Arquivo da categoria: Religião

Jesus

Cada um constrói Jesus de acordo com suas fantasias. Não há nenhuma forma de descrevê-lo de forma minuciosa sem se basear em pura imaginação. Recorrer à Bíblia é um enorme risco, na medida em que são relatos imprecisos de fatos descritos até um século depois de terem ocorrido.

Aliás, ao meu ver Jesus era precisamente isso: um “judeu falando de judaísmo para outros judeus”. Era um dos muitos (centenas) de Messias que vagaram pela Judeia pregando a libertação do povo judeus do imperialismo romano. Ele jamais falou, durante toda a sua curta pregação, para não-judeus; seu universo sempre foi o espaço entre o mar Mediterrâneo e o Rio Jordão. Jesus era essencialmente um reformista da religião judaica e um agitador político ligado aos Zelotas. A ideia de que era um “enviado”, um “Espírito de luz”, “o filho de Deus”, o “próprio Deus encarnado” ou um ser responsável pela “governança do planeta” mistura “wishful thinking” com delírios etnocêntricos, colonialismo europeu (pois foi lá que o cristianismo em todas as suas vertentes floresceu) e o puritanismo. A concepção virginal e o celibato crístico falam muito dessa visão pecaminosa e religiosa sobre a sexualidade.

Seu projeto político, como se sabe, foi um fracasso retumbante, pois que o Messias seria aquele que cumprisse a profecia de libertação do povo oprimido da Palestina – o que só ocorreu 70 anos depois e por pouco tempo. Não só ele, como centenas de outros “Messias” tiveram o mesmo fim. Todavia, tudo o que se diz sobre a vida mundana de Jesus é criação posterior à sua morte, e não há como saber o que realmente ocorreu. Assim, se Jesus era um judeu comum, com propostas revolucionárias, agindo politicamente na Palestina para a libertação do seu povo, o Cristo é uma criação humana do inconsciente coletivo diante das demandas sociais e políticas do seu tempo. O Cristo foi, assim, moldado diante de nossas vontades e fantasias, guardando pouca – ou quase nenhuma – relação com o jovem judeu que caminhou pela Galileia.

Adam B. Wellington, “Steps on the Sands of Palestine”, ed. Barack, pág. 135 (tradução pessoal)

Adam Burke Wellington é um paleontólogo da Universidade de Hamilton, com mestrado em estudos bíblicos que escreveu vários livros sobre a vida do “Jesus histórico”. Colaborou com a coleção “Avatars” descrevendo o Jesus da Galileia em sua vertente socialista. Seu livro mais conhecido em português é “Sombras do Jordão”, da editora Magiar.

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Ungida

Há um filme que idealiza a deputada gospel Flordeliz onde ela é descrita como um “ser de luz”, benfeitora e mãe amorosa de tantas crianças. Porém, hoje sabemos que ela e sua família estão muito longe disso. Então cabe a pergunta: se é possível transformar histórias criminosas em narrativas de superação e virtude que ocorreram somente há duas décadas, então imagine o quanto se distorce a realidade do que aconteceu há 2 mil anos, criando sobre fatos locais fantasias grandiloquentes que dizem muito menos sobre espiritualidade e muito mais sobre os interesses políticos, econômicos e de poder.

A blindagem de figuras históricas pelo manto da “espiritualidade superior” nada traz de construtivo para a sociedade, e para todas elas eu recomendo a iconoclastia.

A pastora recentemente envolvida em crimes diversos pode representar os evangélicos, não o Cristo. Deixem ele fora disso. O erro nessas tragédias é imaginar que uma crença, seja ela qual for, determina a moralidade do sujeito que a segue. Não é o que se observa. O crente não tem nenhuma vantagem ou privilégio na fila do céu.

Ser cristão, muçulmano, espírita ou ateu são, acima de tudo, identidades, usadas para criar laços, narrativas confluentes. A religião é como um idioma para que possamos falar das perguntas que a ciência jamais terá respostas, como o sentido da vida e a razão do universo. Entretanto, são na prática expressões dos códigos morais que apontam para os valores mais profundos da sociedade.

As religiões abrahâmicas (cristianismo, islamismo e judaísmo), por exemplo, são estruturas criadas para dar sustentação ao patriarcado nascente, fortalecendo a coesão social das sociedades agriculturais partir da rigidez da estrutura falocrática. E funcionaram muito bem para isso.

O cristianismo se insere nesse modelo, como religião surgida da releitura reformista do judaísmo. Não existe nada no cristão, do ponto de vista moral, que o diferencie de qualquer outro sujeito no planeta, inclusive aqueles que negam qualquer afiliação religiosa.

Mas, a única diferença é o olhar que a sociedade lança aos “pecadores”. A pergunta que hoje se faz àqueles que (com justiça) dizem que a conduta de Flordeliz nada tem a ver com seu cristianismo é: e se ela fosse do candomblé, poderíamos dizer o mesmo? E se fosse muçulmana, estaríamos limpando a barra do profeta Maomé? Se ela fosse budista nossas palavras seriam direcionadas à proteção de Buda e seus ensinamentos?

Ou estaríamos condenando ela assim como as suas crenças e sua religião como obras demoníacas, criadas para desvirtuar e destruir?

Pois é…

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Objeção de Consciência

“Deveríamos abolir a “objeção de consciência” com relação ao aborto, já que os profissionais que assim se manifestam estão negando direitos reprodutivos e sexuais às mulheres?”

Esta é uma questão muito tensa. A atenção ao aborto – assim como o direito à cesariana sem indicação médica – se encontram em uma interface entre cultura, religião e valores subjetivos e por isso mesmo são trazidos à tona com frequência. Ao mesmo tempo nunca escutamos debate algum – e no mundo inteiro – sobre negativa de atendimento a membros de outra religião, negros, gays ou imigrantes, pois que nenhum conselho de Medicina ou legislação pública tem dúvidas sobre esse tipo de ação, por todos considerada como crimes contra a vida. São exemplos teóricos que não existem na prática, ou não geram dúvidas no mundo médico ou jurídico.

Mas podemos usar um exemplo melhor e que cabe ser usado neste debate: clitoridectomia. Eu pergunto: “E se você estivesse trabalhando em uma aldeia na África setentrional e fosse solicitado a usar seus conhecimentos médicos para auxiliar neste procedimento? Poderia usar de SEUS valores subjetivos para se negar a infligir dano ao corpo de uma menina?

E se fosse para a mudança cirúrgica de sexo? Deveríamos obrigar profissionais que discordam dessa prática de participar destas cirurgias? Creio que é muito fácil colocar nossas crenças como sendo “direitos inalienáveis” e desconsiderar as repercussões entre os profissionais que dela participam. Mas, creia, quem já participou de abortos sabe dos possíveis impactos que eles podem causar no psiquismo dos obstetras.

Na Alemanha nazista diz-se que as câmaras de gás foram criadas muito em função das repercussões danosas das execuções entre os soldados alemães. Depois de um certo número de execuções à bala o psiquismo dos carrascos ficava tão deteriorado que eles mesmos cometiam suicídio em bom número. “Ora, diriam, não podem se negar. É importante para a Alemanha. Se quiserem trabalhar aqui devem se comprometer com este serviço, mesmo quando ele agride seus valores humanos mais profundos”.

Não funcionou. Desconsiderar os sentimentos dos soldados se tornou desastroso. Era preciso respeitar os valores do executor. Ele também sofria pelo ato, assim como os profissionais se afetam pelo que fazem.

Apesar de apoiar a descriminalização do aborto de forma ampla, irrestrita, livre, sem constrangimentos, com suporte social e psicológico acho inaceitável obrigar médicos – treinados a valorizar a vida desde sua mais tenra manifestação – a participar de atos que a exterminam. Que isso seja feito por profissionais especialmente contratados pelo Estado para esta função e que não se obriguem estes procedimentos aos profissionais que enxergam a vida de outra forma.

Como eu disse, esta é uma interface muito rica no debate, e por isso mesmo ela é tão debatida. Ninguém usa “objeção de consciência” para não trabalhar no sábado ou para não tirar vesículas, mas a vida e a produção voluntária de dano no sujeito sempre será o motivo de debate.

E há que se respeitar quem pensa diferente de nós, enquanto exigimos do Estado uma postura que ofereça às mulheres esse recurso. Desconsiderar os valores do médico – neste caso em especial – é um erro que pode custar caro. Sobre a ideia proposta de que haveria vantagens com a supressão da “objeção por consciência” por parte dos médicos:

Acho essa posição muito vulnerável. Sou a favor da liberação do aborto até 12 semanas, além dos outros casos já previstos em lei, como malformações incompatíveis com a vida e estupro. E, como já disse, que ele seja livre, sem constrangimentos, pelo SUS, gratuito e com suporte emocional. Apesar das minhas objeções ao término voluntário de gestações, creio que este é o caminho com menor dano e que pode, inclusive, salvar muitas vidas.

Entretanto, eu jamais faria, por questões pessoais, emocionais, e considero uma violência obrigar um médico a participar disso. O acesso ao aborto legal por parte das mulheres deverá ser obrigação do Estado, assim como é hoje nos casos já previstos em lei. Porém, não é justo exigir que médicos participem de um ato contra sua vontade. O empoderamento das mulheres sobre seus corpos não pode ocorrer pela completa supressão do médico e seus valores.

E também não é justo fazer confusão: chama-se “objeção de consciência” e não “objeção religiosa”. A laicidade do estado não tem nada a ver com os valores éticos subjetivos de cada profissional. E vamos combinar… essa é uma questão que acontece teoricamente. No dia em que o Estado permitir o aborto e regulamentá-lo acredito que a maioria dos ginecologistas não terá problema algum com este procedimento.

Aliás, a discussão das cesarianas a pedido tem a mesma base argumentativa. Mesmo acreditando no direito que as mulheres têm sobre esta escolha, é injusto obrigar um médico a participar de um procedimento cirúrgico que agride suas convicções sobre produção de dano, tanto para mães quanto para os bebês. Todavia, se este pedido é mantido pela futura mãe, cabe ao Estado encontrar alguém que o faça. Como no caso do aborto legal, a cesariana legal não terá nenhum problema em encontrar quem a realize.

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Psicólogos cristãos

O problema dessa publicação é que produz um falso dualismo, como se a prática corrente em consultórios de psicólogos fosse estimular a sexualidade dos clientes. Nunca ouvi nenhuma corrente reconhecida da psicologia que estimule pessoas – em especial adolescentes – à prática sexual contra seus valores religiosos. Por outro lado, a prática CORRENTE na ideologia da chamada psicologia cristã é promover a castidade. Posso afirmar que, o caso trazido acima (um relato da “amiga, da amiga da minha vizinha da praia que me contou) só pode ser entendido de duas formas: a) uma interpretação errônea por parte do paciente de uma orientação do profissional ou b) uma péssima abordagem psicológica, onde uma terapeuta se arroga o direito de influenciar valores e crenças de seus clientes, estimulando a prática sexual entre um casal de namorados cristãos. Entretanto, o post insinua a falsa simetria de que “ambos os lados cometem erros“, quando em verdade a ideologia cristã é que induz a este tipo de doutrinação pela castidade, enquanto NENHUMA corrente da psicologia ensina, reproduz ou estimula a prática sexual de adolescentes que preferem não o praticar.

Um profissional da psicologia pode ter problemas com a religião, sem dúvida. Quem não tem suas dúvidas e questões mal resolvidas com a religião, qualquer seja ela? Pode também ser ateu, carnívoro ou vegano. Pode ser hétero ou gay. Pode gostar de samba ou “death metal“. Pode ser sexualmente ativo, casto, casado, solteiro, bi ou transexual. Pode ser uma pessoa normal ou considerada por muitos como “bizarra”. Pode ser introvertido ou extrovertido, tímido ou esfuziante.

Entretanto, e creio que sobre isso não há dúvida, nenhuma dessas escolhas pessoais e subjetivas pode interferir na fala do seu cliente. Nenhuma preferência ou escolha do terapeuta pode influenciar a forma como o seu cliente organiza seu inconsciente através do exercício da fala, na aventura do discurso livre. Um psicólogo “cristão”, ao recomendar castidade (ou fidelidade…) ao seu cliente estará interferindo em suas escolhas através de uma projeção de SEUS valores, crenças, medos e fantasias, o que em nada poderá auxiliar a saúde psicológica de seus clientes. É possível até que os adolescentes estivessem mesmo se punindo através da castidade, mas isso é irrelevante para o tratamento. Pode ser que estivessem apenas exercitando o “gozo da contenção”, mas isso também não importa. Um consultório psicológico não é lugar para a prática da “selvageria interpretativa”, onde “verdades” são jogadas e valores cuspidos sobre pacientes desamparados.

Estabelecer uma dualidade entre “psicólogos neo-progressistas” e “psicólogos cristãos” não é justo e nem honesto. O que é descrito como no texto como um psicólogo “neo progressista” nada mais é que uma abordagem inadequada e condenada por todas as correntes da psicologia. Outrossim, reforçar conceitos como “castidade” antes do casamento é um dos pilares que sustenta a ideia de uma “psicologia cristã”. Ambas são equivocadas, mas apenas uma é estimulada pelos seus correligionários.

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Dois papas

A caracterização dos dois papas foi soberba. A interpretação de Bento XVI por Anthony Hopkins foi genial. Os diálogos foram bem construídos e a trajetória de Francisco elegantemente traçada. Depois de ver o filme a gente sente saudade da Igreja engajada, da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiásticas de Base. É muito triste ver o cristianismo e sua potência renovadora serem dominados por canalhas pentecostais, aproveitadores, vendilhões do templo e mercadores da fé.

Apesar de não ter religião sinto que o catolicismo pode ser um ponto de inflexão para a volta a uma religiosidade a favor dos pobres, famintos, miseráveis e desvalidos que são produzidos pelo capitalismo. Para isso o Papa Francisco pode desempenhar um papel fundamental.

É evidente que eu acredito existirem inúmeros elementos ficcionais no roteiro, incluindo as conversas – que seguramente foram construídas a partir de relatos unilaterais ou mesmo especulações sobre diálogos privados. A própria causa da renúncia de Bento XVI apontada no filme – o descontrole sobre os escândalos sexuais que manchavam como nunca a reputação da Igreja – é controversa. Alguns dizem que as razões pela renúncia recaem sobre questões mais mundanas, como os escândalos do Banco do Vaticano e a prisão do seu auxiliar direto. Entretanto, é evidente que a trajetória de Francisco está centrada no retorno da Igreja para as reivindicações do povo. Foi a escolha clara de uma Igreja que testemunha o grave enxugamento de quadros e a perda de fiéis para o pentecostalismo.

O retorno para os “braços do povo” seria o movimento óbvio de uma Igreja que perdeu sua conexão com os pobres, assim como se preconiza a mesma volta às origens para a esquerda brasileira. A própria escolha do “nome fantasia” do novo papa nos aponta nessa direção, além da origem jesuíta e terceiromundista do Bispo Bertoglio. Também não duvido que haja um claro “passar de pano” para a possível condescendência do padre Bertoglio com a repressão brutal na Argentina, mas sobre isso pouco mais se pode especular.

Ainda prefiro acreditar no papa quando diz “Eu mudei“.

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Nobel

Um excelente químico deveria se manter fazendo experimentos em seu laboratório e não se aventurar na filosofia, pois que nesse ramo sua ignorância fica evidente

Dizer que a religião se tornará supérflua, inútil ou desnecessária é acreditar que um dia todas as dúvidas existenciais serão respondidas, todas as questões morais solucionadas, não restará nenhuma pergunta a ser feita e todo o sentido do universo caberá em uma fórmula química. Tal arrogância e prepotência só cabe nas mentes irracionais.

Imaginar tal cenário é o mesmo que olhar para o universo acreditar que tudo à nossa frente um dia caberá nos livros de exatas. Para pensar assim é necessário produzir um mergulho obscurantista nas doutrinas ateístas, que nada mais são que religiões niilistas baseadas na fixação pelo nada.

Isso não quer dizer que as religiões sejam justas e boas, ou que não sejam obscurantistas e atrasadas. Apenas afirmo que as religiões são da natureza humana, surgem de necessidades humanas, pela incessante inquietude por respostas e pela angústia do desconhecido. Anseiam por sentido e produzem modelos para o que não foi ainda descoberto. Imaginar um mundo sem essa inquietação é tão somente acreditar no fim do desejo humano. Quanto mais ele despreza as religiões mais precisa criar uma para sustentar sua (des)crença.

Aos químicos, a química; aos filósofos, poetas e sonhadores tudo o que ainda resta descobrir.

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Espiritismo e compaixão

Há muito me desiludi com os espíritas, não com o espiritismo e sua idéia renovadora centrada na mediunidade e na reencarnação. Infelizmente os espíritas via de regra cursam o mesmo caminho moralista dos evangélicos e outras denominações. Possuem um desprezo explícito pelas raízes sociais da pobreza e cultivam um discurso meritocrático ao estilo “é pobre porque na vida passada foi rico e não teve compaixão“. Acreditam que as “leis do karma” se sobrepõem às experiências explícitas de desigualdade que testemunham no seu cotidiano. Acreditam na desigualdade e na exploração como experiências que não nos cabem interferir, sob pena de interferir nas leis divinas de causa e efeito

Ora, que profunda tolice!! Quanto desprezo pelas forças sociais que condenam grandes massas à exploração ao arbítrio dos poderosos. O espiritismo – por sua origem intelectual, europeia e progressista – poderia ter sido a grande força renovadora das religiões no Brasil, mas se manteve como uma seita evangélica carola e conservadora. Uma pena.

Repito o que já disse: só as religiões de matriz africana, por conterem a massa de pobres e negros da nossa sociedade, têm a potencialidade de reverter a má imagem criada pelas religiões neste país. Só elas – e uma parcela minoritária dos católicos – tem massa crítica suficiente para produzir mudanças no cenário de desigualdade no Brasil.

O resto cultiva a compaixão burguesa mais rasteira e inócua.

Sim, eu me desiludi com os espíritas. Isso não é uma acusação; é uma confissão. Para se desiludir é necessário, primeiro, se iludir. Mea culpa, mea máxima culpa…

Em relação à postura política os espíritas são decepcionantes. Certamente que há espíritas de vanguarda e politicamente bem posicionados, mas são exceção. A imensa maioria é composta de conservadores e entre eles um grupo claramente reacionário. As palmas à manifestação absurda e subserviente de Divaldo Franco para com Moro e a “República de Curitiba” (sic) em Goiás são inquestionáveis e demonstram o apoio majoritário dos espíritas às vertentes mais atrasadas e punitivistas do judiciário e à direita no espectro da política nacional.

Sim, nem todos os espíritas são reacionários, e alguns deles são bem explícitos com suas posições políticas. Entretanto, estes espíritas de esquerda são a minoria e não representam o conjunto desse movimento. São exceção dentro de um quadro de conservadorismo, elitismo e preconceito com os movimentos sociais. É muito difícil encontrar um espírita que não seja antipetê, coxinha, apoiador da Lava Jato e que se dedica a atacar Lula.

Sim, até mesmo a reencarnação – como forma de entender as idiossincrasias do mundo – é usada de forma simplista pela maioria dos espíritas e por isso mesmo merece ser criticada. Por esta razão citei a frase que tanto escutei durante a minha vida e que revela esse primarismo. Olhar para a reencarnação e não enxergar a iniquidade fomentada pelo capitalismo é outro absurdo conservador do movimento espírita.

E para finalizar, dá para generalizar, sim. Como movimento o espiritismo é socialmente retrógrado e conservador. É moralista e crítico aos avanços sociais, de forma evidente no que diz respeito à sexualidade – em especial ao universo LGBT. Politicamente é de centro direita e se aproxima da direita clássica. Raros espíritas são progressistas ou de esquerda. Boto mesmo essa gente toda no mesmo barco, pois essa é a imagem que seus líderes difundem desde sempre, de Chico Xavier a Divaldo, passando pela FEB e por inúmeros palestrantes que cruzam o Brasil oferecendo esta postura política de forma explícita ou nas entrelinhas.

Em suma, mesmo sabendo de notáveis espíritas de esquerda – tivemos um espírita Ministro da Saúde de Dilma – ainda assim a imagem do espiritismo é conservadora e moralista, muito semelhante à percepção que tenho do movimento evangélico no Brasil.

Os espíritas estão mais próximos de Malafaia do que de Francisco.

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Mitos espíritas

Não passem pano para seus mitos espíritas…

Acho curioso quando surge esse tipo de argumento: “sim, Moro é um juiz corrupto e Dalanhol cometeu crimes como promotor, mas, mas, …. quem pode falar qualquer coisa contra esses combatentes corajosos contra a chaga da corrupção no Brasil???

Ora… o trabalho de Chico e Divaldo deve ser reconhecido pelo seu valor, mas o fato de serem dois notórios reacionários deve ser dito e exposto, até para retirar a aura de divindade que carregam.

Querem mais? Passei a infância lendo Monteiro Lobato, um racista e eugenista asqueroso. Valorizo seus livros infantis e deploro seus preconceitos. Humberto de Campos era um racista nojento e grande cronista. Fernando Pessoa, ele mesmo, nutria profundo desprezo pelos negros e foi o maior poeta da língua portuguesa. John Lennon era um perverso e sádico. David Bowie pedófilo, assim como Simone Beauvoir nos anos 60. Todos humanos e falíveis, alguns com máculas morais terríveis. Não passo pano para nenhum deles, e ainda assim separo o autor da obra.

Chico e Divaldo apoiaram regimes de força. Foram coniventes com as ditaduras de outrora e com o golpe juridico-midiático de agora. São golpistas com um pezinho no autoritarismo e na ditadura. Divaldo exaltou publicamente um juiz criminoso que combinava sentenças secretamente com a promotoria.

Ambos poderiam ter ficado quietos, mas deixaram claro seu apoio à brutalidade da direita nesse país.

Ahhhh, mas e os livros, a Mansão do Caminho, as palestras?” É curioso quando trazem esse argumento pois é o mesmo argumento usado pelos milicianos. Eles esperam ser desculpados pelas assistência oferecida aos pobres e pelas benfeitorias que realizam nas favelas que comandam (a ferro e fogo). Pablo Escobar, os donos de Escolas de Samba e os barões do jogo do bicho sempre agiram assim. Sei que a comparação é dura, mas não comparo as figuras e sim a lógica usada para passar pano em seus erros. Não tem como usar a obra de Chico e Divaldo como blindagem para sua vinculação clara com o ditadura de 64 ou os crimes terríveis desse magistrado corrupto que envenenou a democracia no Brasil.

Blindagem de espíritas? O mesmo que faziam com os crimes de papas, suas orgias e lambanças da Igreja.

Para finalizar, eu não reduzo essa dupla de mitos espíritas às suas opções políticas autoritárias ou a exaltação de corruptos como heróis nacionais. O trabalho deles, para os que creem, ultrapassa esse limite. Entretanto, exatamente pela importância que eles tem, não há como perdoar e desviar o olhar de sua vinculação com a barbárie e o atraso do nosso país.

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Espíritas carolas

Não creio que se possa dizer que existe um mosaico de preferências políticas dentro do espiritismo contemporâneo. Quando observamos as manifestações de seus líderes percebemos um enorme contingente de carolas, cristólatras (como Divaldo e Chico), místicos, e conservadores de todos os matizes. Em minha experiência pessoal posso dizer que no meu grupo de jovens espíritas praticamente todos se voltaram à direita.

Um espírita de esquerda como eu é quase uma aberração. Divaldo foi ovacionado de forma entusiástica numa conferência ao exaltar a figura patética e corrupta do ex juiz da Lava Jato, cuja reputação agora se despedaça publicamente. Poderia ter ficado quieto, ser discreto. Poderia até entender que sua posição o impede de vinculações apaixonadas com um lado ou outro. Entretanto, preferiu o bolsonarismo mais tacanho, fazendo uma manifestação apaixonada de um punitivista messiânico que, ao que tudo indica, se corrompeu pela vaidade e pela ambição desenfreada.

Os espíritas, enquanto grupo social, são conservadores e moralistas. É até curioso ver uma enorme parcela de líderes espíritas homossexuais reprimidos que se aliam à direita mais sexista – que os desaprova e condena – mas isso tem tudo a ver com a “identificação com o opressor”, como o próprio Freud nos ensinou.

Divaldo Franco e sua legião de espíritas conservadores exaltou o ex juiz, tratando-o nesta conferência em Goiás como “espírito de luz” e “missionário” da “República de Curitiba”. Hoje se descobre que tal sujeito é apenas um espírito das trevas corrompido pelo orgulho, pela ambição e por uma vaidade desmedida. O tempo é o senhor da Verdade.

Se há alguma diversidade no movimento espírita ela se encontra na marginalidade. Eu, por exemplo. Não está na FEB ou em federações regionais; dificilmente na direção das casas Espíritas. Se houver estará nos poucos negros e negras, nas mulheres espíritas, nos gays e trans que enxergam no espiritismo uma possível explicação para suas dores, mas que não negam a importância central do modelo social na reprodução do sofrimento que os oprime.

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Notre Dame

Em apenas dois dias 1 bilhão de euros foram arrecadados para consertar e reerguer uma igreja na França. Peço que imaginem o quanto isso ajudaria a minorar o desespero dos desabrigados no Haiti ou Moçambique em seus recentes desastres. Entretanto, a morte de negros miseráveis não afeta o coração destes ungidos. O êxtase da exaltação artística é mais importante que a dor e a morte dos excluídos.

Notre Dame é um ícone da religião é do catolicismo francês, mas também do colonialismo cruel da Europa durante séculos. Talvez esse segundo ponto seja o que nos leva a preservá-la e reergue-la, mais do que os aspectos místicos e religiosos. Precisamos preservar os símbolos da dominação branca no mundo e a velocidade dos milionários brancos para recuperar esta obra nos mostra como somos ágeis quando nosso poder precisa ser reforçado.

E não se trata de contrapor uma coisa à outra. Arte é essencial, assim como a fé das pessoas precisa respeito. Todavia, morte, fome, frio e doenças são muito mais importantes e a escolha feita pelos bem nascidos serve para nos mostrar como funcionam as prioridades no capitalismo desumano e racista.

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