Dores necessárias

Acho que foi Claudia Murta quem primeiro me falou, ou talvez ela tenha sido apenas a mais enfática. Entre taças de vinho em sua casa, junto com outros malucos se nutrindo de ideias, ela concordava comigo sobre a radicalidade do parto. Dizia eu que “Por isso é parto; é partir, romper, quebrar, destroçar. Por isso tanta dor; para impregnar aquele corpo com os infinitos significados de um nascimento ele precisa ser rasgado de dentro para fora através dela. Ardente e corrosiva, que seja, mas para transformar e fazer do passado pó, trocar a pele, queimar as roupas, vomitar seus medos”.

Eu enxergava na epidemia de bloqueios peridurais uma traição aos sentidos últimos do parir. Não seu uso, mas seu abuso. Uma carona no Caminho de Santiago a lhe falsear os significados. Roubando-se a dor retira-se também a construção misteriosa e oculta que se esconde por detrás do evidente. Minha dor era a falta de dor, a falta de marca, a cicatriz que não se fazia. O corpo que não sabia.

Ao nosso país também faltou sua dor; nossa anistia “ampla e irrestrita” foi uma cesariana em um corpo que pedia a passagem da democracia. Não quisemos enfrentar nossas caras contorcidas, as fezes, os puxos, as secreções, os gritos, e por isso perdemos o êxtase. Fugimos das angústias de uma passagem estreita, a dor de romper a própria carne; o olhar-se para envergonhar-se. Preferimos colocar uma pedra, sobre tudo e todos. Uma pedra que agora nos pesa, pois o monstro … desperta.

Renegamos a dor que poderia nos salvar, o sofrimento agudo que nos daria esperança. Faltou em nós o grito redentor, o corte, o caminho que se faz na força. Faltou o parto com dor.

Faltou coragem para deixar o país parir.

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A Culpa do fascismo

 

 

“Ele diz que o Coiso só existe por causa do PT e pela falta de autocritica do partido. Diz que por isso vai votar no Coiso. É mentira. Vai votar porque sempre curtiu um autoritarismo fascista e anti-pobre. Sempre gostou de “cada um no seu lugar”. Sempre achou estranho aeroporto colorido e universidade cheia de “bolsista”. Não é pelo PT, é por você mesmo.”

O racismo e o preconceito de classes existem muito antes do PT. O Partido dos Trabalhadores e a emergência dos pobres e negros no cenário nacional que ele proporcionou apenas deixou evidente a ferida corrosiva e pútrida de nossa sociedade, a qual se escondia por detrás dos curativos mal feitos da cordialidade e da negação ao racismo. Culpar o PT pelo surgimento do fascismo QUE NUNCA DEIXOU DE ESTAR AQUI é o mesmo que culpar os negros pelos racismo, pelos espancamentos e pela exclusão. É o mesmo que culpar os pobres pela sua pobreza, chamando-os de fracos e preguiçosos. É tão tolo quanto dizer que a culpa do estupro é do vestido curto, que atiçou no sujeito “comum” seus instintos brutais de estuprador.

Mentira, mentira deslavada. O PT tão somente deixou evidentes as contradições que existem na nossa sociedade desde sempre, ou desde que o fenômeno do racismo impregnou nossa sociedade dividindo-a entre Senzala e Casa Grande a partir de 1532. O PT e as esquerdas cometeram erros e equívocos terríveis, e terão tempo suficiente para se reorganizarem e para e chamarem o povo excluído para as suas lutas, mas culpá-los pela estupidez e pelo fascismo expresso por figuras repugnantes como Bolsossauro, Morinho e Mourão é injusto e denuncia uma miserável leitura da história desse país.

Bolsossauro foi fermentado na ditadura, na falta de punição aos torturadores e assassinos do Estado. Foi criado pela elite desgostosa e ressentida com os avanços da “ralé”, no dizer de Jessé de Souza. Foi cozinhado em fogo brando por uma elite retrógrada da caserna, ainda ligada ao autoritarismo, com nojo de pobres e negros e de qualquer organização social que ouse tocar no nosso sistema rígido de castas. Não tentem nos fazer acreditar nessa história tosca de que o Coiso é culpa de quem sempre lutou pelos mais pobres e sempre tentou modificar o modelo perverso sobre o qual nosso país se assenta.

Assumam a culpa pelo monstro. Na época do Führer não havia print de Facebook ou Whatsapp para que a gente pudesse mostrar à posteridade quem esteve ao lado do arbítrio, do fascismo, do racismo, da exclusão, da ditadura e da perversidade social. Hoje poderemos provar quem escolheu um ditador. O tempo cobrará, como na Alemanha, quem esteve do lado justo e democrático da história.

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Moralismo espiritualista

Eu cresci em uma casa espírita e meu pai foi presidente de uma federação estadual até romper com o modelo religioso do espiritismo. Entretanto, desde sempre percebi no espiritismo um viés conservador e moralista, em especial no que diz respeito às múltiplas manifestações da sexualidade.

Homossexualidade sempre foi tabu, e testemunhei o sofrimento de amigos gays discriminados em suas escolhas dentro de casas espíritas. Curiosamente, esse preconceito ocorre mesmo diante da notória ambiguidade sexual dos dois maiores ícones do espiritismo.

Liberdade sexual e – especialmente – sexualidade feminina eram vistos como assuntos proibidos, ou então filtrados por uma ótica cafona de exaltação da “castidade”. Nesse aspecto o espiritismo segue a mesma trilha de TODAS as seitas cristãs, do catolicismo aos evangélicos mais reacionários. No mesmo culto à “família tradicional” ocorre a indissociável hipocrisia corrente; como nas outras vertentes cristãs é presente o “fantasma do filho gay” que nunca é mencionado, a mesma vergonha da filha grávida solteira, as mesmas posições políticas contrárias às manifestações de trabalhadores, o mesmo “racismo caridoso” e a constante aversão aos movimentos populares de esquerda. “Espíritos aconselham o trabalho e a obediência às leis. Greves são causadas por obsessões”.

As religiões, todas elas, são movimentos conservadores de manutenção e suporte dos poderes estabelecidos. Eu me dei conta disso há 33 anos e abandonei as Casas Espíritas de caráter religioso, mantendo apenas para mim as crenças que até hoje me nutrem e consolam. As recentes manifestações lamentáveis – e carregadas do mais puro reacionarismo – de dirigentes e personalidades espíritas apenas confirmaram a imagem negativa que sempre tive do espiritismo como movimento social.

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Ginetes

Rita era uma mulher de 45 anos, bonita, separada e de voz doce. Tinha dois filhos adolescentes e vivia em um belo apartamento num bairro nobre da mesma cidade em que eu morava. Seu casamento com um arquiteto conhecido havia sucumbido há alguns anos, e a história dessa relação eu ainda preciso escrever, antes que a memória venha a me trair. Certamente um enredo de mistério, romance, aventura e tragédia…

Mas não era essa a história a contar. Em um encontro da Igreja Rita conheceu um senhor divorciado que tinha uma idade semelhante à sua. Pai de dois filhos adultos, um casamento desfeito há uns 10 anos, proprietário de terras em uma cidade do interior. Cristão fervoroso, defensor da família e dos bons costumes. Conservador. Era advogado, mas não atuava; vivia tão somente dos proventos que recebia das terras que arrendava para o plantio de arroz.

Começaram a namorar depois de um certo tempo, e a relação parecia boa. Ambos maduros, com filhos crescidos, sem problemas financeiros. Rita era professora estadual, mas além disso ganhava uma polpuda pensão do seu ex-marido. Os filhos de ambos eram quase independentes.

Depois de algumas semanas de namoro formal o namorado lhe faz um convite especial. Precisaria ir à sua cidade no interior para resolver assuntos pendentes relacionados à sua propriedade rural e a convidou para acompanhá-lo. Aproveitaria a ocasião de uma feira agropecuária na cidade para fazer essa visita. As “gineteadas”, os “tiros de laço”, a festa popular e todas estas atividades da cultura do interior poderiam ser divertidas, mesmo para uma mulher cosmopolita como Rita. Ela aceitou.

Partiram no dia combinado para a cidade. Lá encontraram uma festa típica das cidades pequenas, com a elite de agricultores e pecuaristas que dominam a cena e os inúmeros subalternos que tocam o espetáculo. Barraquinhas de comidas típicas, mulheres com vestidos rendados, jovens imitando a estética caubói, música sertaneja por todos os cantos, filas para o banheiro e gente por todo o lado.

Vamos assistir a “gineteada”, disse ele. Sei de uns bons ginetes que vão se apresentar hoje.

Participar de uma gineteada é “cavalear”, ou “cavalgar”. Na prática consiste em permanecer montado no cavalo que, através da dor, é estimulado a saltar, arquear o corpo e dar pinotes. Rita conhecia a prática de filmes e de fotografias, mas nunca havia visto uma de tão perto. Aproximou-se da pequena mureta que separa o público do tablado de areia e serragem que protege os cavaleiros das inevitáveis quedas e ali ficou observando as provas. Ficou vivamente impressionada com a agilidade e destreza dos ginetes e percebeu o quanto seu namorado vibrava com cada corcoveada e a cada manobra executada pelos exímios montadores.

Subitamente percebeu que ao lado uma moça se aproxima do seu namorado e suavemente lhe bate no ombro. Retirando os olhos do espetáculo, ele gira o corpo na direção dela, que se posta logo atrás.

– Oi, está lembrada de mim?, disse ela sorrindo.

Ele pareceu meio desconcertado e sem jeito. Tentava recordar as feições, mas não as situava no tempo e no espaço.  Fazia um esforço que só foi interrompido quando ela mesma lhe disse o nome.

– Claro que me lembro, disse ele constrangido. Como você está? Faz tempo que não lhe vejo. Tudo certo?

A jovem – que teria idade para ser sua filha – apenas lhe devolveu o sorriso e disse:

– Eu estou muito bem. Não se preocupe. Queria apenas que você conhecesse o seu filho.

Dizendo isso ergueu nos braços o menino que carregava pela mão, que não passava de três anos de idade. Aproximou-o do peito, enquanto o namorado de Rita o fitava com certo espanto. Porém, nada disse, e foi ela quem falou:

– Pode ficar tranquilo. Assista seu show. Achei apenas que devia mostrá-lo a você. Adeus e felicidades.

Ele respondeu ao adeus e girou novamente o corpo para o tablado onde os ginetes se esforçavam para manter seus corpos atados ao lombo dos cavalos ariscos e assustados. Depois de alguns instantes, voltou o rosto para Rita, que se mantinha estática e sem conseguir falar.

Olhou-a com um sorriso patético e falou:

– E não é que saiu bonito como o pai?

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Tripas

Durante meus 30 anos de medicina algumas pacientes me traziam à consulta uma pergunta curiosa e reveladora após uma cirurgia ginecológica abdominal: “Doutor, me conte: como estou por dentro?“. A pergunta desvelava o desejo de conhecer algo que era dela, estava dentro de si, produzia ruídos, barulhos e alguns dissabores, mas que ela não conseguia ver com clareza. Minha resposta era algo como “está tudo bem“, seguida de um sorriso.

Bolsonaro filho é o deputado mais votado da história do Brasil. Gostaria de dizer que ele foi votado desta forma apesar de ter um histórico de ameaças contra a vida de sua namorada e de inúmeras demonstrações de machismo, racismo e lgbtfobia. Entretanto, isso não é verdade; ele foi eleito PORQUE é um fascista, racista e misógino. Ele foi escolhido PORQUE disse que as mulheres de direita são mais higiênicas. Ele foi eleito desta forma consagradora PORQUE exalta a violência e as soluções simplistas para a criminalidade. Ele foi eleito PORQUE debocha do assassinato de Marielle. Ele foi eleito PORQUE é filho do homem que representa o fascismo na sua forma mais crua e corrosiva, a reprise aterradora de uma história de horror e violência

Essa eleição nos deu a oportunidade de olhar para o ventre do Brasil. Vimos a cidadania em pedaços como carne dilacerada, a humanidade escorregando pelos nossos dedos feito nossas tripas. O respeito pelo semelhante se esvaindo como o sangre escuro de uma hemorragia. Vimos também as manchas do machismo, as úlceras do desrespeito às minorias, os nódulos necrosados do racismo, as gangrenas e os infartos da exclusão e do arbítrio. O que antes estava escondido hoje fica evidente aos olhos; o paciente jaz à nossa frente, o ventre aberto e as vísceras expostas e não conseguimos conter a lágrima que escorre pela dor de tanta aflição.

O pulso ainda pulsa, o coração frágil ainda bate, a face lívida, de onde brotam dois olhos esbugalhados, nos fuzila e o paciente – entre atônito e desesperado – pergunta: “Como estou por dentro“, e só posso dizer que a nossa esperança se manterá, mesmo que este corpo se esfacele, se consuma e se despedace pelos tumores que cresceram longe dos nossos olhos. Entretanto, enquanto houver força, seguiremos com esperança; enquanto houver certeza do raiar de um novo dia lutaremos em pé.

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Dois amores

 

No colégio havia aquelas duas meninas que você olhava com o rabo do olho todo santo dia, deixando de prestar atenção nas hipotenusas enigmáticas da professora de matemática. Uma delas era a gostosa da turma, livre, decidida, sedutora, “cheia dos anel e dos batom”, cujas pernas lhe hipnotizavam e a cor do sutiã era motivo de debates na hora do recreio com a cafajestada da aula. Sentava no fundo e tinha admiradores e seguidoras. Uma “pin up girl” na parede da minha memória.

No outro lado da sala sentava aquela menina meiga, delicada, sensível e que você imaginava seria a mãe ideal para os seus (quatro) filhos. Inteligente, CDF, mignon, esperta. Sua inteligência emoldurada pelos óculos eram uma flechada no coração.

Sofria de torcicolo procurando cruzar meu olhar timido com minhas paixões juvenis tão distantes, tanto no mundo quanto na imagem que delas fazia. Sempre que eu olhava para uma sentia a culpa pela outra, como se a estivesse traindo com meus olhares e minha imaginação lasciva.

Ok… casei com uma mistura de ambas e ponto final. Mas o que eu queria dizer é que uma sensação muito próxima dessa se abate sobre este velho coração ainda hoje, quando vejo as disputas dos candidatos anti-coiso. Cirão é pura volúpia e intensidade. Fala, grita, esperneia e aponta o mal com coragem. Já Haddad é profundidade, franqueza, sensibilidade. Com um quero me emocionar; com o outro quero sonhar, mas não deixo de sentir culpa por este para cada momento em que os meus olhos se fixam no que aquele outro fala.

Não me critiquem por sofrer por dois amores. Só vou me decidir no altar. Até lá manterei essa minha atitude oferecida e assanhada.

PS: meu sonho sacana? Uma lua de mel com os dois…

 

 

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Psicanálise

A psicanálise nos mostra, em essência, a fragilidade de nossas escolhas. Somos governados por um núcleo de medos coberto por uma camada de crenças irracionais sobre as quais se assenta uma fina camada de racionalidade, quase insignificante, mas que nos oferece a ilusão de termos suplantado nossos atávicos temores. Freud nos revelou não apenas os conteúdos sexuais da vida infantil mas, além disso, a estrutura infantil da nossa sexualidade madura.

Pierre Garbois “Le jeune avenir” Ed. Roquefort, pág. 135

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Religião e conservadorismo

As mensagens de espíritas preocupados com a ascensão do fascismo e com a popularidade de um candidato* que elogia torturadores só fazem sentido porque historicamente a cúpula do espiritismo nacional é reacionária e autoritária. De Chico a Divaldo, passando pelos generais da FEB (Federação Espírita Brasileira), nunca tivemos um espiritismo brasileiro que não fosse próximo e admirador dos poderes instituídos – da ditadura à lamentável “República de Curitiba”. As demonstrações de afeto de Chico com a ditadura de 64 e de Divaldo com a turma de magistrados que golpearam a democracia estão acima de qualquer dúvida.

Com exceção das religiões de matriz africana – umbanda, candomblé, nação – as grandes religiões brasileiras são dos colonizadores: religiões brancas, de classe media, burguesas e conservadoras, incluindo-se aí o espiritismo. Nas três décadas em que circulei pelo universo dos espíritas brasileiros nada reconheci de diferente dos modelos de outras seitas cristãs. O mesmo moralismo, um machismo sutil, meritocracias, hierarquias, aristocracias, espíritos “do bem” – semelhantes aos “cidadãos de bem” deste plano – culto às personalidades, entidades das “trevas”, seres angelicais, uma crítica sistemática à livre expressão da sexualidade, um culto à “família patriarcal” e um número sem fim de informações subliminares que nos conduziam a reconhecer os “espíritos superiores” como a elite branca e aburguesada da nossa sociedade.

Para além disso convivi com o ufanismo infantil propagado entre os espíritas pela obra “Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho” (sobre ela escrevi aqui) que descrevia o nosso país de 60 mil homicídios por ano, assassinatos de transexuais, feminicídios e estupros incontáveis e a distribuição de renda mais perversa do hemisfério sul como “a nação escolhida por Jesus para carregar no coração sua mensagem de amor“.

As religiões são construções humanas e refletem seus valores e crenças. Uma “religião” como o espiritismo (que segundo o próprio Kardec não é, mas se expressa como se fosse), surgida no seio da classe média brasileira, obrigatoriamente viria a refletir sua visão de mundo e suas perspectivas. A umbanda, nascida do sincretismo entre o cristianismo e os ritos africanos, surgiu na marginalidade (à margem) da classe média do país, trazendo para o seu seio as populações pobres, negras, os homossexuais e os desvalidos. Se existem cultos no Brasil que têm a nossa cara e nosso jeito, sendo representante dos mais elementares valores populares, estes são os afro-brasileiros.

Inobstante a mensagem espírita pretender-se mais moderna e abrir espaço para a permeabilidade de seus postulados com a ciência, seu veículo – a classe média branca e urbana – acabou lhe conferindo um aspecto conservador e moralista que em nada se diferencia das seitas cristãs em nosso meio. Não é de surpreender, portanto, que meus amigos espíritas de ontem venham hoje a abraçar as bandeiras conservadoras, em um direitismo que se aproxima do antipetismo mais radical e onde suas ideias encontram eco nas palavras do inominável líder fascista.

A modernidade da “fé raciocinada” que Kardec propunha esbarrou na caretice de quem levou adiante suas propostas. Infelizmente, o espiritismo jamais conseguiu mudar a imagem conservadora e moralista do cristianismo tupiniquim.

* Esse texto foi escrito ainda quando Bolsonaro era candidato

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Lacração

 

Vivemos em tempos obscuros, onde a “lacração” mais grosseira ocupa o lugar que o humor sempre teve por direito. Antigamente as “sacadas” bem humoradas, satíricas e sarcásticas eram a maneira mais rebuscada de responder, mesmo as agressões. Hoje você “lacra”, o que basicamente significa arrasar, destruir o opositor, usar um argumento que fecha a questão (pelo menos na opinião da sua torcida).

A diferença entre as duas estratégias é a mesma entre um decote insinuante num filme de Vitório de Sicca e uma cena pornô de Rocco Sifredi.

“Sutileza e perspicácia, onde andam vocês?”

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Snow flake

 

Uma das minhas manias mais radicais é com a questão da liberdade de expressão; sou fanático por isso. Não aceito de forma alguma cerceamento de consciência. Não vejo erro em defender vacinas, putaria, homeopatia, transexualismo, futebol, parto humanizado, homem, mulher, gays, nazismo, comunismo e neoliberalismo. Tudo, literalmente tudo, e sempre no terreno das idéias.

Infelizmente vemos a censura da geração “overly woke”, ou “snowflake” que nao suporta que determinados grupos ou ideias possam ser submetidos a críticas e – muito pior do que isso – ao humor.

Ontem assisti dois espetáculos de stand up que tratam exatamente dessa questão: Rick Gervais e Brimbilla. Ambos traziam uma temática provocativa sobre temas complexos, passando dos transgêneros aos abusos sexuais. Evidentemente, com graça e humor, mas sem fugir do tema e sem sacralizar grupos e sujeitos.

Sim…. é possível fazer humor com qualquer tema. Morte, estupro, mulher, homem, gay, judeus ou palestinos. A questão é a forma, a circunstância e o contexto. Se a piada visa humilhar um grupo, sendo apenas um veículo desse ataque, somente os preconceituosos serão parceiros nas risadas. Porém, se a piada serve para puxar o tapete de nossas certezas e nossa arrogância – para qualquer sujeito ou grupo – essa piada precisa ser PROTEGIDA dos batalhões snowflake, pois ela está na essência humanizadora do humor, a mesma que percorria o coração dos menestréis quando ridicularizavam a vida palaciana e apontavam a nudez dos soberanos.

Uma vida onde o humor é sufocado pela simples possibilidade de ferir suscetibilidades é uma vida onde os poderes são estanques, a existência imutável e o sorriso criminalizado.

Quem se leva muito a sério e não consegue rir de si mesmo está condenado a jamais entender sua própria existência, sufocado pelo mau humor e por uma falsa idéia de proteção.

Para exercício de alteridade aconselho refletir sobre os perigos de uma postura pusilânime em relação aos grupos minoritários. E claro, assistam “Humanidades” de Rick Gervais.

E sobre o humor, invoco Belchior:

 

“Não me peça que eu lhe faça

Uma canção (piada) como se deve

Suave limpa, muito linda muito leve

Sons e palavras são navalhas

E eu não posso cantar (contar) como convém

Sem querer ferir ninguém”

Salve o humor.
O humor não morrerá jamais.
Chega de caretice.
Abaixo toda forma de racismo.

 

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