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Vítimas

“As universitárias de Bauru que debocharam de colega de 44 anos abandonam faculdade. A Unisagrado afirmou que abriu processo disciplinar contra as estudantes, mas elas “solicitaram a desistência do curso de Biomedicina” durante a apuração do caso.”

Muita gente feliz com o desfecho do caso…

Eu pessoalmente creio que as verdadeiras vítimas dessa história foram as três meninas que fizeram um comentário inadequado para uma colega mais velha. Elas foram vitimadas pela fúria das redes sociais, de forma inexorável, brutal e cruel. Já a senhora, colega de turma, recebeu tão somente uma crítica, de forma jocosa e infantil. Se a gente acredita que as pessoas não podem suportar piadas desse tipo, que tipo de sociedade estamos criando??? Eu não tenho empatia alguma por pessoas (presumidamente, porque não ouvi nada dela) que se desmancham como castelos de areia diante das mais leves críticas.

Curiosamente, fazemos críticas, memes, gozações, ataques e até acusações de todo tipo – inclusive falsas – contra pessoas de outro viés politico, como a família Bolsonaro. Colocamos apelidos demeritórios em personagens da direita (Nikolas “chupetinha”, por exemplo) sem nenhum pudor e sem nos preocuparmos que isso possa lhes causar danos. Acaso temos empatia pela crueldade feita contra estes inimigos? Não, por certo, e ainda exigimos que essas pessoas atacadas por nós tenham fibra e suportem as críticas e piadas porque, afinal, faz parte do jogo. Pois eu digo que voltar a estudar na maturidade e escutar risadinhas de colegas adolescentes faz parte do jogo também. Não é aceitável uma cultura em que é valorizado ser frágil, um floco de neve que se esfarela diante de adversidades.

O principal problema de tratar adultos como se fossem crianças (ou velhos senis), que precisam ser protegidos de quaisquer ataques, é que isso rouba deles o protagonismo. Tornam-se objetos do nosso cuidado. Protegemos essa estudante mais velha porque acreditamos ser ela incapaz de se defender, sem condições de responder diretamente às meninas e tratar desse assunto na hora do recreio. Pela nossa ação esta senhora ficou esmagada entre o ataque infantil e tolo das coleguinhas e a defesa exagerada e alienante que as redes sociais fizeram. A voz dela – como a voz de uma criança – sequer foi considerada. Ela foi tratada por todos como uma incompetente.

A proteção exagerada só se justifica quando temos certeza da incapacidade de quem protegemos. É assim que fazemos com nossos filhos, que se mantém sob nossa redoma protetora. Todavia, chega um momento que a gente olha para o filho e diz: “Voce já está bem crescidinho. Isso você mesmo terá que resolver, diretamente com seu colega. E para de chamar a professora por qualquer coisinha que aconteça. Ela só deve resolver coisas muito graves. Se ele lhe chamou de “bobo, chato ou feio” lembre que você não é. Você é uma ótima pessoa e a opinião dele não pode lhe afetar dessa forma”.

Ou seja, estimule o protagonismo, a autonomia e a autoestima do seu filho. Digo mais: se um dia eu fosse ofendido (como fui a vida toda, chamado de gordinho, burro, maconheiro, etc) e minha mãe (ou a diretora) viesse me defender creio que jamais voltaria à escola, porque não suportaria a extrema humilhação de não conseguir “resolver meus B.O.s” por conta própria e ter que aceitar a intervenção da mãe ou da escola. O mesmo ocorre na vida adulta, pelo Estado, através da justiça burguesa.

Já existe um razoável consenso de como devemos educar os pequenos neste aspecto. Sabemos não ser possível evitar os ataques incessantes do mundo, mas temos a chance de fortalecer suas personalidades a ponto de que uma simples ofensa tola não os faça ruir. O tempo da judicialização e dos sujeitos frágeis, de gente que se ofende por literalmente qualquer coisa – aplicando sempre a desculpa “só eu sei o que sofri, você não pode julgar” – acaba jogando a análise da ofensa para a absoluta subjetividade, impossibilitando um julgamento de valores pessoais. Este tempo está, finalmente, acabando. Esse tipo de sociedade é insuportável e cínica, e sabemos que não se muda a sociedade pelos tribunais, mas através de lentas mudanças estruturais em seus valores.

O que mais me chocou esse caso é que, no afã de proteger uma senhora de 44 anos (!!!) que foi considerada como uma débil mental e incapaz de suportar esta crítica, tratamos de forma brutal e destrutiva três meninas que fizeram algo que todos nós um dia fizemos – uma simples troça inadequada. A barbárie usada contra elas não causou nenhum arrependimento e sequer o fato de terem desistido do sonho de fazer o curso – pelas ameaças feitas pelos colegas – foi levado em consideração. Mais ainda: vejo gente comemorando, com a mesma excitação dos bolsonaristas que gozam ao dizer “bandido bom é bandido morto”. Neste caso “menina que faz piada com coroa é menina expulsa da faculdade”

Se você enxerga muita diferença entre estes gozos punitivistas, eu não vejo. Para mim são faces da mesma moeda, de gente que acredita que uma sociedade é capaz de melhorar com cadeias, punições, expulsões e linchamentos em redes sociais. Eu não creio nessa perspectiva de sociedade, e tenho pena de quem se alegra com a desgraça alheia. Estes, de dedos em riste, ainda não se deram conta que o massacre às meninas pelo crime hediondo de fazer uma piada sem noção diz muito mais dos acusadores do que do delito inafiançável das garotas. Mas, tudo bem; do ponto de vista da justiça popular elas já foram executadas.

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Olifãs e Pipokinhas

Eu não vejo grandes dramas com o fato de uma menina – que atende pelo sugestivo nome de Mc Pipokinha – rebolar em bailes funk e até mesmo ficar rica com essa profissão. O mesmo raciocínio uso com quem faz olifãs – ou mesmo prostituição por livre escolha – por uma razão bem simples: há quem pague e existe quem queira vender. Minha única reclamação é pelo fato de uma menina dessas escarnecer de um professor achando que o trabalho de mostrar seu corpo e rebolar de forma provocativa é “mais valioso” que o ofício de uma professora apenas porque seu contorcionismo erótico paga mais.

O dinheiro é, quase sempre, um péssimo método para avaliar qualidade ou importância social de uma ideia ou um trabalho. Apesar de sua inquestionável importância através da história os professores são depreciados e mal pagos no capitalismo. Mesmo diante desse desprestígio não deixam de ser indispensáveis. Nunca é tarde para lembrar que Beethoven fez muito menos sucesso que Justin Bieber ou Madonna.

Uma cultura sobrevive sem pipokinhas, mas não sem mestres.

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Tríptico Amor Romântico – 1. Amores decadentes

Tenho uma curiosidade sobre a “decadência do amor romântico” e gostaria de saber a opinião das pessoas sobre essa ideia. Por que tantos acreditam que o amor romântico “não funciona” e precisa ser eliminado? Qual a alternativa a ele? Se o amor romântico não funciona a alternativa seria a construção de uma cultura hedonista, baseada em múltiplos encontros sexuais e amorosos fugazes, superficiais e “operacionais”, tipo, objetivando apenas a reprodução? Poliamor seria a resposta para o desejo? Relacionamentos abertos? E as crianças? Tribos, comunidades, comunas? Como podemos imaginar as sociedades, as famílias, as crianças e a velhice num mundo pós amor romântico?

A questão proposta é apenas esta: se o amor romântico como o entendemos não tem mais sentido, como seria a estrutura social do futuro? Amores líquidos, meteóricos? Prazeres descompromissados? Surubas cibernéticas? Sexo casual? Filhos comunitários? Admirável Mundo Novo?

Para ser mais explícito, não é sobre apaixonamento, tesão ou outros tipos de amores que estamos falando. “A crise do amor das relações surgiu no horizonte como um impacto muito forte, com as separações tanto das relações mais formais como as informais. O casamento oficializado entra em crise.” (Edson Fernando Oliveira). A crise está na ideia de que precisamos nos relacionar por amor, pelo desejo de formar parcerias longas, “até que a morte os separe”, uma vida conjunta envelhecendo em parceria, ao lado de filhos, netos e bisnetos. É sobre esse “contrato social” de pessoas que estão juntas e decidem se manter assim porque se amam. Não é sobre paixão e desejo, mas a forma de acomodá-los, criando uma dualidade afetiva duradoura.

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Tríptico Amor Romântico – 2. Os Mosuo

Acho importante citar que existem experiências de organizações sociais que diferem do casamento monogâmico e do próprio “amor romântico”. Todavia, é importante entender as condições para o aparecimento desse tipo de organização social e as razões por jamais ter se disseminado. Uma forma de pensar como seria uma sociedade sem amor romântico é conhecer a comunidade Mosuo no sul da China, numa das zonas mais isoladas e pobres do país. Acho um equívoco tratar esse modelo como “matriarcado”, que eu acredito ser um mito, mas a estrutura social aplicada para dar conta das famílias, dos filhos e da sexualidade parece ser extremamente interessante, em especial no que tange os “casamentos caminhantes”. Nessa comunidade – repito, pobre e isolada, e isso ao meu ver é muito significativo – após completarem 13 anos de idade, as meninas podem ter seu próprio quarto na “casa das flores”, uma casa onde as avós detêm o controle político e moral. Nesse seu quarto elas pode convidar os meninos que desejarem para visitá-las (por isso casamentos caminhantes), tendo uma vida sexual livre e sem cobranças. Num determinado momento elas escolhem quando desejam se tornar mães – ou o “destino” escolhe por elas, como acontece entre nós. Ficam grávidas do pai biológico de seu filho, mas este nunca terá funções paternas sobre aquele.

A sociedade não é matriarcal; isso é um mito. A liberdade sexual das mulheres não significa diretamente poder político. A sociedade é matrilinear e matrilocal, mas o conceito de “arkhé”, poder político, não está implicado nessa sociedade. Em uma cultura patriarcal, o homem assume a responsabilidade e a autoridade política, moral e religiosa sobre as mulheres e os filhos confiados à sua proteção, e as mulheres nessa sociedade isolada chinesa não têm estas atribuições. Ou seja, não é o espelho invertido da sociedade patriarcal, mas uma sociedade onde as famílias se organizam em torno das mulheres e de suas casas, e onde usufruem de uma curiosa (e eu diria merecida) liberdade sexual. Na sociedade Mosuo quem assume a função paterna das crianças é o irmão mais velho da mãe, que será o “pai” dos seus sobrinhos, mas não dos seus filhos biológicos. Portanto, a função desse homem é muito importante na formação das crianças, mas não adquire uma conexão biológica/genética. Como a sociedade é matrilocal, os homens vivem nas casas das “matriarcas” e as crianças nascidas vivem sempre sob a tutela desse núcleo familiar, o qual não obedece uma característica patrilocal, sequer patronímica. Entretanto, é importante entender que esse costume aos poucos vai morrendo, e as novas gerações vão adotando o modelo patriarcal monogâmico do resto da China, adaptando-se ao “amor romântico”.

Outra questão importante é o turismo sexual que se criou para esta localidade, pois se acreditava que as mulheres Mosuo eram “fáceis”, que tinham relações com qualquer visitante. Houve até campanhas na China para afastar estes turistas indesejados que não compreendiam o costume e o tratavam como uma variante da “libertinagem”. Porém cabe uma pergunta: por que esta sociedade é uma exceção? Pode haver várias respostas, mas a minha é esta: por ser uma sociedade isolada, pequena e insignificante. São populações que vivem nas montanhas e sem contato com vizinhos ameaçadores; esta é, afinal, uma das regiões mais pobres da China, onde a vida é muito dura. Essas sociedade são militarmente frágeis, mas apenas por que as ameaças inexistem. Foi pela necessidade de proteção que o planeta inteiro adotou o patriarcado, que produz sociedades mais fortes e protegidas. Mas o que aconteceria com uma sociedade que não sofresse ameaças externas? Talvez exatamente isso: uma sociedade sem a necessidade do patriarcado como força protetiva. Por isso algumas feministas perceberam que a única forma de produzir real igualdade social – e sexual – entre os gêneros seja pela conquista da paz.

Como a sociedade é “matrilocal”, as meninas Mosuo permanecem morando na casa das mulheres após o nascimento dos bebês e quem fará a função paterna será o irmão mais velho. O pai biológico do seu filho poderá fazer essa função na sua casa e com os filhos e filhas de suas irmãs. Poderá também participar, se assim o quiser, dos cuidados do seu filho biológico, mas está não será sua obrigação primordial. Esse modelo é, por certo, uma exceção no mundo atual e, para existir, precisa de circunstâncias muito especiais, entre elas a paz e uma característica não belicosa da sociedade. Creio que esse é o ponto nevrálgico. Todas as sociedades que, de uma forma ou de outra, se sentiram ameaçadas por inimigos externos acabaram adotando o modelo patriarcal, muito mais forte, determinado e capacitado para o enfrentamento.

Existem muitos documentários sobre os Mosuo (vide abaixo) em especial por concepções errôneas e preconceituosas sobre a organização sexual das mulheres nesta cultura. Em um desses documentários, a matriarca diz que o modelo Mosuo “é o mais avançado do mundo, e deveria ser exportado para todo as culturas”. Ela rechaça a ideia de que seja promíscuo, mas ressalta que nesse modelo (ou nessa experiência) as mulheres fazem um trabalho muito pesado na agricultura de subsistência e no cuidado com os animais domésticos, produzindo uma sociedade de ampla autossuficiência. Entretanto…. se pensarmos bem, não temos uma variante desse modelo em alguns subgrupos sociais? Pensem em alguns bolsões de pobreza, onde as meninas adolescentes engravidam de garotos igualmente muito jovens. A menina e seu filho estabelecem-se (por necessidade) na casa da mãe, que passa a cuidar do neto, muitas vezes assumindo o cuidado materno. O pai biológico desaparece, evade, vai cuidar de suas necessidades, e a função paterna acaba sendo executada pelos irmãos mais velhos ou pelo avô do bebê (quando houver). Não é parecido?

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Tríptico Amor Romântico – 3. Do que estamos falando?

Primeiramente é importante deixar claro este conceito. Amor romântico não é isso que muitas das pessoas imaginam; aliás, quase todos confundem esse conceito quando se trata das formas de constituir uma sociedade. Amor romântico é casar (ou qualquer relação semelhante que objetiva constituir uma família) por amor, e não por qualquer outro interesse. Essa criação social é relativamente jovem na história da humanidade, e ainda hoje existem milhões de casamentos que não ocorrem por amor, fora do esquema que temos aqui, e que ocorrem por contrato de divisão de terras, divisão de poder, por escolha dos pais, para fazer filhos, por interesses jurídicos (green card, por exemplo), por rituais familiares, etc.

O Japão possui uma longa história de casamentos arranjados, chamados “omiai”. Este país mudou bastante a partir da 2a guerra mundial e a forçosa ocidentalização que se obrigou pela invasão americana e hoje em dia muitas pessoas estão escolhendo parceiros que conhecem e amam. Há não menos de 20 anos o total de casamentos Omiai era de 20%, mas hoje estima-se que cerca de 5% a 6% dos japoneses ainda usam o modelo do casamento arranjado e aceitam ter seus parceiros escolhidos por outras pessoas. Os casamentos arranjados ainda são a norma na Índia, mas há uma tendência crescente de algumas mulheres escolherem seus próprios parceiros, ou simplesmente não se casarem. Ou seja: o casamento romântico que parece morrer aqui, lá na Índia está recém nascendo e florescendo, e se tornando – só agora – a norma.

Esses casamentos arranjados, que foram o padrão da humanidade por séculos, costumam ser uma instituição muito mais sólida, firme, forte e permanente. Como dizia Contardo Calligaris, “o casamento é uma instituição sólida, a única coisa que o enfraquece e ameaça é o amor”. Todos nós percebemos o quanto o casamento de nossos avós eram bem mais duradouros que os atuais, mas também muitos se espantam (ou ficam horrorizados) ao descobrir que muitos destes nossos antepassados… jamais se amaram.

Enquanto isso, o casamento por amor romântico é uma novidade recente onde o sentimento afetivo (amor) é o principal elemento de união, não havendo outras amarras explícitas para o contrato. Não são escolhas parentais e não são valores materiais os objetivos dos que escolhem o parceiro, o objetivo não é monetário e não há interesses escusos.

Algumas pessoas dizem que este tipo de união é fracassada, tendo em vista que na idade madura mais da metade das pessoas já estão separadas desse amor. Pois foi esse meu interesse ao perguntar: se não for esse o modelo de casamento – por amor – qual seria? Voltar a ter casamentos por dinheiro, escolhidos pelos pais? Pessoas fazendo filhos sem se conhecer? Máquinas de gestação extra corpórea? Relações fugazes? Longos namoros sem coabitação? Filhos criados por comunidades de mulheres? Paternidade dispersa? Pessoas vivendo sozinhas e se encontrando apenas por sexo (como ocorre em parte da juventude de hoje)?.

Claro que qualquer um pode escolher o seu modelo, mas isso não se configura um padrão social, apenas uma forma de resolver sua vida erótica, e sobre essa questão social se apoia a pergunta inicial. Alguns perguntaram “para que precisamos modelos?”, que é uma pergunta válida para o sujeito, mas se vamos tentar entender as tendências sociais é importante questionar as razões pelas quais escolhemos formas de guiar as práticas de união social – em especial aquelas que vão produzir filhos e manter nossa espécie.

Portanto, não estou falando de “amor verdadeiro”, “amor eterno”, “amor real e sincero” e muito menos do conceito de “romantismo”, ou seja, “práticas externas e explícitas de demonstração de afeto e paixão por uma pessoa”. Isso é outro assunto. O amor romântico pode ser silencioso e discreto, basta ser movido tão somente…. por amor.

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Pedra de Tropeço



“And a stone of stumbling, and a rock of offence, even to them which stumble at the word, being disobedient: whereunto also they were appointed”.

Eu acho que Cristo estava certo ao dizer “pedra de tropeço e rocha que causa a queda; porquanto, aqueles que não creem tropeçam na Palavra, por serem desobedientes, todavia, para isso também foram destinados.”

Minha interpretação é de que os acontecimentos ruins que nos fazem tropeçar precisam ser utilizados como ferramenta de elevação. A sua “destinação” – e aqui serve apenas como alegoria – é a pedagogia do caminho justo. O escândalo do trabalho escravo precisa servir de alavanca para uma profunda reflexão, e uma posterior transformação nas relações trabalhistas. Sabemos também que os casos de trabalho análogo à escravidão acontecem há muito tempo, e que muitas queixas já haviam acontecido, mas a imprensa e o MP nunca deram a devida importância. Não é novidade alguma o que aconteceu, mas o ambiente político pós era Bolsonaro, as declarações infelizes do vereador bolsonarista, a publicidade que foi dada acabaram produzindo a necessidade de enfrentar este caso de uma forma diferente. É preciso que a sociedade brasileira aproveite a oportunidade que o escândalo do trabalho escravo nos ofereceu, que ele venha a nos envergonhar, para que esta vexame seja a peça essencial para uma nova consciência.

Uma história parecida: Nos anos 70 os anestesistas eram escassos no Brasil. Era comum que um anestesista cuidasse de várias salas cirúrgicas ao mesmo tempo, ocupando-se de vários pacientes, dividindo sua atenção entre muitos teatros operatórios. Então aconteceu o acidente de Clara Nunes durante uma cirurgia, e este fato oportunizou – pela via da dor – um novo padrão de atenção, através do escândalo de uma morte que poderia ter sido evitada. Não se sabe com exatidão se esse foi o caso que ocorreu com a cantora, mas foi uma das versões que percorreram o noticiário da época. A solução surgiu a partir da vergonha, causada pela pedra de tropeço de uma tragédia. O Conselho Regional de Medicina da Bahia, informou que causa mortis apresentada no atestado de óbito da cantora foi “hipersensibilidade ao halotano”, gás administrado durante a cirurgia como anestésico. Pela avaliação da corporação os depoimentos apontaram que, tanto do ponto de vista técnico quanto humano, não houve falhas. Os médicos não teriam se ausentado, os equipamentos não falharam por falta de manutenção e a clínica São Vicente onde ocorreu o fato foi inocentada. De qualquer maneira, a partir dessa data, houve uma vigilância severa sobre a atuação dos profissionais em salas de cirurgia.

Nesta caso que agora nos espanta pela sua crueldade e violência protagonizada pelos empresários e por membros do Estado, é preciso ter uma visão prospectiva, que não pode se esgotar no punitivismo. Espero que a partir de agora a indignidade, a violência, o abuso, os maus tratos e o cerceamento da liberdade sejam vistos como crimes contra cada um de nós. Que sejamos atingidos pela vergonha de considerar cidadãos trabalhadores como sub-humanos, indignos de justo tratamento. Que tenhamos a sabedoria para fazer um bom uso desse lamentável acontecimento.

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Paixão pela mudança

Se a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor, como já dizia Paulo Freire. Se a gente não combate o abuso em si, mais cedo ou mais tarde todos iremos exigir nosso quinhão de opressão no mercado da violência. Se a luta contra o arbítrio só nos inflama quando toca nossos interesses – ou nossas feridas – então não é paixão pela mudança, é apenas oportunismo.

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A Bruxa

O mundo ainda fala muito da Lady Di e se lembra dela com saudade, mesmo que seja alguém de quem conhecemos apenas sua face pública, a imagem na TV, as manchetes de jornal e quase nada da sua verdadeira personalidade – a não ser pelos relatos de amigos próximos que só podem falar bem dela. Ora, até eu terei amigos a me pintar com as cores da doçura quando partir, que dirá a “lady dos britânicos”.

Não creio – e fica claro que se trata de uma crença – que Diana fosse uma má pessoa; pelo contrário, acho que era uma mulher como qualquer outra, com sonhos, desejos, amores, filhos imersa em uma vida de luxos e holofotes. Acredito que, tirando de foco sua fortuna, seu casamento mágico, sua vida de contos de fada, sobraria apenas uma garota entre milhões de outras, que teve a chance de viver o sonho dourado de tantas meninas.

Mas, talvez no casamento de Diana Spencer com Charles haja algo muito mais importante a aprender do que a história pomposa de final trágico. Como em todo conto de princesa, há uma bruxa. Esta personagem encarnou na figura de Camilla Rosemary Shand, também chamada Camilla Parker Bowles pelo seu casamento com o oficial Andrew Parker Bowles. Ela era 14 anos mais velha que Diana e mais velha até que Charles, um pouco desengonçada, sem atrativos físicos, com dois filhos do primeiro casamento e sem o glamour da “princesa do povo”. Contra tudo e contra todos, foi ela quem roubou o coração do príncipe, mesmo que aparentemente não tivesse nenhum dos dotes de beleza, simpatia e delicadeza tão evidentes na princesa Diana.

A imprensa e o povo inglês jamais a perdoarão por ocupar o lugar da icônica Lady Di. Bruxa, aliás, foi dos apelidos mais leves que recebeu dos tabloides. Entretanto, já se passaram mais de 28 anos do seu casamento com o atual Rei Charles II, e parece (como várias vezes disse meu pai) que ela sempre foi a verdadeira princesa, sendo sua antecessora uma ocupante temporária. Pelo menos ao olhos de Charles.

Acho que esta é uma história de amor real (pun intended) que desafiou convenções, bloqueios legais, a imprensa, a opinião pública e a própria realeza britânica. Camilla deve ser a versão mais clara na vida real da Gata Borralheira, a mulher comum, sem beleza fulgurante que rompeu todas as amarras e fisgou o coração do príncipe.

Isso me faz recordar uma conversa com Alfredão, psicanalista, que me dizia que a história humana se iniciou quando dois antropoides observavam duas fêmeas limpando a carne de um animal à beira do rio. Um deles aponta para uma delas e diz “Quero aquela!!”, ao que seu amigo pergunta “Por quê?”, recebendo como resposta uma cara de espanto e a frase “Não sei…”

Charles escolheu Camilla para estar ao seu lado até a morte e lutou contra todas as convenções para ter a mulher que desejava. Talvez se fossem a ele perguntadas as razões de sua escolha por Camilla teria a mesma resposta dos antropoides à beira do rio e, apenas por isso, podemos dizer que esta é uma história de amor. Apesar de compreender o culto que se faz à Diana, pela sua imagem e seu fim trágico, eu sempre tive pelo temperamento reservado e pelo pudor de Camilla um grande respeito, e hoje até uma grande admiração.

Como Duquesa da Cornualha, Camilla auxilia Charles em suas responsabilidades como representante do Estado. Ela é financiadora e presidente de muitas organizações de beneficência, atuando para despertar conscientização em áreas como a osteoporose, abuso sexual e alfabetização.

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Labotois

Sonhei essa noite que estava carregando um grupo de amigos na caçamba de uma caminhonete. Esta caminhonete havia sido assaltada e o banco do carona foi roubado. Ou seja: não havia “banco”, mas ainda assim era possível dirigir o veículo e dar carona aos meus parças. Dirigi pelas ruas tortuosas até que precisei entrar na rua Independência, mas para isso precisaria acessar primeiro a rua “Labotois”. Perguntei a alguém na rua como seria possível subir por esta rua, mas não obtive resposta. Acordei com esse nome na cabeça – uma rua que eu bem sei que não existe – e anotei no celular. Pela manhã voltei a pensar no que esta palavra poderia querer me dizer.

Labotois (Labotoá)??? Essa palavra, aparentemente não existe em nenhum idioma. Vejamos onde ela pode se situar…

* La Bote (restaurante antigo da cidade). Pizza, com meus amigos…
* La Boîte (a caixa, a lata). “Alors j’ai commencé à chercher à l’extérieur de la boîte.”Então comecei a pensar fora da caixa…
* La Boîte aux Lettres (a Caixa de Correio, restaurante em Paris). Tudo a ver com minha estrutura sofisticada, que curte “haute cuisine française”, só que não. Ou será que estou para receber uma correspondência importante? I bet that’s the best choice.
* La Boétie (Étienne de La Boétie, cuja obra mais famosa é seu Discurso da Servidão Voluntária, escrita em 1548, após a derrota do povo francês contra o exército e fiscais do Rei, que determinaram um novo imposto para a cobrança do sal. A obra se estabeleceu como um hino à liberdade, com análises muito pertinentes sobre as origens do autoritarismo e da dominação de grandes grupos por alguns poucos poderosos. Também trata da necessária indignação pela violência da opressão e as formas como enfrentá-la. Morreu com apenas 32 anos de idade e foi o grande amigo de Montaigne, que jamais se recuperou de sua perda).

Lígia Víctora, onde estás?

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Religião e paz

Religião não tem nada a ver com guerras ou pacifismo. Aliás, a imagem acima, com cavaleiros Cruzados em batalha, pode dar a falsa ideia de que esta foi uma guerra “religiosa”, de cristãos contra o islã, algo tão errado quanto a luta de “católicos contra protestantes”, na Irlanda, algo que era ensinado quando eu estava na Escola – uma forma imperialista de descrever o conflito. As religiões não produzem guerras – nem paz. Ninguém mata pelo Deus do outro ou pela forma de fazer pão. O que nos leva à guerra são interesses materiais bem mais palpáveis.

Como diria Marx, “a história do mundo é a história das lutas de classe”. Pegue qualquer guerra, em qualquer período da humanidade e verá que em todas elas vamos encontrar interesses econômicos e geopolíticos determinantes, e não disputas ideológicas ou de caráter religioso. As religiões, entretanto, são usadas como “cola”, uma forma de seduzir o povo para o esforço de guerra, clamando por uma identidade ou pela defesa de valores culturais que estariam sendo “ameaçados”, questões estas que são absolutamente desprezíveis para aqueles no poder e que estão interessados economicamente no conflito.

Portanto, se você acha que as religiões produzem guerras, então foi reprovado em suas disciplinas de história

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