar futuros distópicos, desesperançosos, lúgubres, tristes e dramáticos? Por que não nos oferecem possibilidades para imaginar utopias ao estilo de Gene Roddenberry, que concebeu Jornada nas Estrelas a partir de uma perspectiva essencialmente otimista do futuro? Para ele a solução dos conflitos e do egoísmo na Terra nos levaria a conquistar o Espaço, a “Última Fronteira”, já que, em nosso planeta, estas barreiras já teriam sido derrubadas.

Minha amiga antropóloga Robbie Davis-Floyd (uma Trekker) me contava que a ideia de Roddenberry se baseava em uma proposta inovadora: a solução dos problemas do planeta estava no fim do consumismo (e com ele a sociedade de classes). Entretanto, esta revolução não viria pela escassez dos recursos finitos do planeta e a consequente convulsão social, mas através da tecnologia. Máquinas de recombinação molecular fariam com que fosse possível criar facilmente qualquer “coisa”, qualquer objeto, a partir de seus componentes básicos. Assim, ao simples apertar de um botão poderíamos criar um Stradivarius do século XVII, ou um Porsche 911 GT3, com o mesmo custo de um pacote de bananas, apenas recombinando matéria. Com isso as coisas – pela facilidade absoluta de aquisição – perderiam o valor, e a verdadeira riqueza (e o poder dela derivado) se tornaria o conhecimento.

Desta forma, resolvidos os problemas na Terra, a Enterprise partia da Terra para resolver os dramas do Universo. Todavia, Star Trek é uma exceção entre os filmes de ficção científica. Estes, quase sempre, mostram mundos degradados, destroçados, gelados e onde a luta é pela dura e heroica sobrevivência dos poucos remanescentes. Por que insistimos em apostar em um futuro de horror e perdição?

Acho que a resposta é até simples: não mostramos futuros bons e perfeitos no cinema porque eles não vendem, da mesma forma que as novelas só apresentam ao público partos dramáticos, cheios de correria, angústia, dor, sangue e drama, e jamais apresentam nascimentos tranquilos, domiciliares, rápidos e cercados de paz. Essa felicidade e esse bem estar não vendem, não nos mobilizam. A bem da verdade, nem Star Trek mostra isso; apenas aceita que resolvemos as diferenças na Terra, mas na distância do cosmos imperam ainda o egoísmo e a violência; e é lá que as tramas se desenrolam.

Experimente aparecer em um estúdio de Hollywood dizendo: “Quero apresentar um projeto de filme que se passa em 2222. Nesta época da humanidade tudo dá certo, ninguém explora ninguém, não há crimes e sequer temos roubos. O marxismo venceu, a fraternidade impera, somos irmãos de todos, há equidade entre pessoas e povos, exterminamos a violência bruta e não há barreiras ou bordas. Não há sentido para as guerras, etc…” John Lennon na veia, “imagine all the people”

A resposta dos diretores seria: “Desculpe, no seu filme não há diversão alguma, não há conflito e, portanto, não há solução que se possa imaginar. Seu mundo é como uma montanha russa em linha reta, sem quedas, sem sustos e sem pânico. Entretanto, somos movidos por essas emoções. Sem o pavor despertado pelas distopias a vida se torna insuportável; elas são o bode colocado na sala da realidade“.

A má notícia é que não há possibilidade de aguardarmos uma revolução tecnológica como a que ocorreu na fantasia de Jornada nas Estrelas para acabarmos com a sociedade de classes. Muito antes que seja possível recombinar átomos para criar a matéria que compões os objetos os recursos do planeta estarão escassos, os conflitos se multiplicarão e a tensão entre a diminuta classe burguesa e as multidões de operários, trabalhadores, miseráveis e famintos fará o mundo ascender a um modelo político e econômico superior. Gene Roddenberry por certo sonhou com uma fantasia de tecnologia redentora, mas a realidade material não suportará que o desnível criado pelo capitalismo continue até que ela seja realidade. O socialismo virá muito antes da Enterprise, do capitão Kirk e do Dr. Spock.

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