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Liberdade

A fantástica história de Jack e Emmet, e o homem que lia livros para se tornar livre…

Jack sabia do amor que Emmet nutria pelos livros. Não era sequer necessário que ele houvesse descrito a pequena biblioteca que tinha em sua casa antes de chegar aqui. Sua forma por vezes rebuscada de descrever os cenários ou os episódios de sua vida mostravam o apreço que nutria pelas palavras. Ah, os conceitos, as nuances, as filigranas. Nenhum objeto existia na descrição de Emmet que não merecesse uma metáfora. Esse seu jeito sofisticado de descrever a vida só podia ter surgido pelo exercício continuado de apreender seus significados folheando incansavelmente as páginas com a avidez erótica da curiosidade.

Ele, entretanto, não possuía livros em seu poder. Os poucos que eu tinha Zora os entregava mensalmente durante as visitas, os quais ajeitava com carinho debaixo do meu catre simples, mas sempre limpo. Para meu olhar clínico era fácil entender esta ausência nele. Emmet ajeitava os óculos com cuidado diante de qualquer tarefa, mas este esmero mais se mantinha por um cacoete do que pela justeza dos focos. Pouca diferença fariam os ajustes das lentes por sobre o nariz vermelho e anguloso. Emmet praticamente nada enxergava, mas tentava disfarçar ao máximo sua dificuldade na frente dos outros prisioneiros.

Por ser o mais velho da cela lhe coube a única cama que recebia uma tímida nesga de sol nas manhãs de inverno. Seu rosto magro recebia a carícia do sol apenas por breves momentos, exatamente quando recebíamos o sinal de deixar as celas para o café matinal. Emmet esperava que todos saíssem do cubículo para só então tatear suas roupas e calçar as botinas velhas e escuras. Perguntava por mim, e quando lhe respondia o cumprimento sorria dizendo “ora, que tonto, nem vi que ainda estava aí”. Meus anos na medicina me permitiam saber que Emmet estava há muitos anos lutando contra o diabete. Suas injeções diárias de insulina eram feitas à noite, escondido em sua cama, quando a cortina de panos encardidos lhe oferecia uma benfazeja, porém curta, privacidade. Mas eu sabia. Apesar disso, nunca comentei com outros detentos e sequer lhe disse que tinha conhecimento de sua doença.

Uma certa noite, antes do “black out”, Emmet me perguntou o que estava lendo. Por certo que ouviu o folhear lânguido das páginas ao seu lado. Talvez esse tenha sido um daqueles momentos transformadores na vida de um sujeito, mas que, em geral, passam despercebidos quando ocorrem. A pergunta de Emmet tinha um som estranho, que carregava mais do que uma simples curiosidade; era também mais do que uma forma de preencher o vazio cheio de silêncios entre nós, ou para se livrar do desconforto que tais momentos representam. Sua dúvida tinha a triste melodia de uma súplica. Coloquei o dedo entre as páginas do livro como um marcador e o fechei. Olhei para Emmet que permanecia com o olhar fixo na parede suja à frente.

– A República…

“Plato!!!” disse ele sorrindo, antes que eu pudesse completar a informação. Havia uma emoção triste e genuína em sua face emagrecida. “Em que parte está?”, perguntou ele.

– Quer que eu leia? perguntei, sem me dar conta de que esse era o desejo inconfesso de Emmet fantasiado de frugal curiosidade. Abri o livro novamente e li a partir de onde meu dedo, ainda preso entre suas páginas, apontava.

“Sócrates? Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância…”

Depois de poucos minutos levantei os olhos da leitura daquele parágrafo apenas para comentar alguma banalidade sobre o gênio de Platão, ou sobre sua influência no pensamento ocidental, mesmo após milênios passados de sua morte. Entretanto, minha voz foi interrompida antes da primeira palavra. Com as mãos espalmadas sobre os joelhos pontiagudos Emmet jazia imóvel. Seus olhos marejados se fecharam num piscar reflexo, de onde brotaram duas lágrimas que percorreram com morosidade os sulcos de seu rosto. Sem abrir os olhos, ele segurou meu braço com delicadeza e de seus lábios uma voz quase apagada sussurrou:

– Obrigado, meu amigo Jack.

James G. Higgins, “Freedom”, Ed. Lasseter, pág 135

James Garret Higgins é um jornalista e escritor americano nascido em Tulare na Califórnia em 1939. Fez sua formação universitária na California State University em Sacramento, tendo cursado Jornalismo e posteriormente Ciências Sociais. Após trabalhar na Nigéria por 3 anos como correspondente da Guerra de Biafra, de 1967 a 1970, voltou para os Estados Unidos e escreveu vários romances nos quais descrevia as condições que testemunhou na guerra brutal e fratricida que ocorria em uma das regiões mais miseráveis do planeta. O bloqueio imposto pelo governo nigeriano aos grupos rebeldes que se isolaram na região de Biafra levou a uma crise humanitária especialmente causada pela fome, mas piorada por doenças endêmicas. Estima-se que durante a guerra civil, mais de 100 mil mortes entre as forças militares foram devidas diretamente à inanição. Entre 500.000 e 2 milhões de civis da região de Biafra morreram devido a falta de comida. Esses fatos descritos por James Higgins para os jornais americanos produziram marcas profundas em sua alma. Em seus livros posteriores, como “Freedom”, ela fala da busca de sentido para vidas completamente destruídas por tragédias pessoais e pela privação de liberdade. James Higgins mora em Sacramento com sua esposa Margareth e tem duas filhas, Abayomi e Fayola.

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Objeção de consciência

Caríssima Melania Amorim, eu não sei até que ponto o argumento da “objeção de consciência” pode ser usado, mas acho que esta discussão pode ser levada adiante. Talvez seja o momento de se debruçar sobre o tema.

Eu entendo que a situação atual das cesarianas a pedido também é responsabilidade do movimento de humanização e do nosso discurso (justo) de garantir autonomia para que as mulheres façam suas escolhas. Nosso esforço foi mostrar que o parto precisa levar em conta direitos reprodutivo e sexuais, e que o olhar sobre as gestantes não pode mais ser objetual, onde elas não passam de meros “contêineres fetais”, desprovidas de protagonismo e autonomia.

Entretanto, todos sabemos que as opções pela “cesariana milagrosa e indolor” não são verdadeiras pois tais escolhas são condicionadas fortemente pelo ambiente cultural onde estão inseridas. Numa sociedade sob a vigência do “imperativo tecnológico” e onde as opções pelo natural (comida, ambiente, sexualidade, nascimento, morte) são vistas como “reminiscências de um passado de primitivismo e privação“, é compreensível que mulheres façam escolhas baseadas na (des)informação que recebem de seu entorno. Mais ainda; como já dizia Simone Diniz, muitas mulheres optam pela cesariana para fugir do desamparo e da humilhação a que são submetidas no sistema de saúde. “Partos violentos para vender cesariana“.

Por isso estas escolhas NÃO SÃO livres, mas constrangidas pelas vozes de autoridade de profissionais tecnocráticos que baseiam suas decisões muito mais em função do seu próprio conforto e sua auto proteção do que no bem estar de mães e bebês e com base em evidências científicas.

Oferecer a escolha entre cesarianas e partos violentos conduzidos por profissionais despreparados e impacientes é a demonstração mais cabal da perversidade do nosso sistema. A mesma mão que autoriza a escolha pela cesariana (em nome da liberdade) é aquela que proíbe partos fora do controle patriarcal da medicina, ataca parteiras e doulas e persegue obstetras humanistas (em nome de uma pretensa “segurança”).

Talvez seja necessário agora reforçar um velho adágio que eu usava há muitos anos: “O empoderamento das gestantes não significa o desprezo à autonomia do profissional.” Sem um parteiro livre para tomar decisões embasadas trocaremos uma opressão por outra, com resultados igualmente ruins. Objeção de consciência pode ser um caminho e uma alternativa a este dilema.

Não há nenhuma liberdade quando somos obrigados a escolher entre duas imposições violentas e ruins. A pior face da opressão é quando ela vem travestida de autonomia.

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Bons e maus

Li agora:

“Dinheiro não corrompe ninguém; só melhora quem é bom e piora quem é ruim”

Eu discordo. Na verdade quando você diz “piora quem é ruim”, eu pergunto: como você sabe quando um sujeito sem poder algum é “ruim”. Como saber das virtudes quem nunca as colocou a prova? Por nunca ter feito nada de mau? A ausência de más atitudes definiria, assim, o cidadão justo e correto?

Ora… então paraplégicos são pessoas boas e corretas, visto que nunca se encontra um assaltando bancos, roubando velhinhas ou matando gente. Claro… sabemos que não o fazem porque não PODEM, e não porque sua limitação lhes ofereceu alguma virtude. Portanto, a simples ausência do MAL não implica na presença do bem.

O mesmo podemos dizem do “bom sujeito” – também conhecido como cidadão de bem – que nunca participou de atrocidades apenas pela própria incapacidade de cometê-las. Todavia, o “bom” sujeito, uma vez de posse dos recursos, como o dinheiro, fama ou posses, se tornará aquilo que sempre foi mas não tinha como manifestar: um humano cheio de falhas e fragilidades morais exposto às tentações, que o fazem parecer egoísta e avarento e pleno de mazelas no seu comportamento. O que poderia ser visto como um sujeito “corrompido” nada mais é do que alguém liberto de seus limites.

Sim… o poder corrompe. Como Tibério, que terminou a vida exercendo todas as perversões que seu poder ilimitado permitia. Dinheiro é poder e ele faz nossas máscaras caírem. Por isso mesmo é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino do Céu. A tentação do poder ilimitado só a conhece quem já passou por ele.

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Utopia

A esperança da direita era o juiz Barbosa, depois o Marcelo, depois o Leo Pinheiro, depois o Renato Duque e agora o Palocci. Em todos os depoimentos não apareceu nenhuma prova contra Lula ou Dilma. Aliás, Lula disse que se Palocci falar muita gente vai se incomodar, menos ele. Querem apostar? 37 anos perseguindo Lula sem provas e sempre achando que o próximo, esse sim, vai trazer o cheque, a gravação, o recibo, a conta, a Ferrari, a mansão, o avião…. mas eles nunca aparecem.

Acabar com Lula é a utopia dos fascistas.

Parece que não adianta mesmo, quanto mais procuram mais aparece a verdade que tantos se negam a aceitar. Lula é honesto porque nenhuma acusação tem materialidade. Lula é honesto como você ou eu, a não ser que alguém nos acuse com provas.  Lembrem apenas que Lula é investigado pelos seus próprios inimigos. Quem de nós sobreviveria a uma investigação neste nível?

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Democracia

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Quanto mais eu debato com pessoas na Internet mais eu me convenço que democracia é um conceito absolutamente abstrato. Para muitas pessoas (eu acho que a maioria) ela representa o direito de dizer suas verdades sem constrangimentos ou coerção, assim como a possibilidade de calar todos aqueles que discordam delas. A prova mais evidente para esta distorção da visão sobre a liberdade de expressão é a postura de grupos que se vangloriam de terem calado a voz dos seus opositores, sejam eles de direita ou de esquerda.

No fundo não queremos liberdade ou espírito democrático; a gente gosta mesmo é de obter vantagens. É como no futebol: não queremos ser roubados mas quando a falha nos beneficia achamos natural e até merecido. Precisamos amadurecer estes conceitos, em especial no discurso da esquerda.

Fico muito triste ao ver manifestações autoritárias sendo celebradas como vitórias, atitudes violentas sendo tratadas como “direito do oprimido”. Não, o que a gente quer mesmo é adquirir os mesmos privilégios indecentes que reclamamos daqueles que nos oprimem.

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Feios, sujos e malvados

Feios_sujos_e_malvados

Já se deram conta do drama terrível que atinge o cantor popular que lança um disco e vende 1 milhão de cópias?

Nunca?

Muitas vezes eu penso nesses temas que normalmente não nos tocam, porque parece a nós que estas circunstâncias não são compatíveis com sofrimento de qualquer natureza. Também fico encucado como “a dor de ganhar muito dinheiro“, as “dificuldades de ser bonito demais” ou as “agruras e sofrimentos de ter muito sucesso“.

Sim, penso em tese. Nunca fui agraciado com nenhuma das benesses acima citadas, o que não me impede de tentar entender como as pessoas podem se sentir prisioneiras de suas próprias virtudes e conquistas.

Imagine o homem bonito e suas dificuldades. Estou usando esse exemplo pela distância evidente e óbvia comigo, mas poderia usar a questão das mulheres lindas. A beleza ofusca todos os outros possíveis talentos. Um homem bonito naturalmente obstrui suas outras potenciais capacidades, pois a beleza lhe oferece um acesso fácil aos seus interesses e desejos. O mesmo se pode pensar do dinheiro. Para que estudar, aprofundar-se em temas, tornar-se crítico e inventivo se o dinheiro oferece um “bypass” para qualquer comodidade? Para enfrentar a beleza e o dinheiro e ainda assim tornar-se humilde, culto e interessante há que se transpor barreiras muito complexas e difíceis, principalmente porque elas se opõe à própria natureza humana e a “lei do menor esforço”. Como ter certeza de que a mulher (ou homem) que se acerca, está encantado pela sua figura completa, ou apenas pela luz que emana de sua beleza ou riqueza?

Um músico de sucesso precisa manter o interesse das pessoas, pois o “amor” a ele devotado é embriagante, sedutor e cativante. Porém, tal devoção cobra seu preço, e o cantor cedo percebe que sua obra deixa de lhe pertencer, e passa a ser controlada pela expectativa que os fãs dele fazem. Os admiradores cobram do artista o amor a ele oferecido. “Vais nos agradar e retribuir nosso amor. Caso contrário será uma traição ao nosso carinho graciosamente oferecido, e por isso te odiaremos eternamente”.

Apesar de ser uma pessoa desprovida de talentos posso entender o quão difícil e tenebrosa é esta tarefa. Uma vez jogados no terreno do desejo alheio, como romper as amarras de dependência criadas? Como manter-se livre para criar, produzir, expor e demonstrar sem o peso da concordância e admiração do outro, que em última análise dá a medida do que chamamos sucesso?

Se o Latino resolvesse cantar música erudita, poderia? Seria perdoado? Seria aceito? O Roberto Carlos canta o que deseja ou o que sente que seu público exige dele? Quanta liberdade criativa existe naqueles em quem depositamos tanta expectativa? Paulo Coelho escreve o que quer, ou o que dele se demanda? Uma menina se apaixona mesmo por Justin Bieber, ou pela figura que ele representa? Como poderá ele saber?

Não estaria a verdadeira liberdade reservada apenas aos feios, pobres e desprovidos de excelência? Estes sim, podem escolher um amor sem que ele esteja contaminado pelos interesses, ofuscado pelo brilho fátuo da beleza ou misturado com a sedução dos talentos exuberantes. Só os feiosos tem certeza que o amor que recebem é verdadeiro. Só eles podem estar seguros de que seu amor é “dar algo que não se têm”.

Para os que escrevem, e aí o gancho que eu percebi no cotidiano, nada alivia mais do que decepcionar algumas pessoas. Assim libertos dessa pressão, é possível usufruir, mesmo que de forma limitada e parcial, um pouco de liberdade.

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A Princesa e as Escolhas

A princesa e seu cavalheiro

Então, a decisão para o galante cavalheiro foi pronunciada com severidade:

“Podes escolher entre estas opções, nobre senhor. Poderás ter a mais bela mulher de dia, para mostrar nas festas, para os visitantes, para os assuntos oficiais e para a corte. Por outro lado, terás uma mulher horrenda em tua cama, pegajosa e malevolente, por quem terás repulsa.

A outra opção também te será complexa: Poderás ter uma mulher horrenda e asquerosa durante o dia, que te envergonhará diante do reino inteiro, comportando-se como uma ogra nas festas, nas recepções e nos encontros com os signatários de outros reinos. Em compensação terás uma mulher linda, graciosa, meiga, sensual e carinhosa a compartilhar contigo os lençóis. Ela afagará teu cabelo, te dará conforto após as batalhas e pronunciará palavras de apoio diante de tuas angústias.

Agora tu tens o poder de escolher qual das duas faces desta maldição preferes: a mulher linda à luz do dia e perante os olhos de teus súditos, mas horrorosa quando o sol desaparece nas montanhas; ou aquela feia na luminosidade das horas mas delicada e desejável quando o véu da noite cobre a todos nós com seu breu.”

O nobre cavaleiro olhou para um ponto fixo no horizonte e depois de poucos instantes de reflexão respondeu:

A mim não cabe decidir sobre a vida de outrem. Se ela será feia ou bonita, desejável ou repugnante é uma decisão que só pode estar nas suas próprias mãos de princesa. A mim cabe apenas o direito de querê-la ou não. Não posso modificá-la diante do meu desejo, minhas ideias e minhas escolhas.

Respirou profundamente, olhou para aqueles que lhe dirigiram a palavra e completou: “Deixem que ela decida como a maldição se fará. Prefiro viver ao lado de uma princesa que seja capaz de decidir sobre sua própria vida.

E quando lhe foi oferecida a oportunidade de escolher como desejava ser perante seu amante o feitiço que nela habitava sumiu. Sim, de forma instantânea ele se foi, pois esta era a chave que a libertaria: o direito restituído de escolher o próprio destino e ser protagonista da própria vida. Liberta das amarras milenares do poder obliterante de uma cultura machista ela agora podia escolher seu caminho, fazer o que bem desejasse, dizer o que lhe viesse à mente, abrir seus lábios e beijar a quem seu desejo apontasse e amar aquele que seu coração abraçasse. Assim, solta, pôde finalmente seguir seu desígnio humano de cumprir com os mais altos fins de sua existência.

Fechando o livro, o velho olhou para os olhos do seu netinho e completou: “E assim ela viveu, feliz para sempre, mas não tenho sequer a certeza de que tenha se casado com o príncipe que a libertou. É possível, claro, mas é igualmente razoável que tenha até ficado só. E digo isso por uma única razão: o que aconteceu depois de cair o feitiço só ocorreu porque ela assim escolheu”.

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