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Fim

Alguns dizem que a atitude de Antônio Cícero de sair do Brasil para por fim à sua vida de vontade própria se deu porque os políticos do Brasil são atrasados e não aceitam que alguém radicalize sua autonomia e a escolha do próprio destino. Não concordo. Alguém acha mesmo que um governo, por sua própria vontade, poderia liberar a eutanásia através de um canetaço? Poderia, pela mesma lógica, ocorrer a liberação do aborto pela vontade do presidente? Desculpe, mas isso é puro paternalismo. Aguardar que as autoridades públicas e os políticos tomem a iniciativa para este tipo de transformação cultural é uma enorme ingenuidade. As leis vem à reboque das demandas populares, e não o contrário. Essas modificações relacionadas ao direito à vida só podem tomar corpo através da mobilização popular.

Pergunto: pode um governo decidir contrariamente à vontade de seu povo? Pode ele um tomar decisões que contrariam os valores expressos da população? O direito de um sujeito tirar a própria vida pode ser debatido, ,as quero rtatar apenas das formas de fazer com que essa decisão seja levada aos termos da lei. Quero debater as vias pelas quais esta realidade pode ser modificada, levando-se em consideração a estrutura política e o sistema de poderes vigente. Aqui no Brasil, se você quiser dar ao sujeito o direito de matar alguém (mesmo que a si mesmo) é necessário um debate intenso com a sociedade, obrigando o choque benéfico e construtivo do contraditório. O fato do nosso governo (e a imensa maioria do mundo) se posicionar contra o suicídio assistido e a orthotanásia é porque ainda não houve interesse da população em debater esse tema. E não há mesmo!! Por certo que a eutanásia (ou a orthotanásia, um termo melhor) é um tema sério e importante mas, como eu disse, o apelo popular certamente ainda é minúsculo. Quantas pessoas estão interessados no tema da abreviação voluntária da vida? Poucos, muito poucos. Quantos se mobilizariam por esta causa? Quase ninguém. Já os governos são sempre reativos, assim como as leis: reagem às demandas populares. Não cabe ao governo tomar decisões impopulares sobre temas profundos baseado em abstrações ou ideologias.

Eu sou favorável ao suicídio assistido, mas reconheço minha condição de voz minoritária num pais de cultura pela vida. Na condição de médico participei de inumeros debates e todos eles se chocavam com a questão da proteção profissional, e esta mudança se dará somente através das leis, e estas estão na mãos dos legisladores eleitos pelo povo. Com a atual composição do legislativo brasileiro – conservador e até fasdcista – o que se poderia esperar? Portanto, de nada adianta chamar brasileiro de tacanho, atrasado ou paternalista se a única forma de transformação que funciona é a demanda popular fazendo pressão nas casas legislativas. Minha posição atual é acreditar que essas mudanças só podem surgir pelo embate protagonizado pela política. Os políticos são se adaptam às demandas e bandeiras populares. A orthotanasia não é popular, e desconfio que o aborto seguro tem não é. Se hoje fossem instituídos (por canetaço) haveria mobilização popular contrária à sua aplicação. Portanto, a solução não será por eles mas através deles, após a necessária pressão popular, e esta pressão vem da sociedade civil organizada. Ainda não há no Brasil massa crítica para essas transformações radicais em um tema tão delicado como o direito à vida.

Com o aborto ocorre a mesma lógica: quantas mulheres estão dispostas (como as argentinas) a sair às ruas para lutar pelo direito ao aborto? Num país onde Edir e Malafaia são ídolos populares fica difícil escapar das perspectivas conservadoras. Ainda há insuficiente mobilização pelo direito ao aborto. E tem outro problema, aliás, gigantesco: enquanto não houver proteção legal para as equipes tanto para o aborto quanto para a orthotanásia, nenhum médico vai se arriscar a uma ação, por mais humanista que seja, que em última análise poderá levá-lo à prisão. Para levar adiante estas iniciativas seria necessária uma nova mentalidade, que só pode ocorrer no seio da própria sociedade civil. Acho difícil para o temperamento afetivo, familiar, gregário e alegre do nosso povo que se levem adiante ações ligadas à morte, seja dos fetos, dos velhos ou dos doentes. Não é da nossa cultura, e por isso essas mudanças ocorrem primeiro em países germânicos, como Holanda, Suíça, Finlândia, etc. Seria preciso um debate nacional longo, demorado e profundo antes de se eleger um poder legislativo capaz de criar leis tão avançadas e promover tais mudanças.

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Memórias do Homem de Vidro – 08

Beatriz e a Origem do Sintoma

Achei que até eu já havia bebido demais. Levantei-me da cadeira de lata e me espreguicei, menos pelo alongamento e mais para testar meu equilíbrio. Nadine me encarava tentando achar alguma vermelhidão em minha esclerótica, sinal ine­quívoco do meu exagero. Não estava bêbado, sequer “alto”. Quando isso me acontece, escuto o mundo de dentro de uma concha. E perco a noção de distân­cia. Não fico como aqueles ébrios que falam perto demais, misturando o hálito car­regado com a falta de compostura, mas enxergo tudo de uma forma distorcida, com a profundidade prejudicada. Nada disso estava acontecendo, porque eu via Nadine e Maximilian nos exatos lugares em que estivéramos sentados nas últimas duas horas, conversando no bar do hospital onde Nadine é plantonista do centro obstétrico, nutrindo nossas filosofias com cerveja e batatas fritas.

— Não entendo essas atitudes de exagerada impaciência com que às vezes você me trata, Nadine. — Disse isso olhando diretamente para minha colega, com um ar de dissimulada severidade. Continuei: — A última é esta: “não considera a questão discutível, já que não respondeste”. Meu silêncio a ofende tanto assim?

Dei alguns passos em direção à porta do bar e confirmei minha sobriedade. Per­miti que a brisa da tarde desarrumasse meus poucos cabelos. O frescor me ani­mou a continuar.

— Quando eu fico em silêncio para, entre outras coisas, não “alugar” os ouvidos dos amigos ou me tornar o foco das atenções, sou acusado de “não considerar a questão discutível”. É justo isso? Putz… Já não basta sofrer de “Peremptória Lo­quacidade Paroxística”, ainda sou acusado quando guardo um silêncio respeitoso em relação à opinião alheia? O verdadeiro democrata luta para que seus pontos de vista possam receber o merecido contraditório, sob pena de transformar suas ideias em dogmas!

Terminei a frase com os braços abertos e o olhar para o teto, mas não consegui conter uma risada diante de tamanha canastrice. Maximilian debochadamente bateu palmas e me abraçou. Fazia essa encenação comigo, sempre que eu con­cordava com ideias suas. Nadine olhou para o relógio. Uma indireta?

— Então responda minha pergunta sobre a relação entre psiquismo e sintoma, especificamente da náusea na gravidez — disse ela.

Sua simpatia e beleza eram absolutamente sedutoras. Nadine tinha um charme inquestionável, mesmo quando estava impaciente. Respondi com a brandura que seu meio-sorriso demandava.

— Apenas tenha paciência comigo. Não respondi porque não achei que poderia acrescentar nada de novo ao que já havia dito. Tente lembrar o que conversamos anteriormente sobre os vômitos durante a gravidez. Minha posição é clara. Falei a minha opinião sobre a sintomatologia como emergência de transtornos mais pro­fundos do psiquismo, e você falou da importância, com o que concordo, do estado hormonal alterado da gestação. Não considero sequer que sejam pontos de vista francamente conflitantes, apenas uma questão de ênfase. Eu prefiro olhar o sin­toma dessa forma, porque essa maneira me parece ser mais criativa e construtiva. Você vê como algo passageiro e contornável, o que também é correto. Nada mais.

Nadine continuava a me encarar. Continuava a mesma mulher de uma beleza só­bria, mas triste. Parecia faltar à Nadine o brilho de uma grande paixão. Ou seria preconceito meu? A completude do feminino só é encontrada no amor? Ou estaria errada a canção de João Bosco, “Quem pode querer ser feliz se não for por um grande amor?”? Continuei meu discurso sem me importar com as caretas que Max me fazia.

— Você acredita que os sintomas do início da gestação seriam basicamente oca­sionados pelas alterações bioquímicas características do período gravídico, certo? Quanto à sua comparação entre náusea gravídica e a intoxicação etílica, lembre-se de que uma bebedeira faz parte de uma intoxicação. Não é fisiológica, nem está programada pelo organismo. A náusea gravídica, por seu turno, está inserida em um projeto fisiológico — a gestação — e está dentro da normalidade orgânica. Não é intoxicante, nem requer doses altas e não naturais de substâncias exóge­nas. De cada dez indivíduos que tomam meio litro de vodka dez ficam bêbados, o mesmo não ocorrendo com os sintomas da gravidez.

Maximilian, que estava acompanhando algumas ancas com o rabo do olho, sorriu com o canto da boca quando citei esse exemplo: “Meia garrafa só, companheiro?” Sem me deixar atrapalhar pela gozação de Max, continuei com minha explanação.

— Quanto às grávidas, apenas uma parcela variável sente efeitos nauseantes, o que reforça a subjetividade e a característica de suscetibilidade específica do transtorno. Não é o hormônio que solitariamente produz o quadro, ao contrário do álcool da bebedeira. É a pessoa que é, ou está, suscetível. Acrescentem-se a isso as pressões culturais que fazem com que sintomas apareçam em decorrência das latitudes e de padrões específicos de comportamento social. A sintomatologia pós-menopausa é um excelente exemplo, por ser tão comum em países industrializa­dos e praticamente ausente em algumas populações da América Central, mesmo com igualdade na atividade hormonal. Existe mais do que patologia no sintoma; existe simbolismo. O sintoma é uma forma alterada do organismo de buscar equi­líbrio. Ele é uma maneira de mudar o padrão energético para alcançar a harmonia perdida pelo choque entre a suscetibilidade e um agente externo. Em homeopatia, chamamos de diátese. Por isso, o conflito emocional, que é o caso frequente em uma gravidez, pode gerar alterações de tal monta que o organismo tende a se adaptar à necessidade de homeostase através da modificação física. Além disso, acho que a escolha do sintoma específico utilizado pelo sujeito tem um aspecto metafórico. Daí a necessidade de “botar para fora”.

Nadine me interrompe com um gesto. Parecia ter esperado um determinado mo­mento para falar algo que a estava incomodando. Seu movimento foi brusco, cor­tando com um só golpe minha frase que se iniciava.

— Tudo bem, Ric. Posso até concordar com algumas das suas ideias, mas você também disse que nem toda grávida desenvolve essa sintomatologia, apesar de sofrer as mesmas alterações hormonais. Com isso eu concordo, mas, se eu en­tendi, você deixou claro que pode existir uma relação inversa, que me daria a en­tender que, se uma grávida não vomita, é porque não tem nada a “colocar para fora”. Dessa forma, poderíamos construir um modelo simplista e reducionista, no qual a emergência de uma sintomatologia criaria uma linha reta com a presença de distúrbios psicológicos. Isso me parece um exagero.

Aprumei-me na cadeira. Sempre respeitei as opiniões de Nadine, mesmo quando não concordava com elas. Sua postura, além de ponderada e honesta, é de uma dignidade imbatível. Ela funcionava como um freio às minhas ilações demasiado etéreas e filosóficas, trazendo-me para o mundo real e cru, mas o fazia com a candura que só uma verdadeira amiga é capaz de oferecer. Sendo tão doce e maternal, porque ainda estaria sozinha? Essa resposta nem Max possuía. Conti­nuei minha explicação.

— Concluiu mal, minha flor. Eu não disse que ela não tinha nada para botar fora, nem pensei isso. É possível inclusive que elas não consigam botar para fora, o que é muito ruim. Ou é possível que elas não precisem desse sintoma, por exem­plo, se puderem falar das suas angústias com a vizinha, com o queixo apoiado no muro. Ou pode ser que ela tenha urticária, que também é uma forma de “botar para fora”, através da pele. Ou pode ser que elas chorem no meio da noite ou te­nham enxaquecas. Ou pode ser que gritem, mordam ou façam terapia, etc. Vomi­tar é apenas uma das maneiras de reagir, na miríade de alternativas que a vida nos apresenta, e é apenas uma das mais facilmente utilizadas pelas grávidas, em função do estado hormonal alterado.

Maximilian ergue a taça e brinda.

— Bebo — diz ele — mas faço isso por amor à humanidade. Poderia estar sóbrio e atrapalhar a conversa de vocês, o que seria uma lástima.

Momentaneamente perdoo seus exageros etílicos. Lembrei-o de uma frase sua, quando juntos estávamos na residência: “O sintoma, muitas vezes, é o espelho do desejo embotado”, me disse, enquanto tomávamos cerveja preta em uma viela escura e soturna próxima ao hospital universitário.

— Além disso — retomou Nadine — o mal-estar provocado pela náusea não de­termina reflexões positivas, apenas desconforto. Que benefício psicológico poderia surgir disso? Que acréscimo de valor eu poderia trazer à minha vida por ter vomi­tado até virar o estômago do avesso?

Seu rosto se contorceu. Nadine sempre sofrera de transtornos pré-menstruais in­tensos, que incluíam cólicas uterinas, náuseas e vômitos insuportáveis. Nesse aspecto, ela carregava uma vantagem irretorquível. Sua careta era uma memória mímica de momentos de mal-estar.

— Nadine — disse eu — concordo com você, porém acredito que o sintoma pro­duz, sim, uma possibilidade de reflexão e reavaliação. Pouca coisa na vida produz mais resultados no sentido criativo do que o mal-estar, a dor, a perda e o sofri­mento. Nossa angústia surgiu quando diabolicamente nos separamos da unidade primitiva, e iniciamos nossa jornada em busca da recuperação do idílio perdido. Isso se deu através de uma dor, que criou o mundo como o conhecemos. Essa angústia de separação é a mãe de toda a ciência e todo o conhecimento. E de todo o horror.

Uma risada e um franzir de sobrancelhas de Maximilian. Ele repete mais uma de suas indefectíveis frases de efeito: “O gozo se goza, mas o sofrimento é que constrói”. O garçom se aproxima, e eu faço um gesto negativo com o indicador, dando a entender que Max já havia ultrapassado sua cota.

— Sigmund Freud — continuei eu — escreveu um texto chamado “O Mal-Estar na Civilização”, em que analisa a força repressiva do projeto civilizatório e as suas repercussões no proceder social. Ali ele tece sua análise da construção de uma cultura baseada na repressão e o que significa essa obliteração do desejo para cada um de nós. Uma de nossas ferramentas para lidar com a energia acumulada pela negação à livre manifestação do Id é o sintoma, que nos auxilia a desafogar essa pressão interna.

— O mal-estar é o gérmen da criatividade — disse Max, depois de sorver o último gole de cerveja.

Estaria “alto”, ou apenas fingindo uma bebedeira, para assim fugir à responsabili­dade dos seus atos? A primeira opção me pareceu mais verdadeira, principal­mente depois que ele se ergueu da cadeira do bar, caminhou alguns passos, olhou para trás apontando o indicador para os céus e finalmente disse:

— Ric, você não terá feito nada de importante na vida enquanto não tiver o direito de se comportar como um menino de nove anos.

— Posso contar uma história? — perguntei para Nadine, que ainda sorria da cri­ancice de Max. — Talvez ela possa explicar o que quero dizer.

Nadine balançou a cabeça afirmativamente. Cruzei as pernas e repousei as mãos entrelaçadas sobre os joelhos.

*   *   *

Groddeck, psicanalista contemporâneo de Freud, dizia que toda a sintomatologia carrega consigo uma simbologia recôndita. Algo “escrito por detrás do véu que encobre o que é meramente manifesto”, como nos diz Maximilian. Aquilo que liga o sintoma ao seu sentido último, que quase sempre é invisível ao olho desavisado.

Pois uma vez eu estava de plantão na maternidade e me pediram para atender uma paciente que estava na internação obstétrica do hospital onde eu trabalhava. Era uma paciente com 20 semanas de gravidez e que aparentava ser muito jo­vem. Estava com vômitos incoercíveis. Sempre tive uma dúvida e uma questão pessoal com esse sintoma. Como eu já disse, Nadine, a gente aprende na facul­dade que elas vomitam porque estão cheias de hormônios ditos “eméticos”, tipo estrogênio, progesterona, HPL, etc. Mas isso não me parecia suficiente. “Por que umas têm e outras não, já que todas estão cheias de hormônio?”, perguntava eu, o aluno chato. Diziam-me que cada uma tem a sua sensibilidade e etc. Isso eu já sabia. Mas será que o vômito não era um sintoma de algo mais profundo, emocio­nal, psicológico? Lembrei-me de uma amiga minha que odiava o marido, e algum tempo antes de se separar este lhe implorou que fizessem amor. Ela aquiesceu por medo da reação do marido, mas tamanha era a repulsa que sentia por ele que logo após terminar o ato, ela… vomitou. Imaginei que o vômito dessa grávida po­deria conter o mesmo tipo de mensagem. Quem sabe? Mas deixem que eu lhes conte a história…

Entrei no pequeno quarto do hospital militar. Era uma manhã fria na cidade. Lá estava ela, envolta num cobertor. Emagrecida, com olheiras e com o indefectível soro fisiológico, que era a sua ligação simbólica com o hospital, com o sistema, como bem pontuou Robbie Davis-Floyd em Birth as na American Rite of Passage. Olhou-me sem pressa. Seu olhar era de medo, de cansaço. Seu nome era, diga­mos, Beatriz.

— Oi — disse eu. — Sou o médico que vai atendê-la.

— Oi, doutor — respondeu ela.

Sua voz era sussurrada. Parecia fraquinha, débil. Não comia quase nada, e o pouco que conseguia era devolvido. Havia emagrecido muito desde o início da gravidez. Pedi licença e levantei o cobertor. Lá estava a barriguinha, saltando para fora do abdome encovado. “Engoliu um caroço de abacate”, diria a minha avó. Que será que faz essa mulher vomitar? Por que ela rejeita comida?

— Por que isso, Beatriz? Por que você está vomitando? — indaguei de supetão.

Às vezes entro “de sola”, para produzir um reboliço. Fazer uma pergunta dessas é um risco, porque a paciente pode não entender, pode achar que eu a estou cul­pando de algo. Tentei contornar isso com um olhar benevolente. Talvez eu pu­desse mobilizá-la o suficiente para entender o que estava ocorrendo, e melhor, fazê-la entender. Poderia ser, imaginei eu, que, se ela pudesse entender onde estava encravado esse sintoma, o que ele representava e que lugar ocupava, não precisasse mais dele.

— Como assim, doutor? “Por quê?” Se eu soubesse não estaria aqui.

Sua postura foi, como previa, de defesa. Ok, plano dois: fazê-la entender que o que ela tem é mais do que aparece.

— Bem, eu acho que você sabe. Você está vomitando muito. Não está se nutrindo adequadamente. Ficamos preocupados e a internamos.

A mim parecia existir alguma coisa que a estava atrapalhando e ela tentava colo­car para fora. Fazia o melhor que podia: vomitava sem parar. Mas será que essa seria a única saída?

— Doutor… Não consigo parar de vomitar. Não é culpa minha. Gostaria de parar, mas não consigo. Nada para lá dentro. Até água.

— Mas… o que você quer dizer com isso? — indaguei, depois de um silêncio pro­posital.

Ela ficou em silêncio. Parecia não entender o que eu queria.

Ok… sequência do plano dois. O que vem a seguir mesmo? Ah, lembrei. Resolvi fazer-lhe perguntas banais. Nome, idade, endereço, estado civil. Profissão, tele­fone, blá, blá, blá. Perguntei então da história obstétrica. Início menstrual, início das relações sexuais. Anticoncepcionais prévios à gestação.

— Este é o primeiro filho?

— Sim — aquiesceu ela.

— Primeira gravidez? — emendei.

Silêncio. Uns instantes mais me olhando. Parecia querer saber o que estava co­lado na minha retina. Olhou no fundo do meu olho procurando algo. Uma confi­ança? Um gancho para pendurar um segredo?

— Sim — respondeu em um quase sussurro. Seu olhar para baixo mostrava que eu estava próximo de um ponto importante.

— Primeira gravidez? — repeti. — Você teve algum aborto anterior a esta gesta­ção?

Seus olhos marejaram. Tremeram-lhe os lábios. A boca lentamente se contorceu e as lágrimas correram pela face emagrecida. Uma dor surda a tomava. As mãos uniram-se ao peito. Mostravam que ali residia encravada uma mácula, um machu­cado, uma ferida espinhosa.

— Quer falar sobre isso, Beatriz?

Ela continuava chorando baixinho. Aprendi com Robbie que a maior ajuda que podemos dar a quem sofre é permitir que ela conte a sua história, sem interromper ou julgar. Essa história muitas vezes inicia-se com a transposição da pessoa para um momento no passado de muita dor, e essa dor vem à tona através das lágri­mas, tristeza e melancolia. Não se deve interromper; tem que fluir. Chorou mais um pouquinho, e depois de se acalmar falou o que ocorria.

— Não é a minha primeira gravidez, doutor. Ninguém sabe disso. Eu fiz um aborto no passado. Tinha um namorado e era muito jovem. Não podia ter essa criança. Eu me culpo muito por isso, meu marido não sabe de nada. Ele é um homem reli­gioso, jamais entenderia. Ele acha isso um crime. Desculpe…

Mais lágrimas. Dava pra se ver o que ela guardava dentro de si, e que doía tanto. Ela tentava se livrar da dor, da vergonha. Queria jogar longe um passado que a maltratava.

— Ok, minha flor. Posso claramente entender a sua dor. Mas tente entender as alternativas que você mesma cria para se harmonizar. Você pode continuar vomi­tando, e eu posso continuar dando soro e antieméticos. Mas não seria mais inte­ressante tirar esse peso do seu peito? Não seria possível tirar essa mágoa, esse espinho que você carrega?

— Mas como tirar isso, doutor?

— Talvez se você contar a ele, não precise mais vomitar. Não sei se você conse­gue, pois posso imaginar como isso é difícil e dolorido. Mas me sentiria um pés­simo médico se não lhe oferecesse essa alternativa. Você saberá o que fazer.

Ela baixou os olhos e ficou em silêncio. Não insisti. Sabia o peso daquela decisão. Saí do quarto e prescrevi a drogalhada de rotina. Antes lhe dei algumas orienta­ções gerais, bati um papinho e terminei com um sorriso.

Muitas vezes, a função de um médico é apenas permitir que nosso olhar seja um regato no qual possam desaguar dores profundamente escondidas. Somos, em muitas ocasiões, aqueles que podem diminuir a pressão que um segredo, uma mágoa ou uma saudade produzem no peito de quem sofre. Talvez essa seja mesmo a essência da arte médica, mas que acabou perdida nos labirintos lucrati­vos da tecnocracia. Poucas vezes, escutei durante a minha formação médica a respeito das possibilidades terapêuticas incríveis produzidas pelo silêncio respei­toso. Apenas Max me falou sobre isso, mas quando eu já estava fora dos bancos universitários.

Lembrei-me de uma cena acontecida em um hospital da cidade alguns meses antes. Uma enfermeira que trabalhava no centro obstétrico de um hospital privado me disse que estava vomitando sem parar desde o início da gravidez. Estava igualmente sem saber o que fazer. Essa enfermeira era extremamente suave e carinhosa, mas o hospital em que trabalhava era um dos piores exemplos de tec­nocracia, frieza e insensibilidade no trato com as gestantes. Ela me comentava isso com frequência, e sei o quanto isso a fazia sofrer. Diante das suas queixas, resolvi lhe perguntar:

— Lu, o que você está vomitando?

— Vomito qualquer coisa que coma — respondeu ela.

Olhei para ela com um olhar firme e decidido e repeti:

— Lu, o que você está realmente vomitando?

Ela paralisou seus belos olhos verdes no meu rosto e ficou em silêncio. Voltou seus olhos para baixo, e lançou-me um tímido sorriso. Deu meia volta e foi termi­nar suas atividades. Alguns meses depois, soube que ela havia tido seu filho de parto normal, e depois abandonou o hospital para se dedicar ao ensino de novas enfermeiras. Beatriz também possuía uma dor que a fazia vomitar, tentando com isso expulsar o que tanto a angustiava.

Na maioria das vezes, nos deixamos seduzir pelo brilho falso das modificações fugazes que as intervenções drogais ou autoritárias costumam produzir nos do­entes. Entretanto, algumas raras vezes, o médico pode se tornar o catalisador de transformações profundas e curativas se souber — e puder — tangenciar o núcleo afetivo que desequilibra a saúde de um paciente. Esse momento é sempre um grande acontecimento, porque muitas vezes o médico quer escutar, mas o paci­ente não está preparado para falar. Outras vezes, que eu penso serem a imensa maioria, os pacientes entregam ao médico uma “pérola”, em forma de sintomas ou histórias, mas este está despreparado para a escuta esclarecedora. A psicanálise nos afirma que “o que o paciente traz como sintoma é, em verdade, seu maior te­souro”, e esse adágio podemos comprovar na prática, nos relatos diários das infi­nitas histórias contadas. Quantas vezes a chave que desvenda o grande mistério de uma dor não estava ali, o tempo todo, escondida nas fissuras de um discurso dissimulador, mas pedindo para ser revelada?

No outro dia, voltei pela manhã ao hospital. Fui fazer a ronda dos pacientes inter­nados. Peguei a pasta de Beatriz e vi as letrinhas rabiscadas “C-A-J”. Cada uma delas com um risquinho vermelho. CAJ… Café, Almoço e Janta… Rabiscados! Então ela comeu!

Entrei no quarto de Beatriz e a encontrei vestida, sentada na cama. Estava com outro olhar. Sorriu timidamente quando entrei. Ao seu lado, o marido. Tinha um olhar duro, sóbrio, mas benevolente. Cumprimentou-me com um sorriso seco. A malinha pequena e simples estava ao lado da cama. Beatriz estava com um dis­creto batom vermelho, os cabelos molhados e um brilho no olhar. Olhou-me com um sorriso tímido, e disse:

— Acho que não preciso mais ficar no hospital, doutor.

Seu sorriso denunciava. Não precisei perguntar nada, apenas sorri para ela em cumplicidade velada. Nossos olhares se cruzaram mais uma vez e selaram aquele segredo.

— Podem me tirar esse soro? — disse ela, ainda sorrindo

— Claro, claro, Beatriz.

Saí da sala feliz, radiante. Ela disse! Ela teve coragem! Que mulher! A vida de um obstetra também tem esses dias legais.

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Armadilhas

Acho que é essencial esclarecer que os conceitos de “direita” e “esquerda” nada tem a ver com moral, costumes, sexualidade, aborto, feminismo, drogas, combate à criminalidade etc. Sua origem está no parlamento francês na época da Revolução Francesa, onde os jacobinos – exaltados e radicais representantes dos pequeno-burgueses – sentavam-se à esquerda enquanto os girondinos – considerados mais moderados e conciliadores, representantes interesses comerciais e a visão de mundo da burguesia ilustrada, que oscilava entre a monarquia constitucional e a república – sentavam-se à direita. Os conceitos clássicos de esquerda e direita tem a ver com o tamanho do estado e o foco que se dá ao proletariado e à burguesia no conflito de classes. Também se relaciona com o valor da propriedade e as questões que envolvem o valor do indivíduo e sua inserção nas forças produtivas de uma determinada sociedade.

A partir desse entendimento, é plenamente possível a um direitista ser um ferrenho defensor da liberação e descriminalização do aborto. Aliás, é o que os liberais pregavam: cada sujeito é dono do seu corpo e do seu destino. O mesmo pode ocorrer com a liberação das drogas, tratada como uma decisão pessoal que só diz respeito à quem usa. Da mesma forma nada impede a um comunista ser contra a liberação do aborto por questões pessoais e religiosas, até porque as crenças de cada sujeito em nada impedem alguém de adotar o socialismo como ideário de lutas.

Essa confusão ocorre apenas porque se criou a ideia de que as formas de organização social e econômica devem se misturar com posições religiosas, sexuais e de costumes. Esta confusão não foi natural; ela foi induzida pelos capitalistas americanos para dividir a consciência nacional entre republicanos e democratas. De um lado os conservadores “wasp” (anglo saxão branco protestante) no “Bible Belt” (cinturão da Bíblia)do meio-oeste americano, religiosos e anti-gays, contra a liberação das drogas, contrários ao aborto, etc. Do outro lado feministas, pró-escolha (pro choice), negros, gays, trans, usuários de maconha, universitários, professores, etc.

Nessa configuração as elites americanas retiraram do campo simbólico de disputas os debates relativos à saúde universal, brutalidade policial, moradia, pobres, moradores de rua, epidemia de narcóticos, despesas militares e passariam a ditar a narrativa, estimulando o debate sobre pronomes neutros, censura, ataques às piadas machistas, representatividade negra, feminina, trans, etc. Seria a arena da moralidade e dos costumes.

Assim, todos concordariam com o “fim da história” de Francis Fukuyama, com a vitória definitiva do capitalismo, a livre iniciativa, o imperialismo, a invasão de outros países, as classes sociais, a meritocracia, o militarismo, os golpes, os ataques por procuração, o massacre dos palestinos etc, mas teríamos um espaço enorme para debater se um professor deve ser expulso da escola por chamar uma aluna trans pelo nome que consta na chamada.

O mesmo ocorre desde sempre no Brasil. A direita historicamente procura as pautas morais no sentido de criar pânico na população. Desde o “mar de lama” de Getúlio, o apartamento de Juscelino, “Lula é abortista“, “Lula vai fechar igrejas“, “o PT é ladrão”, “mamadeira de piroca“, “ideologia de gênero nas escolas“, “kit gay” e agora o “banheiro unissex“. Essas são pautas plantadas no debate nacional como manobra diversionista, para que não se discuta financiamento do SUS, salário mínimo, suporte às universidades públicas, ensino de qualidade, salário de professores, fomento do pequeno produtor, política de preservação ambiental, papel das Forças Armadas, reforma tributária, reforma política e do judiciário, desindustrialização, BRICS e controle público das mídias, entre tantas outras questões essenciais para o país.

Enquanto a extrema direita mais reacionária se afasta dos temas realmente relevantes, ela insiste em empurrar o debate para a arena que escolhe – e nós frequentemente caímos nessa armadilha. Não é por acaso que sempre ao se aproximarem as eleições surgem os assuntos e as “fake news” relacionadas ao “satanismo” de pessoas da esquerda, o tema do fechamento (ou tributação) das igrejas, dos direitos das pessoas trans, do casamento gay, dos costumes “depravados” nas universidades, de Nossa Senhora, de Jesus na goiabeira, etc.

É tempo de educar as pessoas, em especial do campo progressista, que o socialismo não é uma doutrina que se importa com o rabo de qualquer um de nós, mas um modelo de sociedade pautado na colaboração, na solidariedade e na definitiva eliminação das classes sociais que nos dividem.

Chega dessa p*rra de moralismo f*did* do caralh*.

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Roe vs Wade

Foto: Lorie Shaull / Wikimedia. Norma McCorvey é a da esquerda ao lado de sua advogada Gloria Allred

A Suprema Corte americana derrubou nesta última sexta-feira (24 de junho) a sua própria decisão de 1973 sobre o tema do aborto – tomada no ápice das manifestações americanas por direitos humanos e contrárias à guerra do Vietnã – que ficou conhecida como “Roe versus Wade”.

O nome “Roe vs Wade” surgiu em um caso famoso nos Estados Unidos protagonizado por uma mulher solteira chamada Norma McCorvey que, insurgindo-se contra uma lei do Texas que considerava o aborto ilegal, processou os Estados Unidos exigindo que os princípios de autonomia e inviolabilidade do seu corpo fossem garantidos para que pudesse realizar uma interrupção legal da sua gestação. Para garantir sua privacidade em um julgamento que envolvia a questão delicada do aborto, ela foi chamada de “Jane Roe”. No final, este julgamento histórico da Suprema Corte derrubou a constitucionalidade da lei do Estado do Texas que considerava o aborto um ato criminoso. O promotor público do caso se chamava Henry Wade, e por esta razão o caso se tornou mundialmente conhecido como “Roe vs Wade”.

* É bom lembrar que o caso foi julgado 3 anos depois da queixa, quando ela já havia ganhado seu filho e dado para adoção. Mais um exemplo de justiças que falham por tardar *

Estranhamente, Norma McCorvey aderiu ao movimento anti-aborto americano em 1995, tendo sido “convertida” por um pastor de sua cidade. Seu arrependimento foi expresso no livro “Won by Love” (Vencida pelo Amor), mas depois descobriu-se que ela foi paga pelos conservadores americanos dos movimentos “pró-vida”, tendo sido sustentada por eles até o fim de sua vida. “O ex-líder da Operação Resgate Rob Shenck, que mais tarde renunciou ao movimento antiaborto, disse aos jornalistas que eles temiam que ela pudesse desertar, então foi paga para permanecer do lado deles. Quando apareceu o depoimento de McCorvey sobre ser paga, Flip Benham, o pastor que a batizou na piscina, afirmou sem qualquer sinal de arrependimento: “Sim, mas ela escolheu ser usada. Isso se chama trabalho, é isso que você é pago para fazer”.

Foto: Washington Post

Esta decisão da suprema corte garantiu em todo o território americano o direito ao aborto, baseado nas ideias liberais de autonomia e cidadania. Com a decisão do dia 24 não haverá uma proibição ou criminalização imediata dos abortos, mas a decisão será garantida aos estados da federação, que por sua vez terão o poder de definir se garantem ou proíbem aos seus cidadãos esse tipo de procedimento. O temor dos grupos “pro-choice” (a favor da escolha soberana da mulher) é de que metade dos Estados americanos terão normas proibindo ou dificultando ao máximo a realização de abortos, em especial os estados do meio-oeste – o “Bible Belt” (cinturão da Bíblia) – mais conservadores, religiosos e ligados ao partido Republicano.

Diferente da Suprema Corte brasileira (o STF) a Suprema Corte dos EUA é composta por apenas 9 membros. No atual julgamento, seis deles votaram a favor da derrubada da decisão “Roe vs Wade”, enquanto outros 3 permaneceram ao lado do direito das mulheres de disporem livremente sobre seus corpos, inclusive para interromper gestações indesejadas. Os 3 ministros da suprema corte indicados por Donald Trump (Gorsuch, Kavanaugh e Barrett) votaram, como era de se esperar, a favor da derrubada da jurisprudência que garantia o direito ao aborto em nível nacional.

Aqui se pode estabelecer uma linha clara entre a decisão da suprema corte americana e os abusos do STF no que diz respeito à livre expressão, conforme determinado pela Constituição Federal. O fato é que os judiciários americano e brasileiros se tornaram órgãos legisladores. Por incompetência do legislativo de ambos os países, ou pelo furor que o poder desperta nesses personagens, o debate sai do parlamento e adentra as salas dos tribunais constitucionais. No caso do Brasil, pela fragilidade das instituições e pelo oportunismo político, permite-se que ministros – como o famigerado Alexandre de Moraes – use de seu poder para interpretar da sua maneira pessoal a Constituição Federal, inclusive indo de forma despudorada contra o que está explicito em seu texto. Assim, uma instância decisória não eleita tem mais poderes do que o executivo e o legislativo. A ditadura jurídica que se instala no Brasil é muito mais dramática e trágica do que o desastre do bolsonarismo, tendo em vista o fato de que podemos trocar o presidente em menos de 100 dias, mas o ministro – inobstante as agressões que fizer à Constituição – só poderá ser retirado em 2043 (dentro de 21 anos) quando for pego pela aposentadoria compulsória.

Suas atitudes impondo censura à imprensa do PCO e contra as críticas realizadas à sua atuação como ministro sequer merecem ser chamados de “censura”, pois que esta se aplica à ação prévia à publicação de uma notícia ou opinião que desagrade aos poderosos. Não, é pior do que isso: ele impede que a imprensa funcione dentro do preceito constitucional de livre e irrestrita expressão, o que configura uma ação ditatorial digna das ditaduras mais fechadas do mundo.

Um país que se pensa democrático jamais poderia tolerar que sua constituição fosse usada de forma arbitrária por juízes que, no caso de Alexandre de Moraes, só entrou para o STF após um golpe de estado claro e inquestionável, com a retirada da presidente Dilma e o surgimento da figura nefasta de Michel Temer, patrocinado pelos grupos mais reacionários e golpistas deste país.

Desta forma faz-se urgente uma reforma na Suprema Corte do Brasil, que limite os abusos de ministros e que diminua a poder desmedido que estes personagens tem nos destinos do país. Caso contrário, as eleições serão tão somente encenações patéticas para ludibriar o povo, que continuará governado por um judiciário venal, acovardado, anti democrático e ditatorial.

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Parto é Pauta

Em uma reunião político-partidária na qual estive envolvido há alguns meses escolhi fazer parte do grupo temático que debateria as questões das mulheres. Minha experiência de quase 40 anos escutando suas queixas, sonhos e alegrias (acreditava eu) poderia ser útil para o debate. Por certo que acabei chamando a atenção por ser o único homem em um círculo composto por duas dezenas de mulheres de várias partes do Brasil, de diferentes etnias e de distintas classes sociais. Mas, como acho que todos temos o direito de cultivar e expor nossas perspectivas sobre qualquer problema social, permaneci sentado aguardando humildemente a oportunidade de me manifestar. Eu temia o que estava para ocorrer, e por isso mesmo estava preparado para desafiar o padrão dos debates. A coordenadora listou, como sugestão, que fossem debatidos três temas essenciais, os quais eu já sabia de antemão que estariam presentes.

1. Trabalho doméstico
2. Descriminalização do aborto
3. Violência contra a mulher

Fácil adivinhar, não? Estes são os três temas mais comuns em todos os debates feministas, e não há como negar sua importância ou relevância. O trabalho doméstico é um ponto nevrálgico da sociedade capitalista ao manter a mulher atrelada a uma rotina de trabalho estafante e não remunerado, condenando-a à dependência econômica e/ou à tripla jornada, sacrificando sua saúde e seu lazer. O debate sobre a dinâmica desse labor é essencial para a emancipação da mulher, a qual jamais ocorrerá sem a conquista de sua independência financeira.

Já o aborto é uma questão de saúde pública mas, anterior a isso, está o direito das mulheres de disporem livremente sobre seus corpos e seus destinos. É, portanto, um tema relacionado aos mais básicos direitos humanos reprodutivos e sexuais, pois tem repercussão na saúde e na proteção das mulheres. A luta pelo aborto livre e seguro não pode faltar em nenhum debate que se proponha a proteger socialmente as mulheres e seus filhos.

Por último, a violência doméstica contra a mulher. Triste perceber que esta drama social teve um aumento de significativo durante a tragédia social dos governos Temer/Bolsonaro, mas também em função da pandemia e da crise que a antecedeu. Durante todo ano de 2020, 1.350 mulheres foram vítimas de feminicídio, número 0,7% maior que no ano anterior. O número de chamadas por violência doméstica para o 190 (Polícia Militar) subiu 16,3% e chegou a 694.131 no ano passado. Todavia, a única resposta que temos oferecido a este problema nos últimos anos tem o caráter punitivista da Lei Maria da Penha que jamais solucionou o problema da violência de gênero porque ataca apenas a ponta do iceberg: o resultado social das frustrações acumuladas transformadas em violência. Como todas as ações que apontam para a punição, esta é mais uma medida de resultados pífios; a causa, como sabemos, é a perversidade do capitalismo, porém nos parece mais fácil encarcerar pretos e pobres do que sanar nossa ferida social crônica da iniquidade e da opressão. Finda a apresentação eu sabia que a mesma lacuna desses grupos se repetiria e, por isso mesmo, pedi a palavra em primeiro lugar para que as pessoas que se manifestassem depois de mim pudessem pautar suas falas com o que eu tinha para lhes dizer. Olhei para minhas colegas de causa socialista e disse:

“É provável que a maioria de vocês nunca passe por um aborto. Algumas, espero, nunca serão vítimas de violência de gênero, ao menos por aquelas agressões mais grosseiras. Algumas de vocês talvez tenham companheiros dispostos a dividir tarefas no lar. Entretanto, TODAS vocês estarão marcadas pelo parto, sem exceção. Sim, porque se não tiveram a oportunidade de parir, ou sequer desejam passar por esta experiência, certamente chegaram a este mundo através de um parto. Não é exagero dizer que o nascimento é um dos eventos mais marcantes na vida de homens e mulheres e nele podemos ver claras as marcas do capitalismo e do patriarcado, momento em que seus valores serão impostos e reforçados.

O nascimento de uma criança é o momento onde mais ocorre violência contra a mulher, que vai se manifestar na visão diminutiva e defectiva sobre ela, nas práticas desnecessárias, nos procedimentos anacrônicos, na perda dos seus direitos, no silenciamento da sua voz e na visão depreciativa que a sociedade lança sobre suas capacidades de gestar, parir e maternar com segurança.

Não haverá nenhum avanço nas lutas das mulheres sem que o parto e o nascimento livres tenham um lugar de destaque nas lutas pela dignificação feminina. É preciso que a esquerda se dê conta da importância do parto no discurso de emancipação das mulheres. Como dizia Máximo Gorky “só as mães podem pensar no futuro, porque dão a luz à ele em suas crianças”, mas, digo eu, elas também vão parir e educar os reacionários, e por isso estas mulheres precisam encontrar no parto o momento de revolução de sua autoimagem, tornando clara sua nova trilha de autonomia, valor, coragem e liberdade – na direção do socialismo”.

Surpreendentemente todas as mulheres presentes concordaram que esse deveria ser um tópico que não poderia faltar, e muitas deixaram em suas falas depoimentos pessoais de maus tratos obstétricos, inclusive citando a epidemia de cesarianas como um aspecto dessa violência, que se mascara como cuidado tecnológico, limpo e asséptico, mas que, em verdade, é dominado por uma perspectiva autoritária e alienante, tornando as mulheres prisioneiras de uma lógica intervencionista e despersonalizante. Mais tarde o trabalho do grupo temático foi lido na plenária e fiquei muito orgulhoso de ver a violência obstétrica levada a todos os congressistas como um tema que não deve jamais ser esquecido – como historicamente o foi – nas pautas de luta das mulheres. Por fim, mesmo que ainda testemunhemos violência e abusos na atenção ao parto, não há porque naufragarmos no mar do pessimismo, pois sempre haverá motivos para manter a esperança.

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Três pontos sobre espiritismo e aborto

Coloco aqui três pontos simples que explicam as razões pelas quais ser espírita não invalida um posição favorável à descriminalização do aborto:

1- É possível ser espírita e ser também a favor da legalização do aborto por razões de saúde pública. Não há mais como aceitar mulheres morrendo porque o aborto é criminalizado e estigmatizado. Chega. Ninguém é “a favor do aborto”, mas muitos consideram que esta ação está dentro das opções que uma mulher pode fazer sobre seu próprio corpo.

2- Espiritismo, como sempre afirmou Kardec, não é uma religião e nunca pretendeu sê-lo. A “religião espírita” é uma construção que ganhou estímulo – em especial no Brasil – fruto do sincretismo religioso com o cristianismo, o qual foi um legado deixado pelo próprio Kardec.

3- Espiritismo fala de leis naturais, e não há nada de sobrenatural em seus postulados. Qualquer extrapolação moral está inserida em seu tempo e tem valor limitado. Reencarnação, comunicabilidade entre planos e sobrevivência da alma não são pautas morais. A descriminalização do aborto é uma escolha pela vida. Ponto.

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À Esquerda

Estas são as “acusações” que a direita faz à esquerda: aborto, drogas e soltura de presos…….. mas qual a dúvida de que estas são três pautas que devemos MESMO apoiar?

A descriminalização do aborto é uma pauta de URGÊNCIA para salvar vidas de mulheres (pobres, claro) que recorrem aos abortos clandestinos, arriscando suas vidas. Sabemos como as mulheres ricas têm acesso a clínicas caras e sofisticadas, mas esta é a razão pela qual os abortos na parcela menos favorecida da sociedade são um grave problema de saúde pública.

O garantismo e o desencarceramento da mesma forma, pois prender jovens (negros e pobres, que surpresa) de NADA adianta e não diminuiu em nenhum lugar do mundo as taxas de criminalidade. Prisões são lugares infectos e fábricas de criminalidade. Abolicionismo penal é uma necessidade social e um avanço civilizatório. Abrir as prisões – e só manter lá quem atenta contra vidas – é um passo fundamental para produzir avanço social e justiça.

Por último, o que dizer da descriminalização das drogas??? E não precisa sequer ser comunista como eu para se entusiasmar, basta ser capitalista como os americanos, onde maconha não é crime e se tornou negócio rentável. Essa é uma atitude simples para acabar com a mortandade de jovens nas periferias, e não tem nada a ver com a esquerda, mas com direitos humanos básicos – uma pauta bem liberal.

Liberação das drogas, sim;
Abolicionismo penal, por certo e
Aborto livre pelo SUS…. mas é claro que os moralistas, os anacrônicos e os fascistas não estão prontos para esta conversa.

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Duas vidas

“Ahhh, mas são duas vidas, e cabe proteger ambas. Para evitar basta se cuidar”.

Não é simples assim no mundo concreto. Vai depender do seu conceito de aborto e da época da gravidez em que ele foi realizado. No mais, é por haver vida – mesmo em potencialidade – que sou contra o aborto; prefiro preservá-la sempre. Porém, todas as vidas, e encarando sua manifestação concreta. Portanto, a realidade é outra, diferente das visões idealistas. No mundo real as mulheres vão acabar procurando métodos ilegais – portanto, perigosos – para interromper as gestações e vão correr sérios riscos; muitas delas vão terminar morrendo no auge da sua juventude.

Ser a favor da descriminalização do aborto e permitir que seja incorporado pelo sistema de saúde significa encarar o mundo como ele é, sem visões idealistas e aprendendo com as experiências REAIS de sua aplicação. As mortes evitáveis de mulheres em abortos clandestinos não nos permitem mais perder tempo debatendo aspectos metafísicos da vida e seu valor; é preciso agir com a ideia de “menor dano”, tirando milhares de mulheres do destino terrível da morte por abortos insalubres.

Em todos os países onde o aborto seguro foi instituído pelo sistema público houve diminuição da mortalidade materna e são essas vidas de mães e mulheres que nos cabe proteger, acima de qualquer outra consideração. Isso não invalida a ideia de manter e incentivar a educação de meninos e meninas sobre a anticoncepção e gestação conscientes, mas sim interromper o massacre sobre mulheres pobres que se submetem a métodos cruéis de interrupção da gravidez. Aceitar a realidade acima de nossas crenças e ideais é um passo importante para produzir uma sociedade de paz, onde as gestações sejam uma benção e não um peso ou uma sentença de morte.

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Corporação

Sobre brigas na corporação…

Uma coisa sempre me chamou a atenção no comportamento dos médicos: nunca encontrei neles qualquer superioridade (ou inferioridade) moral ou intelectual quando comparados a qualquer outra profissão, mesmo as mais “humildes”. Médicos são humanamente imperfeitos como qualquer sujeito.

Isso me marcou desde o tempo de faculdade quando vi famosos professores da minha área fazendo fofocas mordazes para grupinhos de residentes atacando seus colegas de cátedra. Eu pensava: “mas… a vida na Academia é assim mesmo, como um recreio de escola?

Sim, sem tirar nem por. Esses personagens podem ser tão violentos e agressivos nas críticas quanto os piores políticos do baixo clero. Não havia nenhuma sofisticação neste grupo, o que foi um choque de realidade que agradeço por me alertar para a natureza humana. Entretanto, apesar de achar natural que haja lados e perspectivas distintas a defender, eu acho curioso esse ataque à legalização do aborto por parte de setores da corporação. Sério que existem facções na AMB, no CFM e até na FEBRASGO contrárias à legalização do aborto? Agora a moda é atacar candidatos por serem favoráveis ao aborto seguro, “lenientes” com a “invasão” das doulas e por reconhecerem a existência de violência obstétrica. Mesmo?

Pois vejamos; ser contra as doulas é uma bobagem. Elas já ganharam o jogo, estão presentes em todo os lugares. Legislações municipais e estaduais se multiplicam. Lutar contra elas é perda de tempo, e a atitude correta é essa mesma: adaptar-se a essa nova realidade, firmar parcerias, regulamentar e assimilar. As doulas representam um avanço com embasamento científico e aceitação popular, uma viagem que não tem volta. Quanto à violência obstétrica, o mesmo. Fingir que não existe é estupidez. Uma atitude sábia é reconhecer e, pelo menos, se comprometer em combatê-la. Negar é suicídio, tolice, burrice.

Ser a favor da descriminalização e posterior legalização do aborto não é uma questão moral, mas de saúde pública. Ponto. Os médicos deveriam estar na linha de frente da defesa desse DIREITO.

É triste ver como as organizações médicas frequentemente andam a reboque da história. Há alguns anos apoiaram descaradamente a candidatura de Aécio. Depois disso foram parceiros no golpe de 2016 e ainda agora associam-se ao bolsonarismo, assumem posturas anacrônicas como o combate à liberalização do aborto, a exaltação da Cloroquina, o desmonte do SUS e o apoio à um genocida na presidência. Não acredito que a saúde do Brasil pode se fortalecer sem a presença de médicos comprometidos com o oposto destas posturas, que alguns integrantes de relevância nas suas entidades abraçam. Por enquanto a medicina brasileira está tristemente parecida com o pior de sua política.

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Os limites da razão

Para os lacradores

Apesar de saudar o contraditório e as racionalidades explicitadas sobre a importância da liberação do aborto é fácil perceber que o aborto não será descriminalizado por uma súbita “lacração” de uma ativista. Não será através de um discurso, uma ideia, uma metáfora ou uma sacada genial. Não é assim que funciona em um mundo imerso no oceano das emoções e que mantém apenas o nariz de fora para, eventualmente, respirar o ar da razão.

Não foi preciso nenhum discurso que a homossexualidade foi descriminalizada – nos livros, ao menos – e nem por uma postagem brilhante, citando Freud ou Butler. Não foi por uma palestra maravilhosa na Academia que os livros pararam de exaltar a fórmula láctea. As ideias pavimentam o chão, mas são imóveis. Nossos pés é que produzem transformação e mudança.

Se a razão tivesse esse poder Lula estaria livre e a humanização do nascimento seria a regra em todos os hospitais. Não haveria violência de gênero e ninguém abusaria de drogas. Mas não somos governados pelo entendimento; somos presas de nossas emoções.

A solução passa necessariamente pela mobilização popular. É o que se fala de Lula, do aborto, da democracia e o que se tem como experiência sobre câmbios sociais profundos.

Nosso problema é de culinária: falta ainda “massa crítica“. Olhem para baixo, para o Chile e a Argentina, e entendam que essa é a única forma de avançar na questão do aborto.

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