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Luta

Ric Jones, candidato ao Senado – PCO

Sim, vamos à luta

Mais uma campanha eleitoral está prestes a começar. Devemos nos preparar para o mesmo tipo de campanha que existe no país há muitas décadas, baseadas em pirotecnia, alarmismo, acusações falsas, negativismo, etc. Vejo os políticos dizendo tudo o que já foi dito, com os mesmos clichês e ataques pessoais aos demais candidatos. Ao seu lado, dando a eles suporte, existe um exército de ressentidos que agora querem sair do anonimato, falando as velhas tolices. No nosso campo, é claro que teremos que escutar as mesmas lorotas anti-comunistas dos anos 60. A educação popular em torno das ideias socialistas é um campo muito difícil, pois temos que nadar contra a corrente da ideologia dominante. Apesar disso, continuamos, pois o tempo continuou sua marcha contínua, o capitalismo já mostra sua falência inconteste, o imperialismo torna evidente sua face autoritária e assassina e os países da periferia como Irã, China, Rússia – e até o Brasil – começam a assumir protagonismo no mundo que, lentamente, se torna multipolar.

Apesar disso, uma fração da classe média ressentida sempre vai achar erro nesta trajetória, saudosa do tempo em que os apartamentos já vinham com dependência de empregada e que os serviços eram baratos porque as pessoas pobres não tinham como negociar o valor do seu trabalho. Esses personagens envelhecidos acreditam que havia virtude no modelo semi-escravocrata, determinado pelo berço, onde o sujeito branco e de classe média podia usufruir as benesses de um capitalismo em expansão e onde o emprego ainda crescia. Esse mundo acabou, e essa garotada que tinha dinheiro para ficar em casa tocando guitarra agora tem raiva da nova cara do mundo.

Estes que antes se deleitavam com o ciclo de crescimento capitalista agora percebem, com rancor, a decadência inescapável da sociedade de classes e da propriedade privada dos meios de produção. Um novo mundo precvis nascer, mas o velho teima em parmanecer, como alertava Gramsci. Porém, os velhos ressentidos são sempre tristes; já a política deve ser feita de esperança e desejo. É só por isso que resolvi dar a cara a bater e participar de algo que jamais pensei durante toda a vida: concorrer a um cargo eletivo. Meu objetivo é mostrar no ideário do PCO sua absoluta vinculação com uma postura antissistema, baseada na necessária ruptura com as velhas amarras do capitalismo, como a sociedade de classes, a opressão do homem pelo homem, a propriedade privada dos meios de produção e os engodos criados pelo imperialismo, como o identitarismo, usados para dividir nossa luta.

Se existe algo realmente diferente nas eleições, por certo que poderemos encontrar entre aqueles que abandonaram as ilusões do liberalismo, tanto à esquerda quanto à direita. Não vamos encontrar a ruptura necessária para um novo caminho entre aqueles que há décadas dizem o mesmo, e fazem dos ataques, das lacrações e dos ataques pessoais seu principal (por vezes único) discurso.

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Cavalo de Troia

A confusão entre a necessária defesa das mulheres, dos negros, dos gays, etc. com os princípios do identitarismo está na raiz do apequenamento das esquerdas no mundo todo. Esse engano levou à destruição parcial das lutas das esquerdas e o fortalecimento de grupos como incels e redpils. Veja o que viraram alguns partidos de esquerda, que foram originalmente revolucionários, mas que se tornaram agrupamentos identitários, cuja função é dividir e fragmentar o campo das esquerdas, produzindo partidos frágeis e sem norte.

Muitos confundem a luta pelos negros, mulheres, gays, etc. com luta identitária. Isso é um erro. Para um comunista a defesa destas identidades só vai ocorrer com a mudança do sistema econômico, com o fim da sociedade de classes e da propriedade privada dos meios de produção. Porém, os identitários se contentam com a “representatividade” e com vantagens e melhorias para suas tribos, seus grupos, suas identidades, e não para o conjunto da classe trabalhadora.

Essa manobra divisionista foi criada nos laboratórios da direita mundial por pessoas como George Soros e Bill Gates e por marqueteiros maquiavélicos como Steve Bannon. Não por outra razão estas grandes instituições internacionais financiam ONGs identitárias, pois sabem que elas funcionam como muros de contenção para as reivindicações do proletariado organizado. Desejam enfraquecer o movimento operário, fragmentando-o em grupos minúsculos que, ao invés de odiar as classes opressoras – os capitalistas – odeiam-se mutuamente. Assim o problema das mulheres são os homens, o dos negros são os brancos, dos gays são os héteros e dos trans são os cis. Assim, todos estes grupos perdem o foco, afastam-se da luta pela união das forças produtivas e deixam de perceber que todos estes personagens da cena social são igualmente explorados pela burguesia.  Como diria Júlio Cesar, “Divida e conquiste”, pois enfraquecidos são facilmente controláveis.

O identitarismo é o cavalo de Troia da direita enviado para as esquerdas.

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Terror

Muitos associam, anda hoje, o ativismo palestino com o terrorismo, um fenômeno dos anos 80. Citam o recente ocorrido em 7 de outubro, os homens bomba dos anos 80 e o ataque aos atletas olímpicos de Israel. Sim, esta última foi uma ação heroica e arriscada de um comando Palestino contra atletas de Israel em Munique. Não vou justificar ações terroristas, por certo, mas o que sempre me impressiona com as pessoas que criticam o terrorismo (que deve ser mesmo questionado) é porque nunca se perguntam as razões pelas quais jovens realizam ações desta natureza, inclusive suicidas. É como se chamá-los de “loucos” ou “fanáticos” fosse suficiente para explicar a motivação para tais atos.

A resposta está no “fugdán al-amal”, um termo usado na Palestina para descrever uma sensação de profunda desesperança e a perda da vontade de viver. Este estado de espírito se segue aos traumas psíquicos decorrentes da morte das pessoas a quem amamos. Por isso os exemplos dados, como 7 de outubro e as Olimpíadas de 1972 soam tão ridículos e até infantis porque dão a entender que as ações terroristas surgiram do nada, criadas por geração espontânea, tão somente pela “maldade” ou “crueldade” de “fanáticos”. Seriam levadas à cabo por sujeitos degenerados movidos por crenças místicas.

Quem afirma isso não entende nada de seres humanos e apenas desnuda um profundo desconhecimento da realidade Palestina. Não há mais como negar a realidade. Hoje em dia o que era escondido foi tornado visível com o advento da Internet, em especial o genocídio Palestino, os ataques terroristas à Cisjordânia e a destruição de Gaza. Acreditar que o motor da reação palestina é o “fanatismo” não passa de uma ofensa à memória das décadas de horror contra o povo palestino.

Na verdade, para a ocorrência dos atos de terror como estes citados é preciso que a situação seja tão deteriorada e humilhante que até atos extremos e terríveis como estes passam a fazer sentido. Até mesmo a mais primitiva das pulsões – a preservação da própria vida – se torna desimportante diante da dor e da desesperança. Somente depois de anos de assassinatos, mortes, sequestros, violência, abusos e humilhações estas ações passam a fazer sentido no campo simbólico de um povo. Esta é a linha final de um sofrimento insuperável, não seu início.

Eu pergunto: se você tivesse seus pais mortos num bombardeio covarde, sua mulher abusada por soldados num check-point, seus filhos espancados indo para a escola, seus irmãos presos e estuprados numa masmorra de Israel e sua vida fosse miserável desde as suas primeiras e mais remotas lembranças, não consideraria um ato extremo de terror, diante da evidência de que nada que foi tentado resolveu a sua dor e nada impediu o massacre continuado ao qual seu povo é submetido?

Responda com sinceridade…

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Arquivado em Causa Operária, Palestina

Já pensou?

Vejo as publicações nas redes sociais versando sobre a disputa eleitoral marcadamente centradas naquilo que pouco interessa. Defensores de ambos os lados gastam tempo insistindo na luta entre esquerda e direita, Lula x Bolsonaro. Quando vão acordar para a inutilidade disso? É claro que Bolsonaro representa a entrega do país aos Estados Unidos, e também é certo que Lula patina porque teme romper os laços com a direita mais trevosa e oportunista, da,qual é nitidamente um refém. Sim, a tal da governabilidade.

O problema é que as questões morais – via de regra falsas ou adulteradas – ocupam o lugar central do debate, o qual deveria ser estrutural. Isso me lembra as disputas no campo político do imperialismo. Democratas e republicanos se digladiam ferozmente sobre pronomes, direitos gays, ajuda aos pobres e a conduta moral dos representantes. Nesse contexto produzido por pura propaganda e pouca realidade, Obama é considerado moral e correto por ser casado há anos com a mesma mulher, e nao ter escândalos sexuais no seu governo (ao contrario de Clinton, Biden e Trump) inobstante a carnificina que protagonizou em 7 países, sendo responsável pela morte direta ou indireta de milhões de pessoas. Já Trump é considerado canalha pelas tolices e pela falta de respeito com as mulheres, mesmo que – em essência – seja tão imperialista, racista, machista e maligno quanto qualquer um dos outros presidentes que o antecederam.

Quando observamos de fora, daqui do sul global, que diferença pode haver entre presidentes que, apesar de condutas pessoais e trajetórias distintas, abraçam o imperialismo, a cultura da força, o belicismo e a opressão econômica como uma religião comum? Nenhuma. Por isso cabe a pergunta: que diferença estrutural pode haver com a vitória de qualquer um dos candidatos à presidência, se ambos se ajoelham diante do Deus mercado e das questões de classe?

Nao é por outra razão que no Brasil devemos abandonar com coragem e determinação as discussões estéreis sobre a moralidade dos atores políticos. Se houver crime, que a polícia avalie. Para o campo popular é preciso radicalizar à esquerda se quisermos fazer a diferença. Nada de acertos espúrios, de conchavos, de agrados à grande imprensa ou ao sistema financeiro. Precisamos de um choque popular de caráter socialista e humanista, sem concessões ao mesmismo das disputas entre esquerda liberal e direita neoliberal. Nossa resposta deve ser de oposição à burguesia e à sociedade de classes. De verdade, sem atalhos.

Já pensou?

* na imagem minha Camélia carregada de flores vermelhas anunciando um futuro mais humano, mais fraterno e socialista.

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Democracia chinesa?

Quando influencers da direita brasileira falam da “ditadura chinesa” eu logo penso: esse cara nunca foi à China, nunca estudou o modelo chinês, não sabe como é o sistema eleitoral de lá e nem como funciona o sistema de participação popular da China. Talvez não saibam sequer apontar a China no mapa. Eles certamente desconhecem que a China tem 8 partidos políticos, que a organização partidária é livre e que existem partidos que inclusive defendem a volta ao capitalismo. Por certo que diante do sucesso espetacular do socialismo chinês e do fracasso retumbante do capitalismo ocidental (em especial o do Brasil) não haveria como este último ser muito popular. Não se trata de idolatrar o sistema chinês que, como construção humana, é cheio de falhas, como se poderia esperar. Entretanto o fetiche liberal com a China é revelador das próprias fraquezas do capitalismo.

Lembrem apenas que no ano 2000 o PIB da China era igual ao do Brasil. Por que estagnamos e a China já tem até naves pousadas na lua? Por que o salário médio chinês é maior do que o brasileiro há mais de uma década e semelhante ao americano? Sim, as empresas (como a Apple do IPhone) não vão para lá para economizar em mão de obra, mas pela qualidade do trabalhador chinês e pela quantidade de engenheiros altamente capacitados.

Dizer “ditadura chinesa” é prova de ignorância e fanatismo, fruto do desconhecimento sobre o país que lidera a tecnologia no mundo e não precisa estabelecer seu papel no cenário tecnológico mundial distribuindo exércitos e ameaçando países.

Que miséria!!!

Por que continuam com essa retórica atrasada, mística e religiosa sobre a democracia liberal? Pensem que esse tipo de “democracia burguesa” só permite que chegue ao poder quem concorda com os ditames da burguesia, os donos, os latifundiários e os proprietários dos meios de produção. A todos os outros é vedado o acesso. Veja o Brasil onde mesmo um presidente que se negasse a assumir uma postura de esquerda é constantemente ameaçado, e onde uma presidenta sofreu um golpe por nao agradar os conservadores.

Analisem também os Estados Unidos cujos dois últimos presidentes são clinicamente diagnosticados como dementes, mataram por volta de 10 milhões de pessoas em guerras fora do seu país e  condenam boa parte do país à pobreza, à miséria e à desassistência. A burguesia elege presidentes dementes, que podem iniciar uma guerra mundial!!! Pensem no Brasil que elegeu Bolsonaro, um sujeito cujo filho se refugiou nos Estados Unidos para fugir da justiça. e que disse “I Love You” para Trump, produzindo uma brutal humilhação.

Enquanto isso, estudem a biografia do presidente Xi, que antes de ser presidente passou 40 anos trabalhando nas administrações de cidades e estados do seu país. E mais, para quem acha que o modelo chinês é uma ditadura, reconheçam que nenhum país fez tantas mudanças estruturais e políticas como a China nos últimos 20 anos, muito mais do que qualquer país europeu. Tais mudanças sempre foram guiadas pelo interesse dos chineses, com participação direta popular. Os Estados Unidos é muito menos democrático que a China, pois tem um partido único composto de duas alas, que se intercalam no poder. Esses partidos se unem no culto ao imperialismo e na doutrina do “destino manifesto”, e por isso são parceiros em todas as guerras. Da mesma forma os partidos de Israel se unem no sionismo e na destruição dos palestinos como a cola nacional. Não há real democracia em ambos os países.

Para conhecer a China, perguntem para quem estuda o modelo chinês. O professor Eric X. Li tem uma excelente palestra sobre o tema.

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Consentimento

Na perspectiva do médico o corpo dos pacientes – não só o corpo da mulher – reveste-se de um caráter objetual, observado e tratado como um “corpo real”, diferente de um corpo animado – com alma. Diante do profissional não está uma pessoa, com suas idiossincrasias, histórias e características, mas o objeto que ele deseja tratar, consertar ou apenas examinar.

Esse é o paradigma médico, o modelo de intervenção sobre a economia do corpo que é ensinado na escola médica. Para romper esse modelo de pensar e encarar o outro é necessário fazer uma reflexão bem mais complexa. Para re-humanizar o paciente – tornado objeto pela medicina – é preciso focar na sua condição de sujeito e reinventar um indivíduo que possui soberania sobre seu território mais elementar: seu próprio corpo. Acreditem, isso não é fácil, muito menos simples. Abstrair a humanidade dos clientes ajuda a suportar a carga emocional que estes depositam nos médicos. O peso se torna mais leve para carregar quando retiramos dos pacientes aquilo que os aproxima de nós: sua condição humana.

Perceberam quantos médicos existem que procuram especialidades nas quais o paciente só existe como referência, não em presença real? Ora, isso ocorre porque a tarefa mais complexa da medicina não é a do cientista no laboratório analisando tecidos, imagens ou pesquisando doenças de letras miúdas, mas o contato cotidiano com o universo que habita cada narrativa de dor, angústia e sofrimento. Do choque dessas narrativas com o seu sofrimento pessoal surge a angústia por identificação.

Entretanto, acho mesmo que a melhor maneira para um estudante de medicina entender o drama do “paciente enquanto sujeito” é mergulhando nesta condição, sentindo a dor da impotência e da submissão inerentes a esta posição subjetiva. Assim como, via de regra, a dor só se aprende quando a sentimos na carne, o respeito ao paciente só é plenamente entendido quando nos colocamos no seu lugar e vestimos seus sapatos.

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Fora da URSAL

Já fui muitas vezes a Buenos Aires. Aliás, foi lá que levei Michel Odent para o meu quarto de hotel e fiquei a noite conversando com ele, mas isso eu explico no meu próximo livro. Mas lá fui agredido na rua por falar português e já fui chamado de “muerto de hambre” quando caminhava na capital e nos escutaram conversando na nossa língua. Na Copa América nos chamavam de “macaquitos”, até mesmo eu, um branquela azedo. Não é por acaso a ligação da Argentina com Israel, e também não é de agora. Foi na Argentina que Eichman se escondeu, e para lá foram muitos nazistas. Essa conexão não ocorre apenas pela grande população judaica de lá (maior que a brasileira em um país 5 vezes menos populoso) mas porque os projetos nacionais são parecidos: tanto na Argentina quanto em Israel houve a proposta de uma colônia europeia encravada em solo indígena e a estratégia dos colonizadores foi de aniquilar sua cultura e destruir seu patrimônio étnico e linguístico, ao contrário de produzir sincretismo e miscigenação como encontramos aqui, apesar dos nossos pecados igualmente condenáveis no processo de criar o que se chama Brasil.

Se não há como “condenar a nação por umalguns vídeos que circulam na Internet” também não dá para passar pano para o racismo que perpassa a história da Argentina desde o massacre dos Quilmes. Este massacre, e o posterior exílio do povo Quilmes, ocorreu em 1667, durante as Guerras Calchaquíes, no norte do país, na província de Tucumán. Após resistirem bravamente às invasões espanholas por mais de um século, os indígenas foram rendidos pela fome, enviados como escravizados e forçados a uma marcha mortal de 1.200 km a pé até Buenos Aires. Já no século XIX, ocorreu o projeto de embranquecimento promovido pelos presidentes argentinos da virada dos séculos XIX e XX. Os principais foram Domingo Faustino Sarmiento, presidente mais frequentemente associado à ideia de “europeização” da Argentina, que defendia a dicotomia “civilização versus barbárie”, na qual associava a civilização aos povos europeus e via indígenas, gaúchos e outros grupos como obstáculos ao progresso. Igual a ideia de “a villa in the jungle” usada pelos sionistas no projeto de desumanização e posterior aniquilação da população palestina. Impossível não traçar este paralelo entre as propostas de colonização destes países. Sarmiento incentivou fortemente a imigração europeia como forma de modernizar e transformar a composição social do país. Também tem Julio Argentino Roca (em homenagem a quem se criou a “Copa Roca” e a criação da cidade gaúcha de “Roca Salles”). Este foi o presidente que liderou a chamada Conquista do Deserto (semelhante à “Conquista do Oeste”, dos EUA), campanha militar que resultou na morte, deslocamento e submissão de milhares de indígenas da Patagônia e da região pampeana. Durante seus governos, a imigração europeia foi intensificada, consolidando a visão de uma Argentina predominantemente europeia.

Bem, se não devemos acreditar na manifestação do próprio presidente Alberto Fernández (de esquerda!!), quando disse ser um europeu, afirmando que “os brasileiros vieram da selva, os argentinos chegaram de barcos”, ou nas manifestações dos próprios argentinos, se dizendo europeus e negando sua conexão com a América Latina, então em que tipo de narrativa devemos confiar? Mesmo sendo manifestações que não podem ser entendidas como o pensamento único daquele povo, não é justo fazer de conta que tal postura não existe ou que não é um conceito pairando no campo simbólico que constitui aquela nação.

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Canetinhas

Perdi uma amiga querida há 2 anos por causa do uso de antibióticos. Na época ela estava usando antibióticos profiláticos para um tratamento dentário. Ou seja: sequer havia a necessidade premente para tratar uma doença bacteriana em curso. O principal problema dos antibióticos é que eles não diferenciam bactérias boas (benéficas) das ruins. Ao eliminar os microrganismos que protegem o intestino, geram uma condição chamada disbiose, abrindo espaço para a proliferação descontrolada de bactérias nocivas, como a Clostridioides difficile, que causa inflamações graves. Essa foi a provável causa de sua diarreia, que evoluiu para desidratação severa, insuficiência renal, megacólon tóxico (dilatação grave do intestino) sepse, o choque e a morte. Tudo isso porque usou um antibiótico profilático em um tratamento dentário banal.

Sempre tive um cuidado imenso com antibióticos desde a entrada na escola médica. Pessoalmente, não uso antibióticos há praticamente 40 anos, e já passei por múltiplas amigdalites, neurites, cirurgias e adoecimentos em geral. Por estudar os efeitos dos antibióticos no corpo e a importância da interação entre nosso organismo e as bactérias que conosco convivem, sempre tive muito respeito pelos riscos associados aos medicamento anti-vida (anti-bio). Fiquei ainda mais interessado quando assisti um documentário sobre o microbioma do recém nascido e quando encontrei o professor Lars A. Hanson da Universidade de Gottemburgo em uma conferência que ambos participávamos nos Estados Unidos. Lars Å. Hanson (1934–2022) revolucionou a medicina ao descobrir e descrever a imunoglobulina A secretora (SIgA) no leite materno. Hanson provou que os anticorpos agem localmente, criando um escudo protetor no intestino e nas vias aéreas do lactente. Ele foi um dos maiores pioneiros mundiais em imunologia clínica, dedicou sua carreira a provar como a amamentação transfere estes anticorpos e sinalizações cruciais para moldar a microbiota protetora do bebê contra infecções. Ele me descreveu suas pesquisas no campo da microbiologia dos recém-nascidos e falou da importância das enterobactérias maternas na colonização do intestino dos pequenos. Esse tema me deixou ainda mais encantado pelo significado da flora intestinal e as pesquisas sobre a conexão intestino-cérebro. Lembro muito bem da frase: “Uma menina leva nos intestino bactérias herdadas da sua avó”. Não é impressionante isso?

Em 1946, pesquisadores descobriram que adicionar baixas doses de antibióticos à ração de animais de fazenda (como frangos e porcos) acelerava o crescimento e o ganho de peso. Desde então, a indústria usou antibióticos em larga escala como promotores de crescimento. Embora o efeito em animais seja conhecido desde a década de 1940, a confirmação de que os antibióticos afetam o peso em humanos é um achado recente. Estudos modernos ligam o uso precoce ou repetido de antibióticos a alterações na microbiota, o que pode aumentar o risco de obesidade, principalmente em crianças. Ou seja, a epidemia de obesidade no mundo está seguramente ligada ao excesso de antibióticos prescritos, em especial na infância.

Agora “descobrimos” que a solução para a obesidade é a aplicação de uma droga através de uma caneta mágica, cujos resultados em médio e longo prazos ainda não foram descobertos. Ou então já foram, mas como tudo se resume a dividendos e lucros na indústria farmacêutica e alimentar, estes dados estão bem escondidos, como foi feito recentemente com o Vioxx. Mas será mesmo que esta solução artificial vai exterminar um problema que evidentemente está relacionado com o estilo de vida moderno? Não será a obesidade a consequência esperada para a artificialização da alimentação e, em última análise, da própria vida?

O texto abaixo, que eu colhi na internet, é de uma palestra de Dr. James Kinross e que contém esta parte interessante:

“Sabemos desde a década de 1940, quando começamos a usar antibióticos em larga escala na agropecuária, que os antibióticos fazem as pessoas ganharem peso. Nós os administrávamos — ou melhor, fazíamos uso inadequado deles na criação de animais — para que os animais engordassem mais rapidamente, e fizemos isso durante cerca de cinquenta anos. E houve até mesmo — quando digo “nós”, refiro-me à comunidade médica da época — ensaios clínicos realizados nas décadas de 1950 e 1960 com crianças africanas desnutridas e famintas, às quais eram administrados antibióticos para que ganhassem peso. O microbioma é uma parte crucial da explicação para a atual pandemia de obesidade. Os microrganismos transformam a dieta ultraprocessada que você consome em um fator que promove a obesidade. E fazem isso, entre outras formas, regulando as vias do GLP-1; elas fazem parte de toda essa história. O que estamos fazendo é prender as pessoas em um ciclo de obesidade porque tratamos mal o microbioma. E então a solução apresentada é um medicamento muito caro, que as mantém presas nesse ciclo. Esse medicamento não cura a obesidade; apenas mantém o paciente em um tratamento extremamente dispendioso que, no fim das contas, provoca ainda mais alterações no microbioma, gera efeitos secundários sobre a interação entre intestino e cérebro e desencadeia uma série de outros problemas. E nós ainda não compreendemos profundamente esse mecanismo. Até 2030, cerca de 30 milhões de pessoas nos Estados Unidos estarão tomando esses medicamentos diariamente. E os governos dizem: ‘Ótimo, aqui está a solução para a pandemia de obesidade; vamos todos tomar esses remédios.” Isso simplesmente não é verdade.’

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Teses

Apesar de todos os prognósticos apontando a França como campeã da Copa do Mundo 2026, a Espanha acaba de bater o favorito time de Didier Deschamps. Quem viu o jogo percebeu que a vitória não foi ocasional; a Espanha foi melhor, mais efetiva, mais agressiva e novamente sua defesa impediu os ataques da seleção francesa. Mais uma vez sua defesa não foi vazada. Mas o que podemos agora fazer com todas as teses criadas sobre o poderio tático e técnico superior da seleção francesa? Como adequar nossa perspectiva à realidade material do confronto? Agora todos os prognósticos francófilos vão cair na lata de lixo da história, assim como todos aqueles que artigos sofisticados escritos sobre as fragilidades e incompetências da seleção brasileira… quando foi campeã.

No entanto, o que seria da profissão de críticos de futebol se não fossem as “teses”, as explicações complexas sobre as vitórias e – em especial – as derrotas. Já li pelas redes sociais que o problema do fracasso da seleção canarinho foi a emergência das igrejas evangélicas no Brasil. Outra tese é de que termos jogadores que jogam no exterior é o grande obstáculo. Outra perspectiva é a mudança de um esquema europeu e o desprezo pelo “futebol brasileiro” – seja lá o que isso signifique. Ou então, nossos jogadores são ricos e não se interessam mais pelo Brasil – só pelo que ganham da publicidade e nos seus clubes. São tantas as explicações que fica claro que, existe uma tendência frenética e angustiante de colocar o fracasso de um time numa linha de causalidade. Isso nos permitiria entender as razões da derrota, para poder prever e prevenir um novo desfecho ruim. A gente só não consegue prever o acaso, mas o que seria do futebol sem ele? Nossa compulsão para interpretar qualquer coisa e dar-lhe um sentido transcendental é evidente no futebol. Esta semana, após nossa saída precoce da disputa, li aqui no Facebook as interpretações criativas (e oportunistas) das palavras proferidas por Neymar para Nyland, o goleiro da Noruega, antes – e depois – de bater o penalty, no apagar das luzes do jogo que nos desclassificou. Uma das interpretações – de uma moça de direita que desejava exaltar o garoto Ney – falava que aquelas farpas trocadas com o goleiro eram uma “aula de identidade”. Sério?

Identidade? Sério que é possível fazer uma tese rebuscada sobre um bate-boca de boleiros antes da cobrança de um penalidade máxima? Onde conseguiram enxergar naquela rápida troca de provocações um exemplo de identidade? Para a minha vã filosofia, aquela discussão foi apenas o resultado de um ego ferido, a cabeça quente do nosso jogador por ter perdido mais uma Copa. E Neymar, como sempre faz, falou por si mesmo, e não como brasileiro, como líder do seu time ou representante da sua “identidade” – seja ela qual for. “Comigo não”, foi o que disse. Ou seja, “você aí, grandão, pode debochar dos meus colegas e pode rir da tristeza deles, mas comigo não vai zoar”. Eu chamaria isso de individualismo, mas não acho justo julgar de forma muito dura um sujeito profundamente frustrado com o fracasso – mais um – da nossa seleção. Seria cruel exigir que Neymar tivesse uma postura diferente daquela de qualquer outro ser humano diante desse drama.

É muito bizarro tentar achar nessa troca de farpas algo muito bom, virtuoso e patriótico. Também é exagero tentar achar algo errado, muito ruim ou negativo. Isso é forçar uma narrativa de forma inconsequente e forçada. Até onde consegui ver foi apenas um desabafo depois de um jogo tenso. Entretanto, se ele tivesse dito “chupa” ou “vai buscar”, como eu mesmo cansei de gritar quando fazia gols no futebol de rua, imagine as interpretações que surgiriam por aí. Até teorias sexuais catastróficas e comprometedoras apareceriam.

Menos gente, menos…

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Direita e identitarismo

Muitas pessoas à direita do espectro político, por falta de educação adequada e estudo mais aprofundado, confundem o identitarismo com “comunismo”, porque ignoram que, pelo contrário, o comunismo é uma poderosa arma anti-identitária. Basta estudar a Revolução Soviética para entender que o acesso das mulheres a todos os postos da sociedade se deu pela revolução socialista, e não por meio de leis discriminatórias e muito menos pela segmentação da nossa sociedade em “tribos” onde a lei vai ser aplicada de forma seletiva. Tudo isso ocorre porque a direita e os conservadores confundem a luta em favor de parcelas desfavorecidas da sociedade capitalista com a defesa de identidades, o que é um grande erro. O identitarismo é um projeto conservador, que invadiu o campo da esquerda usando essa confusão. O identitarismo enfraquece a luta de classes e coloca no seu lugar a luta identitária, que fragmenta a classe operária e impede a união de classes, fortalecendo o imperialismo e as mazelas sociais produzidas pela brutal concentração de renda inerente ao modelo capitalista.

Tal confusão é uma pena. Como sempre, a direita mais raivosa escuta o galo cantar, mas não sabe de onde. Reconhece como importante a luta contra o identitarismo, por ser contrária à sua perspectiva individualista. Entretanto, não consegue perceber o quão reacionário o identitarismo é, e confunde isso com o comunismo, a libertação do proletariado e a luta de classes. Pergunta: quem promove o identitarismo no mundo todo? A resposta pode ser acessada com dois ou três cliques do mouse: Open Society Foundations do mega investidor George Soros. Financia iniciativas de direitos humanos, democracia, igualdade racial, direitos LGBTQ+, direitos de migrantes e justiça criminal em dezenas de países. Ford Foundation – Investe em projetos de justiça social, igualdade racial, direitos das mulheres, inclusão econômica e fortalecimento da sociedade civil. MacArthur Foundation – Apoia projetos voltados para direitos humanos, justiça social e combate à desigualdade. Arcus Foundation – Uma das principais financiadoras globais de projetos voltados aos direitos LGBTQ+. Gill Foundation – Atua principalmente no financiamento de iniciativas em defesa dos direitos LGBTQ+. Robert Wood Johnson Foundation – Financia pesquisas e programas sobre equidade em saúde e redução de desigualdades. Ou seja: as grandes instituições capitalistas financiam projetos identitários de mulheres, negros, trans, etc.

Curiosamente, a direita acredita erradamente que os comunistas apoiam o identitarismo porque colocamos “um celofane verde na frente dos olhos”. Entretanto, não percebem que a leitura errada que fazem de Marx é exatamente pela ideologia, que nada mais é do que essa lente esverdeada que usam para traduzir a realidade, partindo de uma posição conservadora, anti-popular e capitalista. Aliás, Millôr Fernandes estava certo quando dizia, “o mundo esta cheio de canalhas, mas só na mesa do lado”. Só os outros usam viseiras, só os outros são manipulados por ideologias; já nós temos a visão cristalina do mundo. Será mesmo?

Para a direita a solução para problemas como a violência doméstica é muito simples: o endurecimento das penas. Assim, a direita demonstra que, na verdade, não possui nenhum apreço pela ciência. Acusam os comunistas de recusarem a solução de aumentar penas somente para “agudizar as contradições”. Que tolice!!! A razão para não engrossar o coro punitivista é porque o aumento de penas proposto (em especial por identitários) e a judicialização dos preconceitos cientificamente não funcionam!! Veja o erro dos “3 strikes” do governo Clinton, o aumento exponencial da massa carcerária braseira (inclusive nos governos do PT) e a inutilidade da banalização dos aprisionamentos. Nenhum balizador dos índices de criminalidade diminui com a proposta de colocar na multidões na cadeia. Basta mostrar os resultados pífios da Lei Maria da Penha na violência doméstica ou o resultado que se conseguiu com o aumento de penas para frear o aumento de feminicídios. O resultado foi paradoxal: a violência doméstica aumentou, tanto de homens quanto de mulheres. Por isso que a viseira moralista, impede que se enxergue a realidade, pois o endeusamento do modelo capitalista se comporta, efetivamente, como uma religião individualista.

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