Uma ilha de democracia

Nas últimas semanas comecei a ver de novo nas redes sociais um movimento que me chamou a atenção. Voltaram a aparecer as críticas à República Islâmica do Irã e a comparação com a fulgurante democracia israelense. Diante da guerra aberta, com o céu das grandes cidades de Israel iluminadas pelos mísseis balísticos iranianos e com o zumbido mortífero dos drones que sobrevoam a suntuosidade de Tel Aviv e Haifa, o ocidente voltou a ser inundado com propaganda imperialista, que coloca o Irã como um país “do mal” enquanto o enclave branco ocidental chamado Israel passa a ser descrito como um oásis de civilização no meio de um deserto de valores morais.

Primeiramente, é importante levar em conta que Israel não é uma democracia – longe disso. O projeto sionista deixou claro, desde os primórdios de sua implantação, que não seria possível manter Israel sem uma maioria consistente de judeus, e que esse a quantidade de árabes na sociedade israelense jamais poderia ultrapassar 30%. Entretanto, Armon Soffer, proeminente demógrafo israelense, os judeus já são minoria quando se analisa a Palestina: Israel e os Territórios ocupados. Desta forma, incorporar as populações palestinas em um único país destruiria a hegemonia étnica artificial estabelecida após o Nakba em 1948. Ou seja: Israel é uma etnocracia institucional; está em sua constituição de que aquela é a “pátria dos judeus”. Fica evidente para quem estuda as questões da Palestina as razões pelas quais Israel não trata como cidadãos – com plenos direitos, inclusive o voto – os 7 milhões de palestinos dos territórios ocupados. Essa democracia destruiria a “maioria judaica”, artificialmente produzida pela expulsão de 750.000 palestinos em 1948 e pela limpeza étnica efetuada nos últimos 77 anos.

Já essa história de Israel como “defensor da democracia”, uma “barreira de valores ocidentais a impedir a invasão da barbárie muçulmana”, é uma mentira; uma farsa imperialista. O que existe como valor primordial se resume nos interesses econômicos e geopolíticos da região. Entretanto, vi surgir de novo a mesma retórica identitária, que agora parte de segmentos da própria direita mais oportunista: “Estariam membros da comunidade LGBT mais bem hospedados e mais seguros na Palestina ou no Irã?” Esta é um dos argumentos mais usados para atacar o Irã ou qualquer país de maioria islâmica, da Palestina à Indonésia. Primeiramente, isso mostra uma ignorância inaceitável sobre as disparidades existentes dentro do mundo muçulmano. Essa afirmação tem o mesmo nível de absurdo de questionar a “vestimenta típica da Europa”, ou a “comida do Brasil”, ou mesmo os “costumes morais dos cristãos”, como se o ocidente fosse um bloco hegemônico no qual a comida, a religião e os costumes fossem encontrados de forma idêntica em todas as latitudes. Ora, para uma população de mais de 1 bilhão de crentes, o Islã terá tantas diferenças quanto podem ser encontradas entre um umbandista e um mórmon no âmbito das suas práticas cristãs, sua comida, seus valores, seus costumes e até sua vestimenta.

O Irã fez uma revolução popular para defender seus valores e suas riquezas. Alguém acredita mesmo que americanizar um país, trazendo prostituição, drogas, casinos, metanfetamina, corrupção desenfreada, submissão, etc. significa melhorar a democracia e os direitos individuais dos seus cidadãos? Até a revolução islâmica, o Irã era capacho dos Estados Unidos, e seu líder – o Xá Reza Pahlevi – foi colocado no poder por um golpe de estado patrocinado pelos americanos. Este servia como mero despachante dos interesses ocidentais para o petróleo persa, um agente bem pago da CIA. Assim, antes de debater as questões de grupos específicos, como mulheres e gays, é fundamental entender a importância de defender os valores de um país e perceber o quanto o sul global serve de quintal para os americanos, que vendem sua música ruim, sua comida de baixa qualidade e seus valores capitalistas para nós de forma livre e acrítica. “Sim, mas vejam a liberdade de gays e trans em Israel. Há notícia de alguma parada gay na Palestina ou no Irã?”

Pois eu pergunto: desde quando a existência de paradas gays significa respeito aos homossexuais? Inclusive, muitos gays criticam esse tipo de exposição, basta olhar o que dizem muitas das lideranças dos movimentos LGBT sobre o estereótipo de gay usado nessas paradas. Parada gay em Israel é propaganda imperialista, o famoso “pinkwashing“, e serve para fingir uma pretensa liberalidade ocidental. Só tolos embarcam nessa canoa. Por trás disso está o controle do petróleo, o domínio geopolítico, as ogivas nucleares de Israel e a penetração cultural. E como são tratadas as mulheres em Israel? Bem, depende da cor. Em Israel respira-se arbítrio e racismo. Cerca de 130.000 etíopes, a maioria de judeus, moram em Israel. Conforme o Haaretz, médicos que injetaram anticonceptivos injetáveis em negras etíopes que migraram para Israel alegaram que “pessoas que dão à luz com frequência sofrem”. Mesmo que fosse possível que os médicos tivessem boas intenções (o que é altamente improvável) ao injetarem contraceptivos à força, não há justificativa alguma para privar as mulheres da soberania sobre suas próprias escolhas reprodutivas. Ou seja: o respeito às mulheres vai depender da sua cor, da sua origem e vai sempre estar atrelado aos interesses do etnoestado sionista. O mesmo tipo de tratamento ocorre desde 1948 com a discriminação dos judeus “mizrahim”, vindos do mundo árabe.

É evidente que o Irã não é um exemplo de democracia vibrante. É mais do que claro que uma revolução nacionalista como a que aconteceu em 1979 no Irã deixaria muitas feridas no tecido social e muitas questões sobre os valores e direitos individuais sem resposta, em especial no que diz respeito às mulheres, gays, etc. Entretanto, esse é o preço da liberdade e da autonomia. O Irã não passava de um entreposto comercial dos interesses do ocidente até meados do século passado, da mesma forma como a China sempre o foi durante todo o século XIX até a revolução de Mao em 1949. Depois de um processo revolucionário, com a nacionalização das empresas petrolíferas e um mergulho nos valores da Pérsia, haveria muitas arestas a serem aparadas. Entretanto, essas dificuldades – em especial no que tange as minorias e os costumes – são usados até hoje como instrumento de contra-revolução, querendo nos fazer crer que a vida antes da revolução era muito melhor para as mulheres, os gays, etc. Pergunte aos gays, às mulheres e às crianças palestinas como é viver sob o jugo sionista e esta será a melhor resposta.

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Tensão e guerra

Escrevo estas notas enquanto o céu de Talabib se ilumina com as bombas que chegam do Irã. Era de se esperar que a República Islâmica do Irã, mais cedo ou mais tarde, iria fazer a sua necessária retaliação aos ataques sionistas. Entretanto, sabemos bem que a agressividade de Israel é a maior demonstração de sua fragilidade. Tanto no plano internacional quanto interno, o país está em frangalhos. É impossível esconder hoje, como foi feito durante quase oito décadas, as atrocidades e os crimes cometidos contra a população da Palestina.

A operação de 7 de outubro destruiu o projeto sionista de uma forma irrecuperável. Não há mais como sustentar a ideia racista e supremacista que se constitui na estrutura central de Israel, sua espinha dorsal. O genocídio, as matanças de crianças, a diretiva Hannibal, o bloqueio de ajuda, a destruição dos hospitais, a mortandade de 10% da população, em sua maioria mulheres e crianças, as torturas denunciadas nos calabouços israelenses, a morte de jornalistas, médicos, enfermeiras e toda a podridão do apartheid foram jogadas nas telas de TVs e celulares do mundo todo. Ao contrário dos massacres cotidianos dos últimos 77 anos, agora a Internet expõe de forma crua o sofrimento do povo palestino e a perversão homicida da sociedade israelense. Não há mais como desver o que testemunhamos, e não há mais como Israel se tornar uma nação entre as nações. Israel é um cadáver que apodrece à vista de todos, mas enquanto o corpo não é enterrado, somos obrigados a ver o horror de sua decomposição, enquanto o mundo inteiro testemunha o horror e o racismo que imperam na sociedade israelense. Ficou claro que esse ataque israelense ao Irã foi puro desespero do Império em decadência. Fica evidente que Israel está morrendo, se desfazendo, e esse ataque revela um corpo em decomposição. Não há mais como sustentar Israel, uma aberração supremacista e genocida, um enclave europeu fascista encravado no Oriente Médio.

A meu ver, esse país não tem mais muitos anos de vida. É sintomático que 10% da população já tenha abandonado o país, voltando para seus lugares de origem, e por certo muitos mais vão trilhar esse caminho. Essa guerra provocada – com a desculpa do enriquecimento de urânio – é o sintoma do fim de Israel. Fica claro que está se comportando como a Argentina dos anos 80, entrando em colapso e nos estertores da ditadura militar, provocando uma guerra contra a Inglaterra para unificar o país em torno de uma ameaça externa. De nada adiantou; o regime caiu de podre.

Este é um sintoma inquestionável do fim de um projeto racista e colonial. É evidente que por trás das decisões agressivas de Israel existe a conivência ou a explícita cooperação americana, basta ver que os mísseis que atingiram Teerã partiram do Iraque, enclave imperialista no Crescente Fértil. A esperança de Israel é que os Estados Unidos mantenham a decisão de bancar o conflito, entrem na “guerra santa” e ajudem seu protegido.

Entretanto, isso não é certo, porque a situação interna dos americanos é caótica, com tropas nas ruas, motins, manifestações populares e um presidente fragilizado. Será difícil convencer a opinião pública americana a fazer sacrifícios e enviar tropas em nome de Israel. Principalmente agora, no momento em que o apoio a este país atingiu seus níveis mais baixos na história americana – sem falar do rechaço internacional. Alguém crê que mais uma vez veremos jovens americanos morrendo em uma guerra estúpida? Colocar os Estados Unidos em guerra contra um país distante, que não ameaçou diretamente os Estados Unidos, e com o risco de colocar o comércio de petróleo do mundo em colapso? Serão eles tolos o suficiente para produzir um novo Vietnã?

A situação é desesperadora para a velha ordem. Enquanto o mundo multipolar não se configura como a força hegemônica no planeta, viveremos a tensão, o medo e as guerras.

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Oportunismo

Caetano Veloso, em recente show, segurou a bandeira da Palestina, numa demonstração de adesão à luta dos palestinos por liberdade e autonomia. Todavia, é importante voltar no tempo um pouco e lembrar que, antes da sua visita a Israel em 2015, numa apresentação para latinos e brasileiros moradores de Israel, os cantores e compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil foram confrontados por Roger Waters para desistir da visita que fariam a Israel, cancelar seus shows e se unirem à causa pela Palestina. Caetano desconsiderou solenemente os pedidos de Roger e outros ativistas, debochou das palavras de Miko Peled, dançou e cantou com os sionistas de Tel Aviv e jamais se desculpou pela sua presença na Palestina ocupada, em concertos regiamente pagos pela nação invasora.

Gilberto Gil fez ainda pior: além de ganhar seu dinheirinho cheio do sangue das crianças palestinas, ainda assinou abaixo-assinado de apoio aos sionistas depois do 7 de outubro. Ambos são gênios da música, talentos indiscutíveis, mas ignorantes e reacionários, a ponto de se colocarem ao lado de uma ideologia nazista e genocida.

O mesmo se pode dizer de Jean Wyllys, figura que ruma celeremente para o mais absoluto esquecimento. Enquanto parlamentar, foi a Israel em um “trenzinho da alegria” e com boca livre, financiado pelas universidades israelenses – situadas em terras palestinas invadidas – com o claro intuito de fazer propaganda do regime de apartheid e reforçar a imagem de Israel como eterna vítima no cenário internacional. Foi escolhido a dedo por ser abertamente gay e ter uma postura francamente identitária, o que auxilia na conhecida estratégia de “pinkwashing“, característica da “hasbara” (propaganda estatal de Israel). Esse também jamais pediu perdão por se postar ao lado do apartheid, do supremacismo, do abuso e do racismo mais asqueroso vigente em nossa época.

Sim, Caetano, Gil e Jean Wyllys não foram os únicos a se deixar encantar pelo dinheiro fácil que vem de Israel. No início desse ano ocorreu outro “trenzinho“, desta vez composto de profissionais da imprensa que visitaram Israel – com todas as despesas pagas (jabá) – para limpar a barra do sionismo. Entre eles estavam Pedro Doria, fundador e editor do Canal Meio; Tatiana Vasconcellos, âncora da Rádio CBN; Filipe Figueiredo, criador do podcast Xadrez Verbal; Leila Sterenberg, que atua semanalmente nos programas do canal do IBI; Janaina Figueiredo, repórter especial do jornal O Globo; e Marcos Guterman, diretor de Opinião no jornal O Estado de S. Paulo.

Entretanto, quando essa adesão ao sionismo vem de figuras públicas adoradas pela esquerda, eu acredito que a traição é mais dolorosa. Mesmo quando sabemos que não é justo confundir o autor com a obra, é inevitável a frustração. Caetano Veloso continua sendo um dos maiores gênios da cultura brasileira, um revolucionário da arte, criador do tropicalismo, músico e poeta da maior qualidade. Entretanto, como agente político, é um arrogante, um alienado e alguém que sempre se jogou para o lado que lhe pareceu pessoalmente mais favorável, mesmo que isso significasse apoiar os genocidas e canalhas mais abjetos. Todavia, sua genialidade não pode nos deixar cegos diante do seu oportunismo. Sua adesão tardia à luta pela libertação da Palestina não pode apagar de nossa memória sua posição de adesão franca ao sionismo.

Desculpe, Caetano… eu não sou cachorro, não.

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Paixões

Certa vez uma astronauta relativamente famosa dirigiu quase 1500 quilômetros para confrontar a nova namorada do seu amante. Na época, esta funcionária da NASA era casada e tinha 3 filhos pequenos. Seu nome era Lisa Nowak, e ela percorreu o trajeto usando fraldas geriátricas para não precisar parar e chegar ao seu destino em tempo muito curto. Usando uma peruca preta, encontrou sua vítima num estacionamento em Orlando, mas conseguiu apenas confrontá-la e jogar gás lacrimogêneo em seu rosto. Depois disso foi presa, mas foi solta pouco tempo depois, até porque suas acusações eram leves e não passaram de mera agressão. Entretanto, divorciou-se e encerrou sua carreira de engenheira da agência espacial americana. Hoje vive sozinha no Texas e se nega a dar entrevistas, mas seu advogado afirmou recentemente que ela vive uma vida modesta e “está em paz”.

Sempre lembro dessa história quando penso no quanto somos governados por nossas paixões. Vejam: ao contrário de crimes passionais quando um dos cônjuges (ou conges) perde a cabeça durante uma briga e produz uma agressão – que muitas vezes é fatal – no caso dela toda a ação foi premeditada e demorada. A travessia empreendida demorou 14 horas, e foi feita dirigindo seu próprio carro de Houston até Orlando. Fez isso sem parar, e teve muito tempo para ponderar sobre as repercussões de suas atitudes para si mesma, sua família e a vítima – que também era astronauta. Todavia, as 14 horas de viagem não foram o tempo suficiente para lhe devolver a plena visão, já que se encontrava cega de ciúme, ressentimento, rancor e orgulho ferido.

Apesar de tudo que estava em jogo e o quanto ela podia perder – carreira, família, amigos – ela não conseguiu se libertar da prisão de suas paixões. Seguiu em frente sem conseguir que uma réstia de luz pudesse iluminar seu entendimento. Entretanto, apesar da tristeza dos resultados e as perdas enormes que Linda teve em sua vida pessoal e profissional, eu ainda penso que essa explosão de afetos será a última barreira a ser rompida pelas máquinas. Quando os robôs forem capazes de copiar as mais brutais manifestações humanas, nada haverá que os impeça da supremacia completa sobre a condição humana. Enquanto formos caracterizados por esse tipo de comportamento caótico, movidos pela torrente de emoções explosivas, ainda estaremos em segurança, distantes da suprema extinção e consequente substituição pelos replicantes.

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Censura e proibicionismo

Não gostou da piada? Corte a amizade. Não fale mais com o sujeito, não vá no seu show, cancele, reclame. Escreva um textão nas redes sociais denunciando a visão preconceituosa que ele dissemina. Temos nas mãos o poder de mostrar que esse humor não é engraçado, que não é construtivo e que se baseia em estereótipos inadequados. Porém, o desejo de calar e censurar os “humoristas do mal” deixa claro que as pessoas que apoiam tal censura não acham que podemos fazer boas escolhas. Na verdade, acreditam que a proibição pode ter efeitos positivos, e pensam ser mais efetivo combater a mentira com a censura, ao invés de oferecer a verdade como contraponto. Não ensinamos a chapeuzinho vermelho a fazer boas escolhas, pois achamos mais certo perseguir todos os lobos. Lembrem que, da mesma forma, o samba já foi proibido, pois havia a ideia de que sua prática incentivava a vagabundagem. Alguém acha ainda que o samba produz preguiçosos?

Vejo que as pessoas têm dificuldade de entender é que o humor de um comediante não produz nada, ele apenas reflete os valores e crenças de uma determinada sociedade. As pessoas que vão no show do comediante Leo Lins não se tornam racistas ou preconceituosas devido às palavras e piadas que escutam no show; o Leo Lins não tem esse talento, não tem esse poder de conversão e muito menos essa capacidade. Todavia, não há dúvida que ele atrai os racistas e reacionários para o seu show, provavelmente os mesmos que se exaltam nas motociatas de líderes fascistas, pois as pessoas sabem com precisão o conteúdo que será oferecido. Da mesma forma, uma missa não converte ninguém a Jesus, mas oferece um local de encontro para os aqueles crentes que há muito desejam exercitar a fé num Salvador.

A prisão ou a penalização desses comediantes, políticos, partidos, programas, religiosos não acabará com a audiência, não vai sequer diminuir o número de pessoas interessadas em suas ideias, apenas vai impedir que estas ideias sejam reconhecidas na sociedade. O mais triste é ver que a lógica usada aqui é a seguinte: se prendemos todos os gays e proibirmos que eles falem desse pecado mortal, os homossexuais vão desaparecer; se ninguém falar desses assuntos acaba tudo, eliminamos o problema. Acrescente a essa ideia punitivista as tentativas de perseguição ao comunismo, ao islamismo, ao álcool, e a ideia de acabar com o crime exterminando os criminosos.

Tudo isso já foi tentado, até mesmo hoje. Spoiler: não funcionou.

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Leo Lins

O comediante Leo Lins foi condenado a 8 anos de prisão e 300 mil reais em multas por fazer piadas consideradas desrespeitosas com minorias, debochando de velhos, gays, crianças com deformidades físicas, etc. An questão não é se as piadas que ele conta são adequadas, boas, edificantes ou até respeitosas, mas se o Estado tem o direito de determinar que tipo de piadas podem ser contadas. A meu ver, e para muitas pessoas que não se deixaram seduzir pelo discurso identitário, ser preso por contar piadas é o fundo do poço da justiça autoritária brasileira. Parece certo que Juca Chaves tinha mais liberdade criativa durante a ditadura militar dos anos 60 do que um comediante atualmente.

Eu já assisti vídeos curtos das apresentações desse comediante e nunca gostei, e apenas por isso não assistirei a um show seu. Não gosto das piadas, acho apelativas e, acima de tudo, sem graça. Ou seja: não faço sobre elas uma análise moral, acho que lhes falta graça, humor. Entretanto, é óbvio que ninguém é obrigado assistir, muito menos gostar deste tipo de espetáculo, porém prender e multar alguém por contar piadas é absurdo, inaceitável, imoral e inconstitucional!! Conte a piada que quiser, só vai rir quem achar graça. Se acham inadequado, façam como eu: ignorem. Mais ainda: a ideia de tratar as minorias atingidas pelos chistes como “coitadinhos” que precisam ser protegidos de piadas não os ajuda. Esse é um modelo “maternal” que protege às custas da infantilização, e isso impede a conquista da maturidade. Quem deseja ser maduro deve renunciar às proteções excepcionais e fortalecer seu ego, ao invés de tentar impedir os gracejos alheios. Repito: essas proibições e criminalizações fazem mal aos grupos minoritários. Aqueles sujeitos ou grupos que desejam ascender à posição de protagonista necessitam abandonar a posição de vítimas (mesmo quando o são).

Creio ter deixado claro que a minha defesa é em tese. Eu já assisti vídeos desse humorista e percebi que no seu show ele força a barra. Tipo: vou contar uma piada de negro, gay, velho, mulher, deformidades físicas ou sobre lésbicas só para causar, para dizer que faço o que eu quiser, que brinco com qualquer coisa. Para mim soa falso e forçado; portanto, sem graça. Apesar disso, jamais aceitaria que esse tipo de piada fosse proibida, exatamente porque essa perspectiva proibicionista é comprovadamente inútil. As piadas do Juca Chaves (“comi muito a senhora sua mãe”) eram “proibidas” na minha juventude, mas na escola todos sabíamos de cor e salteado todas as “proibidonas”.

Tenho como uma regra de vida que nada pode criminalizar o humor. Nada mesmo. Pode fazer piada com qualquer coisa. Aliás, sobre assuntos delicados, o Ricky Gervais faz várias piadas em seu show; tudo depende do contexto. Estabelecer sacralidade sobre determinados assuntos é péssimo para ideias, propostas, a necessária transformação do mundo, as religiões, as personalidades, os grupos oprimidos e para as minorias. Proponho um exercício: imagine que seu filho Betinho chega no primeiro dia de escola, lugar onde as crianças exercitam tudo, inclusive a maldade. Todavia, seu filho nasceu com um problema: ele tem alopecia, é carequinha e não tem cabelo algum. Agora imagine a professora apresentando Betinho para a turma e dizendo “crianças, escutem: é proibido fazer piadas com o Betinho por ser careca”. Isso seria um desastre para o Betinho, pois seria excluído dos grupos e estaria sempre sendo visto como o protegido do sistema, infantilizado, sem desenvolver sistemas e estratégias de adaptação e proteção. O que a professora deveria fazer é não dar importância alguma para isso, reforçar sua autoestima, exaltar suas virtudes e ensiná-lo a se defender. Protegê-lo, como fazemos com as minorias por meio da lei, não ajuda esses grupos, muito menos o Betinho. Para muitos é difícil entender a perspectiva de quem diz que os grupos e os sujeitos – por si só – precisam desenvolver sistemas de proteção e defesa. Quem traduz o mundo pela visão materna terá sempre dificuldade para entender o mundo pela perspectiva da paternidade.

A proibição de gracejos sobre temas escolhidos (quem escolhe sobre o que se pode fazer piada?) seria a “lei seca” das piadas, que apenas as faz acontecer entre sussurros ou em locais fechados e seguros – e por esta razão mesmo elas se espalham. A sociedade não se move por decretos ou por proibições; só o que nos faz avançar é a lenta sedimentação de novos valores, que insidiosamente se espalham pela cultura. Proibir é mais do que inútil; isso amplifica a ação que se tenta combater. Por trás desse tipo de estratégia está a crença der que o judiciário pode modificar a cultura, quando a verdade é que ele apenas reflete os valores de determinadas culturas. A luta contra discriminações ou preconceitos não pode ser feita pelas leis, mas pela lenta sedimentação de valores na cultura. Compare este tipo de censura aplicada aos humoristas brasileiros com a liberdade dos comediantes de “stand up” como Ricky Gervais ou Dave Chappelle que fazem piada com tudo, literalmente qualquer coisa. Fazem até piada com abuso sexual(!!), mas sempre alertam para o cuidado especial com o contexto, o campo simbólico que envolve de significados qualquer anedota. Não gostar do tipo de piada é legítimo; proibir é abuso.

Minha discordância é que criar estas proibições, legislações e aumentar penas não defende as minorias, pois este tipo de ação jamais protegeu ninguém na história da humanidade. Repito: o que as proibições e as leis fizeram contra o nazismo, o álcool ou o comunismo? O que fará com o racismo? O que fará com o debate sobre o machismo? A resposta é clara: nada, pois o proibicionismo nunca produziu efeitos positivos na cultura. O que muitos pretendem é cercear a possibilidade de pensar, de expressar, de dizer piadas, mas é claro, só de alguns grupos. Não pode chamar de símio um grupo, mas pode chamar outro de gado.

E sobre as leis, acho que devem ser cumpridas. Quem desrespeitar as leis deve pagar sua dívida à sociedade. De toda maneira, sou contrário a qualquer lei que ataque a livre expressão de ideias e opiniões, por mais ofensivas que estas sejam, pela mesma razão que sou a favor de que qualquer partido tenha o direito de mostrar a cara e não se esconder em partidos de fachada.

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Repreensões

A propósito, lembrei de uma história que me foi contada por um emérito psicanalista a respeito de como podemos abordar algumas questões, inclusive o direito de contar piadas politicamente incorretas.

Havia uma jovem senhora que era mãe de quatro filhos, sendo o último uma criança autista. Veio à consulta com o psicanalista – que era especializado no assunto – para tratar de questões relativas ao seu desenvolvimento. Em determinado momento ela comentou que a criança tinha o “péssimo hábito” de pegar a comida com a mão, amassar entre os dedos e jogar longe. Aquilo produzia enorme irritação nos pais, em especial na mãe, que tinha muito mais contato com a criança e que ainda era sobrecarregada com o cuidado dos outros três filhos maiores. Narrou a rotina diária da hora do almoço, seu cansaço, a repetição dessa cena e a sensação de raiva que tinha por não saber como agir nesse caso. Pediu ao analista sua opinião.

Ele imediatamente perguntou: “Como a senhora tratou este tipo de ocorrência com seus outros filhos?”

Ela respondeu: “Ora, eu dava um ‘pito’ neles. Dizia que não era ‘empregada’, que não podia limpar 20 vezes o chão, que não tinha saúde para isso, que tinha marido e outros filhos para cuidar, etc.”

O psicanalista ponderou por uns instantes e disse algo que até hoje me espanta: “Funcionou com eles?”, e ela respondeu afirmativamente. Ele então arrematou: “Pois faça o mesmo com o menorzinho. Vai funcionar também”.

Ao escutar a história, e diante do sorriso um pouco debochado do analista, resolvi apresentar minha inconformidade. “Mestre, não lhe parece óbvio que este bebê estava passando por uma fase absolutamente natural do seu desenvolvimento, aprendendo a consistência dos alimentos, entendendo as noções de falta e presença ao jogar longe o brócolis que tinha na mão, ao se sujar, ao sentir o cheiro da comida nas suas mãos, etc? Não lhe parece evidente que repreender a criança em sua experiência lúdica com a comida seria um erro, um equívoco e um entrave ao seu aprendizado?”

Ele sorriu da minha observação e respondeu assim: “Você tem toda a razão. Tudo o que você pondera é correto. Realmente a mãe estava diante de um processo natural de aprendizado e repreender não é o mais ajustado. Entretanto, você omite dois pontos fundamentais: o primeiro é que a criança fazia isso na hora do almoço, ao lado dos seus irmãos, que testemunhavam as atitudes da mãe. O segundo ponto é de que se trata de uma criança autista. Neste cenário, eu acho mais adequado que a criança seja atendida da mesma forma que os irmãos foram, para não ficar sedimentada na cabeça deles que o caçula é ‘diferente‘, que tem ‘privilégios’, que pode fazer o que os outros não podiam. Eu acredito que a ideia de acolhimento e de identidade com os irmãos é muito mais importante do que observar essa regra – repito, correta – sobre a etiqueta ao almoçar com a família. Com crianças autistas, é essencial mostrar que são iguais aos outros, que não serão superprotegidos, que também receberão reprimendas e que não terão tratamento especial.“

Durante muito tempo fiquei confuso com esta resposta, mas finalmente entendi que tratar de forma igual é difícil e impõe desafios, mas que continua sendo o melhor e mais seguro caminho para a integração. O que o analista queria enfatizar era: não crie seu filho numa bolha de proteção e não crie para ele um espaço de discriminação. Da mesma forma, eu digo: não trate nenhum grupo de pessoas maduras como se fossem inerentemente incompetentes. A mensagem para os irmãos era: é evidente que o irmão de vocês é especial, mas isso não dará a ele qualquer tipo de privilégio. Entretanto, isso significa abandonar as estratégias de proteção que, durante um tempo, ajudam e garantem a sobrevivência, mas cuja continuidade determina estagnação e isolamento, deletérios para o crescimento. Proibir piadas e punir os piadistas jamais impediu que elas circulassem. Ou seja: não adianta nada proibir, é inútil e essas penas funcionam apenas como vingança social, estimulando sentimentos de revanchismo, mas são incapazes de mudar o padrão social, que só é modificada por meio da lenta sedimentação de novos valores, e não por imposições judiciais..

Assim, mesmo reconhecendo que algumas piadas podem ferir suscetibilidades, magoar e até ofender, ainda acho mais valioso permitir que elas circulem livremente – por pior que sejam os gracejos – do que aplicar proibições, vetos e censuras. O malefício a uma pessoa ou grupo pode ser revertido pelo incentivo à autoestima, exaltando as qualidades ao invés de enfurecer-se com os ataques. Entretanto, a censura, mesmo quando feita por caridade e com as melhores intenções, abre um precedente terrível, que fará mal às próprias comunidades que se pretende proteger.

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Escândalos

Muita gente está sendo perseguida e chantageada devido a vazamentos de vídeos íntimos. Qualquer um munido de um celular e uma deficiência de caráter pode transformar momentos privados em formas de chantagem e/ou promoção. Agora é a vez de Glenn Greenwald, advogado e jornalista politico americano, judeu anti-sionista e autor da peça acusatória jornalística que veio a se chamar “Vaza Jato”. Esta semana noticiou-se que ele teve sua privacidade exposta por meio de um vídeo que circula no submundo da Internet. No meu entender, nada pode haver de muito chocante sobre a expressão sexual desses personagens; afinal, são todos são maiores de idade, portanto, adultos. Bem sabemos o quanto carregamos de fantasias, as quais guardamos num cantinho escondido da nossa gaveta de desejos; publicá-las, apenas mostra que somos inexoravelmente humanos. Entretanto, não me agrada ver estes personagens expostos a constrangimentos, e ainda me revolta saber que possam ser calados ou pressionados por isso.

Minha esperança é que chegará um tempo em que haverá uma total saturação com esse tipo de “escândalo de intimidade”. A partir de então, esse tipo de ameaça não poderá gerar mais nenhum tipo de pressão e nenhum constrangimento. O público, farto desse sensacionalismo tosco e vazio, vai simplesmente ignorar fotos, vídeos e circunstâncias pessoais de artistas, políticos, ativistas e jornalistas. O respeito à privacidade surgirá pela ineficiência das artimanhas para devassá-la. Glenn, a propósito desse fato, deixou bem claro que “não se envergonha” do que fez, o que me parece justo e maduro.

Por fim, mostrar a vida sexual das pessoas prova o quê? Que se divertem? Que fazem sexo? Que suas fantasias são múltiplas, variadas, pessoais e por vezes estranhas? Muitas dessas exposições – e as críticas sobre elas – parecem, acima de tudo, pura projeção: “vejam, não sou eu o pervertido; são eles”. Ora, faz parte da alma humana mergulhar nesses comportamentos; nada mais infantil do que a sexualidade humana, nada mais poderoso do que perder-se em fantasias. Como bem dizia o mestre Nelson Rodrigues: “Se cada um soubesse o que o outro faz entre quatro paredes, ninguém se cumprimentava”, e como quero saudar a todos que ajudam na construção de um novo mundo, prefiro não saber das intimidades de ninguém. Aliás, também é dele a frase “Por trás de todo paladino da moral vive um canalha”, o que deve descrever perfeitamente aqueles que agora apontam o dedo para Glenn.

De resto, espero que Glenn não se deixe abater por este tipo de violência. Sim, porque mesmo que não haja nada de vexatório nas imagens, esta exposição nada mais é do que uma violação de seu sagrado direito à privacidade de seus atos. Glenn Greenwald tem demonstrado uma coragem inquebrantável ao atacar não apenas a direita mais histérica, mas também os setores da esquerda liberal que ainda acreditam na “censura do bem”, guiados pela crença ingênua de que as sociedades podem progredir sem que haja liberdade irrestrita de opinião e manifestação.

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O Labirinto

Minotauro é uma criatura da mitologia grega que tem o corpo de ser humano, mas a cabeça e o rabo são de touro. Nasceu fruto da relação de Pasífae, esposa de Minos, o rei de Creta, com um touro dado a Minos por Poseidon. O Minotauro é uma criatura que está presente na mitologia grega aprisionado em um labirinto construído por Ícaro e Dédalo (lembram? Aqueles das asas de cera) a mando do rei de Creta. Minotauro era descrito como um ser monstruoso que devorava pessoas vivas. Quando chegou a Creta, Teseu conheceu Ariadne, filha do rei, e a jovem o presenteou com uma espada e um novelo de linha para derrotar o monstro e conseguir escapar. Teseu matou o Minotauro, fugiu do labirinto e salvou seus companheiros.

O parto humano está preso em um labirinto cuja saída, até então, não conseguimos encontrar. Entramos por um caminho sedutor no início do século passado, com a introdução da tecnologia na atenção ao parto. Parecia que a absoluta artificialização do parto permitiria ultrapassarmos os ancestrais medos que acompanham a sociedade desde épocas primevas. Ao contrário do fato inesperado, a previsão de todos os eventos: ao invés da surpresa, o controle dos tempos. Ao invés das mortes e das dores, a vida resplandecente em cada nascimento. Bastaria para isso a absoluta alienação do processo: o parto passaria das mãos das parteiras às mãos dos cirurgiões; ao invés da do ambiente cálido e acolhedor da casa, o frio asséptico e luminescente das salas cirúrgicas. No lugar dos silêncios, os ruídos metálicos, a conversa dos médicos e o choro das mães. Também trocaríamos as bactérias maternas pelos micro-organismos hospitalares, as antissepsias, as roupas esterilizadas e os necessários antibióticos. Quem ousaria não se contaminar pelo entusiasmo da ciência vencendo a natureza, até então, indomável?

Como toda solução mágica, depois do seu esplendor é possível avaliar suas contradições. A alienação das mulheres cobra hoje um preço muito alto. A troca das especialistas, parteiras altamente capacitadas forjadas nos milênios de vigilância do parto, por cirurgiões, teve como resultado o afastamento da arte ancestral da parteria de sua prática cotidiana. Ao mesmo tempo, a epidemia de intervenções se tornou a norma: internações, drogas, isolamento, partos instrumentais, extrações cirúrgicas, infecções, desmame, banhos de luz, afastamento e solidão foram os resultados. Com o tempo fomos percebendo que até a segurança apregoada não era verdadeira: as modalidades cirúrgicas são muito mais arriscadas para mães e bebês do que a vivência puramente fisiológica do parto.

O caminho tecnocrático nos levou a um beco. Mães hoje percebem o quanto lhes foi subtraído com a adesão a um modelo alienante que lhes retirava o controle e a autonomia sobre o próprio corpo e as afastava da vivência plena do processo. Mães e bebês, a díade mais sagrada da história humana, se afastavam mutuamente, e o vazio que se produzia era preenchido com mais tecnologia, mais intervenção. Enquanto isso, a morbidade aumentada relacionada ao abuso das intervenções não podia mais ser escondida. A crise se estabeleceu e a insatisfação surgida entre as mulheres no final do século passado hoje está na voz de toda a gestante esclarecida.

Perdemos o fio, e o Minotauro ainda nos espreita. Nesse cenário, somente Ariadne pode nos conduzir. Ela, que conhece os meandros e os desafios do labirinto, precisa nos oferecer o seu novelo de ciência, conhecimento e sabedoria, para ser nosso guia na busca pela saída. Ela sabe que sem o protagonismo garantido à mulher, sem a visão transdisciplinar no nascimento e sem o embasamento na ciência, estaremos perdidos no labirinto do parto humano, acreditando em soluções ilusórias e em promessas vazias.

PS: Escrevi esse texto a partir do convite de Jan Tritten para participar da “Midwifery Conference”, uma conferência sobre parto e a preservação da arte ancestral da parteria, de 25 a 29 de setembro, na ilha de Creta, na Grécia. Provável participação especial do Minotauro, Ariadne e Teseu. Obrigado, Jan.

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Minotaur is a creature from Greek mythology that has the body of a human being, but the head and tail from a bull. It was born out of the relationship of Pasiphae, wife of Minos, the king of Crete, with a bull given to Minos by Poseidon. The Minotaur is a creature that is present in Greek mythology that was imprisoned in a labyrinth built by Icarus and Daedalus (remember? those of the wax wings) at the behest of the king of Crete. Minotaur was described as a monstrous being who devoured living people. When he arrived in Crete, Theseus met Ariadne, the king’s daughter, and she presented him with a sword and a ball of thread to defeat the monster and escape. Theseus killed the Minotaur, fled the labyrinth, and saved his companions.

Human childbirth is stuck in a maze whose exit, until then, we have not been able to find. We entered a seductive path at the beginning of the last century, with the introduction of technology in childbirth care. It seemed that the absolute artificialization of childbirth would allow us to overcome the ancestral fears that have accompanied our species since early times. Contrary to the unexpected fact, the prediction of all events; instead of surprise, the control of the times. Instead of death and pain, life resplendent at every birth. The absolute alienation of the process would suffice for this: childbirth would pass from the hands of midwives to the hands of surgeons; instead of the warm and welcoming environment of the house, the aseptic and luminescent cold of the operating rooms. Instead of silences, metallic noises, the talk of doctors and the cry of mothers. We would also exchange maternal bacteria for hospital microorganisms, antisepsis, sterilized clothing, and the necessary antibiotics. Who would dare not be contaminated by the enthusiasm of science overcoming nature, hitherto indomitable?

Like any magic solution, after its splendor it is possible to evaluate its contradictions. The alienation of women today takes a very high price. The exchange of specialists, highly trained midwives forged in the millennia of childbirth surveillance, by surgeons, resulted in the removal of the ancestral art of midwifery from their daily practice. The epidemic of interventions became the norm: hospitalizations, drugs, isolation, instrumental deliveries, surgical extractions, infections, weaning, light baths, withdrawal and loneliness were the results. Over time we realized that even the security touted was not true: surgical modalities are much riskier for mothers and babies than the purely physiological experience of childbirth.

The technocratic path has led us to a dead end. Mothers today realize how much was subtracted from them by adhering to an alienating model that removed their control and autonomy over their own body and kept them away from the full experience of the process. Mothers and babies, the holiest dyad in human history, drifted apart from each other, and the void that was produced by this distance was filled with more technology, more intervention. Meanwhile, the increased morbidity related to the abuse of interventions could no longer be hidden. The crisis has settled and the dissatisfaction that emerged among women at the end of the last century today is in the voice of every enlightened pregnant woman.

We’ve lost the thread, and the Minotaur is still stalking us. In this scenario, only Ariadne can lead us. She, who knows the intricacies and challenges of the labyrinth, needs to offer us her novel of science, knowledge and wisdom, to be our guide in the search for the way out. She knows that without the guaranteed agency of women, without the transdisciplinary vision of birth and without the foundation in science, we will be lost in the labyrinth of human childbirth, believing in illusory solutions and empty promises.

PS: I wrote this text after the invitation of Jan Tritten to participate in the “Midwifery Conference”, a conference on childbirth and the preservation of the ancestral art of the parteria, from September 25 to 29, on the island of Crete, Greece. Probably special participation of the Minotaur, Ariadne and Theseus. Thanks, Jan.

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Clubismo insano

A página de um influencer gremista fez uma postagem com essa foto conclamando torcedores a se unir a Israel e condenar os grupos de resistência Palestina que sequestraram estes soldados. Apela para o amor clubista para que nos associemos no clamor pela soltura dos soldados presos pelo Hamas.

É inacreditável essa postagem pró sionista. Parece que Israel não matou mais de 50 mil pessoas, 70% delas crianças e mulheres, além de destruir todas as casas e impor fome para uma população inteira, submetida a crimes de guerra continuados. É uma vergonha ver o nome do Grêmio envolvido com a exaltação de canalhas racistas que estão cometendo os crimes mais atrozes do século XXI.

Pois eu respondo que os sionistas devem parar de matar crianças palestinas antes de pedir pela libertação de seus soldados. A vida desses dois não é mais valiosa do que as 20 mil crianças mortas pelos terroristas de Israel. Nossas preces pela paz e pela liberdade devem ser para todos, e não somente para dois sionistas que estavam fazendo uma festa ao lado de um campo de concentração ao ar livre, não se importando com a vida miserável imposta aos prisioneiros de Gaza. Sim, espero que eles sejam libertos, mesmo que representem o sionismo, a ideologia mais racista e supremacista já criada pela humanidade, mas só depois de Israel cumprir os acordos de libertação dos prisioneiros palestinos, torturados cotidianamente nas masmorras de Israel.

O fato de usar a camisa do Grêmio não transforma um soldado israelense – ensinado desde o berço a desumanizar e matar palestinos – em uma boa pessoa. Não esqueçam que muitos assassinos confessos são presos usando camisetas de clube, e nem por isso seus crimes se tornam aceitáveis. O Grêmio não apoia Israel, o Grêmio não é um clube racista e o tricolor não se associa ao terror de Estado imposto pelo sionismo racista de Israel.

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