Já repararam como a direita do mundo todo usa sempre a mesma narrativa? Os ataques à esquerda sempre são moralistas, ad hominem, violentos quanto às virtudes inexistentes, jamais estruturais. Além disso, nesses ataques a culpa é sempre do “sistema”, como se eles não representassem o próprio coração do sistema capitalista. Nos últimos dias manifestações ocorreram na Europa patrocinadas pela extrema direita e prometendo acabar com os políticos e o “sistrema” a quem eles obedecem. Mas, afinal, o que querem dizer quando afirmam que o povo está “reagindo ao sistema”? Por que esse ataque à “classe politica” surge como um mantra, repetitivo e até enfadonho, a fórmula clássica de ataque da direita? Por que a direita, para atacar a própria expressão da politica, usa o refrão de que “todo político é ladrão”?
A razão é simples: a política é a única e frágil salvação que as pessoas têm para resistir ao controle absoluto do capitalismo. Por mais defeituosa que seja, a política ao menos oferece a ilusão da participação do sujeito nas decisões do Estado, mesmo que pelas vias tortuosas da representatividade. Lembrem: políticos precisam de votos e podem ser excluídos pelo voto. Cadeiras no parlamento ainda precisam da escolha popular através do voto. Um presidente é escolhido dessa forma e com ele sua política e perspectiva de governança. Agora, digam qual foi a última vez que alguém votou para eleger o presidente da Meta, da Amazon, ou mesmo das Americanas!! Nunca, não é?
Pois é exatamente isso que a extrema direita deseja: um mundo controlado por corporações transacionais, onde o povo perdeu todas as razões objetivas para escolher representantes. Nesse mundo distópico de direita, controlado pelo capital, o Estado é tão diminuto e insignificante que de nada serve o seu voto, pois tudo seria dominado pela casta dos proprietários, dos burgueses, dos donos de tudo. O povo só poderia trabalhar, olhar, chorar e morrer; afinal não há como mudar o mundo privado. A utopia capitalista seria materializada num tecno-feudalismo com classes sociais estanques e pétreas.
É por esta razão que tantos representantes da direita atacam o “sistema”. Na verdade, para eles o “sistema” é a própria democracia burguesa, o voto, as instâncias populares e a possibilidade de escolher representantes. Mesmo com todas as falhas das eleições e da escolha pelo voto, ainda assim essa possibilidade surge como uma ameaça ao totalitarismo ultra direitista. Estes se referem à “classe politica” com desdém porque odeiam qualquer anteparo democrático que exista entre a burguesia, suas posses e a riqueza produzida por todos nós. Quando você escuta um bolsonarista dizendo “tem que mudar tudissquitaí” ele, no fundo, está se referindo ao projeto direitista de eliminar seu direito participar do jogo.
Agora todo mundo está vendo que do nada, por magia e por encanto, as pessoas começaram a ter atitudes contra j*deus no mundo inteiro. Assim, sem nenhuma razão aparente estamos diante de uma onda de antissemitismo. Essa mudança repentina no comportamento de cidadãos do mundo inteiro parece um pouco estranha, não? Não será porque canalhas de Israel já mataram mais de 80 mil árabes e cristãos civis, entre libaneses e palestinos? Certamente que essa antipatia contra os seguidores da Torah não é pela tortura sistemática de prisioneiros nas masmorras de Israel, e nem porque treinaram cães para abusar sexualmente de prisioneiros. Por certo que não será pelo enorme número de crianças palestinas com balas na cabeça e no peito, atingidas pelos snipers assassinos de Israel. Deve haver outra explicação. Só pode ser um ódio gratuito. E de novo Israel é a vítima do mundo. Nunca é pelo apartheid, pelos assentamentos ilegais, pelas prisões sem devido processo legal, pelos ataques à comunidade árabe. Mas, resta a pergunta: se os sionistas não são culpados, de quem srerá a culpa? Claro, dos palestinos, que jamais se renderam. Mas também virou prática entre os “sionistas de esquerda” (um oxímoro) chamar qualquer critica ao sionismo – seja pelo genocídio, pelas ocupações ilegais ou os assassinatos constantes – de “antissemitismo”. Todos que combatem o governo de Israel há décadas já receberam este tipo de acusação.
No entanto, perceberam como este ataque perdeu completamente a força nos últimos tempos? O que outrora amedrontava, por colocar no sujeito o rótulo de racista e/ou negacionista do holocausto, hoje virou um clichê gasto, usado por quem não tem mais argumentos e não consegue rebater a avalanche de acusações contra Israel. Hoje é possivel dizer que se você não for acusado de antissemita é porque não esta denunciando corretamente o genocídio sionista. Depois dos massacres em Gaza, ninguém mais consegue acreditar na retórica dos liberais, que ainda insistem na tese de que o problema com Israel é exclusivamente culpa de Netanyahu e a extrema direita fascista de Israel. Infelizmente, isso não condiz com a verdade. Pesquisa recente do Israel Democracy Institute (IDI) indicou que mais de 75% dos judeus israelenses apoiavam a continuação da guerra. Ou seja, a população judaica da Palestina apoia o massacre, e uma boa parte acha que foi pouco o que foi até agora realizado. Michal Woldiger, membro do Knesset disse: “Não existem inocentes em Gaza. Sim, crianças devem ser mortas também. Não existe outra maneira”. Pensem, essa mulher tem filhos e uma vez os carregou em seus braços. Quando uma mãe diz que crianças devem ser mortas numa guerra criada e levada a cabo por adultos qualquer sinal de humanidade já abandonou seu coração há muito tempo. Não resta nada, sobrou apenas um monstro de ressentimento, ódio e supremacismo.
Desumanizar os palestinos sempre foi a tarefa inicial do projeto sionista, e eles agora estão sendo mortos pela suprema ousadia de resistir. Mas enganam-se aqueles que acreditam, como os sionistas “moderados”, que se trata de um problema da extrema direita israelense capitaneada por Bibi Netanyahu. Não, essa parlamentar de Israel não é o resultado das políticas de Netanyahu, mas a razão pela qual esse canalha está no poder. Ele apenas representa estes degenerados sionistas supremacistas, produzidos na esteira de produção industrial de fascistas de Israel. O primeiro ministro israelense é tão somente o reflexo da sociedade que o sustenta, a consequência brutal de um modelo supremacista e racista, e não a sua causa.
“Sionismo democrático, liberal, trabalhista, humanista: sim; supremacismo territorial com roupagem de promessa bíblica: não.”
Como conseguem ainda defender esta tolice? Sionismo significa retirar os palestinos das terras em que habitavam há séculos para criar uma etnocracia que só se sustenta pelo terror. Imaginar que é possível criar um sionismo democrático excluindo os palestinos da equação é mais do que ingenuidade; é perversidade pura, supremacismo travestido de “libertação dos oprimidos”. Lembrem apenas que essas afirmações são idênticas à pregação de Adolf, que tratava a questão alemã como uma revanche do “povo alemão oprimido” pela conjuntura internacional e pelo acordo criminoso de Versailles, muito prejudicial para a Alemanha porque impôs perdas territoriais, limitações militares e pesadas obrigações financeiras que muitos alemães viram como humilhantes e injustas. Ora, as desculpas para massacrar os povos – ora judeu, agora palestino – aparecem sempre com uma roupagem bonita, certo? Compra quem quer. Mas Marx já deixava bem clara esta equação ao dizer que a história se repete, primeiro como tragédia … e depois como farsa. O sionismo é a farsa da emancipação judaica. Nada mais é do que a a roupa moderna do velho colonialismo europeu, expoliador, racista, violento e genocida.
A causa dessa disputa de narrativas é o modelo de terror implantado por Israel desde sempre, a começar pelo ataque ao hotel King David levado a cabo pelos terroristas do Irgun. Toda a história de Israel foi baseada na morte, na expropriação, no abuso sexual, na impunidade e no assassinato, basta ler com cuidado a história desse país! Enquanto aqueles que apoiam a causa palestina são chamados de “antissemitas” é preciso proteger e apoiar os semitas de Gaza, porque os sionistas liberais se ocupam defendendo poloneses e ucranianos em suas fantasias semitas ridículas. A sociedade israelense, que aplaude a tortura nas prisões e transforma torturadores em ídolos populares, tornou-se degenerada e doente. E isso não tem nada a ver com os judeus ou judaísmo, mas com essa perversão racista chamada sionismo. Assim como criticar o nazismo não significa ser anti-alemão ou anti-cristão, então não há porque acreditar nesta confusão oportunista. Ninguém mais compra docilmente as mentiras da hasbara.
Hoje em dia se discute uma nova(?) categoria que se chama “namoro qualificado“, que se caracteriza por um relacionamento afetivo duradouro, público e íntimo que se assemelha à união estável, mas se diferencia juridicamente por não possuir o objetivo atual de constituir família. O debate jurídico centra-se em proteger a liberdade individual frente a riscos patrimoniais e sucessórios. A discussão envolve implicações fundamentais para o direito de família e o planejamento patrimonial. Segundo a jurisprudência, como o Superior Tribunal de Justiça (STJ), o divisor de águas entre namoro qualificado e união estável é o “animus familiae”, ou seja, o desejo de constituir uma família. Elementos como coabitação, viagens constantes, divisão de despesas e até a criação conjunta de animais de estimação confundem a distinção na prática, obrigando a análise caso a caso.
Para uma pessoa que namora, expressar diretamente o desejo de (algum dia) se casar, ou ter uma família ou mesmo ter filhos é uma sentença determinante do que ocorrerá naquele relacionamento quando ele se desfizer. Ter um “pet” que ambos cuidam é muito arriscado. Tirar fotos em uma viagem que fizeram é uma prova gerada para um futuro processo. Passar um tempo na casa do outro é atirar no próprio pé. Dividir as contas…. suicídio.
Namorar, ou mesmo desejar, estará sujeito à dureza das leis e tem o potencial de geral punições arruinar vida financeira de um dos participantes. Conheci inúmeros casos de golpes relacionados ao namoro, que agora tiveram um grande crescimento relacionado às inteligências artificiais. Durante minha vida profissional e pessoal eu conheci muitas pessoas sofrendo por causa desses criminosos e a maioria era de mulheres sendo enganadas por sujeitos sedutores, alguns mesmo “geniais” e maquiavélicos na arte de explorar a carência afetiva de suas vítimas – em especial mulheres mais velhas e solitárias. Entretanto, ultimamente tenho testemunhado muitos casos de mulheres se aproveitando de relacionamentos passageiros e descompromissados para exigir compensações financeiras e até pensão, como se um casamento – ou uma união consensual – tivesse efetivamente ocorrido.
Hoje se discute no supremo os limites do “namoro qualificado” que servem para diferenciar relacionamentos mais próximos e comprometidos de uniões mais frugais e passageiras. Se você tiver um namoro qualificado – onde o desejo de constituir família foi aventado por um ou por ambos – e resolver terminar a relação poderá sofrer punições e, inclusive, ser obrigado a pagar pensão ao seu parceiro(a). Fica muito evidente que uma questão que envolve a subjetividade, o desejo e os compromissos de duas pessoas (deixo de fora aqui os outros tipos de relacionamento não-dual) tornaram-se assuntos que são regulados pela justiça.
Ou seja: parece que não há saída para os relacionamentos que não passe pela judicialização, com testemunhas, em um cartório, com os documentos assinados em mão, tudo feito como se fosse um negócio, um acerto financeiro e/ou patrimonial. É preciso proteger-se para, futuramente se livrar da acusação de estar cometendo um crime.
Mas…. talvez hoje em dia, namorar seja mesmo visto como um ato criminoso
A ideia de que a Copa é alienante e deveríamos estar preocupados com as eleições, pois são elas que decidem nossa vida, é uma meia verdade. Não vou dizer que eleições “não valem nada”, mas elas estão longe de apresentar soluções para a crise do capitalismo.
Depois das eleições a vida segue praticamente imutável. Enquanto o sistema neoliberal perdurar as eleições apenas escolherão o gerente da massa falida do capitalismo. As diferenças são pouco significativas na estrutura da sociedade. Os bancos continuarão a mandar na sociedade e o governante escolhido ainda será sequestrado pelos interesses intestinos do Parlamento. A diferença é que a eleição de um elemento da direita continuará o desmanche do Estado brasileiro, privatizado-o para ser controlado por poucos e sem controle público. A eleição da esquerda vai priorizar a diminuição do fosso entre as classes altas e os pobres, e a cobrança de tributos dos mais ricos, mas não a ponto de mudar a arquitetura perversa das democracias liberais. Por esta singela razão vou votar no PCO no primeiro turno e no companheiro Lula no segundo turno, pois é preciso afastar a ameaça fascista e o entreguismo da direita.
Portanto, acreditar em uma mudança profunda neste modelo de democracia liberal, controlada pelo poder econômico, é tolice. Sou velho o suficiente para lembrar quando elegeram um negro democrata nos Estados Unidos achando que alguma mudança ocorreria na estrutura última da sociedade, e que finalmente os descamisados teriam vez. Obama invadiu inúmeros países, matou milhões de pessoas, espionou o Brasil e países da Europa, aprofundou o discurso identitário direitista e não produziu nenhuma mudança na saúde americana, aprofundando a disparidade entre a casta dos bilionários e a imensa camada pobre americana.
Até Lula, para ser justo, também jamais conseguiu uma mudança radical porque está amarrado num sistema que não lhe garante um congresso ao seu lado. Nossas eleições funcionam mais uma caricatura democrática, uma encenação – cara – para manter intocado o real sistema de poderes, que se concentra nas mãos de quem controla o capital. Ou vocês não perceberam que Vorcaro tinha o legislativo e o judiciário nas mãos? Quem era o verdadeiro dono do Brasil?
Este é um dos capítulos do meu livro: os sistemas de opressão dentro do universo prisional.
Um certo dia, enquanto estava trabalhando como interno do Sistema Prisional, ouvi ruídos vindo do jumbo – uma pequena cela usada para deixar os presos que estão sendo levados para outras partes da prisão. Por curiosidade eu me aproximei da pequena cela perto da sala da supervisão e vi um apenado sentado no banco lateral. Tinha o corpo bastante machucado e um ferimento na boca. Apresentava muitos hematomas, raspões e equimoses pelo corpo, e durante nossa breve conversa ele me relatou que havia tomado uma surra dos companheiros de galeria durante a saída diária para o pátio. Dei a ele o primeiro atendimento e conversamos mais um pouco, para que ele ficasse tranquilo de que nenhum osso estava quebrado. Depois disso, saí do jumbo e voltei para minha sala de trabalho, enquanto o preso continuou aguardando os curativos que seriam feitos. No corredor que leva à biblioteca e o nosso pequeno ambulatório, passei pela salinha da Copa e encontrei meu colega Zé, que terminava de preparar um bolo cheiroso de cenoura para o café da guarda. Comentei com ele o caso do rapaz e Zé, que conhece as regras mais crueis da cadeia, me fez um breve comentário.
– O mundo das galerias é a selva. Manda quem pode, obedece quem quer continuar com os dentes.
Respondi com um movimento de sobrancelhas e um leve contorcer do canto da boca, seguidos de uma observação baseada em fatos que eu havia testemunhado.
– Quando o Estado se afasta, deixando livre a organização da cadeia para os próprios presos, o resultado natural é ver os mais fortes se sobressaírem, assumindo o comando e, por fim, oprimindo os mais frágeis e fracos. A força é a lei suprema nesses contextos. Sempre que vejo a violência explícita tomar forma nas galerias eu penso: imagine o que aconteceria nesse ambiente se houvesse adolescentes de 16 anos convivendo com estes criminosos, precisando se defender de gente muito mais forte, muito mais poderosa e com muito mais experiência. Pense no nível de opressão a que eles estariam submetidos. Seriam escravizados, tratados como servos. Seriam reduzidos a objetos. Sem a força necessária para se defender dos adultos não sobrariam muitas alternativas além da total submissão. Ou então, para aqueles de temperamento arrojado – e por vezes suicida – sobraria a possibilidade de dobrar a aposta e abraçar a brutalidade como estratégia, contrapondo violência com ainda mais violência, oprimindo por meio da força bruta e da vigilância constantes para evitar serem engolidos pelo poder e pela selvageria dos mais velhos.
Zé concordou com minhas observações, mas emendou com a sabedoria de quem conhecia o monstro e suas entranhas.
– Só quem não conhece o mundo da cadeia se atreve a falar de diminuição da maioridade penal. Apenas aqueles que já entraram numa prisão serão capazes de entender quão danoso é para um adolescente o convívio com adultos nesse ambiente tóxico de confronto e ferocidade. Malditos sejam os que pretendem trazer crianças para cá.
Uma notícia de algumas horas, associada a um editorial claramente reacionário do jornal “O Estado de São Paulo” dá conta de que o escândalo envolvendo as ligações obscenas entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro não retirou muitos pontos entre aqueles que pretendiam votar no “mitinho”, o filho do Mito. Percebem o significado dessa posição do eleitorado de extrema direita? Nunca foi contra roubo, corrupção, possíveis conchavos ou a desonestidade com que os bolsonaristas e a direita corporativa acusavam Lula e o PT, mesmo sem apresentar provas e tendo que apelas para um golpe judiciário que envolveu promotores fascistas e um juiz corrupto. O que se vê agora é que, para o eleitor cativo de Bolsonaro, não há problema nenhum em roubar, fazer maracutaias, pedir propina, comprar mais de 100 apartamentos – 51 deles com dinheiro em espécie – ganhando apenas salário de deputado. Tudo isso é permitido, natural e justo, desde que os beneficiários dessas tramoias não sejam do PT.
O inaceitável, para a direita, é um nordestino pobre, migrante e sem dedo se meter a besta e ocupar a presidência de um dos maiores e mais ricos países do mundo, um lugar reservado apenas àqueles do andar de cima da nossa sociedade de classes. O fato de um pernambucano e operário da Villares como o Lula tornar-se representante dos pobres e dos trabalhadores é o que o torna indigno de perdão por parte da burguesia atrasada e corrupta desse país. Por isso a direita perdoa Bolsonaro & Filhos pelos seus crimes e até a roubalheira do Master e Vorcaro, mas jamais aceitará que um retirante como Lula seja o mandatário do país, por mais honesto que ele seja.
Sim, os estrategistas da direita apostam em uma total dissonância cognitiva combinada com uma narrativa messiânica para sabotar o Lula 4. É preciso uma ligação mística, um culto, onde eleitores são tratados como prosélitos de uma religião salvacionista. Por isso que a demonstração da desonestidade essencial de membros da Família Bolsonaro é pouco efetiva para conquistar corações e mentes dos eleitores desse campo. Para derrotar o “mal socialista’, o comunismo, as esquerdas e a perda da “liberdade” que eles representam é possível até fazer um pacto demoníaco e colocar pessoas sabidamente desonestas no poder.
“Gosto de roçar a minha língua na língua de Camões” (Caetano Velloso)
Ontem presenciei um curto debate nas redes sociais a respeito do uso de uma palavra: “alevantar”. Um sujeito, ao ler a expressão, criticou o que julgou ser o uso errado do idioma, dizendo se tratar de “coisa de petista”. Acho que cabem algumas considerações, até porque a forma como falamos e escrevemos tem a ver com questões políticas e de classe.
Mesmo aqueles que afirmaram que “alevantar” estava certo também, de certa forma, estavam errados. Digo isso porque o conceito de “certo” e “errado” em se tratando de língua portuguesa não faz sentido nenhum. Como dizia meu filho, quando tinha uns 10 anos, “falar ‘menas’ é uma questão de tempo”. Se as pessoas usarem desta forma no futuro irá verter para o cotidiano da fala e, posteriormente, para o vernáculo mais erudito. Tratar da fala como errada ou certa é, em verdade, uma forma de estabelecer diferença de classes, baseando-se na maneira como as pessoas falam. O debate poderia ser entre “norma culta” x “norma popular”, mas até esse debate já está um pouco defasado, porque, para alguns autores, existem tantas línguas quanto falantes, e nos comunicamos porque reconhecemos semelhanças entre as nossas falas – nossos idiomas pessoais – e as de nossos interlocutores.
Dizer que uma expressão é “errada” é um equívoco conceitual, pois não leva em consideração a função precípua dos idiomas. Usando um exemplo que li do linguista Marcos Bagno, dizer que “alevantar” está errado seria o mesmo que afirmar que uma cobra é um animal “errado” porque não tem pernas. Ora… errado em relação ao quê? Uma cobra é absolutamente adaptada ao seu meio ambiente – aliás, a mais tempo do que nós. Pela mesma perspectiva, uma expressão funciona se está adaptada à comunicação de ideias e se transmite conceitos e símbolos aos outros falantes, e “alevantar” cumpre essa função, pois todos que a leem entendem o que significa. O preconceito linguístico é uma forma clara de estabelecer barreiras de classe, por isso é usado em qualquer comunidade. Entretanto, é importante ter uma postura crítica em relação a estas diferenças culturais, para evitar exclusões baseadas na forma específica como as pessoas se comunicam. Por certo que, se uma pessoa fala e/ou escreve na norma popular será discriminada por não conhecer o idioma das classes “superiores”. Entretanto, essa forma de falar não é errada, feia ou menor; ela é o motor das transformações da fala. Na verdade, ela está na linha de frente da construção do idioma. A norma culta olha para o passado; a popular para o futuro.
Questionar o preconceito de classe que se insere nas críticas ao modo de falar, em especial das pessoas mais simples, não significa desprezo pelo aprendizado da norma culta. Ela é importante para que as pessoas falem em círculos de poder superiores, como na academia ou nas empresas. Entretanto, a língua que falam em casa ou com seus iguais não está “errada”, e nem é culturalmente inferior. Desta forma, acreditar que uma expressão está errada, apelando para um positivismo linguístico maniqueísta, deturpa a própria função dos idiomas. Uma língua falada funciona como os seres vivos, que por meio de metamorfoses infinitas se ajustam às necessidades oferecidas pelo meio ambiente mutante. Da mesma forma, a língua se modifica em decorrência das necessidades dos humanos, implicando na transformação dinâmica dos idiomas, dos sotaques, das expressões e das gírias com as quais estes se expressam
Enquanto a medicina for inserida dentro do capitalismo, a venda de drogas continuar a ser um dos maiores negócios transnacionais e a sua publicidade liberada – prometendo beleza, saúde, juventude eterna, felicidade e o fim da angústia – casos como o do jovem fisiculturista encontrado morto ainda serão muito comuns. Os elementos que mais chamam a atenção nesse caso são a idade, a aparência saudável e o gênero da vítima. Sim, estas tragédias são muito mais comuns nas mulheres, que são afetadas por estes tratamentos “mágicos” há milhares de anos, submetendo-se a tratamentos, cirurgias, dietas e drogas na ilusão de permanecerem eternamente desejáveis. Nem precisa lembrar os “pés de lótus“, que deformava os pezinhos das chinesas no período imperial, os “espartilhos“, as “canetinhas” e as cirurgias estéticas abusivas a que se submetem há milênios. Até dietas absurdas e restritivas foram causadoras de milhões de mortes. De acordo com estimativas, só no ano de 2023 dietas inadequadas foram causadoras de mais de 4 milhões de mortes por cardiopatia isquêmica (infartos). Também foram perdidos 97 milhões de anos de vida ajustados por incapacidade (o chamado índice DALY). Trata-se, portanto de uma mortandade superior às guerras!!
No início deste século perdi uma amiga parteira jovem que se submeteu a uma lipoaspiração apenas poucas semanas do nascimento da sua filha. As gordurinhas a mais lhe pareceram insuportáveis, e isso a levou psrs s cirurgia e ao trágico desfecho. Por muito tempo acreditei que essa morte poderia ser evitada com adequado aconselhamento. Pensava “se eu tivesse conversado com ela”, e isso me torturou por muito tempo. Entretanto, hoje eu penso com mais realismo. Que conselho poderia dar que seria capaz de suplantar a avalanche de publicidade que ela recebia desde a mais tenra infância sobre a necessidade de um corpo perfeito? O massacre publicitário a que ela se submeteu está em toda parte, nos filmes, novelas, revistas e na imagem do ser humano “moderno”, com seus corpos altamente “trincados”. Para isso criaram uma quantidade gigantesca de drogas e tratamentos – sem falar nos influencers – que lucram com essa indústria. A morte desse jovem vai para a conta desse modelo de sociedade que faz da imagem corporal uma indústria de lucro e morte.
Claro, não se trata de criticar o natural e saudável desejo de ter saúde, e nem a eventual necessidade de usar algum medicamento para este fim. Porém, neste caso específico, fica muito claro que não se trata de uma busca por saúde. Havia o interesse por uma imagem idealizada de poder, um falo gigantesco usado para expressar externamente valores da masculinidade – assim como fazem as mulheres com sua feminilidade, abusando das inserções de silicone ou cirurgias exageradas. O preço para estes exageros fica muito claro: doenças e até a morte precoce, antes mesmo de atingir a maturidade. A indústria de drogas lava as mãos, pois afinal o sujeito é livre para usá-las e não cabe a ela o dever de fazer avaliações morais ou estéticas sobre quem faz uso de seus produtos. Enquanto isso, as mortes por drogas legais se acumulam, tanto aquelas relacionadas com hormônios quanto com as famosas “canetinhas” emagrecedoras, cujos resultados funestos ainda não apareceram por completo, mas podem ser descobertos em médio e longo prazos.
Uma vida mais saudável, sem drogas de qualquer natureza – salvo em clara e evidente necessidade – deveria ser a conduta de todos. Esta deveria ser, em especial, a recomendação dos médicos, pois estes estudaram os efeitos ruins dos remédios que prescrevem, e os riscos associados ao seu uso. Entretanto, é da essência da medicina capitalista a adoção de tratamentos e remédios, cirurgias e intervenções sobre os corpos. Médicos são despachantes de drogas que, ao lado de auxiliarem o sujeito em algumas doenças, causam a alienação do paciente sobre a condução de sua própria saúde. Além disso, sáo os médicos os mais afetados pela publicidade da indústria farmacëutica, refém de uma indústria bilionária que precisa de suas prescrições. É pouco provável que surja por parte da corporação médica uma reação forte capaz de evitar este tipo de influência. Resta esperar que as pessoas, adequadamente orientadas, afastem-se das soluções mágicas e das propostas estéticas fantasiosas, aceitando a naturalidade dos seus corpos e o cuidado natural de sua saúde.
Em inúmeros campos do conhecimento é possivel ver de forma clara a relação promíscua entre saber e poder, bastando para isso que tenhamos a atenção e a coragem necessárias para reconhecer nossa parte nesse latifúndio. Na assistência ao parto, campo no qual atuei por mais de três décadas, nossa arrogância nos impediu de enxergar a evidência cristalina de que não havia – e não há – falta de conhecimento ou informação para adotar as melhores práticas. Em verdade, não há dificuldade alguma para encontrar as evidências cientificas que sustentam a atenção humanizada ao parto, em especial após o advento da internet. Assim, a prática cotidiana se exerce pelo exercício autoritário de poder sustentado pela narrativa cientificista. Essa transformação, que se estabeleceu nos umbrais do século XX, exterminou o saber milenar das parteiras em nome do conhecimento médico na maior parte do mundo ocidental . Apesar de hoje ser possível avaliar as repercussões dessa mudança e estabelecer críticas sobre ela, não é justo desmerecer a importância dos avanços científicos da obstetrícia, mas é necessário questionar a dificuldade em reconhecer suas falhas e inconsistências. Em especial, é essencial avaliar o que e o quanto perdemos com a aventura tecnológica no parto.
Para manter perspectivas equivocadas intocadas é fundamental realizar sobre as práticas emergentes uma série de ataques e criar desconfianca sobre seus resultados. Uma forma de fazer isso é por meio da dissonância cognitiva, que ficou conhecida no bolsonarismo. Tudo vira uma “opinião”, portanto, relativo e subjetivo. Parto normal é opinião, episiotomia é opinião e cesarianas em excesso são uma questão de gosto pessoal do cirurgião. Chomsky tratou desse tema ao questionar os “consensos manufaturados”, explicando como os grandes meios de comunicação em democracias capitalistas ajudam a moldar a opinião pública de forma favorável aos interesses políticos e econômicos dominantes. Desta forma, a repetição incessante de uma determinada visão de mundo cria um sentimento de identidade entre aqueles que a adotam. Ser aceito pelos seus pares é uma das necessidades humanas mais primitiva, e por isso muitos absurdos que testemunhamos na época Bolsonaro – a chamada de ETs por celular, as marchas ridículas, a continência para pneus, o anti-intelectualismo, o deboche com as vítimas da Covid, etc – produziram uma enorme energia de coesão social, mesmo oferecendo um espetáculo ridículo para a posteridade. O mesmo acontece com os médicos, jogados em um sistema onde essas inverdades são repetidas até se tornarem verdades.
Na questão dos direitos reprodutivos e sexuais das mulheres, em um mundo gerenciado pelo modelo patriarcal, é tolice continuar apostando em informação e conhecimento como suficientes para moldar consciências e mudar a prática, sem reconhecer que a inércia na atenção ao parto é devida às questões de poder e de quem o controla, o que impede as mulheres de conhecerem uma perspectiva alternativa para os seus partos. Sem tocar na ferida da ideia do parto como “evento médico”, controlado por cirurgiões e em hospitais especialmente criados para tratar pessoas debilitadas e doentes, não vamos avançar no atendimento à fisiologia do parto. Desta maneira, controlados pela ilusão do conhecimento objetivo e sem encarar a luta política por partos normais, seremos incapazes de salvar o nascimento humano de seu destino macabro: dele restará uma foto na página amarelada dos livros de medicina cibernética do século XXII, cuja legenda será um melancólico “parto ancestral”.
Generalizar contra negros, gays ou imigrantes usando uma minúscula fração desses grupos – a parcela que cometeu erros ou mesmo crimes – parece ser errado, por tomar uma pequena parte para representar o todo. Creio que ninguém é capaz de discordar disso, não? Quaisquer textos que iniciem com “os negros são”, “as mulheres gostam”, “os judeus pensam que” ou “os gays preferem” parecem inexoravelmente contaminados por preconceitos inaceitáveis, que colocam um rótulo de gênero, orientação sexual ou etnia acima da suprema riqueza da subjetividade humana.
Pois… quem concorda com o paragrafo acima, poderia explicar por que ainda aceitamos o preconceito incoerente contra os homens, tão na moda nos dias de hoje? Por que lemos cotidianamente nas redes sociais manifestos contra os homens – e o masculino – sem revirar os olhos como fazemos com os textos racistas ou machistas? Por que parece justo afirmar que os homens são “naturalmente violentos”, “abusadores” (que apenas aguardam a adequada oportunidade) e “est*pradores em potencial”, apenas porque uma parcela ínfima (vide abaixo) de homens realmente pratica tais atos condenáveis? Além disso, que dizer das mulheres que igualmente agem mal, cometem deslizes e crimes, mesmo sabendo que esta proporção é também diminuta? Seria justo acusar um gênero inteiro pelo erro de algumas poucas, colocando a culpa na essência e não nas circunstâncias? Taia ataques aos homens enquanto gênero ocorrem exatamente num momento em que as sociedades valorizam tanto a liberdade e a subjetividade. Porém, ao chamar homens de agressores e estupradores de forma irrestrita e generalizada abre-se a “caixa de pandora” para generalizar também as mulheres a partir de uma ínfima minoria. Mas não foi essa a justa reclamação que segmentos feministas sempre fizeram?
“Homens”, “mulheres”… quando generalizamos dessa forma os gêneros, isso abre um flanco enorme para o contra-ataque, que sempre vem com cara de misoginia – e é mesmo. Só que tratar todos os homens de maneira uniforme é… como é mesmo que se chama o reverso da moeda? Isso não significa que as questões de gênero não devam ser debatidas e a violência combatida com todas as forças, em especial aquela exercida no ambiente doméstico contra as mulheres e as crianças, os grupos mais frágeis e mais propensos a sofrer este tipo de opressão. Entretanto, extrapolar o problema de menos de 1% dos homens para que o abuso e a opressão criminosa se tornem a marca tatuada na testa de todos é um erro que me parece inaceitável.pois tais acusações contra o gênero masculino são, via de regra, grosseiras e injustas. Como se pode ver em inúmeros estudos, mais de 99% dos homens jamais agrediu uma mulher ou cometeu qualquer crime.
Defendo o masculino porque passei 50 anos da minha vida profissional lutando contra as generalizações demeritórias que eram feitas contra as mulheres, contra sua fisiologia, sua sexualidade, seus ciclos e seus partos. Ver mulheres cometendo a mesma injustiça contra os homens – e se achando moderninhas porque os atacam – me deixa tristeb e indignado. A imagem que me vem à mente quando vejo texto inflamados que acusam os homens por toda e qualquer chaga do mundo, desferindo impropérios contra o gênero enquanto grupo é: essas mulheres não tem pai, marido, filhos, irmãos? É isso que elas enxergam neles? Seriam eles também agressores ressentidos, violentadores em potencial? Essa visão do masculino veio de onde? Ou “seus homens” seriam diferentes, especiais, “desconstruídos”, e essa fala é apenas sobre os “outros homens”?
E não adianta me acusar de “machista” apenas porque “atacaram os homens”, ou que “não suporto ler verdades”. Não é correto, nem justo. Sei o quanto os homens precisam se adaptar a um mundo mutante, onde os papéis – outrora fixos e estáveis – agora são voláteis e vicariantes. Homens e mulheres precisam se adaptar às transformações violentas nos costumes, no trabalho e na expressão de suas sexualidades. Forçoso é aceitar que existem homens que não concordam com esse confronto, com uma dicotomia estabelecida pelo ressentimento, e muitas mulheres também não aceitam que seus filhos, irmãos e amigos sejam julgados de forma tão negativa. Generalizar serve aos interesses apenas de quem fomenta ódio.
Vocês sabiam?
99,16% dos homens brasileiros jamais cometeram algum tipo de crime ou violência.
Dos 103.662.286 de homens brasileiros, apenas 0,83%% cometem crimes segundo todos os dados oficiais.
Mesmo se os dados fossem extrapolados com subnotificações desconhecidas, o número seria de 97,5% dos homens brasileiros que nunca cometeram nenhum tipo de crime ou violência. Estes dados foram coletados e analisados com base em estatísticas oficiais do IBGE, SISDEPEN e CNJ.”