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Trabalho

A mensagem que fica, a partir da ingênua resposta da menina é: você não precisa ser uma mera empregada (comissária de bordo); pode ser uma empresária e dona de um avião. Essa é a moral que subjaz, o subtexto que brota das palavras da menina, travestida de empoderamento feminino. Troque “avião” por qualquer setor do capitalismo, como loja, fábrica, empresa, escritório, etc… e verá que existe um nível de valoração que vai do mais baixo (o trabalhador, a comissária, o empregado) até o capitalista (o dono do avião, o proprietário da empresa, o dono da loja), como se trabalhar e ter uma função (como o simples proletário e a comissária) fosse menos nobre, menos válido ou menos importante do que ser um capitalista dono das coisas, cuja virtude fundamental é possuir grandes volumes de dinheiro, cuja origem é sempre desconsiderada nesta equação.

Pior: as palavras da garota escondem a verdade, vendendo a imagem ilusória de que uma menina pode vir a ser dona de um avião “se ela se esforçar muito“, quando a realidade material mostra que os donos de avião – e de fábricas, de terras, de grandes lojas, etc – pouco se esforçaram na vida em comparação ao trabalhador comum – como qualquer um de nós. Apesar de exceções notáveis e pontuais, são pessoas cuja riqueza vem de suas famílias, de sua classe, de seus contatos e do acúmulo de capital que as gerações anteriores produziram. Portanto, a frase contém uma glamorização do capitalismo e dos bilionários, enquanto insiste na desvalorização do trabalho de todos nós, o qual é tratado como algo menor, menos valoroso e menos interessante quando comparado com o charme de ser bilionário…

Para que fique mais fácil entender, se esse avião for da Virgin Airlines a dona dele se chama Joan Templeman, esposa de Richard Branson, e ela se esforçou durante a sua vida muito menos do que qualquer comissária de bordo. Essa é a questão de querer ser “dono” ao invés de ser “trabalhador”. Para trabalhar é preciso esforço; para ser “dono” nem sempre.

Para descontrair:

A enfermeira sorridente apresenta o bebê recém nascido à sua irmãzinha pelo vidro da maternidade. Ao lado da menina o pai sorri para a moça com o bebê nos braços e diz para sua filha:

– Sabia que se você estudar bastante também poderá ser uma parteira?
A menina põe as mãos na cintura, empina o queixo e então responde:
– Se eu quiser posso ser a dona do hospital!!

Os demais pais, que aguardavam ansiosos para ver seus bebês na sala de espera, abraçam e consolam o pobre pai que cai em prantos enquanto diz entre soluços: “onde foi que dei errei? O que fiz de tão errado?”.

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Direitas

As direitas europeias, sem perceber que estão no olho do furacão da crise capitalista, confundem adotar uma posição “antissistema” com namorar o nazifascismo. Ou seja, mais cedo ou mais tarde as direitas no mundo inteiro se rendem à sedução moralista, ao “patriotismo”, à constituição patriarcal da família e à teocracia. Acreditam que existe uma “grande ordem mundial” perversa e destrutiva, semelhante aos “sábios do Sião”, que controla o capitalismo e o corrompe. “Não é o sistema“, dizem eles, “são os imorais e gananciosos que o controlam“.

Infelizmente não perceberam ainda que o “mostro tenebroso” que nos oprime não é quem controla o capitalismo, mas o próprio capitalismo, que se desmancha em frente aos nossos olhos por sua incapacidade de oferecer saúde, segurança, educação, justiça social e prosperidade ao povo. O que estamos vendo nos últimos anos é exatamente mais uma crise brutal de seus valores, regurgitada em convulsões, autoritarismo, Orbán, Bolsonaro, guerra na Ucrânia e declínio do Império. Não há possibilidade de mudar o destino catastrófico do mundo sem mudar seu sistema. Não se trata de “se”, mas “quando”, pois que nossa alternativa é a autodestruição.

Socialismo ou barbárie.

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Slow Medicine e Capitalismo

Em essência o “slow medicine” é um contraponto à medicina dos grandes conglomerados farmacêuticos e de medicina industrial de massa, algo que o movimento de humanização do nascimento – e seu reforço aos aspectos sociais, emocionais, psíquicos e espirituais do parto – defende desde os anos 80. Portanto, ela é necessariamente uma perspectiva anticapitalista do cuidado. Este movimento de medicina mais suave se situa no contrafluxo da atenção centrada na tecnologia e na sofisticação e aposta numa visão preventiva dos males, a imensa maioria dos quais derivada do estilo de vida vicioso e acumulativo do modelo capitalista.

Por esta razão, podemos dizer que “slow medicine” sem luta de classes é tão somente perfumaria. Atacar os excessos sem entender porque os cometemos é como fazer dieta sem entender as razões profundas que comandam silenciosamente nossa compulsão.

Veja mais aqui

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Fake News

“MINISTRO do STF, Gilmar Mendes almoçando com o FILHO do Lula, em Roma/Itália, no dia 09 de outubro de 2022.”

Nas páginas dos amigos bolsonaristas encontramos estas pérolas da desinformação, adquiridas diretamente das sombras do WhatsApp: o Ministro do STF Gilmar Mendes almoçando com o “filho do Lula” em Roma no meio do segundo turno. Um simples olhar com atenção bastaria para ver que o sujeito na foto não lembra qualquer filho do presidente Lula. Entretanto, o Porsche dourado, a mansão no Uruguai, as lojas Havan e o triplex também eram facilmente desmentidos; por que, então, tantos acreditaram?

Eu pergunto: como puderam tantos acreditar nessas tolices? Como puderam receber estas mensagens pelo WhatsApp e imediatamente as disseminaram, sem ao menos verificar se a Havan era do “véio”, se a JBS já tinha dono, se na mansão já havia moradores e se o barbudinho na imagem não é qualquer outra pessoa?

A resposta é a necessidade premente de acreditar em qualquer fato – mesmo mentiroso – que confirme suas crenças. Por isso as pessoas acreditaram no “estado de sítio” há alguns meses, ou na prisão do Ministro Alexandre de Moraes logo após a vitória de Lula. Trata-se do conhecido “viés de confirmação“, um mecanismo psicológico primitivo que nos força a crer nas interpretações da realidade que confirmam as nossas crenças mais primitivas, as quais são originadas dos nossos afetos e emoções, não dos estratos superiores da razão.

Isso explica tragédias como Jonestown, onde 900 seguidores de Jim Jones tomaram cianureto, seguindo as ordens do seu mestre e guru. Também nos permite entender toda a idolatria dos extremistas de Waco, no Texas, vítimas de um incêndio que provocou a morte de 76 membros da seita davidiana em 1993, entre elas 23 crianças e o próprio líder, o pastor Koresh.

Somos constituídos de um núcleo de medos primitivos, tendo a angústia como sentimento fundador. Por sobre este medo essencial, colocamos uma grossa camadas de crenças irracionais (Deus, evolução, causa e efeito, progresso, justiça divina, determinismo, etc) que aliviam a nossa angústia estabelecendo uma relação de causalidade para os eventos caóticos da vida.

Por sobre esta camada de crenças aplicamos uma fina camada lógica, um verniz de intelecto, uma fachada tênue de racionalidade, que nos afasta dos medos sem, no entanto, eliminá-los, mas que nos oferece a sublime ilusão de sermos seres autônomos e conscientes. Tão brilhante é esta camada externa que ela nos ofusca e nos engana, fazendo-nos pensar que somos conduzidos pela luz da razão, quando em verdade ela funciona mais como uma máscara frouxa a esconder nossa estrutura primitiva e pulsional.

Não é por outra razão que somos presas fáceis das fake news. Elas são apenas a água refrescante que nossa alma sedenta de confirmação tanto deseja. Diante de tanto desejo, nossa razão minúscula é uma combatente frágil e minúscula. Via de regra, é derrotada pela avalanche de informações que desejamos ardentemente acreditar, sendo elas falsas ou não.

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Interpretações selvagens

Vi alguém afirmando que “quanto mais o sujeito defende a família, a moral e os bons costumes, mais safado é”.

Hummm, calma lá…

Uma frase assim, fora de seu contexto, e generalizando de forma bruta, é apenas lacração. Existem fanáticos moralistas que são castos, justos, corretos e tem uma conduta ilibada e honesta. Traçar uma linha reta de causa e consequência é um erro facilmente cometido. Por certo que existe um perfil cujas críticas à conduta moral dos outros nada mais são do que denegações de seus próprios vícios; jogam nos outros o que não suportam em si. Entretanto, se isso pode ser frequentemente observado, não deve ser considerado como regra geral.

Não há como desmerecer todas as críticas à moral alheia apenas com esse argumento. Tipo “se você é homofóbico só pode ser um gay enrustido e frustrado”. Não é verdade; muitas vezes é apenas um heterossexual idiota ou preconceituoso que precisa se sentir superior à alguém por ter sua autoestima combalida.

Esse “furor interpretans” não nos ajuda a entender o fenômeno do preconceito e do ódio social disseminado aos diferentes, e tais afirmações peremptórias nada mais são do que pura selvageria diagnóstica

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Esperança

Esta semana surgiu a notícia de que sujeitos ligados ao bolsonarismo estariam se infiltrando em ambientes progressistas, seja no Facebook ou nas outras mídias sociais, para pintar um cenário de derrota iminente da candidatura Lula. O objetivo é óbvio: desmobilizar, esmorecer, refrear as manifestações a favor da chapa liderada por Lula. Porém, esta é uma estratégia eleitoral. Para a libertação do nazifascismo bolsonarista a estratégia em longo prazo deve ser a orientação sedimentada pela razão. Não vejo futuro na troca de uma mistificação por outra, mesmo que a segunda seja infinitamente melhor que a primeira. A tarefa de libertar o sujeito só virá através do único atributo que nos diferencia dos outros animais: a razão, esta fina camada de verniz, a tênue fachada que nos livra dos medos e nos permite entender os fatos para prever o futuro

Entretanto, não se combate uma ideia que surge irracionalmente usando argumentos racionais. Portanto, para combater o fascismo e a pulsão de morte que Bolsonaro representa, precisamos usar e canalizar emoções.

Para derrotar Bolsonaro e seu plano totalitário nestas eleições é necessário usar as armas da sedução, do afeto e das emoções e mostrar o rastro de destruição crua causada por essa ideologia macabra. Esta é a estratégia para as eleições, em curto prazo, mas não o caminho em longo prazo que teremos de trilhar. O bolsonarismo não vai desaparecer apenas com a eliminação do seu mais importante expoente. Será necessário um processo muito mais complexo e difícil para desentranhá-lo da mentalidade do brasileiro. Para exterminar o fascismo é preciso educação é paciência.

Temos que manter o foco e a esperança. Lula nunca esteve atrás em nenhuma pesquisa. Ganhou o primeiro turno contra a máquina dinheiro e corrupção do governo de contra o derramamento de fake news. Não há porque esmorecer agora. Na última manifestação em Porto Alegre havia 70 mil pessoas na rua. O mesmo aconteceu em Recife, Curitiba, em Padre Miguel – multidões gigantescas nas ruas clamando por Lula e o que ele representa para as ideias de solidariedade e progresso com distribuição de renda. Apesar de estarmos presenciando a eleição mais desonesta da história da República, Lula continua na frente, desafiando as gigantescas quantias de dinheiro do governo derramadas com o objetivo de comprar votos, além da enxurrada de fake news que foram usadas neste ano. Desta vez o “banheiro unissex” toma o lugar do “kit gay” e da “mamadeira de piroca”.

Para aqueles que estão, como eu, à esquerda de Lula, o momento é de apostar no pragmatismo. Lula está muito mais próximos dos ideais revolucionários do que seu oponente – que representa o oposto desta perspectiva. Portanto, está em nós continuar ao lado de Lula nas ruas e em todos os ambientes que formos chamados à luta. Não acredito que as provas da obsessão sexual do atual presidente por adolescentes, o desprezo pela população das favelas e as agressões ao nordeste não terão uma resposta das urnas. Precisamos livrar o Brasil da tragédia que representaria Bolsonaro por mais 4 anos.

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Exclusão

Sim, eu concordo. A estratégia identitária de excluir do debate o homem branco, cis, hétero e de classe média, como se fosse um leproso, o culpado de todas as mazelas sociais e o “estuprador em potencial”, jogou milhões de brasileiros nas mãos da direita ressentida e feroz. Esse é o eleitorado mais fiel ao bolsonarismo e, se não posso aceitar essas escolhas, posso ao menos tentar entendê-las, para que não seja necessário sofrer mais por elas.

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Escolhi você…

“Então parça, se eu lhe escolhi é porque eu quero você, não por que eu precise de você”…

Eu entendo a mensagem, mas se uma mulher me dissesse isso eu virava as costas e saía caminhando. Fica claro que essa pessoa me trata como uma coisa útil, o que pode mudar a qualquer momento. Quando ela diz “eu te escolhi” deixa claro que a minha opinião ou o meu desejo não contam muito – ou nada. Eu fui o “escolhido”, e não alguém que fez – também – uma escolha.

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Um século de atraso civilizatório

Sim, sou da tese de que a homofobia é um fenômeno fortemente amplificado nos anos 70-80. Por certo que havia discriminação anterior a esta data, mas não do tipo que passou a ocorrer quando os gays resolveram assumir abertamente a sua orientação sexual. Antes disso eram eram tratados como doentes e degenerados, mas não eram uma ameaça a nossa “sexualidade normal”. Por esta razão foi possível no início dos anos 80, por exemplo, a criação aqui no sul da 1ª torcida (abertamente) gay do Brasil: A Coligay do tricolor gaúcho (formada pelo nome Coliseu, a boate que frequentavam, acrescido da palavra “gay”, que passava a assumir outro significado na cultura). Temo que, se esta torcida fosse criada hoje em qualquer clube brasileiro, ela ainda seria expulsa a pauladas do estádio.

Foi o “Stonewall Uprising” o fenômeno mais marcante da cultura gay na aurora dos anos 70. A boate Stonewall Inn, no Greenwich Village em Nova York, no dia 28 de junho de 1969 foi mais uma vez invadida pela polícia que, costumeiramente, batia e humilhava os frequentadores – em sua maioria homossexuais masculinos. Nestas “batidas policiais” os gays eram espancados, ilegalmente revistados e humilhados publicamente, demonstrando através da ação da polícia o ódio dissimulado aos gays. Os clientes eram presos temporariamente e os gerentes tinham a bebida confiscada. Entretanto, nesta madrugada de sábado, eles pela primeira vez reagiram. Fecharam a porta do estabelecimento, revidaram as agressões, bateram nos policiais com seus tamancos dourados e exigiram respeito à sua condição humana.

“Quando você viu um bicha revidar? Agora os tempos estão mudando; essa vai ser a última noite para essa porcaria acontecer”. Predominantemente, o tema era: “essa merda tem que parar!” (participante anônimo dos motins de Stonewall)

A partir de então os motins e manifestações de apoio à comunidade gay em Nova York se multiplicaram. Exigiam a liberdade de se encontrar sem serem humilhados, revistados e presos apenas por se vestirem com roupas do sexo oposto. As suas práticas e modos de vida eram toleradas apenas enquanto se escondiam no escuro da noite, em guetos, apartados da vida social e, em especial, longe das crianças. Leprosos e possuidores de uma doença contagiosa, eram dignos somente de pena. Todavia, com a emergência do “orgulho gay” e a reivindicação de cidadania por parte da comunidade, espalhou-se o vírus da insegurança, em especial entre aqueles cuja sexualidade conflituosa era motivo de tormentoso sofrimento silente. Em poucos anos esta nova consciência dos direitos gays se espalhou pelo mundo todo.

A saída do armário, entretanto, criou o contrafluxo brutal contra a manifestação pública da sexualidade, que fica evidente ainda hoje na fala dos conservadores: “Se quiser ser que seja, mas faça com discrição, não na frente de todos”. Ou seja: “não crie em mim esta angústia que me faz arder por dentro, e me consome de incertezas”. A visibilidade dos gays despertou os sentimentos recalcados em um contingente grande da população, o que, por sua vez, acabou gerando a homofobia como hoje a conhecemos.

O bolsonarismo nada mais é do que a organização desse desconforto sob uma sigla. Personagens como Bolsonaro e Damares, e sua fixação na temática sexual e na perversão, nada mais são do que a manifestação na sociedade deste sintoma social. O guru de ambos, Olavo de Carvalho era incapaz de falar três frases sem inserir descrições pormenorizadas de pênis e ânus – e o fatídico encontro entre eles. Portanto, a crítica à maior exposição das infinitas formas de manifestação sexual não se dá pelo medo da “degenerescência da sociedade” – apesar de ser este o slogan – mais do quanto essa manifestação desabrida da expressão do desejo sexual pode afetar a tão combalida sexualidade de quem dela secretamente desconfia. O que não é simbolizado retorna no real, e esse retorno do recalcado pode vir através da destruição do outro.

Freud tratou dessa questão há quase 1 século em seu texto “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, onde deixava claro que a sexualidade nos humanos não é natural e que a orientação homoafetiva é tão problemática quanto a construção heterossexual, e que ambas não são infensas aos traumatismos. Mais ainda: essa construção é um processo de ordem subjetiva, e cada um de nós é o responsável único por dar conta dessa tarefa. Poucos autores foram tão atacados na história da cultura humana por suas palavras quanto Freud ao abordar a questão da sexualidade, em especial sua visão aberta e progressista sobre o afeto homoerótico. Tão avançado era que até hoje seus conceitos geram inquietude.

O que vemos hoje através dos adeptos do bolsonarismo – uma legião guiada pelo ressentimento – tem a gravidade de retroceder 1 século no processo civilizatório. Aceitar esse “retorno” aos conceitos e visões de mundo do século XIX serve apenas para reviver e promover o horror e a mentira que milhões de pessoas eram obrigadas a suportar apenas para dar conta de uma máscara social. O mundo precisa rejeitar o que este atraso significa.

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Dinheiro e(m) excesso

As pessoas que vivem fazendo textões exaltando a possibilidade do dinheiro de trazer felicidade e paz de espírito, romantizando e exaltando as coisas que o dinheiro pode comprar, deveriam conhecer a história do Thiago Brennand, famoso playboy pernambucano que foi preso hoje em Dubai. Sua longa história de abusos é tão extensa quanto a lista de pessoas que se afastaram dele, em especial sua própria família. Seu dinheiro atrai interesseiros(as) e oportunistas, mas afasta aqueles que o conhecem em profundidade.

Uma das irmãs, conhecida nutricionista da cidade, relatou que tanto ela quanto seus 3 outros irmãos não tem nenhum contato com Thiago há 20 anos. Gente, 20 anos sem falar com os próprios irmãos. Que riqueza é essa que destrói os laços familiares?

Eu não tenho interesse algum em desculpar as inúmeras atrocidades que este rapaz cometeu. Espero mesmo que pague suas dívidas e que possa reavaliar sua trajetória nesse mundo. Por outro lado, penso que este ódio e o desprezo imenso que tem pelos outros – em especial sua família – devem estar relacionados a feridas ainda abertas, traumas muito precoces na sua vida afetiva, desamores dolorosos que foram potencializados pela sensação de impunidade e onipotência que o dinheiro em excesso é capaz de produzir em qualquer um. Dinheiro, assim como a beleza e o talento, são fardos pesados para carregar. Aliás, o próprio nazareno já nos alertava que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um “burguês” (desculpe, preciso deixar claro) entrar no Reino dos Céus. E por quê? Ora, porque somos egoístas por natureza, e sem uma castração adequada em nossa propensão egocêntrica, acabamos acreditando mesmo que somos o centro do mundo.

O que este rapaz expõe como comportamento narcisista, violento, misógino, racista, homofóbico e aporofóbico (desprezo pelos pobres) nada mais é do que a visão crua das feridas afetivas que insidiosamente destroem seu espírito. Ele fez muitas vítimas pelo seu comportamento, mas por certo que ele também é mais uma delas.

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