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Cessar-fogo

O enfrentamento e guerra são as únicas as alternativas que Israel deixou aos seus opositores, em especial os palestinos. Qualquer coisa diferente disso é ingenuidade, ou o desejo de que apenas uma das partes continue morrendo. Foram 77 anos de tentativas de consenso e de conversas pela paz que só pioraram a situação para os palestinos. Testa encarar a dura realidade: sem que Israel seja colocada de joelhos jamais teremos a paz. Qualquer conversa diferente disso é mentira, ilusão, fraude ou uma forma de normalizar o sionismo é o extermínio dos povos originários da Palestina.

Claro que seria possível asfixiar Israel sem tiros, sem bombas e sem mortes, mas até hoje isso nunca foi possível. Sobra a realidade de que não haverá paz enquanto Israel e seu racismo, seu apartheid e seu supremacismo continuarem a vigorar. Alguém acredita mesmo que, se os judeus e os nazistas sentassem para conversar em Berlim antes da Segunda Guerra Mundial, seria possível evitar o holocausto? Isso é muita ingenuidade. O holocausto ocorreu porque para os nazistas era possível fazer; qualquer debate seria incapaz de barrar o poder da força.

O caso da Palestina não se encontra em um vácuo conceitual. Antes desta luta anti colonialista e anti-imperialista, muitas outras ocorreram no planeta, em especial na segunda metade do século XX. Por acaso a Coreia Popular não enfrentou os Estados Unidos? Como foi a guerra pela independência da Argélia? O que ocorreu no Vietnã? Que dizer do Afeganistão? Por acaso estes países não se libertaram do imperialismo? Nestes casos todos houve acordos e mesas redondas para a libertação? E Cuba, que se sustenta dignamente há 65 anos, foi conquistada mandando e-mails e petições? Trazer ao debate a capitulação dos povos, em nome da “pax americana” é mais do que absurdo; é triste. Mas é preciso ter em mente que Israel, inobstante todo seu dinheiro e poder, foi derrotada pelo eixo da resistência e por isso tiveram que ceder. O melhor termômetro para isso é a reação da extrema-direita de Ben-Gvirn e Smotrich… eles estão furiosos, desesperados. A derrota de Israel está mais próxima do que nunca, basta olhar a consciência internacional sobre os palestinos.

Aqueles que acreditam que as mortes e o sofrimento dos palestinos significam a sua derrota não conhecem a Palestina – muito menos os palestinos – e não entenderam sua luta. Se a proposta é a capitulação do povo palestino em nome de “salvar vidas”, então é necessário estudarem mais o valor que os palestinos dão à sua terra e sua cultura. Ora, a desistência nunca esteve no horizonte dos palestinos, da mesma forma como jamais foi uma alternativa para vietnamitas, afegãos, coreanos, cubanos e todos os povos oprimidos. A ofensiva do Tet, na guerra do Vietnã, é a grande lição quando estamos observando e tentando entender perdas de vidas em uma guerra. Depois dessa ofensiva vietcongue, o Vietnã perdeu 2 milhões de cidadãos, entre civis e militares, na guerra de libertação contra os Estados Unidos. E quem venceu a guerra? A União Soviética perdeu 20 milhões de habitantes na Segunda Guerra Mundial, mas qual exército venceu os nazistas? Dizer que os palestinos estão perdendo porque foram massacrados é uma ingenuidade que não cabe nas análises geopolíticas e nos cenários de guerra. A vitória das forças da resistência é inegável, mas alguém realmente acredita que a derrota do sionismo ocorreria sem luta, sem vítimas e sem mártires? Quando houve isso na história da humanidade? Quando um povo se livrou da opressão e do martírio sem o sacrifício de milhares – e mesmo milhões – de combatentes? A resposta para evitar os massacres é a rendição? Ora… nenhum povo aceita esta solução.

Israel está em pedaços, derrotada e humilhada. Não atingiu nenhum dos seus objetivos: não liberou reféns, não invadiu o Líbano, não conquistou a opinião pública, não destruiu o Hamas, não neutralizou o Iêmen e não desmantelou o eixo da resistência. Ao lado disso, está sofrendo pressão e ameaças da Turquia e agora do Egito e não está descartada uma guerra entre esses países e Israel, em especial pelos espólios da Síria. Israel continua sendo bombardeada pelo Houthis diariamente e mais de 800.000 israelenses já fugiram do país. Num país de 7 milhões de habitantes judeus, seria como se 20 milhões de brasileiros deixassem o país. 70 mil negócios já foram fechados. O porto está parado há meses. O Irã demonstrou superioridade militar e logística contra Israel e deixou claro que, se precisar, reduz aquele antro racista a pó.

A Palestina é a grande vitoriosa da guerra até agora, uma vitória que fica demonstrada pela crise insolúvel no Knesset. O cessar-fogo é a confissão de fracasso demonstrada pelos líderes da extrema-direita fascista, Ben-Gvir e Smotrich, que ameaçam sair do governo. Isso implodirá o governo Netanyahu. Mas o pior para Israel é a guinada de 180 graus na opinião pública. O mundo inteiro viu pela Internet a carnificina dos sionistas, superando em covardia e crueldade seus mestres nazistas. Israel já está na posição de pária internacional, sendo tratado como um país falso, sem conexões diplomáticas com o resto do mundo.

É espantoso ainda testemunharmos analistas defendendo os sionistas e o doisladisno diante da catástrofe de relações-públicas que foi esta guerra para Israel. Ontem mesmo, Trump declarou que Netanyahu é um “carniceiro filho da puta”. Como sabemos que Israel só existe devido aos Estados Unidos, esta declaração parece ser a preparação de terreno para que os Estados Unidos deixem lentamente de dar apoio ao terror de estado patrocinado pelos sionistas. Não existirá paz no Oriente Médio enquanto houver Israel, seu colonialismo, seu racismo, seu apartheid, sua limpeza étnica e sua crueldade. Sua perspectiva de “paz” através de “negociações” em que os “dois lados” façam concessões é de uma ingenuidade inaceitável, que joga a favor do imperialismo, dos massacres, da submissão e que esta na contramão da história e da luta dos povos. Essa sua proposta nos enganou por 7 décadas, mas ninguém mais vai cair nessa arapuca.

Abraço.

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Censura e silenciamento

Como a história cansa de nos dar lições, censurar para esconder as contradições da realidade jamais será solução para nada. Na questão dos algoritmos e do bloqueio de fake news todo mundo acerta no diagnóstico, mas quando é para apontar a solução, continuam apostando na velha alternativa do silenciamento, na supressão e na proposta de não permitir que os “fascistas” (no nosso caso) e os “comunistas” (no caso deles) tenham vez e voz. No fundo, essa proposta é o que classifico como o velho “modelo materno”, que se aplica quando a mantemos os protegidos (as crianças) num estrato onde não têm autonomia por não possuírem ainda condições para se defender. É o que as professoras fazem na escola primária: protegem os alunos do bullying e das brincadeiras maldosas, como uma mãe o faria, porque sabem que são crianças indefesas. O problema dessa proteção é que os protegidos se tornam o objeto do nosso controle. Em nome da sua segurança, impedimos que se tornem sujeitos independentes, evitando que o mal chegue a deles Fazemos isso porque acreditamos na sua incapacidade de lidar com as agressões e ofensas. De novo, como qualquer mãe amorosa faria.

Todavia, chega um momento em que as crianças pedem que as mães não cheguem à porta da escola. O cuidado e o controle que elas recebem das mães (e aqui “mãe” é a função, não a “pessoa”) torna-se um fardo. Não querem mais proteção; querem liberdade. Nesse momento é que entra o “modelo paterno” que, ao invés de impedir a chegada do mal, reforça as qualidades intrínsecas do sujeito para que ele possa, por si, se defender. Assim, ao invés de proibir as piadas com gays, pretos, gordos ou narigudos, o esforço será em reforçar o orgulho de pertencer a qualquer uma dessas identidades. Da mesma forma, ao invés de proibir conteúdo de extrema-direita, a solução seria estimular a perspectiva de mundo do sujeito socialista, internacionalista e fraterno, na construção de uma nova sociedade, assim como mostrar o ridículo das posições fascistas, racistas, sexistas e todas as expressões do fascismo. Entretanto, sem calar, sem cercear, sem proibir, pois nossa experiência com os preconceitos – todos – e mesmo o próprio nazismo deixam claro que as proibições são inúteis.

Isso não significa que não se pode proibir nada. É proibido violar a lei, e para isso as leis são criadas. Entretanto, opinião não é crime, mesmo aquelas perspectivas mais abjetas, como as racistas ou anti-LGBT. Se as proibições motivadas pela sensibilidade do ofendido forem tomadas como lei, chegaremos rapidamente a 1984 de Orwell, onde um Xandão qualquer pode dizer que ser a favor de parto normal (ou ser comunista) pode levar à morte de pessoas (ou ao “genocídio stalinista”). Para se configurar o crime não se exige mais um ato; basta pensar em voz alta e emitir opiniões. Se estas manifestações – repito, mesmo as bizarras – forem passíveis de silenciamento a delicada tessitura da democracia e do livre pensar desaba, pois que a expressão das ideias vai acabar dependendo do humor e dos valores de um títere qualquer que detenha o poder de discriminar o bom do mau, o certo do errado.

Boa parte das pessoas (a maioria?) ainda acredita que “calar os maus” faz sentido. São os mesmos que acham que linchar um criminoso na rua em flagrante é justo, pois, afinal, por que esperar por toda a burocracia da justiça se podemos fazer um “atalho”? Acreditam ser possível combater o crime com mais crime – como fizeram Moro e a Lava Jato. Estes acreditam que, quando calarmos à força quem de nós discorda, estamos corretos, pois o silêncio que se segue nos dá a ilusão do sucesso. “Veja como acabou o racismo, ninguém mais fala mal de negros!!”, quando em verdade este e outros preconceitos continuam na alma dos sujeitos, e seu preconceito se expressa apenas em sussurros, nos cantos, nas surdida, mas vivo e atuante. Repito: de que adiantou calar os comunistas? Que ocorreu com a proibição do nazismo? Olhem a Alemanha de hoje e o sucesso da AFD (Alternativa para a Alemanha)!! Vejam o bolsonarismo, vivo e forte. Analisem a vitória do Milei e de Trump!!

As proibições e o punitivismo são tão sedutores quanto inúteis. Os Estados Unidos – à mais bem sucedida ditadura burguesa do planeta – têm 2 milhões de encarcerados. Se o silenciamento social desses indivíduos tivesse algum sucesso, era de se esperar a diminuição dos níveis de criminalidade e violência, não? Pois o que se vê é o oposto; a tendência no mundo inteiro é o incremento da violência pelo fracasso das promessas do capitalismo. Da mesma forma, o silenciamento da livre expressão de teses contrárias ao nosso entendimento jamais teve sucesso. O proibicionismo sempre fracassou como instrumento pedagógico. Mas cabe lembrar que “Vamos matar o presidente!!não é uma opinião, mas um claro incitamento ao crime. Confundir isso é uma constante naqueles que não gostam da liberdade de expressão. Estes são os mesmo que dizem que gritar “fogo!!!” em um cinema lotado deveria ser proibido, pois colocaria todos em risco, mas sem compreender que “fogo” não é opinião e não expressa uma perspectiva subjetiva e particular do mundo. Essa metáfora é usada até hoje por juristas que desejam limitar a liberdade de expressão, dizendo que ela não pode ser “absoluta”, mas falhando em determinar a quem cabe a decisão final.

Estes que aceitam a “censura do bem” acreditam que ela é justa porque partem da crença que possuem a perspectiva correta do mundo e por isso não haveria problema em silenciar os “errados”. Isso muda de figura quando alguém, um poderoso, um ditador ou um ministro direitista consegue impedi-lo de expressar suas ideias “corretas”.

Aí talvez aí resolva voltar às ruas para exigir liberdade.

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Justiceiros

Qual a religião você acha mais próxima de Deus? Aquela conduzida por pessoas “nobres e elevadas”, mas cujo caráter inexorável condena os pecadores ao fogo eterno, sem perdão, sem chance de recuperação e sem alívio para suas culpas? Ou você acredita na outra, comandada por escroques e bandidos fuleiros, fraudadores e pilantras, mas que abraça os condenados e lhes oferece a redenção pelo perdão e a chance de reconstruir suas vidas, inobstante o crime cometido?

Se a esquerda não conseguir compreender a sedução das religiões evangélicas no imaginário popular, jamais conseguirá ser um movimento verdadeiramente de massas. Quando vejo a luta feroz de membros da esquerda para manter na cadeia senhoras sexagenárias, jovens cujo crime foi bagunçar a sala dos ministros e de pedir um governo mais justo, e homens que quebraram objetos e levantaram a bandeira nacional, eu me pergunto se essa é a real postura da esquerda. Não estou me referindo aos militares golpistas, aos que planejaram o assassinato de autoridades ou aos financiadores, burgueses em suas fazendas e escritórios, que tentaram dar um golpe à direita. Falo do povão, das pessoas cansadas do capitalismo que expolia suas forças e seus ganhos, mas confundem isso com as questões morais – que são a pauta da direita.

O bordão “sem anistia” virou o mantra desta esquerda raivosa, sem entender que este grito de guerra vai acabar caindo sobre nossas cabeças, ao dobrarmos a esquina. E não apenas na política: setores identitários da esquerda condenam um treinador de futebol que cometeu um erro grave há 40 anos, não permitindo que ele tenha paz, atacando-o de forma violenta e incansável e negando a ele o direito a exercer sua profissão com dignidade. Para esses é fundamental atacar o sujeito, não seu crime!!! Admitem, para estes, a prisão perpétua, sem chance de recuperação. Enquanto isso, os evangélicos, mesmo que muitas vezes comandados pelos piores escroques, os mais contumazes pilantras e os mais abjetos mercadores da fé, abraçam mesmo os criminosos mais odiados – como o ator que matou a atriz – sem fazer perguntas, apenas pedindo o arrependimento e o compromisso de uma vida de regeneração.

O sujeito comum procuraria se abrigar naqueles que perdoam ou naqueles que condenam com ferocidade? Será que essa violência da esquerda, seu caráter inexorável, raivoso e punitivista, que quer colocar a todos na cadeia e que aplaude as ações abusivas de ministros do supremo, não está afastando o povo, o cidadão comum, o pecador, o sujeito falho e imperfeito, e jogando-os nos braços das religiões? Que projeto de pais é esse baseado na revolta e no ressentimento? Que esquerda é essa, que tanto quer sangue e vingança?

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Interesses conflitantes

Eu sabia há muito tempo que o Antony Blinken era cidadão israelense. Na época que descobri perguntei como podia um sujeito na sua posição – algo como o Ministro de Relações Exteriores – ter cidadania de outro país. É a questão que fica no ar: como um sujeito que serve a dois senhores se situa quando existem conflitos de interesses evidentes. Por exemplo, nas relações com os países árabes ou de inimigos de Israel. Existe um evidente constrangimento, pois um secretário de Estado de uma país não pode ter compromissos com outro, pois as chances de desacordos não são desprezíveis. O mesmo aconteceria se Bolsonaro conseguisse cidadania italiana quando teve essa ideia – e efetivamente tentou – para usar posteriormente como rota de fuga. Felizmente os italianos não caíram no truque. Como ele se posicionaria se houvesse alguma disputa com os italianos – como efetivamente houve há poucos anos no caso Batistti?

Outra questão é o fato de jovens judeus de outros países estarem combatendo no exército de Israel. É o caso do líder sionista no Brasil que atuou como soldado em Israel, André Lajst. Como permitem isso? E se o Brasil tiver um conflito com Israel? Como podemos aceitar um soldado de outro país aqui no Brasil, sendo cidadão brasileiro, com direito ao voto e até com a possibilidade de concorrer como candidato nas eleições, de vereador a presidente?

Por outro lado, a existência de um israelense como secretário de Estado americano, demonstra a força do lobby sionista nos Estados Unidos. Apesar de os judeus serem apenas 2.4% da população americana – por volta de 7,5 milhões de pessoas – seu poder é gigantesco, e se expressa através do dinheiro, capaz de comprar quase todos os parlamentares das duas câmaras americanas. Assim, se você não beijar a mão do AIPAC (o mais poderoso lobby sionista) sua carreira política é exterminada, seja porque não terá recursos para uma campanha milionária, seja porque haverá um empenho brutal na destruição de sua reputação por parte das redes de comunicação ou mesmo da brutal inteligência israelense – o Mossad. E não são poucos os exemplos de sujeitos destruídos por esse lobby.

Ou seja: a fachada democrática nos Estados Unidos, através de sua democracia liberal, serve para esconder uma evidente ditadura burguesa, um totalitarismo estabelecido pelo dinheiro, deixando o controle do país inteiro para frações minúsculas da sociedade, que comandam a vida de todos. Isso se expressa inclusive na imprensa americana, quase totalmente dominada por sionistas. As grandes redes são grandemente interessadas na manutenção de um entreposto americano no oriente médio, mesmo que às custas de limpeza étnica, colonialismo, apartheid, holocausto palestino e o assassinato sistemático de crianças e mulheres. Os Estados Unidos e Israel acabam produzindo, na prática, um único grande estado sionista, controlado por uma minoria de sionistas judeus e apoiado por cristãos americanos do “cinturão da Bíblia” que aceitam a mitologia supremacista e racista do “povo escolhido de Deus”. Para um país que tinha seu próprio Apartheid até meados dos anos 60 do século XX, isso em nada deveria surpreender.

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Ainda reclamamos aqui

Tenho visto nas redes sociais que os argumentos que criticam o filme “Ainda estou aqui” são equivocados em sua maioria, apesar de estarem corretos em um certo sentido. Isso ocorre em especial entre o pessoal da esquerda, que faz críticas injustas ao filme, muitas vezes usando chavões identitários. O que o Chavoso da USP (ativista de esquerda) argumenta em sua crítica, que assumiu certa notoriedade no YouTube, é que o filme não contemplou as camadas pobres da população, e só mostrou as dores de brancos e pequenos burgueses da sociedade de classe média carioca. Segundo ele, o que a família de Rubens Paiva sofreu nos anos 70 é o que os pobres sofrem, ainda hoje e cotidianamente, nas mãos da polícia. Os abusos denunciados no filme tomam relevância pela classe social dos protagonistas e pela cor de sua pele, enquanto os pretos e pobres continuam a receber o mesmo tipo de violência, mas sem a glamorização oferecida pelo filme.

Ora, não há como negar que a crítica é justa… mas não ao filme!!! A crítica poderia ser feita com propriedade à cinematografia nacional que não faz mais filmes para denunciar a barbárie aplicada sobre pretos e pobres que sofreram nas mãos da ditadura (e hoje nas mãos da polícia), mas não para um sujeito que pretende contar o sofrimento da sua mãe e sua família por conta do golpe militar que ocorreu no Brasil. Não cabe a um cineasta – ou um compositor, pintor, escritor – cobrir todos os aspectos possíveis de um drama qualquer. “Ora, o Rubens Paiva era carioca, e os gaúchos como eu, que sofreram nas mãos da ditadura, não serão representados? Ahhh, e ele era homem, e as mulheres presas e torturadas pela ditadura? E os gays, e os negros?

Poderia ficar horas citando todos os setores da sociedade e todas as camadas não contemplados pelo filme, mas sei o quanto isso é desonestidade intelectual. Um filme deve ser cobrado pelo que faz e diz e não pelo que não mostra – a menos que o filme sirva para esconder algo, ou ocultar a verdade por meio de uma perspectiva falsa. Digo isso porque nenhum filme ou obra artística tem a capacidade de dar conta de todas as perspectivas da realidade. Portanto, é possível que a crítica do Chavoso (entre outros) seja adequada sobre a produção do cinema nacional, pela importância do resgate da memória nacional do segmento mais pobre e sem voz do país, mas injusta ao criticar o filme por não mostrar tudo o que desejava ver.

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Celebridades

Para Roma com Amor

Creio ser curiosa, mas não surpreendente, a exaltação de uma moça que, por obra do destino, foi levada à ribalta das redes sociais por não ceder seu lugar no avião a uma criança que chorava pedindo acesso à janela. Diante da celeuma criada, ela foi o foco dos debates na Internet por alguns dias. Fotos suas de biquíni circularam pelos portais, foi comparada com a “fogueteira” do Maracanã (quem lembra?), deu entrevistas, debateu com a mãe da criança, fez declarações ao estilo “quem me conhece sabe” e viu multiplicar a grande moeda dos tempos atuais: o número de seguidores. Em outros tempos já teria em mãos um contrato da Playboy, as fotos seriam feitas num simulacro de avião e a manchete seria algo como “Viaje com ela na janelinha e veja o que ninguém viu”.

E tudo isso por quê? Ora, porque ela esteve em evidência, foi comentada, seu rosto foi visto, suas atitudes reverteram em visualizações – inobstante não haver boas razões para isso. Numa sociedade voltada ao espetáculo, é claro que aqueles que se destacam têm vantagem. As razões do destaque são desimportantes, e funcionam apenas como alavanca para o que é realmente significante: sobressair-se em meio à multidão de iguais.

O mesmo fenômeno ocorre na música. Quando um nome chega a ganhar notoriedade, muito se fala da trajetória da menina pobre até o estrelato, da sua fama, da fortuna, das novas rotinas e do número inacreditável de seguidores adquiridos nas redes sociais. Pouco ou quase nada se fala de sua arte, restrita à análise de poucos especialistas que procuram situar sua música em alguma corrente e dar a ela algum sentido e valor. Para a maioria, a identificação vai ocorrer por sua história, o caminho que precisou percorrer, a vida que tinha, os luxos da vida atual, seu coração simples, os amigos de outrora e a família.

Nossos heróis atuais não são aqueles que fazem algo, nem os que perseguem objetivos claros na ciência, na arte, na política, no esporte ou na literatura, mas pessoas tocadas pela graça de uma oportunidade fortuita. Um foguete no estádio, uma briga pela janelinha, uma roupa ousada na faculdade, uma participação no BBB já seriam suficientes para alçar o sujeito ao Olimpo da nossa atenção e admiração.

Woody Allen brinca com essa ideia no filme de 2012 “Para Roma com Amor” em que Roberto Benigni é agraciado com uma fama súbita por ser confundido com um ator famoso. Com isso é alçado à condição de celebridade por um tempo e passa a desfrutar de suas benesses, mesmo sem tem noção das razões que levaram a isso. No entanto, sua trajetória pela fama foi fugaz, pois logo depois outro cidadão desconhecido foi eleito para esta posição. Seu personagem encarna os milhões de celebridades instantâneas e fugazes da pós-modernidade, cuja fama sequer pode ser explicada.

Esta característica dos tempos atuais – a exaltação das individualidades – é uma marca dessa era de valores escorregadios, caracterizada pelo hiper individualismo que coloca o êxito pessoal – e a fama decorrente – como o ápice das aspirações humanas. O sucesso é algo que está no destaque recebido pelo sujeito, e não em suas obras e feitos. Entretanto, como tudo nesse mundo cíclico, esse modelo deverá um dia atingir seu desgaste e seu fim. Com o tempo veremos valor nos sujeitos cujas obras sejam em benefício de todos, em qualquer campo do conhecimento, e não na valorização de personagens vazios, meros produtos da indústria do entretenimento.

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Benedito

Um dos personagens que mais admiro no campo do conhecimento humano é o judeu holandês Baruch Espinoza. Não por acaso, eu o acho parecido com meu pai; alguns aspectos de suas vidas são semelhantes, em especial a coragem de enfrentar as opiniões majoritárias e manter-se firme em suas convicções, como fez o jovem Baruch. Foi esta postura que o levou a ser excomungado aos 23 anos pelas autoridades judaicas de sua cidade. Sua excomunhão vexatória e humilhante foi realizada através dos rituais judaicos, com todos os requintes de maldade que recaem sobre estas cerimônias:

“E que Adonai apague o seu nome sob os céus, e que Adonai o afaste, para sua desgraça, de todas as tribos de Israel, com todas as maldições do firmamento escritas no Livro desta Lei. E vós, os dedicados a Adonai, que Deus vos conserve todos vivos. Advertindo que ninguém lhe pode falar, pela boca nem por escrito, nem lhe conceder nenhum favor, nem debaixo do mesmo teto estar com ele, nem a uma distância de menos de quatro côvados, nem ler papel algum feito ou escrito por ele.” Este texto foi originalmente escrito em português, pois que a família de Baruch era de portugueses fugidos da inquisição ibérica que recebeu asilo nos Países Baixos.

O crime de Baruch Espinoza (que assinou seus trabalhos com o nome latino Benedito) foram seus escritos, os postulados a respeito de Deus contidos em seu livro “Ética”. Nesta publicação o jovem Espinoza defende que Deus é o mecanismo imanente da natureza, e que com ela se confunde. Além disso, agrega que a Bíblia é uma obra metafórico-alegórica, que não exige uma leitura baseada na razão e que, por ser uma criação simbólica, não pode ser a justa expressão da verdade sobre Deus. Seu axioma mais famoso foi “Deus, sive Natura” (Deus, ou a Natureza) que traduzia sua visão teológica monista. Para o jovem Baruch, Deus era a causa de todo o universo perceptível, sendo a Natureza tão somente as formas e atributos de Deus. Para ele, a “substância” é a única realidade que existe e é a causa de si mesma. Sustentou sua perspectiva teológica mesmo com as ameaças de excomunhão (na verdade, o Chérem, equivalente judaico da excomunhão católica) que acabaram se efetivando em 27 de julho de 1656. Despido, humilhado e sem família, refugiou-se no sótão de uma bondosa senhora que o abrigou até sua morte em 1677, provavelmente por silicose ou tuberculose, com apenas 44 anos. Neste seu período de ostracismo e isolamento trabalhou como polidor de lentes, recusando todas as ofertas de trabalho acadêmico. Hegel dizia ser ele o divisor de águas da filosofia: “Ou você é espinozista, ou não é filósofo”, enquanto Deleuze afirmava que Espinoza era o “príncipe da filosofia”. Einstein adotou o monismo de Espinoza quando perguntado se acreditava em Deus.

Baruch Espinoza morreu aos 44 anos, vítima de suas verdades. Foi sacrificado no altar das conveniências, atacado por desagradar às autoridades, chamado de “ateu”, humilhado publicamente, rechaçado e desprezado em seu tempo. Manteve altiva sua postura, guardando fidelidade às suas ideias e oferecendo aos seus detratores e inimigos o perdão. Soube honrar seu curto tempo de vida oferecendo ao mundo suas ideias, deixando a paixão pela filosofia como um legado a influenciar muitos que o seguiram. Isto é, provavelmente, o que Hahnemann queria dizer quando falou que o maior propósito de restaurar a saúde seria a possibilidade de “atingir os altos fins de uma existência“. O mundo está repleto de Beneditos de muitas nacionalidades, muitos deles jamais conheceremos. Todavia, mesmo aparentemente solitários e insignificantes, seu exemplo de vida poderá ser a semente a germinar em um bravo coração.

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Desespero

É possível entender as razões pelas quais as pessoas estão idolatrando Luigi Mangione, o garoto americano que eliminou o chefão da empresa de saúde privada UnitedHealthcare , Brian Thompson. Também é claro que essa idolatria é aumentada pelo fato de do rapaz ser atlético, bonito, inteligente e (supostamente) de esquerda. Ele assume a posição de um “anti-herói cultural” do nosso tempo, um “vingador” que tomou para si as dores de milhões de americanos que se sentem traídos por estas empresas sanguessugas. É possível entender também que tudo isso é decorrência da raiva acumulada da sociedade americana pelos personagens à frente de tais empresas; as piadas, os memes e os gracejos que se seguiram a este ato tresloucado fazem parte desse contexto, mesmo que seja inadequado fazer festa pela morte de uma pessoa, seja ela quem for. Um sujeito que lidera um conglomerado de empresas assistência médica nos Estados Unidos que, para gerar lucro aos seus acionistas, diminui o quanto pode suas despesas negando sistematicamente atendimentos e coberturas para pessoas doentes, só poderia ter uma imagem péssima diante da população. Esse é o mesmo tratamento historicamente dado aos sujeitos que vêm cortar sua luz por falta de pagamento ou a para os condutores da “carrocinha” que pegava cachorros de rua. São posições ingratas, malvistas e estigmatizadas, sobre as quais recai o preconceito e a hostilidade do povo.

Por outro lado, esse fato demonstra de forma dramático um fato sobre o qual me debruço há 30 anos. Quando eu visitava os Estados Unidos para participar dos encontros do CIMS – Coalition for Improving Maternity Services – (Coalizão para Melhoria dos Serviços de Maternidade) muitas vezes descrevi para uma plateia de ativistas do parto o nosso sistema universal de assistência à saúde – o SUS. Era impressionante perceber o brilho no olho das ativistas dos Estados Unidos quando eu explicava coisas simples, como a atenção gratuita nas emergências, cirurgias cardíacas complexas, transplantes, medicamentos e – em especial – a atenção ao parto, oferecidos de forma “gratuita” para a nossa população, e até para os visitantes. Coloquei aspas no “gratuito” porque bem sabemos que o sistema no Brasil é pré-pago: tudo que você recebe como atendimento à saúde foi previamente pago através do desconto no seu salário, para garantir dignidade na atenção à doença e aos ciclos da vida.

Uma pesquisa realizada pelo Marist Institute for Public Opinion a pedido da emissora NPR, rádio pública norte-americana, indica que a grande maioria, 83% dos cidadãos daquele país, considera a atenção à saúde um direito essencial básico, e que deveria ser de acesso universal a toda população. O estudo também perguntou se esse direito deveria ser garantido pelo Estado e uma expressiva maioria de dois terços dos entrevistados responderam afirmativamente. Ou seja: a imensa maioria do povo americano deseja uma saúde universal, com amplo acesso para toda a população, mas isso não ocorre porque os governos americanos – de qualquer partido – são controlados pelas empresas de seguro médico que lucram com a exploração da doença. O lobby feito por estas corporações é violento e se expressa através dos financiamentos de campanha, a exemplo do que ocorre com o controle dos sionistas sobre o parlamento.  Não por outra razão, médicos ganham milhões em subsídios da do AIPAC, da indústria farmacêutica e das empresas de assistência médica privada.

Assim, não se trata de uma questão “moral”, onde um bando de gananciosos especuladores capitalistas lucram com a desgraça alheia; isso seria por demais ingênuo. A questão muito mais profunda do que eleger culpados e sair eliminando-os com ações heroicas. O problema central é a incapacidade da democracia liberal em transformar as legítimas aspirações populares em ações de governo. Isso ocorre porque, apesar da aparência de liberdade, o modelo capitalista deixa os governos atrelados aos poderosos interesses do mercado, dos conglomerados financeiros, dos rentistas e da burguesia. A estes não interessa que o cidadão americano tenha saúde como direito universal, ou que a saúde da população seja uma obrigação do Estado. Para eles a saúde é mais um produto nas prateleiras; compre quem tiver dinheiro.

Por outro lado, apesar de entender a atitude do jovem que fez justiça com as próprias mãos, não é possível aceitar que a solução dos problemas da assistência médica de um país ocorra mediante justiçamentos ou linchamentos. Nada justifica um assassinato e os mandatários destas empresas são apenas a cara bem barbeada de gigantescos impérios econômicos. A atitude do garoto significaria o mesmo que atirar no gerente do supermercado porque os preços aumentaram. A solução de problemas sistêmicos só pode ocorrer por meio de ações sistêmicas, que revolucionem o modo de produção, que acabem com a propriedade privada dos bens de consumo, derrubem o modelo econômico e garantam não apenas saúde, mas moradia, alimentação, segurança e transporte para todos. Somente essas mudanças poderão retirar o cidadão comum da condição de refém de um sistema ineficiente e incapaz de gerar bem-estar para a grande maioria da população.

Se alguma lição podemos tirar da morte brutal de um empresário do ramo da saúde é que a insatisfação da população com um modelo que lucra com a doença está chegando no seu limite. Por isso é preciso que algo seja feito para mudar esta realidade, antes que atitudes desesperadas como essa se repitam. Não haverá seguranças suficientes para proteger pessoas tão odiadas, representantes da falência do capitalismo em oferecer dignidade aos doentes. Entretanto, sair por aí matando empresários como pura expressão de ódio, indignação e desespero jamais será o melhor caminho.

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Império em queda

Hoje assisti um vídeo exaltando os Estados Unidos mediante uma estratégia conhecida: o preço mais baixo de produtos como carros, televisores, aparelhos eletrônicos, etc. comparando o poder de compra do trabalhador de lá com os salários pagos aqui no Brasil. O articulista analisava esses valores como se não houvesse um sistema internacional que privilegia a transferência de riqueza para o centro do Império, tornando os produtos lá mais baratos e o salário dos técnicos mais altos. Reduzia a sua análise ao conhecido “o liberalismo produz bem-estar”. Esquecia que a dolarização é o imposto que o mundo inteiro paga para que o cidadão comum americano tenha um poder de compra maior.

É impressionante a incapacidade da nossa classe média de desenvolver consciência de classe. Continuam achando que estão próximos da burguesia e longe dos assalariados e proletários, quando a realidade é o oposto. Enquanto isso, acreditam que os problemas brasileiros, e de resto de todo o sul global, são os impostos excessivos ou os “maus políticos”, como se nos Estados Unidos não estivessem reunidos os políticos mais corruptos do mundo – basta ver o perdão ao filho do presidente Biden, corrupto condenado e que recebeu um indulto imoral e injusto, mostrando que as pessoas não são julgadas de forma equilibrada. As pessoas aqui ao sul do equador não conseguem ver que o valor pago para um trabalhador da construção civil ou para um atendente do Mac Donald’s tem a ver com o dinheiro que circula no país e a transferência de renda para a centralidade do capitalismo, e não com o sistema político ou o valor baixo dos impostos embutidos nos produtos, como carros, televisores, computadores e lanchas. Isso não é sinal de equilíbrio, mas de opulência.

Em Nova York, a média salarial de um engenheiro civil é de 97 mil dólares por ano, enquanto na China comunista é de 108 mil anuais; lembrem que no comunismo chinês os cidadãos também pagam impostos, e não esqueçam que a China se tornou uma nação rica e poderosa apenas nos últimos 30 anos. Além disso, as pessoas que apontam a inexistência de um sistema de saúde universal como o SUS nos Estados Unidos estão corretas. Neste ano de 2024, 500 mil famílias pediram insolvência jurídica pela incapacidade de pagar as contas médicas. Meio milhão de famílias faliram devido ao valor absurdo de suas contas de hospital!! Pessoas morrem por falta de remédios e muitas preferem se arrastar acidentadas até um táxi do que chamar uma ambulância quando ocorre um acidente, pois a viagem com uma ambulância particular pode custar a totalidade do seu salário. Não é por acaso que Brian Thompson, CEO de uma das maiores empresas de saúde do mundo, foi assassinado por um jovem que teve benefícios negados por sua empresa. A companhia UnitedHealthcare, a unidade de seguros do provedor de serviços de saúde UnitedHealth Group, é a maior seguradora dos EUA, mas o cidadão médio americano odeia as empresas que lucram com a saúde, e por isso o suspeito do crime está sendo tratado como herói pelas redes sociais.

De acordo com registros do ano passado, mais de 650 mil pessoas não tinham moradia nos Estados Unidos, morando em barracas, em especial nas ruas das grandes cidades americanas, como Los Angeles. Com o estresse constante pelas guerras infinitas e pela estrutura competitiva da sociedade, a epidemia de opiáceos mata mais de 80 mil pessoas por ano. Enquanto um engenheiro civil nos Estados Unidos pode ganhar 9 mil dólares mensais, milhares de trabalhadores regulares não conseguem ganhar o suficiente para pagar um aluguel e moram em seus carros. No país mais rico do mundo, 400 mil pessoas vivem em seus veículos, muitos deles com contrato de trabalho regular. Essa exaltação do “American way of life” é anacrônica, datada, velha e equivocada. A disparidade de riqueza atingiu seus limites mais altos da história. Com o fim da dolarização que se acelera e deverá ocorrer nos próximos anos, a crise será incontornável e o cenário mais óbvio será a guerra civil – que só não ocorreu ainda porque Trump venceu as eleições.

É triste ver tanta gente tola achando que a solução é cortar impostos e ter menos políticos. Sabem onde não há impostos? Coreia Popular. Sabem onde político trabalha totalmente de graça, sem receber nenhum salário? Em Cuba. Enquanto perdemos tempo debatendo preço de carro, como se isso fosse um indicador de felicidade, esquecemos que 20 mil pessoas morreram assassinadas nos Estados Unidos em 2023. No “Brasil capitalista” houve 45 mil homicídios em 2021, enquanto na China, menos de 7 mil, para uma população de 1 bilhão de habitantes. No Japão menos de 300 pessoas pereceram dessa forma. Que sociedade de opulência, felicidade e valorização de trabalhadores é essa em que tanta gente mata?

E a drogadição? O que dizer da dependência de remédios – em especial os estupefacientes – da sociedade americana? O que dizer de uma sociedade cujos programas na TV tem propaganda de drogas e advogados o dia inteiro? Metanfetamina, crack, cocaína, Fentanil, etc. são problemas de saúde pública gravíssimos. Os Estados Unidos são uma sociedade que tem 4 milhões de usuários de cocaína, e as mortes pelo uso de drogas batem recordes todos os anos. É essa sociedade que desejam mostrar como exemplo? Só porque os carros – que matam 40 mil todos os anos nas estradas americanas – são mais baratos? Isso significa uma sociedade mais equilibrada, mais progressista e onde existe a valorização do trabalho?

O capitalismo e o imperialismo são sistemas moribundos, cadáveres insepultos, mas ainda é possível ver aplausos para um modelo que não consegue resolver suas contradições, como a concentração acelerada de riquezas e a criação de uma legião de miseráveis distribuídos pelo mundo. Há, sem dúvida, valores e virtudes naquele país – como a defesa da liberdade de expressão – mas é um modelo de sociedade que não conseguiu resolver os problemas centrais da economia capitalista, conforme previu Marx ainda no século XIX, e precisa ser substituído por um sistema mais justo e que ofereça qualidade de vida para a maioria da população, e não para uma minoria de capitalistas cada vez mais concentrada.

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Histórias médicas

Há basicamente três tipos de escritos médicos que eu me acostumei a ler, tanto na literatura em geral quanto na internet. Existem milhões de textos nessas categorias, e não poderia ser diferente. Ao lidar com a vida, a morte e todas as manifestações da libido, não seria possível à medicina deixar de produzir escritos sobre a profusão de emoções que permeiam as consultas e tratamentos, desde os encontros em consultório até as cirurgias sofisticadas e complexas que são correntes na atualidade. Poucos lugares são mais privilegiados para entender o drama da vida humana do que aquele onde se encontram os guardiões da doença e do sofrimento, da redenção e da cura. Não à toa, grandes literatos foram médicos, como Moacyr Scliar, Arthur Conan Doyle, Anton Tchekov, Ferdinand Céline, Oliver Sacks, William Somerset Maugham, François Rabelais, John Keats, etc…

O primeiro tipo de texto que eu reconheço é o escrito técnico, não o trabalho científico academicamente estruturado, mas aquele onde o objetivo é expor um caso clínico, uma história que ocorre ao redor de um diagnóstico e um tratamento, mesmo que envolto por reflexões de ordem filosófica ou ideológica. Nestes, o centro é a patologia, a doença, a enfermidade como um ente que se apossa do sujeito, toma conta dele e, por fim, o faz sucumbir – ou se salvar, normalmente pela ação médica. Nestes casos a patologia é a protagonista, como uma sombra maligna que ameaça o sujeito que, desesperado, se joga nos braços da medicina em busca de salvação.

O segundo tipo tem como foco o paciente. Durante anos me acostumei a ler histórias onde médicos escrevem sobre as curiosidades que os pacientes lhes contam. Por vezes o paciente é tratado como ingênuo, desatento, inculto, que trata suas doenças por nomes curiosos e “errados” e traz à consulta fantasias sobre o funcionamento do corpo. Diz coisas “engraçadas”, como “operar-se da pênis” (o apêndice) ou que teve “febre interna”. A descrição dos clientes é muitas vezes jocosa e, por vezes, desrespeitosa. Por certo que existem também as descrições de dramas, visões pessoais, dilemas terríveis, alegrias esfuziantes e as perspectivas dos doentes sobre a própria doença e a morte. Na área do parto e nascimento são muito frequentes as descrições do parto quem têm como foco as lutas do casal por uma gestação digna, os dilemas da gestação, a busca pelo protagonismo, as escolhas pelo parto normal, a decisão pelo local de nascimento, a luta contra o sistema e os resultados colhidos nestes desafios.

O terceiro grupo é sobre o próprio médico. Neste tipo especial de texto, o médico é o centro das histórias e é sobre sua atuação que gira o núcleo dramático da narrativa. Sua atenção, a precisão do diagnóstico, a descoberta da doença rara, a paciência, a argúcia, a persistência, a coragem são valores que frequentemente aparecem nessas descrições. Também é usual o paternalismo típico do discurso médico, a postura bondosa e condescendente e as narrativas heroicas, onde o médico é travestido de super herói, que sacrifica seu tempo, sua saúde e sua família em nome da cura dos seus pacientes.

Neste último grupo, e bem mais raro, se encontram os textos que estimulam posturas críticas em relação à ação da medicina e ao próprio proceder médico. Essas são as narrativas mais importantes e de qualidade superior, pois que pressupõem a coragem de tocar nas próprias feridas, tanto sobre o significado último da arte médica na cultura quanto nas fragilidades do médico, seus medos, suas angústias, suas aspirações, seus desejos e suas fantasias de onipotência. O profissional que tem a coragem de se olhar no espelho e descrever a si mesmo com a dureza necessária já é merecedor de toda admiração. Poucos ousam apontar suas máculas e falhas; aqueles que o fazem, demonstram força e um singular senso de integridade.

Não há dúvida que a medicina é um palco especial para as narrativas da vida. Ela está presente no seu início e no seu fim, com um olhar especial sobre as pontas da nossa curta passagem por este plano, mas também sobre todos os percalços dessa travessia complexa e tortuosa. As reflexões dos médicos se tornam extremamente criativas quando quem as escreve se afasta do ufanismo arrogante do “salvador” ou do “abnegado curador” e se aproxima do sujeito com todas as fragilidades humanas a quem foram oferecidas as ferramentas de um saber milenar para levar adiante seu ofício. O médico sofistica sua escrita quando descreve o choque entre o saber do médico e os dramas e dores do seu paciente como um encontro de almas, pois é dessa matéria única que são feitas as consultas.

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