Solidão

Vamos deixar bem claro: solidão NUNCA é algo bom pois, por definição, a solidão é o sofrimento por estar só. Estar SOZINHO pode ser bom, desde que o sujeito assim o deseje, mas solidão é a descrição da dor de quem não tem companhia.

Pessoas não são necessariamente mais felizes sozinhas, mas podem sê-lo, sem dúvida. Colocar a felicidade atrelada à ausência dos outros é tão errado quando estabelecer que ela só pode ocorrer com a presença de alguém.

Se a pessoa é verdadeiramente mais feliz sozinha, então que assim seja. Buscarmos companhia pela ilusão que isso nos tornará felizes é um erro, e também uma enorme crueldade para quem nos acompanha.

Entretanto, a própria sexualidade humana já nos deixa explícito que a vida se faz na comunhão. Não fosse assim, a cissiparidade ainda seria a grande moda do verão. O que se vê nas artes e em qualquer manifestação humana é que essa necessidade de comunhão é da natureza mais íntima de todo ser humano.

É, portanto, natural que a vida seja uma eterna busca pela presença de alguém ao nosso lado, pelo conforto que nos traz, por sua companhia, seu prazer e seu carinho. Não acho justo desmerecer a necessária busca humana por parceria apenas em função dos traumas e feridas que possam ter ocorrido. Afinal, amar é sempre um risco, mas como em todo o bom jogo, esse risco torna a conquista ainda mais gratificante.

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Dudu Milk

No dia da consciência gay eu disse – de brincadeira – que seria uma ideia genial do Dudu Milk sair do armário no meio das homenagens e galvanizar a luta pela visibilidade dos homossexuais no Brasil, já que sua opção sexual é conhecida de todo mundo aqui (os gaúchos) há muitos anos. “Se é público e notório, por que não capitalizar em nome da causa gay?”

Era brincadeira, sim, porque essa não é – e nunca foi – sua causa, o que não é sua culpa. Cada um escolhe suas lutas e ninguém pode ser acusado de não escolher aquelas que NÓS desejamos. É injusto acusar um sujeito gay de não fazer de sua sexualidade uma bandeira. Muitos – creio que a maioria – preferem que sua vida íntima se mantenha privada e reservada. Como negar aos gays esse direito?

Por outro lado, também me parece justo suspeitar do “timing” especial do “outing”. (Sim, também concordo que dois anglicismos toscos na mesma frase seria uma razoável exceção à minha recusa à pena capital. Sim, foi de propósito). Por isso, sair do armário exatamente agora, quando a Globo desesperadamente tenta encontrar um personagem que ocupe a vaga do Bolsonaro no imaginário da direita é, no mínimo, digno de desconfiança. Lançar-se como candidato neoliberal usando essa plataforma – tentando conquistar os votos dos “progressistas” e/ou identitários – me parece um equívoco. Mais ainda, me soa desonesto…

Prefiro respeitar a proposta do próprio governador, que rejeita a ideia de ser um “governador gay”, mas sim um gay governador. Acho melhor dizer que ele é mais um político de direita, conservador, neoliberal, privatista e que se aliou explicitamente à perversidade de Bolsonaro quando da disputa ao governo do Estado.

Para mim Eduardo continua sendo um gay reaça, como tantos que conheço.

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Desapego

Eu posso entender as pessoas, como meu pai, que sofreu muito depois que mais de 60 anos de convívio com a minha mãe foram interrompidos pela sua partida. Talvez essa perda fez desgastar muito da sua vontade de permanecer nesse plano. Admiro esse amor que despreza o tempo e a senescência da carne. No caso dos meus pais houve uma união que se manteve firme e forte, algo cada dia mais difícil de encontrar em um mundo de amores fugazes e inconstantes.

Apesar da imagem positiva que sempre guardei dessas uniões, não vejo nelas um valor absoluto. Não há porque acreditar que os casamentos – de qualquer tipo – deveriam continuar para além do tempo em que são úteis e construtivos a ambos. Parece que todos admiram e invejam relações duradouras, mas poucos são aqueles que sabem os martírios que por vezes estão escondidos por trás dessas uniões.

É comum a gente se apiedar do sobrevivente que fica entre nós quando a morte leva o parceiro. A gente diz “coitado” ou “tadinha” porque sabe que a morte de um será devastadora para o outro. Já a morte de alguém que nos é indiferente não nos maltrata nem desanima. Parece que amar é investir na dor de perder.

“Amam-se tanto que o amor deles é sua maior fragilidade”. Como um avarento que, de tão apegado às posses, sofre por antecipação pelo medo de perder sua riqueza. Talvez o segredo esteja mesmo no despojamento. Desapegar-se não apenas das cargas e riquezas materiais, mas também dos afetos, dos ressentimentos, das mágoas e ódios… e dos amores. Quanto mais apego, mais dor

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Somos todos racistas?

Eu entendo onde querem chegar as pessoas que fazem esta afirmação. Elas afirmam que a estrutura racista e preconceituosa de nossa sociedade faz com que todos os que aqui convivem de uma forma ou de outra assimilem esses conceitos, os quais ficam impregnados em suas ações e julgamentos. Ouso discordar desta perspectiva essencialmente porque creio que seja apenas injusta, inútil e improdutiva

Creio que existem dois tipos básicos de “racismo”. Um deles se faz a partir de uma adesão consciente e voluntária a uma visão de mundo na qual existem graduações de superioridade moral ou intelectual nas diferentes “raças”. O mesmo ocorre quando alguém fala de gênero, onde um seria mais inteligente, espiritualizado, competente ou mais ético do que o outro. Para mim estas posições são anticientíficas e sem substância. Colocar qualquer gênero como superior ou inferior em questões como inteligência e moralidade é tão equivocado quanto fazê-lo em relação às diferentes tonalidades da pele.

O outro tipo de racismo é quando você pensa e se comporta em termos de raça por estar embebido em uma cultura estruturalmente racista. Quando você sente mais medo quando um grupo de negros se aproxima, ou quando você desconsidera a capacidade de uma mulher fazer uma tarefa que por séculos foi domínio dos homens, por exemplo. Isso todos nós, de uma forma ou de outra, acabamos fazendo – e agimos da mesma forma em relação a muitos outros aspectos da cultura.

Entretanto, ao meu ver, existe uma ENORME diferença entre um racismo ATIVO – racional, doloso e propositivo – e um racismo PASSIVO – culposo e reativo. O mesmo para qualquer tipo de sexismo. Por certo que estas diferenças não importam muito para aqueles que estão sofrendo o preconceito – a ponta oprimida – mas certamente é completamente diferente para as pessoas que o exercem – nós os opressores. Não é certo e nem justo confundir uma pessoa que sofre (e reproduz) as influências de uma sociedade injusta com aqueles que racionalmente acreditam em uma sociedade que pode ser dividida em cores de epiderme, gêneros e preferências sexuais.

Portanto, ao dizer que “todos somos racistas” ou “todos somos machistas” colocamos juntos na mesma panela pessoas que concordam com aquelas que discordam das premissas básicas que sustentam tais preconceitos. Por esta razão, creio que esta insinuação deva ser evitada. Até porque se o sujeito continuaria sendo taxado de preconceituoso mesmo quando pensa e atua contrariamente a estas visões de mundo, então de que valeria mudar, se o rótulo se mantém imutável?

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Imperialismo na TV

Faço parte de um grupo no Facebook que se reuniu para conversar sobre séries antigas de TV. As informações, fotos de bastidores, imagens originais, história dos atores, cenários são sempre muito interessantes e nos fazem viajar um pouco para nossa época de infância e entrada na adolescência. É sempre bom reviver o passado compartilhando com as pessoas da nossa geração as emoções que tivemos com a nascente TV no Brasil

É evidente que um resultado natural seria o “saudosismo” que, ao contrário da saudade – que nos lembra de momentos felizes do passado – produz uma exaltação acrítica e fantasiosa dos acontecimentos, como uma fábula onde escondemos os aspectos ruins e colocamos um holofote irreal sobre aqueles fatos e contextos que gostamos. Em verdade, as lembranças da infância trazem sempre essa marca de irrealidade: somos programados para esquecer as coisas ruins e ressaltar as boas, e só por isso continuamos a crer que a “infância é a fase mais linda da vida”. Nada poderia estar mais longe da verdade.

A ideia que mais aparece nos debates é de que nos anos 60 e 70 a TV não tinha a crueldade, a malícia e a “pornografia” de hoje. Tudo era muito mais puro, e as famílias podiam assistir os programas sem temor de constrangimentos. Não havia drogas, adultérios, sexo desvairado, promiscuidade e muito menos a atual “campanha contra a família e os costumes”.

Família Robinson e Dr. Zachary Smith

Por certo que a TV era mais comedida nesses temas (vivemos boa parte da infância sob uma ditadura militar), mas a verdadeira pornografia se fazia presente de forma insidiosa e dissimulada: ela vinha através da padronização da mentalidade ocidental. Era a época de consolidação da hegemonia do Império Americano. Para alcançar essa hegemonia estética Hollywood foi uma das mais importantes ferramentas. As séries que eu mais gostava na infância eram do genial produtor Irwin Allen. Foi dele a ideia desses três grandes sucessos: “Perdidos no Espaço“, “Viagem ao Fundo do Mar” e “Terra de Gigantes“. A primeira versava sobre a conquista do espaço, que estava no seu auge com a disputa entre americanos e soviéticos. A segunda tratava dos mistérios do mar e o último sobre o encontro de navegantes perdidos com uma civilização de alienígenas gigantes.

Almirante Nelson e Capitão Crane

Minha perspectiva é que o fio de conexão entre elas é o imperialismo americano que, se não nasceu no pós guerra, teve ali seu grande impulso por ser a América o único parque industrial intocado – toda a Europa e a Ásia se encontravam destruídas – e ainda aquecido pelo esforço de guerra. Todas estas séries descrevem o encontro da civilização cristã, branca e ocidental com o estranho, o diferente, o alienígena. Assim como o expansionismo americano através do Império, esse encontro sempre gerava conflito e disputa, mas sempre terminava com a vitória moral do Ocidente, seja pela família Robinson e a Júpiter II num planeta inóspito e desértico, com o submarino SeaView e sua tripulação corajosa ou com o grupo de americanos perdidos em um planeta distante cercados por gigantes ameaçadores.

Equipe completa de Terra de Gigantes

A mensagem onipresente era sempre a da conversão. Como jesuítas modernos, eles levavam a palavra do capitalismo e do Império para outros planetas e civilizações, assim como também para as profundezas do mar, com suas criaturas exóticas e indômitas. A moral que emergia dessas histórias era a da resistência aos ataques de fora na tarefa de entregar a “boa nova”, o evangelho capitalista e, a superioridade moral do ocidente aos “selvagens”.

Todas essas séries podem ser ligadas ao grande filme de ficção científica dos anos 50: “O dia em que a Terra parou” (1951). Nesse filme os alienígenas é que assumem a postura imperialista, ameaçando os homens do nosso planeta. Em sua palavras afirmam que, caso não se comportem, serão destruídos. Por esta razão, o alienígena Klaatu é mostrado como um homem branco, ocidental, justo, sábio e nobre, enquanto os terráqueos são mostrados como indiferentes, egoístas e brutos. Nada descreveria melhor o imperialismo americano e sua busca de hegemonia através da aceitação pacífica por parte dos conquistados dos valores cristãos ocidentais, em lugares tão díspares quanto Japão, a Alemanha derrotada, Brasil, Oriente Médio e Coreia.

O discurso final de Klaatu, para uma plateia de terráqueos impassíveis, é uma pérola do discurso Imperialista, a “Pax Americana”. Lá estão o viajante interplanetário prateado, a plateia de boca aberta escutando sua sabedoria e até o cientista que imita descaradamente a figura de Albert Einstein. Sua palavras foram:

“O resultado é que nós vivemos em paz, sem armas ou exércitos,
seguros por saber que nós somos livres de agressão e guerra,
livres para buscar mais negócios lucrativos.
Não pensamos ter atingido a perfeição,

mas nós temos um sistema, e ele funciona.

Eu vim aqui para lhe dar esses fatos.
Não é de nossa conta como vocês dirigem seu planeta,
entretanto, caso vocês ameacem estender sua violência,
essa sua Terra será reduzida a cinzas.

Sua escolha é simples. Junte-se a nós e vivam em paz,
ou persistam no seu caminho atual e irão encontrar sua total aniquilação.
Estamos esperando sua resposta. A decisão está em suas mãos.”
(os grifos são meus)

Nada poderia ser mais ameaçador e mais terrível do que um alienígena com poder inimaginável dizendo o que podemos ou não fazer, e isso com a nobre desculpa de estarmos “protegendo o universo da ameaça que vocês representam”. E nada descreve melhor o imperialismo americano em todo o planeta do que a ameaça do belo, magro e branco alien, cheio de belas palavras e propósitos.

Não faço críticas anacrônicas destas obras. Elas eram espetaculares e divertidas para a época em que nós as assistimos. Creio apenas que é possível lembrar com saudade dos Shows de TV de outrora sem desconsiderar os seus sentidos mais profundos e sua impregnação cultural, usada como veículo de uma mensagem mais profunda. É absolutamente compatível uma leitura mais superficial que exalta a aventura, a tensão, o suspense e a “vitória do bem” e ao mesmo tempo reconhecer o ideário imperialista que pode ser visto como um subtexto que permeia todas estas produções dos anos 60 em diante.

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Igualdades

Finalmente alguém consertou aquele famoso cartaz reaça, que discutia e problematizava as caixas mas jamais colocava a maldita cerca como a origem das disparidades. Parabéns…

Minha interpretação é de que esta cerca é constituída pelos dois pilares de sustentação das sociedades ocidentais: o capitalismo e o patriarcado. As caixas colocadas posteriormente representam o “punch 2” da teoria de Peter Reynolds: tudo o que a sociedade faz no sentido de consertar a intervenção inicial (capitalismo e organização patriarcal) para diminuir seus efeitos deletérios, porém SEM MEXER nas estruturas viciosas e que estão na origem dos problemas (no caso da gravura, a possibilidade de assistir o jogo, em nossas sociedades a exploração, a miséria e a iniquidade).

As caixas são o “Criança Esperança”, as loterias alienantes, a competitividade violenta, os filantropos, as inúmeras doações feitas pela Coca Cola e – em última análise – a própria caridade, entendida aqui como a ação pessoal ou coletiva para ajudar os oprimidos pelo capitalismo ou pelo patriarcado…. que NÓS MESMOS criamos.

Assim, primeiro nós criamos as cercas e depois inventamos múltiplas caixas para ajudar os “desafortunados” apenas porque não temos coragem de questionar a simples existência da cerca!!!

Não tenha dúvida que retirar uma cerca é algo que demanda um tremendo esforço. Portanto, ela só pode ser retirada por uma interferência muito forte na cultura. Pode ter certeza que arrancar cercas é uma tarefa profundamente penosa. Tanto metaforicamente ao mudar estruturas sedimentadas na cultura quanto na lida do campo. Romper a cerca do capitalismo e do patriarcado será a grande tarefa do século XXI em todo o planeta.

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Dinheiro e Felicidade

Discordo com veemência da visão que associa dinheiro à felicidade, mas aviso que isso nada tem a ver com uma “elegia à simplicidade” ou uma objeção simplória ao consumo. Não bastassem os exemplos de ricos com vidas miseráveis e de populações inteiras que são felizes com o pouco que têm, também há que entender a diferença brutal entre “necessidades” e “desejos”. Os primeiros nos garantem a vida e são simples e finitos; já os segundos são eternos e imortais incapazes de oferecer a completude que ilusoriamente neles buscamos.

Associar “falta de dinheiro” com infelicidade é pura tolice; confundir a escassez do dinheiro com “pobreza”, também. Privar pessoas de suas necessidades produz sofrimento e miséria humana, entretanto, tentar encher o poço sem fundo dos desejos imaginando atingir felicidade e plenitude não passa de uma ingenuidade catastrófica. É um erro “romantizar a pobreza”, por certo, até porque não há nada de moralmente elevado em ser a ponta oprimida e explorada do capitalismo. Por outro lado, imaginar que o dinheiro é capaz de produzir mais felicidade quando se ultrapassam os limites das necessidades humanas é oferecer a ele uma tarefa que é incapaz de cumprir. Para quem acumula dinheiro com o objetivo de ser feliz apenas digo que “são tão pobres que tudo o que possuem não passa de dinheiro”.

Prefiro citar o pensador romano Sêneca, quando diz que “a pobreza não se produz pela escassez de recursos, mas pela multiplicidade dos desejos”. Quanto mais se tem, mais o desejamos, e assim indefinidamente, produzindo uma reversão cruel: ultrapassado um certo volume é o dinheiro quem nos possui, e não nós a ele.

Albert Mahooney, “Ten tips for a life in the jungle”. Ed. New Frontier, pág. 135

Albert Mahooney é âncora de televisão Denver 7, no Castle Rock News nos Estados Unidos. Escreve também em jornais locais em sua cidade Natal, Castle Rock, Colorado-USA. Escreve para jornais da região, em especial sobre política e cultura. Suas colunas foram transformadas em livro com o nome de “Ten tips for a life in the jungle” (Dez dicas para a vida na Selva).

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Insegurança

O inseguro é essencialmente um fraco. Frederick Nietzsche tinha razão ao colocar o fanatismo como uma fraqueza da alma. Creio que foi Niehls Bohr quem disse que “a ciência é o domínio da dúvida; já as certezas foram dadas pelo criador àqueles de alma frágil como prêmio de consolação”. Assim, o fanatismo seria o esteio dos mutilados e fracos como artifício para sustentar suas crenças.

Oduvaldo Loguércio Lima, “Filosofia para quem não gosta de pensar”, ed. Brasilianense, pág 135

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Três pontos sobre espiritismo e aborto

Coloco aqui três pontos simples que explicam as razões pelas quais ser espírita não invalida um posição favorável à descriminalização do aborto:

1- É possível ser espírita e ser também a favor da legalização do aborto por razões de saúde pública. Não há mais como aceitar mulheres morrendo porque o aborto é criminalizado e estigmatizado. Chega. Ninguém é “a favor do aborto”, mas muitos consideram que esta ação está dentro das opções que uma mulher pode fazer sobre seu próprio corpo.

2- Espiritismo, como sempre afirmou Kardec, não é uma religião e nunca pretendeu sê-lo. A “religião espírita” é uma construção que ganhou estímulo – em especial no Brasil – fruto do sincretismo religioso com o cristianismo, o qual foi um legado deixado pelo próprio Kardec.

3- Espiritismo fala de leis naturais, e não há nada de sobrenatural em seus postulados. Qualquer extrapolação moral está inserida em seu tempo e tem valor limitado. Reencarnação, comunicabilidade entre planos e sobrevivência da alma não são pautas morais. A descriminalização do aborto é uma escolha pela vida. Ponto.

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Travessura

Jack Pritchard e Paul MacDonald eram os editores principais do Williams Obstetrics – o mais importante livro texto de obstetrícia à época – quando esses acontecimentos ocorreram, ambos ligados ao famoso Parkland Memorial Hospital de Dallas – Texas. Digo “famoso” apenas porque meus professores de obstetrícia eram tão apaixonados por este hospital – uma Meca da obstetrícia tecnocrática dos anos 70/80 – que o Centro Obstétrico do Hospital de Clínicas da minha cidade teve a arquitetura desavergonhadamente copiada deste hospital. Pritchard não contava mais de 33 anos de idade ao assumir esta posição, o que explica muito do texto. Essas duas edições são totalmente “Parkland”, texanas, e são conhecidas como as mais arrogantes.

Algo muito curioso ocorreu quando a 15ª edição do Williams Obstétrica chegou às livrarias. Os leitores mais atentos perceberam que ela apresentava uma inserção no índice geral da obra onde se lia: “Machismo, masculino, quantidades variáveis, págs 1-993”. Ficou evidente que essa nota demonstrava que alguém considerava a medicalização do corpo das mulheres como um ato claramente machista, inserido na narrativa demeritória da Medicina a respeito de suas funções específicas – menstruar, gestar, parir, amamentar e cessar a produção hormonal na menopausa.

A 16ª edição tinha à frente os mesmos editores – Pritchard e MacDonald – e de novo se encontrou uma sutil (e até então misteriosa) crítica à perspectiva sexista do texto. O índice não apenas voltava a conter um “recado” como sua abrangência se intensificara. Lá se podia ler: “Machismo, masculino, quantidades volumosas, págs 1 – 1102”.

Tanto na 15ª como na 16ª edições o intervalo se refere jocosamente à totalidade do livro, citando sua primeira e última páginas. Por algum tempo se questionou de onde haveria surgido a criativa crítica social travestida de “travessura”. O enigma não é difícil de solucionar, bastando ver os agradecimentos finais constantes em ambas as edições:

“Finally, no amount of thanks can express our gratitude to Ms. Signe Pritchard for her myriad contributions beginning with manuscript and ending with index.”

É de Signe Pritchard, esposa do conhecido professor, a correção final do livro, e a ela deve ser dado o crédito pela inserção das famosas entradas de índice que nos alertaram sobre o sexismo que emanava de cada página da obra de seu marido. Na 17ª edição do Williams Obstetrics houve a adição de mais um editor, prof. Norman Grant, e é provável que sua chegada tenha impedido que nessa edição a famosa notação se mantivesse. Ela ficou restrita a estas duas edições históricas em que a face machista do texto foi denunciada.

A Signe somos devedores de uma singela homenagem. Apesar de ser uma simples professora de inglês que viveu a vida inteira à sombra do seu marido, médico famoso e reconhecido, ela teve uma ideia maravilhosa que revelou a nascente inconformidade das mulheres com as descrições defectivas que a medicina – um potente braço ideológico do patriarcado – fazia em seus livros texto, em especial aqueles de ginecologia e obstetrícia, potentes disseminadores de uma ideologia que colocava as mulheres como seres imperfeitos e mal elaborados, cópias mal acabadas do masculino.

A “brincadeira” de Signe Prichard, em verdade, se tornou uma bela história de coragem e criatividade.

Veja mais sobre “Medicina e Machismo” aqui

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