Decisões

Há uns trinta e tantos anos eu estava de plantão em um hospital quando adentraram na emergência dos pacientes baleados. O estado de ambos era crítico. A esposa de um deles contou que o bar onde trabalhavam foi assaltado e seu marido reagiu. Na troca de tiros ele foi atingido na cabeça, mas antes disso conseguiu acertar o bandido que invadiu o estabelecimento.

Eu era um estudante plantonista e fui designado para a neurocirurgia do dono do bar. Meu colega acompanhou o cirurgião para a outra cirurgia, na sala ao lado, a ser feita no assaltante que havia sido atingido no peito.

Ao entrar na sala soube que ambos os casos eram dramáticos. A cirurgia no cérebro é sempre delicada e seria minha primeira vez a acompanhar uma delas como auxiliar. Naquela época já era claro para mim que este tipo de trabalho jamais seria a minha rotina de vida, mas ainda assim era algo excitante e desafiador.

No meio da cirurgia nossa sala foi invadida pela dupla de médicos da sala ao lado. Abraçados e rindo alto gritavam “acabamos com o bandido!!!”. Entre risadas jocosas diziam que a cirurgia havia “corrido com perfeição”, e que suas habilidades foram colocadas à prova “com sucesso”. As risadas foram compartilhadas pelos cirurgiões da minha sala. Eu fiquei confuso…

Não sei o que aconteceu com o nosso paciente, mas lembro de termos terminado a cirurgia com ele vivo. A delicadeza do caso não poderia nos oferecer nenhuma garantia.

Entretanto, a reação dos médicos da sala do lado nunca saiu da minha lembrança. Prefiro acreditar até hoje que o paciente não resistiu à severidade e extensão dos seus ferimentos e que o que se seguiu foi apenas uma manifestação de humor diante do insucesso. Não conseguiria acreditar que médicos deixassem de usar seu talento para salvar uma vida guiados pelas considerações de caráter moral de seus paciente. Um bandido, um terrorista ou o Papa são iguais diante da ética que deve orientar o proceder dos médicos.

Não há nenhuma desculpa para quem revoga seu compromisso com a ética profissional. Os pacientes acreditam que não serão julgados por sua cor, religião ou condição social, inobstante o que tenham feito. Essa é a premissa que suporta a atenção médica. Até na guerra, o ferimento do inimigo vale tanto quanto os dos nossos soldados.

A sensação de estranhamento com esta cena me voltou à memória quando escutei essa semana pessoas defendendo a validade das ações de um juiz que liderava uma cruzada contra um partido. A mesma falha ética, o mesmo desrespeito com os elementos mais basilares da função social que desempenha. O mesmo abuso de poder baseado na crença de sua infalibilidade e superioridade.

Uma medicina que escolhe quem merece viver ou morrer é tão danosa e maléfica quanto uma justiça que decide pela culpa ou inocência baseando-se em valores alheios aos fatos julgados. Sem essa confiança na isenção nenhuma atenção será digna e nenhuma justiça será possível.

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As desculpas dos reaças

Entrei no Facebook de alguns amigos ultra reaças e a tônica das manifestações é essa:

“Sim, o Moro desrespeitou a lei, foi pego pelos ‘arapongas’, mas queriam o quê? Que ele fosse santinho? Que agisse dento do ‘livrinho’? Que deixasse a quadrilha do PT se livrar dessa?“

No fundo sempre tiveram desprezo pela democracia, pelas leis e pelo Estado Democrático e Direito. Eles assumem publicamente que a postura de juiz não é adequada pra tigrada do Brasil. Aqui tem que meter o pé na porta e mandar o código de processo penal às favas. Eles admiram um Zorro, um Batman, um justiceiro acima das leis; ou um Torquemada. Alguém que não precise do devido processo, do contraditório e – acima de tudo – de provas que ameacem suas convicções e sua visão particular de moral.

A condenação de Lula é exatamente isso: “Que se lixem as provas. Não aceitamos esse nordestino nos governando. Não queremos equidade, justiça social e pretinhos no aeroporto – que mais parecem rodoviárias. Queremos nosso país de volta!!!“

Moro é o espelho de uma classe média imoral e corrupta, ignorante e autoitária. Aliás, nada distante do presidente bestial que temos.

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Mitos espíritas

Não passem pano para seus mitos espíritas…

Acho curioso quando surge esse tipo de argumento: “sim, Moro é um juiz corrupto e Dalanhol cometeu crimes como promotor, mas, mas, …. quem pode falar qualquer coisa contra esses combatentes corajosos contra a chaga da corrupção no Brasil???“

Ora… o trabalho de Chico e Divaldo deve ser reconhecido pelo seu valor, mas o fato de serem dois notórios reacionários deve ser dito e exposto, até para retirar a aura de divindade que carregam.

Querem mais? Passei a infância lendo Monteiro Lobato, um racista e eugenista asqueroso. Valorizo seus livros infantis e deploro seus preconceitos. Humberto de Campos era um racista nojento e grande cronista. Fernando Pessoa, ele mesmo, nutria profundo desprezo pelos negros e foi o maior poeta da língua portuguesa. John Lennon era um perverso e sádico. David Bowie pedófilo, assim como Simone Beauvoir nos anos 60. Todos humanos e falíveis, alguns com máculas morais terríveis. Não passo pano para nenhum deles, e ainda assim separo o autor da obra.

Chico e Divaldo apoiaram regimes de força. Foram coniventes com as ditaduras de outrora e com o golpe juridico-midiático de agora. São golpistas com um pezinho no autoritarismo e na ditadura. Divaldo exaltou publicamente um juiz criminoso que combinava sentenças secretamente com a promotoria.

Ambos poderiam ter ficado quietos, mas deixaram claro seu apoio à brutalidade da direita nesse país.

“Ahhhh, mas e os livros, a Mansão do Caminho, as palestras?” É curioso quando trazem esse argumento pois é o mesmo argumento usado pelos milicianos. Eles esperam ser desculpados pelas assistência oferecida aos pobres e pelas benfeitorias que realizam nas favelas que comandam (a ferro e fogo). Pablo Escobar, os donos de Escolas de Samba e os barões do jogo do bicho sempre agiram assim. Sei que a comparação é dura, mas não comparo as figuras e sim a lógica usada para passar pano em seus erros. Não tem como usar a obra de Chico e Divaldo como blindagem para sua vinculação clara com o ditadura de 64 ou os crimes terríveis desse magistrado corrupto que envenenou a democracia no Brasil.

Blindagem de espíritas? O mesmo que faziam com os crimes de papas, suas orgias e lambanças da Igreja.

Para finalizar, eu não reduzo essa dupla de mitos espíritas às suas opções políticas autoritárias ou a exaltação de corruptos como heróis nacionais. O trabalho deles, para os que creem, ultrapassa esse limite. Entretanto, exatamente pela importância que eles tem, não há como perdoar e desviar o olhar de sua vinculação com a barbárie e o atraso do nosso país.

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Vilanias

Em minha modesta opinião é preciso ver se existe na no discurso de quem apoia o projeto de “liberalidade para as cesarianas” um real desejo de aprender e mudar seus conceitos. Se for permeável às informações então seria possível estabelecer uma troca e auxiliar na produção de um projeto que tenha como finalidade o estímulo ao protagonismo diante da informação de qualidade. Caso contrário é melhor reconhecer nossa incapacidade de cooptar os defensores da cesariana e entender que estão inexoravelmente do outro lado do espectro da defesa das mulheres e seus bebês. Serão adversários, infelizmente.

Pela minha visão parcial a maioria dessas pessoas não é a favor da “livre escolha”, mesmo que seu discurso pareça libertário. Isso é só uma bandeira feminista fácil, porém falsa em seu uso. Estes sujeitos são a favor da cesariana mesmo, sem rodeios, sem parto, sem gritos e sem dor. Afinal, “liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar, do jeito que quiser”.

Este projeto temerário deseja a anestesia plena; a obliteração daquilo que nos joga no “vazio do feminino”. Os apologistas da “cirurgia de extração fetal” tem horror a isso. A questão da cesariana é exatamente desviar o olhar do que significa ser mulher; a radicalidade do feminino; quem não suporta a explosão de sentimentos e sentidos de um parto faz de tudo para sabotá-lo. Usam até slogans manjados do feminismo como “autonomia” e “escolha”, mas que não passam de cortina de fumaça para não encarar de frente seus medos e traumas.

O caso de tais ativistas NÃO É falta de informação. É surdez auto imposta, mas as causas deste fechamento estão mergulhadas nos porões escuros e úmidos do inconsciente. Resta a nós reconhecer que pouco adiantam argumentos racionais para combater ideias que não brotam da razão, mas das tripas.

Mais uma vez as mulheres pagarão o preço dessa vilania. As mortes maternas pelo abuso de cirurgias se multiplicarão e não haverá nenhum progresso na qualidade de vida dos bebês. A prematuridade iatrogênica vai explodir assim como os custos para repará-la. A tudo isso assistiremos com horror, a não ser que tenhamos a sabedoria de dar um basta nessa aventura feminicida.

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Causas

O totalitarismo nos ensinou que um passo seguro para a desumanização é quando sua ideologia – seja ela qual for – atropela e destrói indivíduos na sua caminhada. Quando a vida e a honra de alguém valem menos que uma ideia é porque esta é apenas ilusoriamente positiva. Mentir em nome de uma causa, por mais nobre que esta seja, nunca ajudou a construir nenhuma obra de valor.

(Sir) Watson Doherty, “The Chambers of Birmingham”, ed. Peebles, pág. 135

Watson Jeremy Doherty é um escritor inglês nascido em Dover em 1959. Foi um jovem prodígio, escrevendo seu primeiro livro com a idade de 10 anos, “The Hills of Dover”, onde descreve as aventuras de um garoto e seu cachorro na busca por um tesouro Viking enterrado nas colinas de sua cidade. Depois disso iniciou uma importante obra de literatura infantil, sempre falando da vida simples do interior da Inglaterra, o que lhe valeu vários prêmios literários e a sua nomeação para o título de “Sir” oferecido pela rainha Elisabeth II. Sua entrada na literatura adulta se deu em 1980 com o romance “The Chambers of Birmingham”, onde ele visita os sentimentos anticomunistas que se apossaram da imprensa inglesa em função da pressão exercida pela guerra fria, expondo suas mentiras, falsidades e contradições. Mora em Dover e é casado com a decoradora Margareth Atkins. Tem um filho chamado Peter.

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Futebol raiz

Sou do tempo em que jogador de futebol usava chuteira preta, jogava bola e fazia gols por nós. Nunca soube nome de suas namoradas nem mesmo se eram casados. Hoje o futebol é apenas a vitrine para seus verdadeiros negócios. No futebol – mas também em outros esportes – o gol, o drible, a firula, a vitória e a taça no armário são apenas elementos que ajudam o “esportista personagem” a fechar contatos de barbeador, cerveja ou desodorante.

Bernie McLaren, entrevista ao semanário “Sports in the Wire”, Edimburgo, pág. 135

Bernie McLaren é um renomado jornalista escocês especializado em futebol. Escreve em vários jornais escoceses sobre os campeonatos locais e internacionais. Tem dois livros sobre o esporte: “Sports in the Wire” e “Celtics – a Resistance Symbol”, onde mostra a história do clube escocês e suas origens na resistência de católicos e imigrantes irlandeses. Também nesse livro ele descreve a incrível conexão entre a torcida do Celtics e a luta pela liberdade da Palestina. Uma das mais tocantes partes do livro se relaciona à demonstração protagonizada em 18 de agosto de 2016 em um protesto pró-Palestina durante a partida contra o time israelense Hapoel Beer Sheeva, na primeira fase de classificação para a Liga dos Campeões, no estádio Celtic Park, em Glasgow. Membros da torcida organizada do time escocês, a Green Brigade, levaram para o estádio milhares de bandeiras da Palestina, associando-se a outras organizações de direitos humanos no posicionamento político pelo reconhecimento do Estado palestino, que tem seu território ocupado por Israel desde 1948. Mora em Glasgow e é casado com a jornalista Melinda Abraham.

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A baura tá na mão

Fico aqui me perguntando porque não tratar o uso de cannabis com o mesmo viés crítico de qualquer outra droga. O que está sendo dito hoje em dia sobre a maconha tem a mesma marca de exagero e ufanismo que já vi sobre muitas outras coisas – e também remédios. Da cura do Parkinson, passando pelo câncer, pela artrite reumatoide e pela sua atividade ansiolítica.

A idéia de que a “solução está lá fora“, em uma droga, um aparelho, no dinheiro ou em uma pessoa é muito sedutora e sempre nos acompanha. Essa visão de “cura exógena” é que merece uma crítica severa por parte de quem quer ver a cura vomo um processo de reforma íntima.

Para mim isso tem cheiro, cor e forma de abertura de mercados. As grandes empresas estão loucas para que o grande comércio da cannabis se estabeleça para criar um gigantesco mercado internacional para a nova droga da moda. Capitalismo aplicado à saúde, como tanto testemunhei minha vida inteira.

Deixo aqui registrado que eu não embarco no entusiasmo desmedido por essas drogas, mesmo reconhecendo que a liberação é fundamental e que possam existir benefícios no seu uso.

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Good doctor

Eles nunca me enganaram. Sempre tive esse conceito muito claro para mim. Respondia desde cedo para quem me dizia “Dr Frotinha é um canalha, mas um excelente cirurgião”: isto é mentira. Pode ter boa técnica e habilidade cirúrgica, mas jamais será um bom médico. Um médico se compõe de várias habilidades, entre elas a sabedoria, a visão holística, a contextualização da doença, a experiência, o estudo sistemático, a luta contra seus preconceitos e – entre as mais importantes – a capacidade de estabelecer empatia com o sofrimento alheio.

Nunca haverá um bom profissional que seja perverso. Pode ser até um profissional de sucesso, como vemos no mundo corporativo e na Medicina, mas jamais alguém que contribuiu para o bem comum.

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Gente boa

Há muita gente má que vai ao consultório do psicólogo achando que este vai lhe convencer de que é “boa gente”. Estas pessoas, em verdade, estão rodeadas de gente boa, as quais não suportam, pois lhes fazem recordar a toda hora de sua própria perversidade.

Samuel Büettner, “Da perversão de Zigmund”, Ed Caravelas (port), pág 135

Samuel Bartles Büettner é um psicólogo austríaco e escritor. Escreveu vários livros técnicos da área da psicologia até se aventurar pela ficção. Seu livro mais famoso é “Nas barbas de Freud”, onde ele descreve os dramas e paradoxos da vida de uma cliente fictícia do mestre austríaco. Em “A Perversão de Zigmund” ele explora a mente de pacientes perversos e as tentativas de escuta de suas contradições por um psicólogo freudiano iniciante. Mora em Zurique e leciona na Universidade local.

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Golfinhos

Lembrei por ocasião do debate sobre a exaltação da “cesariana salvadora” e os “malefícios do parto normal” da velha história dos “bons golfinhos”. Uma historia sobre viés de percepção….

Há um mito que conta que os golfinhos são bons e que tem o costume de empurrar os náufragos para a praia. Vários relatos existem de pessoas salvas por golfinhos depois de barcos virados. A fama desses mamíferos sempre foi positiva entre nós e estas histórias sempre reforçam essa percepção. O problema surgiu quando, mais recentemente, se observou a ação dos golfinhos a partir de um helicóptero durante um naufrágio.

O que se viu foi surpreendente. Os golfinhos, em verdade, brincam com as pessoas e as empurram para QUALQUER lado – inclusive para longe da costa – mas só aqueles que – por sorte – são empurrados para praia sobrevivem para contar a historia. Daí ocorre a boa fama de salvadores que, como pode se ver, não é merecida. As mortes causadas pelo brincalhões aquáticos nunca foram computadas a eles, pelo menos até sabermos a verdade.

O mesmo ocorre em muitas situações do parto. Nos “sequelados do parto normal” a culpa só pode ser do parto, da natureza cruel, da “vagina dentada destruidora de crânios” e dos profissionais relapsos que “nada fizeram” mesmo tendo a “tecnologia salvadora” à mão. Nos sequelados da cesariana houve, por certo, uma fatalidade. Afinal “fizemos tudo o que podia ser feito“. Como se poderia culpar o uso da tecnologia se ela é o sustentáculo da emergência e hegemonia do saber obstétrico sobre a parteria?

Sem entender essas armadilhas psicológicas jamais fugiremos da fatalidade do “imperativo tecnológico” que nos obriga à intervenção pela crença cega na IDEOLOGIA tecnocrática.

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