Precisou os desastes em sequência e a nova eleição de Trump para que acadêmicos decidissem surfar no desastre dos movimentos “woke”. Há mais de uma década que a esquerda revolucionária denuncia que essa “esquerda de costumes” dentro da “esquerda liberal” nada mais é do que uma estratégia da direita para a fragmentação da classe operária, impedindo sua organização. Mais do que distintos, a esquerda anticapitalista e os movimentos identitários são opostos, pois partem de perspectivas que se contrapõe; de um lado as identidades e os sujeitos, enquanto do outro a união da sociedade em torno da luta de classes. É razoável pedir que os identitários encontrem a expressão mais fidedigna de sua visão de mundo na direita liberal, pois seu discurso é mais adaptado a esta vertente do pensamento. Para a esquerda raiz, as lutas antirracista, feminista, anti-xenofobia, etc., não podem ocorrer apartadas da luta de classes e o fim da propriedade privada; não existe possibilidade de vitória por qualquer desses grupos oprimidos que possa vicejar dentro do capitalismo e do imperialismo.
Arquivo da tag: direita
Abraço
Monark é um jovem tipicamente paranoico. Sua perspectiva de mundo é perturbada, fanatizada, unívoca e sem materialidade. Ele muito se assemelha a jovens cooptados pelas religiões, cujas ideias circulam em torno de uma crença central e nem a realidade visível é capaz de demovê-los de sua perspectiva. No lugar do demônio, o Estado; no lugar de Jesus, a “liberdade”, e não importa que isso não se perceba no mundo de verdade; a ilusão é mais forte e intensa que o real. Eu sequer acho que Monark seja de “direita”; ele é um anarco capitalista ingênuo, com ideias estapafúrdias, ideações persecutórias e uma visão de mundo ilusória onde o Estado malvadão não deveria ter qualquer importância e o Mercado a tudo deveria direcionar e regular. Conheço alguns adultos assim, e não acho que estas pessoas devam ser censuradas. Entretanto, o Monark era uma figura apenas folclórica antes do ataque insano de personagens malévolos como o Alexandre de Moraes. A perseguição verdadeira pode destruir psiquicamente um sujeito que já é, estruturalmente, paranoico.
O seu sofrimento é nítido e inquestionável, sua dor é palpável. Os ataques a pessoas com ideias aberrantes, longe de curar seus problemas, acentuam suas radicalidades. A maneira pela qual tratamos Monark, através da censura e agora do deboche, mostra o caráter autoritário tanto dos ministros do supremo quanto, infelizmente, de boa parte da esquerda liberal. Nunca houve, na história da humanidade, uma ideia que tenha sido sepultada pela censura, mas boa parte das ideias – mesmo aquelas aberrantes que nos atormentaram – foram fortalecidas pela tentativa de silenciá-las.
Eu sei o quanto isso soa cafona e piegas, mas o Monark precisa de um abraço, e isso não significa concordar com suas ideias, muito menos deixar de combatê-las com rigor. Se isso não for possível, acredito que interromper as mentiras e os ataques insanos da justiça burguesa sobre ele o ajudariam muito.
Arquivado em Pensamentos
Direita limpinha
A vitória de Milei na Argentina vai reprisar o filme de terror que vivemos com o fundamentalismo neoliberal cristólatra que vivemos no Brasil. Será o caos para os hermanos, mas parece mesmo que os povos precisam passar por certos desastres para entender o significado e a importância da luta de classes. Agora, que eles estejam preparados para os mesmos capítulos de arrogância, estupidez, perda de patrimônio público e destruição econômica.
Vamos deixar claro que quem elegeu o Milei na Argentina não foi a extrema direita, nem os fascistas. Quem garantiu essa vitória foi a direita limpinha, os “centristas”, o pessoal que tem medo do comunismo, a classe média esmagada pela inflação. Agora todos seremos atingidos, direta ou indiretamente, pela grosseria explícita de um ancap descabelado e boquirroto. Mas é errado tirar essa responsabilidade da direita que, sempre que sente medo ou está sob ameaça, se abraça nos fascistas e nos golpistas. Não esqueçam que “um liberal é um fascista que ainda não foi assaltado”, ou ainda, alguém que carrega o fascismo como colete salva vidas, para vestir sempre que a água bater na bunda.
Boa sorte aos envolvidos.
Arquivado em Política
Contradições

Por muitos anos fui atormentado por esta contradição: o movimento de humanização do nascimento se adapta – e é mais bem acolhido – entre conservadores. Durante décadas eu vi parteiras americanas conectadas com grupos cristãos de caráter extremamente conservador e achava bizarro que assim o fosse. Em minha cabeça comunista eu pensava: como pode ser possível que um ideário que me parece libertador e conectado aos direitos humanos mais básicos pudesse ter ressonância com mulheres à direita no espectro político?
A resposta que pude elaborar – ainda que parcial e incompleta – se encontra no fato de que a humanização do nascimento sempre colocou uma enorme importância na maternidade e na amamentação, funções especificamente femininas que os movimentos feministas sempre trataram com reserva – para não dizer, contrariedade. Para estes grupos a emancipação da mulher passa pela liberdade econômica, a competitividade em campos outrora dominados pelos homens e o poder social conquistado na arena das disputas profissionais. Mulheres queriam o dinheiro e o poder para comprar sua “alforria”, sua independência, para serem donas do seu destino. Por certo, não há como criticar seu desejo legítimo. Todavia, parto, nascimento, puerpério e amamentação jogam as mulheres no universo de sua biologia, nos compromissos ancestrais com a espécie, no corpo, na sobrevivência, na “dívida” que as mulheres tem com sua raça. Impossível não entender o quanto esse mergulho na essência feminina mais bruta e primitiva significa um anteparo às suas legítimas aspirações de autonomia.
Desta forma, qualquer movimento que tente debater, esclarecer, problematizar e questionar a suprema invasão tecnológica do nascimento contemporâneo “desnaturado”, ou seja, retirado da natureza e da integralidade destes processos, estará funcionando como um anteparo à utopia libertária da mulher, pois estará enxergando seu corpo através de um prisma mais ligado à sua natureza e sua essência. Levei anos tentando entender e lidar da melhor maneira possível com estas contradições, mas creio que a compreensão histórica dessas lutas é sempre uma ferramenta fundamental para o seu entendimento.
Arquivado em Parto
Lavagem Cerebral
Recomendo o documentário “A Lavagem Cerebral do meu Pai”. Todavia, apesar da qualidade e da profundidade das entrevistas, reconheço que, por ter sido realizado nos Estados Unidos, ele perde um dos pontos mais essenciais do debate sobre a influência da mídia sobre o cidadão comum. A mídia é sempre a semente que é lançada sobre a população, carregada de ideologia, com a potencialidade de crescer e se multiplicar. Entretanto, para que a semente possa germinar é necessário que exista um terreno fértil e acolhedor, e só assim a semeadura terá êxito.
Se a propaganda fosse suficiente para a mudança de padrões de comportamento, bastaria fazer propagandas diárias contra a violência doméstica, contra latrocínios, abusos de cesarianas ou corrupção. Infelizmente (ou felizmente) o terreno é essencial, sem o qual a propaganda atinge a rocha dura e impenetrável das nossas seguranças.
O surgimento da direita feroz americana só pôde ocorrer pelas crises sistemáticas e recorrentes do capitalismo, produzindo um sentimento de ressentimento e rancor que atinge, em especial, os homens de meia idade, traídos pela promessa de serem o sustentáculo de suas famílias. Há uma crise do capitalismo conjugada com a crise do patriarcado, produzindo um contingente gigantesco de homens desorientados, cuja falta de norte os leva à violência – inclusive a violência política. Portanto, ao se analisar o crescimento de Fox News ou Alex Jones nos Estados Unidos (ou Rede Globo e Alan dos Santos no Brasil) é necessário entender o contexto de crise dramática do sistema capitalista, em especial a partir dos anos 80 e da aventura neoliberal iniciada por Thatcher-Reagan. Olhar para as hordas de homens de meia idade e suas senhoras amontoados na praia de Copacabana no 7 de Setembro pode ajudar a entender o que os move.
O que vemos hoje se reproduzindo no Brasil com o ódio bolsonarista, o império das Fake News e das mentiras, as famílias divididas por sujeitos de extrema direita disseminado ideias extremistas (racismo, xenofobia, homofobia, etc.) é a herança nefasta dos estertores de um sistema econômico quase defunto, cujo corpo apodrece ao ar livre até que seja retirado. Nas palavras de Antonio Gramsci, “O velho resiste em morrer, e o novo não consegue nascer”. Esse é o mundo em que estamos inseridos, escutando o tic-tac que fará o planeta explodir.
Por outro lado, o documentário mostra a impressionante máquina da imprensa burguesa americana ocupada na lavagem cerebral de milhões, fazendo com que creiam nas mais absurdas teorias, nas mais rotundas mentiras e nas mais inacreditáveis fantasias. Também mostra como, vencida a etapa dos jornais e da televisão, o novo campo de disputa é a Internet e as redes sociais, e para este tipo de batalha a modernidade precisa estar preparada.
Arquivado em Política
Salário de Políticos
Que impacto seria produzido se cortássemos o salário dos políticos pela metade? O que isso representaria em dinheiro para o país? Por que deveríamos cortar o salário de políticos e não de presidentes de estatais, funcionários graduados, juízes e membros do MP?
Com sinceridade, a tese que coloca o salário dos políticos como “o problema” é uma bandeira da direita. O sonho dos extremistas do Estado Mínimo é que políticos trabalhem de graça, porque desta forma apenas os empresários e ricos poderiam exercer essa função, pois não precisam trabalhar para ganhar seu sustento.
Culpar desta forma os políticos e seus salários é um discurso que tenta atingir a POLÍTICA representativa liberal, e serve aos interesses autoritários.
PS: claro que alguns abusos devem ser cortados, como permitir que políticos populistas e reacionários aluguem BMW com dinheiro público. Ou as verbas de gasolina. Ou tantas outras falcatruas inaceitáveis. Mas culpar seu salário pelos problemas no Brasil é absurdo, ou oportunismo…
Arquivado em Política
Gênios
“Essa é a genialidade da Direita: fazer o preto e pobre acreditarem que o inimigo é outro preto, outro pobre, para que a gente não perceba que 1% dos brasileiros concentra 28% de toda a riqueza que o país produz. Atacamos nossos iguais, artificialmente colocados como distintos, para que os mesmos continuem lucrando com nossa miséria. Matamos uns aos outros para que a verdade permaneça escondida.”
Andrade Moraes, “Correio de Itapirubá”, coluna de política, pag. 135
Arquivado em Política
Médicos
Não vejo possibilidade em curto prazo de uma modificação substancial no perfil dos médicos e da própria Medicina no Brasil. Minha descrença é fácil de entender, basta ver de onde vem os alunos da medicina. Eles são egressos das melhores escolas, dos melhores cursinhos preparatórios, são filhos das famílias que podem bancar esses anos de estudo, tem sobre o corpo a “melhor” cor de pele e as famílias possuem o melhor saldo bancário. É possível dizer o mesmo do judiciário e do Ministério Público, onde verdadeiros feudos dominam o cenário da justiça. A esquerda é francamente minoritária nesses cursos superiores e certamente nas corporações. E essa minoria é muito pequena MESMO.
Sou capaz de contar nos dedos da mão os colegas claramente de esquerda que conviveram comigo durante anos de percurso pela medicina. A imensa maioria tem discurso e atitude meritocrática, acreditam piamente que estão cursando estes cursos apenas pelo seu esforço pessoal, deploram o socialismo e suas vertentes, apoiam o fim do SUS, aplaudem PPP (parcerias público-privadas) na saúde, acreditam no paradigma tecnocrático da medicina de forma quase religiosa, acham que a iniciativa privada é superior (mesmo alguns tendo sido empregados do Estado a vida inteira), acreditam que os médicos são “especiais” e merecem privilégios e enxergam a saúde pública e a medicina de família como espaços menores da atuação médica – quando comparadas com especialidades tecnológicas como neurocirurgia, medicina por imagem ou algumas novidades mercantilistas.
Não acredito que o pequeno número de médicos com consciência de classe e com uma visão progressista e popular farão diferença em curto prazo. O que precisamos é de uma reformulação no ingresso e a abertura de “faculdades populares de medicina” para produzir novos médicos educados dentro do paradigma social e com ênfase na saúde pública e na prevenção. Questionar e aprofundar a crítica à visão capitalista e elitista da medicina deve ser uma grande tarefa para o século XXI.
No nosso atual contexto a corporação médica é reacionária, elitista e alienada em sua grande maioria, e alguns setores são francamente fascistas – bastam 5 minutos na comunidade “dignidade médica” para confirmar isso.
O Brasil precisa de uma medicina para seu povo, ligada às comunidades, e não uma profissão adjuvante das empresas de saúde e da fabricação de drogas.
Jogados à direita

O grande número de homens brancos e cis que foram jogados para os braços da direita por serem tratados diariamente como inimigos, “machistas“, “esquerdomachos“, “mascus” e todo tipo de agressão (bastando para isso discordar do catecismo fechado das lideres) mostra porque a esquerda identitária se tornou um ambiente tóxico para os homens que gostariam de uma sociedade com justiça e equidade de gênero.
Por mais que a mídia transforme o homem contemporâneo como um predador – muitas vezes com justiça – alguns homens querem equidade de gênero e justiça social e desejam uma sociedade mais igual para todos. Ou deveríamos achar que só os negros queriam o fim da escravidão? Ou podemos presumir que apenas as mulheres querem o fim do patriarcado, um modelo social em que 90% dos assassinados são homens e 80% dos suicídios são também entre os eles?
Eu pergunto: Que tipo de homem não deseja mudar uma sociedade onde mulheres são vítimas de feminicídio cada duas horas, onde uma dessas vítimas pode ser a sua mãe, sua filha ou a sua irmã?
Que tipo de sexismo absurdo é esse que imagina que só mulheres querem uma sociedade mais equilibrada? As mulheres com quem convivo não lutam por uma sociedade boa para si mesmas; pelo que elas falam, essa luta só faz sentido se for bom para todos (ou todxs).
Claro que existe um problema sério de machismo e racismo na sociedade, mas quando o “branco“, o “cis” e o “homem” são vistos e tratados como inimigos – e não os machistas, os racistas e os homofóbicos – a decisão óbvia, natural e JUSTA que muitos deles tomam é procurar um lado na disputa de ideias que não os trate como inimigos e não os veja com desprezo.
Sério que alguém acha que essa sociedade é boa para os homens? Por que então se matam uns aos outros? Por que arrancam a própria vida às pencas? Por são os mais afetados pela depressão? Por que são os que mais se destroem pelo álcool, pela cocaína, pela maconha, pelo cigarro? Se é tão bom ser homem porque tantos querem acabar com a dor que sentem, e que está obviamente ligada à sua condição masculina?
Sério que alguém enxerga o mundo como um lugar de prazer desmedido para os homens e um martírio sem fim para as mulheres? Exercitemos a empatia, se é que queremos mais homens entendendo o sofrimento e as dificuldades de ser mulher.
Por isso mesmo que estes homens – que geralmente são bons pais e excelentes amigos, apesar de ainda reproduzirem algo da herança preconceituosa que receberam – desistem de somar nesta luta quando percebem que serão vistos como eternos adversários.
O presidente do Brasil e seus filhos foram eleitos por serem machistas e racistas (e não apesar disso), mas ninguém teve coragem (ou muito poucos) de perguntar quais os erros cometidos pelos movimentos identitários nesse processo. Por que tanta gente de centro foi jogada para a direita mais abjeta?
Palestinos perceberam muito cedo esse dilema ao não desprezarem o auxílio valioso de judeus que se somaram à sua luta por uma Palestina livre. Entre os meus amigos não se permite nenhum ataque aos judeus ou ao judaísmo, mas apenas ao sionismo e sua ideologia de colonização, limpeza étnica e supremacia racial. Por isso os autores judeus por uma Palestina livre são tão celebrados entre os árabes – para não serem jogados no colo dos supremacistas.
Existem, por certo, mulheres machistas, e eu arrisco dizer que são a maioria nesse país – mas não na minha bolha de classe média. Entretanto, não acho justo dizer que “as mulheres cis e brancas no Brasil são machistas“. Algumas realmente são, mas não quero jogar toda as mulheres com boas ideias no colo dos liberais.
Até porque, como estamos vendo, o nome disso é suicídio.
Arquivado em Política









