Cala boca…. negro!

Ela ainda não acabou em nossos corações
black-woman-pregnant-belly
Até quando vamos fechar os olhos para a realidade dos excluídos?

Estávamos, eu e meu irmão Roger, assistindo uma partida de futebol nos anos 80, em um estádio da capital gaúcha. Os chutes incertos, as pisadas na bola, a monotonia do placar não ajudavam a melhorar aquela noite de quarta-feira. Não era a ruindade dos times, era…. a fase. Talvez uma sinistrose, uma falta de conjunções estelares adequadas, ou mesmo uma falha do esquema tático.

Fossem os anos 90 e diríamos: “Tem que jogar com três zagueiros para liberar os alas”. Mais recentemente diríamos: “Também, eles fizeram duas linhas de quatro, assim não dá para furar a retranca”. Talvez alguma dessas explicações pudesse se adequar à partida. Ou tratava-se simplesmente de azar. “Mau humor da Deusa Álea”, diria Max, referindo-se à Deusa que coordena os eventos inesperados e imprevisíveis.

O jogo morfético repetia lances banais, sem que a periculosidade eminente de um gol nos oferecesse um estímulo para despertar. Com os queixos apoiados nas mãos devaneávamos deixando o jogo como pano de fundo para pensamentos mais produtivos.

Subitamente, o centroavante do nosso time, um negro possante, comprido e que não tinha na velocidade o seu mais forte atributo, vê escorrer por baixo dos pés a bola que, fosse dominada, poderia produzir calafrios no guarda-balas adversário. Ouviu-se um “Uuuuu”, pelo estádio, seguido de uma série de palavrões usuais em estádios de futebol. Coisas desopilativas, exonerativas e fundamentais na catarse coletiva do esporte bretão. Passados alguns segundos, quando já se fazia o silêncio e as pessoas voltavam a se sentar, escuto o grito de um torcedor que estava sentado dois lances de arquibancada acima de nós.

“TE MEXE… NEGRO!!”

Voltei a cabeça para ver de onde vinha, e pude ver um jovem, não mais de 30 anos, sentado ao lado de um senhor mais velho. Ele apenas sorriu de forma debochada quando viu que sua exclamação chamou a atenção de muitas pessoas em volta. Olho para o meu irmão, um tanto incrédulo, e pergunto: “Ele disse isso mesmo?”

Meu irmão baixou os olhos e aquiesceu. Depois olhou para mim e disse: ”Não te mete. Fica quieto”.

Sempre que escuto histórias de racismo e violência eu imediatamente recordo dessa cena da minha juventude. Curiosamente, o que mais me chamava à atenção não era a palavra grosseira, aquela mesma que os americanos chamam de “n word”, mas o hiato violento e obtuso que a precedeu. A brutalidade de um espaço entre as palavras corrói meus ouvidos e me envergonha até hoje. A distância entre “mexe” e “negro” é que tornou essa cena violenta, estúpida e inaceitável. Para mim soava como “Mexa-se, porque você é negro!!” A ênfase na cor funcionava como uma viagem de um século e meio para trás. Lá, em muitas partes desse país, um senhor de escravos teria dito a mesma coisa, e com as mesmas palavras, e por sobre os mesmos direitos presumidos. “Mexa essa carne escura que me pertence, Negro. Não esqueça que eu te dou de comer para que trabalhes na minha terra. Anda, negro, levanta. Deixa de ser mole.”

Naquele dia senti vergonha de ser branco. Mais ainda, senti vergonha de ser humano. Senti vergonha do meu silêncio e da minha cumplicidade. Senti pena do homem que a disse, mas raiva por ter me omitido. Passou, agora eu lamento.

Esses pensamentos todos vieram a minha mente ao ler um relato de parto de uma mãe negra que foi publicado no blog “Blogueiras Negras” , de autoria de Raíssa Gomes.

(http://blogueirasnegras.org/2013/08/12/negra-gravida/)

______________________________________________________________________________

As discussões sobre humanização do parto e nascimento eram praticamente novidade total para mim quando me descobri grávida, em janeiro de 2011. Apesar de não ter muita informação, de cara eu já sabia que queria que meu filho ou filha viesse ao mundo por parto normal. Mal sabia eu a luta que precisaria enfrentar para que isso fosse possível.

A realidade dos atendimentos nos serviços de saúde não é animadora de um modo geral, e o quadro piora quando se trata de atendimento a mulheres negras. De acordo com Alaerte Martins (2000), as mulheres negras tem 7,4 vezes mais chances de morrer antes, durante ou pouco tempo após o parto, do que mulheres brancas. Além de doenças pré-existentes e falta de acesso a serviços de saúde, o atendimento prestado às mulheres negras pode ajudar a explicar esses números.

Eu comecei a me deparar com este tipo de atendimento quando, ao sofrer um sangramento, com apenas cinco semanas de gestação, imaginei, como a maioria das mulheres em início de gravidez, que aquilo significava que eu estava perdendo o filho que tinha acabado de descobrir que teria. Corri com a minha mãe para a emergência de um hospital particular de Brasília, demorei muito para ser atendida e, quando conseguimos realizar uma ecografia, o técnico responsável pelo exame, que foi grosseiro desde o início do atendimento, me disse: “Não tem NADA aí dentro de você.”

Não sei dizer exatamente o que me fez ficar calma naquele momento. Perguntei pra ele se eu havia perdido meu filho e ele disse, sem olhar nos meus olhos, que eu nunca havia estado grávida. Algo me dizia que eu deveria desconsiderar as palavras daquele homem. Vesti-me e fui para o consultório do obstetra que me acompanhava, sem saber direito o que pensar. “Durante a consulta, o médico me disse para ficar calma e fazer exames de sangue nos próximos dias, se as taxas que indicam a gravidez continuassem subindo, eu estava grávida, senão, não.”

Realizei os tais exames, a gravidez se desenvolveu muito bem. As consultas com o médico eram sempre tranquilizadoras e práticas, como eu achava que gostava. Mas sempre me colocavam num lugar de coadjuvante da gravidez. O que interessava era o bem estar do bebê e quem sabia tudo o que eu deveria fazer, era o médico.

Já aos nove meses de gravidez, esperando Malik chegar a qualquer momento, tive uma infecção urinária. Fui a uma emergência para conseguir tratar a infecção o mais rápido possível para que não fosse necessário cair numa cesariana por conta disso. Fui atendida por uma médica, que mais uma vez não olhou no meu rosto. Fez perguntas sobre porque estava ali, eu disse que estava com cistite. Ela disse com um tom irônico (sem me olhar): como você sabe? Eu respondi que já tinha tido isso anteriormente, solicitei o exame e saí da sala. Quando voltei com o resultado do exame, ela me passou um antibiótico fortíssimo, que eu tinha certeza que não poderia tomar estando grávida. E questionei: “Doutora, mulheres grávidas podem tomar esse medicamento?” e ela disse: “Você não me disse em momento nenhum que estava grávida”. Não sei se vocês vão concordar comigo, mas eu achei que com uma barriga dessas, não seria necessário avisar que estava grávida.

Eu grávida aos 9 meses de gestação

Naquele momento não consegui nem questionar a médica. Apenas disse que achei que minha gravidez era evidente tomei a receita da mão dela e saí totalmente revoltada do consultório. Tudo o que já tinha ouvido falar, lido, escutado e vivido na minha trajetória como mulher negra militante veio com toda força. Até que ponto conseguimos ser invisibilizadas mesmo com uma barriga deste tamanho? O que me tornou tão invisível? Chorei. Primeiro por passar por isso a essa altura e perceber que a minha vida e a do meu filho não valem nada na mão de pessoas que supostamente deveriam cuidar da nossa saúde, e depois porque não consegui reagir, não consegui me defender e nem defender meu filho desse racismo atroz contra o qual eu decidi dedicar a minha vida.

Algumas semanas depois, chegou o momento de Malik nascer. Eu tinha feito muitos exercícios, caminhada, subi e desci ladeiras. Já estávamos com 40 semanas e 3 dias de intimidade e eu morrendo de ansiedade para conhecê-lo e sofrendo os “avisos” do médico de que ele não deixaria a gravidez passar de 41 semanas (a OMS orienta que uma gestação normal pode chegar até 42 semanas sem risco para mãe e bebê).

Chegou o dia da consulta, o médico estava operando algumas mães para tirar os filhos dela via cesariana, e iria se atrasar. Fui então, para o hospital que tinha uma propaganda de humanização. O site mostrava salas com bolas, música ambiente, banqueta, um monte coisas. Corri pra lá. Fui atendida por uma médica plantonista, que fez um detestável exame de toque e me disse que eu estava com 4 centímetros de dilatação, mas que eu tinha que chamar meu médico, porque meu filho não poderia nascer naquele hospital, já que ela não ia deixar de atender 18 pessoas no plantão só para fazer UM parto. E que se fosse realmente necessário eu ter meu filho ali, ela iria me submeter a uma cesariana porque não poderia ficar esperando.

Saí, mais uma vez, indignada do hospital. Meu filho nasceu algumas horas depois, num parto muito diferente do que eu havia imaginado pra gente, mas, imagino, melhor do que o que poderia ter acontecido, com o auxílio do médico que acompanhou a gestação inteira, mas que imaginei que não estaria presente no momento do parto. Enquanto sentia a ocitocina sintética nas minhas veias e quase perdi o controle da situação, respirei fundo e conversei com Malik sobre como o momento que tanto esperávamos havia chegado. Não poderia permitir que as intervenções naquele momento fossem mais fortes e importantes do que o nascimento do meu filho e o meu nascimento como mãe. Respirei fundo, e enquanto sentia o meu corpo se mobilizando para o encontro de Malik com este mundo. Quando ele nasceu, olhando tudo e chorando forte, veio para os meus braços, nos olhamos e conversamos. Naquele momento, renasceu em mim toda a força e desejo de transformação possível. Com todo o medo e a responsabilidade de criar uma criança negra no Brasil, mas com a certeza de que eu e outras companheiras podemos transformar o mundo ao nosso redor, por nós e pelas que vieram antes de nós, por todos os meios necessários.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo

Chute na Santa

Abuso Vadias
Respeitar os valores alheios, mesmo aqueles que nada significam para nós, é sinal de sabedoria e civilidade.

Durante a recente Marcha das Vadias alguns manifestantes realizaram performances inusitadas e “bizarras”, para dizer o mínimo, nas quais utilizaram símbolos religiosos cristãos como peça íntima de vestuário e para simulação de atos sexuais. Tais atitudes acabaram gerando uma onda de protestos por parte dos integrantes de denominações cristãs, principalmente evangélicos e católicos. Essas exposições de objetos religiosos e práticas libidinosas merecem algumas considerações.

As manifestações públicas, mesmo aquelas de caráter reivindicatório justo e adequado (como a Marcha das Vadias, em que as manifestantes exigem mais respeito e consideração com as mulheres e o feminino em um mundo ainda controlado por uma ideologia machista e falocêntrica), são um prato cheio para o atos de exibicionismo, atitudes histéricas e até mesmo a perversidade explícita. Para além dos pedidos e das queixas (como eu disse, justas e coerentes), alguns dos manifestantes (normalmente aqueles que menos se interessam pela questão em disputa) usam o público, a plateia sequiosa de escândalos e o clima de exacerbada emoção para todo o tipo de baixaria, abuso e exagero. Com isso suas ações acabam atraindo atenções e comentários, bem mais do que os “15 minutos de fama” regulamentares apregoados pelo visionário Andy Warhol.

Todavia, o resultado é invariavelmente negativo e contraproducente pois tais atitudes acabam por corromper a iniciativa, desviando a atenção dos valores em debate e distorcendo o foco das ações. Quando tais exageros são permitidos (e as vezes até estimulados) a própria luta pelos direitos em questão enfraquece. Ninguém estará interessado em apoiar um movimento que luta por respeito com as armas do abuso, do escândalo despropositado e do deboche.

Por outro lado não há como negar: tais ações são absolutamente inevitáveis. São humanas, e não podemos fugir dessa condição. Estes sujeitos são as pedras pelas quais os rios da mudança precisam desviar para que possam atingir seus objetivos. A pior parte da história é que esse tipo de manifestação grotesca, violenta, estúpida e injustificável diminui a força de qualquer movimento e oferece armamento para os inimigos. Se o objetivo era mostrar o valor de um país laico, de uma sociedade livre, de um estado que respeita as diferenças (entre elas as de gênero) o tiro saiu (desculpem o trocadilho) pela cu-latra dos manifestantes. Fica difícil admirar um movimento em que tais ações são consideradas válidas.

Não sou religioso e nem sigo religião alguma, mas acho importante ter respeito pelas crenças alheias, mesmo aquelas que para muitos de nós possam parecer tolas. O “chute na santa” é um bom exemplo. Este fato ocorreu em 1995 quando um pastor evangélico de nome Hélder desferiu vários chutes em uma imagem de Nossa Senhora em um programa da TV Record, em rede nacional. Foi o suficiente para que se gerasse um debate ácido entre evangélicos e católicos, ambos empenhamos em uma árdua disputa de mercado que perdura até os dias de hoje. A recente visita do Papa é apenas mais um capítulo deste embate pela conquista dos fiéis.

O que é interessante é que a “santa chutada” era realmente aquilo que o pastor dizia: um objeto de barro, banal, simples e sem valor intrínseco. Entretanto, o valor de um objeto qualquer (uma bandeira nacional, um crucifixo, a camiseta do clube, o brasão da família, uma imagem de um santo) estará sempre naquilo que o sujeito ou a sociedade emprestam ao tal objeto, e não no valor da matéria nele contida. Uma nota de 100 reais também é tão somente papel, mas ela é investida de um valor simbólico respeitado por todos nós, o que nos possibilita viver em uma sociedade complexa e capitalista. Os símbolos cumprem esta função nas sociedades humanas: eles incorporam valores, que para alguns são valiosos e plenos de significado transcendental.

Por esta razão – por não entenderem ou respeitarem estes valores – é que os tais manifestantes escancararam a face mais incoerente e inaceitável dos movimentos reivindicatórios: a grotesca falta de respeito por parte de quem exige respeito. Para avançar é preciso sempre entender o outro, no exercício mais complexo e difícil que o ser humano precisa encarar: transpor os limites da própria epiderme e sentir o calor do fogo e o gelo do vento com a pele de outrem. A alteridade é ferramenta indispensável para qualquer processo de transformação, e jamais poderemos prescindir dela para a necessária mudança que tanto exigimos.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

União e Luta

Zeza Parteira
Protegendo e respeitando o momento sagrado do nascimento

Hoje fomos assistir “Iron and Wine”, no Teatro Paramount, na esquina da sexta com Congress Avenue, em Austin. A apresentação principal foi de um compositor e cantor local bastante conhecido chamado Sam Beam. Eu adorei a apresentação. O estilo é “folk music”, mas de uma forma que se afasta um pouco da música “western” e se aproxima da “world music”. Lembra, é claro, James Taylor, e talvez por isso o meu coração brega e romântico não pôde deixar de gostar.

Mas não foi essa a questão que me fez relatar o acontecido. Esse show acontece todos os anos em Austin no verão, e serve como uma fonte de arrecadação para a MANA – Midwives Alliance of North America (Aliança das Parteiras Norte Americanas). Os ingressos vendidos vão para os cofres desta instituição que conta com milhares de parteiras espalhadas por México, Canadá e Estados Unidos. Fiquei muito feliz de ver Deja, a filha de Robin Lim (parteira em Bali – Indonésia, que recentemente ganhou o prêmio da CNN “Heroína do Ano” entre as mulheres), apresentar o show de Sam, acompanhada de – nada menos que – Robbie Davis-Floyd. Robbie estava nervosa e excitada com o convite, mas saiu-se muito bem. Foi direta, concisa, simpática e trouxe novas estatísticas sobre os 40 mil partos catalogados por MANA nos últimos anos. Apesar da taxa de cesarianas ter aumentado quase 1% (passou de 4 para 5%) a taxa de transferências diminuiu de 12 para 10%. Os valores mostram de uma forma inequívoca que as CPMs – Certified Professional Midwives (Parteiras de entrada direta, tal como as obstetrizes brasileiras) apresentam um trabalho exemplar e digno de aplausos. No fim de sua breve exposição, Robbie pediu que todas as parteiras na plateia se levantassem e fossem aplaudidas (entre elas uma tímida Zeza) para receberem a justa homenagem de todos os presentes ao show. Estava verdadeiramente muito emocionante. Foi uma bela homenagem às parteiras americanas. Uma pena que ainda não chegamos a este momento. O que mais me emocionou no depoimento de Deja, filha de Robin Lim, é a ideia de que as parteiras são as guardiãs de um segredo, de um momento sagrado, que a tecnocracia (e NÃO a tecnologia) está afastando das mulheres, empobrecendo nossa experiência humana. O trabalho das parteiras é a de proteger as mulheres e seus partos, enaltecendo suas virtudes, garantindo-lhes segurança e honrando seus corpos.

A esposa de Sam Beam teve seus filhos em casa e, por esta razão, eles se tornaram grandes apoiadores da causa. Esta é uma história que nós, humanistas do nascimento, conhecemos muito bem: Depois de nascimentos transformadores os novos pais percebem que precisam dar a sua contribuição para que outros possam ter a mesma experiência positiva que tiveram. Mary Barnett, parteira local, atendeu estes partos, e muitos outros entre as famílias que deixaram o Paramount lotado nesta noite de sábado, e por esta razão recebeu uma ovação emocionada de Sam e de muitos na plateia. Fiquei feliz de ter encontrado nesta viagem duas amigas que são símbolos da atuação da parteria livre nos Estados Unidos: Mary Barnett e Marymikel.

Mas o que me deixa preocupado é o fato que ainda não conseguimos reproduzir no Brasil instituições como a MANA. A ABENFO é a instituição mais parecida com a MANA que temos, mas com muito menos poder e influência. Por outro lado, Max me dizia, há mais de duas décadas, que “as ideias devem ser mais importantes que os ideólogos”. Portanto, mais do que fortalecer egos e pessoas, precisamos incentivar o fortalecimento das instituições que lutam pela humanização do nascimento no Brasil. Passamos por uma fase de grandes lutas e dificuldades na consolidação de um ideário de projetos e lutas pela implantação de nossas propostas, e só agora começamos – muito lentamente – a colher os primeiros frutos. A ReHuNa continua sendo o grande carro chefe em nível político e estratégico, mas ainda somos muito desunidos e “feudais”. Nossos grupos, tal como as organizações feudais japonesas lideradas pelos Daimyos, conquistam valor e importância local, mas ainda carecemos de grandes lideranças nacionais, alicerçadas em estruturas e instituições sólidas, que sobrevivam e se sobreponham as personalidades que, momentaneamente, as liderem. A desunião nas propostas atrasa a execução de nossos projetos.

Precisamos de uma organização nacional de doulas, como uma rede, que possa ter uma representação em nível governamental, além de oferecer suporte científico e organizacional, a exemplo do que ocorre com a DONA aqui nos Estados Unidos. Precisamos uma instituição de “parteiras profissionais” (nome que Robbie usa para diferenciá-las das parteiras tradicionais, que já tem seus instrumentos específicos de representação), forte, atuante, arrojada e corajosa, para fortalecer a expressão cultural e científica da parteria urbana. Estas instituições precisam ser criadas e/ou fortalecidas, para que nossos sonhos se tornem realidade.

Precisamos nos unir pois ainda somos poucos e esparsos, e o poder dos que preferem que as coisas fiquem como estão ainda é mais forte do que a nossa vontade de mudar.

Mas não para sempre.

Aqui fica, como presente, um pouco da música de Iron & Wine:

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Entrevista Diario La Capital

Rosário - Argentina, dia 20 de agosto 2013
Rosário – Argentina, dia 20 de agosto 2013

1. Em primeiro lugar, o que consideras como humanização do nascimento? Que características consideras fundamentais para caracterizar um parto como humanizado?

O termo correto para este movimento é “humanização”. Todo o parto será “humano” desde que ocorra na nossa espécie. Por outro lado, para ser “humanizado” ele precisa seguir algumas características essenciais. Entendemos o parto humanizado composto por um tripé conceitual como o que se segue:

a) O protagonismo restituído à mulher, sem o qual estaremos apenas “sofisticando a tutela” imposta milenarmente pelo patriarcado.

b) Uma visão integrativa e interdisciplinar do parto, retirando deste o caráter de “processo biológico”, e alçando-o ao patamar de “evento humano”, onde os aspectos emocionais, fisiológicos, sociais, culturais e espirituais são igualmente valorizados, e suas específicas necessidades atendidas.

c) Uma vinculação visceral com a Medicina Baseada em Evidências, deixando claro que o movimento de “Humanização do Nascimento”, que hoje em dia se espalha pelo mundo inteiro, funciona sob o “Império da Razão”, e não é movido por crenças religiosas, ideias místicas ou pressupostos fantasiosos.

“A humanização do nascimento não representa um retorno romântico ao passado, nem uma desvalorização da tecnologia. Em vez disso, oferece uma via ecológica e sustentável para o futuro”.

Humanizar o nascimento é oferecer o melhor de dois mundos: o respeito à fisiologia feminina, processo adaptativo de milhares de anos, e o recurso tecnológico quando a rota de um parto se afastar da normalidade e se aproximar da patologia. A humanização do nascimento está ao lado dos avanços científicos, mas também em sintonia com a natureza e seus sábios desígnios. A harmonia entre essas forças é o objetivo de quem atende partos de forma humanizada.

Se o preceito primeiro é o respeito ao protagonismo, então os partos mais humanizados serão aqueles em que tal aspecto for respeitado e entendido como prioritário. Os países europeus se encontram à frente deste debate, exatamente porque as conquistas na área democrática fizeram com que o mesmo entendimento de “direitos de cidadania” se aplica às gestantes. Para elas são oferecidas várias modalidades de atendimento, e a escolha de qual modelo a seguir dependerá de seus desejos e expectativas. Para além do protagonismo, as intervenções precisam ser baseadas em evidências, e isso já se vê em muitos países da Europa que aboliram a episiotomia de rotina, as tricotomias, enemas, kristelleres e tantas outras condutas sabidamente equivocadas. A presença de um grande número de países na Europa que adotam modelos mais humanizados de atenção ao parto corre ao lado dos esforços destes mesmos países de democratizarem todos os aspectos da vida social. Como diria a professora Robbie Davis-Floyd, “a humanização do nascimento não se desenvolve num vácuo social, mas faz parte de um modelo social mais amplo”.

2.  Qual sua visão acerca da atual situação da humanização do nascimento no Brasil e na Argentina?

A situação na Argentina é semelhante àquela que encontramos no Brasil. O modelo de atenção que existe nos países da América do Sul é importado dos “irmãos do norte”, os Estados Unidos, e por esta razão temos uma tendência a entender o parto como um evento médico altamente especializado, com uso intenso de tecnologia e uma dificuldade de entender os aspectos sociais do mesmo. A demanda por partos humanizados em toda a América está centrada na dificuldade do sistema médico ocidental de reconhecer e trabalhar com as necessidades afetivas, psicológicas, emocionais e espirituais que cercam o nascimento humano e que são a base de sua atenção desde tempos imemoriais. O resultado desta falha se demonstra na altíssima incidência de cesarianas, nas intervenções exageradas, no uso abusivo de medicamentos, na manipulação inadequada e na insatisfação crescente das mulheres com seus partos. No Brasil, Chile, Uruguai e na Argentina as cesarianas estão acima de qualquer consideração, extrapolando em muito os valores preconizados pela OMS, sem que tal investimento em intervenção resulte em melhores taxas de mortalidade materna e perinatal. Por outro lado, um número cada vez maior de ativistas destes países une suas vozes contra o que consideram “violência obstétrica”, e este movimento – de característica popular, pois as lideranças são de usuárias do sistema de saúde – vai acabar por mudar a face da assistência na América Latina.

3.  Quais são as condutas que mais frequentemente nos afastam do parto humanizado e, nesse sentido, quais aspectos poderíamos corrigir ou melhorar?

A alta incidência de cesarianas é a mais evidente, é claro. O Brasil ultrapassou no ano de 2011 o limite dos 50%, acendendo a “luz vermelha” do intervencionismo. Já contamos mais de 52% de cesarianas no país inteiro, entre nascimentos em hospitais públicos e privados. Os partos nos hospitais privados a situação é ainda mais grave: a classe média brasileira tem incidência de mais de 85% de cesarianas. Entretanto, o abuso inequívoco desta cirurgia não é o único problema. Como falamos anteriormente, o pilar central da assistência humanizada é a restituição do protagonismo à mulher, e o impedimento da presença de acompanhantes é uma falha GRAVE do modelo, pois impede exatamente a essência da assistência, qual seja, o suporte emocional à grávida. O Brasil tem leis que garantem o direito ao acompanhante, mas infelizmente ela ainda não é plenamente cumprida por hospitais públicos e/ou privados.

Também é digna de nota a utilização exagerada de medicamentos durante o parto, artificializando o processo (geralmente na tentativa de apressar o parto) e incluindo riscos ao nascimento. O uso de episiotomias, manobras de Kristeller (pressão no fundo uterino), raspagem de pelos, enemas e outras manobras inúteis e perigosas precisam ser questionadas para melhorar a atenção ao parto nos países ao sul da América.

4.  O que aconselhas aos obstetras, enfermeiras e obstetrizes para que não alterem o processo natural do parto e para que ofereçam um adequado suporte às gestantes?

O principal conselho é escutar as mulheres, respeitar a fisiologia do nascimento, entender as múltiplas disciplinas que se envolvem com este evento, conhecer a história do nascimento humano e dedicar-se a utilizar as práticas recomendadas pela medicina baseada em evidência. Qualquer profissional que seguir estas regras simples poderá se considerar “humanizado”. Para tanto é preciso entender que a principal ação de um obstetra é “vitrificar-se”, fazer-se vítreo, de vidro. Apagar sua natural propensão à intervir e permitir que a mulher seja a “estrela” do processo, sendo a protagonista do evento. Com isso poderemos fazer do parto um processo de profundo empoderamento desta mulher/mãe que acaba de passar por um fantástico rito de passagem, com claras e positivas repercussões na difícil tarefa que se segue: a maternidade.

5.  Acreditas que a medicalização nos levou a descuidar dos aspectos naturais do nascimento e das necessidades de mães e recém-nascidos?

Certamente que o ingresso do conhecimento científico na atenção ao parto produziu um reforço nas questões médicas e na intervenção nos mecanismos do parto, com o objetivo de auxiliar mães e bebês que, sem estes recursos, teriam um péssimo desfecho da gestação e parto. Assim, a intervenção em si não é ruim, nem prejudicial. Não existe qualquer antagonismo entre uso de tecnologia e humanização do nascimento. Entretanto, a “desnaturalização” do parto acabou ocorrendo pela visão coisificante da mulher, sua objetualização e sua parcial “exclusão” das decisões a respeito do parto, e isso teve consequências negativas para ela e o seu bebê. Os movimentos de humanização vieram exatamente para propor um novo equilíbrio entre cultura e natureza. A humanização do nascimento vem propor a síntese das teses antagônicas que vigoram na atenção ao parto. Não apoiamos a desassistência e nem a exagerada manipulação e intervenção sobre a mulher, seu corpo, suas emoções e seu bebê. Todavia, reconhecemos a importância da ciência e das intervenções técnicas salvadoras, mas acreditamos que elas só devem ser utilizadas quando seus riscos forem menores do que o respeito pela fisiologia do parto. Assim, podemos ter o melhor de dois mundos: a qualidade que a ciência nos oferece nos casos patológicos, e o respeito à natureza que a fisiologia do parto nos ensina, quando conhecemos e respeitamos o fluxo natural das forças do nascimento.

6.  Na Argentina nos últimos anos se nota uma tendência a humanizar o parto. Que conselhos nos daria para seguir avançando neste caminho?

Apostem nas mulheres. As mulheres serão as grandes e únicas revolucionárias. Os profissionais de saúde, sejam eles os médicos, parteiras, enfermeiras, doulas, psicólogas e outros, apenas seguirão o que as mulheres decidirem. Toda a violência institucional contra as mulheres acabará como por encanto no dia em que as mulheres decidirem que é preciso dar um BASTA. As cesarianas em excesso, os confinamentos hospitalares, a solidão, a objetualização e todas as ações contrárias à dignidade das mulheres também vai acabar quando elas assim decidirem. A forma de mudar este panorama é através da conscientização, da informação e da organização. No Brasil existem centenas de grupos de apoio às gestantes, e um pequeno exército de mulheres que se empoderam através de cursos, encontros, grupos de mães e de mulheres. Creio que na Argentina estas “voluntárias” estejam também surgindo. O foco, em minha opinião, será sempre aquelas que mais se beneficiam das mudanças: as mulheres. Isso não significa que devemos deixar os cuidadores de lado, mas estes terão um estímulo especial de modificar sua atitude e suas práticas quando as mulheres bem informadas começarem a pressionar por uma troca de modelo.

7. Quais temas pretendes desenvolver na jornada que darás em Rosário na Jornada de Introdução à Humanização do Nascimento, no dia 20 de agosto de 2013? Quais os objetivos deste encontro?

Vou desenvolver quatro temas fundamentais e mais um tema extra, se for possível e houver tempo.

a) Antropologia do Nascimento: Uma viagem de 5 milhões de anos na história do nascimento humano e os seis grandes desafios que tivemos que vencer para chegar onde estamos. Uma aventura audiovisual pelas espécies que nos antecederam e os grandes saltos adaptativos para a adequação do parto da espécie mais delicada e sofisticada do planeta: o ser humano.

b) Humanização do Nascimento e Equipe Interdisciplinar: O trabalho de equipes interdisciplinares compostas de médicos, enfermeiras obstetras e doulas na atenção ao parto, para oportunizar uma abordagem completa do nascimento, incluindo seus aspectos técnicos, psicológicos e sociais. Um mergulho na fisiologia do parto e sua expressão hormonal, mostrando as variações de ocitocina, prolactina, progesterona, estrogênio, endorfina e adrenalina. Um olhar sobre as reais necessidades de privacidade e cuidado que todas as fêmeas compartilham.

c) Obstetrícia e Ciência: A importância do olhar científico sobre as ações médicas, em especial aquelas do parto humano, mostrando a mitologia e os rituais que compõe a assistência ao parto no mundo ocidental. Mitos, crenças e razão: da dança desses elementos claramente humanos emerge a realidade do parto.

d) Obstetrícia e Medicina Baseada em Evidências: Uma explanação sobre a grande revolução médica do final do século XX, a Medicina Baseada em Evidências, e sua repercussão na obstetrícia contemporânea. Esta nova atitude frente aos procedimentos no parto abriu as portas para a ciência, afastou as mitologias indesejáveis e clareou os procedimentos rotineiros, mostrando quais poderiam permanecer e quais deveriam ser evitados na atenção ao nascimento. Apesar de sua característica revolucionária, muitos profissionais tem dificuldade de adotar a nova metodologia e as novas práticas em benefício das mulheres. Este seminário vai poder oferecer respostas para tal resistência.

e) Entre as Orelhas – O nascimento na perspectiva do Sujeito (aula extra): Após as conquistas de grandes avanços no pensamento sobre o parto, a descoberta dos hormônios responsáveis pelas várias fases do processo e os mestres de tempos passados que mostraram a importância de oferecer calma, tranquilidade, privacidade, suporte e cuidados técnicos, qual será o modelo de atenção do século XXI? Será que teremos “o fim da história”, e nada mais temos a acrescentar na visão do nascimento. Este seminário oportuniza uma reflexão sobre o modelo de atendimento baseado no sujeito, e os caminhos que ainda temos a percorrer para chegar a este ponto.

O objetivo desse seminário é oferecer uma visão o mais abrangente possível do cenário do nascimento: passado, presente e futuro. Tem como foco o parto humanizado, sua origem, suas propostas e seu caminho. Sabemos que as mulheres do século XXI estarão cada vez mais conscientes e informadas quanto aos seus direitos e capacidades. Caberá a nós, profissionais de saúde que atendemos este evento, oferecer a elas o que a ciência nos mostra como seguro e o que a ética nos garante como atendimento digno e respeitoso.

Tenho apresentado este seminário em muitas cidades brasileiras e posso ver que aos poucos existe uma consciência crescente sobre a “nova ordem” da assistência ao parto. Minha experiência no Uruguai, com um seminário maior (de 40 horas) foi igualmente gratificante e estimulante. Estou com grandes esperanças de que a Argentina será mais um local fértil para o pensamento renovador sobre o parto, a mulher o bebê e a família. Para dizer uma frase conhecida de Michel Odent, “Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”. Eu acrescento que, para mudar a forma de nascer é também necessário que nós, que estamos ao lado deste milagre todos os dias, mudemos nossa atitude em direção a um respeito maior e um cuidado mais doce com as mulheres e seus bebês, para que desses nascimentos renovados surja uma nova humanidade, onde a fraternidade, a igualdade e a justiça prevaleçam.

Deixe um comentário

Arquivado em Entrevistas, Parto

Sobre as Parterias

PARTEIRA DA ETNIA TUKANO

Não se pode confundir a preservação dos saberes tradicionais, que precisam ser preservados com a NECESSÁRIA inserção formal das parteiras nas sociedades complexas. Esse processo de reconhecimento, controle e avaliação profissional acontece em TODAS as áreas, não só na medicina. Não existe mais necessidade para algo que eu via na minha infância (e que é até personagem de Dias Gomes) o chamado “prático licenciado”.

Ora, o que vem a ser o tal “prático licenciado”?

Era o sujeito que dominava uma prática qualquer, como por exemplo, alguns  dentistas até o início do século XX. Sempre existiram pessoas que arrancavam dentes na comunidade, faziam pequenos reparos, ajudavam nas dores excruciantes e que foram sofisticando as suas práticas, até serem conhecidos como “dentistas”. É notório que a alcunha de “Tiradentes”, recebida pelo personagem histórico e alferes José Joaquim, lhe foi oferecida porque trabalhava como um “dentista sem diploma”.

“Não fez estudos regulares e ficou sob a tutela de seu tio e padrinho Sebastião Ferreira Leitão, que era cirurgião dentista. Trabalhou como mascate e minerador, tornou-se sócio de uma botica de assistência à pobreza na ponte do Rosário, em Vila Rica, e se dedicou também às práticas farmacêuticas e ao exercício da profissão de dentista, o que lhe valeu o apelido (alcunha) de Tiradentes.” (Wikipedia)

O que são as parteiras tradicionais se não “práticas licenciadas”? São aquelas remanescentes de uma época em que não havia estudo formal ou quando este aprimoramento era tão distante das comunidades que alguns integrantes desta se prestavam a fazer trabalhos indispensáveis nestas áreas. Havia engenheiros, contadores, médicos, dentistas, causídicos, farmacêuticos, todos eles “populares”, sem formação acadêmica (e as vezes sem formação escolar, pois muitos eram analfabetos). Com a popularização dos cursos superiores, principalmente na segunda metade do século XX, muitos profissionais universitários entraram no mercado e houve a necessidade de regulamentar a prática destes.

Afinal, quem poderia ser dizer engenheiro, médico, advogado ou dentista?

Uma forma de organizar tal demanda foi através do DIPLOMA de uma universidade, que garantia que aquele sujeito havia cursado adequadamente as disciplinas fundamentais para a prática de uma profissão. Entretanto, um contingente enorme de trabalhadores desta área, sem diplomação alguma, ficaram considerados “fora da lei”, em função de uma regra imposta pelos egressos da universidade. Para solucionar esta injustiça com aqueles que já se encontravam há décadas no mercado foram criadas normas que garantiam o trabalho para os antigos profissionais sem diploma, que aprenderam com a prática diária, longe dos bancos universitários, mas perto da vida e dos pacientes. Eram os práticos licenciados, alguns dos quais ainda conheci quando menino.

O tempo fez com que os últimos “práticos” viessem a falecer, e hoje em dia exige-se dos profissionais uma graduação acadêmica para as profissões que citei acima. Entretanto, na parteria ainda não ocorreu esta migração absoluta e total. Ainda temos muitas, milhares dirão alguns, parteiras “populares”, principalmente no nordeste brasileiro. Como agir em relação a elas?

Pode-se admitir que uma mulher, apenas por dizer-se parteira, possa atender um momento crítico (mesmo sendo fisiológico) de uma mulher nos dias atuais?

Minha resposta é: sim. Podemos aceitar o trabalho das “práticas licenciadas em parteria”, desde que estas mulheres, aos poucos, comecem a se adaptar às modificações de suas próprias comunidades.

Na minha opinião nossa ação deve-se dar em duas frentes: A primeira seria o suporte às parteiras tradicionais que ainda existem, com capacitação, interlocução, troca de experiências, ajuda material (medicamentos básicos, transporte, etc.). Isso é algo que eu acredito seja feito por várias Organizações Não Governamentais (como o grupo Curumim, entre outras). Outra ponta de atuação deve ser o incentivo à formalização. Experiências como esta foram realizadas no México, e com sucesso. Trazer estas parteiras para o mundo formal, respeitar suas práticas, oferecer informação básica sobre práticas baseadas em evidências, combater procedimentos reconhecidamente lesivos ou perigosos (barro no coto, teia de aranha, corte nos mamilos do RN para retirada do leite das bruxas, desmame precoce, etc.) e incorporá-las ao SUS (com PAGAMENTO pelo seu importante trabalho) devem ser ações prioritárias.

Mas para isso é importante definir quem são estas parteiras, e isso eu já tratei em outros textos. Para resumir, são de dois tipos: as parteiras “informais”, tradicionais e que se situam em locais de baixos recursos e/ou de um grupamento cultural onde suas práticas são reconhecidas por suas iguais e valorizadas socialmente. Como exemplo temos as parteiras ribeirinhas da Amazônia ou as parteiras Guarani M’bias no Rio Grande do Sul, entre centenas de outros exemplos que poderíamos utilizar sobre parteria tradicional no Brasil e que tem estas características essenciais.

O outro tipo são as(os) parteiras(os) urbanas(os), que são os profissionais egressos de uma formação universitária, regulados por seus conselhos específicos, com conhecimentos acadêmicos e científicos sobre práticas de atenção ao parto e que se originam dos cursos de Medicina, Enfermagem e Obstetrícia, os dois primeiros com a possibilidade de qualificação em obstetrícia.

Os profissionais que não se enquadram nessas categorias não são reconhecidos como “skilled attendants” e não podem ser regulamentados, orientados e/ou punidos por organização alguma e estão, portanto, à margem da formalização. Tais profissionais, via de regra, não tem protocolos bem definidos, registros de casos ou maneiras de aferir suas práticas. Isso, ao meu ver, é um problema para o sistema de saúde, e a formalização de todos os atores sociais que atendem nascimento precisa ser uma meta de todos os países que desejam diminuir as taxas de morbi-mortalidade materna e perinatal.

Ric Jones
ReHuNa

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

Vida e Determinismo

Evangelist Reverend Moon reacting as he delivers a speech in Gapyeong
O recentemente falecido Reverendo Moon

Certa vez eu fui abordado por um sujeito na rua que se postava em frente a um cavalete (desses que se usa em aula, com um bloco grande de papel) onde ele escrevia com um marcador de texto. A cena inusitada chamou a atenção de algumas pessoas, entre elas eu. Esta cena aconteceu em Nova York, no início dos anos 80. Parei para olhar por alguns momentos sem perceber que se tratava de uma espécie de “bispo” da seita do Reverendo Moon tentando fazer prosélitos entre os incautos passantes. Esta seita fez muito sucesso há 30 anos, principalmente nos Estados Unidos, onde organizavam reuniões gigantescas, com milhares de participantes, inclusive casamentos instantâneos de milhares de casais ao mesmo tempo. Na realidade ela em nada diferia das religiões contemporâneas que se baseiam no carisma de um guru e no investimento de milhões de dólares em propaganda. Bastaram 2 minutos de atenção com as marcas incompreensíveis que ele fazia no papel sobre o cavalete para que ele voltasse sua atenção para mim e explicasse o que fazia ali.

Em verdade, seu interesse com os gráficos era mostrar os importantes eventos sequenciais que se produziam a cada 500 anos e que mostravam que, exatamente naquele ano (acho que 1981), surgiria uma “nova ordem cósmica” liderada pelo patrão dele, o tal do reverendo. Pediu que eu olhasse os gráficos e confirmasse o nascimento de grandes líderes mundiais a cada lapso de meio milênio – dos filósofos pré-socráticos, passando por Sócrates-Platão-Aristóteles, pelo Nazareno, os Maias, os líderes da ciência na Europa iluminista, os enciclopedistas e por aí afora, até chegar exatamente no ponto onde ele pretendia: o surgimento do ápice de todos esses grandes líderes: o Reverendo Moon.

Mesmo sendo eu um menino de não mais de 20 anos, percebi claramente que se tratava de uma história contada em retrospectiva. Tipo: eu sou o máximo, ok? Preciso que todos vocês acreditem nisso e vou utilizar uma fórmula bem simples: mostrarei que minha importância não está apenas no que digo (na maioria das vezes uma mera repetição de adágios antigos com roupagem nova), mas que a minha “chegada” ao planeta Terra teria sido planejada por uma “ordem invisível cósmica”, que governa o mundo para além do nosso conhecimento. Bem, vou inventar agora que a cada século um novo gênio nasce na humanidade, certo? Para isso usarei de uma análise retrospectiva da história, e procurarei os meus “precursores”. Para fazer isso preciso encontrar alguém muito especial nascido no ano da graça de 1859, outro em 1759, 1659 e assim por diante, e desta forma construo uma pseudo causalidade que ocorre em lapsos de 100 anos.

Claro, eu pensei logo no meu mestre Freud, que nasceu em 1856, mas é fácil construir uma explicação para esta pequena inexatidão. Posso dizer que, por exemplo, são cem anos “lunares”, ou “por volta de um século”, ou Freud foi registrado apenas em 1859, por um erro de seu pai, etc. É evidente que, dependendo do que quero provar, esses detalhes são desprezíveis, e no fim tudo pode ser encaixar, como em um passe de mágica.

Por isso é que essas histórias de que “as coisas estão escritas para acontecer de uma determinada maneira, obedecendo uma ordem cósmica previamente estabelecida” me irritam, pois elas, em última análise, falam de um determinismo paralisante, que sufoca a natural diversidade humana, a imprevisibilidade da vida e o livre arbítrio. A vida, assim conduzida, pareceria uma versão do filme “Premonição” onde os eventos (trágicos, felizes ou bizarros) estão predeterminados a acontecer. Infelizmente (ou, ao meu ver, felizmente) o mundo não se ordena desta forma. Se realmente existisse um “sentido” oculto no Cosmos, o preço a pagar seria alto demais: a perda da liberdade e da autonomia. Prefiro um mundo caótico e imprevisível construído pelas nossas próprias imperfeições e falhas do que um mundo onde “tudo acaba bem” por que Deus (ou o Reverendo Moon) escreveu nosso destino com as tintas do determinismo.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Consumismo e Superficialidade

878554_rodrigo_faro_e_vera_viel_e_filhas001_g-964x1024

Uma conhecida colunista de minha cidade escreveu uma matéria no site de uma grande empresa jornalística cujo título era “Rodrigo Faro me fez adiar a maternidade”. A palavra “maternidade” me despertou a atenção, e instintivamente procurei saber do que se tratava.

Ao clicar no link aparecia a foto acima, em que um apresentador de televisão aparecia capitaneando a primeira festa de aniversário de seu filho ao lado de uma esguia esposa e de duas outras filhas vestidas com fantasias “rosa choque” de gosto duvidoso. (Ok, eram apenas fantasias de Miss Piggy, dirão alguns…).

Interessado pelo teor e curioso pelo título resolvi investigar o conteúdo da crônica, até porque me interesso pelas questões dos ritos de passagem e a questão do consumismo exagerado à que são expostas nossas crianças. Muito mais do que uma festa as celebrações de um ano de vida, principalmente entre as celebridades (ou aspirantes a famosos) tais eventos costumam ser festivais de exageros, breguices, apelações e exibicionismo descarado.

Claro que a festa do Sr Faro não fugiu à regra, pelo que ficou demonstrado na foto. Mas para mim foi muito pior o comentário da colunista de minha cidade.

“O aniversário das filhas do Rodrigo Faro me fez ter insônia essa noite.”

Eu nunca imaginei que se tratasse de um texto tão superficial. Achei que que a chamada da crônica pudesse me levar a uma crítica ao consumismo sem freios, ao desejo incontido de “coisas” ao invés de momentos para serem lembrados ou talvez uma análise mais profunda sobre a importância dos ritos no desenvolvimento emocional infantil. Achei mesmo que a referida coluna se ocupasse de uma apreciação da glamorização de figuras desimportantes do cenário artístico nacional e de suas festinhas suntuosas. Tais eventos que são produzidos com esse formato exuberante e extravagante apenas para que os enxerguemos como diferentes de nós. Colocam-se como seres superiores, uma espécie de “nobreza republicana” que olha para nós com o mesmo olhar de desprezo que a realeza olhava para a plebe faminta.

Todavia, o texto que encontrei é superficial e até infantil. Com um tema tão complexo, intrigante e até estimulante a jornalista conseguiu construir uma história boba de “como arranjar dinheiro para fazer uma festinha igual”. Uma pena, pois poderia ter feito algo muito mais interessante com este fato.

Mas… vai ver eu entrei mesmo na porta errada, e o blog da referida colunista é para quem curte preços de vestido de noiva, enxoval chique para bebês, onde fazer a cesariana mais chique, a numerologia do nome daquele que vai nascer e os obstetras operadores de barriga da moda. Resolvi escrever para ela a criticar a forma inadequada de abordar o consumo infantil, as festinhas suntuosas e os gastos com tamanhas futilidades.

A resposta à minha crítica, por parte da jornalista, foi a seguinte:

(…) várias pessoas comentaram aqui sobre gente que faz festa mais para si do que para os filhos. Eu, modestamente, acho que quem tem dinheiro faz a festa do tamanho que quiser (que graça tem ser rico se não puder usar a grana?). Só me preocupa – e foi esse o sentido do meu post – que esteja se estabelecendo um padrão. Festa de criança é de arromba ou não é. Daí tem gente que se mata pra poder dar uma para o filho. Meu medo é justamente esse: que a coisa descambe de tal forma que meu filho não pense em festa a não ser assim. Mas aí vai da criação que eu vou dar pra ele, como bem pontuou uma mãe aqui. Um beijo!

Voltei para o post que ela havia colocado e resolvi reler, a seu pedido. Tinha esperanças de ter lido de má vontade e não ter entendido o “sentido oculto”.
Foi em vão.

Normalmente quando o autor pede para “lerem de novo” é porque não conseguiu comunicar adequadamente o que desejava ou porque se arrependeu e está suplicando uma interpretação diferente e mais condescendente. É clássica a desculpa “Vocês não entenderam que eu estava sendo irônico(a)?“

Não, ela não estava. Havia mesmo um desejo de glamorizar as festinhas perdulárias de astros desimportantes da TV brasileira. E não é à toa que escreveu em uma das respostas sobre o “corpão da mulher do Rodrigo” (elogiando a silhueta esguia da mulher do apresentador), por que isso está no pacotão da futilidade do post.

Veja bem, aqui não há nenhuma ironia na sua fala: “Ver as fotos da festinha da família me fez abrir uma poupança para o primeiro aninho do meu piá. O dinheiro ficará no banco como garantia: se sobrar, eu e o pai dele partimos para uma viagem romântica.”

Isso não foi ironia: foi uma ameaça de entrar de cabeça no modelo exibicionista de criação de filhos. Só depois que fui ler outras crônicas desta jornalista e percebi que uma festa deste tipo faz todo sentido em sua trajetória. Ok, se isso satisfaz o ego da moça, nenhum comentário. Cada um glamoriza sua vida como quer, colocando glacê sobre o bolo da vida.

Mas precisava mesmo envolver o seu futuro filho em algo tão tolo e comercial? Ao invés de questionar a importância de uma maternidade consciente, de uma gestação sadia, de um parto humanizado para fugir da carnificina do modelo cesarista e para LIVRAR seu filho do consumismo que destrói a mentalidade infantil, ela ressaltou EXATAMENTE o que existe de mais fútil no desenvolvimento de um sujeito: a festinha de primeiro ano de uma criança que sequer participará (menos mal) do absurdo exibicionismo de seus pais.

Cheguei a ficar constrangido e até culpado por ter dado audiência para crônicas fúteis e que ressaltam o consumismo e a deseducação de crianças, colocadas como troféus parentais e bichinhos de estimação, com roupas ridículas para “enfeitar” a festa dos pais. Mas o grande número de críticas que eu vi, de pessoas maduras e que levam o nascimento de uma criança a sério, me fez ver que provavelmente esta crônica cafona e fora de lugar é que prestou um desserviço ao amadurecimento de uma maternidade e uma parentalidade maduras. Ao falar de forma tão frívola das festinhas de “exaltação do dinheiro”, ela trouxe à tona a importância de exigirmos um jornalismo mais responsável e maduro.

Tenho certeza que a jornalista não escreveu nada disso por “mal”, e nem com más intenções, mas por descompromisso com a seriedade na educação das crianças e uma falta de noção sobre a importância de livrá-las da doença do consumismo.

Recomendei a ela o brilhante documentário brasileiro “Criança – A Alma do Negócio”.
Talvez ela consiga ver o estrago que este tipo de atitude pode produzir em um ser em desenvolvimento.

1 comentário

Arquivado em Pensamentos

Papo de Homem

Cafeteria
A velha fofoqueira não conseguiu se controlar…

Saí da loja de componentes eletrônicos e senti a súbita compulsão de tomar um café. O shopping estava “bom” hoje, e com isso me refiro ao fato de que não estava lotado. Procurei uma mesa e chamei o garçom. Ele se aproximou e, antes que pudesse me estender o cardápio, eu disse “Um expresso, por favor?”. Ele guardou o menu embaixo do braço e respondeu “Pois não. Só um expressinho?”

“Sim”, respondi eu, mas com a clara sensação de que minha condição de pobre, miserável e incapaz foi descaradamente revelada. Afinal, só isso poderia explicar que, podendo comprar um “Extra-supreme café italiano com chantilly e canela” que custa 15 reais, eu me resignei a pedir apenas um mísero expressinho de 3 reais e cinquenta centavos. Para disfarçar a minha vergonha abri meu tablet e conectei com o Facebook, vício do qual me considero irrecuperável. Encontrei Kalu on line, que falou sobre o estatuto do nascituro e me disse da necessidade de debatermos mais sobre esta questão. Ponderei com ela que este documento pretende transformar o feto em sujeito, colocando o pátrio poder abaixo das determinações do estado. Falei para ela do perigo que significa o extermínio do protagonismo feminino sobre seu corpo, que ficará sacramentado como algo tutelado pelos poderes estabelecidos. Em outros países iniciativas como essa, capitaneadas por grupos religiosos, produziram aberrações terríveis, como o “advogado do feto” e as cesarianas por demanda judicial. Veja também esse excelente artigo, que tem mais de 25 anos sobre o tema, escrito por Susan Inwin e Brigitte Jordan.

Repentinamente fui atraído pela conversa que se desenrolava na mesa ao lado. Alguns fragmentos de frases soltas acabaram despertando minha atenção. “A cesariana”… “O médico disse que…”, “Então ela foi para o centro cirúrgico…”. Dois jovens, por volta dos 30 anos, conversam sobre… partos. Sim, o assunto era sobre os nascimentos dos filhos deles, ambos ocorridos recentemente. Um deles estava sentado, e é um cabeleireiro. Sei disso porque ele estava de uniforme, e a cafeteria fica exatamente em frente a um famoso Salão de “Haute Coiffure”. O outro, que se mantinha de pé, era provavelmente um amigo que o havia encontrado tomando um café no intervalo de suas tarefas.

O cabeleireiro toma a palavra e dispara, fazendo minha xícara de café chacoalhar. “Meu médico disse que marcou a cesariana para eliminar os riscos, e eu concordei com ele. Por que deixar passar do tempo e se arriscar?” O rapaz nada mais fez do que reproduzir os preconceitos arraigados no imaginário popular, centrados na “mitologia da transcendência tecnológica” que Robbie nos alertava. O conhecimento autoritativo do profissional conquista, na alienação do marido, um aliado importante. Eliminar riscos através de cirurgias só pode ser entendido se acessarmos as questões ideológicas que estruturam a nossa cultura. O que é do feminino e da natureza não é confiável, mas o que vem da razão e da ciência é digno de total apreço e respeito.

A resposta do seu amigo, o que se mantinha de pé, foi surpreendente. “Pois é, mas uma cesariana é uma cirurgia. E ela abre sete camadas. Existem riscos inerentes em realizar um procedimento assim, não é?” Havia, pelo que pude perceber, pelo menos um pouco de discernimento e informação no seu questionamento sobre as cesarianas.

A conversa rolou mais um pouco sobre o tema e continuei a espichar o ouvido, no melhor estilo “velha fofoqueira”. Que me perdoem os rapazes, mas precisava saber o que dois jovens homens adultos, e que acabaram de passar por esta experiência, tinham a dizer. Na conversa que se seguiu pude perceber que as duas esposas tiveram filhos através de cesarianas. Ambos pequenos, um de 2600g e o outro 2900g. Como saber se não saíram muito antes do que deveriam? Não havia nenhuma justificativa clara nos discursos de ambos, apenas a determinação autoritativa de profissionais que gozavam da confiança de ambos. Não percebi nenhuma indignação, estranhamento e muito menos revolta, apenas resignação com os fatos. O cabeleireiro o tempo todo reforçava as palavras do seu médico, com frases do tipo “Quando ele me disse eu imediatamente concordei…”, ou “realmente não há porque arriscar”, entre outras expressões de concordância.

Tive vontade de levantar, puxar os dois pela gola da camisa e gritar: ”Meninos, ACORDEM!!!!!”

É um pouco triste, e um pouco trágico.

Pensei no que Maximilian, com sua positividade e otimismo, me diria ao ouvir o diálogo dos rapazes. “Olhe pelo lado positivo, Ric. Quando é que você se sentou com um amigo e pôde debater o parto de seus filhos? Achas que o seu pai um dia conversou com alguém sobre o seu nascimento?”

Está certo, Max. Prefiro ver a conversa que se estabeleceu ao meu lado como um sinal de que os homens estão se interessando mais por partos, nascimentos e amamentação. Mesmo sabendo que se trata de escolhas tolas, como cesarianas sem justificativas, ainda é melhor isso do que a suprema alienação de tempos idos. Tristemente, ainda hoje presenciamos inversões de valores que nos agridem os sentidos. Os casais grávidos ainda se fixam em detalhes desimportantes do nascimento ao invés de procurarem um atendimento com as características fundamentais da humanização: o protagonismo da mulher, a visão interdisciplinar e as condutas baseadas em evidências. Infelizmente muitos ainda querem um parto no “Sheraton”, muito chique, com piso de mármore e enfermeirinhas de tailleur. Procuram a tecnologia explícita como um artigo de consumo que o dinheiro pode comprar, e não como um recurso extremo, usado em situações limite. O atendimento ainda é equivocado e violento, do ponto de vista humano e médico, mas tem aparência de produto sofisticado.

O amigo em pé coloca um pouco de dúvida sobre a correção das escolhas feitas. “Sabe que a mulher do leito a lado da minha esposa estava dando banho no bebê no mesmo dia em que aconteceu o seu parto, pois para ela foi normal. Isso me chamou a atenção, pois quando olhei para a minha mulher percebi que ela não podia nem se mexer na cama.”

O cabeleireiro ainda respondeu: “Pois é, quando puder ser normal é melhor, não? Infelizmente no nosso caso não foi possível”. Até eles perceberam as diferenças, mas o medo da autoridade médica ainda impera. Como diria Maximilian: ”Ignorantia stercore est” (A ignorância é uma merda)

Mas, não há razão para ser pessimista. Muito conquistamos nos últimos anos. Veja só que beleza essa ultima publicação holandesa sobre parto domiciliar. Há poucos anos ninguém falava desta questão no Brasil, e hoje em dia há uma legião de ativistas questionando local de parto, violência institucional, lei do acompanhante, obstetrícia baseada em evidências e tantas outras questões.

Em 1999 estive em um congresso de humanização do nascimento no Rio de Janeiro e até entre os humanistas o assunto parto domiciliar era tabu. Ninguém atendia, ninguém tinha ideia dos equipamentos essenciais, não tínhamos a proposta de equipes interdisciplinares, e muitos achavam que este era um assunto menor, que sequer merecia ser debatido. Naquela época a gente achava que Casa de Parto era uma pequena clínica fora do hospital, com bloco cirúrgico, e com atendimento feito por médicos. Chegamos a fazer uma assim, que acabou fechando. O modelo de parteria, com a proposta centrada na atenção pela enfermeira obstetra e na obstetriz, só veio muito depois, com o amadurecimento do debate o fortalecimento ideológico, principalmente pelo trabalho da professora e antropóloga Robbie Davis-Floyd. Essa primazia, sou obrigado a reconhecer, é dela. Antes dos seus livros – em especial “Birth as na American Rite of Passage” – ninguém sabia exatamente o que fazer, apesar de já sabermos o que não queríamos mais continuar fazendo.

Robbie estruturou, a partir do seu modelo antropológico, a humanização do nascimento. Ela deu consistência e direcionamento à nossa indignação.

Assim, quando vejo a conversa de dois homens falando sobre o nascimento de seus filhos percebo o alvorecer de um novo tempo, onde a participação masculina ficará cada vez mais intensa e constante. Mesmo que a fala deles seja ainda recheada de equívocos e inconsistências, ainda prefiro encarar como um avanço. Talvez ambos tenham voltado para as suas casas com uma semente de dúvida. A farpa, “ardente e corrosiva”, como me dizia Max. “Será mesmo que era necessário?”

1 comentário

Arquivado em Pensamentos

Nós e a Internet

Fazemos mobilização social pela humanização na Internet desde 1998, ainda no tempo dos modens de 4.8 e da conexão discada, quando iniciamos os debates cibernéticos contra a violência institucional e a barbárie das cesarianas no Brasil. Naquela época a crítica que recebíamos era de que o meio – a Internet – produzia um movimento tímido, sectário, apenas para “mulheres burguesas” que tinham tempo para “perder” na frente de um computador. A proliferação da Internet para todas as classes sociais mostrou que nossos críticos estavam errados. No tempo em que iniciamos a luta através das listas de discussão não havia parto domiciliar no Brasil, e hoje este debate ganha as ruas. Não havia um movimento de doulas, quanto menos instituições que lhes dessem respaldo. Não havia lei do acompanhante e nem obstetrizes formadas pela mais prestigiosa universidade brasileira. Não havia uma consciência de que o parto se expressava de forma violenta, numa assimetria de poderes em que as mulheres tinham a sua voz abafada, seus corpos manipulados e os profissionais faziam deles objetos sobre os quais aplicavam uma ciência cada dia mais questionável.

Igualmente não existia conexão com as outras lutas, como a amamentação, e não tínhamos contato com grupos de fora do Brasil. Éramos “ilhas”, isolados em nossas indignações e sonhos. Começamos como um grupo pequeno de internautas que acreditavam em suas ideias e utilizavam uma ferramenta nova e estranha. No mesmo dia eu falava com meninas sonhadoras em São Paulo e com um colega humanista em Florianópolis. Criamos um espaço sem distâncias, uma proximidade até então jamais experimentada. Essa realidade parecia a nós uma fantasia louca, devaneios de ficção científica. O longe desapareceu. Um artigo criticando as episiotomias era publicado em um dia e no outro já estava impresso em minhas mãos. Logo após, era espalhado pela rede, nas nossas valorosas “list servers”. As oportunidades de difusão de ideias e propostas tornaram-se realidade ao alcance da ponta de nossos dedos.

Imediatamente o conservadorismo percebeu que a Internet era uma arma poderosa e ameaçadora para acordar mentes morfetizadas. Como reação, iniciaram uma campanha de ataque a estes projetos. “Você não pode acreditar em tudo que lê na Internet, minha filha”, nos dizia o velho profissional, acostumado com uma retórica em que suas “verdades” não podiam ser questionadas. Quem abriria um livro de medicina para se contrapor à autoridade do profissional à nossa frente? Tornaram-se jargões entre os profissionais frases como “Não existe essa coisa de violência institucional. Isso é coisa de Internet”. Ou então diziam, com um supremo desprezo, “Quem te falou isso das episiotomias? O Dr. Google?”.

Não há mais como desprezar o poder da mobilização da Internet e das redes sociais. Ano passado em questão de poucas horas o NuPar – Núcleo de Parteria Urbana da ReHuNa – mobilizou milhares de pessoas em 32 cidades (31 no Brasil e uma na Itália) contra um ato de terrorismo de uma corporação do centro do país, que desejava impedir a livre manifestação de opinião, agredindo um dos pilares da democracia. Milhares marcharam contra a arrogância e a prepotência e a favor das escolhas informadas, o protagonismo feminino no nascimento e o embasamento das condutas em boa ciência.

Os movimentos de conscientização na Internet mudaram a face da democracia. Ela não se expressa mais apenas através dos modelos partidários e da união em torno de megaprojetos. Não temos apenas este meio de expressão. Hoje podemos mobilizar multidões para projetos específicos, como a defesa de um colega que está sendo vítima de perseguição por uma entidade profissional, como vimos no Rio de Janeiro, ou contra práticas abusivas como episiotomias, Kristelleres, cesarianas, e até contra ilegalidades, como o impedimento ao acompanhante no parto.

Não precisamos mais aguardar a manifestação de um “representante” do nosso partido: somos todos protagonistas da mudança. Cada um de nós tem seu próprio megafone, sua arma contra as injustiças e seu fuzil contra a barbárie. As vozes multiplicadas amplificam os desejos e mostram uma nova face na participação social. Estamos num verdadeiro “admirável mundo novo”, mas prefiro acreditar que se trata de um mundo mais justo, mais responsável e mais participativo, onde as palavras de todos receberão acolhimento e respeito.

(Para ler sobre a “Revolução da Internet” leia a coluna de Juremir no Correio do Povo em http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=4409)

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Primeiro Desafio

John Kennell
John Kennell – Um dos maiores nomes da pediatria americana, e que abriu as portas para a ciência do afeto.

Hoje eu estava me lembrando de um fato ocorrido há mais de dez anos e que foi um importante marco na minha trajetória como obstetra humanista e divulgador de ideias: a primeira vez que fui convidado a fazer uma palestra em inglês na América.

A minha primeira palestra nos Estados Unidos foi na Case Western Reserve University, em Cleveland, a convite do Departamento de Antropologia. Minha palestra era sobre as doulas, e a experiência de uns 4 ou 5 anos que eu havia acumulado trabalhando com elas. O convite foi da antropóloga Robbie Davis-Floyd, que estava apaixonada pelo movimento de humanização do nascimento no Brasil e queria que os ativistas tivessem oportunidade de falar de suas experiências. Como professora do departamento de antropologia da Case, fez o convite para que eu mostrasse a humanização do nascimento com ênfase no “brazilian way”. Havia por volta de 100 pessoas no local, principalmente doulas, enfermeiras, ativistas, estudantes de antropologia e algumas mães. Faltando não mais do que cinco minutos para começar a palestra eu não conseguia nem dizer “good morning” em inglês, de tão ansioso. Eu estava com muito medo de errar. Sim, o medo ancestral, o medo mais primitivo.

Pois para piorar a situação, quando eu estava me dirigindo ao palco, Robbie me puxa pelo braço e diz: “Esse senhor aqui quer te conhecer, e veio assistir a tua palestra“. Era um senhor de uns 80 anos, mas eu não o reconheci. Robbie então me apresentou a ele: “Este é o Dr. Ric, do Brasil. Ele é obstetra“. O velhinho me olhou nos olhos e, com uma espécie de ternura, me disse: “Ah, do Brasil. Você, por acaso, conhece o Dr Moysés Paciornik?” Sorri para ele e disse: “Claro. Ele e o seu filho Cláudio são meus amigos“. “Ah – respondeu o senhor de cabelos prateados, ele é o maior obstetra do mundo!“. Fiquei orgulhoso da menção elogiosa que aquele ancião americano fez sobre um ídolo meu. Coisa boa ver um brasileiro ser citado numa universidade americana. Então Robbie arrematou: “Esse senhor é seu colega, Ric, e o nome dele é John Kennell“.

Quando ela disse o nome da pessoa que amavelmente apertava minha mão o resto de sangue que eu tinha no corpo se esvaiu. Acho que fiquei pálido como uma folha de papel. Minhas pernas fraquejaram e minha voz desapareceu. Creio ter dito algo como “Uau, ergh, well, humm, that’s an honor!” e nada mais. Sorri e lhe cumprimentei efusivamente. Pela primeira vez eu faria uma palestra em inglês (isso já tem mais de dez anos) e de um assunto novo para mim: o trabalho das doulas. Aí aparece na plateia nada mais do que o CRIADOR das doulas, o pediatra americano que revolucionou o conceito de “vínculo” e que descobriu a importância do suporte psicológico, afetivo, emocional e físico de uma pessoa compassiva ao lado da parturiente, e que acabou por ser batizada de “doula”, a partir do livro “Breastfeeding, the Tender Gift” da antropóloga Dana Raphael.

Que pânico! Seria a mesma coisa que um “nerd” dos anos 80, que recém se deixou tocar por uma nova concepção gráfica para computadores – o Windows, ser chamado a palestrar sobre essa novidade e perceber que um senhor ruivo, de óculos e sardento chamado Bill Gates estava sentado na audiência. “Mas o que posso dizer diante de Deus, o criador de todas as coisas que cabem num computador?” pensaria o pobre menino. Pois foi exatamente como me senti: falando de uma concepção nova, uma nova formatação da assistência ao parto, diante daquele que, juntamente com Marshall e Phyllis Klauss, havia presenteado a cultura com tal descoberta.

Pois eu resolvi ficar em silêncio por alguns instantes antes da apresentação e me focar naquilo que poderia ser interessante para todos. Isto é: como um médico brasileiro interessado em melhorar o seu atendimento e focado numa perspectiva humanista poderia capacitar-se através da incorporação das doulas ao seu trabalho. Que trajetória eu havia percorrido, quais suas dificuldades e contratempos, e como esta experiência poderia ser disseminada para outros profissionais igualmente desejosos de uma mudança.

Foi o que fiz. Pensei com os meus botões “Ora, estou aqui. Estas pessoas querem que eu conte a minha história. Não há nada de errado em engasgar, em trocar palavras, pedir ajuda, ou mesmo cometer um equívoco. Seja o que Deus quiser.”

Falei por uma hora. Mostrei imagens de partos, falei de histórias engraçadas, contei dos meus temores, a minha curiosa entrada no mundo das doulas, o início do trabalho interdisciplinar, a entrada da enfermeira obstetra, os primeiros casos, as tristezas, os sucessos e a semente plantada para outros colegas no Brasil que se interessaram pelo tema e pela abordagem.

Claro que eu errei muito. Faltou vocabulário, mas sobrou cara de pau. “Azar, pensava eu. Que posso eu fazer? Ficar tímido, me esconder?” Essas não eram opções viáveis. Resolvi falar, e falar, e falar, como eu sempre faço. Contar coisas curiosas, mostrar a dificuldade inexorável de romper barreiras e ser o precursor de um modelo, mas ao mesmo tempo a perspectiva espetacular de fazer um trabalho novo, desafiador e gratificante.

Houve apenas um momento claro de tensão. Depois da palestra eu abri um tempo para perguntas e depoimentos. A maioria das perguntas era óbvia e muitas até previsíveis: “Como você foi recebido pelos seus colegas“, “O que os hospitais dizem a respeito?“, “Que resultados pôde observar?“, etc… Entretanto, houve uma pergunta – formulada por uma doula – que me fez pensar mais e me obrigou a responder com vagar e ponderação: “Como deve se comportar uma doula diante de uma indicação claramente errada de cesariana, ou diante de procedimentos equivocados do obstetra? Deve erguer a voz e defender sua paciente? Deve calar-se diante de um abuso? Como deve se comportar?“

Minha resposta foi simples, direta e clara: “Doulas devem centrar seus esforços no conforto da mãe. Qualquer esclarecimento sobre procedimentos pertence ao ativismo, e este não pode ser exercido no momento do parto. A psicosfera do nascimento deve ser límpida, e a cena do parto não pode se transformar numa batalha”.

Disse isso e fiquei em silêncio. Ninguém arrematou. Não sabia se havia uma discordância absoluta e constrangedora, ou uma silenciosa aquiescência. Olhei para Robbie que, simpaticamente, me sorria. Passeei o olhar por todos os rostos presentes, até que parei do lado direito da plateia e vi a mão do Prof. John Kennell timidamente se erguer.

Suei gelado, e minhas pernas tremeram: “Agora ele vai me destruir, pensei. Vai dizer que meus conceitos estão equivocados, que as doulas precisam se posicionar com firmeza, que estamos numa cruzada para eliminar más condutas de hospitais e que eu não deveria condenar doulas ao silêncio e à conivência com as práticas sem embasamento. Vou me jogar no lago Erie hoje à tarde, e meu corpo será resgatado daqui uns anos, em um cubo de gelo boiante, na costa do Canadá”.

Mas o prof. John, do alto de sua delicadeza e suavidade apenas disse: “Meu colega, o Dr. Ric, está coberto de razão. A entrada das doulas no cenário do parto é muito recente e deve ser levada com o máximo de cuidado e delicadeza. Não podemos sacrificar um modelo de sucesso comprovado por causa de lutas com as autoridades estabelecidas. Mesmo que a doula esteja certa, isso não será suficiente. Precisamos pensar em todas as outras doulas e os milhares de pacientes que podem ser prejudicadas se uma falsa ideia de intromissão por parte delas for disseminada. Doulas devem ser anjos silenciosos, e nunca devem fazer de sua ação um enfrentamento”.

Terminou sua manifestação e sentou-se calmamente. Depois, sorriu para mim e meu coração, como por encanto, voltou a bater.

Essa foi minha primeira experiência como palestrante fora do país. Muito mais do que a grandeza de conhecimentos, a abrangência cultural ou as qualidades de oratória – qualidades estas que não possuo – minha única virtude foi a coragem aliada à grandiosidade da mensagem. Sempre me envergonhei do fato de que um projeto tão desafiador e bonito como a humanização do nascimento precisasse de pessoas tão limitadas quanto eu. Entretanto, se minhas limitações eram tão evidentes, que o fossem também meu entusiasmo e minha coragem diante dos desafios.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Histórias Pessoais