Arquivo da tag: Religião

Ungida

Há um filme que idealiza a deputada gospel Flordeliz onde ela é descrita como um “ser de luz”, benfeitora e mãe amorosa de tantas crianças. Porém, hoje sabemos que ela e sua família estão muito longe disso. Então cabe a pergunta: se é possível transformar histórias criminosas em narrativas de superação e virtude que ocorreram somente há duas décadas, então imagine o quanto se distorce a realidade do que aconteceu há 2 mil anos, criando sobre fatos locais fantasias grandiloquentes que dizem muito menos sobre espiritualidade e muito mais sobre os interesses políticos, econômicos e de poder.

A blindagem de figuras históricas pelo manto da “espiritualidade superior” nada traz de construtivo para a sociedade, e para todas elas eu recomendo a iconoclastia.

A pastora recentemente envolvida em crimes diversos pode representar os evangélicos, não o Cristo. Deixem ele fora disso. O erro nessas tragédias é imaginar que uma crença, seja ela qual for, determina a moralidade do sujeito que a segue. Não é o que se observa. O crente não tem nenhuma vantagem ou privilégio na fila do céu.

Ser cristão, muçulmano, espírita ou ateu são, acima de tudo, identidades, usadas para criar laços, narrativas confluentes. A religião é como um idioma para que possamos falar das perguntas que a ciência jamais terá respostas, como o sentido da vida e a razão do universo. Entretanto, são na prática expressões dos códigos morais que apontam para os valores mais profundos da sociedade.

As religiões abrahâmicas (cristianismo, islamismo e judaísmo), por exemplo, são estruturas criadas para dar sustentação ao patriarcado nascente, fortalecendo a coesão social das sociedades agriculturais partir da rigidez da estrutura falocrática. E funcionaram muito bem para isso.

O cristianismo se insere nesse modelo, como religião surgida da releitura reformista do judaísmo. Não existe nada no cristão, do ponto de vista moral, que o diferencie de qualquer outro sujeito no planeta, inclusive aqueles que negam qualquer afiliação religiosa.

Mas, a única diferença é o olhar que a sociedade lança aos “pecadores”. A pergunta que hoje se faz àqueles que (com justiça) dizem que a conduta de Flordeliz nada tem a ver com seu cristianismo é: e se ela fosse do candomblé, poderíamos dizer o mesmo? E se fosse muçulmana, estaríamos limpando a barra do profeta Maomé? Se ela fosse budista nossas palavras seriam direcionadas à proteção de Buda e seus ensinamentos?

Ou estaríamos condenando ela assim como as suas crenças e sua religião como obras demoníacas, criadas para desvirtuar e destruir?

Pois é…

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Terraplanismos

Mais de uma pessoa da minha bolha de mídia social olhou para o cartaz abaixo e observou que os palestrantes são todos homens. A insinuação é clara: só homens são estúpidos o suficiente para acreditar em terraplanismo.

Eu iria mais adiante: são todos brancos e heterossexuais; alguém explica? Assim sendo, por esse fato relevante e incontestavel, podemos afirmar a superioridade moral e intelectual de mulheres, negros e gays sobre a escória planetária: homens brancos heterosexuais.

Certo?

Eu ia puxar a lista de prêmios Nobel do ano passado, onde a imensa maioria é feita de homens também. Isso significa que…

Significa que preconceito de gênero tem duas mãos e que a existência de “opressores e oprimidos” não impõem que usemos as mesmas armas que causam e mantém a opressão sobre determinados grupos. Insinuar que os homens são mais idiotas e as mulheres mais sábias – e vice-versa – apenas mantém vivo e resplandecente o preconceito e o olhar negativo sobre o “gênero de lá”, o outro, o que “não somos nós”.

É possível fazer crítica de gênero sem essencialismos morais ou intelectuais. É possível criticar de forna insistente e intensa o preconceito com as mulheres cientistas – por construções históricas do patriarcado – sem insinuar que mulheres são mais inteligentes (ou menos ignorantes) que seus parceiros homens. Fica a questão: por que é tão difícil assumir que somos iguais nesse terreno? Por que seria preciso diminuir o outro gênero para enaltecer o nosso?

Os estudiosos da terra plana (sim, eles estudam o tema) podem estar errados e confusos sobre suas crenças, mas não o fazem por serem homens, mas por serem crédulos, e a credulidade não ataca apenas portadores de cromossomas Y.

A tolice e a excelência – ao que tudo indica – tem uma distribuição bem democrática na nossa espécie. Por esta razão vejo com igual gravidade tais manifestações preconceituosas e as antigas piadas que associavam a burrice com a tonalidade do cabelo de algumas mulheres. Não vejo sentido em continuarmos a estimular tais comportamentos.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Notre Dame

Em apenas dois dias 1 bilhão de euros foram arrecadados para consertar e reerguer uma igreja na França. Peço que imaginem o quanto isso ajudaria a minorar o desespero dos desabrigados no Haiti ou Moçambique em seus recentes desastres. Entretanto, a morte de negros miseráveis não afeta o coração destes ungidos. O êxtase da exaltação artística é mais importante que a dor e a morte dos excluídos.

Notre Dame é um ícone da religião é do catolicismo francês, mas também do colonialismo cruel da Europa durante séculos. Talvez esse segundo ponto seja o que nos leva a preservá-la e reergue-la, mais do que os aspectos místicos e religiosos. Precisamos preservar os símbolos da dominação branca no mundo e a velocidade dos milionários brancos para recuperar esta obra nos mostra como somos ágeis quando nosso poder precisa ser reforçado.

E não se trata de contrapor uma coisa à outra. Arte é essencial, assim como a fé das pessoas precisa respeito. Todavia, morte, fome, frio e doenças são muito mais importantes e a escolha feita pelos bem nascidos serve para nos mostrar como funcionam as prioridades no capitalismo desumano e racista.

Deixe um comentário

Arquivado em Política, Religião

Espiritismo careta

Uma análise profunda da idolatria que se estimula no cenário espírita brasileiro é uma tarefa urgente a ser realizada pela Academia. Desde figuras populares como Zé Arigó, Chico Xavier até Divaldo Franco que percebemos um traço marcante no espiritismo cristólatra brasileiro: ele sempre foi pródigo na criação de “gurus”, líderes carismáticos que repetem discursos conservadores e moralistas. São comuns os textos carregados de uma visão superficial e maniqueísta da espiritualidade e da reencarnação, cheios de prescrições de evolução espiritual que criminalizam a luta política e a livre expressão da sexualidade, entendidas assim como “desvios obsessivos”. Em verdade, mais do que um achado ocasional, este é o padrão das publicações espíritas.

A adesão de Divaldo Franco – famoso tribuno espírita e médium – à barbárie jurídica lavajatista empresta um apoio fundamental aos tribunais de inquisição que se transformaram as côrtes de Curitiba, com o intuito de atingir a esquerda e os movimentos populares. Por outro lado, esta simpatia do líder espírita mostra a verdadeira face alienada e subserviente da baixa classe média ressentida que constitui seus seguidores.

O espiritismo institucional mais uma vez adere ao conservadorismo moral e político tacanho que sempre o caracterizou – basta lembrar as falas reacionárias de Chico Xavier sobre a ditadura militar de 64. Alia-se ao poder econômico, às elites, aos conservadores, ao judiciário partidário e aos golpes sucessivos à nossa democracia.

Corremos o risco de não ver no futuro nenhuma diferença significativa entre as monstruosidades de Malafaia, Edir e Feliciano e alguns líderes espíritas alinhados com o atraso, o preconceito e a mistificação. Aquela doutrina que, ao descortinar a reencarnação como processo de depuração espiritual, se apresentava como revolucionária e progressista, em verdade se mostra como mais uma seita cristã atrelada aos privilégios, ao moralismo, à tradição (escravista), à família (falocêntrica) e à propriedade (intocável).”

Que Deus tenha piedade de nossas religiões.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Religião e conservadorismo

As mensagens de espíritas preocupados com a ascensão do fascismo e com a popularidade de um candidato* que elogia torturadores só fazem sentido porque historicamente a cúpula do espiritismo nacional é reacionária e autoritária. De Chico a Divaldo, passando pelos generais da FEB (Federação Espírita Brasileira), nunca tivemos um espiritismo brasileiro que não fosse próximo e admirador dos poderes instituídos – da ditadura à lamentável “República de Curitiba”. As demonstrações de afeto de Chico com a ditadura de 64 e de Divaldo com a turma de magistrados que golpearam a democracia estão acima de qualquer dúvida.

Com exceção das religiões de matriz africana – umbanda, candomblé, nação – as grandes religiões brasileiras são dos colonizadores: religiões brancas, de classe media, burguesas e conservadoras, incluindo-se aí o espiritismo. Nas três décadas em que circulei pelo universo dos espíritas brasileiros nada reconheci de diferente dos modelos de outras seitas cristãs. O mesmo moralismo, um machismo sutil, meritocracias, hierarquias, aristocracias, espíritos “do bem” – semelhantes aos “cidadãos de bem” deste plano – culto às personalidades, entidades das “trevas”, seres angelicais, uma crítica sistemática à livre expressão da sexualidade, um culto à “família patriarcal” e um número sem fim de informações subliminares que nos conduziam a reconhecer os “espíritos superiores” como a elite branca e aburguesada da nossa sociedade.

Para além disso convivi com o ufanismo infantil propagado entre os espíritas pela obra “Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho” (sobre ela escrevi aqui) que descrevia o nosso país de 60 mil homicídios por ano, assassinatos de transexuais, feminicídios e estupros incontáveis e a distribuição de renda mais perversa do hemisfério sul como “a nação escolhida por Jesus para carregar no coração sua mensagem de amor“.

As religiões são construções humanas e refletem seus valores e crenças. Uma “religião” como o espiritismo (que segundo o próprio Kardec não é, mas se expressa como se fosse), surgida no seio da classe média brasileira, obrigatoriamente viria a refletir sua visão de mundo e suas perspectivas. A umbanda, nascida do sincretismo entre o cristianismo e os ritos africanos, surgiu na marginalidade (à margem) da classe média do país, trazendo para o seu seio as populações pobres, negras, os homossexuais e os desvalidos. Se existem cultos no Brasil que têm a nossa cara e nosso jeito, sendo representante dos mais elementares valores populares, estes são os afro-brasileiros.

Inobstante a mensagem espírita pretender-se mais moderna e abrir espaço para a permeabilidade de seus postulados com a ciência, seu veículo – a classe média branca e urbana – acabou lhe conferindo um aspecto conservador e moralista que em nada se diferencia das seitas cristãs em nosso meio. Não é de surpreender, portanto, que meus amigos espíritas de ontem venham hoje a abraçar as bandeiras conservadoras, em um direitismo que se aproxima do antipetismo mais radical e onde suas ideias encontram eco nas palavras do inominável líder fascista.

A modernidade da “fé raciocinada” que Kardec propunha esbarrou na caretice de quem levou adiante suas propostas. Infelizmente, o espiritismo jamais conseguiu mudar a imagem conservadora e moralista do cristianismo tupiniquim.

* Esse texto foi escrito ainda quando Bolsonaro era candidato

2 Comentários

Arquivado em Religião

Vacinas e Religião

É impressionante como nos Estados Unidos o debate sobre os perigos e as inconsistências das vacinas é aberto e franco. As conferências reúnem milhares de pessoas de várias partes do país, com a presença de médicos, professores, bioquímicos, pais de crianças prejudicadas, pesquisadores e políticos. Entender a vacinação – seus riscos e benefícios – é um assunto sério e que mobiliza muitas pessoas. No Brasil o assunto é tratado com o mais completo escárnio e deboche. Questionar a validade da vacinação é tratado como “negacionismo” e as pessoas que o fazem são colocadas ao lado de sujeitos que negam o holocausto e os terraplanistas. Os pouquíssimos profissionais da saúde que ousam questionar e decidem apontar os perigos e os riscos evidentes da injeção de tantas substâncias perigosas e não testadas são levados ao ostracismo, quando não francamente perseguidos.

Falta muito ainda para tirarmos a religião de dentro da ciência. Vacinas são crenças de caráter religioso. Se elas funcionam ou não, ou se os malefícios encontrados são graves o suficiente para interromper seu uso, é uma outra questão. Todavia, a vinculação que temos com elas é de caráter dogmático e irracional. Elas ocupam o lugar das comunhões religiosas do passado: para ser aceito em uma determinada comunidade é preciso passar por um ritual de aceitação dos seus pressupostos básicos. Ontem, o batismo no cristianismo; hoje as vacinas no cientificismo.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Religião

Deus

O erro se mantém em várias discussões na internet sobre a existência ou não de Deus: a ideia de que o ateísmo é uma postura superior, intelectual e racional quando na verdade ser teísta ou ateu não tem nada a ver com a racionalidade do sujeito porque nenhuma das posições é conquistada através da razão. Ambas tentam oferecer hipóteses sobre o desconhecido. Um teísta não precisa acreditar na Bíblia ou nas alegorias de quaisquer outras crenças; precisa apenas crer em uma teleologia cósmica e em um sentido universal.

Já um ateu necessita tão somente não enxergar nenhum sentido e crer no acaso. Mas nada disso fala da inteligência do sujeito e estas sequer são “escolhas” verdadeiras. São sentimentos profundamente arraigados no sujeito sobre o qual ele não tem nenhum controle racional.

Outro erro: confundir teísmo com religião, duas coisas absolutamente diversas. Eu, por exemplo, sou teísta e não tenho nenhuma religião há mais de 30 anos.

Essa é, em verdade, uma discussão que pertence ao século XIX e só foi ressuscitada por “religiosos fundamentalistas” como Richard Dawkins e outros. Seu proselitismo ateísta é uma chatice e uma manifestação de fundamentalismo ao nível do Estado islâmico. A ideia infantil de que a religião é o “mal do mundo” não se sustenta logicamente e demonstra profundo desconhecimento dos sentidos últimos das religiões, além de suscitar debates tolos que produzem confusão e extremismos.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Religião

Sou cada vez mais interessado pelo verdadeiro sentido sociológico da religião, que não é a prática do bem, da caridade, a crença na vida após a morte ou nas bem-aventuranças. Religião me parece cada vez mais um idioma; uma linguagem. Um código complexo e detalhado onde colocamos nossos valores contemporâneos e os inserimos entre as palavras escritas.

É por esta razão que os textos sagrados são tão longos, complexos e dúbio – por vezes contraditórios. Eles são assim com um propósito: permitir a entrada de inúmeras visões de mundo, mesma as que são antagônicas. É possível ter opiniões diametralmente opostas e usar a Bíblia ou o  Corão para embasá-las.

Religião não é um lugar de onde tiramos conceitos, mas onde os colocamos. Por isso ela muda no tempo e no espaço. A religião, portanto, é uma identidade compartilhada, que funciona para agregar as pessoas em nome de ideias, valores e histórias comuns.

Edward McDuffie,  “The gates to Nowhere”, Ed. Printemps, pág 135

Deixe um comentário

Arquivado em Citações, Religião

Invasão Fascista

É verdade que a decisão sobre o aborto acaba sendo tomada por um punhado de homens brancos, burgueses e ricos que conhecem as clínicas clandestinas “classe A” para levar suas mulheres, namoradas, filhas ou amantes. Esta decisão nunca está na mão da mulher negra e pobre que será submetida ao risco e à indignidade das agulhas, pílulas do mercado ilegal e dos aborteiros da favela.

Entretanto, muitas dessas mulheres votaram no pastor sedutor e no empresário falastrão, os mesmos que agora roubam sua esperança de dignidade e segurança na atenção à saúde. Só existe uma forma justa de mudar esse cenário: encarar a invasão da direita fascista evangélica como uma real ameaça às mulheres e seus direitos.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Política

Massacres

O atirador da semana no Texas, que matou 26 pessoas ontem, era professor de estudos bíblicos na sua Igreja, o que nos indica que a religião – qualquer uma – não torna ninguém melhor ou mais pacífico. A chance de um psicopata ser ou não religioso e devoto é aleatória. Não é segredo que entre os mais fervorosos adeptos de religiões cristãs estão apoiadores da pena de morte, da diminuição da maioridade penal e do deputado genocida e misógino Bolso*.

A religião não tem o poder de mudar ninguém. Se pode mudar as aparências e (por algum tempo) o comportamento ela é incapaz de transformar a essência do sujeito. Ela serve como um refúgio de ilusórias certezas em um mundo de dúvidas e inconstâncias.

1 comentário

Arquivado em Violência