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Massacres

UVALDE, TEXAS – 27 DE MAIO: Um memorial para as vítimas do tiroteio em massa na Robb Elementary School, onde 19 crianças e dois adultos foram mortos. 

Apesar de concordar que a proliferação de armas desempenha um papel importante na tragédia dos massacres em escolas nos Estados Unidos – como a que aconteceu recentemente na Escola Pública de Uvalde, Texas – creio que a simples eliminação delas seria o equivalente a “tirar o sofá da sala”. “Americanos possuem 46% das 857 milhões de armas de fogo nas mãos de civis no mundo todo, embora representem apenas 4% da população mundial. Estudo revela que há 120,5 armas de fogos ‘civis’ registradas por cada 100 habitantes nos EUA”. Por esta estatística recente, percebemos que existem mais armas do que habitantes nos Estados Unidos. Toda essa liberalidade, todavia, está prevista na constituição americana, exatamente na “segunda emenda”. Esta emenda à Constituição dos Estados Unidos protege o direito do povo e dos policiais de garantir a legitima defesa através manter ou portar armas. Foi aprovada em 15 de dezembro de 1791, juntamente com as outras nove emendas constitucionais constantes da Carta dos Direitos dos Estados Unidos ou Declaração dos Direitos dos Cidadãos dos Estados Unidos.

A epidemia de violência com armas através dos ataques à escolas mantém aceso o debate sobre a Segunda Emenda, mas também sobre quem teria o direito constitucionalmente protegido de portar armas. Todavia, frequentemente está ausente nesses debates o racismo intrínseco à aplicação desigual das leis sobre armas e a relação entre os apelos ao direito de uso das armas e a justificativa da violência das milícias. Ao longo da história americana a retórica da utilização de armas pela população civil foi manipulada para estimular a tensão racial e enquadrar a população negra como uma ameaça emergente.

Os mapas de massacres agora são feitos mensalmente

É óbvio que estes massacres cotidianos nos Estados Unidos são apenas o sintoma de uma sociedade doente; a retirada das armas através de leis severas de controle produziria tão somente a transmutação do sintoma, assim como acontece com os inúmeros vícios que criamos. Sem armas cresceria o tráfico e os ataques por outros meios, evidenciando as derivações da enfermidade sistêmica, como um tumor que, mesmo quando extirpado, não elimina o desequilíbrio que o produziu.

Não haverá saída para os massacres sem que tenhamos a coragem de cortar profundamente na carne, sem reconhecer que sua origem está em um sistema econômico que concentra a renda, que cria bilionários às custas da exploração dos recursos naturais e humanos do planeta inteiro, que condena enormes contingentes da população à miséria ou à sobrevivência através da caridade. Trata-se de um capitalismo doente, violento e desagregador – como é de sua natureza. Quando produzimos uma sociedade onde uma parcela minúscula controla a maior parte da riqueza da nação, criando um contingente crescente de “perdedores e fracassados”, é de se esperar que estas pessoas, excluídas da opulência capitalista, descubram uma forma de se vingar.

Portanto, quando as pessoas tratam a emergência dos sintomas como a própria doença estamos diante de um problema claro de diagnóstico. Os massacres que ocorrem nos Estados Unidos em escolas, assim como a ajuda astronômica deste país para sustentar guerras e golpes de Estado no mundo inteiro, não são problemas em si, mas manifestações de uma brutal crise no sistema capitalista, algo facilmente previsível se entendermos as próprias previsões que Karl Marx nos deixou no final do século XIX. Se continuarmos a tratar a “febre” como se fosse a própria doença deixaremos de tratar a infecção que a causou, atrasando a possibilidade de ajustar e equilibrar o organismo, seja este um sujeito ou uma sociedade.

O massacre mesmo não ocorre nas escolas, mas no mundo inteiro que se submete às regras impostas pelo Imperialismo.

A propósito, vejo especialistas falando da importância da educação escolar e os malefícios do “homeschooling” (teses com a quais eu concordo), mas ainda assim penso que, se eu tivesse filhos pequenos e morasse nos Estados Unidos, levaria muito a sério a possibilidade de educá-los longe de uma escola. Levar os filhos pequenos para um lugar onde a manifestação de frustração se manifesta com AR-15 e massacres de crianças deveria deixar qualquer pai em pânico.

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Um assento reservado no Inferno

Cada vez que eu vejo a lavagem cerebral de gente que chama o Putin de “carniceiro”, “louco”, “assassino” por sua invasão à Ucrânia eu fico pensando o quanto estas percepções são criadas e disseminadas pela gigantesca máquina de propaganda que controla nossas mentes. Longe de ser apoiador de um direitista autoritário como Putin, tudo o que eu gostaria é que o presidente eleito da Federação Russa fosse julgado com a mesma régua com a qual os presidentes americanos são avaliados.

Até 6 de maio de 2022 o número oficial de mortes de civis da Guerra na Ucrânia era de of 4.253 (1.617 homens, 1,064 mulheres, 100 meninas, and 105 meninos, assim como 67 crianças e 1.300 adultos cujo sexo é desconhecido) – e um número quase igual de feridos. Sim, nos primeiros 100 dias de guerra houve um número de mortes igual àquelas produzidas pelo trânsito brasileiro no mesmo período – que mata em média 32 pessoas por dia em nossas ruas e estradas. Podemos dizer que os soldados russos – treinados para matar e defender – são mais cuidadosos com a vida alheia que os nossos motoristas.

Algumas agências clamam que os números são bem maiores, mas não oferecem dados alternativos confiáveis e comprovados. Mesmo que fosse o dobro dos números oficiais, ainda assim seria uma guerra em que existe uma óbvia preocupação em não matar, não destruir e uma tentativa obsessiva em preservar vidas.

Agora analisem as invasões americanas na Síria e Iraque, apenas para citar guerras recentes provocadas pelo Império onde é evidente um sentimento xenófobo e islamofóbico. A maioria dos americanos – mas também nós, as colônias – não tem noção do massacre ocorrido lá e acham que morreram “dezenas de milhares”. Isso está muito longe da verdade, pois como disse o general Tommy Frank – general responsável pela operação inicial de invasão – “não contamos corpos”, exatamente porque os inimigos do Império são sempre desumanizados, deixam de ser gente, não passam de baratas. Um bom filme sobre isso é “Hearts and Minds”, um espetacular documentário de 1974 sobre a brutalidade da guerra e a “necessária” desumanização dos inimigos, no caso os vietnamitas.

Na primeira semana da invasão do Iraque, com o claro objetivo de buscar uma posição geopolítica favorável e roubar petróleo, algumas estimativas apontam que foram mortos 80.000 iraquianos, usando uma mentira disseminada pelas redes de TV sobre “armas de destruição em massa!!” contada ao vivo pelo Secretário da defesa americano Collin Powell. O total de mortes desse massacre imperialista – que destruiu o país de onde surgiu a civilização humana – chega a 2.4 milhões de pessoas. Alguém acha que Putin poderia estar na mesma turma de seres humanos perversos onde estão Bush (pai e filho), Obama, Trump e Biden? “They’re not in the same league“. Na Síria a destruição foi a mais violenta possível por parte das forças aliadas à OTAN. Mercados centenários, mesquitas e templos religiosos reduzidos a pó; imagens obtidas por satélite mostraram uma violenta destruição em 290 locais históricos de todo o país. A ONU alertou que a guerra na Síria já destruiu 24 áreas consideradas Patrimônio Cultural da Humanidade e 104 sofreram danos profundos desde que o conflito teve início em 2011.

É preciso um mínimo de senso de proporção quando colocamos de um lado um autocrata de direita protegendo suas fronteiras de ameaças da OTAN e do outro assassinos perversos no comando de um Império decadente.

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Direito internacional

Existe um clamor da imprensa ocidental que repete de forma circular o discurso sobre o “direito de países soberanos“, etc. A gente escuta e lê isso por todo o lugar, parece que esse tipo de perspectiva se origina de uma fonte única e se espalha por toda parte. Vale lembrar, sobre o tópico do direito internacional, que os Estados Unidos usam a doutrina Monroe, que retira a soberania da América Latina caso, por exemplo, queiram produzir e estocar seu próprio arsenal atômico. A crises dos mísseis no início dos anos 60 foi exatamente sobre essa questão, mas o “excepcionalismo americano” – fruto de uma estúpida autoimagem de superioridade branca ocidental – acredita que o que é válido cá, para os outros não vale. Sobre esse tema vale olhar um vídeo do prof John Mearsheimer.

Dizer que há poucos nazistas na Ucrânia é outra farsa disseminada. Existem inclusive (basta uma simples procura por palavras chave) sites que descrevem os lugares onde estão os principais monumentos nazistas na Ucrânia, incluindo o mais importante deles: Stepan Bandera, nazista ucraniano colaboracionista e implicado no assassinato de milhares de judeus ucranianos.

Sobre a quantidade, na Alemanha nazista o partido de Hitler era minoria – nas eleições teve 28% – mas chegou ao poder. Quando isso ocorre (como no Brasil de agora) é porque o povo foi conivente com os abusos e a retórica do seu líder. Portanto, a Ucrânia é um país nazificado, extremista e fascista. E para quem acha o nome incorreto, por acreditar que o nazismo é um fenômeno apenas alemão, deveria avisar ao Batalhão Azov, ao Pravyy Sektor e mesmo aos neonazis do mundo inteiro – inclusive aqui em Pindorama – para não usarem os uniformes do Hugo Boss, a iconografia, a suástica e o “heil”. Spoiler: eles não vão topar.

Claro que um governo nazista, ameaçando colocar mísseis nucleares em seu país após um golpe de estado é uma ameaça direta à Federação Russa. Para entender isso, basta conhecer um pouquinho só da história russa para perceber que eles jamais poderiam permitir essa afronta, pois ela significa uma “national security threat”, inadmissível pelos russos. A Rússia, desde muito tempo, foi invadida por Napoleão Bonaparte, por 16 nações durante a Guerra Civil e depois por Hitler. Imaginar que esta ação é uma maluquice do Putin é burrice e falta de noção. Hoje, mais de 82% dos russos apoiam Putin em suas ações nesta guerra; até seus adversários comunas estão cerrando fileiras com seu líder.

Não é lícito basear estas escolhas por julgamentos “morais” ou por uma noção republicana de “direito”; não se pode permitir uma gigantesca ingenuidade como essa. Tudo é feito com base no poder. Caso o “direito” reinasse, Israel sequer existiria, visto ser uma aberração jurídica desde sua criação. Sequer um país institucionalmente racista poderia ser aceito. Não existe país com mais condenações do que Israel, e porque nada acontece? Porque os Estados Unidos bancam cada uma e todas as suas atrocidades. Também o mundo interromperia as invasões americanas no Iraque, na Líbia, no Vietnã, na Coreia, no Afeganistão, no Panamá, na Palestina (através de seu enclave Israel), etc por serem todas afrontosas à soberania dos povos.

A questão russa é sua sobrevivência e por isso não pode permitir que uma estrutura inimiga e violenta como a OTAN coloque armamento destrutivo em suas fronteiras. A Rússia sabe muito bem com quem está lidando: o Império da Destruição, que deseja dividir o mundo em republiquetas controláveis e não suporta o gigantismo de concorrentes como Rússia, China e Brasil. Numa nação minúscula como a Geórgia bastaria um golpe de Estado (como houve na Ucrânia, que não é pequena) para o tirano da vez, um fantoche americano como o Zelensky, apertar um botão a mando dos Estados Unidos e iniciar uma guerra nuclear, ou usar dessa posição estratégica para chantagear a Rússia. A ação russa de agora pode até afrontar o direito internacional (como qualquer ação americana), mas é justa.

O que dizer de pessoas que dizem que o Donbass foi invadido pelo exército da Rússia??? De onde tiram essas informações??? Não havia tropas russas regulares no Donbass até o início da guerra. E quando dizem “invadiram antes de qualquer tentativa de negociar …” só dá para responder meu Deus!!! Foram oito anos de negociação e 14.000 mortos pelos nazistas ucranianos!!!! Até quando a Rússia deveria esperar para resgatar seus cidadãos????

A ideia de que a Ucrânia não é nazista faz tanto sentido como alguém em 1939 dizer que a Alemanha não era nazista, já que eles não passavam de uma minoria e que Hitler era um grande patriota. A Ucrânia se nazificou de forma perigosa e insidiosa. Sim nazista, e não há como esconder. A prisão dos nazistas escondidos como ratos em Mariupol ainda vai revelar muito mais do que já sabemos sobre o regime de tortura, racismo e opressão que era imposto pela OTAN através do seu presidente fantoche.

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1984 é aqui

No clássico “1984” do escritor George Orwell – nascido em Motihari, na Índia britânica em 1903 – Winston, o herói da trama futurista, trabalha no Ministério da Verdade, um importante setor governamental que lidava com notícias, entretenimento, educação e cultura e era responsável por falsear documentos, livros, escritos e até a própria literatura, desde que pudessem se referir ao passado de uma forma que desagradasse o governo. A ideia das mudanças nesses escritos era fazer com que tudo correspondesse sempre ao que o poder central trazia como verdade. Assim, o Ministério da Verdade estava encarregado de alterar a história passada para conformá-la com a vontade de quem estivesse no poder. Uma forma de fazer isso era mudar o significado de palavras, através de uma linguagem e uma tática de atualização de significado chamada “Novilíngua”.

O que parecia um futurismo macabro hoje em dia é o que chamamos de “atualidade”. O que vemos na guerra da Ucrânia segue exatamente esse roteiro que o genial escritor britânico nos deixou como profecia há mais de seis décadas. O que vemos agora uma tentativa sistemática de apagamento da história, fazendo com que os inimigos de outrora sejam hoje amigos, e trazendo elementos linguísticos diferenciados para descrever o que antes era tratado de forma diversa.

Assim, os nazistas da Ucrânia agora são chamados “nacionalistas”; as derrotas – como a vergonhosa rendição em Mariupol – de “atos heroicos”, as esposas chorosas dos nazistas feitos prisioneiros de “pobres esposas pedindo pela vida dos maridos” – em verdade elas próprias orgulhosas militantes nazistas (vide clip abaixo do canal “The Dive” de 17/05/2022 ). A imprensa corporativa ocidental tenta desesperadamente converter as derrotas sucessivas em vitórias, manipulando consciências e fabricando consensos. Uma das mais ridículas tentativas foi o esforço de comparar os covardes nazistas que se esconderam na fábrica de Azovstal com os “300 de Esparta”, como se os fascistas que levaram a cabo o massacre no Donbass pudessem ter sua ficha passada a limpo com estes golpes de propaganda.

Foram necessárias poucas décadas da publicação do livro seminal de Orwell para nos darmos conta que os poderosos não tem memória – tem apenas interesses, que mudam o passado conforme sua vontade e suas necessidades de domínio crescente. O fato de a Ucrânia ter se nazificado, ter dado um golpe de Estado e ter colocado no poder um fantoche dos americanos e da OTAN em nada incomoda esses senhores da guerra. Se for necessário criar estátuas não apenas para Stepan Bandera e tantos outros colaboracionistas do nazismo, mas para o próprio Führer, haverá de lhes ocorrer uma maneira de limpar a imagem desses personagens para que a imensa massa de manobra do mundo ocidental passe a considerá-los como “combatentes valiosos” contra a “ameaça comunista” (e o fato da Rússia não ser mais comunista certamente não será impeditivo para quem pretende transformar nazistas confessos em cordeirinhos). Pior ainda é o tratamento dispensado ao comediante fantoche americano Zelensky, como se fosse um estadista, mesmo quando sabemos que sua ascensão ao poder veio na esteira dos golpes de estado da praça Maidan.

Ao tentar reeditar a história, o poder de comunicação do Império Americano mostra, mais uma vez, o caráter autoritário das ações em relação ao resto do mundo. Seguindo o roteiro orwelliano, este “ministério da verdade” que se ocupa de modificar a história pregressa para que se adapte ao gosto dos poderosos da OTAN, nada mais é do que a grande máquina de propaganda da Imprensa ocidental corporativa, corrupta, suja, dependente dos financiamentos dos grande conglomerados financeiros, das indústrias farmacêuticas, do Vale do Silício e da máquina de Guerra. Como se pode facilmente constatar, o livro de George Orwell é bem mais do que uma simples publicação, mas uma fonte encadernada de predições e profecias do que seria o futuro próximo. Um livro profundamente atual.

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Jacarezinho

A primeira vez que fui ao Rio de Janeiro tinha 23 anos e fui assaltado numa espécie de arrastão apenas uns 20 minutos após ter chegado na rodoviária para subir em outro ônibus com destino a Botafogo. Um motorista amedrontado abriu a porta para que três meninos armados pedissem relógios e dinheiro. O total do que eu perdi naquele dia seria equivalente hoje a uns 50 reais, mas passei dias com raiva pela impotência de ser roubado na frente da mulher e do filho pequeno sem poder fazer nada. Não foi, por certo, um bom cartão de visitas.

A cidade do Rio de Janeiro me impressionou pela sua história, a arquitetura, a natureza, os morros, o jeito do carioca falar, as praias. Dizem – Luis Fernando Veríssimo tem uma bela história – que gaúchos adoram o Rio e os(as) cariocas, pois nossa bronca mesmo é com São Paulo, transformada em “capital do Brasil” por iniciativa – adivinhem – de um gaúcho de São Borja, Getúlio Dornelles Vargas. Aqui no pago é comum as pessoas se derreterem por samba de raiz e escolas de samba, além de se exibirem recitando a ordem das praia cariocas, como Tim Maia o fez.

A primeira impressão, entretanto, é a que fica. O Rio ficou para mim eternamente com a imagem das favelas, aliás, o que mais se conhece do Brasil no exterior. Até Michael Jackson quis conhecê-las. Mas para mim as “comunidades” e o Rio de Janeiro são o choque real entre o povo criativo e alegre com a brutalidade da exclusão capitalista. E o resultado que se mostra no cotidiano é a indignação solitária, dividida, minúscula de garotos assaltantes roubando bugigangas como nos conta Chico Buarque, ou os núcleos controlados por milícias fazendo o papel de um Estado pusilânime ou inexistente.

As chacinas, as balas perdidas, as milícias, a “gaiola das loucas”, o “Vivendas da Barra”, matadores de aluguel, Marielle, Jacarezinho, as igrejas pilantras, o massacre da Candelária são como feridas abertas que sangram todos os dias. Essa é a imagem que tenho hoje do Rio, uma beleza amaldiçoada pela iniquidade, pela injustiça social e que só terá solução com o fim da barbárie capitalista.

O Rio não é para amadores. A notícia alarmante para quem gosta dessa cidade é que a população do Rio está deixando em primeiro lugar nas pesquisas de preferência o atual governador Cláudio Castro, do PL, ligado ao justiceiro Witzel e às forças mais reacionárias que governam o Estado há décadas. A distância é pequena com o segundo colocado, o que nos permite dizer que existe um empate técnico com o deputado Freixo que vem logo a seguir. É por essas tragédias que eu às vezes penso que o Rio de Janeiro não tem salvação e que o império das milícias, das oligarquias e das igrejas evangélicas não vai acabar antes de uma hecatombe social. Mas o meu coração comunista teima em ter esperança…

Da minha cabeça nunca sairá a imagem do levante popular. Nos meus devaneios vejo o povo descendo o morro organizado, exigindo seu direito à cidadania, à alegria, ao sorriso, à educação, à saúde e exigindo que as maravilhas dessa cidade não continuem sendo saqueadas pela elite tosca que a compõe. Quem sabe seja como no samba de Wilson das Neves, “O dia em que o Morro descer e não for Carnaval”

“O tema do enredo vai ser a cidade partida
No dia em que o couro comer na avenida
Se o morro descer e não for carnaval
O povo virá de cortiço, alagado e favela
Mostrando a miséria sobre a passarela
Sem a fantasia que sai no jornal”

Espero o dia em que o Rio seja a Cidade Maravilhosa e segura que eu gostaria de conhecer. Entretanto, enquanto nossa sociedade foi brutalizada por um modelo excludente, Candelária, Jacarezinho e tantas outras chacinas serão apenas historias tristes e trágicas sobre a cidade mais linda e mais desigual do mundo.

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A Vanguarda do Retrocesso

Foto – Internet

Ainda repercutem as manifestações do Secretário de Atenção Primária do Ministério da Saúde, Sr. Raphael Câmara, ao anunciar a nova caderneta da gestante. Com a truculência habitual, o representante da pasta apresentou uma série de retrocessos que servem mais para reforçar o poder da medicina e barrar os avanços no sentido de uma maior autonomia das mulheres, o protagonismo delas sobre os partos e também para impedir o crescimento de visões alternativas sobre o nascimento, em especial o trabalho oferecido pelas parteiras profissionais – enfermeiras obstetras e obstetrizes.

A figura do médico Raphael Câmara serve também para criar uma ponte entre os interesses da categoria e o bolsonarismo, já que o referido profissional milita nas duas causas. Não é de hoje que ele é um crítico feroz da atenção ao parto oferecido pelas enfermeiras obstetras, contrário ao programa Mais Médicos, avesso às propostas da humanização do nascimento e à Rede Cegonha. Da mesma forma faz parte do seu arsenal de ataques o enfrentamento ao uso do termo “violência obstétrica”.

Entre as defesas de procedimentos médicos que fez quando do lançamento da nova caderneta ele falou com especial ênfase da manobra de Kristeller e da episiotomia, para ambas guardando o seguinte comentário: “É importante eu, como obstetra, falar que dependendo da situação e, eu concordo, em casos excepcionais, eles podem e devem ser feitos, e quem define isso é o médico. Não são leigos, não são militantes”. É interessante – e de extrema gravidade – que estas afirmações sejam expressas ao se referir a duas intervenções proscritas pela boa medicina. Em outras palavras, para o Sr Raphael, as evidências científicas sucumbem diante do valor ilimitado do poder médico sobre o corpo das mulheres, que não pode ser desafiado por nenhum poder externo à Medicina – como as pesquisas e metanálises realizadas sobre o tema.

A manobra de Kristeller é basicamente a pressão sobre o fundo do útero (vide foto acima), realizada para apressar o parto. É uma manobra cheia de riscos, entre eles fraturas de costelas, rupturas de fígado, baço, útero e que podem até levar à morte. É proibida pelo conselho de enfermagem, mas ainda é frequentemente utilizada nos hospitais brasileiros, muitas vezes causada pela inabilidade ou impaciência dos médicos em aguardar o momento mais adequado do nascimento.

Já a episiotomia é uma cirurgia que corta o períneo com um bisturi ou uma tesoura para alargar a pele e os tecidos subcutâneos da vagina, visando alargar e “facilitar” a passagem do bebê. É chamada popularmente de “pique”, e foi disseminada nos Estados Unidos nos anos 20 do século passado pelo obstetra Joseph De Lee, que também foi o propagador do “fórceps profilático”, ambas as intervenções baseadas em sua visão particular do parto como patologia. Segundo De Lee, “os partos são eventos decididamente patológicos, semelhantes a cair por sobre um ancinho”. Os trabalhos definitivos que mostram a inutilidade desta cirurgia usada como rotina obstétrica e os riscos relacionados a ela tem quase 40 anos de idade, mas no Brasil elas ainda ocorrem em quase 60% dos partos.

A episiotomia tem uma representatividade simbólica para a obstetrícia – desde sua origem – que ultrapassa seus efeitos clínicos. Ela é a cirurgia da onipotência, do poder fálico do escalpelo, a assinatura médica no corpo da mulher, a tomada de posse, a marcação do nome do autor na obra, mostrando quem realmente a produziu. Não é à toa que os médicos dizem que “fizeram” os partos de suas pacientes.

Foto – UOL Notícias

Sem entender as motivações inconscientes que nos levam a cortar o corpo de uma mulher no nascimento de seus filhos, nenhum estudo terá significado, pois enxergará apenas aquilo que a luz da pesquisa ilumina, deixando a chave dessa invasão ainda para ser descoberta, pois que se esconde na parte obscura da cena.

As episiotomias se mantém vivas na prática médica porque sua entrada na rotina dos nascimentos não se deu por questões racionais ou através de pesquisas científicas; em verdade ela teve seu início triunfante na rotina dos médicos por se adaptar às necessidades da obstetrícia nascente que via na aplicação dessa cirurgia a possibilidade de afastar as enfermeiras – suas concorrentes no cenário do parto – valorizando uma habilidade que apenas a eles era permitida exercer. Para isso era necessário apostar na ideologia da defectividade essencial das mulheres e do seu mecanismo de parto como a justificativa perfeita para que os cirurgiões pudessem usar sua arte para consertar e dar funcionalidade aos corpos equivocados, mal feitos, disfuncionais e essencialmente perigosos das mulheres. No Brasil a profissão das parteiras profissionais foi quase extinta, assim como nos Estados Unidos, e foi somente durante os movimentos de contracultura dos anos 60 que a atuação das parteiras conseguiu uma maior visibilidade para, a partir de então, iniciar seu lento renascimento.

Foto – Pragmatismo Político

O paradoxo entre as pesquisas mostrando a inutilidade no uso rotineiro dessa cirurgia (há mais de três décadas) e sua sobrevivência no imaginário e na prática obstétrica contemporânea só pode ser entendido se levarmos em conta as motivações poderosas – conscientes e inconscientes – que controlam a prática médica, assim como a percepção que a cultura tem das mulheres e seus corpos.

Foto Revista Época

A criação da RAMI – Rede de Atenção Materna e Infantil – se configura como um retrocesso brutal na proposta da assistência às mães e seus bebês, pois substitui uma das mais bem sucedidas iniciativas dos governos petistas por esta versão de ideologia autoritária aplicada à medicina, uma política pública que foi duramente criticada pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde, pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde e por organizações feministas. É uma manobra para resgatar o poder dos médicos, que se sentiram traídos pelos governos populares. Foi da categoria médica – representante da pequena burguesia nacional – de onde partiram alguns dos mais violentos ataques contra o governo Dilma, em especial quando do lançamento do programa “Mais Médicos”.

Para garantir uma assistência ao parto de qualidade, alicerçada em seus pontos mais expressivos, quais sejam a garantia do protagonismo à mulher, a visão interdisciplinar e a assistência baseada em evidências será necessário que os próximos governos revertam as iniciativas autoritárias e violentas que agora estão sendo implementadas, trazendo novamente para o debate os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e o entendimento da violência obstétrica como um mal que precisa ser combatido com vigor.

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O Ocaso do Parto

* Fragmento da minha conversa com Edson Souza, após o encontro da Lillie Excellence em Delhi…*

Quando eu era estudante de medicina a realização de uma cesariana sem indicação era considerada “tarefa de preguiçoso” ou de quem não conhecia as “técnicas”. Durante a residência um professor (que hoje dá chilique quando houve o termo “violência obstétrica”) disse durante um encontro com os alunos que “um médico que faz uma cesariana nunca sai da sala com a cabeça baixa, mas o mesmo não se pode dizer de quem atende um parto normal”. Eu percebi nessa frase a ideia de que a “posição da cabeça” estava se tornando mais importante do que a arte e o cuidado na atenção ao parto. Os médicos estavam se tornando, de forma crescente, cada vez mais amedrontados com o nascimento, e as ações que eles conduziam eram moduladas por este sentimento, que assumia uma posição de destaque diante das decisões a tomar.

Hoje em dia são os parteiros remanescentes que precisam se explicar por suas escolhas, pois a opção pelo parto normal se tornou uma escolha esdrúxula. digo isso porque, sim, eu acredito na possibilidade de que o parto vaginal venha a ser exterminado e proscrito da experiência humana. Penso que poderá ocorrer que a cesariana, cada vez mais segura, passe a ser o mecanismo de escolha para todos os nascimentos. Não pensar nessa possibilidade é ignorar que não seria a primeira de nossas escolhas desastrosas na historia da medicina – até porque garantir à Medicina o controle sobre o parto normal foi, ao meu ver, a mais escandalosa de todas elas.

A questão é que o modelo de atenção ao parto no ocidente – isto é, nos países satélites da medicina tecnocrática do Império – é o mais insensato possível. Regido pelo signo do medo, através do paradigma tecnocrático e do imperativo tecnológico, ele é mantido na esperança de que os partos normais sejam paulatinamente desencorajados, abolindo a alternativa normal ou fisiológica, que ficaria restrita somente àqueles nascimentos acidentais, situações onde não haveria tempo suficiente para submeter as pacientes à intervenções e técnicas da medicina.

Hoje as pessoas que atendem o parto no Brasil são em sua maioria médicos, sujeitos treinados na lógica da intervenção, na utilização de ferramentas – drogas ou cirurgias – para atuar em processos desviantes e patológicos. Como poderíamos imaginar que, profissionais que recebem esse tipo de treinamento e incentivo econômico, pudessem se interessar pela atenção fisiológica e natural do parto? Por que deveriam os médicos se interessar por algo inscrito na memória celular das mulheres como parte de seu arsenal de respostas sexuais, se sua propensão é sempre usar sua arte para intervir, mudar rotas e transformar?

A ideia de oferecer a assistência ao parto normal e de risco habitual para cirurgiões é provavelmente a mais desastrosa escolha da história do cuidado à saúde. Todas as pesquisas apontam que as parteiras profissionais têm os melhores resultados quando a atenção às pacientes de baixo risco (risco habitual) é avaliada. Entregamos aos médicos uma tarefa que eles não gostam, não entendem, não são treinados suficientemente e cujas abordagens – psicológica, emocional, cultural, social, e espiritual – são historicamente negligenciadas pelas escolas médicas, que se preocupam na resolução de problemas e no tratamento de patologias, urgências e emergências.

Ao invés de oferecer à Medicina a patologia, ofertamos o poder de controlar todo o campo de atenção ao parto, obrigado estes profissionais a tratar a normalidade do nascimento, algo que lhes causa enfado ou rejeição. Não deveria surpreender a facilidade com que a atenção contemporânea ao parto transforma a maioria dos nascimento em eventos cirúrgicos, com acréscimo de intervenções, drogas, procedimentos em cascata e riscos aumentados.

A recente reafirmação do parto como “evento médico” e a liberdade cada vez maior por parte das mulheres para livremente escolher a via de parto – mas não o local de parto – sinaliza que a autonomia oferecida a elas só aumentará a aumentar quando estes desejos estiverem alinhados com os interesses dos médicos. O resultado inevitável é o aumento de cesarianas, cada vez menos partos vaginais atendidos, menor experiência dos jovens médicos (o que já se vê com partos gemelares e pélvicos), mais medo, mais insegurança e maior pressão para escolher o nascimento cirúrgico. Na medida em que os partos normais desaparecem, também a capacitação para a atenção ao parto se torna uma habilidade cada vez mais rara, relegada a poucos sonhadores e profissionais dedicados.

Talvez ocorra um tempo em que o parto não será mais do que a pálida lembrança de um tempo selvagem, que tomamos conhecimento através das gravuras estranhas em páginas da história da Medicina. Esse foi um tempo onde as crianças nasciam através das dores de suas mães, o parto ocorria pelo esforço delas e pela suplantação de suas dificuldades, medos e barreiras. Nessa época o entorno psíquico e emocional produzia o solo adequado para o florescimento da maternagem e dos processos de vinculação mãebebê. Talvez sejamos as últimas gerações nas quais o parto normal ainda é uma opção legítima. Se hoje a corporação médica persegue de forma odiosa as opções de onde nascer, talvez em breve médicos e parteiras sejam perseguidos por escolherem a via normal, então tornada criminosa e ilegal.

Que civilização desconectada com sua essência se tornará essa que estamos lentamente criando?

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Xerifismo do STF

Três perguntas:

1Quantos anos de cadeia cada cidadão brasileiro se arriscaria a pegar caso o ministro Alexandre de Morais tivesse a mesma rigidez que teve com o bombadão fascista a respeito das postagens nas suas redes

2O que impediria a justiça de fazer isso com qualquer pessoa, na dependência apenas do humor de um super poderoso juiz que não gosta das suas palavras?

3Desde quando está valendo o crime de opinião no Brasil?

Realmente poucos teriam a coragem enfrentar um STF acovardado, que deveria mesmo ser suprimido, exterminado, pois que é um poder abusivo que age autoritariamente sobre os outros poderes democraticamente constituídos e que atua politicamente, de forma descarada, para fazer valer a vontade das elites e da pequena burguesia.

Só não vale reclamar quando o STF prender um amigo ou quando impedir o seu presidente predileto de concorrer; claro, nosso apoio só vai se expressar quando esses velhos medíocres atacarem um bombadão idiotizado pelos anabolizantes por dizer tolices em rede social. Nove anos de prisão por fazer gracinhas em redes sociais – e vamos deixar bem claro que “atacar” um poder constituído é um conceito bem diferente do que foi dito pelo réu, de que tinha “um sonho”. Ora, esse sonho de acabar com o STF até eu tenho, pois que esta instância é uma mistura de autoritarismo e xerifismo com o mais abjeto punitivismo.

Estamos cavando nossa própria cova. Esses julgamentos são absurdos, ou no mínimo exagerados e o caso do Daniel é emblemático. Quem agora comemora deve pensar que muito em breve este tipo de ação autoritária dos Ministros que julgam em causa própria vai se voltar contra um parlamentar da esquerda. Ontem, milhares de votos foram cancelados, e de novo através do autoritarismo do STF.

Aplaudir o ministros punitivistas, que agem como perfeitos xerifes de um filme de bang-bang, é pura estupidez, comparável a ficar feliz com os editoriais lidos pelo Bonner contra Bolsonaro. Não importa que o personagem da bolha fascista de agora seja um perfeito idiota, fascista e golpista, estamos abrindo uma porta que não seremos capazes de fechar. Anotem…

Precisamos com urgência de um órgão mais democrático, não vitalício e com pessoas realmente comprometidas com o cumprimento da constituição. Uma suprema corte que diz “O STF precisa escutar a voz do povo” (e não das leis!!!) deveria ser extinto no dia seguinte. Mas quando o STF faz algo que, circunstancialmente nos agrada, muita gente (inclusive da esquerda liberal) coloca a cara do Ministro Alexandre como wallpaper do celular e o transforma em herói da nação. Realmente, muitos preferem ser complacentes e servis com as diatribes de cortadores de pé de maconha e evitam críticas aos venais que agem como se a constituição fosse algo que pudesse ser criada a todo momento, na dependência de suas vontades, dos momentos e das oportunidades propícias para a autoproteção e a defesa dos interesse do mercado.

Cito aqui 5 exemplos de abuso obsceno de poder bem recentes protagonizados pela suprema corte:

1) golpe de 64 sancionado pela suprema corte, tratado como algo feito para o “bem da democracia”;
2) impedimento de Lula assumir como ministro de Dilma (o que poderia obstaculizar o golpe em marcha);
2) prisão inconstitucional de Lula,
prisão violando o artigo 5o da constituição, impedindo-o de concorrer; talvez para estes a prisão de Lula “era do jogo”, mesmo…
3) “impeachment” da presidente Dilma sem crime de responsabilidade – conforme amplamente comprovado, e até aceito por Temer, que reconheceu que o impeachment foi deflagrado porque Dilma não quis aceitar a “ponte para o futuro”. Pois também esse crime foi validado pelo STF;
5) a prisão arbitrária e absurda por 9 anos de um idiota que teve atitude de fanfarrão e boquirroto em rede social.

Uma breve pesquisa adicional e seria fácil achar outras centenas de atos autoritários para se somarem a estes. Com a adoção do “crime de opinião” ninguém está livre de ser perseguido por ter expressado sua opinião e sua perspectiva política sobre o país.

Muitos argumentam como se as leis fossem feitas de ferro, e bastaria se apoiar nelas para fazer valer o que é justo, ético e correto. Não… a lei não é feita de ferro, talvez de uma borracha maleável. Pensando bem, esta não é a melhor imagem; as leis são feitas de “slyme” e o STF faz o que quer com elas, moldando-as de acordo com os seus interesses intestinos e espúrios. Não apenas as leis regulares, mas a própria constituição, que é usada de acordo com as vontades desse colegiado medíocre. “Não tenho prova cabal contra José Dirceu, mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite” lembram dessa pérola da ministra Rosa Weber? Sabe quando uma aberração como essas seria aceita num tribunal europeu? Jamais…. mas por que continuamos a aceitar estes absurdos jurídicos por aqui?

A resposta é óbvia, porém triste: é porque esse país é cheio, repleto, transbordante….. de gente comportada.

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Parto, corpo, sexualidade e revolução

Trabalhei como obstetra durante 35 anos e durante todo esse tempo fui ativista e trabalhei em projetos de humanização do nascimento, tanto institucionalmente quanto na minha prática pessoal. O Brasil tem uma importância muito grande no cenário do parto humanizado, e nossas instituições são reconhecidas aqui e no exterior, em especial a ReHuNa – Rede pela Humanização do Parto e Nascimento. Durante os mais de 20 anos em que militei nas organizações de suporte ao Parto Humanizado eu percebi em muitas destas instituições uma vinculação forte com o identitarismo – o que fez com que eu me afastasse de algumas delas por sua conexão com a Fundação Gates, Fundação Ford e a Open Society. Entretanto, minha posição contra o identitarismo e estas instituições nunca me afastou da luta pelos direitos reprodutivos e sexuais das mulheres e seus filhos, e isso ocorre porque estas lutas não precisam ocorrer em nome de um “corporativismo de gênero”, mas pela via da ética e do humanismo, elementos que estruturam estas lutas que afetam o conjunto da sociedade.

É meu convencimento que o parto humanizado não deve ser defendido em nome da “mulher” tão somente, mas em nome da sociedade como um todo, de cada um nós, e pela proteção da integridade física e emocional de todos que dele participam. O mesmo se pode dizer do racismo, cujo combate não se restringe a beneficiar as comunidades negras, mas a todos que participam dessa sociedade, pela união da classe trabalhadora em torno do que existe de humano em cada um, acima das barreiras raciais.

Um exemplo disso é a minha própria entrada nesta seara da humanização, que ocorreu na condição de pai, há 4 décadas, pelo direito dos companheiros de participarem da gestação e do parto. Já naquela época eu intuía que esta singela atitude poderia melhorar e fortalecer os laços de paternidade, e todos hoje em dia reconhecem a importância de uma sociedade com país responsáveis e presentes. Diante da minha firma convicção na importância da defesa dos direitos reprodutivos e sexuais e o parto no modelo humanizado, a minha proposta é simples:

É evidente que a violência contra as mulheres é tão mais perigosa e insidiosa quanto mais dissimulada e inaparente. A violência doméstica – com agressões físicas e morais, chegando mesmo à morte – é evidente e escandalosa, e precisa uma especial atenção, e não pode haver dúvidas sobre isso. Entretanto, a violência institucional cometida contra as mulheres na hora de parir é normalmente invisível aos olhos desarmados, e por isso se mantém silenciosa e pervasiva, sem que receba a devida contraposição à sua manutenção e disseminação pela cultura burguesa.

Por esta razão é importante que a violência obstétrica seja nomeada dessa forma, e que seja tratada pelo que é: uma violência de gênero disfarçada de regras, protocolos e rotinas, praticadas nas mulheres muitas vezes sem seu consentimento (como episiotomias, afastamentos, manobras, cesarianas desnecessárias e outras rotinas) e violando sua integridade física e moral.

Assim como outras práticas agressivas estas violências são vendidas como ações “para a proteção da mulher”, quando na verdade servem basicamente para manter o controle sobre seus corpos. Sendo o parto “parte da vida sexual das mulheres” a ação abusiva da medicina sobre o parto é uma agressão contra sua própria sexualidade, e atua como uma forma de expropriar a participação materna sobre este evento.

A maioria dos partidos burgueses e liberais olham para a violência de gênero observando apenas a parte do iceberg que emerge para fora do oceano de abusos. Ficam focados na questão do emprego, da violência contra a mulher, da necessidade de creches e na descriminalização do aborto, o que é justo, mas não contempla a complexidade das lutas das mulheres contra os poderes estabelecidos que regulam seus corpos e sua autonomia.

Eu acredito que o os partidos marxistas deveria tomar a frente e assumir a pauta da Humanização do Nascimento com entusiasmo e destemor, pois que ela atinge de forma muito certeira o sistema de poderes que atinge o corpo das mulheres em sua liberdade, sua sexualidade e seu desejo.

Além disso, não devemos esquecer que gestantes do primeiro mundo são atendidas por um modelo de referência crescente de complexidade que é centrado na figura das parteiras profissionais (atendentes de parto com formação específica na área) e é através destas profissionais – especialistas na fisiologia do nascimento e no cuidado – que poderá haver uma revolução com a necessária radicalidade na questão do parto. Nos lugares onde este modelo é aplicado os resultados maternos e neonatais são melhores do que qualquer lugar – rico ou pobre – onde se estabeleça a atenção ao parto centrada na figura do médico. Para humanizar o nascimento é necessário descolonizar as mentalidades centradas no paradigma médico de atenção ao parto.

O movimento da humanização do nascimento não é uma pauta identitária, mesmo que tenha sido tratado dessa forma por muito tempo e ainda atraia muitas mulheres seduzidas por uma ideia de enfrentamento e separado das outras questões sociais, como o capitalismo e a luta de classes. Não, o parto humanizado diz respeito aos direitos mais básicos das mulheres, mas também da sociedade como um todo.

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Conhecimento autoritativo

Um dos mais importantes conceitos nas ciências sociais aplicados ao parto e nascimento é o de “conhecimento autoritativo”, noção extremamente importante quando encontramos a interface entre a medicina moderna e sua ação sobre o parto e o nascimento e seu choque com os saberes ancestrais que lidaram com os desafios do ciclo gravido-puerperal desde o início da humanidade. O conhecimento autoritativo define o domínio de um determinado saber que é socialmente reconhecido. Um exemplo fácil de entender para quem atua na atenção ao parto em zonas mais afastadas dos grandes centros: um residente de medicina com 25 anos de idade e com 20 partos atendidos em seu possui tem conhecimento autoritativo, que o capacita para dar atenção às pacientes, enquanto uma parteira com 30 anos de experiência e 500 partos atendidos em sua larga história como cuidadora não o tem.

Assim, o conhecimento autoritativo é aquele que efetivamente faz, aquele que tem suporte das instituições, configurando-se em um saber autorizado socialmente. As parteiras acumulam conhecimento empírico autoritativo em suas comunidades, mas de caráter não autoritativo quando se deslocam de sua base de influência cultural. Uma parteira tradicional quando vai à cidade “perde seus poderes”, passa à clandestinidade, deixa de ter suas habilidades reconhecidas.

O que a antropóloga americana Robbie Davis-Floyd nos diz é que os conhecimentos e saberes não autoritativos não devem ser descartados como sendo “anacrônicos”, “ultrapassados”, “sem valor” ou “inadequados” mas incorporados e observados através do método adequado, para oferecer uma diversidade maior de abordagens, adequação cultural e respeito aos conhecimentos sedimentados por milhares de anos de experimentação.

Desta forma, conhecimento autoritativo (como o nome diz) está relacionado ao poder e à autoridade no controle da narrativa cultural. Todavia, isso não significa que os saberes autoritativos são necessariamente “científicos”. Não, eles são tão somente “respaldados” pela cultura e pelas forças que a regulam. Um exemplo clássico: médicos frequentemente promovem cesarianas em excesso e desmame precoce de bebês e possuem conhecimento autoritativo sobre os temas do parto e da amamentação, apesar destas ações não possuírem base científica. Pelo contrário; o abuso de intervenções – em especial a cesariana – e o desmame prematuro são problemas de saúde pública causados pela própria medicina, e precisam ser entendidos dessa forma: ações “iatrogênicas” (causadas pelo médico). Por outro lado, parteiras e avós podem apoiar o parto fisiológico e a amamentação alicerçadas em seus valores culturais, porém possuem um saber não autoritativo. Elas não tem força ou poder para mudar condutas, mas nestes casos específicos suas condutas e posturas têm total respaldo científico.

Portanto, o “conhecimento autoritativo” não necessariamente significa “conhecimento acadêmico”, apesar de que ele normalmente está relacionado ao respaldo oferecido pela academia.

Por exemplo: numa guerra existem os oficiais que vieram da Academia, e os sargentos que estão lutando lá há algum tempo no front de conflito. Muitas vezes o jovem oficial dá uma ordem e os soldados olham para o “sargentão” para saber se devem mesmo cumpri-la, uma vez que na guerra a experiência – mais do que o academicismo – tem mais valor autoritativo. Nesse contexto o sargento tem poder autoritativo e o “tenentinho” recém saído da Academia, não.

Quem é mais velho lembra do “Recruta Zero” e o personagem “Tenente Escovinha”, ambos do desenhista americano Mart Walker, que ironizava a organização militar do exército do Império americano. Pois o tenente Escovinha era tratado como um oficial a quem ninguém dava bola por ser muito novo e sem experiência. Enquanto isso, o “Sargento Tainha” era o sujeito com voz autoritativa para o grupo de recrutas, entre eles o engraçadíssimo e fanfarrão “Beatle Bailey”- o Recruta Zero.

Conhecimento autoritativo é aquele efetivamente reconhecido como capaz de agir e produzir em determinada circunstância. Na nossa sociedade ele é frequentemente associado àquele adquirido na Academia, mas nem sempre.

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