Felicidade

No livro “The Village Effect” Susan Pinker nos fala sobre a importância dos relacionamentos para a saúde, a longevidade e a felicidade, e neste livro ela operacionaliza a questão dos afetos, mostrando que os relacionamentos – quando garantidos pela “vila” – podem oferecer às pessoas a possibilidade de uma vida produtiva e feliz. Porém, não é mais segredo para ninguém que pessoas felizes não são boas consumidoras; portanto, a felicidade e a plenitude não interessam ao sistema. Fácil entender: quem é pleno não buscará no consumo algo que lhe falta. Em verdade, ser explicitamente feliz em uma sociedade doente é a mais sofisticada forma de mobilização revolucionária.a.

Enquanto isso, a biomedicina contemporânea tecnocrática, ligada ao capitalismo e o neoliberalismo, desconsidera o quanto o estilo de vida pode modificar os padrões de saúde e bem-estar. Estudos existem por toda a parte para confirmar que a felicidade é algo que se produz de dentro para fora, mas continuamos acreditando que a solução das mazelas físicas e psíquicas dos sujeitos sociais se dá somente pela adição de drogas e intervenções cirúrgicas, cujos efeitos em médio e longo prazos são muitas vezes desconhecidos – ou reconhecidamente danosos.

Em verdade, a vida ocidental contemporânea vai na direção oposta das descobertas dos estudos sobre a felicidade e o bem-estar, desmerecendo o poder da solidariedade em nome de aquisições materiais fugazes e descartáveis. Desta forma, até que a sociedade acorde da sedação/sedução materialista da sociedade de consumo ainda teremos muita “miséria emocional glamurosa“, o culto ao dinheiro e a drogadição (legal e ilegal) como estímulos sociais para suportar uma vida de crescente infelicidade.

“Somos tão pobres que ao invés de criarmos riqueza criamos bilionários”, enquanto deixamos que as coisas sejam mais importantes que as amizades e o convívio.

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Gisele

Lembrando pra galerinha da treta:

A Gisele não é o problema; ela é apenas uma das manifestações do problema, que é o capitalismo. O caso dela é escandaloso porque o fosso que a separa das pessoas humildes que a cercam é obsceno. Todavia, culpar a Gisele, o Neymar, o Elon ou o Paul McCartney é fulanizar um problema sistêmico que só serve para estimular o proletariado a se dispersar, caindo na armadilha identitária de criar ataques entre os mais e os menos oprimidos.

Nos próximos passos previsíveis dessa treta vamos acusar a professora por ganhar muito mais do que a tia do cafezinho esquecendo que AMBAS são brutalmente exploradas pelo mesmo sistema, inobstante o fato de serem de raças e salários diferentes. Numa sociedade socialista a obscenidade dessa disparidade desumana e indecente não seria tolerada, pois a consciência de classe não aceitaria tamanha ofensa à dignidade humana.

Ahhh, nao esqueçam que Gisele vende sua imagem, que é o seu trabalho. Ganhar 10 milhões para que sua imagem seja vinculada à uma cerveja não é o problema. O escândalo mesmo é uma empresa do Lemann PAGAR por isso.

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Mundo às escuras

Sempre que eu vejo as representações do surgimento do planeta, ou mesmo o aparecimento posterior desse profundo mistério chamado “vida” – a organização complexa que surge da matéria inerte – eu tenho uma sensação estranha. Apesar das maravilhosas demonstrações do que poderiam ter sido as etapas de vulcanismo, das chuvas infinitas, a criação dos oceanos e as primeiras estruturas vivas surgidas em suas águas mornas – já mais recentemente – eu me surpreendo que toda esse período enorme da história do planeta ocorreu “às escuras”.

Sim, porque a complexidade dos globos oculares surgiram há poucos milhões de anos, ainda no período Cambriano, por volta de 545 milhões de anos passados. O período Cambriano, meio bilhão de anos atrás, foi um pico de produção e diversidade de vida, como poucos na história da Terra. Nenhuma evidência da existência dessa estrutura é encontrada em períodos anteriores a ele, mas uma grande variedade de olhos é encontrada no registro fóssil de Burgess Shale, que ocorreu no Cambriano Médio.

Assim, os 3.5 bilhões de anos anteriores a este período ocorreram sem testemunhas oculares. Ressecamento da crosta, vulcões em erupção, o surgimento da flora, o aparecimento das primeiras bactérias, os moluscos, os maremotos, nada disso foi visto por nenhuma criatura. Foi necessária a criação da Geologia e das imagens geradas por computador para podermos imaginar como teria sido esse período e transformá-lo em imagens majestosas e impressionantes. 

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Maremoto

“Então, um belo dia, eu acordei pela manhã e me dei conta que não havia mais sentido continuar sendo aquela antiga versão de mim mesmo. Foi um estalo; como acordar”.

Verdade, mas na realidade a transformação não é fruto de magia, não é sequer uma transformação repentina, da mesma forma como um maremoto ou a erupção de um vulcão não ocorrem de surpresa, surgidos do “nada”. Estas mudanças apenas externamente aparentam ser abruptas; elas ocorrem pelo movimento lento e gradual das placas tectônicas do nosso psiquismo, que insidiosamente se adaptam e se transmutam para acomodar nossa perspectiva de mundo. Um dia, sem aparente aviso, surge o tsunami, o tremor sob os pés e a lava percorre seu caminho junto às cinzas, o que nos leva à ilusão de que algo súbito e surpreendente ocorreu. Isso acontece apenas pela nossa incapacidade de perceber as violentas tensões subliminares que ocorrem nas profundezas de nossa alma.

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Essa coisa chamada amor

É possível acordar quase tudo num compromisso afetivo, tipo um casamento. Posses, espaços, funções, finanças, herança e limites. Só não é possível determinar por contrato as diminutas frações desse consórcio relacionadas ao desejo. Não por coincidência, são as únicas realmente definitivas desde a criação do amor romântico.

O casamento, por outro lado, despojado dessas parcelas quase insignificantes, é uma instituição sólida, pétrea, que resistiu a milênios de ataques quase sem abalo. A única ameaça ao seu domínio veio desse elemento estranho, fissura aberrante da ordem cósmica, elemento irracional e violento que o consome, ao qual chamamos…. amor. O amor romântico, por sua vez, é tão contraintuitivo que só pode ter sido uma invenção tardia. Pense bem: numa perspectiva evolutiva, em locais com alto nível de mortalidade por doenças e conflitos, num contexto de guerras, perdas, fome, etc. qual seria o sentido em se ligar afetivamente (de forma romântica) a alguém, sabendo que este amor poderia se esvair tão facilmente?

Um contrato bem alinhavado, feito com um desconhecido e com funções e tarefas bem circunscritas, funcionaria muito melhor.

Marguerite D’Alembert “Cette chose qu’on appele amour” (Essa coisa chamada amor), ed. Pintemps, pág 135

Marguerite D’Alembert, nome artístico da escritora e cineasta Marie Dufour, nasceu em Nantes em 1960 e passou toda a sua infância na Côte D’Azur, na cidade de Cannes, onde desde a mais tenra infância se tornou uma estudiosa e amante da sétima arte. Estudou cinema da Sorbonne e após sua graduação começou a acompanhar grandes diretores do cinema nacional francês. Foi assistente de cena de François Truffaut nas filmagens de “De repente, um domingo”, que foi o último filme dirigido por ele. A partir destes encontros iniciou uma exitosa carreira como diretora de comerciais, curta metragens e documentários. Começou a escrever crítica literária e de cinema no Le Figaro em 2005 e publicou seu primeiro livro de contos em 2007, com o título “Mariposas imortais”, título de um conto premiado sobre os dramas e as delícias de envelhecer. Em “Cette chose qu’on appele amour” ela fala sobre amor e relacionamentos, fracassos, perdas, amor na maturidade, solidão, desejo e saudade. É casado com o diretor Pierre Gosciny (“Oceano em Chamas”, “Cais”, “Poderia ser verdade”) desde 1987 e tem 3 filhos. Mora em Paris.

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Futebol Moderno

Não há como comparar, na atualidade, o futebol europeu com o futebol praticado no resto do mundo. Na condição de tricolor, o jogo do meu Grêmio contra o Real Madrid em 2017 marcou esta diferença, que a partir de então ficou muito clara para mim. Eram (para usar a palavra da moda) patamares diferentes de futebol. No campeonato mundial patrocinado pela FIFA os sul-americanos chegam lá para fazer um “crime”, jogar por uma bola, tentar o milagre, fazer história. Parecemos clubes do interior jogando contra potências futebolísticas da capital. Já os gringos vão fazer compras e curtir os hotéis de luxo das cidades árabes. Estamos muito mais próximos do futebol da Arábia e mesmo da África do que do futebol da Europa. Prova disso é que nas últimas 10 semifinais os clubes da América Latina foram batidos por clubes africanos e de outras praças. O futebol dos anos 80-90 foi último suspiro dessa proximidade; a distância se tornou insuperável pela força do poder econômico; o dinheiro destruiu a competitividade no futebol; um fosso gigantesco se abriu separando o futebol praticado no centro do Imperialismo com aquele da periferia.

Eu sei: os clubes europeus são “legiões estrangeiras” cheios de jogadores da periferia, mas eles apenas arrecadam a mão de obra no sul global; o dinheiro, a organização, os estádios e o marketing é todo deles. Pensem apenas o seguinte: o jogador Neymar ganha sozinho mais do que todos os jogadores do Palmeiras e do Flamengo juntos – que já tem salários obscenos para a realidade do país. Ou seja: ele ganha mais que o plantel inteiro dos dois clubes mais ricos do país. Segundo dados da revista Forbes de 2022, Neymar ganha US$ 55 milhões anuais entre salários e bônus por metas em campo. Por mês arrecada ao redor de US$ 4,5 milhões, o que representa na cotação atual quase R$ 23 milhões. Ainda de acordo com a publicação, Neymar ganha mais US$ 32 milhões por seu trabalho fora de campo, principalmente emprestando seu nome para publicidade de inúmeros produtos. O jogador mais bem pago do Brasil ganha um décimo do que ganha o Neymar. É um poder econômico contra o qual não há como competir.

Com o futebol europeu sendo comprado por bilionários do petróleo ou novos ricos do leste europeu a tendência é que este esporte fique cada vez mais distante do povo. Cada vez mais concentrador de renda – e de títulos – e paulatinamente afastado do trabalhador pobre, o destino desse esporte é se tornar um jogo para as elites, controlado por magnatas, com uma estrutura que visa essencialmente o lucro, na mais acabada perspectiva neoliberal. Enquanto isso, vai se afastando das torcidas, expulsas dos estádios e cada vez mais alienadas das decisões do clube.

O futebol também precisa de uma revolução, para evitar que venha a desaparecer pelo extermínio de sua motivação mais primitiva: a paixão.

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Desamparo

Amar alguém é ficar solto no espaço, sem garantias de que será resgatado. Tão dramático é esse movimento que a natureza o deixou longe da razão; seria arriscado demais para a continuidade da espécie que a nós fosse permitido ponderar antes de cair no precipício da paixão…

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Homens

Homens foram ensinados a proteger as mulheres acima das próprias vidas, e essa é a verdadeira essência do modelo patriarcal. A expressão “Mulheres e crianças primeiro” não surgiu do nada, nao veio do vento, mas expressa um dos mais profundos valores da civilização. Ela significa que, no patriarcado, a vida das mulheres e das crianças será protegida acima de tudo pois são mais valiosas do que a dos homens, e a mais profunda obrigação masculina é proteger a ambos. Esse é um tipo de privilégio oferecido às mulheres que é difícil de reconhecer em uma sociedade que penaliza os homens unicamente pela sua condição masculina.

Isso não significa que o patriarcado seja belo, justo ou não contenha contradições, e por essas falhas deverá ser substituído. Entretanto, é absurdo imaginar que o que move esse modelo é o ódio dos homens pelas mulheres, ou o prazer em oprimi-las. Muitas ativistas identitárias ainda acreditam que o amor dos homens por elas é falso, interesseiro e seu único objetivo é explorar e objetificar as mulheres. Por outro lado, o amor das mulheres seria puro, angelical, desinteressado e respeitoso, o amor de Maria por Jesus. Ou seja, para estas ativistas as mulheres seriam moralmente superiores aos homens.

Sabem qual o nome disso? Sexismo, o mais abjeto dos preconceitos.

Para dar a verdadeira perspectiva do significado do homem na civilização eu convido estas meninas a subir no edifício mais alto de sua cidade, aquele que puder oferecer a vista mais ampla possível. Olhem lá de cima até conseguirem ver a linha do horizonte. Depois disso olhem os carros, as ruas, as roupas, as torres, os fios de luz, o telefone na mão das pessoas, as casas, as praças, as fábricas… tudo. Quando tiverem feito esse passeio visual pensem: tudo isso aqui, literalmente, sem tirar nada, foi construído por esses homens que são desprezados e chamados de “interesseiros” e abusadores. Toda obra humana, até onde nossa vista alcança, foi feita pela mão dos homens, e para eles devemos ser agradecidos.

Toda a civilização foi construída pelo gênio masculino, e muitos foram os homens que lutaram e morreram para construir este mundo que conhecemos, da mais simples choupana até uma estação espacial. E o fizeram para que suas mulheres e filhos tivessem uma vida mais digna, mais segura e mais livre. Esse desprezo pelos homens é o fator que mais atrasa as conquistas das mulheres, porque além de injusto é ingrato e violento. A plena emancipação das mulheres não vai se dar pela exclusão dos homens, muito menos usando desprezo e humilhação como estratégia.

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Verdades escondidas

Certa feita eu caminhava pelos corredores do hospital quando fui interrompido por uma funcionária do setor de contas, a quem eu já conhecia faz tempo. Ela me disse:

– Dr. seria pedir muito o senhor olhar esse exame para mim?

Como estava “de boas” apenas esperando para tomar meu cafezinho pós almoço, aceitei. Segurei com as mãos as duas folhas que ela me passou.

Eram exames de urina clássicos. Um exame comum de urina (que muitos chamam de “EQU” e outros “urina 1”) e uma urocultura. O primeiro faz uma análise química e celular da amostra e o segundo uma análise do crescimento de bactérias, onde normalmente se acrescenta um teste de sensibilidade aos antibióticos. Olhei rapidamente os exames e vi que demonstravam de forma inequívoca uma infecção urinária. Leucócitos em profusão, bactérias, etc. A cultura de urina mostrava scherichia coli (a top de linha das infecções urinárias) e a sensibilidade de alguns antibióticos comuns.

– Doutor, eu já sei. Estou com infecção. Desses aqui assinalados, qual o senhor acha melhor?

Havia círculos ao redor dos antibióticos sensíveis. Olhei para todos eles e disse:

– Esse aqui é o mais barato, é tão efetivo quanto os outros, mas seu médico deve conversar com você sobre a melhor escolha.

Ela me dirigiu um sorriso um pouco envergonhado e disse:

– Doutor, eu já tive cistite mais de dez vezes. Sei o que acontece. Sei também o que o médico vai fazer quando segurar os exames. Ele vai olhar para o resultado do antibiograma e receitar o mesmo remédio que está escrito na caneta dele. Vai pedir que eu tome uma semana e repita os exames em 15 dias. Eu decorei passo a passo o que ocorre na consulta. Não há como ser diferente.

Tentei argumentar que sempre é bom conversar sobre alternativas de tratamento e as possíveis causas. Insisti que ela fosse ao seu médico.

– Não vou doutor, muito trabalho. Não tenho convênio, só seria possível ir no posto de saúde. Esses exames fiz aqui no hospital porque conheço as gurias do laboratório. Nunca alguém me disse qualquer coisa diferente do que eu lhe relatei.

Não há como negar que a biomedicina tecnocrática pouco tem a oferecer além do que ela sempre recebeu. Reconhecer as alterações químicas da urina, a bactéria envolvida no processo e propor sua posterior eliminação com recursos farmacológicos. “Tchau, até a próxima”.

Nenhuma pergunta sobre as razões últimas que a levam a insistir em um sintoma da sua genitalidade. Sequer a curiosidade para saber o que existe por trás do véu dos sintomas, ou como essa ocorrência repetitiva se encaixa na narrativa afetiva de sua vida. Nenhuma tentativa de contextualizar suas dores e seu sofrimento renitente. Nenhum questionamento sobre sua história, onde alguém, de forma insistente e reiterada, bate à sua porta para lhe dizer uma verdade escondida e inconveniente. “O que a boca cala, o corpo fala”, mas quem aceita escutar as palavras do corpo se as drogas são muito mais efetivas para lhes silenciar? Talvez seja verdade que a Tecnologia diagnóstica e indústria farmacêutica são o ChatGPT da Medicina.

Mesmo sem confessar, não havia como negar que, diante do cenário dos seus atendimentos até então, ela havia feito a melhor escolha. Insisti mais uma vez para ela procurar seu médico “nem que seja para conversar”, e ela agradeceu.

Retomei meu rumo em direção à cafeteria e ouvi, pela última vez, sua voz me chamando enquanto me afastava.

– Ei doutor, sem querer abusar, mas… por acaso está com seu receituário aí?

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Proteção

Mesmo sem me atrever a justificar as palavras e sorrisos das jovens médicas ao se referirem às crianças vítimas de um raio, eu posso entender que pessoas usem humor quando estão muito angustiadas e nervosas. Em verdade, este é um recurso que eu mesmo muito utilizei.

Lembro de uma parente minha que, quando criança, teve uma crise de gargalhadas ao ser informada da morte do avô. Ela recorda vividamente do profundo pesar pela perda, mas também da sua resposta paradoxal, movida pelo nervosismo do momento. Da mesma forma, muitas crianças choram copiosamente de alegria ao receber um presente ou a visita de uma pessoa querida. Lembro de amigos que, diante da perda iminente de um familiar, faziam piadas ainda na UTI como forma de diluir a angústia da circunstância. Há outro fenômeno muito bem descrito onde meninas vítimas de abusos voltam para casa e lavam a louça, arrumam suas roupas e fazem as lições da escola, agindo de maneira corriqueira como forma de afirmar a si mesmas que o mundo continua girando da mesma maneira, e que a ordem do universo está mantida apesar da tragédia pela qual passaram.

Quando as médicas fizeram piadas em um atendimento de emergência eu imediatamente pensei: “só quem esteve imerso em um plantão de pronto-socorro consegue entender perfeitamente o que ocorreu”. Nesses locais você está conversando com amigos sobre a escalação do seu time para o jogo de domingo e no minuto seguinte aparece um jovem morto em um acidente de motocicleta. Algumas horas mais tarde, logo após comentar sobre a beleza de uma atriz, uma jovem – igualmente bela – aparece baleada, com a vida por um fio. Acidentes com crianças, a toda hora; morte, tristeza, horror e miséria humana. Sair da sala e encontrar os familiares em pânico e tudo o que você tem a dizer é “Sinto muito, fizemos todo o possível, mas…”

O clima é sempre de tensão. Diante desse cenário de hecatombe iminente usamos de estratégias para salvaguardar nossa sanidade mental. Não há como absorver as mortes que nos cercam como elas verdadeiramente são: a partida de alguém cercado de afetos, memórias, vivências; a viagem sem volta de pessoas que amam e foram amadas. Para nos proteger dessa carga nos escondemos na frieza, no distanciamento, no isolamento afetivo – e no humor. Sem isso nossas emoções são destruídas e não é possível sobreviver. Quem trabalhou em PS, ou mesmo como psicanalista, sabe o quanto o espírito pode ficar em frangalhos depois de ver ou escutar certas histórias de morte, dor e sofrimento.

Nestes ambientes contar piadas e usar o humor é uma estratégia que sempre utilizamos. E vejam, não se trata das piadas que usam do deboche ou do escárnio com a dor alheia, mas de perceber o lado engraçado das situações, tirando da cena trágica seu aspecto bufão e cômico. Quem já passou por esse tipo de vida sabe o quanto esse artifício pode ser um alivio para as almas tensionadas pelo ambiente dramático onde se encontram.

Há também outro fenômeno que merece uma análise: um plantão de emergência é um ambiente muito masculino, de muita testosterona. Fragilidades emocionais, choro, pesar, etc. não são bem vindos. É preciso mostrar dureza diante da morte ou das tragédias. É necessário ter fibra, força, resistência emocional e frieza. Não se aceita que os profissionais sejam fracos ou demonstrem suas emoções. Talvez as meninas quisessem chorar diante da tragédia com as crianças, mas esta porta estava fechada.

Lembro de uma doula me contando de suas primeiras experiências em sala de parto. Depois de um trabalho de parto longo e desafiante a médica indicou uma cesariana de urgência. A criança nasceu com pouca vitalidade e foi direto para a UTI. A doula, angustiada, foi para a sala de conforto médico e começou a rezar. Quando foi avisada que a criança estava se recuperando teve uma compulsiva crise de choro e alívio. Nesse instante a obstetra adentrou a sala e, com seu jaleco coberto de sangue, disse a ela:

– Obstetrícia é assim, minha filha. Se não tiver nervos de aço não pode trabalhar com partos. Pense bem se é isso que você quer fazer.

Deu meia volta e saiu da sala, deixando a doula sozinha em seu pranto.

Portanto, entender os gracejos trocados entre os plantonistas é apenas uma obrigação de quem já usou desse recurso muitas vezes. Não vejo desrespeito nas palavras das meninas, apenas medo e angústia. Nossa leitura de suas ações precisa ser mais humana também, percebendo em suas atitudes o uso de recursos comuns diante de tragédias cotidianas. E, repito, não se trata de justificar tais ações, mas colocá-las no devido lugar: ações de proteção do ego, mecanismos de isolamento afetivo para suportar as perdas e dramas dessa atividade profissional.

Por outro lado, fica evidente que as ações de ambas só se tornaram escandalosas por terem sido publicadas. Se minhas piadas, contadas em família enquanto tomo café da tarde, fossem gravadas e publicadas não haveria tempo suficiente no planeta Terra para cumprir a minha pena. A diferença é o contexto no qual foram ditas, onde as pessoas conhecem minha forma de ser e entendem o sentido último do gracejo. Entretanto, colocadas nas redes sociais as circunstâncias se perdem, o ambiente que as circunda não pode ser visto, o que ocorreu há 5 minutos não será jamais conhecido e sobrarão apenas as palavras e risadas isoladas do contexto que as produziu.

Não é justo julgar duas meninas recém formadas da forma cruel como testemunhei nos últimos dias. Entretanto, a atitude delas servirá para refletirmos sobre nossa compulsão em publicar qualquer tolice que tenha sido dita. Existem coisas que é melhor jamais serem publicadas, e esse caso é um excelente exemplo. E eu posso afirmar isso por experiência própria.

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