O próprio fato de levantarem o caso de Pelé com a filha durante o processo de morte do Rei Pelé já é uma amostra do viralatismo e do “racismo que não se contém”, marca registrada da nossa classe média. Como já foi dito por “Isuperio” no Twitter, “Desconsiderar o legado de Pelé pelos seus erros humanos também faz parte do projeto de desumanização das pessoas negras. Não esqueça que estamos em um país que tem estátuas, monumentos e nomes de rua dados a escravagistas, ditadores e estupradores”. Mas um fato fica claro nas manifestações que acusam Pelé nas redes sociais: Tudo que você lê agora na Internet sobre o Edson é pura projeção. Na maioria vem através de mulheres que projetam a indiferença do Pelé com Sandra como se fosse sobre elas. Por isso a imensa maioria das críticas nos chega com uma carga violenta de indignação.
“Ahh, mas só as mulheres podem falar dos dramas do abandono parental”, dizem alguns. Ora, e por que seria assim? Meninos não são igualmente abandonados por pais? E eu, por princípio, não acredito em “lugar de fala” como silenciador de divergências. Os homens e as mulheres podem falar das suas experiências pessoais (com a paternidade, por exemplo) a partir de um lugar privilegiado. Todavia, isso não garante que mulheres possam falar de abandono e homens não; afinal, se o abandono for paterno, os homens também deveriam ter a fala garantida. O que acontece é que 99.9% das pessoas que criticam Pelé o fazem sem saber o que ocorreu, mas também porque projetam sobre esse fato os SEUS traumas. É projeção o tempo todo, e isso torna o debate pouco racional, totalmente dominado por questões emocionais e sujeito às paixões.
Essas pessoas olham para o Pelé e enxergam nele a imagem daqueles homens que os(as) decepcionaram, mesmo que os fatos alegados contra Pelé sejam contestáveis. Além disso, Pelé não pode ser julgado pelo abandono parental que homens (e até mulheres) cometem no Brasil; ele só pode carregar suas culpas, e não a de todos os homens.
Como princípio do direito, as vítimas são sempre os depoimentos menos valorizáveis, porque são contaminados por emoções violentas. Minha tese é de que, a críticas violentas contra Pelé dizem muito mais das pessoas que o acusam (muitas delas vítimas de uma paternidade falha ou ausente) do que da relação de Pelé com Sandra, que chegaram até a se reconciliar, e cujos filhos foram sustentados com a pensão do avô Pelé até hoje.
Muitas pessoas colecionam arrependimentos durante a vida, mas vamos combinar que não é possível atravessar o charco da vida sem embarrar os pés. Eu também tenho a minha lista de erros constrangedores, que poderiam ser organizados em lista alfabética, mas sobre eles eu tenho outro sentimento, igualmente pernicioso: a vergonha.
Sim, eu tenho vergonha principalmente por ter cedido a uma tentação terrível, que muitos sequer reconhecem como um defeito, mas que é tão grande a ponto de destruir potencialidades incontestes: a tentação de agradar.
Sim, tenho vergonha de ter dito certas coisas apenas porque sabia que isso ia agradar meus interlocutores. Fico corado ao lembrar das vezes em que falei determinadas palavras sabendo da satisfação que colheria de quem as escutou. Isso é a melhor definição de “lacração“: a ideia que suas manifestações serão aceitas e bem recebidas não pela verdade que contém, mas pelo efeito emocional que geram nas pessoas que as escutam. No meu tempo a isso se chamava “jogar para a torcida“, uma prática corriqueira entre os políticos, mas que atrasa o crescimento pessoal e coletivo.
Hoje eu me envergonho muito de ter aceito a imposição da opinião alheia, de ter acolhido a pressão do contexto, de não ter falado verdades inconvenientes, de não ter sido mais impopular do que já sou. “Mea culpa, mea maxima culpa”.
Meu pai, quando ficou velho (pelo seu próprio critério subjetivo) costumava dizer algumas verdades dolorosas e depois complementava: “Já tenho X anos; conquistei o direito de ser sincero”. Eu ficava satisfeito de poder ouvir alguém que me dizia coisas pouco agradáveis e que o fazia mesmo sabendo que a recepção não seria das melhores. Isso foi algo que invejei demais e que me fez acreditar na promessa das “benesses da senectude“.
Hoje eu creio que, se algum valor há em envelhecer, talvez este seja alcançar o lugar onde é possível ser fiel a si mesmo.
Quanto mais eu vejo os profissionais de saúde sendo influencers, dando dicas, expondo seu trabalho, prometendo resultados, falando de si mesmos, abusando dos vitupérios e brilhando no cyber universo, mais eu acredito nas virtudes da discrição. Isso não exclui a importância das redes para disseminação de ideias, conceitos e propostas, mas sugere um pouco de comedimento. Este tipo de auto exaltação atrai muita energia negativa. Muitos serão solidários na sua dor, mas quase ninguém suporta o sucesso alheio. Algumas tragédias recentes mostram que eu devo estar certo. Acredito ser extremamente perigoso menos por causa dos pacientes e muito mais porque os colegas e concorrentes não aceitam jamais este tipo de hiperexposição. Aqui neste link é possível ver uma dessas tragédias profissionais.
No Brasil tivemos casos famosos como um ginecologista de São Paulo e um cirurgião plástico do Rio de Janeiro, mas há muitos outros exemplos de profissionais apostando na exposição em redes – como tik tok e Kwai, entre outros – ficando famosos, fazendo dancinhas, brincando inocentemente com colegas, alguns deles ficando até famosos e milionários. O problema é que a mesma mão que afaga é aquela que apedreja, e o “amor” em forma de admiração devotado a estres profissionais depois os faz virar alvo de represálias.
Qualquer pessoa que busca encontrar um amor jamais deve procurar por ele nas pessoas que encontra. O amor está sempre longe das buscas objetivas; ele é o subproduto dos encontros. Em verdade, a melhor estratégia é abrir o coração para o amor, e aguardar que ele aconteça, nas fissuras abertas pelo desejo.
Mary Clearwater, “How to catch a partner and go fishing”. Ed. Cranberry, pág. 135
Meu pai dizia que o que mais o assombrava na humanidade era sua capacidade de adaptação. Ele era um racionalista, um humanista que nutria uma enorme fé no ser humano, sua criatividade, sua incrível maleabilidade e – em especial – sua adaptabilidade. Ele me contou que, quando trabalhava nas centrais elétricas do Rio Grande do Sul – a CEEE – conheceu um engenheiro elétrico, imigrante húngaro, que chegou ao Brasil fugindo dos horrores da segunda guerra mundial. Meu pai o descrevia como um homem fechado, bruto, profundamente anticomunista, marcado por tristezas profundas, ressentimentos e dores da alma. Hoje seria, por certo, um bolsonarista ressentido, se ainda fosse vivo.
Todavia, apesar de se sentir muito distante de sua visão política, meu pai tinha por este sujeito uma profunda admiração, em especial por sua impressionante resiliência. Certa feita, durante um momento de maior descontração, o engenheiro sisudo e calado lhe contou alguns detalhes da sua dramática história na Europa, o que levou meu pai quase às lágrimas. Durante a 2a grande guerra ele havia perdido a mulher e os filhos pequenos, vítimas dos bombardeios alemães em sua cidade. Se isso não fosse o suficiente, viu sua casa ser destruída, e com ela tudo o que possuía. Não lhe sobrou nada, nem recursos ou afetos. A guerra lhe roubou tudo o que havia construído.
Na miséria e sem futuro, colocou seu diploma de engenharia elétrica numa pequena mala junto com as poucas peças de roupa que conseguiu salvar e entrou em um navio que o levasse a para longe. Seu destino era “outro lugar”, qualquer um que fosse distante o suficiente de suas tragédias e do vazio que lhe restou como lembrança.
Sim, Deus é um cara gozador e adora brincadeiras, e na barriga da miséria ele virou brasileiro. Chegou ao sul do Brasil ainda com juventude no corpo, e teve tempo de reconstruir sua história, sua profissão e sua vida. Casou de novo e teve filhos – que hoje devem ser velhos como eu a contar para os netos as histórias tristes do avô na guerra absurda e fratricida da qual participou.
Lembro dessa história sempre que penso nas pequenas e grandes tragédias que se abatem sobre mim – ou sobre todos nós. Creio que, se o velho húngaro foi capaz de refazer sua história movido apenas pela ânsia de viver, agarrado à pulsão de vida como tábua de sobrevivência, por que haveríamos de desistir diante de dores tão menores? Talvez, se lhe fosse perguntado na juventude se suportaria todas estas perdas, diria que “não”, que não haveria como superar a perda da mulher, dos filhos, de suas coisas e até do seu país. Ele, como muitos de nós, não acreditaria em sua capacidade de se reconstruir a partir dos escombros a que foi reduzido. Pois, a despeito de sua própria descrença, foi lá e teimosamente sobreviveu. Mais do que isso; ainda teve a ousadia de ser – ao seu jeito – pleno e feliz.
Meu pai sempre falava deste homem quando desejava apaziguar as dores lancinantes que a vida muitas vezes nos obriga a sofrer. E depois, com um sorriso afável, sempre dizia: “Por pior que pareça, vai passar”.
Vamos combinar que as pessoas não questionam a “ciência”, mas questionam o uso que algumas pessoas fazem dela. Aliás, é da essência da ciência ser questionada, seus fatos analisados e suas conclusões desafiadas. O racismo já foi científico, o geocentrismo também; Talidomida, raios x em grávidas e Vioxx, idem.
Eu prefiro dizer que só os tolos tem “fé na ciência”, e a minha relação com ela sempre foi de justificada desconfiança. A ciência é a busca do conhecimento, mas é uma criação humana e, portanto, imperfeita e enviesada. Dentro do capitalismo os achados da ciência serão sempre tendenciosos, constrangidos pelo poder econômico e, por isso, precisam sofrer de nós uma legítima e sistemática contestação.
Porém, ao dizer isso, não afirmo que a contestação às ciência produzidas se fará pela irracionalidade ou pelo misticismo, mas com mais ciência, resolvendo as falhas que porventura ocorrem nas pesquisas e estudos produzidos com intenções espúrias.
Pelé, Rei do Futebol, magia nos pés, Imperador de ébano, orgulho da raça, maior esportista do século XX, homem negro, pobre, periférico, humilde, garoto de 3 Corações que levou o nome do Brasil para além de todas as fronteiras….
… mas eu entendo a dor de quem não suporta ter um herói negão.
Estamos próximos de perder Pelé mas é inacreditável a quantidade de comentários racista contra ele, inclusive análises morais fajutas baseadas neste tipo especial de racismo escamoteado e envergonhado. Existe uma horda de racistinhas identitárias e ferozes que contaminam a internet iludindo a todos e a si mesmas de que são progressistas e de esquerda, quando não passam de sexistas e reacionárias, fazendop o trabalho sujo da direita internacional de dividir a organização do trabalhadores e destruir os símbolos e heróis nacionais. Um exemplo diasso é o que circula entre muita gente – infelizmente também da esquerda – a imagem dos familiares do Pelé reunidos no hospital para oferecer o suporte afetivo para ele, que se aproxima de seu desencarne. A legenda diz que “os herdeiros de Pelé aguardam sua recuperação”, de forma irônica, dando a entender que eles apenas desejam sua morte, ansiosos pela partilha dos bens do Rei do Futebol.
Penso que deveria ser justo anotarmos os nomes de todos que divulgam essa crueldade para publicar algo semelhante quando for sua hora de partir. Acreditar que os filhos, netos e noras dele estão angustiados apenas por dinheiro, como urubus aguardando o último suspiro do seu almoço, diz mais de quem divulga essa crueldade do que da própria vida do Pelé. Não esqueçam as lições duras que surgiram dessa última eleição: a esquerda também tem seu gado e ninguém deixa de lado seus preconceitos – em especial seu racismo – apenas por declarar voto em Lula.
Existe um caloroso debate acerca dos fatos acerca da vida de Jesus de Nazaré, isso porque os indícios de sua existência real não são conclusivos e não conseguem convencer os estudiosos mais céticos. Presume-se, entretanto, que esse personagem foi apenas um entre mais de 400 conhecidos e autoproclamados “Messias” da Palestina no período de dominação de Roma, cujo objetivo principal era tão somente libertar o povo miserável da Palestina do jugo do Império. Todos eles, inclusive o filho de José e Maria, falharam de forma inquestionável e foram sacrificados por seus dominadores. Jesus sequer foi o mais importante em sua época; como diz Reza Aslan, autor do livro “Zelota” que busca analisar os passos deste galileu que teria vivido entre nós há cerca de 20 séculos, “tivéssemos jornais diários naquela época é bem possível que sua execução ocupasse tão somente uma pequena nota no pé da página policial“.
Por outro lado, sabemos bastante sobre o Jesus mítico, por certo, mas ao analisarmos sua existência através dos textos bíblicos é possível encontrar em sua trajetória uma variada compilação das crenças da sua época, uma mistura rica de tradições de várias partes do mundo antigo, desde tradições egípcias, gregas e romanas até persas e babilônicas. Do ponto de vista histórico o Jesus “homem” é uma curiosidade que dura quase 2 mil anos, mas o filho de Deus foi uma criação coletiva que se adaptou às necessidades humanas do tempo em que foi forjada.
Minha percepção é que o “Jesus histórico” realmente existiu e era o que se pode chamar hoje de um reformista do judaísmo, alguém que desejava a transformação da religião judaica por dentro, um judeu falando das crenças judaicas exclusivamente para judeus, visto que Jesus nunca se referiu a outro povo que não o seu durante toda a sua vida. A ideia de levar sua mensagem aos gentios nunca foi dele, mas de seu seguidor Paulo de Tarso. Assim, o cristianismo tal qual o conhecemos, é uma mistura do apóstolo visionário Paulo com a incorporação desta religião pelo Império Romano do Oriente, através de Constantino, mas quase nada tem a ver com o revolucionário libertador que porventura tenha caminhado pela Palestina.
Inobstante os acalorados debates sobre a figura de Jesus, muito mais importante do que a descoberta desse sujeito que perambulou pela aridez Palestina há 2000 anos é a sua mensagem. Para um observador isento de preconceitos, é fácil perceber que as histórias da Bíblia precisam ser entendidas através de uma exegese profunda e sofisticada, olhando para os fatos narrados como ensinamentos e metáforas que carregam valores e ideias, e não como a descrição factual de acontecimentos. Essa é a essência dos livros “sagrados”, e por isso eles sobrevivem por milênios. Desta forma, o que se encontra na Bíblia, no Corão e no Bhagavad Gita não pode ser alvo de uma leitura histórica, fundamentalista e literal – pois isso seria uma perversão do sentido original de sua escrita – mas de um mergulho profundo nos valores e signos de sua época, para que possa ser entendido em seu contexto e significado profundos.
É por isso que durante minha vida inteira sempre tive um dúvida sincera: será que o Papa ou membros dos altos círculos da Igreja acreditam mesmo nesses milagres descritos no velho e novo testamentos, na multiplicação de tilápias, na transformação de água em vinho, na concepção virginal da mãe de Deus, no Cristo redivivo ao terceiro dia, nas curas, etc? Ou será que eles sabem – por serem homens de rara erudição – que tais descrições bíblicas não passam de belas alegorias, ficções escritas mais de um século após decorridos os fatos, exemplos de vida, valores morais, metáforas e histórias cheias de ensinamentos que servem apenas para oferecer um sentido ao caos da existência, mas que por sua força coercitiva e de coesão social funcionam como um cimento cultural poderoso para a formação de identidades?
Este dilema dos poderosos que controlam o cristianismo sempre me faz lembrar um filme do anos 80, um épico de extrema direita chamado “Desejo de Matar”, com Charles Bronson. Depois de ver a esposa sendo morta e a filha estuprada por um grupo de bandidos (claro, todos imigrantes escurinhos e latinos) o heróis vingador do filme resolve se vingar dos elementos que produziram sua desgraça pessoal. Movido por um ódio imparável, e sendo um veterano da Guerra da Coreia, ele conhecia “as manhas” do ofício de matar, mas teve agir à margem da lei. “Desejo de Matar” foi um dos mais importantes filmes do gênero “vigilante”, sujeitos que tomam a justiça pelas próprias mãos por reconhecerem a incapacidade do sistema judiciário de livrar a sociedade dos maus elementos. O filme, como se pode facilmente apreender, é um libelo fascista, que descreve a luta de “gente de bem” contra vagabundos que invadem e promovem a degenerescência dos valores americanos. Depois de muito treinar com a ajuda de um amigo ele encontra os meliantes e se inicia uma carnificina. Na luta, mesmo ferido, ele consegue matar um a um todos os criminosos e consumar sua vingança, até ser pego pelos seus policiais que estavam à caça do “justiceiro”
No hospital acontece a fala mais brilhante do filme. Os oficiais da polícia confidenciam a ele que houve uma diminuição significativa na taxa de crimes desde que ele iniciou sua busca por vingança. Sua prisão, portanto, de nada serviria à polícia. Os criminosos da cidade estavam com medo do “vingador”, e por isso refrearam suas intenções criminosas. Por este fato, os tiras decidiram se calar e não revelar publicamente sua prisão, preferindo deixar o mito vivo e à solta. Assim, ele foi avisado que nenhuma queixa seria dada e que poderia voltar para casa, desde que abandonasse a cidade para nunca mais voltar.
Ou seja: apesar de ser um criminoso ele cumpriu a importante tarefa de estancar a sangria de crimes na cidade. Um delinquente, um assassino frio e violento, um justiceiro cruel e um animal ferido, mas que cumpriu uma importante função social – a eliminação de vários criminosos e a instalação de um clima de medo entre os que ficaram. Como é fácil perceber, um filme típico da sociedade americana dos anos 70, assustada com o índice de criminalidade urbana, que pretendia justificar a violência tratando os policiais como heróis e os criminosos como uma casta de perversos e degenerados, acusando as leis de apenas ajudarem os meliantes e limitarem a ação da justiça. Suco de fascismo concentrado.
Aqui é que eu estabeleço minha analogia: Não estaria o Papa diante do mesmo dilema? “Eu sei que tudo isso é mentira, que são apenas histórias, que nada é passível de confirmação. Sei também da história terrível da Santa Sé, dos seus delitos horríveis, do poder e da corrupção. Sei dos malfeitos repreensíveis que colorem de sangue sua história. Todavia, reconheço a importância que estes mitos desempenham na coesão dos fiéis, em nome da Santa Igreja, de Jesus – o Cristo, e da Santíssima Trindade. Por entender isso, melhor calar-me diante do que sei, vejo e sinto. É melhor manter o mito vivo e à solta, porque isso exerce um controle moral sobre o rebanho“.
Costumamos dizer que sair de uma festa sem se despedir dos convivas é “sair de fininho”, mas também pode ser chamada de saída “à francesa”. Entretanto, sair desta forma normalmente é visto de forma negativa, como se a pessoa fugisse do encontro evitando “fechar” sua presença com o ritual da despedida. Sair à francesa é escapar sorrateiramente das normas sociais, burlando os costumes.
Pois, curiosamente, os países anglofônicos chamam esta atitude de “saída irlandesa” (irish exit). Claro que existe uma tendência a nomear determinados costumes pelos países de onde se imagina terem surgido, da mesma forma como os franceses chamavam a sífilis de “doença italiana”, enquanto os italianos a chamavam de “doença francesa”. Porém, mais interessante ainda que os países envolvidos no surgimento dessa convenção social, está o fato de que “sair à irlandesa” era considerado uma atitude polida e educada.
Sim, exatamente isso: uma atitude reconhecidamente correta, adequada e “chique”, e sou obrigado a concordar com as justificativas para considerá-la assim.
Pensem bem: quando alguém – também um casal ou toda a família – resolve sair de uma festa despedindo-se de todos, isso inexoravelmente produz uma ruptura no fluxo da reunião. O sujeito que sai interrompe várias conversas, atrapalha pessoas que estão comendo ou bebendo e cria distúrbio entre os demais convidados. Faz temas em debate serem perdidos, assuntos abortados, piadas cortadas no meio. Mais ainda: induz outras pessoas a saírem da festa, antes de assim o desejarem, imaginando que a saída de alguns sinaliza o tempo adequado e certo para o término da reunião.
Todavia, existe ainda outra questão importante. Ao se despedir de todos chamamos muita atenção sobre nós mesmos, desfocando a importância do anfitrião. Nos consideramos tão importantes a ponto de interromper o prazer e a alegria de todos apenas para avisá-los de nossa ausência iminente. Criamos sobre nós uma relevância presunçosa, quase pedante. Algumas despedidas são como a dizer: “Olha, estou indo. Não sei como essa festa poderá continuar após a minha despedida. Pense bem se pretende ficar aqui, sem minha presença por perto”.
Portanto, é compreensível que a “saída à irlandesa” fosse admirada em uma época em que a sociedade não era tão viciada em exaltação de egos e personalidades. Sair à irlandesa era uma atitude humilde de quem reconhecia ser apenas uma personalidade entre tantas, alguém que não buscava ser o centro momentâneo de tantas atenções e reverências imerecidas.
Bem, era isso. Agora saio “à irlandesa” e os deixo com essas ideias para elaborar…
Uma das coisas que mais me chocou nestes últimos anos em que convivemos com a pandemia foi a facilidade com que juntamos a ideia de um elemento salvador externo (uma vacina) com o conceito de “ciência”. Neste tempo todo em que vimos a doença se espalhando era fácil notar que o mundo caberia em dois grandes grupos: os “crentes” (nas vacinas) e os “descrentes”, que acreditavam em outras coisas, diferentes da crença oficial.
Neste período, 99.9% das pessoas que colocaram “vacina para todos” na sua foto das redes sociais não tinham ideia do quanto é complicada sua elaboração, sua fabricação, seu transporte e a mensuração de seus efeitos e parefeitos maléficos. Também não tomaram conhecimento da pressão política para admitir uma vacina com tão pouco tempo para testes. A conexão sempre foi retilínea: vacinas = tecnologia, a qual, por sua vez, obedece os ditames da ciência. Não havia espaço para muitas perguntas, e qualquer um que ousasse questionar a estrutura de segurança e real efetividade dessas drogas ganhava imediatamente o carimbo de “negacionista“, um selo que a ninguém interessava receber.
Eu mesmo, apesar de passar décadas tendo uma postura de fundamentada desconfiança com as empresas que produzem drogas, fui vacinado. Não poderia suportar as críticas caso alguém próximo ficasse doente, ou mesmo positivo para o vírus. Tomei a atitude menos conflituosa: mesmo não tendo todas as informações que gostaria para uma escolha consciente, e mesmo testemunhando contradições graves na narrativa oficial, resolvi quebrar um jejum de mais de 30 anos sem tomar qualquer droga. Ahhh, sem surpresa, mesmo vacinado tive Covid duas vezes…
Todavia, minha curiosidade com a questão se manteve intacta. Não conseguia entender porque o debate sobre as vacinas não podia ocorrer abertamente. Testemunhei a debacle da Cloroquina e da Ivermectina, que foram colocadas contra a parede exigindo-se delas as provas de sua eficácia, enquanto das vacinas pouco era exigido. Ficou claro que estas ultimas eram ungidas com o óleo da confiança mística, o selo de “ciência” para além de qualquer prova que porventura pudessem apresentar. Basta uma simples pergunta sobre as diferenças de mortalidade por Covid 19 entre a África – pouco vacinada – e o ocidente – maciçamente vacinado – para desencadear uma série de acusações por parte daqueles que acreditam piamente na superioridade do paradigma vacinal.
Até o conceito de vacina precisou ser modificado para que estas drogas fossem utilizadas com este nome. Houve uma campanha gigantesca em seu favor e, tanto aqui quanto no centro do Império, políticos usaram sua posição quanto à vacinação como plataforma de discurso público. Por isso é que no Brasil e nos Estados Unidos os presidentes de extrema direita no cargo tiveram posturas que chamamos “negacionistas”, cujas ações retardaram o uso das vacinas ou dificultaram seu uso.
Esta luta acabou colocando pessoas como eu na mais incômoda das posições. Como seria adequado se posicionar diante da luta entre dois gigantes por quem se tem profunda contrariedade? De um lado governos de direita, abusivos, misóginos, lgbtfóbicos, anti imigrantes, liberais na economia, conservadores nos costumes, destruidores do Estado e machistas. Entretanto, do outro lado se encontra a indústria mais poderosa e antiética do planeta, que obtém lucros através do adoecimento da população, envolvida em escândalos de toda ordem, de falsificações, negligência, conspirações, golpes de Estado, mentiras e até assassinatos. Peter Gotzsche (Medicamentos Mortais e Crime Organizado) e Márcia Angell (A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos) em seus livros nos oferecem uma imagem bem clara – apesar de incompleta – da capacidade destrutiva desse empreendimento. Em ambas as pontas dessa disputa eu via a mão suja do capitalismo manipulando corações e mentes.
A indústria farmacêutica é um lobo de Wall Street disfarçado de ciência salvadora e de tecnologia redentora – que pretende nos salvar dos desastres e da dor através de suas drogas mágicas. Por outro lado, nós não passamos de ovelhas de um grande rebanho, ou, se quiserem uma imagem mais frugal, somos os habitantes de uma pequena aldeia gaulesa, ávidos pela poção do mago Panoramix, que poderá nos salvar do ataque das hostes de César.
Para quem acha essa minha visão da indústria farmacêutica muito dura e inexorável recomendo que assistam à série “Dopesick”. Em Dopesick (dope = dopado, sick = doente), Michael Keaton (ex Batman) interpreta Samuel Finnix, um dedicado médico que percebe entre seus clientes no consultório um aumento (até então) inexplicável de casos de viciados em medicamentos opioides (drogas com efeitos estupefacientes como o ópio), especialmente entre os trabalhadores de minas. Por certo que, quanto mais acidentes de trabalho maior seria a necessidade de tratar as dores que causavam. Nada melhor do que o trabalho insano e insalubre nas minas para deflagrar este drama.
A descoberta de Finnix* já estava também sendo investigada pelos promotores federais e da Drug Enforcement Agency (DEA), que se empenharam em uma investigação para descobrir a correlação dos fatos. Depois de intensa busca encontraram uma gigantesca conspiração na Purdue Pharma, um poderoso grupo farmacêutico. Todos os fatos apresentados na série são baseados na realidade.
Por trás de uma das piores epidemias nos Estados Unidos, que mata mais de 100 mil pessoas por ano (!!!), está uma gigantesca empresa de drogas que a patrocina. Esta série desvela o que outros filmes, como “O Fiel Jardineiro” e “Eu sou a Lenda” (onde a epidemia que destrói os humanos vem de uma vacina contra o câncer) já tentavam nos alertar: o poder da indústria de medicamentos não pode existir sem o contraponto de uma ciência isenta, controlada pelo Estado democrático, que precisa atuar sem a influência e a interferência do capital e de quem o controla. Claro que a série vai explorar o submundo fétido das corporações, mas será incapaz de colocar o dedo na ferida que está por trás do surgimento desses males: o capitalismo, o lucro imoral e a sociedade de classes.
Atrás dessas crises encontraremos sempre o capitalismo e seus tentáculos, mas sua evidente degradação vai trazer ainda outras tragédias iguais a esta dos “medicamentos viciantes”, o qual destrói as entranhas do pais mais poderoso do planeta. Todavia, a ideia de que perguntas inconvenientes sobre “tabus médicos” (como as vacinas ou medicamentos) não podem ser feitas é uma mancha no próprio conceito e na confiabilidade da ciência, que deveria se basear na dúvida sistemática e constante, na desconfiança, no falsificacionismo, na busca por provas e jamais nas certezas e nos lucros – muito mais afeitos às instituições religiosas.
* Só eu acho que o nome do personagem “Finnix” refere-se a “Phoenix”, ou Fênix, a mitológica ave grega que, quando morria, entrava em autocombustão e, passado algum tempo, ressurgia das próprias cinzas? Não seria o personagem do filme um médico que desperta para o absurdo da medicina atrelada ao capitalismo depois de ter toda a sua formação “queimada” pelo reinado das drogas, condicionado-o a ser um mero “despachante de medicamentos”, comandado pelos finos cordéis que nos atam aos “senhores da doença”? Ok, talvez esta seja apenas a minha particular visão sobre o tema….