Caridade

“…. e digo mais ainda, a essência da caridade é exterminar a si mesma, de forma que sua existência seja vista como a imagem acabada da incapacidade ou da indecência”.

Dinesh Gupta, “The rising sun – from misery to splendor”, Ed. Kashir, pag 135.

Dinesh Gupta é um jornalista e escritor indiano, nascido em New Delhi e educado na Califórnia. Escreveu três livros: “Um mundo para Raja”, “Crônicas de Paharganj” e “The Rising Sun – from Mistery to Splendor”. Recebeu o prêmio Young Mumbai como escritor revelação em 2008.

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Pedro e os balões

Legenda alternativa:

“Todo mundo quer ser amado e aceito pelos outros, inclusive o Pedro, que é tão humano quanto todos nós. A diferença é que o Pedro descobriu que o preço a pagar pela aceitação dos outros é alto demais. Por isso, jogou fora muitas de suas ilusões e por isso mesmo conseguiu voar mais alto. Perdeu amigos e admiradores, mas só assim conseguiu se elevar para poder ouvir a opinião dos pássaros”.

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Entrevista Amanda Nelson

  • What inspired you to become an obstetrician? 
    Many things, but the turning point was the birth of my children when I was a medical student at the age of 22 and 26 years old.
  • What was your training like as an obstetrician?
    Like a regular teaching hospital. Technocracy, focus on pathologies, emotional distance from patients, authoritarian attitude from teachers and preceptors and an interventionist perspective in childbirth.
  • In your area, what is the relationship like between obstetricians and midwives? Is there a collaborative relationship between physicians and midwives? 
    In my area, extreme south of Brazil, midwives are not allowed to assist births. Obstetricians assist almost all births since the complete “annihilation” of midwifery practice in the middle of the 20th century. Around 10 years ago a public hospital in my city opened a midwifery service, but with just a few midwives and with no support from doctors from the community. Midwifery has its real rebirth through the homebirth practice that I myself reinstated around 20 years ago with our team – obstetrician, midwife and doula.
  • If you could change one thing, anything, about maternity care (or healthcare in general) in the U.S., what would it be? 
    The simple modification of birth assistance, creating midwifery schools all over the country to (slowly, but consistently) replace all obstetricians that assist normal birth by midwives, putting all medical doctors and obstetricians to work solely in high risk and emergency obstetrics.
  • What advice do you have for a student midwife? 
    Keep your dreams, envision the best and be prepared for the worst.

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Lugares

Certa vez uma amiga publicou uma foto “agressiva” em seu Facebook e recebeu imediatamente uma chuva de críticas. Eu achei que a foto era mesmo desnecessária, e que a reação das pessoas – embora grosseira e machista – era esperada diante do contexto preconceituoso em que vivemos. Seria como chegar na frente de uma comunidade pobre e começar a xingar e ofender os chefões da milícia e do tráfico. Um tiro seria uma consequência óbvia, mesmo sendo um crime.

Expliquei minha perspectiva para ela, que é basicamente essa: quando você se posiciona de forma contundente precisa estar preparado(a) para a reação. É pura ingenuidade imaginar que vai questionar poderes estabelecidos e as pessoas vão assistir impávidas. Não; a reação – inclusive violenta – é a REGRA e quem produz vanguarda precisa estar fortalecido ANTES de se aventurar. Os xingamentos que ela recebeu não poderiam produzir surpresa, mas deveriam ser absorvidos e reciclados.

Ela não aceitou a minha ponderação e ficou profundamente ofendida por não tê-la “defendido” e feito coro contra os que debochavam dela. Eu achei apenas que defendê-la seria infantilizá-la, ao estilo “Eu faço isso porque depois meu irmão mais velho vem aqui distribuir porrada em vocês”. Achei que ela estava preparada para o “backlash” que eu sabia ser inevitável. Não estava….

Depois disso ela passou a ser minha inimiga expressa, disparando rancor e ressentimento em todos os lugares que escrevia. Mais de uma vez recebi avisos de amigos em comum mandando prints e dizendo que eu deveria abrir um processo. Não, não me interesso por isso, até porque eu me acho razoavelmente preparado para dizer coisas sabendo que alguns (ou muitos) não vão gostar. Espero, sinceramente, que ela esteja em paz e que um dia possa me perdoar.

Foi este fato que me fez (re)pensar em Jiddu Krishnamurti e sua importante perspectiva sobre os mestres, as autoridades superiores e os gurus:

“Esta é uma das questões mais importantes. Invariavelmente, desejamos achar um instrutor, um guia, para moldar a conduta de nossa vida; e, no momento em que vamos pedir a outrem uma norma de conduta, uma maneira de viver, criamos uma autoridade e a ela ficamos escravizados. Atribuímos a tal pessoa uma alta sabedoria, extraordinária ciência. E com essa atitude gera-se, invariavelmente, o medo. E ela não determina também o disciplinamento de nós mesmos, de acordo com a autoridade de uma ideia ou pessoa?

Ora, não vos parece de todo fútil essa busca? Estar-se cativo na gaiola de uma disciplina, o ser impelido de uma gaiola (…) para outra, isso, evidentemente, não tem significação alguma. Assim sendo, devemos investigar por que buscamos. A busca pode ser um “processo” totalmente errôneo. Pode ser justamente um desperdício de energia.

Nenhum guru nem sistema pode ajudá-los a se compreenderem a si mesmos. Sem a compreensão de si mesmos, não tem razão de ser o descobrir aquilo que constitui a ação correta na vida que é a verdade.” (Jiddu Krishnamurti)

Buscar um “mestre” é procurar escravidão voluntária. Aceitar a posição de Guru é uma postura perversa que viola a autonomia alheia. “A mão que afaga é a mesma que apedreja”, como dizia Augusto dos Anjos, e assim ocorre porque o pupilo cobra do guru a absoluta fidelidade. No momento em que essa fidelidade é quebrada – quando se afasta de um ideal imaginário – ocorre a queda. A partir daí surge o ódio, a raiva, os ataques e o cancelamento. Em verdade, o pupilo exige o pagamento que considera devido pelo amor devotado. E o guru, envolto em um manto ilusório de saber, aceita essa relação movido pela vaidade e pelo poder sobre seus seguidores.

A regra, em minha opinião, é a permanente “desinstituição“. É a prática diária de fugir da posição de mestre, de guru, de professor, de proprietário de um “saber superior” ou de uma pretensa infalibilidade. É acostumar-se a falar o que pensa, em sintonia com sua consciência, a despeito do que as pessoas vão pensar, inobstante sua concordância, cultivando os inimigos e desafetos que naturalmente surgem quando se toca nos poderes sacramentados de uma sociedade.

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Mentiras

A maturidade apenas suaviza os jogos que fazemos e o teatro de nossas ações. Não há vida humana sem que nossas atitudes sejam apenas um pálido e distorcido espelho de nossos sentimentos. E, de uma certa forma, isso é o que nos torna humanos; sem essa distância nossas ações seriam enfadonhas e previsíveis. Mentir e mentir-se é tão essencial à alma quanto respirar.

Jeanne Woolworth-Beeck, “Any Wheel”, ed. Pegasus, pág 135

Jeanne Woolworth-Beek é uma jornalista inglesa nascida em Brighton em 1949, filha de um pastor anglicano e uma professora primária. Sua infância foi toda dedicada à escola dominical, passeios à praia e o relações com os personagens de East Sussex, como o barqueiro Mortimer, a cozinheira Molly, o bêbado e mulherengo Oliver, e muitos outros que constam de seus livros, que misturam ficção com suas vivências na costa sul da Inglaterra, que ainda se curava das feridas da guerra. Mora em Londres com seu marido James.

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Poderes

Verdadeiras mudanças só ocorrem quando há transferência de poderes. Como em uma balança, para produzirmos equilíbrio é necessário que algum peso seja retirado de um lado e colocado no outro. Isso significa que alguém que se acostumou com impunidade e poder desmesurado terá de abrir mão de seus privilégios para que os desfavorecidos tenham espaço e voz. Esta mudança nunca ocorre através de concessões ou gentilezas, mas apenas com pressões e lutas. Esperar que os poderosos ofereçam algo graciosamente é uma ingenuidade de profunda força destrutiva.

No parto e nascimento – por fazerem parte da vida sexual das mulheres – todas as forças sociais profundas entram em conflito. Ali se vê a significância da estrutura patriarcal em sua expressão mais crua e, da mesma forma, não há como encarar estas disputas por espaço com ingenuidade. Todas as conquistas das mulheres na arena do parto precisam ser conquistadas e jamais serão ofertas generosas. É fundamental que as mulheres tenham consciência da necessidade de lutas coordenadas para terem seus corpos e suas decisões respeitadas.

O empoderamento e a autonomia das mulheres no parto só existirão numa nova economia de poderes, porém quem o perde não o aceitará de forma suave e tranquila e quem o ganha deverá aprender a usá-lo de maneira honesta e digna.

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Homenagens

Olha, não quero polemizar (mentira), mas hoje a maior empresa de comunicação do Rio Grande do Sul convocou a população para uma homenagem aos profissionais da saúde que estão lutando heroicamente na linha de frente contra a pandemia da Covid19.

Ok, nada contra homenagear categorias profissionais que cumprem com sua obrigação e ajudam a salvar vidas. Não vou sequer reclamar do fato de que outras categorias da linha de frente como as técnicas de enfermagem, o pessoal da segurança, a turma da limpeza, etc… via de regra não são lembradas. Todavia, desconfio muito destas iniciativas. Minha experiência diz que as homenagens são frequentemente usadas como “pagamento alternativo” para que os profissionais não reclamem da sua situação profissional.

Eu estava no Hospital de Clínicas quando um político da cidade tentou homenagear as enfermeiras chamando-as de “anjos de branco”, e recebeu como resposta uma sonora vaia das enfermeiras presentes – que inclusive o deixou perplexo. As enfermeiras sabiam que essa ideia de “anjos” – seres assexuados e que trabalham apenas por amor – servia ao propósito de desprofissionalizar uma categoria historicamente tratada com desprezo pelo capitalismo, com salários baixos, horários cruéis, excesso de trabalho, assédios, abusos, etc. Elas sabiam muito bem que esse tipo de “homenagem” servia aos interesses dos hospitais e dos sistema de saúde, mas não a elas.

Nos Estados Unidos são muito frequentes as homenagens aos soldados que estão lutando nas inúmeras guerras fora do seu território. É inclusive comum aplicarem uma salva de palmas em aeroportos quando um grupo de soldados passa uniformizado. Para mim é o mesmo princípio: vamos fazer homenagens explícitas para que eles não percebam que são usados como “buchas de canhão” para os interesses imperialistas de expandir lucros às custas de guerras estúpidas, cruéis, injustas e destrutivas. Depois, quando retornam, são vistos nas esquinas das autopistas americanas pedindo dinheiro para comer e comprar remédios. Tratados como lixo e descartáveis, são grandes vítimas de suicídio e abuso de drogas.

Homenagear os profissionais de saúde do Brasil com palmas e palavras bonitas serve também para mascarar as péssimas condições de trabalho a que estão submetidos e o pagamento ridículo que enfermeiras, técnicas de enfermagem, médicos e profissionais de limpeza e segurança recebem para enfrentar sem nenhuma garantia e proteção uma pandemia da qual ainda pouco sabemos. Por isso mesmo acho que a homenagem justa é o reconhecimento do trabalho que fazem oferecendo melhores condições e salários mais adequados para o serviço essencial que estão realizando.

Não vou bater palmas; ao invés disso vou continuar reclamando da forma como este e outros governos tratam os profissionais da linha de frente da saúde. Essa é a única reverência que acho justa e correta no cenário atual.

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Tesouro

“As comprovações científicas esbarram na questão da subjetividade. Quando se pensa em terapia do sujeito as comprovações de larga escala perdem o sentido. Este, aliás, é o elo que conecta a homeopatia e a psicanálise, duas formas de entender o sofrimento humano de forma endógena, partindo de desacertos da energia vital para aquela e do inconsciente para esta.

A evidência das conexões entre nós psíquicos e sintomas orgânicos – sejam eles grosseiros ou sutis – são fatos cristalinos para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir. As ligações de causas aparecem nas palavras, nos silêncios entre elas e nas derivações orgânicas superpostas. Como diria Freud, “o que o paciente traz como sintoma é seu verdadeiro tesouro”, e isso deveria nos levar a uma escuta tão respeitosa quanto a que temos diante do sagrado.

A descoberta do significado dos sintomas inscrito na subjetividade do paciente é uma revelação grandiosa, como um portal de entendimento cósmico do destino da natureza.”

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Medo ancestral

“O que transforma o parto em um evento cercado de medo e pânico é a “cultura do medo” que empodera instituições e corporações às custas do empobrecimento da experiência materna e da submissão à tecnocracia – a criação humana que mais se assemelha a uma religião planetária.”

Os médicos morrem de medo do parto.

A formação médica em obstetrícia é centrada na intervenção, até porque foi o uso das ferramentas (a começar pelo fórceps e depois pelo escalpelo na episiotomia) que separou a parteria da medicina. Quanto mais intervém, mais importante parece o trabalho do médico. A própria obstetrícia é – pelas suas origens – a negação da autonomia feminina na parturição. A medicina, ao intrometer-se no nascimento, produz um corte epistemológico profundo no próprio entendimento do nascimento. A partir de então a intervenção seria a regra, e as mulheres entendidas como inerentemente incapazes de dar conta de um evento inscrito em sua biologia. Defectivas, incapazes, incompletas – assim entendidas e assim vistas por si mesmas, as mulheres entregam-se docilmente à tecnocracia que poderá resgatá-las do destino cruel produzido por uma natureza madrasta.

Médicos são educados dentro dessa perspectiva. Julgam-se salvadores por resgatarem as mulheres das agruras do parto, um evento mal planejado e defeituoso em essência. “A natureza é uma péssima parteira”, já falava o patrono da obstetrícia brasileira, Fernando de Magalhães.

Como poderia ser diferente para um médico de pouca experiência onde a ênfase recebida da escola médica não é a normalidade do parto, mas suas franjas, as patologias, os casos raros, os desastres, e as circunstâncias em que podem se tornar heróis? Ao lado deste senso de importância desmedida existe o medo criado por uma visão catastrofista do parto. Mal percebem que a maior parte das catástrofes do parto ocorre pela própria intervenção intempestiva e injustificada no processo de nascimento, desde a patologia da palavra – a verbose – usada durante todo o pré-natal (onde a semente do medo é plantada) até as internações precoces, as drogas, o isolamento, a doentificação, a patologização etc…

Médicos encaram o parto com pavor, pois sabem – como dizia Holly Richards – que ele contempla os elementos mais temidos da cultura: vida, morte e sexualidade. Não por outra razão o atendimento hospitalar ao parto é totalmente ritualizado, sem nenhuma conexão com evidências, mas que usa da padronização, da repetição e do simbolismo para criar uma atmosfera de proteção mística, onde a ação do médico poderia gerar – mesmo que de forma fantasiosa – resultados positivos em um processo cujo resultado é sempre imprevisível.

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Sobre botes em oceanos revoltos

Vez por outra aparecem matérias – em geral sensacionalistas e com relatos anedóticos – a respeito de partos domiciliares planejados e até episiotomia, com a clara intenção de criticar os primeiros e exaltar a necessidade da segunda.

Não há dúvida de que, procurando bem, você pode encontrar artigos pequenos e sem relevância autoritativa para questionar, criticar ou exaltar qualquer coisa, em especial procedimentos médicos. Pode-se criar e desfazer gráficos de morbidade com relativa facilidade, bastando para isso torturar as estatísticas para que falem o que desejamos ler. O estado da arte, entretanto, é da qualidade e segurança do atendimento domiciliar e da inutilidade – e mais ainda, o efeito deletério – das episiotomias quando aplicadas como procedimento de rotina durante a assistência ao parto. Isso é o que – neste momento da história – nos fala a “Saúde Baseada em Evidências”.

Entretanto, esse debate só faz sentido se tivermos noção de que a ciência não se comporta como um bote que se move em um lago plácido e imóvel usando as evidências e provas como remos. Muito pelo contrário: o bote está em alto mar, sendo jogado para todos os lados pelo vento das energias culturais, equilibrando-se sobre gigantescas correntes oceânicas, as quais são comandadas pelo capitalismo e pelo patriarcado, as duas principais forças a movimentar as águas dos comportamentos, mas também de dados, pesquisas e estudos.

Desta forma, é lícito entender que episiotomia e parto domiciliar NÃO são debates exclusivamente médicos, mesmo que a medicina e a obstetrícia possam fazer ciência com estes eventos. Em verdade, eles são enfrentamentos de ordem FILOSÓFICA, com algum embasamento científico e consequências médicas.

A origem da disputa entre estas vertentes não está nos gráficos de morbimortalidade materna e perinatal, mas na forma como a sociedade enxerga a função social e a autonomia das mulheres sobre seus corpos. Todo o arcabouço científico é produzido A PARTIR das visões filosóficas primordiais que estabelecemos sobre esse tema central, e só depois disso as pesquisas se moldam para atacar ou refutar estas premissas.

A simples pesquisa sobre episiotomia e parto domiciliar já denuncia um preconceito que nos obriga a perguntar: por que é necessário debater sobre a integridade física de uma mulher ou sobre seu direito de ser assistida onde desejar? Por que é claro e nítido que nenhuma pesquisa assim seria feita com homens? Por que achamos justo questionar direitos humanos reprodutivos e sexuais básicos das mulheres, e jamais dos homens?

A medicina jamais será a linha de frente das modificações na atenção, pois que apenas reflete, dissemina e amplifica valores profundamente relacionados à nossa estrutura social.

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