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Presentes

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Como estão vocês nesse corre-corre de fim de ano para comprar presentes para as crianças, filhos, netos, país, sobrinhos, cunhadas, irmãos, amigo-secreto, amigos, sogra, ufa…. Muito stress?

Eu, não…

Há mais de 30 anos que não compro nenhum presente de Natal. É verdade que também não ganho, mas o saldo me parece absolutamente positivo. Na minha família não há nenhuma vinculação das festas com comércio. Nem “lembrancinhas”. Nada. Nada para as crianças, nada de surpresas de Natal; nenhum pacote embaixo da árvore; nenhuma compra, nenhuma prestação, nenhuma angústia.

Não se trata de uma prescrição de “como deve ser”, apenas a confissão de alguém que fez diferente da maioria. Preferi transformar estas festas no que elas têm de especial: reencontro, abraços, conversas, família, retratos, sem concessões capitalistas. Não me arrependo.

Percebi que meus filhos nunca se traumatizaram com isso, até porque nada me impede de dar um presente quando quiser. Posso presentear minha mulher ou minha filha por passar na frente de uma loja e lembrar de algo que disseram ou que desejavam. Entretanto, não preciso usar estas festas para uma busca angustiante por presentes, subvertendo sua origem de comunhão e busca por congraçamento.

Para lidar com a pressao dos filhos e da sociedade expliquei que o Natal não era feito pra isso. Eles não engoliram, mas aceitaram. Falei que eles não precisam tanto de “cargo”, de coisas, e que eu compraria quando achasse possível ou achasse adequado.

Mas… vejam bem. Não havia a radicalidade de nunca comprar coisas para as crianças ou familiares, apenas a ideia de DESVINCULAR essas coisas do Natal.

Há um outro detalhe, que sempre me fez pensar a respeito dos presentes. Tenho uma amiga que dá muitos presentes para os netos, até de forma exagerada. Um dia eu lhe disse “Olhe bem, ele não precisava disso, e essas coisas estragam em uma semana!!“. Ela me respondeu fazendo uma cara de criança: “Mas tinhas que ver a cara dele quando abriu o presente. Ele me abraçou e disse ‘Eu te amo vovó’. Ninguém resiste, né?”

Sim, ninguém resiste. Nesse momento me dei conta que não era a criança que recebia o presente; era ela. O objeto era usado, inconscientemente, para comprar aquele momento irresistível de amor, comprimido em um abraço e uma frase. O presente não é o que a gente vê; ele tem uma dinâmica enganosa e dissimulada, e a sua pior face é usar uma criança para suprir nossa carência de amor. Compramos, por alguns vinténs, um carinho e um beijo.

Não me parece justo que as crianças paguem por isso. Aliás, o presente em si, sua matéria, é o que menos importa. O gozo não está nele, mas esperar por ele, e por isso mesmo perde o valor tão logo alguns minutos se passam depois da explosão inicial de prazer. Ali, no vazio deixado pelo brinquedo ou pelo vestido novo, surge de novo a angústia pela repetição do gesto, angústia essa que presente algum poderá jamais saciar.

Olhando o Natal se aproximar penso apenas que ainda terei alguns natais com a família toda reunida, e que esta é a única surpresa de fim de ano que vale a pena aproveitar

Estar presente, ao invés de dar presentes.
Para ler outra crônica sobre o mesmo tema veja aqui

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Solidão

Vejo o sexo como a ação humana mais solitária que existe. O sexo funciona como uma partida de tênis em que os jogadores não tem uma rede entre si, mas uma parede. Jogam sozinhos usando as forças que imprimem nos braços e na bola, orientados pelo que escutam do parceiro que joga no outro lado do muro. Eles parecem estar jogando uma partida entre si, mas em verdade estão solitários, com sua própria bolinha e raquete, dependendo exclusivamente dos ruídos que escutam e da forma, força e direção que imprimem ao seu próprio jogo.

Entretanto, se é verdade que o jogo pode ser jogado sozinho e ainda assim ser prazeroso, mesmo sem se escutar as jogadas do companheiro atrás do muro, também é certo que ouvir a miraculosa sincronia das nossas raquetadas sendo respondidas pelo outro nos oportuniza uma sensação única de comunhão, e não é por outra razão que “até o padre eterno, que nunca foi lá, olhando aquele inferno vai abençoar”.

“Sexo é algo que fazemos sozinhos na companhia de outra pessoa”. É de Freud a frase “A relação sexual é impossível”, pois é impossível compartilhar o mesmo fantasma. Assim, devemos nos satisfazer com a ideia de que a companhia e o amor podem nos ajudar a tornar a nossa vida sexual mais prazerosa, mesmo reconhecendo que ela é feita da mais pura solidão.

O gozo solitário pode, sem dúvida, nos satisfazer. A ausência do outro, a falta da maravilhosa sinfonia de bolinhas batendo no muro, ainda assim pode nos dar prazer, em especial pelo fato de que o outro sempre nos desafia e questiona. Lidar com a dor e o prazer alheios é um passo em direção à maturidade emocional, e isso nunca é feito sem que um preço seja pago. Este preço, para alguns, é alto demais.

A diferença está na singularidade dos sujeitos e suas respostas infinitas. Uma boneca inflável ou um vibrador apenas materializam a fantasia que carregamos e da qual somos inteiramente responsáveis. Já o outro, o resto que acompanha os genitais, este tem sua própria dinâmica fantasmática, que nos obriga a entender e respeitar. Porém, isso demanda um esforço que nem sempre desejamos despender.

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Pets


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Eu escrevi há algum tempo um artigo controverso falando sobre o que considero uma crueldade moderna: a domesticação de cães e gatos. Mostrei estudos recentes que mostram que os gatos são responsáveis pelo extermínio de aves migratórias e isso se tornou um problema ecológico contemporâneo. Os cães modificados geneticamente, nas múltiplas espécies artificiais que produzimos, passaram a ter câncer, problemas de coluna, cegueira, desproporção cefalopélvica e uma vida mais curta. A isso podemos chamar “amor”? Terminei afirmando que não tenho “amor” pelos animais, porque esse amor eu considero muito estranho, e só se expressa na possibilidade identificatória. Isto é: amamos cães e gatos, mas não os ratos e os porcos, e todos eles são mamíferos. Nem pelos morcegos temos esse nobre sentimento. Baleias e golfinhos, mas não atuns e arraias. Baratas e mosquitos, nem pensar. Falei que nossa propensão a cuidar amorosamente de bichos aconteceu sempre que as civilizações diminuíram drasticamente o número de filhos. Lembra quando o culto aos “pets” era uma “frescura” europeia? Pois lá a diminuição da “prole humana” começou antes.

Os animais escolhidos para serem companhia para os homens e mulheres são sempre aqueles com quem podemos estabelecer um contato empático. Isto é: só servem aqueles que podem, de alguma forma, reproduzir a conduta humana. Gatos, cães, golfinhos, papagaios, etc.

Há pessoas que se ofendem com esse tipo de consideração, mais racional e fria. Porém eu lembro bem do comentário de um veterinário que disse em um programa de rádio: “entendo as inúmeras vantagens que os humanos tem –  em especial os velhos e as crianças – no convívio com os animais. Todavia, tenho sérias dúvidas se os animais tem algum benefício com a nossa presença”.

“Das raças de cães que existem na atualidade, 90% delas foram criadas nos últimos cem anos, e nossa insistência para que os cães atendam nossos padrões arbitrários – estéticos, de força, de aptidão para a guarda e a caça – está fazendo com que fiquem mais doentes e morram mais cedo do que seus ancestrais. O cão médio de raça pura é muito mais frágil que o cachorro comum, o conhecido “virá lata”. 60% dos Golden Retrievers acabarão padecendo de câncer. O “Dog Alemão” é tão grande que seu coração não suporta o peso do próprio corpo. Os Bulldogues, depois de um século de existência, estão com o o nariz tão amassado que mal podem respirar. Além disso, suas cabeças são tão grandes que só podem nascer através de cesariana Todos tem displasia do quadril e a expectativa de vida deles reduziu-se para seis anos”.

Quando eu disse que não tinha “amor” pelos animais – pelo menos não essa devoção antropomórfica que algumas pessoas demonstram – uma veterinária respondeu raivosamente dizendo que eu era uma “pessoa de merda”. Porém, eu comparo os animais domésticos às mulheres do harém. Lindas, charmosas, bem tratadas e bem alimentadas, vivendo do bom e do melhor. Entretanto, cativas. Será que por baixo das aparências de luxo essas mulheres realmente desejariam o cativeiro se a elas fosse oferecida a dádiva da liberdade?

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Acusações

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Eu acredito ser justo que mulheres comentem atendimentos em que se sentiram mal atendidas, lesadas, desrespeitadas etc, inclusive dizendo o nome do profissional quando isso ocorrer em grupos fechados. Por outro lado sou contrário aos linchamento virtuais de profissionais para quem não se dá direito de defesa. Sempre que escuto essas histórias eu digo “é, pode ser, mas gostaria de escutar a outra parte“. Entretanto, nas poucas vezes que isso aconteceu, fiquei impressionado com as diferentes histórias apresentadas quando ambos os lados tem a oportunidade de se expressar .

Um exemplo: Uma apresentadora de TV foi demitida e escreveu uma dura carta acusando os diretores pela sua demissão. Fiquei bravo com eles. Hoje surgiu a versão dos diretores que a demitiram. Fiquei puto com ela. Qual a versão verdadeira?

Toda mãe sabe parir e todo bebê sabe nascer” são tão somente palavras de ordem que fazem sentido no furor do ativismo. Na vida real há problemas, intervenções necessárias, cesarianas e todo tipo de merda possível, que em boa parte das vezes não tem a ver com a violência do profissional, mas com o uso adequado de sua arte para oferecer segurança às mães e aos bebês. Muitas vezes esses pacientes sofrem pela fantasia exagerada que criam sobre seus partos e não por uma real falha do profissional que as atendeu.

Para ser justo é preciso escutar com a razão, e não apenas com o coração.

Entretanto, o que eu afirmo em nada invalida a existência de violência obstétrica, que quanto mais invisível é mais intensa se apresenta. A descrição das pacientes NUNCA deve ser desconsiderada, ao mesmo tempo que não se pode desconsiderar a fala dos profissionais. A experiência nos oferece a oportunidade de entender que um parto não depende apenas dos cuidadores. Eles são uma parte fundamental do processo, mas não podem garantir nenhum resultado. Infelizmente muitas mulheres acreditam que as equipes de atenção humanizada podem solucionar bloqueios de ordem psicológica e emocional, alguns deles com mais de 30 anos de construção.

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Para um pai que nasce

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A paternidade é um mergulho no abismo profundo das perguntas deixadas sem resposta. O fazer-se pai é reconstruir-se a partir das próprias fragilidades; é reencontrar-se na criança que acalentamos, buscando nela a solução para as dúvidas que deixamos para trás. Para além das respostas que perseguimos, tornar-se pai permite a um homem a dádiva do perdão, pois lhe possibilita perdoar o próprio pai nas inexoráveis falhas que a condição humana lhe impôs. Sem a paternidade, e o necessário sofrimento que ela nos obriga percorrer, perdemos esta grande oportunidade, ficando à mercê de vivências outras, fora do escopo de nossa própria experiência de vida. Por sua força e relevância, não há como negar que poucas experiências humanas podem ser mais criativas e potencialmente transformadoras. Depois de 34 anos assistindo partos e nascimentos é impossível não se admirar com o impacto que este evento provoca nos pais que, junto com seus filhos, nascem durante a explosão de emoções que circundam o parto.

Ao mesmo tempo em que produziu notáveis melhorias na sobrevida de mães e bebês, em especial na assistência aos casos de risco, o paradigma tecnocrático de assistência ao nascimento – por sua ênfase na técnica e na intervenção em detrimento do apoio e do cuidado – objetualiza e coisifica as gestantes, encarando-as como bombas-relógio prestes a explodir, tornando-se assim uma das maiores ameaças contemporâneas ao parto normal. O Brasil tornou-se um exemplo internacional de má prática  obstétrica, onde o abuso e o exagero na prática de cesarianas – além de inúmeras outras violências obstétricas – mostram o risco de mantermos a hegemonia deste modelo de assistência. É imperativo que se faça uma crítica severa ao paradigma médico de atenção ao parto normal para não perdermos por completo a conexão com um evento tão importante na construção da condição humana.

“Somos o que somos porque nascemos de maneira bizarra e incomum”. O nascimento humano, único em sua forma e consequências, determina as características especiais que nos distinguem. Da altricialidade de nossos rebentos – a extremada desproteção dos recém nascidos – originada por sua prematuridade neuronal, surge a “estranha anomalia da ordem cósmica, fissura na tessitura biológica e ato falho da obra divina: o amor“. Segundo Freud “se amor existe ele é o sentimento que une uma mãe ao seu bebê, fonte de onde todos os outros amores serão derivados”.

Existe ainda uma outra maneira de exercitar a paternidade de forma desafiadora e criativa: tornar-se pai de uma menina. Dos meninos pensamos tudo saber, tudo entender; afinal eles cursam o  caminho que nossos pés já andaram e nossos olhos já viram; as pedras sobre as quais tropeçam seus delicados pezinhos também estavam lá quando as trilhamos há poucas décadas. Deles queremos que se pareçam conosco, que sigam nossos passos, que torçam pelo mesmo time e que honrem nosso nome. Mas o que podemos esperar delas, que nascem como suas mães, que nos parecem tão estranhas e sempre nos confundem com sua especial visão do mundo?

O nascimento de uma filha nos coloca diante de um desafio duplo: a obrigação de enfrentar as dúvidas e temores da paternidade acrescentados ao desafio de entender o “feminino em botão”, a flor delicada e firme que desabrocha em frente aos nossos olhos atônitos e que nos oferece o ensinamento contundente da diferença. Como cuidar do desenvolvimento de seres que sempre nos pareceram enigmáticas, misteriosas e incompreensíveis? Se por um lado esta tarefa é grandiosa, também o é aterrorizante. Sabemos das marcas que a imagem de um pai produz na construção que essa menina fará de sua própria sexualidade e vida madura. Um pai será a matriz de valores e atitudes por sobre os quais ela vai estabelecer suas parcerias. A paternidade , assim estabelecida, vai impor ao novo pai uma revisão profunda de suas atitudes com relação às mulheres, na  medida em que deixamos de ser sujeitos de nós mesmos e passamos a ser espelhos onde aqueles pequenos olhos sequiosos de aprendizado procuram ensinamentos e exemplos de vida.

Apesar das angústias e do temor diante do gigantismo da tarefa, ainda assim poucas experiências na vida podem se equiparar ao desafio de construir-se pai. As cenas que acompanhei nas ultimas três décadas, onde sisudos homens vertiam lágrimas da mais profunda e genuína emoção ao levarem pela primeira vez seus filhos aos braços, formam um caleidoscópio de imagens que jamais serão apagadas da parede da memória. Ali, na escuridão cálida de uma cena de nascimento, entre sussurros, gemidos, medos e expectativas, se escondem os segredos mais profundos que regem a nossa esperança de imortalidade.

Ricardo Jones

Obstetra

Pai de Lucas e Bebel, avô de Oliver, Henry, Ava, Eric e Inácio. (Theo, in memoriam)

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As dores da Alma

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“Os sofrimentos da alma são os mais avassaladores para o sujeito, e isso não representa um desmerecimento das terríveis dores da carne, mas a compreensão que, por ser imaterial e não passível da anestesia química ou da radicalidade de uma amputação, estes sofrimentos se mantém e martirizam o sujeito no limite absoluto de suas forças. A culpa, o remorso, a falta de sentido na vida, a desesperança e o luto corroem aquilo que faz de nós humanos. Lidar com tais infortúnios demanda paciência, resiliência e – ouso dizer – o auxílio da transcendentalidade. Só o entendimento de que a vida tem propósitos além de nossa compreensão poderá dar àquele que sofre o sopro de esperança e alívio capaz de mitigar a dor que sua alma sente.”

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Freud, sempre ele…

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A frase original é de Sigmund Freud é “O que João diz de Pedro fala mais de João do que de Pedro”.

Essa é uma técnica de análise que sempre achei válida. Nunca peça para alguém descrever a si mesmo, pois somos os piores avaliadores de nossas próprias almas. Todavia, ao descrevemos a outrem, deixamos escapar o que pensamos de nós mesmos, e estas imagens aparecem refletidas no espelho que o próximo nos oferece.

Assim, fuja daqueles que ostentam dedos acusatórios apontados contra tudo e todos; eles, na verdade, apontam para a própria sombra.

Sempre…

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Liberdade, liberdade

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A liberdade sexual das mulheres incomoda – e muito – no sexo e no parto. Incomoda porque TODA a estrutura patriarcal se assenta sobre a dominação e o controle da capacidade reprodutiva. Portanto, não se trata apenas de um sentimento subjetivo de posse sobre o corpo do outro (esse as mulheres também possuem) mas um sentimento cultural, esparso e arraigado de que o corpo da mulher precisa ser controlado para manter a ordem social. Por essa razão a liberdade sexual das mulheres nos incomoda a todos – homens e mulheres – porque desafia o paradigma atual que nos oferece alguma paz momentânea nesta zona de conforto patriarcal.

Quem assistiu o documentário sobre Amanda Knox no Netflix percebeu que, na perspectiva da opinião pública italiana, seu pior crime não foi ser suspeita de um crime bárbaro que vitimou uma menina brutalmente assassinada. Seu crime se tornou imperdoável quando descobriram seu diário na prisão. Nas páginas do diário ela assumia já ter se relacionado com 7 meninos durante toda sua vida de 20 anos. Isso fez a reviravolta da opinião pública. O roubo do diário, e estas revelações, criaram a ideia de uma puta, uma devassa que matou sua colega que se “negou a participar de uma orgia“. O crime de Amanda foi assumir publicamente sua liberdade sexual em uma comunidade conservadora e puritana.

A liberdade sexual de uma mulher abala as bases do patriarcado.

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Sorrisos

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Existem dificuldades inquestionáveis em toda a tentativa de modular nossa ação e nossa fala em função do outro. Como será recebida a mensagem? Por mais que a intenção seja clara em nossa mente a chegada aos olhos e ouvidos alheios dependerá do meio (palavras, gestos, entonação, local, circunstância, etc.) e do universo de signos que dão sentido a quem as escuta e vê.

Por isso mesmo, eu entendo o quanto deve ser difícil para uma mulher controlar o conta-gotas da simpatia para não errar o ponto e oferecer aos outros uma falsa sensação de abertura. Enganam-se, portanto, os que pensam que ao homem cabe o ônus da iniciativa. Não, ela é sempre feminina e, via de regra, não verbal. E é nesse gestual intrincado e sofisticado, elaborado em milhões de anos de aprimoramento, que um sorriso simpático dirigido a uma alma sequiosa de atenção e carinho pode ser confundido com um convite.

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Fetiches

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Fiquei pensando sobre os fetiches e me veio à mente a pergunta é: não temos um preconceito irracional sobre a expressão dos fetiches, desconsiderando sua natureza e aplicando sobre eles valores morais? Poderia um homem que expressa seus fetiches aparentemente bizarros – fazer sexo vestido de mulher, vestido de bebê ou caubói, em lugares exóticos, com múltiplas(os) parceiras(os), etc. – ser criticado, humilhado e censurado pelas sua “escolhas”, a forma como recobre de realidade suas fantasias?

A questão, entretanto é mais complexa. Os fetiches e as fantasias não são escolhas racionais e livres; são emanações do inconsciente e vinculadas aos estratos mais profundos do psiquismo humano. Nenhum sujeito escolhe racionalmente (apesar da expressão do desejo ser racional) ser espancado durante o sexo como forma de gozo, mas estas atitudes expressam significados muito profundos e da ordem do inconsciente.

Todavia, não seria o romantismo uma manifestação fetichista socialmente aceita e valorizada? Essa foi a ideia que algumas amigas mulheres me trouxeram e que eu achei muito interessantes. O romantismo de homens e mulheres é tão fetichista quanto uma orgia ou uma fantasia “bizarra”. O romantismo pode fazer diferença para o(s) parceiro(s), pois que são convidados a participar ou ser cúmplices dele; todavia ele é igual a qualquer outra fantasia para o sujeito que a produz.

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