Arquivo da categoria: Política

Vira-Latas

Sempre foi notória a vinculação do Ministro Barroso com os interesses da burguesia rentista nacional e do empresariado, os quais defende com unhas e dentes, mas resta a tristeza de saber que Barroso foi indicação do PT, seduzido por seu discurso identitário. Barroso é a imagem mais clara e cristalina do STF, uma corte de barões e baronesas acima do bem e do mal. É terrível saber que a Rede Globo – e o lavajatismo – tem nesse sujeito seu grande escudeiro. Que outra Rede de Comunicações no mundo consegue eleger um Ministro do STF para defender seus interesses? Quem tem um “ministro prá chamar de seu” nas grandes democracias?

Esta semana surge outra informação que até então eu desconhecia: O Ministro Dias Toffoli foi assistir a final da Champions League com políticos e empresários – os quais poderá estar julgando no futuro – em Londres, numa demonstração de absoluto viralatismo. Não só pela companhia, que depõe contra a isenção e a imparcialidade do ministro, mas pelo próprio evento, sonho de todo cucaracha endinheirado. Nestas horas cabe repetir a frase de Júlio César sobre sua esposa, Pompeia Sula: “A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita. A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Este é um mantra que deveria ser repetido diariamente por qualquer sujeito que se coloca na posição de julgador.

Não escondo de ninguém minha vinculação marxista, e sei o quanto custa ser comunista em um contexto onde o fascismo bate à porta. Entretanto, reconheço que a desconfiança da extrema direita com o STF tem sentido. Claro, não pelos seus interesses oportunistas, pois quando Lula e Dilma eram os perseguidos nada disseram. Calaram-se diante das arbitrariedades da Suprema Corte, ficaram em silêncio quando a constituição foi rasgada para impedir Lula de concorrer e silenciaram diante da censura imposta a partidos de esquerda e ao próprio ex-presidente. Agora aparecem como garantistas de última hora e defensores da “liberdade”, mas quando estavam no poder não se acanharam em pedir aos fardados uma nova ditadura.

São espertalhões, que fique claro; no entanto estão corretos pelos motivos errados ao denunciar as arbitrariedades da suprema corte. Só perceberam o autoritarismo e os interesses escusos nas ações dos ministros quando a “água bateu na (sua) bunda”. Parabéns aos comunistas que atacam a Globo e o STF desde sempre como representantes da burguesia decadente deste país muito antes desta crítica virar modinha entre bolsonaristas.

O texto abaixo publicado na Folha de São Paulo expõe a degradação dessa instituição.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Ruptura

Se houve uma vitória moderada da extrema direita no parlamento europeu (de 118 para 131 cadeiras) nas eleições recentes também é verdade que os comunistas obtiveram um forte crescimento, em especial nos países nórdicos, e com uma retórica claramente antissistema, anticapitalista e contrária à guerra. Desta forma, fica claro que a vitória nas eleições foi daqueles que repudiam, com maior ou menor veemência, os atuais sistemas de governança europeus. Protestam contra os sintomas de degenerescência de um modelo econômico de maturidade tardia, mas que é incapaz de oferecer o que prometeu: o crescimento econômico aliado à qualidade de vida aos trabalhadores. Segundo o pensador esloveno Slavoj Zizek, a crise ecológica, a revolução biogenética, os desacertos do próprio sistema (propriedade intelectual, a disputa por petróleo, matérias-primas, comida e água) e o dramático crescimento das exclusões sociais através do refinamento da concentração de renda, serão cada vez mais intensificados no século XXI. Se é verdade que o capitalismo teve um sucesso espantoso na produção de bens de consumo e no estímulo à descobertas também é certo que sua tendência concentradora de riqueza e a divisão social inexorável denunciam sua senescência.

Ou seja, o fracasso da esquerda liberal, em especial os partidos da social democracia europeia, deveria nos fazer reconhecer o quanto a rota de “adaptação” ao liberalismo usada pela esquerda tradicional da América Latina também vai inevitavelmente nos levar a um beco sem saída. Não será mais possível continuar a afagar o mercado e os capitalistas ao mesmo tempo em que tentamos oferecer um horizonte mais justo ao trabalhador. Por esta razão, é inútil tentarmos moderar a sanha capitalista, humanizar seus ganhos ou domesticar sua voracidade; é preciso recriar o discurso de ruptura da esquerda, sem concessões ao capital, de enfrentamento à direita, frontalmente contrário ao imperialismo e contra o discurso bélico da OTAN. Se isso não for feito, permitiremos que a extrema direita, eternamente subserviente aos Estados Unidos, cresça usando a fantasia da indignação, a narrativa antissistema, com a falsa retórica da ruptura para manter o poder das corporações e do imperialismo intocado.

Ainda segundo Zizek, as fases de adaptação à morte do capitalismo se assemelham àquilo que ocorre na intimidade do indivíduo quando defrontado com um diagnóstico inexorável de morte. Segundo ele, da mesma forma como os indivíduos, as sociedades utilizarão o sistema de adaptação ao luto criado pela psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross para resolver as mortes de suas utopias. A primeira fase é a da negação, que vai se observar na ideia de tentar mostrar o capitalismo como o “fim da história”, e a democracia liberal o derradeiro e acabado modelo social. Esta negação, profunda e dolorosa, apenas retarda o reconhecimento do desfecho inevitável. A ela se segue a raiva, e provavelmente esta é a fase que podemos identificar nas massas bolsonaristas ou na juventude de extrema-direita fascista nas marchas neonazistas na Europa. A raiva com o sistema político foi capitalizada pela direita para usar a energia de indignação para dar uma sobrevida ao capitalismo na UTI. Depois disso, vencida a raiva pela triste confrontação com a realidade, vem um processo de barganha, quando haverá a tentativa de adaptar o capitalismo moribundo a uma forma mas justa de divisão de riquezas, mas mantendo intacta a divisão de classes que caracteriza o modelo mesmo tempo que o condena ao desaparecimento. Diante das falhas nas fases anteriores, e em face do aprofundamento dos sintomas do paciente terminal, sobrevém uma depressão. A partir dessa tristeza – pela da morte do sistema que nos seduziu nos últimos séculos – deverá surgir a aceitação, que nos levará ao processo revolucionário e a necessária superação do capitalismo.

Não podemos esquecer que foi exatamente esse o caldo de cultura para o crescimento do fascismo europeu há 100 anos, cuja retórica tinha a mesma origem: a insatisfação com a estrutura da circulação do capital global. O que os europeus rejeitam é o atual estado de coisas, mas ainda não perceberam que a direita é a exata manutenção – travestida de mudança – no atual modelo capitalista concentrador de renda e destruidor do meio ambiente. A Europa mostrou nas últimas eleições o que não quer, mas ainda não percebeu que esta consciência não basta; é precisa mostrar o que realmente deseja. A esquerda do sul global precisa entender que não é o momento de realizar concessões à direita, mas que é o tempo de radicalizações, de aprofundamento das contradições do capitalismo, mostrando – em especial à juventude – que temos alternativas à esquerda para a crise mundial do capitalismo. Esperamos que a ruptura necessária que se esboça não conduza ao poder os mesmos fascistas perversos que levaram 60 milhões à morte no século passado.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Mitos

Imaginem que, numa espetacular descoberta arqueológica, são encontrados na Palestina papiros que descrevem vida e os caminhos do “Jesus real”. Nestes documentos está descrito, de forma inequívoca, que o Messias nunca foi um ser santificado, mas tão somente um escroque, um ladrão, um dissimulador que usava de meros truques de mágica para enganar incautos e ludibriar os crédulos da época. Sua condenação se deu por suas múltiplas falcatruas ou golpes, e não por suas belas palavras, ensinamentos, parábolas, bem-aventuranças ou milagres. Tudo de belo escrito sobre ele não passa de peças políticas, criadas sobre um personagem ficcional, meramente baseado no jovem judeu crucificado no Gólgota.

Claro, é apenas um exercício de imaginação; nada disso ocorreu. Minha pergunta é: se fosse verdade, quantos abandonariam a fé cristã diante das evidências de que o personagem que tanto veneram – e por mais de dois mil anos – não é mais que uma mera criação humana? Quantos deixariam o cristianismo após descobrir que o verdadeiro Jesus de Nazaré nada se parece com o Cristo sobre o qual se ergueu uma igreja de sucesso em todo o planeta.

Minha resposta simples é: zero.

Inobstante as provas encontradas, a vinculação que temos com esses personagens está muito além (ou aquém) de qualquer análise racional, e por isso mesmo esta conexão é poderosa. Não precisamos da razão para criar vínculos com esses ícones, pela mesma razão que nossas outras tantas conexões afetivas não carecem de qualquer ligação racional essencial. Não amamos esta ou aquela pessoa por uma análise lógica e baseada em fatos; nossa ligação é muito mais visceral, e não precisa que os elementos subam do fígado ao cérebro para serem validados.

Aliás, as descobertas recentes da estrutura do Universo balançaram as estruturas da Igreja, mas esta lentamente assimilou as novas descobertas e as ressignificou. “Ok, não somos o centro do Universo, mas Deus Pai zela por todos nós por sua onisciência, onipresença e amor infinito”. Feito. Bola ao centro e reinicia o jogo.

Esse tema me veio à mente porque a recente condenação de Trump tem essas mesmas características. Alguém acha mesmo que Trump perderá a próxima eleição por ter sido julgado, condenado e seus crimes revelados? Responda então: um candidato que se coloca contra o sistema, ao ser condenado por este mesmo sistema que combate, não sairá fortalecido? Essa é a grande força de Trump: disseminar no povo americano a esperança no retorno aos tempos de glória através da ficção de que ele representa o combate ao “sistema”, o enfrentamento ao “deep state” e a luta contra o “globalismo“. Como ele mesmo disse: “Eu poderia dar um tiro em um sujeito na 5ª Avenida e ainda assim venceria a eleição”. E não está errado; ele sabe o papel mítico que exerce sobre o eleitorado.

Bolsonaro, o fac-símile do trumpismo em Pindorama, igualmente sabe que as provas de seus desmandos, a roubalheira, as joias, as propinas da vacina e a tentativa de golpe não atingem o coração de sua imagem de “cruzado antissistema” e contra “tudo isso que está aí”. Ele entendeu que sua legião de acólitos pouco se interessa pela vida real e mundana do seu líder, e apenas enxerga o “mito” que pode redimi-los de sua vida insossa e medíocre. Tanto lá quanto aqui, a falência do capitalismo continuará produzindo estas figuras que iludem seus seguidores fingindo combater o sistema quando, em verdade, são o seu último suspiro.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Ingenuidade

No dia 21 de maio 2024 aconteceu (mais uma) bela lapada em todos os tolos da esquerda liberal que acreditaram que o marreco de Maringá um dia seria punido. O ex-juiz Moro foi absolvido no TSE por 7 X 0.  A esperança ingênua de que fosse feito justiça por um órgão historicamente golpista é a marca registrada de uma esquerda que não aprende as lições, apesar da severidade dos acontecimentos. Nossa fé em figuras medíocres como Carmem ou Alexandre, sem falar nos nefastos Nunes e Mendonça do STF, é atestado de infantilidade política. A direita tem mesmo suas razões para reclamar do autoritarismo desses personagens, mesmo que por razões não democráticas.

Uma esquerda que serve de suporte acrítico às instituições burguesas – polícia, forças armadas, supremo – não mereceria sequer o nome de esquerda, pois é impossivel aceitar docilmente que a salvação da democracia brasileira pudesse vir dos representantes máximos da burguesia nacional. Acreditar nisso é o mesmo que exigir de um rebanho de ovelhas que apostem no bom coração e nos princípios dos lobos para escapar da carnificina. Antes de construir um movimento forte é necessário reconhecer seus inimigos. Como diria Sun Tzu “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.”

Respondam com sinceridade: se fosse Lula a sentar no banco dos réus no TSE, acham mesmo que a “prudência” seria utilizada para seu julgamento? Estariam os ministros tão aferrados à uma interpretação benigna das ações do ex-presidente? Lula foi preso por um apartamento que nunca foi seu!! Dilma foi defenestrada sem cometer qualquer crime. José Dirceu foi condenado sem provas, mas pela “literatura internacional”. Se necessário, o judiciário tira leis da cartola para condenar a esquerda – sem vergonha alguma para criar suas próprias leis, no melhor estilo ditatorial. A história recente dos julgamentos de personidades da esquerda mostra que a balança sempre pesa contra o povo e a favor dos representantes das elites financeiras e do poder burguês. Aceitar passivamente essas instituições é uma ingenuinade que não se pode admitir para partidos que pretendem mudar a história desse país.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Leite derramado

Não que isso seja uma desculpa, mas um dos principais problemas do Estado é a própria estrutura da democracia liberal; na nossa cultura as pessoas pensam a qualidade dos governos na perspectiva dos seus próprios interesses. É muito comum a gente ver um caminhoneiro, dono de bar, médico, professor, empresário ou funcionário público se dizendo arrependido de ter votado no governador, prefeito ou presidente porque não resolveu os problemas da sua categoria. “Não recebemos aumento desde que fulano foi eleito!! Nunca mais voto nele!!” É o famoso voto egoísta. Assim sendo, mesmo quando o governante é um crápula, canalha, ladrão e incompetente, se contemplou seu segmento profissional, seu bairro, sua identidade, sua cidade, colocou calçamento na sua rua ou deu um cargo em confiança para o seu sobrinho ele automaticamente se torna maravilhoso. Essa é apenas uma das razões pelas quais fazemos este tipo de escolha nas eleições, que se mostram um desastre para o povo. Agora estamos a chorar sobre o leite derramado.

Além disso, quem define o que é um bom governante? Aqui no Brasil sempre se consideram as “obras”, e estas precisam ser visuais, que atinjam os sentidos, que impactem a todos por sua grandiosidade. Um viaduto (prefeitos tem tesão em viadutos), um novo hospital de transplantes ultramoderno (que vai beneficiar médicos especialistas e não mais que 100 pacientes por ano), avenidas, pavimentação, aeroporto, etc. Mas qual governante faria uma rede de esgotos? Quem faria uma reformulação da rede elétrica? Quem pagaria um salário decente aos professores? Quem se arriscaria a fazer transformações profundas na estrutura invisível da sociedade? Quem arriscaria seu mandato fazendo apenas o que precisa ser feito – e não o que dá votos? Como acham que o prefeito ou o governador poderiam fazer propaganda dessas administrações usando como publicidade o conserto das bombas de drenagem estragadas há muitos anos que evitaram algo que – por causa disso – não aconteceu? Quem votaria num prefeito cujo slogan fosse: “Eu consertei o que estava estragado, mas não foi usado ainda”?

Sempre conto a história de uma paciente que teve uma síncope cardíaca no corredor do hospital, mas por sorte caiu na frente de dois médicos que passavam por ali: um cardiologista e um obstetra. Por esta situação fortuita foi possível realizar uma cardioversão (choque) imediata, e assim teve a vida salva. Quando recebeu alta da UTI escreveu uma carta (que foi lida no auditório do hospital) elogiando o trabalho do médico que a salvou. Quando fomos ver seu prontuário notamos que ela estava há vários anos sem consultar para sua condição cardíaca – uma arritmia. Isso nos deixou uma lição: elogiamos os médicos que consertam heroicamente as falhas do sistema, mas nunca damos o devido crédito àqueles profissionais cuidadosos que não permitem que seus pacientes fiquem tantos anos sem assistência; nunca elogiamos os médicos que silenciosamente evitam os desastres. Esses são invisíveis, tanto quanto o são os canos de esgoto, as bombas de drenagem, os diques para represar o rio, a rede elétrica e a rede de água potável que existem nas cidades e ninguém vê.

Para haver um sistema mais democrático precisamos ultrapassar a democracia liberal e a política sazonal, aquela que só ocorre cada 4 anos. Precisamos nos livrar dos políticos populistas e do sistema que se ocupa tão somente na maquiagem superficial das cidades. Mas, por mais que seja duro admitir, precisamos de novos eleitores, novos cidadãos, personagens ativos na transformação da sociedade em que vivem, agentes mais participativos no dia a dia das cidades, dos Estados e do país. Gente que possa enxergar o valor da melhoria coletiva, e não apenas daquelas mudanças que lhe interessam ou afetam. Com o modelo atual será sempre mais difícil.

Sim, agora vamos consertar as bombas de de drenagem estragadas em Porto Alegre. Precisou aparecer a “pedra de tropeço”, a tragédia, o desastre ambiental, e agora choramos sobre o leite derramado. Até quando nossa visão política vai ser apenas para os próximos 4 anos, quando sabemos que na China os planos são para 50 anos?

Pensem nisso.

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Política

Proposta demagógica

Mais uma vez: retirar recusos do fundo partidário é uma posição reacionária. Descapitalizar as eleições trata a escolha popular como algo menor, como se financiar a democracia fosse algo desprezível e de menor importância. Continuo absolutamente contrário a esta proposta, pelas razões que já expus. Essa proposição fortalece os partidos da direita, os conservadores e obolsonarismo. Equivaleria a usar o dinheiro dos sindicatos para debelar a crise, causando um enfraquecimento das instituições de proteção ao trabalhador. Não faz sentido algum abrir mão de avanços da democracia – como é o fundo partidário – através de propostas populistas para enfrentar a crise. O fundo partidário oferece paridade de armas aos partidos!!! Não se justifica enfraquecer a democracia em nome de uma crise; existem muitas outras formas de capitalizar o governo sem prejudicar as eleições e os partidos de esquerda. Esses fundos foram criados pra dar mais transparência e equidade para as eleições.

Quem sabe tiramos recursos da compra de armas de Israel ou deixamos de financiar a policia assassina? Quem sabe finalmente taxamos os bilionários? Não, a proposta é fazer valer o poder econômico da direita e da burguesia, através do estímulo ao financiamento próprio das campanhas. Quem seria eleito sem dinheiro público? Ora… os empresários, os políticos já eleitos, os milionários, s elite financeira, etc, e não o trabalhador simples, o pedreiro que mora na Lomba do Pinheiro e quer representar sua comunidade ou o funcionario público que deseja uma valorização para o servidor do Estado. Se essa proposta vier a vingar, apenas os ricos terão dinheiro suficiente para financiar suas campanhas; os pobres não terão condições sequer para entregar um santinho. “Proponho a gente cancelar o 13º salário de todos. Não seria uma coisa fixa, apenas um direcionamento pra essa causa, para essa necessidade. Como uma atitude dessas poderia enfraquecer a democracia? Por favor eu queria mesmo entender“.

Ora, estou sendo irônico; não é da população pobre ou da democracia que devemos tirar recursos!!! Essa proposta enfraquece a política, mas só através da política poderemos resolver a crise, até porque foi ela mesma – e as nossas péssimas escolhas – quem criou todos os males que agora enfrentamos. 

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Paradigmas

Uma das coisas mais engraçadas do discurso político atual é quando a direita, e mesmo muitos bolsominions das redes sociais, dizem que os representantes públicos deveriam trabalhar gratuitamente, sem receber nada por sua representatividade. Além disso, reivindicam que não deveria haver imposto para os trabalhadores e comerciantes, que já são suficientemente taxados pelo consumo. Por fim, reclamam da falta de “capacidade” e de cultura (formal e acadêmica) de alguns políticos – em especial Lula – exigindo que os cargos políticos e jurídicos do país sejam conquistados através de concursos públicos e só possam ser exercidos por quem tem diploma; ou seja, por meritocracia.

É curioso quando percebemos que tais exigências já foram implantadas há muitos anos na…. Coreia do Norte. Em Cuba, igualmente, não há impostos sobre a renda e os representantes das assembleias populares não ganham nada para trabalhar pelo povo. Todo trabalho político é voluntário. O socialismo deu conta dessas reivindicações – além da paridade de direitos e oportunidades entre os gêneros – há décadas. Quanto à religião, fazem coro à manifestação de Michele Bolsonaro, que diz que “O Brasil é do Senhor Jesus”, vinculando a nação a uma única corrente religiosa, algo que deveria ter sido superado desde o fim do século XIX. Nosso estado é laico e plural, respeitando todas as crenças e credos. Nesse aspecto, os defensores da direita pretendem que nosso paradigma seja o… Afeganistão.

No fundo os conservadores temem uma sociedade mais justa, mais equilibrada, mais equânime e mais fraterna. Acreditam que as diferenças brutais que o capitalismo produz são “naturais” e representam as diferenças subjetivas de cada um. Mesmo reconhecendo algumas diferenças inatas, não é aceitável acreditar que elas surjam de determinações divinas, e não da perversidade da estrutura social, que segrega grandes porções da sociedade na disputa justa pelo sucesso. Para a imensa maioria, o destino já está determinado ao nascer.

É contra esse determinismo darwinista que a verdadeira esquerda se insurge, lutando – através do choque de classes – para a implantação de uma estrutura social realmente fraterna e justa.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Fundo partidário

O dinheiro do fundo partidário é para oferecer alguma paridade de armas na disputa pelas eleições. Ele oferece oportunidade para que partidos pequenos recebam dinheiro para pagar suas campanhas e que o poder econômico não seja avassalador, mudando os resultados pelo aporte de recursos. O medo seria ocorrer o que acontece nos Estados Unidos onde apenas dois partidos podem participar das eleições pelos custos astronômicos das campanhas.

Assim, acabar com o fundo partidário favorece o grande capital e os partidos burgueses. O Partido Novo tem financiamentos milionários de seus militantes, que pagam uma pequena fortuna para serem filiados. Já o PSOL, o PCO, o PSTU e a maioria dos partidos de esquerda (fora o PT) mal tem dinheiro para sobreviver. Os partidos burgueses podem viver sem o fundo partidário; os partidos operários precisam dele. Alguns, ingenuamente, afirmam que “Não existe partido político pobre , tem menor poder de barganha, mas pobres não tem.”

Estes precisam conhecer os pequenos partidos, como o PCO, que sequer recebe a ajuda através do fundo partidário (somente do fundo eleitoral). E sobre fazer cada partido pagar suas custas para dar conta das eleições, é imperioso esclarecer que isso já acontece na gringa – nos Estados Unidos, paradigma da democracia liberal no planeta. O bipartidarismo americano – que esconde a realidade de que se trata do mesmo partido dividido em duas siglas – é fruto desse liberalismo, que faz com que seja virtualmente impossível o surgimento de outro partido para competir com a direita americana. No Brasil, sem os fundos públicos, ocorreria o mesmo fenômeno de degradação da representatividade. Aliás, já tivemos isso com a Arena e o MDB, o que fazia liberais de direita como Pedro Simon, e comunistas como José Genoíno, Zé Dirceu e outros estarem dentro da mesma sigla “fantasia”, ou partido “guarda-chuva”. Repito: o fundo partidário e o fundo eleitoral são medidas de esquerda, democráticas, feitas para se contrapor ao poder gigantesco da direita e dos fascistas. Sem estes instrumentos teremos eleições ainda mais desiguais e comandadas pelo poder econômico.

Nos Estados Unidos a campanha presidencial de 2024 custará 16 bilhões de dólares, cerca de 80 bilhões de reais – bastante se comparado aos 5 bilhões que vamos utilizar na campanha toda – de vereadores a prefeitos. De onde vem o dinheiro para isso? Ora, de doadores – pessoas físicas e jurídicas. Mas o que eles ganham com estas doações? Muito simples: nos Estados Unidos um presidente é algo que se compra, alguém que estará lá com o rabo preso pelo financiamento de sua campanha. Qualquer presidente americano chega ao poder prisioneiro de suas dívidas com financiadores. Portanto, quem manda no presidente é a alta burguesia, o complexo industrial militar, as bigtechs, a indústria farmacêutica e o agronegócio. Lá a “liberdade” oferece ao capital o direito de determinar quem governa o país.

Sabe qual o percentual de americanos que apoia a ideia de uma “saúde universal” e estatal, controlada pelo Estado? Ao redor de 63% dos americanos, dados de 4 anos atrás, num valor que aumenta ano a ano. E por que ela jamais é feita? Porque os controladores do governo, o “deep state”, que comandam o complexo médico, farmacêutico e de seguros de saúde bloqueia qualquer iniciativa nesse sentido. Podemos chamar isso de democracia? E se um candidato carismático aparecer com essa bandeira da saúde universal, o que acontecerá? Fácil imaginar que não teria chance alguma nas primárias de ambos os partidos, mas se por acaso tivesse talvez fosse morto, como ocorreu com JFK, Malcolm X ou Martin Luther King Jr.

Ou seja: a retirada do fundo partidário antes das eleições vai oferecer uma vantagem espetacular à direita, em especial para os candidatos burgueses que vão sustentar suas próprias candidaturas. Essa é uma medida que partiu dos think tanks liberais para favorecer seus candidatos conservadores. Ofereço como alternativa quebrar o contrato com a famigerada Elbit, empresa de segurança do Estado Terrorista de Israel, para a compra de equipamento militar e usar o dinheiro que iria para armamento nessa situação de catástrofe.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Éfe Agá Ce

Triste a derrocada do “intelectual da esquerda”, o “príncipe dos sociólogos”, o presidente sábio, a grande esperança da esquerda limpinha (branca). Ele representa o grande sonho de Platão de conjugar em uma única pessoa a sabedoria e o poder de transformar a sociedade. Fernando Henrique é a prova (ainda) viva de que boas palavras, uma formação acadêmica robusta, respeito dos pares e boas ideias são instrumentos frágeis, totalmente incapazes de produzir real transformação social. Para uma revolução que retire o Brasil de uma posição subalterna é preciso estar ao lado da classe operária, a classe que constrói a sociedade na qual vivemos; ele fez o oposto disso ao entregar o patrimonio nacional nas mãos do capitalismo predatório e voraz.

Fernando Henrique Cardoso foi o responsável por destruir um partido (o PSDB) e o principal envolvido em sepultar a perspectiva da social democracia como força política viável. Ele demonstrou que os liberais de esquerda (como ele) diante das dificuldades de um mandato ou das vicissitudes no exercício do poder rapidamente entram em conluio e se associam à direita mais radical e fascista, jogando para o alto suas propostas de outrora. Por isso o partido que ele criou para ser a voz da social democracia nos últimos anos se tornou a facção mais furiosa do bolsonarismo. Dória, Eduardo Leite, Marchezan são exemplos claros dessa derrocada.

“Esqueçam o que escrevi” pedia FHC enquanto ainda presidente. Faremos mais que isso, por justo respeito à sua idade: vamos esquecê-lo, sepultar suas propostas e reconhecer nosso erro em acreditar que sua cultura e formação seriam um contraponto ao seu liberalismo privatista nefasto.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Apito de Cachorro

A imagem de Netanyahu postado à frente de seus soldados não é apenas uma demonstração de autoridade e poder sobre seus comandados; ela é o que se costumou chamar de sinais semióticos que nos remetem para sentidos que vão além do meramente explícito. O mesmo acontece em muitos governos de extrema direita – de Milei à Orbán, passando por Trump – e por certo também ocorreu no governo Bolsonaro: os nazistas daqui adoravam mandar sinais codificados e “apitos de cachorro” para deixar claro para os seus grupos – em especial as células nazistas – a ligação visceral que tinham com os fascistas. Por isso durante 4 anos testemunhamos defensores do governo Bolsonaro fazendo sinais nazistas com as mãos – inclusive parlamentares – a cerimônia de “beber leite“, a adoração aos slogans nazistas (Deus, pátria, família), a tiara de flores nas mulheres nazi, o culto às armas, a eterna celebração do “cidadão de bem”, o “übermensch”, a perspectiva supremacista, o racismo, a ignorância como virtude e a vinculação com a mística religiosa. No nazisionismo a estética é a mesma. Netanyahu adora mostrar que ele é o “Führer” do exército supremacista de Israel. Espero que a civilização ofereça ao sionismo a mesma lição que deu ao nazismo de Adolf. Com fascistas não há diálogo; há combate.

Deixe um comentário

Arquivado em Política