Matheus do IFood

Tadinho do menino do IFood que recebeu agressão e injúria daquele garotão que come cheetos sentado no sofá assistindo novela.

Para minha tristeza o menino acabou caindo na armadilha ao aceitar a conversa do cara sobre “quanto ele ganha“. Não se trata de punir a vítima das injúrias, mas lamentar que a sua resposta revela bastante do inconsciente coletivo dessa nação.

Para mim, ele deveria ter rechaçado de imediato qualquer conexão entre seu valor como pessoa, como cidadão, e o quanto ele ganha. Deveria ter dito desde o início que esse valor monetário em nada influencia o caráter de alguém. Ética e moral não aparecem em contracheque.

Mas…. ao que parece o modelo capitalista faz até o motoboy achar que o seu salário é a medida da sua qualidade moral e humana. Diante de tamanha estupidez que ele mandasse à merda de cara, e dissesse para enfiar seu dinheiro no r*bo. Mas…. jamais abrir a carteira para mostrar o quanto ganha, como se isso pudesse abrir as portas à um bom tratamento.

Pior ainda é ver que no Brasil até um sujeito de classe média que ganha 3 mil por mês se acha rico a ponto de humilhar quem trabalha por menos.

Ahhh, outra coisa. O agressor (o de camisa azul) é doente mesmo. Racista e ignorante, mas a sua mãe tem razão: ele é um sujeito psicologicamente perturbado. Isso não o absolve de nada, mas nos faz entender seu comportamento dentro do contexto da psicopatologia.

Que pague pelos seus erros.

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Dia dos Pais

Sim, acho muito errado usar esse dia para esses ataques aos homens e aos pais, mas parece que as mídias sociais ficam recheadas de mensagens negativas sobre eles. Apenas peço que usem os outros dias para isso. Nunca vi alguém publicar algo destrutivo, ressentido e agressivo contra mães e mulheres no dia das mães. “Ah, mas não existe mãe ruim”.

Existe sim. Muitas. Milhares, milhões. Mães que abandonam, que maltratam e que espancam. Mães que até matam. Mas elas são a ÍNFIMA MINORIA das mães. A IMENSA MAIORIA das mães é feita de mulheres devotadas e amorosas com seus filhos e sua família, e no dia dedicado a elas não seria justo tratar o todo por uma parte tão insignificante.

Pois a maioria dos pais ao meu redor se preocupa com seus filhos, com as suas crianças e se dedica a elas. A maioria diria com toda a força dos pulmões “mulheres e crianças primeiro!!” diante de uma tragédia. Não pensaria meio segundo em arriscar a vida em nome dos filhos.

Entretanto, muitas mulheres aproveitam esse dia para atacar o masculino e a paternidade e o usam para despejar seu ressentimento contra todos os pais. Não poderei jamais ver isso com bons olhos. Façam isso nos outros dias. Aproveitem o dia dos pais para elogiar os bons pais que existem. Aproveitem para reconhecer NESSE ÚNICO DIA, as qualidades da paternidade. Quem não tem bons exemplos no seu pai ou seu marido fale genericamente, dos outros pais, do genro, do sogro, de quem quiser. Respeitem um dia entre 365 de um ano.

Esperem SÓ ATÉ AMANHÃ para odiar de novo com todas as forças esses “miseráveis” que andam por aí, “inúteis depósitos de testosterona”.

Só hoje, por favor….

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A Fissura Bizarra

É bem sabido que um bebê de 9 meses de idade (atingindo o estádio do espelho) tem habilidades de um chimpanzé recém nascido. Ao nascer somos incompetentes ao extremo. Nascemos todos despreparados para a vida extra uterina e por meses ainda nos comportamos como fetos fora do útero. Por isso foi necessário estabelecermos um cuidado muito intenso por parte da mãe como estratégia de sobrevivência. A altricialidade (dependência do cuidado alheio), decorrente dessa fragilidade, acabou gerando esta “fissura bizarra na ordem cósmica”, chamada “amor”.

Somos, portanto, produtos de uma conjunção de fatores adaptativos surgidos há 5 milhões de anos com a bipedalidade e posteriormente pela encefalização – que se acelerou com o surgimento de nosso gênero há 2 milhões de anos. Como os cangurus temos dois partos: um ao sair do útero e subirmos para o “marsúpio do colo materno”, onde encontramos leite, calor, afeto, a voz e o olhar da mãe; já o outro parto vai ocorrer lentamente na primeira infância, ao nos afastamos paulatinamente da dependência extremada desse cuidado.

A marca da altricialidade determinou o gozo e a tragédia dessa espécie. Sem ela não haveria o sentimento dela derivado: o amor profundo de um bebê por sua mãe. Em decorrência desse amor desmedido, também nas mães brota um sentimento inusitado e estranho. “Se existe amor, ele é o amor de uma mãe por seu filho, e todos os outros amores são dele derivados”, já diria Freud. Assim, a base edipiana de nossa estrutura psíquica surge pelo fenômeno adaptativo de grandes cérebros conjugados com pélvis estreitas levando ao parto de um bebê totalmente dependente, onde a semente do amor será acolhida em campo fértil. “Somos o que somos porque nascemos de uma forma bizarra, e esse nascimento produz a inevitável dor de ser o que se é”.

Por outro lado, na história da humanidade a maternidade sempre foi exercida de forma cooperativa, grupal e distribuída por várias figuras femininas, uma imagem completamente diferente do que observamos no cotidiano de tantas mães modernas. A tônica de hoje é o cansaço, a dúvida, a depressão e a insegurança, elementos psíquicos relacionados com o isolamento das mães contemporâneas.

Mães solitárias e muito sobrecarregadas na maternagem são uma coisa nova na história da humanidade. Não é de se espantar que o resultado seja a tragédia do desmame precoce em sociedades que negligenciam o contato íntimo entre mães e bebês nos primeiros meses de vida. É tempo, portanto, de revisitar a história humana e reverter nossa vivência para esse período anterior, onde, além do cuidado compartilhado, havia um profundo aprendizado das recém mães com a experiência de outras mulheres ao seu redor.

Só assim poderemos resgatar a amamentação como evento natural e fisiológico. Sem acolher estas mães, nenhum bebê será bem cuidado.

“É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança“, parafraseando um famoso provérbio africano.

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Rótulos

O mais provável é o erro estar nas próprias classificações artificiais que compulsivamente criamos, nos rótulos, no hétero, no bi, no gay, no trans. Ninguém cabe por completo em qualquer uma dessas definições, mas nossa sede de pertencimento nos faz procurar avidamente por algo que se assemelhe a nós.

Talvez, como diz o Zizek, a única coisa de valor nessa nomenclatura seja o “plus” aplicado ao final. No fundo, somos todos “plus”, inclassificáveis, pois nosso desejo é tão único que qualquer rotulação será absurdamente limitante.

Creio que no futuro haverá o tempo em que a frase do Ney Matogrosso fará sentido, e ninguém terá orgulho de ter uma determinada orientação sexual, subjetiva e pessoal, e seremos todos tão somente humanamente semelhantes e divinamente diferentes.

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Filmagens

Sobre a filmagem e os comentários ofensivos da moça fazendo Yoga na praia…

Numa entrevista na rua não há problema algum em registrar o que já está acessível ao olhar de todos. Quando o objetivo é reportar não há necessidade de assinar nada ou mesmo pedir qualquer autorização verbal. Entretanto, se você for usar comercialmente sua imagem somente aí existe necessidade de autorização, como num filme ou em uma publicidade.

Acima de tudo, não existe privacidade em público; se você aparece em espaços abertos à livre circulação não pode impedir que alguém lhe veja e registre.O crime aqui é a exposição, a humilhação pública e o tratamento chulo e desrespeitoso dos comentários. Na rua não existe privacidade; você pode filmar quem quiser. O crime desse sujeito foi a exposição ofensiva dessa moça, as palavras grosseiras e o deboche. Filmar em lugares públicos NÃO é crime, e lembre que essas filmagens é que nos protegem da brutalidade policial!!!

Não podemos dar tiro no pé. Essa é a desculpa da polícia para matar pessoas em segredo. TODOS TEM O DIREITO DE FILMAR A POLÍCIA e qualquer outra pessoa em PÚBLICO. O crime aqui é OUTRO, a obscenidade dos comentários, e não a filmagem em si.

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Punitivismo

Responda aí: quanto diminuiria de tráfico e consumo de drogas se traficantes fossem presos? Que diferença faz para a sociedade tirar a liberdade de alguém? Quanto diminuiria o consumo de drogas se todos os traficantes fossem para a cadeia?

A resposta é simples: NADA. O punitivismo não produz NENHUM resultado em médio e longo prazos, e existem comprovações claras disso, basta olhar para os Estados Unidos que tem o maior comércio de drogas do planeta e mais de 2 milhões de encarcerados (a maioria, como no Brasil, por delitos ligados às drogas).

No dia seguinte às prisões de todos os traficantes as vagas seriam imediatamente ocupadas por outros “empreendedores”, que é exatamente o que acontece em todas as prisões de chefões do tráfico. Muito cedo tudo se normaliza e o “02” ocupa o lugar do chefão. Nunca se comercializou tanta droga e nunca se prendeu tanto traficante.

Não digo que ações coercitivas não devem ser usadas, mas a crença arraigada de que medidas duras – de prisões a granel às penas de morte – produzem algum benefício não tem respaldo científico e geram barbárie, apartheid social e genocídio, e jamais ordem e/ou desenvolvimento

A ideia de que traficantes presos produziriam alguma vantagem para nós é uma fraude, uma mentira e um engodo. Punir, botar na cadeia, mandar matar são ações INÓCUAS. Nenhuma sociedade se transformou punindo meliantes e marginais. Todas que tiveram esse sucesso civilizatório combateram o crime na fonte, ao criar emprego e oportunidades, através do princípio da justiça social. Enquanto houver iniquidade, miséria e desejo de consumir droga este comércio vai vicejar.

E lembre: consumo de drogas é sintoma de uma sociedade doente e não a causa do seu desequilíbrio. Essa doença é o capitalismo

sou – e sempre serei – contrário ao punitivismo, contra a ideia de que botar gente na cadeia soluciona alguma coisa. Prender o preto e o pobre não funciona tanto quanto não funciona prender o rico; É INÚTIL. Todavia, não resta dúvida que nossa justiça é racista e classista, mas de nada adianta cometer os mesmos erros com os grandes traficantes, quando o certo seria não cometê-los contra ninguém.

Em geral quando debatemos a impunidade do “colarinho branco” existem DOIS problemas que podem estar misturados. Um deles é o punitivismo, a ideia sem embasamento científico algum que uma sociedade que pune, prende e manda matar é uma sociedade mais justa ou equilibrada. Nada poderia ser mais distante da verdade. O outro problema é a seletividade da justiça, o racismo e o apartheid social que aparecem de forma clara nos julgamentos e prisões brasileiras. Confundir isso é um ERRO.

Sim é DUPLAMENTE errado ser racista e ser punitivista, mas não é porque pretos e pobres são presos que devemos estender esse erro para TODA a população, com a falsa ideia de que dois erros produzem um acerto.

Abolicionismo penal JÁ!!

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Violência no C.O.

A agressão às funcionárias (todas mulheres) do ISEA por ter sido chamado durante a madrugada para atender uma paciente ocorreu por parte de um anestesista. E por que não me surpreendo que está agressão tenha vindo de um médico dessa especialidade?

Existe uma divisão bem clara de perspetivas que diferencia obstetras e anestesistas. Estes últimos não conseguem enxergar pacientes da mesma forma como os obstetras os enxergam, e por esta diferença tive várias discussões relativas às indicações de cesariana no início da carreira. Achavam eles que chamá-los na madrugada era uma afronta e um desaforo. Sua expectativa era de serem convocados a atender apenas cesarianas marcadas e a maioria se negava a atender analgesias de parto, por causa do tempo quecteriam a despender com esta única paciente.

Minha experiência sempre foi difícil com eles, e não me surpreende que essa atitude absurda e violenta tenha partido dessa especialidade.

O ataque direcionado às obstetras que o chamaram para anestesiar uma paciente de madrugada é típica de quem sabe que, se fizesse isso contra colegas homens correria o risco de levar uns sopapos. Também nao me deixa surpreso.

Mas ainda acredito que a culpa disso é da cultura da cesariana, causada pela medicalização do parto, e a transformação do parto contemporâneo em evento médico, controlado por cirurgiões e com pouca consciência dos significados últimos do parto na cultura.

O que percebemos hoje é que esta geração de anestesistas, gestada no auge da cultura das cesarianas, acabou criando a ideia de que estas cirurgias não acontecem de madrugada, mas apenas com hora marcada, sob o controle do médico, e não quando o bebê sinaliza o momento de nascer. Criaram a ideia de que o nascimento, profundamente inserido no paradigma médico, ocorre com a mesma previsibilidade de uma cirurgia de vesícula.

Quando eu fui plantonista e indicava cesarianas na madrugada a observação que me faziam era sempre a mesma: “você é um mau médico. Seus colegas percebem de antemão os partos que vão “encalhar” e marcam a cesariana para um horário em que todos estão acordados e em boas condições para operar”.

Com isso tentavam constranger os colegas a marcar as cirurgias para “depois da novela”. E isso acontece porque os anestesistas têm uma ação meramente técnica; eles não sabem a história, os anseios, os desejos da paciente ou o esforço da equipe. Tudo o que querem é dormir em paz, sem ser atrapalhado – mesmo estando de plantão.

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Mentiras

Tenho uma indisfarçável inveja das pessoas que reconhecem em si tantas virtudes. Falam com genuína honestidade sobre suas ações justas, sua força, sua persistência e a nobreza de suas ações. Percebem, em si mesmas, a coragem e a humildade que norteiam seus princípios. Eu, sinceramente, me identifico muito mais com os fracos, os bêbados, os estúpidos e os ignorantes. Percebo em cada uma de minhas atitudes o mais vil dos interesses, mesmo quando travestidos de grandioso despojamento. Consigo enxergar nas minhas ações a fagulha egoística que me motiva, mesmo quando pareço estar oferecendo graciosamente ao mundo um pedaço de minha pretensa sabedoria. Vejo, em tudo o que faço, a sordidez egoística e mesquinha, a volúpia do orgulho insano e a vaidade desmedida.

Tudo em mim é mentira. O que me anima é esse amor gigantesco que tenho por mim mesmo, pelos meus prazeres e gozos. O que me move é o desejo de obter todas as vantagens possíveis, as quais guardo como troféus, preciosidades que se esfarelam a cada vez que as toco. Não seria possível enganar indefinidamente, mesmo com tal pureza de fachada, com tanta sujeira que me sai por cada poro, cada palavra, cada sílaba e cada silêncio cúmplice. Também não culpo a ninguém pela miséria de minhas ações; as porcarias – que são minha carne e que escapam pela minha voz – são todas minhas; são o único valor que carrego e a parte que me cabe levar desta vida.

Andrew D. Manning, “Angel of Mine”, ed. Prado-Bell, pag 135

Andrew Dewey Manning foi poeta, ensaísta, escritor. Nascido em Chalkville, Alabama, em 1937, cursou seus estudos primários em Grayson Valley. Fez apenas os estudos iniciais, tendo sido autodidata. Escreveu 5 livros de poesia e sua grande obra, o romance “Angel of Mine”, onde aborda o racismo do sul dos Estados Unidos na época do Jim Crow. Foi reconhecido como um dos precursores dos movimentos antirracistas. Morreu em 1987 vítima de câncer no fígado. Deixou a mulher Ethel e os filhos Jeremy e Andrew Jr.

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Vacina ruça*

Qualquer medicação oferecida (e vacina é remédio também) que não tenha uma experimentação de seus efeitos deletérios – e até letais – em humanos, em curto, médio e longo prazos, é um tiro no escuro. Ponto.

Podemos estar diante de um gigantesco fracasso, premidos pelo tempo e por interesses econômicos gigantescos. E não seria a primeira vez, inclusive com estes vírus respiratórios. Os fracassos do passado com estes virus deveriam servir de alerta.

Mas… as desculpas perfeitas já estão dadas, e todas já sabemos. “Sim, morreram X pessoas por ação direta da vacina, e outras Y ficaram seriamente danificadas (como as causadas pela vacina da gripe), mas segundo as projeções, sem a vacina morreriam milhões de pessoas. Portanto, essas vítimas foram os heróis que se sacrificaram pelo sucesso da vacina e por milhões de vidas salvas“.

Já está determinado o sucesso da vacina: qualquer número de vítimas será menor que a criatividade matemática das mortes presumidas; basta usar as “projeções” catastrofistas como escudo.

O mesmo artifício é usado há décadas para desculpar a ditadura militar, sacaram? “Sim, muitos foram torturados e tantos outros morreram, mas “segundo nossas projeções”, morreriam muitos mais pelas garras do comunismo“.

Além disso, ter uma postura crítica contra vacinas é ser “terraplanista”, desdenhar da ciência, ser adorador do Trump, como se as vacinas – um negócio multibilionário, por “curar” pessoas saudáveis, um mercado do tamanho do planeta – fosse o único lugar onde a “máfia da indústria farmacêutica” (palavras de Peter Goetsche e Márcia Angel, da Cochrane e do New England Journal of Medicine, respectivamente) é ética, correta, e transparente.

A mitologia das vacinas, um campo que ninguém no Brasil ousa questionar, acaba gerando um vácuo de debates porque NENHUM profissional se dá ao direito de jogar uma luz sobre os inúmeros elementos criticáveis da aplicação de drogas e elementos químicos em pessoas saudáveis.

Entendem? O inimigo nunca é visível e a gente acaba permitindo “ciência apressada” por medo de nada fazer.

E veja, apenas por escrever esse desabafo em nome da boa ciência e da ciência livre do controle capitalista, já vou ser tratado como “antivacinista“, terraplanista ou de direita trumpista (logo eu que sou comuna).

Ahh… e quem quiser tomar uma vacina testada em 40 pessoas (raça?, cor?, doenças concomitantes?, background?, só russos? quanto tempo de observação?) que o faça. Eu, que sou do grupo de risco, farei parte do antigo grupo de sobreviventes cujas mães não usaram Talidomida, Raio X na gestação e nem dietilbestrol. Ou dos caras que se recusaram a usar Vioxx por terem ouvido falar que os estudos que alertavam do perigo foram escondidos em uma gaveta do laboratório.

Lembram quando diziam que a ação da Cloroquina “in vitro” não podia ser extrapolada para “in vivo”? Nada mais correto que isso, mas por que deveríamos achar que, para vacinas feitas às pressas, esse critério é menos importante?

Quem sabe usamos os mesmos critérios rígidos que demonstraram a inefetividade da Cloroquina também para avaliar a qualidade destas vacinas – oferecidas a nós sem comprovação em larga escala. Não parece justo?

Quem quiser que se arrisque…

* Para o Houaiss, o significado é de “complicado, cheio de adversidades, de dificuldades; perigoso, apertado”.

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Amores liquefeitos

Hoje em dia é cada vez mais comum encontrar casais que se encontram tendo uma tela a lhes conectar. Ou seria a lhes separar? Podem estar até perto, mas também do outro lado do mundo. O que poderia ser visto como uma facilidade de comunicação para pessoas que, de outra forma, teriam que se encontrar por cartas (como há duas gerações passadas) pode ser problematizado para se entender qual o real espectro destas novas relações fluidas.

Esse é um tema excelente e muito oportuno. Até eu mesmo escrevi sobre este tema, logo que ele se mostrou um fenômeno social, quando do início das redes sociais. Eu tinha algumas pacientes que namoravam estrangeiros. Lembro de três delas que me chamaram a atenção: México, Inglaterra e Itália. Todas moças jovens e bonitas, e eu me perguntava: será que não tem ninguém suficientemente interessante aqui na cidade? Por que elas foram se interessar por sujeitos que moravam a milhares de quilômetros de distância? O que poderia haver de interessante em ter um amor sem substância, sem amassos, sem beijos roubados, sem abraços e sem o dormir de conchinha?

Os namorados nada tinham de especial. Estudantes, engenheiros, funcionários da bolsa de valores. Algumas me mostravam as fotos: sujeitos comuns, alguns bonitos até, mas nada fora do natural do cotidiano. Havia, por certo, uma presunção pequeno burguesa de encher a boca e dizer “…o Luigi, meu namorado italiano”, mas diante do preço alto das ausências eu achava muito pouco como contrapartida.

Um dia uma delas me contou que havia falhado a tentativa de encontrar o namorado, depois de muitos meses de planejamento. Eu respondi a ela “que pena”, pois sabia o quanto aquele encontro havia sido planejado para a sincronia das férias, as viagens que fariam, etc. Todavia, não pude deixar de perceber um sorriso enigmático quando ela me retrucou “pois é, já é a terceira vez”. Foi neste momento que me dei conta que o desencontro era exatamente o que ela desejava, mesmo que conscientemente lutasse por essa chance de tornar real o que era virtual. Ela queria exatamente isso: jamais se encontrar, pois essa seria a solução para manter acesa, “ad infinitum”, a paixão que tanto acalentavam.

Não é difícil entender porque na distância, no mundo virtual, todo o amor é idealizado. Os ângulos da câmera são sempre perfeitos, as frases são pensadas, os amores não têm defeitos, só vemos as partes boas, as roupas escolhidas, os sorrisos, etc. Também não há despertar com o pé esquerdo, crises de mau humor. Entretanto, é no dia a dia que se constrói o amor, que é exatamente a ruptura desta paixão – que é “cega”, porque idealizada. No contato com os defeitos e nos conflitos do cotidiano é que aparecem as decepções, onde a figura perfeita se choca com a realidade. Para evitar a queda da imagem sem defeitos, melhor jamais acordar do sonho.

Conheci muitas pessoas viciadas em paixão. Tinham relações loucas, excitantes, malucas e fulgurantes, mas que eram destinadas a durar muito pouco, até que fizesse falta mais uma vez a adrenalina da paixão. Aí, outra paixão era buscada, e novamente gasta até não sobrar fagulha. Vi muitos homens viciados em conquistas, novidades, novas descobertas, mas condenados a ter relações curtas, onde qualquer profundidade era imediatamente rechaçada. Não duvido que uma relação que começa por uma tela de celular possa se tornar duradoura, se firmar e transformar-se em um grande amor, produtivo e satisfatório. Todavia, as relações virtuais têm essa marca: o desejo construído sempre sobre uma imagem ideal, platônica, mas não pela distância ou pelo afastamento, mas sim pela perfeição desejada, onde os amantes são vultos etéreos no universo das ideias.

Alias… um fator que me chamou a atenção foi o resultado desastroso de todos os encontros de que tive contato. Uma delas foi até o México conhecer o bonitão. Saiu fugida do país depois de um mês, amedrontada pela índole violenta do namorado. Por vingança o sujeito deu queixa na polícia contra ela, como forma de vingança, alegando um furto em sua casa. Quando chegou ao Brasil agradeceu por ter voltado viva. A que foi na Itália descobriu que o seu grande amor estava casado, mas teve “vergonha de contar”. A menina que namorava um sujeito da Inglaterra (aquela cujo encontro deu errado 3 vezes) finalmente foi encontrá-lo, mas, passado um mês de namoro, romperam quando ela foi embora. Sem brigas, ódios e nem mesmo rancores, mas muito pouco para uma relação que durou anos pela via cibernética.

Lembrei de outra: namoro que durava meses com um portenho de Buenos Aires. Isso foi antes das câmeras, e eles trocavam fotografias. O sujeito era um dentista, separado, dois filhos, 35 anos. Encontro marcado no aeroporto de Buenos Aires e a dura realidade: em verdade se tratava de um sujeito solteiro, motorista de táxi, 43 anos e que morava com a mãe. Mentiroso ele, não? Sim, mas é bom levar em consideração que ela mandou fotos 30 kg mais magra, peso que ela ganhou depois da gravidez do seu filho. Ou seja: um mundo de fantasias, mas pelo menos nessas histórias ninguém apanhou ou morreu.

Lembrei outra: cinquentona, separada, conheceu seu namorado em uma viagem de férias. O sortudo era um português charmoso, advogado, separado e comerciante bem-sucedido. Paixão instantânea. Depois, namoro virtual por uns dois anos. Ela resolve visitá-lo na cidade do Porto. Planos de casar, morar fora do país, etc…. mas a relação durou menos de 24h. Romperam logo depois que ela chegou ao país, criando para ela uma imensa frustração. Não vamos nos iludir; este é o “novo normal” das relações, a realidade das relações modernas e fluidas, intensas e fugazes. Talvez seja preciso se adaptar. Amores cujos encontros são emocionantes e fulgurantes, mas as despedidas são curtas e brutais. Sumir simplesmente, sem dar qualquer satisfação – o conhecido ghosting – é uma ocorrência comum. Basta apertar um botão e a pessoa desaparece, sem precisar conversar, pedir desculpas, olhar no olho e chorar, sem se explicar e muito menos sofrer um pouco com a indignação e a mágoa do outro.

Onde isso vai nos levar? Não sei, mas temo pelos amores dos meus netos.

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