É muito comum ver as análises morais dos jogadores e técnicos serem feitas à posteriori, ou seja, adaptamos os valores morais dos personagens aos fatos depois que estes ocorreram. A vitória ou a derrota nos fazem enxergar a moralidade dos nossos representantes de forma diversa ou mesmo antagônica. Todos se arvoram à condição de “experts” em comportamento humano, e até uma monja – com qualificações desconhecidas no futebol – faz críticas mordazes e severas ao técnico da seleção.
Por isso, somente depois do fracasso, conseguimos observar o quanto Tite é insensível assim como só agora vemos como é absurdo o salário astronômico que nossa neurose paga aos jogadores. Só agora acordamos para a covardia dos nossos diante das decisões em campo. Tudo isso teria sido esquecido bastando para isso acertar dois pênaltis.
Ao mesmo tempo nosso espírito macunaímico descobre em menos de 24 horas declarações impressionantes de humildade que partem de gente como Messi e outros jogadores vencedores, muitas delas criadas pela equipe de relações públicas que os assessoram. Mostramos gestos do craque argentino e os interpretamos como sinais de enfrentamento ao imperialismo, mesmo quando chegam de um craque que vive às custas do dinheiro europeu há 20 anos. Além disso, passamos pano para o deboche que os hermanos submeteram os holandeses após o jogo. “Ahhh, é do jogo…”
Como eu disse, é compreensível é até lícito tentar colocar as derrotas em linhas lógicas de causalidade; achar causas para fatos é um efeito inescapável do crescimento encefálico, do qual não podemos nos livrar. Porém, deixar-se levar pelas emoções depressivas é ficar refém da paixão, a qual não nos permite enxergar uma rota segura de vitórias no futuro. Acreditar que perdemos porque Neymar e os demais jogadores são ricos, e o Marrocos chegou às quartas porque seus jogadores são pobres e patriotas é se perder na superficialidade dos fatos. E as demais explicações (Messi é humilde, Argentina tem raça, Messi é vencedor, Marrocos tem liderança, França só tem sorte, Inglaterra sendo Inglaterra, Croatas tem amor ao seu país, etc.) também são carregadas de emocionalidade e lhes falta conexão com a realidade.
Não cobro racionalidade ao tratar de uma elegia à irracionalidade como é o futebol. Da mesma forma não peço aos amantes que usem a razão quando o fogo das paixões lhes consome os sentidos. Peço apenas calma, em ambas as situações. Muitas tragédias acontecem quando deixamos de lado a maior conquista da nossa trajetória humana: esta fina camada de matéria cinzenta que envolve nosso cérebro e nos confere a razão.
Wokismo é um neologismo (e um anglicismo horroroso) que pode ser traduzido como “alerta”, “acordado” ou “consciente” e começou a ser utilizada no enfrentamento dos negros contra o racismo, mas passou também a designar as políticas progressistas que tratam de gênero, identidade e orientação sexuais, assim como os direitos trans. Apesar de sua aparência progressista é um movimento conservador, cujas disseminação e alastramento ocorreram por obra da CIA e do partido Democrata americano, que o exportam para várias partes do mundo com o objetivo de sabotar a união popular, dividir a luta proletária e fragmentar a frente anti imperialista e anti capitalista.
O wokismo foi motor das primaveras árabes, sendo utilizado no Irã (aproveitando-se de uma tragédia recente), em Israel (no pinkwashing) e no Afeganistão (onde garantir escola às meninas é mais importante do que desfazer a rede de prostituição e pedofilia acobertada pela invasão do exército yankee) fazendo o colonialismo genocida ser vendido como “defesa dos direitos humanos e pela diversidade”, mesmo que sua ação destruidora contenha apenas morte e submissão.
Não é por acaso o esforço e a quantidade imensa de dinheiro que o IREE, NED, irmãos Koch, Open Society de George Soros e outros órgãos do imperialismo empregam na captação, treinamento e formação de quadros oriundos de movimentos identitários. Também é prática frequente atacar pensadores progressistas e do campo da esquerda revolucionária através de seus códigos morais rígidos, produzindo cancelamentos e linchamentos de reputação. Como exemplo recente do significado amplo do wokismo podemos citar as críticas mordazes ao intelectual Boaventura Souza Santos encontradas no Twitter. Ele é um dos raros intelectuais europeus que se posicionou abertamente contra as ações do “Otanistão“, acusando o imperialismo americano de patrocinar a guerra fratricida na Ucrânia…
…. mas, “infelizmente não passa de um machista. Afinal, não cita mulheres em seus trabalhos, ou pelo menos não as cita na quantidade que deveria, segundo nossos critérios. Cancelem-no. Apaguem suas palavras”. Desta forma, sua importante voz contra o imperialismo assassino e armamentista é eclipsado por uma crítica moral sobre sua relação com a produção intelectual feminina.
Plim!! Ponto para o Tio Sam!!!
Cabe sempre lembrar que combater o identitarismo e o wokismo não significa desprezar as lutas anti racistas, anti machistas, contra a transfobia e a misoginia, dramas que ainda são prevalentes em nossa sociedade. Muito pelo contrário, significa reforçá-las e acrescentar a elas um claro elemento de enfrentamento à gênese dessas chagas sociais: a expropriação do trabalho pelo capital.
O combate a estes “mísseis imperialistas” jogados por drones de propaganda no seio da esquerda, travestidos de diversidade, é uma obrigação da esquerda raiz, e um objetivo claro para todos aqueles que desejam a unificação dos trabalhadores. Lutas identitárias sem consciência de classe são artifícios divisionistas que, ao fim e ao cabo, fazem um branco miserável e explorado ser odiado por um negro, ambos em igual condição depauperada e vítimas da mesma sociedade desigual, desumana e capitalista. Desunidos e fragmentados em infinitas identidades serão, por certo, muito mais facilmente controlados.
Recebi pela terceira vez esta semana pedidos para me unir aos esforços para combater o regime “misógino” do Irã.
“Os EUA, a União Europeia, o Reino Unido e o Canadá impuseram sanções a algumas instituições e líderes iranianos em decorrência das violações aos direitos humanos, mas muito ainda precisa ser feito!”
Essa propaganda chegou ao meu e-mail, enviada por estes grupos de “defesa” das populações oprimidas. Usa o mesmo artifício retórico das sanções contra a China por sua política que ataca os Uigur, tentando mostrar que o governo chinês – diferentemente do que ocorre no ocidente – é composto por bandidos que não respeitam os direitos humanos. Quando vamos pesquisar com cuidado e atenção, percebemos que as acusações são falsas ou criminosamente retiradas do contexto.
Mais uma vez o que se vê o identitarismo sendo usado para a desestabilização dos países não alinhados e rebeldes. É apenas asqueroso ver o uso que se faz de causas justas, como a defesa das mulheres, dos negros e dos gays, para angariar a simpatia de muitos ao redor do mundo, quando sabemos que o real objetivo é atacar os países que ousam enfrentar a crueldade do Império Americano.
Será tão difícil assim perceber que estes são movimentos coordenados para atacar o Irã – um país anti imperialista – para iniciar uma nova “Revolução Colorida”, uma “Primavera em Teerã”, cujo único objetivo é desestabilizar o governo local? Basta uma pesquisa rápida para entender que as mulheres estão sendo (mais uma vez) usadas para levar adiante um ataque do Império às nações “desobedientes”. Por que não iniciamos sanções aos Estados Unidos, onde 220 mil mulheres estão presas, numa população carcerária de mais de 2.3 milhões de prisioneiros, mais de 50% não brancos, em uma população onde eles são minoritários? Por que não iniciamos campanhas para punir os Estados Unidos pelo estímulo à guerra fratricida entre Rússia e Ucrânia? Por que não culpabilizamos o imperialismo do Otanistão pela crise dos imigrantes, pela Guerra na Síria, pela destruição da Líbia, pelos massacres sionistas em Gaza?
Por que escolhemos exatamente o Irã, e por que agora? Sim, no exato momento em que este país formaliza o desejo de se juntar aos BRICS para se juntar aos países já alinhados e formar um enorme bloco de oposição ao Imperialismo, os ataques ao país se tornam mais intensos, sempre baseados em questões morais, como a “defesa das mulheres”. Aqueles que se juntam a estes protestos são os mesmos que choravam com a vitória do Talibã em solidariedade às mulheres e meninas daquele país, sem se aperceber que muito pior é a dominação imperialista no país e suas inúmeras acusações de execuções, prostituição e a rede de pedofilia que foi liderada (ou tolerada) pelos americanos no país.
Por pior que seja o Talibã, nada pode ser pior que o domínio de uma potência cruel e destruidora como o Império Americano. Se nos Estados Unidos quase 20 mil mulheres das Forças Armadas americanas foram abusadas sexualmente por seus colegas apenas no ano de 2010, o que dirá das mulheres e suas filhas que vivem nos países brutalmente ocupados pelo exército americano invasor? Vamos cair de novo nessa armadilha montada para destruir o sonho de um mundo multipolar?
Pelé e Lula na Comemoração do cinquentenário do primeiro mundial (1958)
Já é possível sentir o bater de asas dos abutres esperando o Pelé morrer para despejar seu racismo em forma de críticas morais ao Rei do Futebol. Não é fácil para o Brasil Branco exaltar um Rei Negro. Nunca o aceitaram, e não será agora. Agora nas redes, e do alto de sua pureza moral, identitários estão postando críticas à vida privada de Pelé, numa tentativa de destruir a imagem do maior ídolo do esporte mais importante do planeta.
Sempre que eu escuto a narrativa da filha é nítido que aqueles que a contam não conhecem a história toda e estão fazendo críticas baseadas em meias verdades, mentiras e fofocas. Poucos se dão ao trabalho de escutar os dois lados do enredo. Mas antes desse episódio Pelé já era atacado por “não ajudar Garrincha” – sendo desmentido por Elza Soares – ou de “não ter ido ao seu enterro“, como se cuidar do craque das pernas tortas (que jamais foi seu amigo) fosse sua obrigação. Sempre existiu uma enorme patrulha sobre quaisquer atos de Pelé, como se o fato de ser negro e famoso lhe conferisse uma dívida com os brancos que permitiram a sua notoriedade.
Quando Pelé dedicou o milésimo gol às crianças, naquele jogo emblemático no Maracanã contra o Vasco, foi porque não passava de um ingênuo que estava fazendo demagogia. Quando levou o nome do Brasil para todo o mundo, sendo eleito o maior atleta do século XX e patrimônio da humanidade, o fez apenas por dinheiro. Se foi o maior jogador do mundo é apenas porque “naquele tempo era mais fácil”, mesmo que as agruras do futebol violento a que foi submetido nos anos 60-70 fossem inimagináveis quando comparamos com o que é praticado nos dias de hoje.
Em verdade os ataques a Pelé muito se assemelham às agressões sofridas por Lula desde que este se destacou como líder no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC Paulista. Quando Lula ressaltou a importância de dona Marisa na criação do PT em seu velório foi atacado por estar fazendo comício sobre um corpo já sem vida. Se Lula vai a um restaurante caro é um “comunista gourmet”, mas se faz um piquenique com dona Marisa e carrega um cooler de isopor na cabeça é porque não passa de um populista criando um personagem. Quando Lula visitou um apartamento, sem jamais ter a posse do mesmo, foi caçado impiedosamente por uma horda de promotores fanáticos e um juiz corrupto.
A verdade é que, inobstante o que façam, Pelé e Lula jamais serão aceitos pela burguesia deste país exatamente por serem quem são: representantes das camadas populares, do povo pobre, dos descamisados, dos negros, dos operários, dos mulatos, nordestinos e retirantes. Ídolos dos torcedores cuja alegria máxima é o gol e heróis para os pobres que sonham com uma vida digna para sua família. Não há perdão para os ídolos que, emergindo das camadas inferiores da sociedade, tornam-se ícones planetários por suas habilidades, seja no esporte ou na política.
Não terei pena daqueles que resolverem tripudiar sobre o corpo frágil do Rei do Futebol, o atleta máximo do século XX, o maior gênio que o esporte já criou neste planeta. Eu me impressiono muito com o esforço imenso que algumas pessoas fazem para odiar Pelé. Pois eu digo: odeiem o Chico Buarque também. Apesar de ser branco, se procurarem bem vão achar alguma razão para ele ser cancelado. Vamos, sei que imaginação não lhes falta.
Raros são os grandes pensadores agraciados com a reverência e o respeito durante o transcorrer de suas curtas vidas. Entre eles meu pai sempre citava François Marie Arouet – Voltaire, que viveu em uma época turbulenta, no final do século XVIII, quando o nascimento da idade contemporânea estava prestes a ocorrer, e os estertores da idade moderna foram, por certo, precipitados por sua obra. Voltaire acreditava no valor superior da liberdade, única estrutura social que capacitaria o ser humano a expressar plenamente sua criatividade, sem sofrer interferências de caráter religioso ou moral. Voltaire muito escreveu contra o absolutismo e a favor da separação entre Igreja e Estado, ou seja, muito antes que essa ideia fosse disseminada ele pregava o Estado Laico. Acredito que essa ideia partiu da paixão que teve na Holanda por uma moça protestante, e o posterior ataque que sofreu por parte da Igreja, apenas por seu desejo de casar-se com ela. Desde então teve uma escrita muito dura com os poderes da Igreja pois, para ele, calar a expressão do contraditório seria um crime contra a livre expressão do pensamento, e um atraso para o progresso humano. Por isso merece nossa total reverência.
Todavia, ele era um galanteador incorrigível e alguém que teve uma vida cheia de fatos questionáveis, como sua relação com o comércio de escravos, jogos de azar e calúnias contra adversários, fatos que o levaram à prisão três vezes e o obrigaram ao desterro outras duas. Segundo Marilena Chauí os professores em sua época o classificavam como “Um rapaz de talento mas um patife notável”. Aliás, entre os vícios de Voltaire estava o consumo de café. Tomava 20 copos por dia, e chegou a beber 40 copos em uma ocasião.
Tivesse nascido hoje seria odiado pelo que é, e adorado pelo que escreveu. Estaríamos debatendo autor e obra, e muitos torceriam contra Voltaire pelo que ele foi, mesmo às custas de desprezar suas ideias sobre o valor primordial da liberdade. Qual seria hoje a opinião de Voltaire sobre a censura às redes sociais? Que diria ele sobre “discurso de ódio”, ou “liberdade plena de expressão”? Qual seria a recepção que teria do público? Seria “cancelado”? Creio que sim…
Apesar de ter um comportamento muitas vezes reprovável, Voltaire conseguiu ser admirado e desfrutou de sucesso pessoal ainda em vida. Todavia, esta é uma marcada exceção não apenas em sua época, mas na própria história da humanidade. A genialidade quase nunca oferece a notoriedade como prêmio. Os verdadeiros gênios precisam entender que os louros de sua obra serão inexoravelmente colocados sobre as lápides onde repousam para a eternidade. A glória de sua obra, via de regra, não é algo que conseguem usufruir.
Sigmund Freud teve muito pouco tempo de reconhecimento em vida, algo incomparável com o nível de rejeição e desprezo que sofreu das forças conservadoras da sociedade, em especial a corporação médica. Charles Darwin morreu solitário, tendo passado duas décadas trancado em sua casa, sem contato com o exterior, remoendo-se de tristeza pelos ataques que sofreu da Igreja. Galileu Galilei foi julgado, condenado à morte e, depois de sua famosa reconsideração, foi condenado à prisão domiciliar por heresia, onde morreu solitário e isolado. Apenas 360 anos após sua condenação, em 1992, as ideias do pensador italiano foram admitidas formalmente pelo Papa João Paulo II.
Nikola Tesla muito pouco auferiu de reconhecimento durante a sua vida; morreu pobre e pouco conhecido. Friedrich Nietzsche faleceu pobre, doente e ressentido. Sofrendo de transtornos mentais derivados, provavelmente, de sífilis terciária não tratada, ele morreu solitário aos 56 anos de idade, depois de quase uma década de vida vegetativa. Mas o próprio Nietzsche dizia que o verdadeiro gênio só tem sua obra reconhecida um século após sua morte. Em verdade, foi exatamente isso que aconteceu a ele. A verdadeira genialidade, aquela revolucionária e capaz de fazer transformações paradigmáticas na cultura, é irreconhecível aos olhos desarmados na época em que surge. Nos parece bizarra, estranha, ofensiva e, portanto, inaceitável. Somente após a lenta sedimentação dos seus valores e a incorporação das suas ideias mestras pela cultura é que o brilho escondido dos gênios pode se expandir.
Exigir a compreensão imediata de ideias que ofendem os paradigmas vigentes é uma aptidão para muito poucos. A maioria de nós prefere refugiar-se no conhecido, no certo, no comprovado e no seguro, ao invés de aventurar-se no novo, no desafiador e nas alternativas que nos fazem correr o risco inexorável que acompanha as verdadeiras novidades. As grandes mentes da humanidade sofrem da compulsão por romper estas barreiras, e bem o sabem o quanto destas ações serão incompreendidas e atacadas. Entretanto, fazem, e erram, e repetem, e continuam até que possam encontrar – mesmo que temporariamente – uma resposta que poderá – também por algum tempo – acalmar sua angústia.
As mudanças não ocorrem, são paridas lentamente através das contrações espasmódicas do pensamento humano. Para aceitá-las é necessário que exista um fator essencial: o tempo, que poderá digerir o conhecimento novo para que possa ser metabolizado com segurança por todos nós.
”The Doctor”, 1891; Samuel Luke Fields (1844-1927), Óleo sobre tela, Galeria Tate – Londres. (*)
Qual a razão da crescente insatisfação de tantos pacientes com os abusos cometidos por uma medicina cada vez mais alienante, técnica, fria e desumana, onde a intervenção e o uso de drogas assumem a característica mais marcante dessa atuação? Hoje em dia a cena ancestral do médico compassivo, atencioso, dedicado e atento que, ao lado do leito, anota em silêncio as queixas e sinais dos enfermos, dá lugar aos exames, as cirurgias e as drogas, alienando progressivamente o paciente de sua própria cura.
Quando os médicos atuam de forma abusiva – em especial no parto, onde a intervenção se tornou a regra e a fisiologia ocorrência rara – assim o fazem para garantir a sua proteção, e não por serem pérfidos, interesseiros ou ignorantes. Se um médico resolve esperar diante de um impasse clínico e algo inadequado ocorre a culpa será invariavelmente considerada sua e, a partir de então, sua vida se tornará um inferno com os ataques que surgirão da própria corporação. Por outro lado, se ele intervém e o paciente – como resultado da intervenção – tem algum problema grave (ou mesmo vem a óbito) a responsabilidade se dilui, e a perspectiva que sobressai é de que o resultado funesto foi devido ao risco natural e inexorável de qualquer procedimento, o qual ocorreu apesar do tratamento médico adequado. Isso porque a tecnologia é um mito, e por isso não pode ser jamais questionada.
A isto costuma-se chamar de “imperativo tecnocrático”, que determina que a existência de tecnologia para tratar um determinado caso obriga a sua utilização, mesmo que os resultados desta intervenção não sejam comprovadamente melhores, e aqui a cesarianas ocupam um lugar de destaque como grande exemplo deste tipo de tendência. Muito mais do que evidências científicas, a profissão é levada a agir por defesa, aumentando gravemente os riscos para os pacientes – mesmo que os diminua para os médicos.
Ou seja, o uso de tecnologia vai sempre blindar o médico, dar-lhe segurança e oferecer a ele proteção profissional. Na obstetrícia, as cesarianas são “salvo condutos” para garantir segurança aos profissionais. Raríssimos médicos são processados por cesarianas abusivas mas qualquer um que ouse atender partos, mesmo quando dentro de parâmetros reconhecidos no mundo inteiro, incorre em sério risco profissional. A escolha pelo tratamento mais seguro para si é compreensível em qualquer profissão – médicos não são kamikazes – apesar de não ser justificável sob qualquer parâmetro ético; médicos atuam sob o signo do medo e sabem o quanto um mau resultado pode destruir uma carreira tão arduamente construída.
Desta forma, não são os médicos que precisam mudar; é a própria sociedade, seus valores, seu sistema jurídico, sua mídia, seu sistema de saúde e os próprios pacientes, que invariavelmente não vão titubear em deslocar a dor e a frustração de uma perda para a pessoa do médico, em especial quando a postura deste é contra-hegemônica e agride o modelo tecnocrático e intervencionista da medicina capitalista. Imaginar que a mudança na atenção é uma responsabilidade dos médicos é injusto e inútil; eles apenas fazem a Medicina que a sociedade lhes solicita e autoriza. Para mudar a atenção à saúde é necessário suplantar o capitalismo e transformar a Medicina, para que ela deixe de ser mercantilista e baseada no lucro das grandes corporações, e passe a ser um sistema de cuidados centrado na pessoa, e não nos ganhos obtidos com a doença.
Só então poderemos constatar que, quando a sociedade se transforma, os médicos (juízes, advogados, políticos, policiais, bombeiros, militares, etc) se transmutam como consequência. Porém, essa mudança é dialética, pois que o exemplo de alguns profissionais também vai moldar a forma como a sociedade enxerga os evento da atenção à saúde, gerando assim mais consciência, que por sua vez será agente de transformação. Não existe, portanto, justificativa para que os médicos não se mobilizem para que a sua ação médica seja impulsionadora da mudança.
A prática médica é a síntese dos valores da sociedade onde atua, não sua causa precípua. Sociedades violentas produzem uma medicina truculenta e intervencionista; nas sociedades baseadas na paz e na democracia a Medicina vai fomentar uma saúde centrada na pessoa e na responsabilidade compartilhada entre cuidador e paciente. Entretanto, sempre devemos cobrar dos médicos que compreendam a verdadeira amplitude de sua ação social, e não se permitam sucumbir às pressões desumanizantes a que são submetidos.
(*) O quadro nos remete a um momento dramático na vida do pintor Samuel Fields. Nele está retratada a morte de seu filho na noite de Natal do ano de 1877, mas também está expressa a homenagem ao médico, atento, circunspecto e prestativo, que assistiu seu filho até o derradeiro momento quando, por fim, a vida do menino evadiu-se do corpo. Na imagem podemos ver seu estúdio, os móveis, o ambiente lúgubre que aguardava o desfecho mórbido, o desespero da mãe e o olhar apático do pai – o próprio Samuel. Apesar de ser uma imagem que nos remete ao dramático e trágico da existência ela igualmente nos mostra que a função do médico não é “curar os doentes”, mas estar ao seu lado, aliviando as dores e sofrimentos, curando quando for possível, mas sendo sempre a mão fraterna a oferecer o cuidado – o elemento ancestral que nos transformou em humanos.
Mais do que um cantor cubano de músicas românticas e com sonoridades magníficas, Pablo Milanés era um artista de raro talento e múltiplas facetas. Pablo nasceu em 24 de fevereiro de 1943 em Bayamo, capital da província de Granma, uma das maiores cidades da região do Oriente da ilha. Pablo era filho de um soldado chamado Ángel Milanés e sua mãe, uma costureira na cidade, se chamava Conchita Arias.
Diz-se que sua mãe exigiu que a família se mudasse para Havana para que Pablo tivesse mais oportunidade de estudo, e a partir daí passou a frequentar o conservatório de música. A década de 1950 do século passado foi considerada por muitos como a fase de ouro da música cubana, com grandes músicos e intérpretes despontando inclusive na cena artística dos Estados Unidos. Nesta sua ida para Havana ele aprendeu piano com os grandes artistas da época, explorando harmonias e tonalidades que marcaram seu estilo musical.
Com a chegada dos grupos rebeldes, liderados por Fidel Castro, e com a subsequente queda do ditador Fulgêncio Batista em 1959, um movimento cultural e nacionalista floresceu, calcado nas ideias do nascente socialismo que se enraizava no povo cubano. Surge aí o movimento “Nova Trova“, criado por Pablo juntamente com baluartes da música cubana como Silvio Rodriguez e Noel Nicola. Pablo Milanés foi casado cinco vezes e foi em homenagem à sua segunda esposa, Yolanda Benet, sua música mais famosa, a qual compôs e que rodou o mundo em inúmeras versões. Também dedicou “Cuando tú no estás” à sua última esposa, a espanhola Nancy Pérez, com quem viveu na Espanha desde 2004.
A reputação de Pablo Milanés cresceu como um dos pioneiros desta novo movimento artístico, uma corrente profundamente associada à crescente onda de libertação na América Latina. Uma das marcas deste movimento foi sua temática anti imperialista, que criticava a política dos Estados Unidos em relação à América Latina.
Pablo Milanés, por fim, teve um desacerto com seu amigo Silvio Rodriguez (foto) em especial por declarações que Silvio considerou “grosseiras e implacáveis”, e “sem o menor compromisso com o afeto”, isso no ano de 2011, quando Pablo já estava vivendo fora de Cuba.
Hoje, 22 de novembro de 2022 – o dia do músico – morreu Pablo Milanés devido a problemas hematológicos, dos quais sofria há muitos anos. Desde 2017 mudou-se para Madri na Espanha para poder tratar melhor de sua doença. Hoje, aqui no Brasil, muitos dos que acompanharam sua carreira estão cantarolando mentalmente a belíssima canção “Yolanda” para homenageá-lo. Eu, entretanto, só consigo pensar em “Canción por la Unidad Latinoamericana“, que aparece nas vozes de Milton e Chico Buarque no espetacular disco “Clube da Esquina 2” de Milton Nascimento. Esta é a música que nos mostra um Pablo Milanés apaixonado pela visão anti imperialista, a qual buscava a unificação de todos os países da América Central, Sul e Caribe.
Na juventude eu costumava declamar os versos dessa canção só para me exibir, pois ela nos conclama para algo que as esquerdas sempre levaram como bandeira: a unidade dos povos da América para se contrapor ao imperialismo brutal, cruel, desumano e destrutivo aplicado a todos nós pelas nações do norte. É uma música que canta a esperança de um porvir de solidariedade entre os povos, exaltando a proximidade cultural que nos conecta – na religião, na cor, na música, nos costumes e no passado de lutas e exploração – e deixando claro que nossas diferenças são artificiais, construídas pelos colonizadores que exploram nossos povos.
Naquela época nós cantávamos a versão de Chico Buarque, que não tinha na letra os heróis da libertação que constam na versão original de Pablo Milanés, provavelmente porque a ditadura militar jamais permitiria a inclusão de personagens tão odiados pelas classes burguesas, cuja memória e evocação trazem pavor a todos os opressores. Deixo aqui, então, a letra que ele escreveu com a homenagem merecida a Bolívar, Martí y Fidel, grandes heróis da luta pela unidade das Américas, na busca pela liberdade, pela autonomia e em direção ao socialismo.
“…Lo pagará la unidad De los pueblos en cuestión Y al que niegue esa razón La Historia condenará La historia lleva su carro y a muchos los montará Por encima pasará De aquel que quiera negarlo Bolívar lanzó una estrella que junto a Martí brilló Fidel la dignificó Para andar por estas tierras Bolívar lanzó una estrella que junto a Martí brilló Fidel la dignificó Para andar por estas tierras.”
Gracias Pablito, por tus sueños, tu alegria, tu passion e tu verdad!!!
Tomei contato com um debate interessante, que passa por Blade Runner, Matrix, O Exterminador do Futuro, O Dia Depois de Amanhã e Star Wars, entre outros: por que nossa literatura e nosso cinema insistem em desenhar futuros distópicos, desesperançosos, lúgubres, tristes e dramáticos? Por que não nos oferecem possibilidades para imaginar utopias ao estilo de Gene Roddenberry, que concebeu Jornada nas Estrelas a partir de uma perspectiva essencialmente otimista do futuro? Para ele a solução dos conflitos e do egoísmo na Terra nos levaria a conquistar o Espaço, a “Última Fronteira”, já que, em nosso planeta, estas barreiras já teriam sido derrubadas.
Minha amiga antropóloga Robbie Davis-Floyd (uma Trekker) me contava que a ideia de Roddenberry se baseava em uma proposta inovadora: a solução dos problemas do planeta estava no fim do consumismo (e com ele a sociedade de classes). Entretanto, esta revolução não viria pela escassez dos recursos finitos do planeta e a consequente convulsão social, mas através da tecnologia. Máquinas de recombinação molecular fariam com que fosse possível criar facilmente qualquer “coisa”, qualquer objeto, a partir de seus componentes básicos. Assim, ao simples apertar de um botão poderíamos criar um Stradivarius do século XVII, ou um Porsche 911 GT3, com o mesmo custo de um pacote de bananas, apenas recombinando matéria. Com isso as coisas – pela facilidade absoluta de aquisição – perderiam o valor, e a verdadeira riqueza (e o poder dela derivado) se tornaria o conhecimento.
Desta forma, resolvidos os problemas na Terra, a Enterprise partia da Terra para resolver os dramas do Universo. Todavia, Star Trek é uma exceção entre os filmes de ficção científica. Estes, quase sempre, mostram mundos degradados, destroçados, gelados e onde a luta é pela dura e heroica sobrevivência dos poucos remanescentes. Por que insistimos em apostar em um futuro de horror e perdição?
Acho que a resposta é até simples: não mostramos futuros bons e perfeitos no cinema porque eles não vendem, da mesma forma que as novelas só apresentam ao público partos dramáticos, cheios de correria, angústia, dor, sangue e drama, e jamais apresentam nascimentos tranquilos, domiciliares, rápidos e cercados de paz. Essa felicidade e esse bem estar não vendem, não nos mobilizam. A bem da verdade, nem Star Trek mostra isso; apenas aceita que resolvemos as diferenças na Terra, mas na distância do cosmos imperam ainda o egoísmo e a violência; e é lá que as tramas se desenrolam.
Experimente aparecer em um estúdio de Hollywood dizendo: “Quero apresentar um projeto de filme que se passa em 2222. Nesta época da humanidade tudo dá certo, ninguém explora ninguém, não há crimes e sequer temos roubos. O marxismo venceu, a fraternidade impera, somos irmãos de todos, há equidade entre pessoas e povos, exterminamos a violência bruta e não há barreiras ou bordas. Não há sentido para as guerras, etc…” John Lennon na veia, “imagine all the people”…
A resposta dos diretores seria: “Desculpe, no seu filme não há diversão alguma, não há conflito e, portanto, não há solução que se possa imaginar. Seu mundo é como uma montanha russa em linha reta, sem quedas, sem sustos e sem pânico. Entretanto, somos movidos por essas emoções. Sem o pavor despertado pelas distopias a vida se torna insuportável; elas são o bode colocado na sala da realidade“.
A má notícia é que não há possibilidade de aguardarmos uma revolução tecnológica como a que ocorreu na fantasia de Jornada nas Estrelas para acabarmos com a sociedade de classes. Muito antes que seja possível recombinar átomos para criar a matéria que compões os objetos os recursos do planeta estarão escassos, os conflitos se multiplicarão e a tensão entre a diminuta classe burguesa e as multidões de operários, trabalhadores, miseráveis e famintos fará o mundo ascender a um modelo político e econômico superior. Gene Roddenberry por certo sonhou com uma fantasia de tecnologia redentora, mas a realidade material não suportará que o desnível criado pelo capitalismo continue até que ela seja realidade. O socialismo virá muito antes da Enterprise, do capitão Kirk e do Dr. Spock.
Lee Van Cleef, em “3 Homens em Conflito” (1966), o protótipo perfeito do “homem mau”…
Hoje escutei de novo a frase: “Nem todo homem, mas sempre um homem”….
A ideia é de que, sempre que um fato ruim ocorre na sociedade – que envolva violências ou abusos – haverá um homem envolvido. Sim, alguns homens não são perversos, abusivos ou malignos, mas na malignidade e na perversão sempre haverá um macho envolvido. Os homens são a raiz e a fonte de todos os males, a violência, a perversão e o horror.
Sabem por quê? Porque as pessoas que usam essa frase com o propósito de atacar os homens acreditam piamente que as mulheres não cometem erros graves, não produzem crimes e jamais têm atitudes perversas. Devotam uma fé inabalável na perspectiva de que pessoas oprimidas são moralmente superiores aos seus opressores.Para estas pessoas existem diferenças espirituais entre os sexos, e os homens se encontram em um plano inferior em relação às mulheres. Pense nisso quando alguém acusar os homens de machistas. Sim, porque o machismo é a “crença de que os homens são – para além das diferenças físicas – moral e intelectualmente superiores às mulheres“; porém, essa perspectiva de mundo é combatida por todas as pessoas que desejam um mundo equilibrado, com justiça e equidade. O machismo é a ideologia que tenta sustentar um sistema baseado na opressão.
Agora pergunto: por que deveríamos aceitar quando alguém afirma que os homens são moralmente e intelectualmente inferiores às mulheres? Por que achamos que tal acusação deveria ser tratada de forma diversa? Por que achamos que é justo passar pano para estas atitudes sexistas? Que tipo de sociedade desejam aqueles que consideram todos os homens – e não apenas aqueles que cometem erros e crimes – como se fossem inferiores, malévolos e perversos – os famosos “estupradores em potencial”?
Atentem para o fato de que tratar os homens (metade da população mundial) como os inimigos do progresso e da justiça fez com que o homem branco, cis, hétero e de classe média (a descrição do vilão contemporâneo) se refugiasse nos movimentos de direita – e até no fascismo. Isso porque foram tratados pelos identitários (que invadiram os movimentos de esquerda) como os inimigos, como o “problema” a ser resolvido na sociedade. Para estes grupos – criados nos laboratórios e “think tanks” do partido Democrata americano – o que existe de errado nas sociedades contemporâneas é o homem e sua visão de mundo. Mais do que o patriarcado, é a masculinidade que espalha o mal pelo planeta. “Fossem as mulheres a governar seria tudo diferente“, o que é um exemplo clássico de idealismo, pois que nenhum exemplo existe para nos mostrar as diferenças morais e de competência entre as mulheres que ocuparam posições de poder.
O que faziam tantas mulheres – e de todas as cores – nas manifestações que exigiam a volta da ditadura – em 1964 e agora mesmo nos piquetes bolsonaristas? Como se comportaram as mulheres quando alcançaram o poder? O que dizer de Margaret Thatcher ou Madeleine Albright – responsáveis pelo aniquilamento dos trabalhadores ou pela morte de milhões de árabes nas invasões imperialistas? “Essa é uma pergunta difícil. Mas, sim, achamos que valeu a pena”, disse a ex-secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright, quando, em 1996, lhe perguntaram sobre a morte de 500 mil crianças no Iraque. Já a Dama de Ferro teve sua morte comemorada por multidões na Inglaterra. A políticas neoliberais desta senhora resultaram na destruição de 20% da indústria inglesa entre os anos 1979 e 1981, maior até que o estrago na indústria causado pela força aérea alemã na II Guerra Mundial, resultando em mais de 3 milhões de desempregados. Esses simples fatos se chocam com a visão do “homem mau e perverso“, ou da famigerada expressão “sempre eles“.
Coloquem homens e mulheres, dotados de uma visão burguesa no controle de suas sociedades, e não haverá como reconhecer-lhes o gênero apenas avaliando suas ações. Não parece que existam tantas diferenças assim como alguns querem nos fazer crer; o que fica claro é que esses desvios de caráter não atacam apenas o cromossomo Y. Por esta razão simples, as esquerdas precisam urgentemente se reciclar nesse aspecto, trazendo os homens para – junto com as mulheres – criar uma sociedade mais equilibrada e justa. Abandonar o discurso identitário, de defesa das questões de gênero acima da luta de classes, é uma urgência. Rechaçar os homens do debate das esquerdas está na gênese do aparecimento do maior ícone contemporâneo dos homens ressentidos: Jair Bolsonaro. Todavia, muitos daqueles homens que se uniram a esta corrente de rancor e fanatismo poderiam ser recuperados não tivessem sua condição masculina tratada como defeito ou danação por aqueles que, na esquerda, se consideram progressistas.
Ele chegou chegou anunciando mudanças profundas, para acabar com “tudo que estava aí”. Foi eleita com a votação ampla de uma parcela significativa da classe média. “Não vai sobrar nada”. Prometia acabar com tudo que havia sido construído pelos governos anteriores, os quais chamava pejorativamente de “esquerda”, mesmo quando não passavam de governos liberais com algum compromisso com a diversidade e com aspectos sociais. Quando tentava confundir acusava seus adversários (mesmo aqueles fortemente liberais) de “comunistas”. Usou a farsa do “perigo vermelho” durante todo seu mandato, como forma de arregimentar seguidores entre aqueles imersos no profundo poço de propaganda anticomunista surgida no pós guerra.
Para simular religiosidade seu governo falava de Deus, família e liberdade, mas seu passado mostrava abusos, em especial contra as mulheres, homossexuais e negros.O governo anterior havia produzido uma enorme frustração para o eleitorado. De caráter progressista, pretendeu oferecer uma visão mais social, mais focada nos mais pobres, defendendo na prática a distribuição de renda e apostando em programas sociais mas foi duramente atacado pelo congresso.
Ao tentar a reeleição usou de todos os truques para alcançá-la, mas boa parte da mídia e a maioria da população o rejeitaram. Suas falas misóginas e seu racismo, além do fracasso em restituir o pretenso “esplendor de outrora”, foram decisivos em sua derrota. Muitos escândalos vieram à tona, o que tornou seu final de governo extremamente conturbado. Não reconheceu de imediato a vitória do adversário – alguém que estava retornando de administrações anteriores – dando espaço para manifestações de seguidores fanáticos, empunhando palavras de ordem como “Deus”, “Propriedade” e “Família”, apesar de ter sido casado várias vezes e ter desrespeitado publicamente suas ex esposas.
Durante seu governo estimou a divisão do país entre “cidadãos de bem” e “vagabundos esquerdistas” e usou durante todo seu mandato de uma estética e uma retórica inspirada no nazifascismo europeu do século passado, e uma prática semelhante à Ku Kux Klan. Não teve escrúpulos em chamar para o seu mandato notórios admiradores do nazismo. Apesar de suas condutas antiéticas, perversas e contrárias ao cristianismo, sua base eleitoral foi centrada nas igrejas evangélicas. Simulava fé religiosa, mas sua conduta arrogante e prepotente sempre demonstrou desprezo pela religião e pela caridade. Pragmático, corrupto, sectário, violento, amigo do agronegócio e contrário à ciência, acabou gerando forte oposição no mundo inteiro.
Afinal, quem é o personagem que estamos descrevendo e quem é o seu “fac simile austral”? De quem estamos falando? Dica: um deles ficou aguardando o outro passar durante um evento e, de forma humilhante e subserviente, exclamou “I love You”. Mas a pergunta mais importante é: por que estão tão semelhantes na sua estratégia e por que razão estas histórias se tornaram tão assemelhadas?
Infelizmente o Brasil da atualidade não passa de uma caricatura mal feita da matriz, uma cópia sem valor de um modelo fraudulento. Nossa crise é moral, ética e civilizatória, mas igualmente estética.