A Nova Política das Redes

As grosserias dos parlamentares da extrema direita precisam ser entendidas diante do fenômeno das redes sociais, as quais mudaram a forma de fazer política nos últimos 10 anos. Os novos parlamentares que surgiram no cenário nacional, em sua maioria, não foram forjados nos partidos políticos, nos diretórios acadêmicos, nos órgãos de classe e muito menos nos sindicatos e centrais trabalhistas. Da mesma forma como os políticos de décadas passadas surgiram da exposição no rádio e na televisão, estes de agora são fruto da explosão midiática do YouTube, Instagram, Tiktok e Twitter. Desta forma, eles não são políticos na acepção tradicional da palavra; são youtubers, “influencers” e lacradores profissionais surgidos da possibilidade que as redes sociais criaram de oferecer exposição e notoriedade instantânea

O ethos que orienta estes novos personagens da cena política é diferente daquele que se exigia tradicionalmente na política. Ao contrário dos políticos de formação, estes novatos estão no parlamento para fazer tretas, espetáculos e até arruaças; são especialistas em selfies, provocações e postagens escandalosas e disseminam suas informações como um espetáculo onde a verdade e a correção são meros detalhes – quando não claros entraves. O meio é muito mais relevante que a veracidade das informações. Não se importam de que sua exposição acabou gerando desinformação. O importante é ser visto, comentado, criar engajamento, ter sua imagem disseminada por milhares, quiçá milhões de seguidores.

Este grupo de novos representantes não está no parlamento para apresentar propostas, conduzir composições, propor acertos e estabelecer debates, nem mesmo para fazer oposição baseada em suas distintas perspectivas políticas. Sua intenção é outra, e pouco tem a ver com os partidos – meras fantasias que usam e jogam fora quando não mais lhes servem. Sua ação é gerar a exaltação de personalidades.

Espero que as pessoas com o tempo percebam que esta é uma ação contrária à política. Afinal, o personalismo é o oposto da ação política, na medida em que esta última se preocupa com a representatividade, onde um sujeito defende os anseios de um grande contingente de cidadãos. Para o pensador estagirita Aristóteles (384 – 322 a.C.) o homem é um sujeito social que, por sua própria natureza, necessita estar conectado a uma coletividade. Somos todos gregários, comunitários e solidários. Somos também seres políticos, capazes de trabalhar para além da nossa sobrevivência e do nosso grupo familiar, desejando o melhor para as ruas, cidades e nações. Minha esperança é que, com o tempo, as pessoas cansem desse tipo de personagem e os devolvam ao esquecimento. A política que eles propõem é a do circo, da galhofa, dos “likes“, mas a ação política pede mais que isso, pois ela é a mais elaborada ação humana, cuja essência é a fraternidade e o bem comum.

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O Martírio da Verdade

Já tentou entender o horror que é para um artista quando o único tradutor possível para os rabiscos e ideias que escreve ou desenha é ele mesmo? Consegue imaginar a solidão de ser o único falante de um idioma que nunca existiu para mais ninguém? Porventura já procurou saber a dor de ser o guardião de um tesouro ameaçado, e apenas você tem a chave do cofre que o encerra?

Meu irmão Mikael, durante seu último surto, mostrava com a ponta do indicador um minúsculo ponto localizado entre os olhos e me indagava: “Você consegue imaginar a sensação de ter todo o conhecimento do universo concentrado bem aqui, uma matéria tão densa e tão pesada que se torna impossível de conter? Consegue entender a dor de saber o que a ninguém é dado conhecer? Percebe a solidão a que a verdade me condena?”

Não, Mikael, dessa dor só você pode falar. A mim não foi dado ter essa clarividência; minhas verdades são minúsculas, pessoais, passageiras e fugazes. Mas, se me fosse oferecido o benefício da escolha, ficaria com a mediocridade das minhas pequenas mentiras. Não me vejo capaz de suportar o martírio das verdades cruas e brutais.

Wolfgang Hübner, “O Imperador da Solidão”, ed. Dexter, pág. 135

Wolfgang Hübner é um escritor austríaco, nascido em Viena em 1º de janeiro de 1900. Cresceu na cidade que era o centro da cultura europeia no início do século XX e foi testemunha ocular dos acontecimentos determinantes para a ascensão do nazismo. Graduou-se em literatura na Universidade de Viena e foi professor de escolas secundárias durante boa parte de sua vida. Dedicou-se à literatura escrevendo colunas sobre arte e política nos jornais vienenses e passou posteriormente a se dedicar aos romances. Seu livro de estreia foi “Bleib zu Hause, geh nicht raus” (Fique em casa, não saia às ruas) onde descreve a agitação na sociedade alemã na década de 20 relacionada ao crescimento da extrema-direita. Escreveu 10 romances no período entre a Primeira Guerra Mundial e o fim da segunda, a maioria deles ambientados na Áustria ocupada e na crueza da luta pela sobrevivência. Em “O Imperador da Solidão” ele descreve as agruras do jovem serralheiro Amadeus que busca fugir da ocupação alemã na Áustria em direção à Suíça, carregando consigo o irmão esquizofrênico Mikael, que ficou sob seus cuidados após a morte dos pais e da irmã Frida. Wolfgang Hübner morou a vida inteira em Viena, nunca teve filhos e morreu em 1951, de câncer na laringe.

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Adoecimentos

O problema do adoecimento ao contrário do que muitos acreditam, não é dos cirurgiões ou dos clínicos; será sempre do sujeito doente. Foi ele quem o fez, quem o construiu; também quem o albergou e acalentou, às vezes por anos a fio. A negação sobre a responsabilidade das doenças pode servir de proteção para o psiquismo, em especial para quem está desconcertado diante da perspectiva da morte, mas não passa de ilusão. As doenças são construções do sujeito, obras que ele mesmo realiza no sentido – por vezes desesperado – de alcançar equilíbrio.

As enfermidades não são o “desafio dos médicos”, mesmo que deles dependa o tratamento e, algumas poucas vezes, até a eliminação dos sintomas. Alienar-se dessa responsabilidade apenas atrasa a compreensão dos sentidos últimos da enfermidade por parte dos enfermos, assim como de sua imensa potencialidade transformadora.

Ao dizer isso nada mais faço do que uma contestação à ideia prevalente de que a resolução dos problemas da saude repousa no outro, quando na verdade a doença é uma construção subjetiva. Por certo que os fatores ambientais adoecem o sujeito, porém o ambiente é também uma construção dos sujeitos sociais e só eles podem modificá-lo, não uma força mistica externa a eles. Assim, a responsabilidade pela saúde será sempre dos sujeitos através do cuidado próprio e de sua ação na sociedade.

Esther Ackerman, “Silente Healing” (Cura Silenciosa), ed. Chamonix, pág 135

Esther Ackerman é uma neurocirurgiã nascida em 1976, formada por Princeton e que fez residência médica na Case Western Reserve University, em Cleveland. Durante a gestação de sua segunda filha foi diagnosticada com leucemia e, na época, foi aconselhada a realizar um aborto para iniciar de imediato seu tratamento. Diante da negativa de começar o protocolo medicamentoso antes do parto ela mantece a gestação e, meses após, nasceu Victoria, uma criança saudável porém prematura, que precisou ficar alguns meses internada para ganhar peso. No período que se seguiu ao parto começou seu tratamento para o câncer, ao mesmo tempo em que dava suporte à sua filha recém nascida. Abandonou por dois anos a prática de consultório para se dedicar a estas tarefas e quando sua filha já estava estabilizada, e ela mesma livre do câncer, escreveu “Silent Healing”, onde descreve o turbilhão de emoções que surgiram com a gravidez, o câncer, a internação da filha prematura e o tratamento para sua doença. Seu livro mistura uma abordagem subjetiva do “precipício emocional” no qual foi jogada pela ocasião do seu diagnóstico, mas também uma análise muito objetiva das trajetórias possíveis que se oferecem às pessoas que se encontram diante de escolhas dramáticas. O livro recebeu o “Medical Writers Award” e foi posteriormente adquirido pela Paramount para se transformar em filme, com filmagens programadas para iniciar em 2024, com Sandra Bulock no papel de Esther. Mora em Boston com seu marido Samuel Hodgkin e as filhas Priscilla e Victoria.

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Fígado

A gente escreve algo como:

“As esquerdas se organizam de forma descentralizada o que lhes confere diversidade, mas isso não garante uniformidade nas lutas, funcionando como um exército onde cada soldado escolhe um inimigo em particular”.

O sujeito lê com o fígado e imediatamente responde: “Era só o que faltava!! Servi durante anos no exército e essa ordem nunca foi dada. Jamais combatemos dessa maneira. Você deve ser muito mau caráter para falar isso do exercito brasileiro!!”.

Como lhe dar???

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Nostalgia

Quantas vezes a gente já escutou essa expressão?

“A gente era feliz e não sabia. Que saudade da minha infância”

A gente – no sentido de todos nós – não era mais feliz e nem mais alegre nos anos 60-70. Também não era mais saudável bebendo anilina no K-Suco, respirando DDT no “Flit” ou se engasgado com bala Soft. Talvez um pouco mais seguros, desde que a gente pense apenas na pequena fatia de classe média a qual eu mesmo pertencia. Sim, naquele tempo era possível voltar a pé da casa da namorada de madrugada sem temer ser assaltado. Entretanto, ao mesmo tempo em que eu desfrutava dessa liberdade, os pobres – naquela época 80% da população – experimentavam todas as inseguranças possíveis. Da insegurança de não haver escola, de não ter o que comer até de ser espancado impunemente pela Polícia pelo crime de ser pobre.

Nós, que vivíamos em uma pequena bolha social, tínhamos mais segurança porque a violência urbana – resultado das crescentes contradições do capitalismo – ainda não havia explodido e se tornado o que é hoje: um desastre cotidiano de segurança pública, brutalidade policial, violência moral contra a população pobre, crimes domésticos, etc. Olhar com saudosismo para o século passado sem sair da pequena caixa de classe média onde estamos inseridos é perder o contexto. Este é, em verdade, o erro mais característico da direita: olham para o Brasil como se fosse uma extensão do seu bairro, desconhecendo propositalmente a miséria e a desassistência que nos circunda. Dentro de suas redomas, a realidade pode ser muito enganadora.

Temos esse saudosismo sobre o passado por sermos capazes de escolher aquelas lembranças que nos parecem mais adequadas para uma melhor adaptação a qualquer situação. O esquecimento de aspectos ruins e traumáticos de nossas vidas é essencial para que possamos guiar nosso comportamento e essa inibição da memória é parte fundamental do funcionamento cognitivo. Além disso, deixar de olhar para o lixo que se acumula pelo capitalismo sempre nos dá a impressão de um lugar mais limpo, por mais que isso seja uma miragem.

A vida no passado pode nos parecer mais sorridente apenas quando apagamos os seus aspectos negativos e olhamos exclusivamente para o mundo que nos cerca, o pequeno universo ao redor do nosso próprio umbigo.

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Paralaxe

Mesmo quando o assunto é uma improvável viagem espacial, a conquista de Constantinopla, a nova teoria da evolução ou os temperos prediletos da cozinha da Mongólia, qualquer coisa que escrevemos é essencialmente sobre nós mesmos. Nada do que sai das nossas palavras foge da formatação produzida por nossas experiências pessoais e a impregnação emocional que elas produzem em nossa personalidade. Não existem opiniões isentas, infensas às emoções e sentimentos de quem as exprime. Essa “neutralidade” técnica é uma ficção, pois se basearia na existência de fatos objetivos, capazes de fugir à necessária interpretação dos nossos sentidos

Existem, em verdade, sujeitos que se preocupam em acolher várias abordagens para um mesmo fato, reconhecendo-os como válidos e coerentes, o que não pode ser confundido com esta pretensa neutralidade. Por certo que aqui se encontra a sabedoria de Heckenhorn*, que deveria ser transmitida às novas gerações que estão chegando às escolas a partir do século, que faz pouco deu seus primeiros vagidos**.

Os estudos da alma humana, em especial estas produzidas pelo médico austríaco Siegfried Freud*** talvez possam nos oferecer novas perspectivas para o estudo do comportamento humano e as motivações recônditas das atitudes e ações aparentemente contraditórias e paradoxais. Vale a pena olhar com atenção o manuscrito recentemente lançado “Três Ensaios sobre a Sexualidade” e os estudos que ele realizou com as doentes histéricas, em especial os relatos da enfermaria de Charcot****.

Herbert Finkler, “Verhaltenshandbuch für den Mann des 20. Jahrhunderts” (Manual do Comportamento para o Homem do Século XX), ed. Prophezeiung, pág 135

Herbert Klaus Finkler foi um escritor alemão nascido em Düsseldorf em 1866, filho de pais agricultores e fabricantes de vinho. Muito cedo se destacou pela sua capacidade de dominar muitas línguas, aprendendo além do alemão o inglês, o latim, o francês, o italiano, o russo e o polaco. Em função do crescimento da vinícola do seu pai com as vendas realizadas para os países vizinhos, ainda jovem acumulou uma considerável fortuna, o que o possibilitou dedicar-se à Academia e à literatura. Em função disso, desenvolveu uma cultura baseada na leitura de clássicos, em especial Friedrich Schiller, que o motivou a escrever sua tese sobre a formação da língua alemã na Universidade de Strasbourg. No seu livro “Manual do Comportamento para o Homem do Século XX” ele descreve uma série de ações e comportamentos relacionados ao que ele descreve como “homem moderno” no campo da sexualidade, fidalguia, honra, mérito e sua relação com o meio ambiente em uma Alemanha que iniciava seu processo de industrialização e urbanização. Morreu em 1929 em Potsdam de causas naturais.

* Heckenhorn foi um pedagogo alemão que descreveu um método crítico de educação baseado na apresentação de “paralaxes”, perspectivas diferentes da mesma realidade. Em função disso, foi homenageado com o “cubo de Heckenhorn”, um objeto que muda de forma na medida em que sofre um giro sobre seu eixo principal.

** O “novo século” que há pouco havia iniciado era o século XX. Herbert Finkler escreveu seu primeiro livro com projeções para o século XX em 1890, quando apresentou sua ideias sobre o que se poderia esperar para os próximos 100 anos. Acreditava ele na descoberta de civilizações avançadas na Amazônia, populações nativas da Lua, viagens para outros planetas, bicicletas voadoras, cura da tísica (doenças consumptivas, em especial a tuberculose) e, por certo, acreditava na eugenia, propondo a criação de uma raça única e homogênea para todo o planeta.

*** O autor certamente se referia a “Sigmund” Freud, o médico austríaco, mas inadvertidamente trocou seu nome para *Siegfried*, apesar de conhecer a obra do pai da psicanálise, visto que citou este autor no mesmo parágrafo. Em verdade, “Siegfried Mallmann” era o nome de seu padrasto, homem que se casou com sua mãe após a morte misteriosa de seu pai ao cair dentro de um poço em sua propriedade. Suspeitou-se desde o princípio do vizinho, Siegfried, pois este há muito cortejava a mãe de Herbert. O vizinho foi a julgamento e posteriormente inocentado, mas Herbert confessou a muitos de seus amigos que desconfiava que Siegfried havia cometido o crime, ou ao menos havia participado do seu planejamento. Talvez este seja um real ato falho que apareceu na escrita de Herbert, pois no início do século XX Freud já era conhecido como o “pai” de uma nova ciência da alma.

**** Em 1885, Freud ganhou uma bolsa e uma licença do hospital onde atuava para estudar em Paris por 6 meses. Lá trabalhou com Jean-Martin Charcot, um respeitável médico neurologista do hospital psiquiátrico Saltpêtrière. Charcot estudava paralisias histéricas com o uso de técnicas de hipnose, o que marcou Freud profundamente, e contribuiu muito para que Charcot se tornasse um paradigma profissional para o jovem médico que recém iniciava seus estudos sobre as histerias.

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Caridade privatizada

Diz-se do jogador Sadio Mané do Bayern de Munique que ele é um grande filantropo que auxilia a população pobre de Bambaly, o vilarejo onde nasceu no Senegal. Muitas postagens o apresentam como um sujeito simples, que usa um celular com a tela quebrada e que prefere usar seu dinheiro para ajudar as pessoas pobres do seu país, em especial sua cidade – a base de sua filantropia. Mais do que isso, fazem comparações com os jogadores brasileiros – em especial Neymar – mostrando que o senegalês é um sujeito de caráter, enquanto o brasileiro não passa de um egoísta e aproveitador.

É minha convicção que não é função de jogador de futebol assumir o controle da educação e da saúde em seu país. O Senegal não precisa de Messias ou salvadores para resgatar a dignidade do seu povo; precisa de luta de classes e justiça social. Os ataques aos jogadores brasileiros e a exaltação dessas personalidades são cada vez mais comuns. Infelizmente caímos no engodo de fazer análises morais dos esportistas, ao invés de analisar sua performance em campo. Esse tipo de avaliação moralista dos craques serve apenas para nos afastar da importância da luta de classes.

Sadio Mané é aparentemente uma boa pessoa, mas é impossível saber a verdade que existe por trás da imagem construída pelas empresas de publicidade que trabalham a imagem dessas personalidades. Ele parece ser um sujeito preocupado com seu povo, interessado no seu bem estar e acima das questões mais consumistas que parecem prioritárias entre os muito ricos. Entretanto, cobrar dos outros jogadores de futebol a falta de auxílio aos problemas estruturais básicos do seu país de origem é um erro. Não é obrigação do Neymar – e de nenhum de nós – oferecer seu próprio dinheiro para resolver a fome e a falta de hospitais do Brasil. Cabe a nós mesmos usar de estratégias (como cobrar impostos altos de jogadores) para que o próprio povo possa decidir onde – e a quem – ajudar.

Curioso que nós achamos que a interferência do milionário Lemman na Educação, através do seu instituto e dos “Think Tanks” que opera, é perigosa e ameaça o ensino plural e crítico, mas não acreditamos que um jogador de futebol fazer o mesmo é errado. Afinal, nós acreditamos que o Sadio Mané é um “cidadão de bem”. Ora, precisa mais do que uma aparência para acreditarmos que estas iniciativas privadas podem ajudar o povo do Senegal. Fazer caridade, exaltando personalidades e o “culto ao salvador” é uma péssima iniciativa, pois despolitiza a sociedade e cria, como subproduto, sujeitos maiores do que o próprio Estado. E essa atitude não pode ser julgada “boa” apenas porque sonegação de impostos (que outros jogadores fazem) é uma atitude pior. Ora, trata-se de um falso dilema. É preciso combater a sonegação e limitar ao máximo (regulamentar e fiscalizar) a intervenção de grupos privados na saúde e na educação.

Não há porque desenvolver simpatia por nenhum milionário “bonzinho”. Não existe bondade em quem lucra com a miséria global para que uma franja cada vez mais diminuta tenha luxo e poder. Aliás, Messi – para além de um grande benemérito – é um grande sonegador também. Neymar e Cristiano Ronaldo idem. Soros faz caridade com identitarismo e muitos beijam sua mão. A Fundação Ford e a Fundação Gates espalham suas garras por todo o mundo. Aceitar essa benemerência é submeter-se à sua perspectiva de mundo. Ninguém é aprioristicamente contra o assistencialismo, como se ele fosse um mal a ser combatido. Enquanto houver fome, haverá pressa. Enquanto a divisão perversa das riquezas do planeta persistir haverá necessidade de oferecer ajuda humanitária. Entretanto, faz-se necessário não entender essa “caridade” como a solução última do conflito de classes e da pobreza. O que vejo ocorrer com a divulgação dessas ações de jogadores milionários é a normalização do assistencialismo privado, aceitando como preço a pagar tudo de perverso que vem com o personalismo.

Assistencialismo só se for público, democrático e estatal, caso contrário haverá desequilíbrio e despolitização. Sabe quem faz assistencialismo privado? As ONGs evangélicas da Amazônia, que levam Bíblias e junto com elas a destruição de culturas. Elas estão no olho do furação sobre a exploração da Amazônia exatamente porque pregam a privatização da assistência. Sabe quem mais faz assistencialismo privado? Todos os representantes da ordem mundial imperialista. Muitos hoje fazem a exaltação da caridade do Sadio Mané. Nestas questões eu acredito que é preciso ser radical: tais ações de solidariedade/caridade deveriam ser proibidas em Estados soberanos. Você, por exemplo, jamais poderá fazer isso em Cuba. Lá, o Estado autônomo e independente diria: “Quer ajudar? Entregue seu dinheiro e permita que o povo escolha que tipo de saúde e de educação ele deseja. Não será você a determinar como quer os tratamentos médicos ou quais matérias e em quais livros as crianças deverão estudar“.

Para finalizar, não se trata de debater a assistência, mas o conceito imperialista de que o auxílio aos deserdados pelo capitalismo pode ser feito pela caridade dos bilionários, ou seja, pelos próprios capitalistas. Desta forma, os mesmos que condenam países inteiros às guerras, miséria, opressão e exploração seriam responsáveis pelo combate à fome e à pobreza que, em última análise, eles mesmos causaram. Ora, chega desse engodo neoliberal que nos pede que aceitemos migalhas como elemento central em um projeto de justiça social. Sadio Mané pode ser um bom cidadão, mas o que ele faz jamais deveria ocorrer pois serve à exaltação de personalidades e não tangencia os dramas estruturais da sociedade. A lei deveria limitar ao máximo a interferência dessas pessoas nos assuntos que o Estado deve atuar – como saúde e educação.

Para saber mais sobre o tema, clique aqui e veja outra abordagem sobre a caridade.

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O Troll da Comuna

Eu procuro selecionar bem os filmes que vou assistir com meus netos. Geralmente escolho filmes de aventura, com crianças como protagonistas, onde podem ser observadas inúmeras agressões às mais elementares leis da física, mas procuro evitar coisas que dão medo, como acidentes ou mortes, ou cenas que contenham situações absolutamente nojentas, como…. beijos.

De qualquer forma, o neto do meio, que recentemente fez 7 anos, ainda faz muitas observações engraçadas durante as nossas sessões de cinema. No filme que vimos esta tarde o pai da protagonista – um velhinho cientista, genial e incompreendido – acaba morrendo, mas fica provado que sua tese estava certa desde o princípio (claro). Quando ele morreu meu neto disse:

– Ele está de olhos abertos, vovô. Nos filmes quando as pessoas morrem elas fecham os olhos. Acho que ele não morreu.
– Bem, neste caso, ele morreu mesmo… sinto muito. Mas gente velha morre, isso acontece frequentemente quando a gente envelhece.
– Morreu? Hummm, mas só no filme né?
– Sim, só no filme. Eles normalmente não matam os atores durante os filmes, só quando o ator é muito ruim. Aí, quando tem muita reclamação, eles fazem prá valer.

Ele para e olha bem sério para mim. Leva uns 4 décimos de segundo e percebe a comissura direita dos meus lábios se retorcendo, o que sempre denuncia uma mentira.

– Ahhh vovô, para de mentir. Claro que eles morrem só no filme. Imagina que as pessoas iam morrer…. de verdade!!

Seria um egoísmo brutal de qualquer ser humano, mas eu confesso que adoraria muito que o tempo congelasse e eu pudesse conversar com os meus netos assim por toda a eternidade.

(Filme “O Troll da Montanha”)

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Lágrimas na Chuva

Esta é uma experiência corriqueira, ainda que eu creia que este drama é compartilhado por milhões de viventes como eu. Acordo de um sonho espetacular no meio da madrugada e penso demoradamente no que ocorreu na trama da qual sou espectador e protagonista ao mesmo tempo. Analiso seus mínimos detalhes, recordo as falas, os personagens e, quiçá, a própria música incidental que delineia e acompanha os movimentos de câmera com seus acordes envolventes. Interpreto suas múltiplas facetas segundo vários autores, Freud, Klein, Skinner, Lacan chegando até Pedro de Lara. Nada resiste ao escrutínio profundo da análise.

Dou risadas das incongruências lógicas do sonho, um humor involuntário que surge da tentativa do Ego em tomar as rédeas em um território que não lhe pertence. Finalmente faço um resumo mental da trama e dos significados psicológicos de cada tomada de cena e, já comprometido com a ideia de colocar o enredo no papel pela manhã, volto a dormir.

Ao acordar só o que me vem à mente é… “Eu vi coisas que vocês, humanos, nem iriam acreditar. Naves de ataque pegando fogo na constelação de Órion. Vi Raios-C resplandecendo no escuro perto do Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de acordar”. E aí, tudo vira poeira, fragmentos dispersos de luz perdidos no infinito cósmico.

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Mentiras

Afinal, o que é uma mentira?

O conhecido aforismo de Friedrich Nietzsche, em um fragmento de 1887, onde afirma que “não existem fatos, apenas interpretações”, deve ser entendido como a submissão do real ao simbólico, a ideia de que a verdade não existe como um ente absoluto e positivo e, acima de tudo, como um alerta crítico de que a verdade não é definitiva, muito menos imutável, e que o que consideramos verdade hoje merece ser criticado e sofrer o devido contraditório. Muitas vezes estas verdades sólidas se desmancham no ar, necessitando para isso apenas a passagem do tempo. Afinal, o que é uma mentira? Se houvesse uma Verdade Absoluta – e portanto mentiras definitivas – quem decide sua essência e como ela se configura? Quem são os vestais, acima do bem e do mal, que podem objetivamente decidir o que é verdadeiro e o que não é?

É disso que se trata agora, quando tantos afirmam serem favoráveis à censura para barrar as mentiras disseminadas pelas redes sociais. Quanto mais você retira essa decisão do povo e a coloca sob o escrutínio das instituições do Estado burguês – um sistema de poder criado para calar as ambições populares – mais a esquerda será penalizada, mesmo que circunstancialmente a extrema direita possa estar sofrendo seu ataque.

A censura sempre vai favorecer os poderosos, e negar isso significa não compreender a origem e a estrutura da própria democracia liberal. Estimular a censura (mesmo quando maquiada de democracia e até quando bem intencionada) é uma estratégia conservadora, que fatalmente acaba se voltando contra as aspirações do povo. A lei anti terror, a lei da ficha limpa, a lei contra fake News…. todas elas foram aparentemente bem intencionadas e chegaram até ser usadas para punir membros da direita, mas todas – mais cedo ou mais tarde – acabaram sendo usadas para atacar as forças políticas populares e de esquerda. Lula, por exemplo, foi atacado, punido e impedido de concorrer às eleições de 2018 pela lei da ficha limpa. Poderíamos pensar que, talvez, desde o início ela foi pensada para, eventualmente, ser usada contra a esquerda em uma situação limite – como a volta de um líder popular ao governo do Brasil.

Não podemos ser vítimas dessa farsa… mais uma vez.

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