Descobrir(se)

Faz parte do processo de amadurecimento entender porque escolhemos uma pessoa para nos acompanhar na aventura da vida em detrimento de todas as possíveis alternativas. A imantação que nosso objeto de amor carrega nos captura e transforma, conduz e limita, e o mistério dessa conexão faz parte do encanto que estrutura a paixão. Não acredito em predestinações, mas sempre me encantei com os encontros guiados pelo desejo. Nem sempre esta é a melhor das descobertas, mas é um encontro com a verdade pessoal de cada um e é bom quando ela consegue chegar antes do Alzheimer consumir o entendimento.

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Terroristas

Qualquer um que tenha lido não mais do que cinco minutos sobre a história do Nakba, sobre o Hamas e a respeito da luta de 76 anos pela libertação da Palestina não repetiria o que sionistas vomitam nas postagens pró-Israel É necessário compreender apenas que aqueles que lutaram pela libertação de Paris para tirar seu país das mãos dos nazistas, os que enfrentaram os ingleses para a independência americana, os que se rebelaram contra Portugal para conquistar a independência de Moçambique e Angola e os que expulsaram os franceses do norte da África para dar fim à opressão francesa na Argélia também foram chamados de “terroristas”, apenas porque as nações opressoras se arrogam o direito de colocar esse rótulo em quem luta contra a sua dominação.

Terrorista mesmo é Israel, até porque a própria criação desse enclave europeu e branco no território da Ásia Ocidental só foi possível a partir de atos de brutal terrorismo. O atual massacre covarde em Gaza não é o primeiro patrocinado pelos sionistas na Palestina e não será o último. Foi precedido por muitas tragédias conduzidas pelos monstros que controlam Israel, como o massacre de Deir Yaseen. Houve também massacres em Haifa em 1947 (nesta época foram mais de 20), e tantos outros, como a emblemática explosão do Hotel King David.

A explosão desse hotel foi um ataque ocorrido na cidade de Jerusalém em 22 de julho de 1946, durante o Mandato Britânico da Palestina, tendo como perpetradores os membros de uma organização armada sionista que lutava pela criação de um Estado racista e etnocrático, apenas para judeus, que viria a se chamar “Israel”. A milícia terrorista envolvida era denominada Irgun (diminutivo de Irgun Zvai Leumi, Organização Militar Nacional). O hotel servia de residência dos familiares de funcionários do governo britânico na Palestina e o ataque foi organizado por Menachem Begin, que seria mais tarde primeiro-ministro de Israel por dois mandatos. O ataque ao Hotel Rei Davi resultou na morte de 91 pessoas (28 britânicos, 41 árabes, 17 judeus e 5 outros mortos) e ferimentos graves em outras 45 pessoas. Aliás, também estavam lá os terroristas David Ben-Gurion, Menachem Begin e Yitzhak Shamir, que dirigiam, respectivamente, os grupos terroristas Haganah, o Irgun e o Bando Stern. Alguns anos depois, todos seriam primeiros-ministros de Israel, sem que qualquer um deles tenha jamais sido punido pelos atos hediondos e os crimes contra a humanidade por eles cometidos. Já pensou o que diríamos se o nosso presidente fosse um terrorista que um dia planejou a explosão de uma adutora para forçar o aumento dos salários de militares? Bem, não deveria ser nenhuma surpresa para nós…

Chega a ser estúpida qualquer afirmação de que a resistência armada de um povo, que vivia naquela região há milhares de anos, possa ser chamada de terrorista, enquanto os invasores da Europa sejam todos eles considerados como tendo um direito natural àquela terra. O Hamas nada mais é do que um grupo de bravos guerreiros que tentam há 7 décadas o reconhecimento de sua nação, combatendo o imperialismo e se defendendo dos massacres, as mortes, os sequestros de crianças, as torturas, os assassinatos e os abusos sexuais contra seu povo. Antes de chamar os palestinos de “terroristas” pense primeiro o que você faria se o seu pai fosse morto, sua irmã abusada, sua mãe morresse por falta de remédios e seus primos e tios estivessem em uma masmorra sionista pelo simples crime de serem palestinos. E se você acha exagero, aqui estão em ordem cronológica os principais massacres cometidos contra a população cristã e muçulmana da Palestina.

PALESTINA LIVRE!!!!

1. Haifa – Massacre – 6/3/1937, 6/7/1938, 25/7/1938, 26/7/1938, 27/3/1939, 19/6/1939, 20/6/1948
2. Jerusalém – Massacre -1/10/1937, 13/7/1938, 15/7/1938, 26/8/1938, 7/1/1948
3. Balad Al-Shaykh – Massacre – 12/6/1939
4. Al Abbasiyah – Massacre – 13/12/1947
5. Al-Khasas – Massacre – 18/12/1947
6. Jerusalem – Massacre – 29/12/1947
7. Jerusalem – Massacre – 30/12/1947
8. Balad Al-Shaykh – Massacre – 31/12/1947
9. Al-Sheikh Break – Massacre – 31/12/1947
10. Jaffa – Massacre – 4/1/1948
11. Al-Saraya – Massacre – 4/1/1948
12. Semiramis – Massacre – 5/1/1948
13. Lydda – Massacre 1948
14. Al-Saraya Al-Arabeya – Massacre – 8/1/1948
15. Ramla – Massacre – 15/1/1948
16. Yazur – Massacre – 22/1/1948
17. Haifa – Massacre – 28/12/1948
18. Tabra Tulkarem – Massacre – 10/2/1948
19. Sa’sa’ – Massacre – 14/2/1948
20. Jerusalem – Massacre – 20/2/1948
21. Haifa Masacre – 20/2/1948
22. Saliha – Massacre 1948
23. Al-Husayniyya – Massacre – 13/3/1948
24. Abu Kabir – Massacre – 31/3/1948
25. Cairo Train – Massacre, Haifa – 31/3/1948
26. Ramla – Massacre – 1/3/1948
27. Deir Yassin – Massacre – 9/4/1948
28. Qalunya – Massacre – 14/4/1948
29. Nasir al-Din – Massacre – 13/4/1948
30. Tiberias – Massacre – 19/4/1948
31. Haifa – Massacre – 22/4/1948
32. Ayn al-Zaytoun – Massacre – 4/5/1948
33. Safed – Massacre – 13/5/1948
34. Abu Shusha – Massacre – 14/5/1948
35. Beit Daras – Massacre – 21/5/1948
36. Al-Tantura – Massacre – 22/5/1948
37. Abu Shudha – Massacre 1948
38. Al-Dawayime – Massacre 1948
39. Khan Yunis – Massacre 1955
40. Jerusalem – Massacre 1967
41. Sabra and Shatila – Massacre 1982
42. Al-Aqsa – Massacre 1990
43. Ibrahimi Mosque – Massacre 1994
44. Jenin Refugee Camp April 2002
45. Gaza – Massacre 2008-09
46. Gaza – Massacre 2012
47. Gaza – Massacre 2014
48. Gaza – Massacre 2018-19 & 2021
49. Gaza Genocide 2023 em andamento

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O dilema dos pais

Escutei de um professor, num passado distante, a ideia de que, para produzir um filósofo, era necessário retirá-lo ainda criança, do conforto do afeto mais poderoso: a presença de um pai amoroso. Se entendemos que a filosofia surge do reconhecimento da falta e da noção da precariedade da existência humana, só será possível produzir boa filosofia quando o sujeito é jogado no vazio, obrigando-o a procurar sentido sem o amparo de um pai. A história nos demonstra que a perda precoce dessa figura foi um marco na história pessoal de grandes nomes desse ramo do conhecimento.

Todavia, quando perguntam aos pais o que pretendem que seus filhos sejam no futuro, muitos (até eu) respondem “espero que sejam felizes”, oferecendo a eles o que podem para terem segurança em seus anos mais frágeis e alegria como consequência. Ou seja, sonegam aos filhos o elemento essencial para a boa filosofia: o vazio, o “pathos”, o poço escuro do desamparo.

Esse é o dilema: ao tempo em que damos proteção e amor aos filhos, tentando garantir a eles uma estrutura emocional centrada no afeto, precisamos jogá-los na noite do mundo, no desamparo, na solidão e na frustração, para que seus músculos emocionais sejam fortalecidos e seus olhos da alma se adaptem ao escuro da vida. Transitar pela paternidade é caminhar sobre a fina lâmina da dúvida e da angústia, sem a certeza de ter feito o melhor para os filhos

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Gozo punitivo

Não consigo entender o que a esquerda pequeno burguesa tanto teme com a liberdade de expressão. Questionar o punitivismo aplicado a elementos da extrema-direita não é uma contradição, desde que esta postura esteja alicerçada em princípios bem claros. Por que deixaríamos de defender a Carla Zambelli ou Monark – e, porque não, o próprio Bolsonaro – se eles estiverem corretos em suas propostas? Aliás, é muito comum concordar com alguns pontos de vista da direita quando eles se contrapõem às posturas inadequadas da esquerda liberal – em especial quando criticam os identitários. Por que deveríamos privilegiar a mentira e o engano apenas para nos colocar em antagonismo com nossos adversários?

Eu, por exemplo, sou comunista. Defendo a superação do capitalismo e o surgimento de um modelo que estruture a sociedade numa perspectiva igualitária e fraterna. Entretanto, apesar da minha distância intergalática dos fascistas, defendi o veto do Bolsonaro a um projeto de lei surgido em seu governo que determinava que médicos e enfermeiras deveriam comunicar compulsoriamente, à polícia, casos de violência doméstica. Mesmo sendo do agrado de personalidades ligadas ao identitarismo, a proposta era absurda, pois violava segredo profissional e faria mulheres evitarem serviços de saúde com medo de colocarem a própria vida em risco. A proposta era populista e demagógica, tornando os médicos policiais e espiões da polícia dentro dos centros de saúde. Com isso, as mulheres se sentiriam inseguras de contar algum tipo de violência em suas casas com medo que isso acarretasse a intervenção da polícia, colocando em risco sua casa, sua família e seus filhos. O veto do ex-presidente Bolsonaro – mesmo por razões diferentes das minhas, até porque ele é um sujeito que aceita punições medievais – foi apoiado por boa parte da esquerda (e até de feministas), e não há incoerência alguma nessa posição. 

Por acaso passei a ser bolsonarista por concordar com o veto do ex-presidente? Ora, às vezes concordamos com nossos adversários por razões distintas e até opostas; o importante é manter a coerência e a linha doutrinária que adotamos. No caso da esquerda raiz e revolucionária, não podemos ceder à tentação do punitivismo, da judicialização ou de qualquer reforço dos poderes e valores burgueses. Sair processando, prendendo e cassando adversários, apoiando o ativismo judicial, não é a postura dos socialistas, pois entendemos que as punições de hoje impostas aos nossos inimigos, fatalmente amanhã recairão sobre nós. 

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Supremacismo

Toda vez que alguém vem me dizer que o identitarismo é algo bom, que alguém precisa “proteger mulheres, gays, negros, trans, etc”, que ele nasceu para dar voz às populações oprimidas e historicamente perseguidas e que seu objetivo é a equidade e a justiça social eu lembro que esta é a exata definição dada pelos supremacistas sionistas, ao explicar porque a violência destrutiva desproporcional no ataque aos palestinos é justa. Também os sionistas aparentemente tinham um objetivo nobre; após séculos de perseguições, expurgos e pogroms, era justo que desejassem um lugar seguro para si. O problema é que, para esta tarefa, era necessário roubar a terra onde há séculos vivia outra população, e aqueles que se opusessem a este plano. Por esta razão, ainda hoje matam de forma genocidária seus inimigos e depois exigem que seus crimes sejam vistos de forma condescendente por nós. Afinal, “depois de tudo que nos aconteceu”.

O sionismo que massacra crianças na Palestina surge exatamente desse pensamento exclusivista e supremacista. Essa perspectiva é o embrião de inúmeras tragédias como o nazismo, a KKK (Ku Kux Klan) e o sionismo, que nada mais são que o resultado direto de uma visão de mundo onde um grupo – ou uma identidade – exige ter mais direitos do que os outros grupos, seja porque são o “povo escolhido”, por ser este seu “destino manifesto” ou pelo seu sofrimento no passado. Assim floresce entre estes grupos a ideia de que as leis e regras que são aplicadas aos outros não são aplicadas a eles, por serem diferentes, especiais ou superiores, de acordo com sua própria análise. Entretanto, uma das mais importantes conquistas civilizatórias da humanidade foi a compreensão de sermos todos iguais. Assim, a lei e os juízes devem tratar a todos igualmente, independentemente da sua raçagêneroidentidade de gêneroorientação sexualnacionalidadecor da peleetniareligiãodeficiência ou outras características, sem qualquer tipo de privilégio, discriminação ou preconceito. A ideia de grupos ou identidades especiais – inferiores ou superiores – é ilegal e incompatível com os princípios de liberdade e de equidade.

A luta contra os preconceitos só pode ocorrer no lento processo de maturação das sociedades. Uma sociedade igualitária não vai se tornar hegemônica pedindo “mais amor”, criando “diversidade de aparências” ou judicializando preconceitos, mas exterminando a origem dessas distinções. Estas, como bem o sabemos, estão centradas nas iniquidades econômicas brutais construídas pelo processo civilizatório e consolidadas pela sociedade de classes. O combate aos preconceitos todos – raça, gênero, identidade e orientação sexual – é uma necessidade urgente, mas estas chagas planetárias somente serão desmontadas quando nossa sociedade tiver equilíbrio econômico, por meio da distribuição justa das riquezas produzidas. Enquanto tivermos sociedades divididas em classes, onde o trabalho vale menos do que a concentração de capital, nada será modificado. Para mudar esta realidade precisamos menos “amor” e mais luta de classes.

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Israel em frangalhos

O exército covarde de Israel não é bem-vindo em nenhum lugar segundo o jornal Times of Israel. A Nova Zelândia exige que os israelenses divulguem os detalhes do serviço no exército como condição para entrada. Os israelenses que solicitam um visto de turista estão a ser questionados sobre as datas do seu serviço, a localização das suas bases e se “estiveram envolvidos em crimes de guerra”. Austrália recusa vistos para soldados da IDF devido às acusações de genocídio. Há poucas semanas o Brasil procurava um soldado da IDF devido ao genocídio em Gaza e a morte de uma menina com mais de 300 tiros. Estão caçando os genocidas de Israel como caçaram os nazistas depois da II Guerra Mundial.

O genocídio de Israel não compensa. A economia está em colapso e a propaganda não consegue esconder a verdade. A “Nação Startup”, o sector de alta tecnologia de Israel – que já contribuiu com 20% do PIB e mais de 50% das exportações – está em queda livre e vertiginosa. O investimento estrangeiro caiu 60%, a Intel interrompeu um projeto de 25 mil milhões de dólares devido à guerra em Gaza. As exportações, de 71 mil milhões de dólares em 2022, caíram para menos de 50 mil milhões de dólares em 2024, devido a um declínio acentuado na confiança global. (Al-Monitor)
Dezenas de milhares de profissionais de tecnologia estão saindo, empresas lutando para sobreviver.

A reputação global de Israel está em frangalhos – a Turquia proibiu exportações críticas e a China está atrasando deliberadamente o envio de componentes essenciais em solidariedade com a Palestina. O resultado? Caos na cadeia de abastecimento, cancelamentos de projetos e isolamento crescente. Os militares israelenses impuseram novas restrições à cobertura midiática dos soldados em serviço de combate ativo devido à crescente preocupação com o risco de ação legal contra reservistas que viajam para o estrangeiro devido a alegações de envolvimento em crimes de guerra em Gaza. A imagem em Israel se deteriorou de uma maneira irrecuperável. Ninguém quer se associar com um país que promove genocídio e limpeza étnica. O que ainda sustenta Israel é o apoio dos Estados Unidos, mas até onde o contribuinte americano vai suportar a enorme carga de recursos enviados para uma guerra moralmente condenável? Não há mentira que resista para sempre: os crimes da ocupação e do apartheid sionista mais cedo ou mais tarde estarão nas mentes de todos.

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Revoluções

É forçoso lembrar que tudo, literalmente tudo que sabemos da Revolução Cubana é entregue a nós apenas após ter sido filtrado pelos sistemas de controle americanos. A credibilidade de relatos sobre a “ditadura cubana”, ou sobre os mortos da Revolução é zero. Quem as faz são os mesmos que pintavam a Revolução Russa como tendo “milhões” de mortos e onde as pessoas “comiam criancinhas”. Portanto, as descrições de violações de direitos humanos contra Cuba são suspeitas, em especial quando vem de países, como os Estados Unidos, que violam cotidianamente os direitos humanos dos países que invade.

Por outro lado, não há dúvida que existem exageros e verdadeiras violações de direitos humanos em países que realizam revoluções proletárias. Como bem disse Che Guevara, “matamos pouco; a população enfurecida queria muito mais”. Ou seja, o governo revolucionário teve que segurar a onda de justiçamentos contra os traidores, até para proteger aqueles vendidos ao imperialismo. O mesmo ocorreu na Rússia revolucionária (na guerra contra 14 países estrangeiros após a revolução), bem como no Vietnã, na Coreia Popular e na China. Não há como exigir que nos países que passaram pelo trauma de um processo dessa grandeza não haja nenhum tipo de exagero.

Aliás, essa queixa de violações sempre vem de países que cotidianamente matam milhões, seja para roubar terras e recursos, seja em guerras com este fim ou mesmo aplicando pena de morte em seus habitantes; ou quando seus cidadãos são atacados por serem da “raça errada”. Cuba vive um bloqueio indecente e imoral, que viola os direitos humanos há mais de 60 anos, mas o bloqueio quase não é citado como uma grave agressão à dignidade humana. Lá o povo é unido em sua paixão pela Revolução, e os traidores da pátria cubana não têm mesmo nenhuma simpatia. A morte de muitos desses traidores foi exigência do próprio povo.

As contradições são esperadas quando rupturas ocorrem, mas as pessoas que criticam fatos pontuais numa revolução como a cubana são os mesmos que se chocam com possíveis violações de direitos humanos no 7 de outubro sem se espantar com 76 anos de abusos, torturas, sequestros, assassinatos e opressão que ocorreram contra os palestinos antes da reação violenta que tiveram.

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Missão

Conheci um médico dedicado há alguns anos que me contou que resolveu estudar medicina pelo estímulo indireto de sua professora de biologia do segundo grau. A descrição apaixonada e encantadora do surgimento e da estruturação da vida no planeta que ela trazia às suas aulas o aproximaram das ciências biológicas. Sua paixão pela fisiologia humana, pela etologia (o estudo do comportamento animal) e pela botânica enchia de entusiasmo os estudantes. Esta anônima professora de biologia foi – sem o saber – responsável pela carreira de um médico, e as vidas por ele modificadas carregam um pouco de sua paixão. Através da perspectiva cativante dessa humilde professora, o futuro médico teve o estímulo necessário para dar início à sua missão de vida.

É por esta via que eu entendo a “espiritualidade”. Penso que a crença em algo para além do mundo físico “denso” não é uma questão que possa ser racionalmente debatida, pois sobre este tema não me parecem haver evidências suficientes para posturas assertivas e peremptórias. Assim, prefiro entender tal vinculação com o mundo espiritual como essencial e primitiva, algo que tem a ver com como sentimos o mundo, e não como o pensamos. A partir deste sentimento é que o sujeito estabelece sua visão teleológica da estrutura íntima do universo, suas causas e consequências.

Dito isto, eu creio que todos nós nascemos com uma missão. Chegamos a esse mundo para cumprir tarefas, que vão produzir melhorias em nossa compreensão do mundo e da natureza última do universo. Entretanto, não me refiro a forma grandiloquente ou pedante de definir a palavra “missão” que normalmente usamos. Para mim, a “missão” trata de um projeto subjetivo, pessoal e ligado às dificuldades específicas de cada sujeito. Isso determina que o sucesso de uma existência esteja nessa possibilidade pessoal de crescimento, e não nos resultados econômicos, intelectuais ou políticos percebidos. Da mesma forma, não acredito que o sujeito tenha compromissos específicos e prévios antes de nascer; a missão do sujeito aparece nas circunstâncias e nos contextos de cada vida e de cada sujeito, e pode se modificar quantas vezes forem necessárias. Pode trocar os caminhos, mudar as barreiras a enfrentar, modificar os grandes objetivos e subverter a ordem das etapas, mas o fim será sempre adquirir experiência e crescer.

Por esta forma de ver cada etapa de vida, a missão vai sendo construída no labor diário, e pode ser tanto cuidar da sua mãe, educar seus filhos, proteger um marido, acalentar seus parentes, ajudar sua mulher e todas as ações humanas que nos levam para longe do egoísmo e da ignorância. Pode ser também comandar um país, uma cidade ou um Império, mas também dedicar-se a tarefas humildes como aquelas de uma simples professora de biologia. É importante lembrar que as grandes tarefas do planeta só foram possíveis graças ao trabalho anônimo de milhões de pessoas, cada a delas em sua missão pessoal, lutando solitariamente para serem melhores do que quando aqui chegaram.

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Sexo

Há pouco li um texto curioso sobre as consequências do “sexo casual”. Não está bem explicado no texto, mas creio que foi definido como um encontro onde o sexo ocorre sem que exista uma conexão afetiva mais profunda e consequente. Ou seja: dois “ficantes” que resolvem usufruir dos prazeres sexuais sem que haja um compromisso formal, apenas pelo prazer que oferecem reciprocamente.

O texto descrevia os inúmeros problemas decorrentes desse tipo de encontro, usando como argumento teses pouco ortodoxas. Entre elas a ideia de que as “auras se fundem” durante o sexo, e que essa energia “permanece com você” por no mínimo 5 anos (como mensuraram essa impregnação?). Aponta para que, ao se relacionar sexualmente com alguém, você agrega parte da energia da pessoa com quem compartilhou a cama. Se ela for densa, instável, “carente de luz e amor” você incorpora essas características em sua própria aura. Pode inclusive tomar para si o carma de outra pessoa, caso ele(a) esteja carregado de “energias ruins”. Aqui se expressa, sem máscaras, a face mais moralista e conservadora do espiritualismo, usando de teorias sem evidências para criminalizar a livre expressão sexual. Este texto poderia ter sido escrito nos anos 30, e distribuído como um “manual para moças de família”. Por sorte o mundo mudou, e hoje este tipo de discurso não tem tanta popularidade quanto na minha juventude, quando a virgindade ainda era um tema frequentemente debatido. Essa perspectiva conservadora sobre o sexo – usado apenas como fonte de prazer – está fortemente arraigada na sociedade patriarcal, e para justificar esse preconceito criam-se teorias estapafúrdias como a impregnação de “energias” de outros parceiros e a “contaminação espiritual”.

Tais teorias em tudo mimetizam o furor microbiológico do final do século XIX onde todas as enfermidades eram explicadas pelas bactérias e pelas contaminações, fazendo do outro uma fonte de sujeira e de máculas físicas, geradoras de doença. O mesmo ocorre hoje, mas com elementos mais sutis; ao invés de bactérias, fungos e protozoários, agora falamos de energias sutis e carma. Tudo muito cafona, como, aliás, é típico do espiritualismo cristão, que herdou do catolicismo toda essa cultura de pecado e essa carga imensa de culpa. Fica evidente que a sexualidade com sua poderosa força criativa ainda vai receber por muito tempo a censura de conservadores, pelo medo do que possa ocorrer com uma sociedade onde o sexo seja livre. Não é à toa que o parto, elemento especial de expressão da sexualidade, continua sendo tolhido, amordaçado, cerceado, contido, controlado e domesticado, para jamais ocorrer sem o olhar controlador e censurador da sociedade.

Ainda vai demorar um bom tempo até que as pessoas possam parir e transar em paz, sem culpas e sem medos artificiais!!!

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Aula de democracia liberal

Em 1982 houve eleições diretas para os governos dos Estados na primeira eleição após a abertura democrática “ampla, geral e irrestrita”. Naquele tempo eu era um garoto, estudante de Medicina e recém-pai. Entusiasmado com o retorno das eleições majoritárias, fiz campanha para o candidato do MDB ao governo gaúcho, o caxiense Pedro Simon, que disputava contra o candidato da direita, o dentista Jair Soares, do PDS (ex-Arena), ligado à ditadura decadente, ao agronegócio, ao latifúndio e às forças conservadoras. Pedro Simon havia sido um importante parlamentar, seguidor de Brizola, mas que abandonou a radicalidade das propostas que o líder da Legalidade abraçara. Posteriormente, foi senador da República por vários mandatos. Naquele ano distante, fiz vigília pela vitória da oposição e distribuí panfletos para ajudar na campanha de Pedro Simon. Esta foi uma eleição curiosa, pois os quatro candidatos acabaram se tornando governadores em anos futuros. Além de Pedro Simon e Jair Soares, concorreram Alceu Collares pelo PDT e Olívio Dutra pelo recém-criado PT. Por certo que naquele momento eu não pude votar em Olívio, pois era importante fazer “voto útil”, até porque a votação era em turno único.

Não deu. Ganhou o candidato conservador, o que me deixou, na época, espantado. Depois de quase 20 anos sem eleições livres, eu achava que nosso estado daria uma resposta firme e decisiva ao arbítrio e à ditadura corrupta que tivemos. Não mesmo; os gaúchos votaram no conservadorismo, nas forças reacionárias do Estado e por isso não me espanto com a opção bolsonarista desse estado nos últimos anos. Temos uma burguesia atrasada, agrária, latifundiária e profundamente conservadora, em especial no interior. O povo gaúcho resolveu apostar no candidato que falava o idioma do conservadorismo e das tradições, da família e da propriedade.

Nas eleições seguintes, quatro anos após esta decepção, finalmente Pedro Simon acabou chegando ao Palácio Piratini, sendo eleito governador do0 Rio Grande do Sul, e esta foi uma das maiores lições que tive na política. Trazia consigo a esperança de renovação, do fortalecimento dos trabalhadores, em especial para a classe do magistério, historicamente sufocada pelos governos estaduais. Quando no poder, Pedro Simon passou por uma grande greve dos professores, e sua atuação em nada foi diferente daquela de seus antecessores, mesmo os governos militares. Polícia na rua, cavalaria dispersando professores, cassetete em estudantes e atitudes de força e violência contra a população. Também teve um governo medíocre em todos os sentidos. Ou seja, aquele a quem eu dediquei meu esforço pela eleição alguns anos antes teve a mesma mentalidade e práxis política do seu “adversário”. A lição que ficou foi a de que as diferenças eram falsas, meras aparências, miragens criadas para nos confundir. Jair e Pedro eram frutos da mesma árvore, que apenas vicejaram em galhos distintos, dando a falsa impressão de que eram produtos diferentes. O mesmo acontece hoje, em várias partes do mundo, inclusive aqui no Brasil. Onde vemos disputas ferozes existem, em verdade, brigas de ego que apenas escondem uma visão de sociedade praticamente idêntica. Nos Estados Unidos não existem partidos distintos, e as diferenças são devidas muito mais à maquiagem do que à essência. O imperialismo tem um partido único, que independe das eleições. No Brasil, todos os presidentes são gerentes da massa falida do capitalismo periférico. Mesmo Lula não pode ser muito diferente dos seus adversários, pois que todos são controlados pelas forças conservadoras que mandam na imprensa burguesa, no congresso e no judiciário. Para romper esse ciclo vicioso só mediante uma revolução que garanta ao povo o real controle da nação.

No ocaso de sua vida, Pedro Simon foi um grande incentivador da Lava Jato e da prisão ilegal de Lula. Antes disso, foi entusiasta do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Em uma famosa manifestação em 2015 falou que a operação capitaneada por Moro e Dalanhol era um marco para a lisura política no Brasil, que a prisão de Lula era uma grande vitória da justiça e que Lula “não seria mais nada“. Também não se furtou de chamar Lula de “ladrão”. Algum tempo depois abriu seu voto para Bolsonaro e Onyx Lorenzoni, de forma entusiasmada, para derrotar o PT e a esquerda. É incrivel pensar que Pedro Simon, na minha juventude, foi o candidato das forças de esquerda, e aqui está a grande lição: nunca foi de esquerda, e nem próximo disso; o fato de se contrapor a outro político de extrema-direita não o tornava um progressista, mas isso nos enganou a ponto de apoiá-lo. Pedro Simon me ludibriou, mas não por culpa exclusiva dele, e sim pela minha (nossa) ingenuidade em acreditar em suas palavras, suas promessas e seu discurso. Ele era um emissário da direita, conservador e com simpatias pelo extremismo reacionário que o Brasil adotou como um claro sintoma da crise do capitalismo.

Hoje Pedro Simon completa 95 anos. Que tenha ainda muito tempo de vida, o suficiente para refletir sobre sua postura política. 

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