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Ingenuidade

No dia 21 de maio 2024 aconteceu (mais uma) bela lapada em todos os tolos da esquerda liberal que acreditaram que o marreco de Maringá um dia seria punido. O ex-juiz Moro foi absolvido no TSE por 7 X 0.  A esperança ingênua de que fosse feito justiça por um órgão historicamente golpista é a marca registrada de uma esquerda que não aprende as lições, apesar da severidade dos acontecimentos. Nossa fé em figuras medíocres como Carmem ou Alexandre, sem falar nos nefastos Nunes e Mendonça do STF, é atestado de infantilidade política. A direita tem mesmo suas razões para reclamar do autoritarismo desses personagens, mesmo que por razões não democráticas.

Uma esquerda que serve de suporte acrítico às instituições burguesas – polícia, forças armadas, supremo – não mereceria sequer o nome de esquerda, pois é impossivel aceitar docilmente que a salvação da democracia brasileira pudesse vir dos representantes máximos da burguesia nacional. Acreditar nisso é o mesmo que exigir de um rebanho de ovelhas que apostem no bom coração e nos princípios dos lobos para escapar da carnificina. Antes de construir um movimento forte é necessário reconhecer seus inimigos. Como diria Sun Tzu “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.”

Respondam com sinceridade: se fosse Lula a sentar no banco dos réus no TSE, acham mesmo que a “prudência” seria utilizada para seu julgamento? Estariam os ministros tão aferrados à uma interpretação benigna das ações do ex-presidente? Lula foi preso por um apartamento que nunca foi seu!! Dilma foi defenestrada sem cometer qualquer crime. José Dirceu foi condenado sem provas, mas pela “literatura internacional”. Se necessário, o judiciário tira leis da cartola para condenar a esquerda – sem vergonha alguma para criar suas próprias leis, no melhor estilo ditatorial. A história recente dos julgamentos de personidades da esquerda mostra que a balança sempre pesa contra o povo e a favor dos representantes das elites financeiras e do poder burguês. Aceitar passivamente essas instituições é uma ingenuinade que não se pode admitir para partidos que pretendem mudar a história desse país.

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Geni

Sim, é verdade que encontraram a minuta do golpe no gabinete de Bolsonaro, com as explicações para a tomada violenta do poder por parte da direita raivosa e ligada aos interesses imperialistas. Isso parece ser suficientemente grave para reconhecer que Bolsonaro tinha interesse em golpear a frágil democracia brasileira ao lado de seus comparsas da caserna. E não apenas isso: as provas materiais contra Bolsonaro se avolumam, não deixando qualquer dúvida de que ele planejava se manter no poder por meios obscuros e até violentos. Entretanto, não resta dúvida que as redes de comunicação do Brasil – Globo, Record, SBT e Band – também já tinham preparados, nas gavetas de seus executivos, os seus editoriais para divulgar em rede nacional no dia posterior ao golpe. Neles veríamos as explicações para a adesão ao ataque contra a democracia e, mais uma vez, a justificativa seria a “defesa da democracia” contra os interesses “comunistas”, para combater a “ditadura do judiciário” e o “mar de lama” da corrupção do PT. Seriam implacáveis com o Partido dos Trabalhadores e a esquerda, colocariam Lula e Alexandre de Morais na prisão e criariam do ar um apartamento, um barquinho de lata ou uma ligação com o PCC para jogar o povo contra seu líder.

Portanto, o combate ao bolsonarismo, como se ele fosse a origem do mal e o grande risco à democracia, é de uma ingenuidade inaceitável. Antes mesmo de Bolsonaro, o STF deu mostras de ser um órgão corrompido e politicamente orientado, legislando (sim, criando leis em estilo livre) sempre que os seus interesses foram ameaçados. Foi assim no golpe de 64, no mensalão, no golpe contra Dilma e na prisão criminosa de Lula, bastando lembrar o voto de Rosa Weber pela prisão do ex-presidente, uma das maiores vergonhas do judiciário brasileiro de todos os tempos, que rivaliza com a frase da mesma ministra no seu voto no julgamento do Mensalão: “Não tenho prova cabal contra Dirceu – mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”.

Já Bolsonaro não passa de um idiota útil para a direita. Não existe nenhum intelectual conservador ou liberal que tenha respeito pelas suas capacidades de liderança ou pelas suas inexistentes qualidades morais ou intelectuais. Bolsonaro é a Geni da direita: desprezado, mal visto, desconsiderado, mas ao mesmo tempo popular e sedutor para uma parcela considerável da população, aquela que cai facilmente no discurso de força e de autoridade que viceja nas democracias liberais decadentes – vide França, Itália, Inglaterra, Polônia, Hungria. Isso atrai as massas deserdadas pelo capitalismo que adoram um ditador “mão forte”, vingativo, que represente o poder fálico do qual se ressentem, basta lembrar de Adolf e Benito. Mas bem o sabemos que Geni, da obra de Chico Buarque, não tinha poderes, apesar de ter sido incensada pelos poderosos e tratada como rainha quando foi necessária ao sistema. Na verdade ela era apenas o marionete de decote avantajado, manipulada pelos poderosos que estavam por trás de suas ações, os burgueses da cidade.

A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni…

Portanto, à esquerda não cabe a tarefa de se postar como mero contraponto ao bolsonarismo. Quando este personagem for finalmente soterrado, outro pateta útil será colocado em seu lugar, e aqueles que outrora o aplaudiam, que o exaltavam e se acercavam dele, vão tratá-lo como um lixo, uma excrescência, algo a ser esquecido e até amaldiçoado.

Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni

Já tivemos Joaquim Barbosa, Dalanhol e Moro ocupando esta posição, os quais, sejamos francos, seriam muito mais danosos ao povo brasileiro do que o ex-militar bunda suja. Eles têm a mesma vinculação com o imperialismo e com a burguesia brasileira, mas não possuem o carisma dos ídolos da direita como Orbán, Netanyahu, Trump, Bukelele, e o próprio Bolsonaro. E ao lado destes ícones do neofascismo sempre esteve a imprensa corporativa, do Brasil e do mundo, sem exceção, apoiando ações golpistas em nome de seus interesses. Aqui na aldeia ela esteve ao lado de Bolsonaro, pelo menos enquanto a tragédia do seu governo ainda podia ser sustentada. Como esquecer a “escolha difícil” do Estadão?

A solução para o Brasil é resistir à tentação de atacar Bolsonaro como se fosse a “origem de todo o mal”, mas educar o povo, mostrando que a solução será pela luta de classes, inobstante o espantalho que seja colocado pela burguesia para manter intocados seus poderes.

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Uma escolha difícil?

É lamentável ver a defesa que alguns fazem de Israel, em especial entre aqueles que se consideram de esquerda. Olham para a ação desesperada de alguns dias atrás de forma maximizada, como se não houvesse por trás dessa ação mais de 7 décadas de abusos, torturas e morte. Agem como o Estadão e sua “decisão difícil” ou a turma do “nem-nem”, que colocavam no mesmo patamar um político vagabundo é o maior estadista do Sul global. Tentam equiparar as reações dos palestinos aos crimes brutais a que são submetidos desde o Nakba.

Estas mesmas pessoas, há poucas décadas, estariam criticando os insurgentes do gueto de Varsóvia pela sua violência “injustificável” contra os nazistas, recomendando àqueles que se mantivessem impassíveis diante da morte certa que se aproximava de sua família e de si mesmos. E se houvesse qualquer reação, mesmo que fossem os gritos lancinantes ao ver a morte se aproximando, mesmo essa indignação seria censurada, pois que demonstra uma rebeldia que precisa ser calada.

A falta de empatia com milhões que sofrem, e a solidariedade com a dor ocasional dos invasores, é algo que não é possível entender, a não ser pela lavagem cerebral produzida pela propaganda sionista massiva, intensa e obliterante.

Nunca houve paz duradoura sem que os opressores fossem vencidos. Não haverá paz com a continuidade do apartheid de Israel, com o racismo, com as prisões arbitrárias, com as mortes à granel. Como dizia Nelson Mandela, “Sabemos muito bem que nossa liberdade é incompleta sem a liberdade dos palestinos”

Israel, pária internacional.

#BDS

FREE PALESTINE

https://fb.watch/nHCK20fBM2/?mibextid=Nif5oz

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O Rei e Eu

No musical de 1956 “O Rei e Eu” (baseado numa peça homônima da Broadway), com Yul Brynner e Deborah Kerr, uma professora inglesa é chamada ao reino do Sião (atual Tailândia) para ser a professora escolhida dos 82 filhos do Rei, oferecendo a eles uma educação europeia e refinada. Por certo que o filme inteiro explora a tensão sexual entre a figura máscula de Yul Brynner (o cara que provou ao mundo que é dos carecas que elas gostam mais) e a delicada e sofisticada professora britânica Deborah Kerr (… que o Gregory Peck). Por certo que o filme estava anunciando a revolução que aconteceria nas décadas vindouras, com a progressiva emancipação das mulheres e o choque inevitável destas com os arraigados valores patriarcais. Por outro lado também inclui, como um “cameo” ideológico, um debate político deveras interessante.

Em uma das partes mais dramáticas do filme a professora faz uma manifestação pública em defesa de um casal que, ao se apaixonar, resolveu fugir do palácio. Ambos foram pegos pela guarda do castelo assim que se preparavam para fugir; ele morreu na fuga e ela foi detida. Acontece que a moça era uma das esposas do Rei e esta fuga determinaria que ela deveria ser chicoteada por alta traição. A cena é explorada pelo viés imperialista, onde a “barbárie” dos asiáticos do Sião era contraposta pelos valores humanistas da professora inglesa que, em um emocionado discurso diante de membros da corte e de serviçais ela demandava que a menina fosse libertada.

O Rei teve um acesso de fúria diante das exigências da professora, em especial quando esta o chamou de “bárbaro”. Ela acreditava que seus argumentos seriam fortes e convincentes o suficiente para mudar a decisão inicial do Rei. Entretanto, ele respondeu rispidamente a ela:

– Sou ou não sou o Rei? Serei traído em meu próprio palácio aceitando ordens de uma professora? Sou Rei, como nasci para ser, e o Sião será governado como eu quiser!!

Na versão de “Anna and the King”, de 1999, com Jodie Foster, o debate entre Anna e o Rei do Sião é ainda mais esclarecedor sobre as amarras a que um mandatário está preso.

– O que pensa… o que faz e como… e quando o faz, não são a mesma coisa. Se acredita que desejo executar esta garota… Mas agora, porque diz a corte que pode dizer ao rei o que fazer, eu não posso intervir como planejava.
– lntervir? Depois de torturados?
– Sim! Mas você, uma mulher e estrangeira, fez parecer que o rei está sob seu comando. Você me fez parecer fraco. É impossível pedir para que eu intervenha sem me comprometer!
– Mas você é o rei…
– E para permanecer assim, não posso enfraquecer a habilidade de manter lealdade…

Neste momento, mais do que a razoabilidade do pedido da professora estava em questão a delicada rede de poderes que sustentam uma nação. Na perspectiva do Rei, mais importante do que a justiça era manter a autoridade sobre seu povo. Se ela fosse perdida, talvez haveria muito mais mortes. A atitude da professora, por mais justa que fosse, colocaria em risco a autoridade suprema do líder do país. Assim, sua demonstração pública deixava o soberano sem saída: se revogasse a pena seria visto por seus súditos como um monarca frágil e manipulável.

O mesmo sentimento eu tive quando vi a defesa daquele famoso humorista para que o presidente escolha uma mulher negra como próxima ministra para o supremo. Por mais razoável que seja esta demanda por parte das mulheres e dos negros, um presidente não pode se submeter a esse tipo de pressão, em especial através do deboche e do escárnio. Fosse eu o mandatário do país subiria numa mesa e gritaria:

– Sou ou não sou o presidente? Serei traído em meu próprio palácio aceitando ordens de um humorista? Sou presidente, recebi 60 milhões de votos, e a indicação ao Supremo será como eu quiser, e não pela pressão de um comediante identitário na caça por “likes”!!

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A Salvação do Capitalismo

Segundo minha perspectiva – e a de vários analistas – Lula é um Roosevelt brasileiro, guardadas as proporções. Sim, porque Lula é muito mais brilhante, preparado e inteligente do que o presidente americano. Apesar das diferenças, tanto para Franklin quanto para Luís Inácio coube a estupenda tarefa de salvar o moribundo capitalismo de seus países e lhes oferecer uma ilusória sobrevida. Franklin conseguiu adiar uma grande revolução por quase um século, mas não acho que Lula conseguirá o mesmo sucesso. As condições do capitalismo mundial não suportarão por mais tanto tempo.

Porém, os limites de Lula se situam nas fronteiras da democracia burguesa; ou seja: Lula se limita a jogar “dentro das 4 linhas”, como diria seu antecessor de má memória. É por essa paixão pela instauração de um “capitalismo com face humana” que liberais como Reinaldo Azevedo agora o aplaudem Lula com pleno entusiasmo, a ponto de afirmar que “Lula está salvando o capitalismo brasileiro, enquanto Bolsonaro trabalhava pelo seu extermínio”.

O problema, como sabemos, é que as democracias liberais capitalistas são insustentáveis em médio prazo. Com o tempo essas democracias burguesas reagem com violência aos avanços do poder popular. É um sistema criado para manter a artificialidade do poder burguês, que tem como característica a concentração crescente de riqueza (e de poder) na mão de poucos. Nossa história mostra que ela serve a uma classe, e quando essa classe se sente ameaçada ela manda às favas a própria democracia. Assim foi com Getúlio, em 1964, em 2016 e após a vitória de Lula. Há poucos meses, com a eleição de Lula, já havia um contingente considerável de brasileiros pedindo ditadura, para que os poderes ficassem intactos. O capital, nesse modelo realçado pelos liberais, é o “dono da bola”: será democracia quando me interessar, mas mando apagar a luz e levo a bola pra casa se meu time estiver perdendo.

O modelo de democracia vinculada ao poder econômico, que controla os processos de produção e os meios de comunicação acaba invariavelmente entrando em crise, tão logo os 99% de pessoas que são exploradas pela elite financeira começam a exigir seu quinhão no bolo da riqueza nacional. Desta forma, sustentar o poder burguês indefinidamente, é uma ilusão que ainda vai nos atormentar, e nem a figura brilhante de Lula vai conseguir mantê-lo vivo. Estamos na UTI do capitalismo, e nada poderá salvá-lo; nem o mais brilhante estadista do planeta.

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Filme antigo

Existe, entre tantos transtornos, uma clara vantagem em envelhecer: eu já era adulto quando Lula assumiu o governo em 2003, e lembro com exatidão a emoção daquele primeiro governo à esquerda e as expectativas criadas pela figura de Lula como seu mandatário. As críticas da esquerda de hoje à timidez das reformas esperadas são em quase tudo iguais àquelas de antanho. Entre meus amigos do campo progressista havia uma certa decepção que as vezes se expressava como revolta; todos queriam um Lula revolucionário, cheguevarista, colocando a máquina governamental para levar adiante nossos sonhos de equidade, justiça social, reforma agrária, reforma política, etc. e tudo que ele oferecia eram concessões ao centro e até à direita. Naquela época ele já nos sinalizava que não seria possível bater de frente contra as forças conservadoras do congresso, e de que não seria inteligente ou adequado e afrontar um parlamento explicitamente adverso.

Entendo o quanto isso pode parecer ruim para quem esperou longos seis anos para o retorno de um legítimo representante popular ao governo, depois da traição abjeta de Temer e o tempo da barbárie que significou o desgoverno bolsonarista. Também é estranho esse debate democrático no seio da própria esquerda para quem passou quatro anos assistindo um presidente tosco, ignorante e boquirroto como Bolsonaro a vomitar estultices e grosserias entre uma motociata e um discurso misógino e racista. A grande tarefa de Lula, neste aspecto, é resgatar o valor da Política, pois é exatamente isso o que Lula tenta fazer. Muitos desejam solapar o debate político em nome de uma nova ordem tecnocrática, excludente e autoritária, mas encontram em Lula um presidente que reconhece que a única forma que temos de apaziguar o país, dentro da nossa cambaleante democracia, é através do fortalecimento do embate de ideias, e não na sua supressão. Desta forma, Lula é um baluarte de defesa da própria de cidadania.

Apesar de entender as críticas – e concordar com quase todas – ainda confio mais na capacidade de Lula para desatar os nós e tecer a malha complexa dos acordos com os adversários. Este é o caminho mais seguro, dentro da democracia burguesa, para alcançar pequenos e consistentes avanços. Não podemos nos iludir que uma radicalização à esquerda – como desejamos – poderá surtir efeito positivo em um congresso que ainda herdou o clamor anti-político do lavajatismo e do seu filho, o bolsonarismo. Creio que, assim como há 20 anos passados, ainda devemos saudar o fato de que Lula é o maior gênio político da atualidade e o único capaz de recuperar o Brasil da barbárie que se abateu sobre o Brasil nos últimos 10 anos. Minha memória sinaliza que devemos dar o crédito que Lula necessita para fazer o que é possível dentro de um contexto mais adverso ainda do que aquele encontrado quando pela primeira vez exerceu este cargo.

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Boias de Salvação

O “welfare state” na Europa, assim como o keinesianismo nos Estados Unidos, foram as boias de salvação do capitalismo que naufragava. O modelo de bem-estar social europeu (saúde pública, aposentadoria, férias, proteção à infância, salário desemprego, licenças maternidade/paternidade, etc.) resguardou os capitalistas da insurgência popular após a II Guerra Mundial, enquanto o modelo de Keynes (investimento massivo do Estado na infraestrutura) salvou a economia capitalista americana depois da grande crise de 1929, oferecendo a ela um século de sobrevida.

Todavia, era evidente que o projeto viria a fracassar, mais cedo ou mais tarde; não haverá jamais reforma suficiente para salvar um sistema que nos divide em classes. Lula parece e ser um novo Roosevelt, cujo maior feito foi salvar o capitalismo de 90 anos atrás, mas eu duvido que o capitalismo “humanizado” de Lula – com 3 refeições ao dia para todos – seja capaz de salvar o projeto moribundo da sociedade de classes.

É tempo de abandonar o Reformismo e investir na consciência de classe do proletariado…

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Lula e o imperialismo

A chegada do Sergey Lavrov ao Brasil acendeu as sirenes de alerta da direita e daqueles comprometidos com a influência americana no “sul global”. Entretanto, sobraram também algumas críticas da esquerda às declarações “salomônicas” de Lula sobre a guerra na Ucrânia. A declaração de Lula de que “A decisão da guerra foi tomada por dois países” se insere em uma postura diplomática bem clara e evidente dos representantes brasileiros. Por certo que a Rússia, ao invadir a Ucrânia para salvar os russos étnicos do massacre programado no Donbass pelo Batalhão Azov, tem 1% da culpa nessa guerra (que já estava acontecendo há pelo menos oito anos, desde o Euromaidan, e contabilizando já inúmeras vítimas). Os outros 99% da culpa cabem à OTAN, a Zelensky e ao naziterrorismo ucraniano, em especial às milícias do Pravyi Sektor e do Azov. Todavia, mesmo que desgoste os mais afoitos, Lula tem plena razão em se colocar à equidistante nesse conflito. Sua posição de condenar a invasão da Ucrânia pelas tropas russas é protocolar: visa demonstrar sua filiação às normativas mestras da ONU, as quais condenam as invasões de espaço territorial de outros países. Sem essa postura da nossa diplomacia, como criticar as demais ações imperialistas – como as invasões atlantistas no Oriente Médio? Por outro lado, todas as suas atitudes posteriores estão alinhadas com os parceiros dos BRICS e a perspectiva da criação de um novo bloco, que detém 25% do PIB do planeta e 40% de sua população, o que significa um mercado gigantesco e uma perspectiva de crescimento inédita. Também a fala posterior, onde Lula questiona a supremacia do dólar, e mais ainda a eleição de Dilma Rousseff como presidente do banco dos BRICS, desempenham um importante passo no sentido dessa integração e um afastamento significativo dos interesses do FMI e do imperialismo.

Nada me orgulha e estimula mais em “Lula III – o Retorno” do que sua posição anti-imperialista. O apoio aos Brics, em especial às posições de Putin, é o melhor exemplo da postura de enfrentamento ao Império. A formação de um bloco independente da ação predatória do imperialismo nos países satélites passa pelo apoio ao presidente Putin, por mais que sejamos contrários a algumas de suas posições em território russo. A posição legítima e precípua de esquerda é pela autonomia dos países, algo contrário aos interesses da OTAN e dos Estados Unidos. Porém, é assombroso testemunhar que muitos ainda apoiam a posição ucraniana, mesmo à esquerda no espectro político. Ao comprarem a versão do “Putin malvadão” e da “Rússia expansionista” – duas peças descaradas de propaganda imperialista – não tiveram nenhum pudor em oferecer total apoio (ou virar o rosto para não ver) os nazistas da Ucrânia, o Pravyi Sektor, o Batalhão Azov, a exaltação do nazista e antissemita Stefan Bandera, o massacre dos russos étnicos no Donbass, os 14 mil mortos no conflito em Donetsk e Lugansk, o assassinato dos 42 ativistas e sindicalistas (muitos deles queimados vivos) em Odessa e as ameaças da utilização da Ucrânia como base de mísseis contra Moscou pelos nazistas que chegaram ao poder na Ucrânia após o golpe do Euromaidan. Quem, ainda hoje, consegue aceitar a posição da Ucrânia e da OTAN e condenar a ação russa de proteção de sua integridade territorial?

Mais ainda: enquanto aceitam como válidas as críticas contra Putin permitem que os maiores invasores do mundo – os Estados Unidos – venham a pregar “moral de cuecas”. Ver americanos acusando russos de “expansionistas” é mais do que ridículo; é produto de lavagem cerebral, um trabalho produzidos por décadas de invasão nos países do terceiro mundo, produzindo o conhecido “excepcionalismo americano”, que permite que este país realize exatamente o que critica e combate nos outros. Lula percebeu a russofobia que permeia esta guerra e também percebeu o quanto apostar no imperialismo seria contrário aos reais interesses do Brasil, no que diz respeito à sua industrialização, autonomia e na produção de um planeta multilateral. Na verdade, a posição de Lula é quase irretocável, algo característico da sua genialidade política. Acreditar no risco de invasões russas na região é ignorar que a Crimeia não foi anexada, ela votou pelo retorno à Rússia, com mais de 95% de votos favoráveis. A Rússia tão somente protegeu a vontade soberana do povo da Crimeia – uma região historicamente ligada à Rússia, e onde ocorreu a conhecida “Guerra da Crimeia” que envolveu a Rússia czarista contra uma coalisão de países europeus e o Império Otomano. Da mesma maneira, o povo do Donbass também votou de forma massiva, quase 90% de votos, em sua independência da Ucrânia, posteriormente transformada em reunificação com a Rússia.

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Leftismo

Acho curioso que, ao ser perguntado, sempre informo que sou um sujeito de esquerda. Mas isso acontece apenas quando estou no Brasil; se estivesse nos Estados Unidos eu jamais poderia sequer imaginar me associar aos movimentos da esquerda americana. Apesar de entender a dicotomia da política americana – onde um partido único de direita se separa em dois, sendo um chamado “right” e outro “left” – ainda acredito que não existe nada mais reacionário do que ser um “leftist” do partido liberal (democrata) de lá.

Nos Estados Unidos ficou muito evidente a aposta no “fim da história” preconizada por Francis Fukuyama. No ano de 1989, quando o mundo viu caírem os muros que separavam Berlim, o cientista político e economista americano Francis Fukuyama publicava seu famoso artigo com o provocativo nome de “O fim da história?” na revista The National Interest. Nele o economista antevia que a disseminação sem contraposição das democracias liberais e do capitalismo de mercado eram os sinais inequívocos de que estávamos dando um passo definitivo para o progresso econômico e cultural da humanidade, sendo o modelo disseminado pelo Império Americano aquele se seria o fim da nossa busca por um sistema global de justiça social. Três anos mais tarde, Fukuyama publicaria o livro “O fim da História e o Último Homem”, onde explorava com mais profundidade essas ideias.

Por esta razão, o bipartidarismo americano se assenta sobre essa premissa: nenhum dos partidos tem necessidade em debater a estrutura liberal da sociedade, pois se trata de um debate morto, solapado pelo tempo e pelo fracasso do socialismo real. Todavia, para manter a face enganosa de “duas propostas” políticas, dividem-se pelas questões de costumes como aborto, direitos para gays, negros, transexuais, imigrantes, etc. Para qualquer observador atento, fica claro que se trata da mesma proposta capitalista e imperialista que está presente no “ethos” de ambos partidos, o que se pode ver facilmente pela política externa, onde o imperialismo, o apoio a Israel, o incentivo à guerra e o controle do planeta com mãos de ferro são inequívocos pontos de confluência.

Aqui no Brasil é possível ver muitos reflexos do “leftismo” importado dos americanos no debate político contemporâneo. Partidos ditos de esquerda estão apostando muito mais do debate identitário do que no combate ao capitalismo, no imperialismo e suas mazelas. A exemplo do que ocorreu com o partido Democrata, parecem que apostam em pequenas reformas e na representatividade de setores ditos oprimidos para que a base da injustiça social não seja tangenciada. Aqui, suas pautas se expressam no identitarismo e no wokismo que, infelizmente, contaminaram setores significativos dos seus militantes. Para levar adiante suas propostas e sua visão de mundo não se envergonham de estabelecer contatos profundos e íntimos com instituições imperialistas e golpistas, como a CIA, USAID e NED. Os focos principais são as instituições em defesa das mulheres, do antirracismo, as que oferecem apoio à comunidade gay e aos transexuais, financiados pelas onipresentes “Fundação Ford”, “Gates Institute”, “Open Society” e aquelas ligadas aos irmãos Koch.

Se Lula não conseguir se livrar dessa armadilha o seu governo será inexoravelmente controlado pela esta direita mascarada de progressista, da mesma forma como estes grupos controlam o governo americano agora.

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Justiceiro

As prisões não precisam ser “colônias de férias”, por certo, mas igualmente não podem ser as masmorras medievais, imundas, superlotadas e desumanas que caracterizam o sistema prisional brasileiro. Inobstante os crimes que tenham cometido, todos os brasileiros – até os golpistas bolsonaristas – têm direito a um tratamento digno garantido pelo Estado. Não há desculpa pelo descaso com quem cumpre pena, e nada justifica que prisioneiros sejam tratados de forma humilhante. O Estado precisa dar o exemplo e não pode ser mais criminoso do que aqueles cidadãos que cometem delitos.

Quem aplaude as ações de Alexandre apenas porque ele agora aparece ao lado da civilização, mais cedo ou mais tarde perceberá que sua índole é punitivista e autoritária. Esse filme eu já vi: “cria cuervos y ellos te comerán los ojos”. Passada a urgência dos levantes fascistas e, na primeira oportunidade, o ministro todo poderoso vai agir como na Lava Jato ou na prisão de Lula: um agente do poder militar e um direitista embriagado pelo poder.

Não se deixem enganar pela máscara democrática que estes vingadores vestem. O voto de Alexandre a favor da prisão criminosa de Lula ainda está presente em minha memória. Não será essa a verdadeira persona do ministro, enquanto o justiceiro de agora é tão somente seu disfarce e sua estratégica dissimulação?

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