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Penas desumanas

Ela não vai comemorar o dia da mulher com sua família. Quem acha justo que uma mãe fique presa, afastada dos filhos pequenos, pelo crime “hediondo” de escrever com batom na estátua da Deusa Têmis, é porque vendeu sua alma ao fanatismo punitivista há muito tempo. Permitir que um tirano como Alexandre de Morais faça justiça conforme o seu humor, sem observar um preceito básico do direito, a proporcionalidade da pena, é jogar fora séculos de avanços civilizatórios. Um socialista verdadeiro não pode aceitar que o poder desmedido de um magistrado não sujeito ao voto esteja acima dos demais.

Pergunto: que tipo de “ato simbólico” – como manchar de batom uma estátua – é tão grave a ponto de fazer uma mãe ser afastada dos filhos e ficar presa, podendo ser condenada a 17 anos de prisão? Essas prisões estapafúrdias, grotescas, insanas e desumanas parecem a selva punitivista americana, na qual ainda existem penas capitais e onde um sujeito pode ser condenado a 10 anos de prisão por roubar um pedaço de pizza. E isso num país com uma população carcerária de quase 2 milhões de apenados.

Ou pior ainda: estas decisões parecem o sistema penal corrupto de Israel, onde lutar pela sua terra e pelo seu povo pode colocá-lo numa masmorra pela vida inteira. Que tipo de sociedade degenerada acredita que a insatisfação crescente do povo pela ocupação do seu país ou pela política das democracias burguesas pode ser solucionada com penas draconianas, pesadas, desumanas – e, portanto, injustas? Pelo contrário: a indignação do povo só aumenta com esse tipo de crueldade. Infelizmente quem se mobiliza até então é a direita fascista, porque a esquerda está inativa, paralisada pela ilusão de que Alexandre está ao lado da “democracia”. Apoiar esta insanidade ainda vai nos levar a uma tragédia.

Muitas manifestações da esquerda carnavalesca e identitária, favoráveis à prisão desta mulher, são copia-e-cola das manifestações da direita sobre a prisão de Lula, Delúbio, Zé Dirceu, Genoíno e José Kobori. Idênticas. “Quando roubou o sítio em Atibaia não pensou na família, né”? Ou seja: a sujeira jurídica do Impeachment, da prisão de Lula e a imundície da Lava Jato não nos ofereceram suficientes lições para desconfiar das sentenças da justiça burguesa e das decisões do supremo (que aceitou o impeachment sem crime de responsabilidade de Dilma e manteve Lula preso de forma ilegal). Continuamos atacando personagens como Bolsonaro sem perceber que ele não é a doença; ele é o sintoma. A doença verdadeira é a tirania e a ditadura da burguesia, muito bem representadas por vampiros como Alexandre de Morais, indicado pelo vampiro-Mor Michel Temer, golpista maior dos nossos tempos.

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Mudanças

Fiquei sabendo da entrevista de um economista brasileiro que, num determinado momento de sua vida, abandonou as teses neoliberais que sempre o guiaram e passou a enxergar a sociedade por uma perspectiva mais humanista, valorizando as relações pessoais, a simplicidade e a necessidade de um mundo mais justo e equilibrado. Movido pela curiosidade, fui assistir.

O título era chamativo: Me arrependi, e o entrevistado era o economista José Kobori. Na entrevista, ele conta como passou de um profissional conectado ao catecismo financeiro tradicional para se tornar um crítico do modelo econômico surgido após a era Reagan. Minha curiosidade era pelo caminho que ele teria percorrido para alcançar o extremo oposto de seu antigo pensamento. Que tipo de leitura o convenceu? Teria conhecido Marx, quiçá foi tocado pela leitura de Lenin, Trotsky ou algum socialista contemporâneo, como Harvey?

A resposta não me surpreendeu, pois que eu já intuía que tais mudanças raramente ocorrem mediante epifanias de ordem intelectiva. Quando Nia Georges e Robbie Davis-Floyd estiveram pesquisando profissionais da humanização do nascimento no Brasil, para saber as razões de sua mudança paradigmática na direção de um modelo contra-hegemônico e humanista, as respostas oferecidas por inúmeros profissionais deixaram as suas motivações expostas: todos haviam passado por dramas pessoais, afetivos, emocionais, que os fizeram enxergar a realidade de forma distinta daquela que tinham até então. Não foi a leitura de um livro, ou uma aula na faculdade; foram fatos, quedas, solavancos emocionais, muitos deles doloridos e até vexatórios, que os levaram à mudança.

José Kobori, o economista até então liberal, foi preso na onda de justiçamentos da Lava Jato. Pela descrição que li do seu caso, tratou-se de uma prisão abusiva, absurda, autoritária, sem provas e baseada em vingança. Ele sofreu várias ameaças de morte e foi perseguido por organizações criminosas envolvidas em propinas com governos estaduais. Entretanto, naquela época ninguém ousava questionar os métodos medievais e abusivos da República de Curitiba, tanto a imprensa – apaixonada por figuras nefastas como Moro & Dalanhol – quanto as instâncias superiores do judiciário. Ele foi mais uma vítima dos linchamentos judiciais que mancharam a lisura da justiça brasileira.

E foi esse drama pessoal, e os quase três meses em que esteve injustamente preso, que o fizeram rever seus valores. Quando foi finalmente solto, havia perdido tudo que havia conquistado em termos materiais e foi obrigado a começar do zero. Como tinha experiência como professor, começou a dar aulas pela internet, desta vez mostrando os equívocos do modelo neoliberal. Todavia, foi sua experiência na prisão que abriu as portas para uma visão mais abrangente da sociedade. Lá encontrou assassinos e criminosos comuns, conheceu os sistemas de poder da prisão e teve de se adaptar a essa nova realidade. Entretanto, o que mais lhe chamou a atenção foi que na prisão havia pessoas, como quaisquer um de nós. Boas pessoas, pessoas ruins, egoístas, fraternas, inteligentes e limitadas, culpadas e inocentes; todo o tipo de ser humano, exatamente como havia conhecido fora de lá. Foi então que começou a questionar a justiça social, a fraternidade, a equidade e até a meritocracia, um mito por tanto tempo acalentado que agora desmoronava diante dos seus olhos. Depois dessa vivência traumática, sua vida se transformou.

A mesma experiência teve Miko Peled, filho de um general israelense que foi herói na guerra de 1967. Já entrando na idade madura, teve a oportunidade de debater a questão da Palestina com amigos palestinos que encontrou fora de Israel, o que lhe permitiu abrir os olhos e enxergar o mundo sem a viseira do sionismo. Foi do sofrimento originado da confrontação de suas antigas crenças com as aspirações de liberdade do povo palestino que conseguiu enxergar uma realidade alternativa. Foi sentindo em si a dor da ocupação, recebida pela voz embargada de seus amigos palestinos que descreviam os horrores do apartheid, que a mudança se tornou possível. A partir desse encontro, ele transformou sua vida e assumiu como missão pessoal a luta pela Palestina Livre e pelo fim do regime sionista.

Nesses exemplos fica evidente a veracidade de um antigo axioma: “Não há como mudar racionalmente uma crença surgida da irracionalidade”. A única maneira de mudar posturas recalcitrantes é por meio da abordagem emocional, afetiva e pessoal. Mais do que entender o problema, é preciso senti-lo, e só assim será possível conhecer uma verdade superior. Essas experiências, muitas vezes difíceis e dolorosas, como a prisão no caso de Kobori, ou a morte de uma sobrinha num ato de terrorismo, no caso de Miko, são preciosas por serem fantásticas alavancas de transformação pessoal, desde que possam ser absorvidas de forma construtiva e criativa. O mesmo se pode dizer dos abusos da Lava Jato. A dor que o país ainda experimenta pelos desmandos jurídicos deveria servir como uma lição cívica para que nunca mais se repitam. Esperamos que assim seja.

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Envelhecer

Já passava das 11 horas da manhã e ainda precisava comprar algumas mercadorias para preparar o almoço. Quando entrei no supermercado a procura dos itens, logo na entrada me deparei com uma moça em um pequeno quiosque ajeitando gelo numa espécie de balde. Perguntei o que ela estava oferecendo e ela disse que eram drinks de vários tipos: um de maçã verde, outro de limão e um avermelhado à base de guaraná chamado “Balada”. Respondi a ela que podia me servir o último, “já que tenho cara de quem frequenta baladas todo fim de semana“. Ela sorriu de forma jovial, serviu a bebida e eu continuei a minha saga pelo mercado.

Foram necessários apenas alguns passos para descobrir o que havia acontecido. Um pouco espantado e surpreso, mas, ao mesmo tempo, experimentando uma espécie de súbita lucidez, percebi que a piadinha que eu havia acabado de dizer à moça do quiosque não foi dita por mim. Apesar de ter saído dos meus lábios, não fui eu quem a falou.

Foi meu pai. Por instantes me dei conta que essa era uma das suas tiradas prediletas, um dos seus chistes mais comuns; uma espécie de humor britânico misturado com as piadas autodepreciativas típicas da cultura judaica. Apesar de ser uma pessoa séria e sisuda, ele era um sujeito otimista e bem-humorado, mas de um humor de poucas gargalhadas; mais ironia e menos deboche. Ele passou a última parte da sua vida descrevendo de forma divertida dos percalços da velhice, os desafios da “melhor idade”, a desconsideração da cultura com os idosos, o etarismo e, porque não, o desinteresse das mulheres pelos velhos, a quem consideravam seres  assexuados.

“Já era madrugada quando a porta do elevador se abriu e a moça entrou. Ela apenas sorriu para mim; claro, sentiu-se segura ao lado de um velhinho”, dizia ele sorrindo. Todavia, eu entendia o que havia por trás do seu gracejo. Ele fazia piada com a dor de envelhecer e com a frustração de “manter o desejo quando não mais o despertava”, como ele mesmo dizia. Talvez preferisse que ela tivesse medo; afinal tratava-se de um homem que poderia, talvez, “avançar”. Mas não… ele era considerado, aos olhos dela, totalmente inofensivo. “É diferente ser inofensivo por não querer – o que seria uma escolha – do que por não poder – que é apenas uma limitação”, dizia ele.

Depois dessa reflexão nos corredores do supermercado, muitas das minhas atitudes passaram a fazer sentido. Por mais que lutemos contra a matriz que nos constitui, somos inexoravelmente ligados a ela. Meu pai era antissocial, avesso às festas, introspectivo e sério. Durante minha juventude tentei ser diferente disso, me envolver com mais pessoas, ter amigos, mas ao amadurecer fui percebendo o quanto meu temperamento se aproxima do seu. Por mais que isso possa me incomodar, minha velhice será mesmo muito semelhante à dele, cada vez mais encolhido, menos visível, mais caseiro, mais silencioso… e mais insignificante.

Talvez, como ele, eu morra rodeado de não mais do que três ou quatro pessoas. Ele também dizia, e eu agora confirmo, que “envelhecer é preparar-se para as mortes”. Sim, assim mesmo no plural: são as perdas inevitáveis, as quais somos obrigados a experimentar no percurso da vida: a perda da juventude, da beleza, da atração e das memórias. Depois se vão os avós, pais, amigos, irmãos, parceiros de vida. E no fim, o nosso próprio invólucro de carne sucumbe à degenerescência, mas antes dele perdemos a relevância e a importância para aqueles que um dia nos admiraram. Nossas teses ficam antigas, solapadas pelo novo e pelo moderno. Nossa visão de mundo sucumbe aos acontecimentos e nossos vaticínios se perdem nas encruzilhadas do tempo. É preciso estar preparado para o tanto que se vai, continuamente.

Quando eu tinha por volta de 7 anos os amigos fizeram uma festa na vizinhança, com fogueira, comes e bebês, jogos, brincadeira e cantoria. No meio da festa, o vizinho, um amante da ópera, cantou uma ária; logo depois, outro vizinho tocou acordeon e cantamos todos juntos cantigas italianas. Enquanto isso as crianças faziam corrida de saco, cabo de guerra e se empanturravam de docinhos. Foi tão divertido que 60 anos de distância não apagaram da minha memória. No meio da festa meu pai chegou. Sentou-se em um banquinho e ficou sorrindo acompanhando a farra. Ao fim da festa, quando estávamos retirando os materiais e arrumando a bagunça, eu perguntei, ainda extasiado pela folia, se ele não havia achado aquela festa a melhor coisa da vida. Ele sorriu e sua sinceridade me impressiona até hoje:

“Não. Eu não gosto de festas. Acho bonito ver as pessoas se divertindo, mas isso não me afeta”.

Olhei para o meu pai com horror, uma estranheza como se ele tivesse segurando um sorvete de pistacho na mão e dizendo não gostar. Como assim não gosta do melhor da vida? Como não gostar da alegria sem freios, das piadas, da cantoria e das brincadeiras? Como poderia alguém não se afetar pelas músicas, o colorido, as empadinhas, a algazarra, o alarido dos fogos de artifício e as risadas de quem se passou na bebida?

Hoje eu sei. Percebo em mim a mesma marca, o mesmo feitio de personalidade, avesso aos arroubos de alegria desmesurada. O mesmo gosto pelo isolamento, o silêncio e a reflexão mais elaborada. As conversas com pouca gente, a profundidade dos argumentos, as piadas sutis. Poderia ser uma maldição, mas eu considero uma homenagem. Se tirei do meu pai algumas poucas virtudes, por que deixaria de receber também algumas de suas características menos atraentes? A genética, agora o sei, vem num pacote fechado…

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Terroristas

Qualquer um que tenha lido não mais do que cinco minutos sobre a história do Nakba, sobre o Hamas e a respeito da luta de 76 anos pela libertação da Palestina não repetiria o que sionistas vomitam nas postagens pró-Israel É necessário compreender apenas que aqueles que lutaram pela libertação de Paris para tirar seu país das mãos dos nazistas, os que enfrentaram os ingleses para a independência americana, os que se rebelaram contra Portugal para conquistar a independência de Moçambique e Angola e os que expulsaram os franceses do norte da África para dar fim à opressão francesa na Argélia também foram chamados de “terroristas”, apenas porque as nações opressoras se arrogam o direito de colocar esse rótulo em quem luta contra a sua dominação.

Terrorista mesmo é Israel, até porque a própria criação desse enclave europeu e branco no território da Ásia Ocidental só foi possível a partir de atos de brutal terrorismo. O atual massacre covarde em Gaza não é o primeiro patrocinado pelos sionistas na Palestina e não será o último. Foi precedido por muitas tragédias conduzidas pelos monstros que controlam Israel, como o massacre de Deir Yaseen. Houve também massacres em Haifa em 1947 (nesta época foram mais de 20), e tantos outros, como a emblemática explosão do Hotel King David.

A explosão desse hotel foi um ataque ocorrido na cidade de Jerusalém em 22 de julho de 1946, durante o Mandato Britânico da Palestina, tendo como perpetradores os membros de uma organização armada sionista que lutava pela criação de um Estado racista e etnocrático, apenas para judeus, que viria a se chamar “Israel”. A milícia terrorista envolvida era denominada Irgun (diminutivo de Irgun Zvai Leumi, Organização Militar Nacional). O hotel servia de residência dos familiares de funcionários do governo britânico na Palestina e o ataque foi organizado por Menachem Begin, que seria mais tarde primeiro-ministro de Israel por dois mandatos. O ataque ao Hotel Rei Davi resultou na morte de 91 pessoas (28 britânicos, 41 árabes, 17 judeus e 5 outros mortos) e ferimentos graves em outras 45 pessoas. Aliás, também estavam lá os terroristas David Ben-Gurion, Menachem Begin e Yitzhak Shamir, que dirigiam, respectivamente, os grupos terroristas Haganah, o Irgun e o Bando Stern. Alguns anos depois, todos seriam primeiros-ministros de Israel, sem que qualquer um deles tenha jamais sido punido pelos atos hediondos e os crimes contra a humanidade por eles cometidos. Já pensou o que diríamos se o nosso presidente fosse um terrorista que um dia planejou a explosão de uma adutora para forçar o aumento dos salários de militares? Bem, não deveria ser nenhuma surpresa para nós…

Chega a ser estúpida qualquer afirmação de que a resistência armada de um povo, que vivia naquela região há milhares de anos, possa ser chamada de terrorista, enquanto os invasores da Europa sejam todos eles considerados como tendo um direito natural àquela terra. O Hamas nada mais é do que um grupo de bravos guerreiros que tentam há 7 décadas o reconhecimento de sua nação, combatendo o imperialismo e se defendendo dos massacres, as mortes, os sequestros de crianças, as torturas, os assassinatos e os abusos sexuais contra seu povo. Antes de chamar os palestinos de “terroristas” pense primeiro o que você faria se o seu pai fosse morto, sua irmã abusada, sua mãe morresse por falta de remédios e seus primos e tios estivessem em uma masmorra sionista pelo simples crime de serem palestinos. E se você acha exagero, aqui estão em ordem cronológica os principais massacres cometidos contra a população cristã e muçulmana da Palestina.

PALESTINA LIVRE!!!!

1. Haifa – Massacre – 6/3/1937, 6/7/1938, 25/7/1938, 26/7/1938, 27/3/1939, 19/6/1939, 20/6/1948
2. Jerusalém – Massacre -1/10/1937, 13/7/1938, 15/7/1938, 26/8/1938, 7/1/1948
3. Balad Al-Shaykh – Massacre – 12/6/1939
4. Al Abbasiyah – Massacre – 13/12/1947
5. Al-Khasas – Massacre – 18/12/1947
6. Jerusalem – Massacre – 29/12/1947
7. Jerusalem – Massacre – 30/12/1947
8. Balad Al-Shaykh – Massacre – 31/12/1947
9. Al-Sheikh Break – Massacre – 31/12/1947
10. Jaffa – Massacre – 4/1/1948
11. Al-Saraya – Massacre – 4/1/1948
12. Semiramis – Massacre – 5/1/1948
13. Lydda – Massacre 1948
14. Al-Saraya Al-Arabeya – Massacre – 8/1/1948
15. Ramla – Massacre – 15/1/1948
16. Yazur – Massacre – 22/1/1948
17. Haifa – Massacre – 28/12/1948
18. Tabra Tulkarem – Massacre – 10/2/1948
19. Sa’sa’ – Massacre – 14/2/1948
20. Jerusalem – Massacre – 20/2/1948
21. Haifa Masacre – 20/2/1948
22. Saliha – Massacre 1948
23. Al-Husayniyya – Massacre – 13/3/1948
24. Abu Kabir – Massacre – 31/3/1948
25. Cairo Train – Massacre, Haifa – 31/3/1948
26. Ramla – Massacre – 1/3/1948
27. Deir Yassin – Massacre – 9/4/1948
28. Qalunya – Massacre – 14/4/1948
29. Nasir al-Din – Massacre – 13/4/1948
30. Tiberias – Massacre – 19/4/1948
31. Haifa – Massacre – 22/4/1948
32. Ayn al-Zaytoun – Massacre – 4/5/1948
33. Safed – Massacre – 13/5/1948
34. Abu Shusha – Massacre – 14/5/1948
35. Beit Daras – Massacre – 21/5/1948
36. Al-Tantura – Massacre – 22/5/1948
37. Abu Shudha – Massacre 1948
38. Al-Dawayime – Massacre 1948
39. Khan Yunis – Massacre 1955
40. Jerusalem – Massacre 1967
41. Sabra and Shatila – Massacre 1982
42. Al-Aqsa – Massacre 1990
43. Ibrahimi Mosque – Massacre 1994
44. Jenin Refugee Camp April 2002
45. Gaza – Massacre 2008-09
46. Gaza – Massacre 2012
47. Gaza – Massacre 2014
48. Gaza – Massacre 2018-19 & 2021
49. Gaza Genocide 2023 em andamento

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Gozo punitivo

Não consigo entender o que a esquerda pequeno burguesa tanto teme com a liberdade de expressão. Questionar o punitivismo aplicado a elementos da extrema-direita não é uma contradição, desde que esta postura esteja alicerçada em princípios bem claros. Por que deixaríamos de defender a Carla Zambelli ou Monark – e, porque não, o próprio Bolsonaro – se eles estiverem corretos em suas propostas? Aliás, é muito comum concordar com alguns pontos de vista da direita quando eles se contrapõem às posturas inadequadas da esquerda liberal – em especial quando criticam os identitários. Por que deveríamos privilegiar a mentira e o engano apenas para nos colocar em antagonismo com nossos adversários?

Eu, por exemplo, sou comunista. Defendo a superação do capitalismo e o surgimento de um modelo que estruture a sociedade numa perspectiva igualitária e fraterna. Entretanto, apesar da minha distância intergalática dos fascistas, defendi o veto do Bolsonaro a um projeto de lei surgido em seu governo que determinava que médicos e enfermeiras deveriam comunicar compulsoriamente, à polícia, casos de violência doméstica. Mesmo sendo do agrado de personalidades ligadas ao identitarismo, a proposta era absurda, pois violava segredo profissional e faria mulheres evitarem serviços de saúde com medo de colocarem a própria vida em risco. A proposta era populista e demagógica, tornando os médicos policiais e espiões da polícia dentro dos centros de saúde. Com isso, as mulheres se sentiriam inseguras de contar algum tipo de violência em suas casas com medo que isso acarretasse a intervenção da polícia, colocando em risco sua casa, sua família e seus filhos. O veto do ex-presidente Bolsonaro – mesmo por razões diferentes das minhas, até porque ele é um sujeito que aceita punições medievais – foi apoiado por boa parte da esquerda (e até de feministas), e não há incoerência alguma nessa posição. 

Por acaso passei a ser bolsonarista por concordar com o veto do ex-presidente? Ora, às vezes concordamos com nossos adversários por razões distintas e até opostas; o importante é manter a coerência e a linha doutrinária que adotamos. No caso da esquerda raiz e revolucionária, não podemos ceder à tentação do punitivismo, da judicialização ou de qualquer reforço dos poderes e valores burgueses. Sair processando, prendendo e cassando adversários, apoiando o ativismo judicial, não é a postura dos socialistas, pois entendemos que as punições de hoje impostas aos nossos inimigos, fatalmente amanhã recairão sobre nós. 

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Supremacismo

Toda vez que alguém vem me dizer que o identitarismo é algo bom, que alguém precisa “proteger mulheres, gays, negros, trans, etc”, que ele nasceu para dar voz às populações oprimidas e historicamente perseguidas e que seu objetivo é a equidade e a justiça social eu lembro que esta é a exata definição dada pelos supremacistas sionistas, ao explicar porque a violência destrutiva desproporcional no ataque aos palestinos é justa. Também os sionistas aparentemente tinham um objetivo nobre; após séculos de perseguições, expurgos e pogroms, era justo que desejassem um lugar seguro para si. O problema é que, para esta tarefa, era necessário roubar a terra onde há séculos vivia outra população, e aqueles que se opusessem a este plano. Por esta razão, ainda hoje matam de forma genocidária seus inimigos e depois exigem que seus crimes sejam vistos de forma condescendente por nós. Afinal, “depois de tudo que nos aconteceu”.

O sionismo que massacra crianças na Palestina surge exatamente desse pensamento exclusivista e supremacista. Essa perspectiva é o embrião de inúmeras tragédias como o nazismo, a KKK (Ku Kux Klan) e o sionismo, que nada mais são que o resultado direto de uma visão de mundo onde um grupo – ou uma identidade – exige ter mais direitos do que os outros grupos, seja porque são o “povo escolhido”, por ser este seu “destino manifesto” ou pelo seu sofrimento no passado. Assim floresce entre estes grupos a ideia de que as leis e regras que são aplicadas aos outros não são aplicadas a eles, por serem diferentes, especiais ou superiores, de acordo com sua própria análise. Entretanto, uma das mais importantes conquistas civilizatórias da humanidade foi a compreensão de sermos todos iguais. Assim, a lei e os juízes devem tratar a todos igualmente, independentemente da sua raçagêneroidentidade de gêneroorientação sexualnacionalidadecor da peleetniareligiãodeficiência ou outras características, sem qualquer tipo de privilégio, discriminação ou preconceito. A ideia de grupos ou identidades especiais – inferiores ou superiores – é ilegal e incompatível com os princípios de liberdade e de equidade.

A luta contra os preconceitos só pode ocorrer no lento processo de maturação das sociedades. Uma sociedade igualitária não vai se tornar hegemônica pedindo “mais amor”, criando “diversidade de aparências” ou judicializando preconceitos, mas exterminando a origem dessas distinções. Estas, como bem o sabemos, estão centradas nas iniquidades econômicas brutais construídas pelo processo civilizatório e consolidadas pela sociedade de classes. O combate aos preconceitos todos – raça, gênero, identidade e orientação sexual – é uma necessidade urgente, mas estas chagas planetárias somente serão desmontadas quando nossa sociedade tiver equilíbrio econômico, por meio da distribuição justa das riquezas produzidas. Enquanto tivermos sociedades divididas em classes, onde o trabalho vale menos do que a concentração de capital, nada será modificado. Para mudar esta realidade precisamos menos “amor” e mais luta de classes.

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Missão

Conheci um médico dedicado há alguns anos que me contou que resolveu estudar medicina pelo estímulo indireto de sua professora de biologia do segundo grau. A descrição apaixonada e encantadora do surgimento e da estruturação da vida no planeta que ela trazia às suas aulas o aproximaram das ciências biológicas. Sua paixão pela fisiologia humana, pela etologia (o estudo do comportamento animal) e pela botânica enchia de entusiasmo os estudantes. Esta anônima professora de biologia foi – sem o saber – responsável pela carreira de um médico, e as vidas por ele modificadas carregam um pouco de sua paixão. Através da perspectiva cativante dessa humilde professora, o futuro médico teve o estímulo necessário para dar início à sua missão de vida.

É por esta via que eu entendo a “espiritualidade”. Penso que a crença em algo para além do mundo físico “denso” não é uma questão que possa ser racionalmente debatida, pois sobre este tema não me parecem haver evidências suficientes para posturas assertivas e peremptórias. Assim, prefiro entender tal vinculação com o mundo espiritual como essencial e primitiva, algo que tem a ver com como sentimos o mundo, e não como o pensamos. A partir deste sentimento é que o sujeito estabelece sua visão teleológica da estrutura íntima do universo, suas causas e consequências.

Dito isto, eu creio que todos nós nascemos com uma missão. Chegamos a esse mundo para cumprir tarefas, que vão produzir melhorias em nossa compreensão do mundo e da natureza última do universo. Entretanto, não me refiro a forma grandiloquente ou pedante de definir a palavra “missão” que normalmente usamos. Para mim, a “missão” trata de um projeto subjetivo, pessoal e ligado às dificuldades específicas de cada sujeito. Isso determina que o sucesso de uma existência esteja nessa possibilidade pessoal de crescimento, e não nos resultados econômicos, intelectuais ou políticos percebidos. Da mesma forma, não acredito que o sujeito tenha compromissos específicos e prévios antes de nascer; a missão do sujeito aparece nas circunstâncias e nos contextos de cada vida e de cada sujeito, e pode se modificar quantas vezes forem necessárias. Pode trocar os caminhos, mudar as barreiras a enfrentar, modificar os grandes objetivos e subverter a ordem das etapas, mas o fim será sempre adquirir experiência e crescer.

Por esta forma de ver cada etapa de vida, a missão vai sendo construída no labor diário, e pode ser tanto cuidar da sua mãe, educar seus filhos, proteger um marido, acalentar seus parentes, ajudar sua mulher e todas as ações humanas que nos levam para longe do egoísmo e da ignorância. Pode ser também comandar um país, uma cidade ou um Império, mas também dedicar-se a tarefas humildes como aquelas de uma simples professora de biologia. É importante lembrar que as grandes tarefas do planeta só foram possíveis graças ao trabalho anônimo de milhões de pessoas, cada a delas em sua missão pessoal, lutando solitariamente para serem melhores do que quando aqui chegaram.

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Sexo

Há pouco li um texto curioso sobre as consequências do “sexo casual”. Não está bem explicado no texto, mas creio que foi definido como um encontro onde o sexo ocorre sem que exista uma conexão afetiva mais profunda e consequente. Ou seja: dois “ficantes” que resolvem usufruir dos prazeres sexuais sem que haja um compromisso formal, apenas pelo prazer que oferecem reciprocamente.

O texto descrevia os inúmeros problemas decorrentes desse tipo de encontro, usando como argumento teses pouco ortodoxas. Entre elas a ideia de que as “auras se fundem” durante o sexo, e que essa energia “permanece com você” por no mínimo 5 anos (como mensuraram essa impregnação?). Aponta para que, ao se relacionar sexualmente com alguém, você agrega parte da energia da pessoa com quem compartilhou a cama. Se ela for densa, instável, “carente de luz e amor” você incorpora essas características em sua própria aura. Pode inclusive tomar para si o carma de outra pessoa, caso ele(a) esteja carregado de “energias ruins”. Aqui se expressa, sem máscaras, a face mais moralista e conservadora do espiritualismo, usando de teorias sem evidências para criminalizar a livre expressão sexual. Este texto poderia ter sido escrito nos anos 30, e distribuído como um “manual para moças de família”. Por sorte o mundo mudou, e hoje este tipo de discurso não tem tanta popularidade quanto na minha juventude, quando a virgindade ainda era um tema frequentemente debatido. Essa perspectiva conservadora sobre o sexo – usado apenas como fonte de prazer – está fortemente arraigada na sociedade patriarcal, e para justificar esse preconceito criam-se teorias estapafúrdias como a impregnação de “energias” de outros parceiros e a “contaminação espiritual”.

Tais teorias em tudo mimetizam o furor microbiológico do final do século XIX onde todas as enfermidades eram explicadas pelas bactérias e pelas contaminações, fazendo do outro uma fonte de sujeira e de máculas físicas, geradoras de doença. O mesmo ocorre hoje, mas com elementos mais sutis; ao invés de bactérias, fungos e protozoários, agora falamos de energias sutis e carma. Tudo muito cafona, como, aliás, é típico do espiritualismo cristão, que herdou do catolicismo toda essa cultura de pecado e essa carga imensa de culpa. Fica evidente que a sexualidade com sua poderosa força criativa ainda vai receber por muito tempo a censura de conservadores, pelo medo do que possa ocorrer com uma sociedade onde o sexo seja livre. Não é à toa que o parto, elemento especial de expressão da sexualidade, continua sendo tolhido, amordaçado, cerceado, contido, controlado e domesticado, para jamais ocorrer sem o olhar controlador e censurador da sociedade.

Ainda vai demorar um bom tempo até que as pessoas possam parir e transar em paz, sem culpas e sem medos artificiais!!!

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Aula de democracia liberal

Em 1982 houve eleições diretas para os governos dos Estados na primeira eleição após a abertura democrática “ampla, geral e irrestrita”. Naquele tempo eu era um garoto, estudante de Medicina e recém-pai. Entusiasmado com o retorno das eleições majoritárias, fiz campanha para o candidato do MDB ao governo gaúcho, o caxiense Pedro Simon, que disputava contra o candidato da direita, o dentista Jair Soares, do PDS (ex-Arena), ligado à ditadura decadente, ao agronegócio, ao latifúndio e às forças conservadoras. Pedro Simon havia sido um importante parlamentar, seguidor de Brizola, mas que abandonou a radicalidade das propostas que o líder da Legalidade abraçara. Posteriormente, foi senador da República por vários mandatos. Naquele ano distante, fiz vigília pela vitória da oposição e distribuí panfletos para ajudar na campanha de Pedro Simon. Esta foi uma eleição curiosa, pois os quatro candidatos acabaram se tornando governadores em anos futuros. Além de Pedro Simon e Jair Soares, concorreram Alceu Collares pelo PDT e Olívio Dutra pelo recém-criado PT. Por certo que naquele momento eu não pude votar em Olívio, pois era importante fazer “voto útil”, até porque a votação era em turno único.

Não deu. Ganhou o candidato conservador, o que me deixou, na época, espantado. Depois de quase 20 anos sem eleições livres, eu achava que nosso estado daria uma resposta firme e decisiva ao arbítrio e à ditadura corrupta que tivemos. Não mesmo; os gaúchos votaram no conservadorismo, nas forças reacionárias do Estado e por isso não me espanto com a opção bolsonarista desse estado nos últimos anos. Temos uma burguesia atrasada, agrária, latifundiária e profundamente conservadora, em especial no interior. O povo gaúcho resolveu apostar no candidato que falava o idioma do conservadorismo e das tradições, da família e da propriedade.

Nas eleições seguintes, quatro anos após esta decepção, finalmente Pedro Simon acabou chegando ao Palácio Piratini, sendo eleito governador do0 Rio Grande do Sul, e esta foi uma das maiores lições que tive na política. Trazia consigo a esperança de renovação, do fortalecimento dos trabalhadores, em especial para a classe do magistério, historicamente sufocada pelos governos estaduais. Quando no poder, Pedro Simon passou por uma grande greve dos professores, e sua atuação em nada foi diferente daquela de seus antecessores, mesmo os governos militares. Polícia na rua, cavalaria dispersando professores, cassetete em estudantes e atitudes de força e violência contra a população. Também teve um governo medíocre em todos os sentidos. Ou seja, aquele a quem eu dediquei meu esforço pela eleição alguns anos antes teve a mesma mentalidade e práxis política do seu “adversário”. A lição que ficou foi a de que as diferenças eram falsas, meras aparências, miragens criadas para nos confundir. Jair e Pedro eram frutos da mesma árvore, que apenas vicejaram em galhos distintos, dando a falsa impressão de que eram produtos diferentes. O mesmo acontece hoje, em várias partes do mundo, inclusive aqui no Brasil. Onde vemos disputas ferozes existem, em verdade, brigas de ego que apenas escondem uma visão de sociedade praticamente idêntica. Nos Estados Unidos não existem partidos distintos, e as diferenças são devidas muito mais à maquiagem do que à essência. O imperialismo tem um partido único, que independe das eleições. No Brasil, todos os presidentes são gerentes da massa falida do capitalismo periférico. Mesmo Lula não pode ser muito diferente dos seus adversários, pois que todos são controlados pelas forças conservadoras que mandam na imprensa burguesa, no congresso e no judiciário. Para romper esse ciclo vicioso só mediante uma revolução que garanta ao povo o real controle da nação.

No ocaso de sua vida, Pedro Simon foi um grande incentivador da Lava Jato e da prisão ilegal de Lula. Antes disso, foi entusiasta do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Em uma famosa manifestação em 2015 falou que a operação capitaneada por Moro e Dalanhol era um marco para a lisura política no Brasil, que a prisão de Lula era uma grande vitória da justiça e que Lula “não seria mais nada“. Também não se furtou de chamar Lula de “ladrão”. Algum tempo depois abriu seu voto para Bolsonaro e Onyx Lorenzoni, de forma entusiasmada, para derrotar o PT e a esquerda. É incrivel pensar que Pedro Simon, na minha juventude, foi o candidato das forças de esquerda, e aqui está a grande lição: nunca foi de esquerda, e nem próximo disso; o fato de se contrapor a outro político de extrema-direita não o tornava um progressista, mas isso nos enganou a ponto de apoiá-lo. Pedro Simon me ludibriou, mas não por culpa exclusiva dele, e sim pela minha (nossa) ingenuidade em acreditar em suas palavras, suas promessas e seu discurso. Ele era um emissário da direita, conservador e com simpatias pelo extremismo reacionário que o Brasil adotou como um claro sintoma da crise do capitalismo.

Hoje Pedro Simon completa 95 anos. Que tenha ainda muito tempo de vida, o suficiente para refletir sobre sua postura política. 

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Lacre

Testemunhamos nos últimos tempos que a política virou guerra de lacração, e que a verdade não é mais medida pela comprovação dos fatos ou pela capacidade de previsão dos fenômenos, mas por qualquer manifestação que possa produzir inúmeros likes e visualizações – ou pelo menos maior do que aquelas do adversário. Acima de tudo, está cada vez mais claro que a verdade é insuficiente como ferramenta de combate. Quem pensa o contrário disso adota o que alguns pensadores chamam de “supremacismo da razão“: a ideia de que uma postura racional é superior e capaz de dar conta das mentiras que se ocupa em atacar. Reconhecer os limites da verdade não significa unir-se aos inimigos na produção de mentiras, farsas, ciladas ou versões adulteradas de fatos históricos, mas entender que apenas desmentir tais narrativas fraudulentas não basta para produzir convencimento.

Essa é a verdade; somos seres apenas superficialmente racionais. Nossa razão é uma fina e diáfana película a cobrir as ancestrais camadas de crenças e temores que nos constituem. A verdade, por si só, não consegue dar conta das emoções que sustentam nossas convicções mais profundas. Por isso, mesmo que hoje em dia seja fácil e rápido o acesso a verdades bem estabelecidas – como a esfericidade do globo onde vivemos – existem aqueles que acreditam em perspectivas mais fáceis para a tradução do mundo. A razão para isso é que estas perspectivas irracionais nos oferecem atalhos entre a realidade aparente e sua estrutura última, sem que seja necessário o entendimento dos intrincados caminhos que os unem. Entretanto, como diria Karl Marx: “se a aparência e a essência das coisas coincidissem, a ciência seria desnecessária”. É muito mais fácil acreditar que o político com o qual não simpatizamos é um ladrão do que tentar entender a intrincada rede de pressões e concessões às quais eles são submetidos.

Portanto, não basta atingir a racionalidade dos sujeitos sociais e contrapor a onda de mentiras com as versões lógicas e verdadeiras; também não basta desmascarar as falsidades e fake news com torrentes de acertos; é preciso tocar as emoções, a alma, os sentimentos, pois que estes são muito mais intensos e calorosos do que a frieza do real. Mais do que uma batalha por likes, “humilhações” e “atropelamentos” virtuais, é preciso falar a linguagem do povo, de suas necessidades, com a sua língua, com seus trejeitos e sotaques, direcionando nosso discurso para dar conta de suas específicas percepções. Por esta razão eu não assisto às mentiras que chegam de um lado, mas também não me entusiasmo com o contraponto oferecido pelo nosso campo, porque sei que estas manifestações apenas convertem os já convertidos. Essa guerra em nada nos ajuda: para avançar precisamos bem mais do que isso.

Não consigo imaginar um único fascista que tenha mudado de opinião após escutar os argumentos que apresentam a verdade dos fatos. Ninguém. Esse discurso converte quem já se converteu, mas é incapaz de mudar, através da razão, crenças adquiridas fora dela. Ou seja; não é possível mudar uma visão irracional usando argumentos racionais. A esquerda deveria parar de acreditar na ilusão de que “lacração de redes sociais” é capaz de produzir efeitos práticos na realidade.

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