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Fora da URSAL

Já fui muitas vezes a Buenos Aires. Aliás, foi lá que levei Michel Odent para o meu quarto de hotel e fiquei a noite conversando com ele, mas isso eu explico no meu próximo livro. Mas lá fui agredido na rua por falar português e já fui chamado de “muerto de hambre” quando caminhava na capital e nos escutaram conversando na nossa língua. Na Copa América nos chamavam de “macaquitos”, até mesmo eu, um branquela azedo. Não é por acaso a ligação da Argentina com Israel, e também não é de agora. Foi na Argentina que Eichman se escondeu, e para lá foram muitos nazistas. Essa conexão não ocorre apenas pela grande população judaica de lá (maior que a brasileira em um país 5 vezes menos populoso) mas porque os projetos nacionais são parecidos: tanto na Argentina quanto em Israel houve a proposta de uma colônia europeia encravada em solo indígena e a estratégia dos colonizadores foi de aniquilar sua cultura e destruir seu patrimônio étnico e linguístico, ao contrário de produzir sincretismo e miscigenação como encontramos aqui, apesar dos nossos pecados igualmente condenáveis no processo de criar o que se chama Brasil.

Se não há como “condenar a nação por umalguns vídeos que circulam na Internet” também não dá para passar pano para o racismo que perpassa a história da Argentina desde o massacre dos Quilmes. Este massacre, e o posterior exílio do povo Quilmes, ocorreu em 1667, durante as Guerras Calchaquíes, no norte do país, na província de Tucumán. Após resistirem bravamente às invasões espanholas por mais de um século, os indígenas foram rendidos pela fome, enviados como escravizados e forçados a uma marcha mortal de 1.200 km a pé até Buenos Aires. Já no século XIX, ocorreu o projeto de embranquecimento promovido pelos presidentes argentinos da virada dos séculos XIX e XX. Os principais foram Domingo Faustino Sarmiento, presidente mais frequentemente associado à ideia de “europeização” da Argentina, que defendia a dicotomia “civilização versus barbárie”, na qual associava a civilização aos povos europeus e via indígenas, gaúchos e outros grupos como obstáculos ao progresso. Igual a ideia de “a villa in the jungle” usada pelos sionistas no projeto de desumanização e posterior aniquilação da população palestina. Impossível não traçar este paralelo entre as propostas de colonização destes países. Sarmiento incentivou fortemente a imigração europeia como forma de modernizar e transformar a composição social do país. Também tem Julio Argentino Roca (em homenagem a quem se criou a “Copa Roca” e a criação da cidade gaúcha de “Roca Salles”). Este foi o presidente que liderou a chamada Conquista do Deserto (semelhante à “Conquista do Oeste”, dos EUA), campanha militar que resultou na morte, deslocamento e submissão de milhares de indígenas da Patagônia e da região pampeana. Durante seus governos, a imigração europeia foi intensificada, consolidando a visão de uma Argentina predominantemente europeia.

Bem, se não devemos acreditar na manifestação do próprio presidente Alberto Fernández (de esquerda!!), quando disse ser um europeu, afirmando que “os brasileiros vieram da selva, os argentinos chegaram de barcos”, ou nas manifestações dos próprios argentinos, se dizendo europeus e negando sua conexão com a América Latina, então em que tipo de narrativa devemos confiar? Mesmo sendo manifestações que não podem ser entendidas como o pensamento único daquele povo, não é justo fazer de conta que tal postura não existe ou que não é um conceito pairando no campo simbólico que constitui aquela nação.

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Teses

Apesar de todos os prognósticos apontando a França como campeã da Copa do Mundo 2026, a Espanha acaba de bater o favorito time de Didier Deschamps. Quem viu o jogo percebeu que a vitória não foi ocasional; a Espanha foi melhor, mais efetiva, mais agressiva e novamente sua defesa impediu os ataques da seleção francesa. Mais uma vez sua defesa não foi vazada. Mas o que podemos agora fazer com todas as teses criadas sobre o poderio tático e técnico superior da seleção francesa? Como adequar nossa perspectiva à realidade material do confronto? Agora todos os prognósticos francófilos vão cair na lata de lixo da história, assim como todos aqueles que artigos sofisticados escritos sobre as fragilidades e incompetências da seleção brasileira… quando foi campeã.

No entanto, o que seria da profissão de críticos de futebol se não fossem as “teses”, as explicações complexas sobre as vitórias e – em especial – as derrotas. Já li pelas redes sociais que o problema do fracasso da seleção canarinho foi a emergência das igrejas evangélicas no Brasil. Outra tese é de que termos jogadores que jogam no exterior é o grande obstáculo. Outra perspectiva é a mudança de um esquema europeu e o desprezo pelo “futebol brasileiro” – seja lá o que isso signifique. Ou então, nossos jogadores são ricos e não se interessam mais pelo Brasil – só pelo que ganham da publicidade e nos seus clubes. São tantas as explicações que fica claro que, existe uma tendência frenética e angustiante de colocar o fracasso de um time numa linha de causalidade. Isso nos permitiria entender as razões da derrota, para poder prever e prevenir um novo desfecho ruim. A gente só não consegue prever o acaso, mas o que seria do futebol sem ele? Nossa compulsão para interpretar qualquer coisa e dar-lhe um sentido transcendental é evidente no futebol. Esta semana, após nossa saída precoce da disputa, li aqui no Facebook as interpretações criativas (e oportunistas) das palavras proferidas por Neymar para Nyland, o goleiro da Noruega, antes – e depois – de bater o penalty, no apagar das luzes do jogo que nos desclassificou. Uma das interpretações – de uma moça de direita que desejava exaltar o garoto Ney – falava que aquelas farpas trocadas com o goleiro eram uma “aula de identidade”. Sério?

Identidade? Sério que é possível fazer uma tese rebuscada sobre um bate-boca de boleiros antes da cobrança de um penalidade máxima? Onde conseguiram enxergar naquela rápida troca de provocações um exemplo de identidade? Para a minha vã filosofia, aquela discussão foi apenas o resultado de um ego ferido, a cabeça quente do nosso jogador por ter perdido mais uma Copa. E Neymar, como sempre faz, falou por si mesmo, e não como brasileiro, como líder do seu time ou representante da sua “identidade” – seja ela qual for. “Comigo não”, foi o que disse. Ou seja, “você aí, grandão, pode debochar dos meus colegas e pode rir da tristeza deles, mas comigo não vai zoar”. Eu chamaria isso de individualismo, mas não acho justo julgar de forma muito dura um sujeito profundamente frustrado com o fracasso – mais um – da nossa seleção. Seria cruel exigir que Neymar tivesse uma postura diferente daquela de qualquer outro ser humano diante desse drama.

É muito bizarro tentar achar nessa troca de farpas algo muito bom, virtuoso e patriótico. Também é exagero tentar achar algo errado, muito ruim ou negativo. Isso é forçar uma narrativa de forma inconsequente e forçada. Até onde consegui ver foi apenas um desabafo depois de um jogo tenso. Entretanto, se ele tivesse dito “chupa” ou “vai buscar”, como eu mesmo cansei de gritar quando fazia gols no futebol de rua, imagine as interpretações que surgiriam por aí. Até teorias sexuais catastróficas e comprometedoras apareceriam.

Menos gente, menos…

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Direita e identitarismo

Muitas pessoas à direita do espectro político, por falta de educação adequada e estudo mais aprofundado, confundem o identitarismo com “comunismo”, porque ignoram que, pelo contrário, o comunismo é uma poderosa arma anti-identitária. Basta estudar a Revolução Soviética para entender que o acesso das mulheres a todos os postos da sociedade se deu pela revolução socialista, e não por meio de leis discriminatórias e muito menos pela segmentação da nossa sociedade em “tribos” onde a lei vai ser aplicada de forma seletiva. Tudo isso ocorre porque a direita e os conservadores confundem a luta em favor de parcelas desfavorecidas da sociedade capitalista com a defesa de identidades, o que é um grande erro. O identitarismo é um projeto conservador, que invadiu o campo da esquerda usando essa confusão. O identitarismo enfraquece a luta de classes e coloca no seu lugar a luta identitária, que fragmenta a classe operária e impede a união de classes, fortalecendo o imperialismo e as mazelas sociais produzidas pela brutal concentração de renda inerente ao modelo capitalista.

Tal confusão é uma pena. Como sempre, a direita mais raivosa escuta o galo cantar, mas não sabe de onde. Reconhece como importante a luta contra o identitarismo, por ser contrária à sua perspectiva individualista. Entretanto, não consegue perceber o quão reacionário o identitarismo é, e confunde isso com o comunismo, a libertação do proletariado e a luta de classes. Pergunta: quem promove o identitarismo no mundo todo? A resposta pode ser acessada com dois ou três cliques do mouse: Open Society Foundations do mega investidor George Soros. Financia iniciativas de direitos humanos, democracia, igualdade racial, direitos LGBTQ+, direitos de migrantes e justiça criminal em dezenas de países. Ford Foundation – Investe em projetos de justiça social, igualdade racial, direitos das mulheres, inclusão econômica e fortalecimento da sociedade civil. MacArthur Foundation – Apoia projetos voltados para direitos humanos, justiça social e combate à desigualdade. Arcus Foundation – Uma das principais financiadoras globais de projetos voltados aos direitos LGBTQ+. Gill Foundation – Atua principalmente no financiamento de iniciativas em defesa dos direitos LGBTQ+. Robert Wood Johnson Foundation – Financia pesquisas e programas sobre equidade em saúde e redução de desigualdades. Ou seja: as grandes instituições capitalistas financiam projetos identitários de mulheres, negros, trans, etc.

Curiosamente, a direita acredita erradamente que os comunistas apoiam o identitarismo porque colocamos “um celofane verde na frente dos olhos”. Entretanto, não percebem que a leitura errada que fazem de Marx é exatamente pela ideologia, que nada mais é do que essa lente esverdeada que usam para traduzir a realidade, partindo de uma posição conservadora, anti-popular e capitalista. Aliás, Millôr Fernandes estava certo quando dizia, “o mundo esta cheio de canalhas, mas só na mesa do lado”. Só os outros usam viseiras, só os outros são manipulados por ideologias; já nós temos a visão cristalina do mundo. Será mesmo?

Para a direita a solução para problemas como a violência doméstica é muito simples: o endurecimento das penas. Assim, a direita demonstra que, na verdade, não possui nenhum apreço pela ciência. Acusam os comunistas de recusarem a solução de aumentar penas somente para “agudizar as contradições”. Que tolice!!! A razão para não engrossar o coro punitivista é porque o aumento de penas proposto (em especial por identitários) e a judicialização dos preconceitos cientificamente não funcionam!! Veja o erro dos “3 strikes” do governo Clinton, o aumento exponencial da massa carcerária braseira (inclusive nos governos do PT) e a inutilidade da banalização dos aprisionamentos. Nenhum balizador dos índices de criminalidade diminui com a proposta de colocar na multidões na cadeia. Basta mostrar os resultados pífios da Lei Maria da Penha na violência doméstica ou o resultado que se conseguiu com o aumento de penas para frear o aumento de feminicídios. O resultado foi paradoxal: a violência doméstica aumentou, tanto de homens quanto de mulheres. Por isso que a viseira moralista, impede que se enxergue a realidade, pois o endeusamento do modelo capitalista se comporta, efetivamente, como uma religião individualista.

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Tudissquitaí

Já repararam como a direita do mundo todo usa sempre a mesma narrativa? Os ataques à esquerda sempre são moralistas, ad hominem, violentos quanto às virtudes inexistentes, jamais estruturais. Além disso, nesses ataques a culpa é sempre do “sistema”, como se eles não representassem o próprio coração do sistema capitalista. Nos últimos dias manifestações ocorreram na Europa patrocinadas pela extrema direita e prometendo acabar com os políticos e o “sistrema” a quem eles obedecem. Mas, afinal, o que querem dizer quando afirmam que o povo está “reagindo ao sistema”? Por que esse ataque à “classe politica” surge como um mantra, repetitivo e até enfadonho, a fórmula clássica de ataque da direita? Por que a direita, para atacar a própria expressão da politica, usa o refrão de que “todo político é ladrão”?

A razão é simples: a política é a única e frágil salvação que as pessoas têm para resistir ao controle absoluto do capitalismo. Por mais defeituosa que seja, a política ao menos oferece a ilusão da participação do sujeito nas decisões do Estado, mesmo que pelas vias tortuosas da representatividade. Lembrem: políticos precisam de votos e podem ser excluídos pelo voto. Cadeiras no parlamento ainda precisam da escolha popular através do voto. Um presidente é escolhido dessa forma e com ele sua política e perspectiva de governança. Agora, digam qual foi a última vez que alguém votou para eleger o presidente da Meta, da Amazon, ou mesmo das Americanas!! Nunca, não é?

Pois é exatamente isso que a extrema direita deseja: um mundo controlado por corporações transacionais, onde o povo perdeu todas as razões objetivas para escolher representantes. Nesse mundo distópico de direita, controlado pelo capital, o Estado é tão diminuto e insignificante que de nada serve o seu voto, pois tudo seria dominado pela casta dos proprietários, dos burgueses, dos donos de tudo. O povo só poderia trabalhar, olhar, chorar e morrer; afinal não há como mudar o mundo privado.  A utopia capitalista seria materializada num tecno-feudalismo com classes sociais estanques e pétreas.

É por esta razão que tantos representantes da direita atacam o “sistema”. Na verdade, para eles o “sistema” é a própria democracia burguesa, o voto, as instâncias populares e a possibilidade de escolher representantes. Mesmo com todas as falhas das eleições e da escolha pelo voto, ainda assim essa possibilidade surge como uma ameaça ao totalitarismo ultra direitista. Estes se referem à “classe politica” com desdém porque odeiam qualquer anteparo democrático que exista entre a burguesia, suas posses e a riqueza produzida por todos nós. Quando você escuta um bolsonarista dizendo “tem que mudar tudissquitaí” ele, no fundo, está se referindo ao projeto direitista de eliminar seu direito participar do jogo.

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Sionismo liberal

Agora todo mundo está vendo que do nada, por magia e por encanto, as pessoas começaram a ter atitudes contra j*deus no mundo inteiro. Assim, sem nenhuma razão aparente estamos diante de uma onda de antissemitismo. Essa mudança repentina no comportamento de cidadãos do mundo inteiro parece um pouco estranha, não? Não será porque canalhas de Israel já mataram mais de 80 mil árabes e cristãos civis, entre libaneses e palestinos? Certamente que essa antipatia contra os seguidores da Torah não é pela tortura sistemática de prisioneiros nas masmorras de Israel, e nem porque treinaram cães para abusar sexualmente de prisioneiros. Por certo que não será pelo enorme número de crianças palestinas com balas na cabeça e no peito, atingidas pelos snipers assassinos de Israel. Deve haver outra explicação. Só pode ser um ódio gratuito. E de novo Israel é a vítima do mundo. Nunca é pelo apartheid, pelos assentamentos ilegais, pelas prisões sem devido processo legal, pelos ataques à comunidade árabe. Mas, resta a pergunta: se os sionistas não são culpados, de quem srerá a culpa? Claro, dos palestinos, que jamais se renderam. Mas também virou prática entre os “sionistas de esquerda” (um oxímoro) chamar qualquer critica ao sionismo – seja pelo genocídio, pelas ocupações ilegais ou os assassinatos constantes – de “antissemitismo”. Todos que combatem o governo de Israel há décadas já receberam este tipo de acusação.

No entanto, perceberam como este ataque perdeu completamente a força nos últimos tempos? O que outrora amedrontava, por colocar no sujeito o rótulo de racista e/ou negacionista do holocausto, hoje virou um clichê gasto, usado por quem não tem mais argumentos e não consegue rebater a avalanche de acusações contra Israel. Hoje é possivel dizer que se você não for acusado de antissemita é porque não esta denunciando corretamente o genocídio sionista. Depois dos massacres em Gaza, ninguém mais consegue acreditar na retórica dos liberais, que ainda insistem na tese de que o problema com Israel é exclusivamente culpa de Netanyahu e a extrema direita fascista de Israel. Infelizmente, isso não condiz com a verdade. Pesquisa recente do Israel Democracy Institute (IDI) indicou que mais de 75% dos judeus israelenses apoiavam a continuação da guerra. Ou seja, a população judaica da Palestina apoia o massacre, e uma boa parte acha que foi pouco o que foi até agora realizado. Michal Woldiger, membro do Knesset disse: “Não existem inocentes em Gaza. Sim, crianças devem ser mortas também. Não existe outra maneira”. Pensem, essa mulher tem filhos e uma vez os carregou em seus braços. Quando uma mãe diz que crianças devem ser mortas numa guerra criada e levada a cabo por adultos qualquer sinal de humanidade já abandonou seu coração há muito tempo. Não resta nada, sobrou apenas um monstro de ressentimento, ódio e supremacismo.

Desumanizar os palestinos sempre foi a tarefa inicial do projeto sionista, e eles agora estão sendo mortos pela suprema ousadia de resistir. Mas enganam-se aqueles que acreditam, como os sionistas “moderados”, que se trata de um problema da extrema direita israelense capitaneada por Bibi Netanyahu. Não, essa parlamentar de Israel não é o resultado das políticas de Netanyahu, mas a razão pela qual esse canalha está no poder. Ele apenas representa estes degenerados sionistas supremacistas, produzidos na esteira de produção industrial de fascistas de Israel. O primeiro ministro israelense é tão somente o reflexo da sociedade que o sustenta, a consequência brutal de um modelo supremacista e racista, e não a sua causa.

“Sionismo democrático, liberal, trabalhista, humanista: sim; supremacismo territorial com roupagem de promessa bíblica: não.”

Como conseguem ainda defender esta tolice? Sionismo significa retirar os palestinos das terras em que habitavam há séculos para criar uma etnocracia que só se sustenta pelo terror. Imaginar que é possível criar um sionismo democrático excluindo os palestinos da equação é mais do que ingenuidade; é perversidade pura, supremacismo travestido de “libertação dos oprimidos”. Lembrem apenas que essas afirmações são idênticas à pregação de Adolf, que tratava a questão alemã como uma revanche do “povo alemão oprimido” pela conjuntura internacional e pelo acordo criminoso de Versailles, muito prejudicial para a Alemanha porque impôs perdas territoriais, limitações militares e pesadas obrigações financeiras que muitos alemães viram como humilhantes e injustas. Ora, as desculpas para massacrar os povos – ora judeu, agora palestino – aparecem sempre com uma roupagem bonita, certo? Compra quem quer. Mas Marx já deixava bem clara esta equação ao dizer que a história se repete, primeiro como tragédia … e depois como farsa. O sionismo é a farsa da emancipação judaica. Nada mais é do que a a roupa moderna do velho colonialismo europeu, expoliador, racista, violento e genocida.

A causa dessa disputa de narrativas é o modelo de terror implantado por Israel desde sempre, a começar pelo ataque ao hotel King David levado a cabo pelos terroristas do Irgun. Toda a história de Israel foi baseada na morte, na expropriação, no abuso sexual, na impunidade e no assassinato, basta ler com cuidado a história desse país! Enquanto aqueles que apoiam a causa palestina são chamados de “antissemitas” é preciso proteger e apoiar os semitas de Gaza, porque os sionistas liberais se ocupam defendendo poloneses e ucranianos em suas fantasias semitas ridículas. A sociedade israelense, que aplaude a tortura nas prisões e transforma torturadores em ídolos populares, tornou-se degenerada e doente. E isso não tem nada a ver com os judeus ou judaísmo, mas com essa perversão racista chamada sionismo. Assim como criticar o nazismo não significa ser anti-alemão ou anti-cristão, então não há porque acreditar nesta confusão oportunista. Ninguém mais compra docilmente as mentiras da hasbara.

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Namoro qualificado

Agradeço a Deus por estar fora do mercado.

Hoje em dia se discute uma nova(?) categoria que se chama “namoro qualificado“, que se caracteriza por um relacionamento afetivo duradouro, público e íntimo que se assemelha à união estável, mas se diferencia juridicamente por não possuir o objetivo atual de constituir família. O debate jurídico centra-se em proteger a liberdade individual frente a riscos patrimoniais e sucessórios. A discussão envolve implicações fundamentais para o direito de família e o planejamento patrimonial. Segundo a jurisprudência, como o Superior Tribunal de Justiça (STJ), o divisor de águas entre namoro qualificado e união estável é o “animus familiae”, ou seja, o desejo de constituir uma família. Elementos como coabitação, viagens constantes, divisão de despesas e até a criação conjunta de animais de estimação confundem a distinção na prática, obrigando a análise caso a caso.

Para uma pessoa que namora, expressar diretamente o desejo de (algum dia) se casar, ou ter uma família ou mesmo ter filhos é uma sentença determinante do que ocorrerá naquele relacionamento quando ele se desfizer. Ter um “pet” que ambos cuidam é muito arriscado. Tirar fotos em uma viagem que fizeram é uma prova gerada para um futuro processo. Passar um tempo na casa do outro é atirar no próprio pé. Dividir as contas…. suicídio.

Namorar, ou mesmo desejar, estará sujeito à dureza das leis e tem o potencial de geral punições arruinar vida financeira de um dos participantes. Conheci inúmeros casos de golpes relacionados ao namoro, que agora tiveram um grande crescimento relacionado às inteligências artificiais. Durante minha vida profissional e pessoal eu conheci muitas pessoas sofrendo por causa desses criminosos e a maioria era de mulheres sendo enganadas por sujeitos sedutores, alguns mesmo “geniais” e maquiavélicos na arte de explorar a carência afetiva de suas vítimas – em especial mulheres mais velhas e solitárias. Entretanto, ultimamente tenho testemunhado muitos casos de mulheres se aproveitando de relacionamentos passageiros e descompromissados para exigir compensações financeiras e até pensão, como se um casamento – ou uma união consensual – tivesse efetivamente ocorrido.

Hoje se discute no supremo os limites do “namoro qualificado” que servem para diferenciar relacionamentos mais próximos e comprometidos de uniões mais frugais e passageiras. Se você tiver um namoro qualificado – onde o desejo de constituir família foi aventado por um ou por ambos – e resolver terminar a relação poderá sofrer punições e, inclusive, ser obrigado a pagar pensão ao seu parceiro(a). Fica muito evidente que uma questão que envolve a subjetividade, o desejo e os compromissos de duas pessoas (deixo de fora aqui os outros tipos de relacionamento não-dual) tornaram-se assuntos que são regulados pela justiça.

Ou seja: parece que não há saída para os relacionamentos que não passe pela judicialização, com testemunhas, em um cartório, com os documentos assinados em mão, tudo feito como se fosse um negócio, um acerto financeiro e/ou patrimonial. É preciso proteger-se para, futuramente se livrar da acusação de estar cometendo um crime.

Mas…. talvez hoje em dia, namorar seja mesmo visto como um ato criminoso

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Enquanto tu gritas gol…

A ideia de que a Copa é alienante e deveríamos estar preocupados com as eleições, pois são elas que decidem nossa vida, é uma meia verdade. Não vou dizer que eleições “não valem nada”, mas elas estão longe de apresentar soluções para a crise do capitalismo.

Depois das eleições a vida segue praticamente imutável. Enquanto o sistema neoliberal perdurar as eleições apenas escolherão o gerente da massa falida do capitalismo. As diferenças são pouco significativas na estrutura da sociedade. Os bancos continuarão a mandar na sociedade e o governante escolhido ainda será sequestrado pelos interesses intestinos do Parlamento. A diferença é que a eleição de um elemento da direita continuará o desmanche do Estado brasileiro, privatizado-o para ser controlado por poucos e sem controle público. A eleição da esquerda vai priorizar a diminuição do fosso entre as classes altas e os pobres, e a cobrança de tributos dos mais ricos, mas não a ponto de mudar a arquitetura perversa das democracias liberais. Por esta singela razão vou votar no PCO no primeiro turno e no companheiro Lula no segundo turno, pois é preciso afastar a ameaça fascista e o entreguismo da direita.

Portanto, acreditar em uma mudança profunda neste modelo de democracia liberal, controlada pelo poder econômico, é tolice. Sou velho o suficiente para lembrar quando elegeram um negro democrata nos Estados Unidos achando que alguma mudança ocorreria na estrutura última da sociedade, e que finalmente os descamisados teriam vez. Obama invadiu inúmeros países, matou milhões de pessoas, espionou o Brasil e países da Europa, aprofundou o discurso identitário direitista e não produziu nenhuma mudança na saúde americana, aprofundando a disparidade entre a casta dos bilionários e a imensa camada pobre americana.

Até Lula, para ser justo, também jamais conseguiu uma mudança radical porque está amarrado num sistema que não lhe garante um congresso ao seu lado. Nossas eleições funcionam mais uma caricatura democrática, uma encenação – cara – para manter intocado o real sistema de poderes, que se concentra nas mãos de quem controla o capital. Ou vocês não perceberam que Vorcaro tinha o legislativo e o judiciário nas mãos? Quem era o verdadeiro dono do Brasil?

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Maioridade Penal

Este é um dos capítulos do meu livro: os sistemas de opressão dentro do universo prisional.

Um certo dia, enquanto estava trabalhando como interno do Sistema Prisional, ouvi ruídos vindo do jumbo – uma pequena cela usada para deixar os presos que estão sendo levados para outras partes da prisão. Por curiosidade eu me aproximei da pequena cela perto da sala da supervisão e vi um apenado sentado no banco lateral. Tinha o corpo bastante machucado e um ferimento na boca. Apresentava muitos hematomas, raspões e equimoses pelo corpo, e durante nossa breve conversa ele me relatou que havia tomado uma surra dos companheiros de galeria durante a saída diária para o pátio. Dei a ele o primeiro atendimento e conversamos mais um pouco, para que ele ficasse tranquilo de que nenhum osso estava quebrado. Depois disso, saí do jumbo e voltei para minha sala de trabalho, enquanto o preso continuou aguardando os curativos que seriam feitos. No corredor que leva à biblioteca e o nosso pequeno ambulatório, passei pela salinha da Copa e encontrei meu colega Zé, que terminava de preparar um bolo cheiroso de cenoura para o café da guarda. Comentei com ele o caso do rapaz e Zé, que conhece as regras mais crueis da cadeia, me fez um breve comentário.

– O mundo das galerias é a selva. Manda quem pode, obedece quem quer continuar com os dentes.

Respondi com um movimento de sobrancelhas e um leve contorcer do canto da boca, seguidos de uma observação baseada em fatos que eu havia testemunhado.

– Quando o Estado se afasta, deixando livre a organização da cadeia para os próprios presos, o resultado natural é ver os mais fortes se sobressaírem, assumindo o comando e, por fim, oprimindo os mais frágeis e fracos. A força é a lei suprema nesses contextos. Sempre que vejo a violência explícita tomar forma nas galerias eu penso: imagine o que aconteceria nesse ambiente se houvesse adolescentes de 16 anos convivendo com estes criminosos, precisando se defender de gente muito mais forte, muito mais poderosa e com muito mais experiência. Pense no nível de opressão a que eles estariam submetidos. Seriam escravizados, tratados como servos. Seriam reduzidos a objetos. Sem a força necessária para se defender dos adultos não sobrariam muitas alternativas além da total submissão. Ou então, para aqueles de temperamento arrojado – e por vezes suicida – sobraria a possibilidade de dobrar a aposta e abraçar a brutalidade como estratégia, contrapondo violência com ainda mais violência, oprimindo por meio da força bruta e da vigilância constantes para evitar serem engolidos pelo poder e pela selvageria dos mais velhos.

Zé concordou com minhas observações, mas emendou com a sabedoria de quem conhecia o monstro e suas entranhas.

– Só quem não conhece o mundo da cadeia se atreve a falar de diminuição da maioridade penal. Apenas aqueles que já entraram numa prisão serão capazes de entender quão danoso é para um adolescente o convívio com adultos nesse ambiente tóxico de confronto e ferocidade. Malditos sejam os que pretendem trazer crianças para cá.

Verdade, Zé. Uma triste verdade.

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Culto

Uma notícia de algumas horas, associada a um editorial claramente reacionário do jornal “O Estado de São Paulo” dá conta de que o escândalo envolvendo as ligações obscenas entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro não retirou muitos pontos entre aqueles que pretendiam votar no “mitinho”, o filho do Mito. Percebem o significado dessa posição do eleitorado de extrema direita? Nunca foi contra roubo, corrupção, possíveis conchavos ou a desonestidade com que os bolsonaristas e a direita corporativa acusavam Lula e o PT, mesmo sem apresentar provas e tendo que apelas para um golpe judiciário que envolveu promotores fascistas e um juiz corrupto. O que se vê agora é que, para o eleitor cativo de Bolsonaro, não há problema nenhum em roubar, fazer maracutaias, pedir propina, comprar mais de 100 apartamentos – 51 deles com dinheiro em espécie – ganhando apenas salário de deputado. Tudo isso é permitido, natural e justo, desde que os beneficiários dessas tramoias não sejam do PT.

O inaceitável, para a direita, é um nordestino pobre, migrante e sem dedo se meter a besta e ocupar a presidência de um dos maiores e mais ricos países do mundo, um lugar reservado apenas àqueles do andar de cima da nossa sociedade de classes. O fato de um pernambucano e operário da Villares como o Lula tornar-se representante dos pobres e dos trabalhadores é o que o torna indigno de perdão por parte da burguesia atrasada e corrupta desse país. Por isso a direita perdoa Bolsonaro & Filhos pelos seus crimes e até a roubalheira do Master e Vorcaro, mas jamais aceitará que um retirante como Lula seja o mandatário do país, por mais honesto que ele seja.

Sim, os estrategistas da direita apostam em uma total dissonância cognitiva combinada com uma narrativa messiânica para sabotar o Lula 4. É preciso uma ligação mística, um culto, onde eleitores são tratados como prosélitos de uma religião salvacionista. Por isso que a demonstração da desonestidade essencial de membros da Família Bolsonaro é pouco efetiva para conquistar corações e mentes dos eleitores desse campo. Para derrotar o “mal socialista’, o comunismo, as esquerdas e a perda da “liberdade” que eles representam é possível até fazer um pacto demoníaco e colocar pessoas sabidamente desonestas no poder.

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Língua

“Gosto de roçar a minha língua na língua de Camões” (Caetano Velloso)

Ontem presenciei um curto debate nas redes sociais a respeito do uso de uma palavra: “alevantar”. Um sujeito, ao ler a expressão, criticou o que julgou ser o uso errado do idioma, dizendo se tratar de “coisa de petista”. Acho que cabem algumas considerações, até porque a forma como falamos e escrevemos tem a ver com questões políticas e de classe.

Mesmo aqueles que afirmaram que “alevantar” estava certo também, de certa forma, estavam errados. Digo isso porque o conceito de “certo” e “errado” em se tratando de língua portuguesa não faz sentido nenhum. Como dizia meu filho, quando tinha uns 10 anos, “falar ‘menas’ é uma questão de tempo”. Se as pessoas usarem desta forma no futuro irá verter para o cotidiano da fala e, posteriormente, para o vernáculo mais erudito. Tratar da fala como errada ou certa é, em verdade, uma forma de estabelecer diferença de classes, baseando-se na maneira como as pessoas falam. O debate poderia ser entre “norma culta” x “norma popular”, mas até esse debate já está um pouco defasado, porque, para alguns autores, existem tantas línguas quanto falantes, e nos comunicamos porque reconhecemos semelhanças entre as nossas falas – nossos idiomas pessoais – e as de nossos interlocutores.

Dizer que uma expressão é “errada” é um equívoco conceitual, pois não leva em consideração a função precípua dos idiomas. Usando um exemplo que li do linguista Marcos Bagno, dizer que “alevantar” está errado seria o mesmo que afirmar que uma cobra é um animal “errado” porque não tem pernas. Ora… errado em relação ao quê? Uma cobra é absolutamente adaptada ao seu meio ambiente – aliás, a mais tempo do que nós. Pela mesma perspectiva, uma expressão funciona se está adaptada à comunicação de ideias e se transmite conceitos e símbolos aos outros falantes, e “alevantar” cumpre essa função, pois todos que a leem entendem o que significa. O preconceito linguístico é uma forma clara de estabelecer barreiras de classe, por isso é usado em qualquer comunidade. Entretanto, é importante ter uma postura crítica em relação a estas diferenças culturais, para evitar exclusões baseadas na forma específica como as pessoas se comunicam. Por certo que, se uma pessoa fala e/ou escreve na norma popular será discriminada por não conhecer o idioma das classes “superiores”. Entretanto, essa forma de falar não é errada, feia ou menor; ela é o motor das transformações da fala. Na verdade, ela está na linha de frente da construção do idioma. A norma culta olha para o passado; a popular para o futuro.

Questionar o preconceito de classe que se insere nas críticas ao modo de falar, em especial das pessoas mais simples, não significa desprezo pelo aprendizado da norma culta. Ela é importante para que as pessoas falem em círculos de poder superiores, como na academia ou nas empresas. Entretanto, a língua que falam em casa ou com seus iguais não está “errada”, e nem é culturalmente inferior. Desta forma, acreditar que uma expressão está errada, apelando para um positivismo linguístico maniqueísta, deturpa a própria função dos idiomas. Uma língua falada funciona como os seres vivos, que por meio de metamorfoses infinitas se ajustam às necessidades oferecidas pelo meio ambiente mutante. Da mesma forma, a língua se modifica em decorrência das necessidades dos humanos, implicando na transformação dinâmica dos idiomas, dos sotaques, das expressões e das gírias com as quais estes se expressam

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