Planeta dos Macacos

Não vejo problema algum em debater filmes clássicos e questionar as curvas lógicas que precisam ser feitas para oferecer ao espectador uma narrativa coerente. Em ficção científica isso é sempre um desafio mas é comum que muitos filmes tenham falhas lógicas, enquanto outros produzem “rombos” que ficam difíceis de ignorar. Um dos filmes que eu sempre comento (quem assistiu os cursos de Doulas sabe bem) é o filme “O Planeta dos Macacos” – o original, de 1968. Esta película – que aliás, eu adoro – tem um claro “misconception“, ou concepção equivocada do processo evolutivo, mas só os atentos percebem. Ou, no meu caso, os chatos.

Minha maior discordância é que, caso os macacos (na verdade os antropoides) realmente evoluíssem a ponto de desenvolver razão e linguagem, ainda assim seriam incapazes de estabelecer linguagem articulada. Ou seja, seriam mudos, incapazes de falar. Entretanto, Zira (Kim Hunter) e Cornélius (Roddy MacDowall), que contracenaram com o astronauta George Taylor (Charlton Heston), não só falavam como tinham uma bela voz. A de Zira ainda era sensual e aveludada.

Mas por qual razão eles não poderiam falar? Pois a resposta curta seria que seus pelos abundantes – que denunciam a falta das estratégias metabólicas e adaptativas que fomos obrigados a utilizar para sobreviver enquanto espécie – seriam um impeditivo para essa função superior.

Ou seja: é impossível ser peludo daquela forma e falar.

Sim, todo mundo nesse momento diz “Ok, mas e o Tony Ramos??” Estamos falando de uma espécie, não de um sujeito, certo? Entendam que os condicionantes para a necessária perda de pelos na nossa espécie são razoavelmente simples. Eles podem ser didaticamente divididos em 6 passos essenciais:

1- Bipedalidade – domínio do meio ambiente;
2- Dieta onívora – mudança dietética;
3- Controle do fogo;
4- Melhor absorção de proteína animal – carne;
5- Encefalização – crescimento cerebral;
6- Resfriamento cerebral obrigatório;
7- Fetação – mudança da estratégia gestacional.

Portanto, enquanto ocorriam essas mudanças surgiu a necessidade crescente de um sistema de arrefecimento de temperatura para a grande produção de calor produzida pelo cérebro. Saímos de um cérebro de 600 ml de um australopitecino (há 4 milhões de anos), passando pelo Homo erectus com 1200 ml (há 2 milhões de anos passados) até 1450 ml para um homo sapiens adulto. O cérebro, apesar de mal passar de 1kg, produz 20% do calor produzido pelo organismo. Acima de 42 graus de temperatura corporal ocorre degradação proteica e o cérebro “apaga”.

Assim sendo, para existir um cérebro gigante como o humano seria necessário diminuir com eficiência essa temperatura. A forma como solucionamos o dilema foi através da despilificação progressiva e a melhoria gradual do sistema de perda de temperatura por irradiação. O mecanismo fisiológico da evaporação do suor produzido se tornou responsável por mais de 80% do calor dissipado durante uma atividade física.

Por essa linha de raciocínio é possível se dizer que o processo de encefalização se tornou evidente e inquestionável com o surgimento do Pitecanthropus erectus – ou Homo erectus – que já vinha de fábrica com uma cabeça absolutamente desproporcional e aberrante. É ele quem vai inaugurar o nosso gênero. Ele era tão humano quanto nós, apesar de inegavelmente uma criatura bestial.

Entretanto, para existir o cérebro do Homo erectus já seria necessária uma despilificação significativa, e por isso a iconografia sobre eles sempre os mostra como “homens das cavernas”, porém claramente muito menos peludos do que os australopitecinos, o Sahelanthropus ou mesmo o Ardipithecus. E assim o é porque porque, pela ideia do sistema de arrefecimento central, perdemos os pelos de forma continuada desde há 2 milhões de anos.

Já a linguagem articulada – a fala – teria talvez 100 mil anos, se concordarmos com Chomsky e sua teoria de “descontinuidade” – basicamente a possibilidade de mutações genéticas serem as principais responsáveis por esse processo. Portanto, há um gap de 1.900.000 anos entre perder pelos e falar de forma articulada e com sintaxe. Estes eventos não podem ser colocados próximos um do outro. Em verdade, a tese que eu sigo assevera que a fala só poderia ocorrer porque muitos milênios antes desenvolvemos um processo de arrefecimento de temperatura para comportar um cérebro imenso, que por sua vez culminou na possibilidade de falarmos. A distância entre esses processos é gigantesca.

Foi a cabeça gigante a responsável pela perda dos pelos, porque precisávamos melhorar a transpiração, e para isso era fundamental deixar a pele glabra, sem pelos, para facilitar a evaporação. Outros mamíferos também tem glândulas sudoríparas, mas em quantidade muito menor e pouco efetivas para dissipar calor. Os mamíferos superiores dissipam calor pela …. língua. Olhem para um cachorro, um gato, uma vaca, um cavalo ou um chimpanzé. Cobertos de pelos só lhes resta a respiração para jogar para o meio ambiente o excesso de calor. Mas como eles têm cérebros pequenos, isso não é um grande problema.

Portanto, a minha posição quando revi o filme muitos anos depois da estreia – e após estudar os mecanismo de adaptação do ser humano até o surgimento da linguagem articulada – foi:

1- Se são inteligentes e possuem linguagem precisariam ter cérebros grandes e neocórtex;
2- Se o cérebro fosse grande precisaria de um refrigerador;
3- Se eles continuassem peludos o calor só poderia ser expelido pela boca;
4- Se fosse pela boca passariam dia e noite jogando calor para fora, tamanha a necessidade para resfriar seu cérebro enorme;
5- Se passassem tanto tempo exalando calor não desenvolveriam a capacidade de falar e sequer conseguiriam realizar a articulação de frases com os movimentos respiratórios, algo que só os sapiens conseguem fazer.

Desta forma – e abusando um pouco do humor – dá para dizer que “ser peludo impede o sujeito de falar”. Claro que a frase é provocativa, mas serve para responder uma bela pergunta: qual o sentido de perdermos pelos enquanto os grandes antropoides se mantiveram cobertos por eles?

A resposta, como visto, é a nossa cabeça enorme. Aliás, foi por causa dessa cabeça grande – e pela fetação – que se comemora o dia das mães, mas essa é outra história.

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Dois legumes

Traduzindo textos para o livro da Robbie me deparei com a expressão “double-edged sword”, que traduzi para “faca de dois gumes”. O interessante é que eu prefiro dizer “faca de dois legumes”, pois o ditado se torna muito mais interessante pelo total desvirtuamento da expressão, que ao invés de falar de uma ferramenta de cozinha que tem duas superfícies de corte (os gumes) se refere a uma faca que serve para cortar dois legumes distintos (algo que a expressão original jamais quis dizer).

Talvez seja assim mesmo o processo digestivo das línguas. As expressões são ditas e depois espalhadas para serem deglutidas por cada um dos que vão saboreá-las. Começam com um específico objetivo que o uso continuado vai desvirtuando, como o “bicho carpinteiro”, que começou como “um bicho no corpo inteiro” e com o tempo virou um animal que, de tão inquieto, faz mesas, cadeiras, móveis e outros apetrechos para a casa.

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Sedução e alienação

Líder espiritual que tem 400 retiros espalhados por 19 países foi sentenciado à prisão perpétua por estupro.

Qualquer sujeito dotado de poder, magnetismo, beleza física e carisma pode facilmente ser envolvido em um caso de abuso. Diga lá: quantas mulheres se interessariam por um envolvimento com sujeitos nessa posição? Milhares, eu me arrisco a dizer. Quantas investiriam em uma aproximação? Por certo que muitas. Quantas avançaram o sinal?

Pois é exatamente nesse encontro que ocorrem as maiores perversões e tragédias.

O abuso que ocorre por parte dos gurus pressupõe duas pontas: o sujeito que acredita na sua qualidade superior, por lhe faltar a necessária castração, e aquele outro que aceita se submeter ao poder fálico de quem tudo sabe sobre si. Esse encontro é explosivo e frequentemente catastrófico. Quando vi o documentário sobre o Osho eu não me surpreendi com seu magnetismo ou seu poder de mobilizar milhões (de seguidores e de dólares) mas a quantidade inacreditável de sujeitos solicitando avidamente para serem submetidos a esse poder magnético e essa dominação; legiões de masoquistas imersos no gozo da subserviência e à ordenação do mestre supremo.

Em minha imaginação eu me perguntava o que havia faltado a essas pessoas em sua infância mais precoce para precisarem, já adultos, de um cabresto místico a guiar cada um de seus passos. Do que são carentes essas mulheres que pulam de forma hipnótica nos braços de um abusador, cujo carisma magnético as atrai como abelhas no mel? O que falta a estes jovens rapazes para se sentirem tão atraídos para a obediência cega aos ditames do mestre? Por que se tornam impenetráveis à razão e às evidências? Por que tamanha necessidade de acreditar?

Desenvolvi desde cedo uma alergia a qualquer tipo de sujeito que assuma a posição de guru, em especial aqueles que evitam o nome, mas se comportam como se assim o fossem. De todos eles procuro distância, desde os religiosos, passando pelos cientistas, os médicos ou os artistas. Todo sujeito que é colocado nessa posição e se sente confortável neste lugar, recebe de mim o imediato rechaço. Não acredito em gênios verdadeiros que, desprezando Sócrates, pensam saber de tudo mas negam a imensidão do quanto ignoram. A verdadeira sabedoria é humilde exatamente pela constatação da infinita ignorância que carregamos como marca.

O segredo, digo eu, é o exercício constante de desinstituir-se, retirar-se constantemente da posição de mestre, para não permitir o esvaziamento da potencialidade do pupilo. “Para a existência de um guru repleto de saber há que existir um aluno esvaziado dele”..

A análise permite ao sujeito a fuga da alienação e o exercício do pensamento crítico, em especial sobre si mesmo. Resistir a tentação dos gurus é uma ato de fervor em nome da autonomia e da liberdade

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O Ocaso do Parto

* Fragmento da minha conversa com Edson Souza, após o encontro da Lillie Excellence em Delhi…*

Quando eu era estudante de medicina a realização de uma cesariana sem indicação era considerada “tarefa de preguiçoso” ou de quem não conhecia as “técnicas”. Durante a residência um professor (que hoje dá chilique quando houve o termo “violência obstétrica”) disse durante um encontro com os alunos que “um médico que faz uma cesariana nunca sai da sala com a cabeça baixa, mas o mesmo não se pode dizer de quem atende um parto normal”. Eu percebi nessa frase a ideia de que a “posição da cabeça” estava se tornando mais importante do que a arte e o cuidado na atenção ao parto. Os médicos estavam se tornando, de forma crescente, cada vez mais amedrontados com o nascimento, e as ações que eles conduziam eram moduladas por este sentimento, que assumia uma posição de destaque diante das decisões a tomar.

Hoje em dia são os parteiros remanescentes que precisam se explicar por suas escolhas, pois a opção pelo parto normal se tornou uma escolha esdrúxula. digo isso porque, sim, eu acredito na possibilidade de que o parto vaginal venha a ser exterminado e proscrito da experiência humana. Penso que poderá ocorrer que a cesariana, cada vez mais segura, passe a ser o mecanismo de escolha para todos os nascimentos. Não pensar nessa possibilidade é ignorar que não seria a primeira de nossas escolhas desastrosas na historia da medicina – até porque garantir à Medicina o controle sobre o parto normal foi, ao meu ver, a mais escandalosa de todas elas.

A questão é que o modelo de atenção ao parto no ocidente – isto é, nos países satélites da medicina tecnocrática do Império – é o mais insensato possível. Regido pelo signo do medo, através do paradigma tecnocrático e do imperativo tecnológico, ele é mantido na esperança de que os partos normais sejam paulatinamente desencorajados, abolindo a alternativa normal ou fisiológica, que ficaria restrita somente àqueles nascimentos acidentais, situações onde não haveria tempo suficiente para submeter as pacientes à intervenções e técnicas da medicina.

Hoje as pessoas que atendem o parto no Brasil são em sua maioria médicos, sujeitos treinados na lógica da intervenção, na utilização de ferramentas – drogas ou cirurgias – para atuar em processos desviantes e patológicos. Como poderíamos imaginar que, profissionais que recebem esse tipo de treinamento e incentivo econômico, pudessem se interessar pela atenção fisiológica e natural do parto? Por que deveriam os médicos se interessar por algo inscrito na memória celular das mulheres como parte de seu arsenal de respostas sexuais, se sua propensão é sempre usar sua arte para intervir, mudar rotas e transformar?

A ideia de oferecer a assistência ao parto normal e de risco habitual para cirurgiões é provavelmente a mais desastrosa escolha da história do cuidado à saúde. Todas as pesquisas apontam que as parteiras profissionais têm os melhores resultados quando a atenção às pacientes de baixo risco (risco habitual) é avaliada. Entregamos aos médicos uma tarefa que eles não gostam, não entendem, não são treinados suficientemente e cujas abordagens – psicológica, emocional, cultural, social, e espiritual – são historicamente negligenciadas pelas escolas médicas, que se preocupam na resolução de problemas e no tratamento de patologias, urgências e emergências.

Ao invés de oferecer à Medicina a patologia, ofertamos o poder de controlar todo o campo de atenção ao parto, obrigado estes profissionais a tratar a normalidade do nascimento, algo que lhes causa enfado ou rejeição. Não deveria surpreender a facilidade com que a atenção contemporânea ao parto transforma a maioria dos nascimento em eventos cirúrgicos, com acréscimo de intervenções, drogas, procedimentos em cascata e riscos aumentados.

A recente reafirmação do parto como “evento médico” e a liberdade cada vez maior por parte das mulheres para livremente escolher a via de parto – mas não o local de parto – sinaliza que a autonomia oferecida a elas só aumentará a aumentar quando estes desejos estiverem alinhados com os interesses dos médicos. O resultado inevitável é o aumento de cesarianas, cada vez menos partos vaginais atendidos, menor experiência dos jovens médicos (o que já se vê com partos gemelares e pélvicos), mais medo, mais insegurança e maior pressão para escolher o nascimento cirúrgico. Na medida em que os partos normais desaparecem, também a capacitação para a atenção ao parto se torna uma habilidade cada vez mais rara, relegada a poucos sonhadores e profissionais dedicados.

Talvez ocorra um tempo em que o parto não será mais do que a pálida lembrança de um tempo selvagem, que tomamos conhecimento através das gravuras estranhas em páginas da história da Medicina. Esse foi um tempo onde as crianças nasciam através das dores de suas mães, o parto ocorria pelo esforço delas e pela suplantação de suas dificuldades, medos e barreiras. Nessa época o entorno psíquico e emocional produzia o solo adequado para o florescimento da maternagem e dos processos de vinculação mãebebê. Talvez sejamos as últimas gerações nas quais o parto normal ainda é uma opção legítima. Se hoje a corporação médica persegue de forma odiosa as opções de onde nascer, talvez em breve médicos e parteiras sejam perseguidos por escolherem a via normal, então tornada criminosa e ilegal.

Que civilização desconectada com sua essência se tornará essa que estamos lentamente criando?

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Parto, ideologias e modelos

Escrevi um texto sobre a humanização do nascimento (seguido de uma resposta complementar) em que eu criticava o abuso de cesarianas no nosso meio, além de reconhecer a importância dos paradigmas e as ideologias que comandam o pensamento no que diz respeito ao parto e à própria medicina. Muitas pessoas criticaram abertamente o texto, sendo que em uma destas críticas um médico dizia que havia uma “criminalização das cesarianas” por parte de “identitários do parto humanizado”.

Bem, não há porque se surpreender com este tipo de crítica, até porque a cesariana – recurso tecnológico em substituição aos processos fisiológicos do nascimento – por estar sob o controle dos médicos e do sistema hospitalar pareceria – à visão desarmada – ser a forma mais segura e menos danosa de parir. O entusiasmo inicial com esta cirurgia, capaz de salvar vidas quando a fisiologia do nascimento dá lugar aos caminhos espinhosos da patologia, acabaria produzindo sua disseminação mundial muito rápida. No início dos anos 80 a taxa de cesarianas no Brasil era de 24% e no início da 3a década deste século já temos mais do que o dobro: mais de 60% do bebês do Brasil nascem através de uma cesariana, sendo que na classe média – no setor privado e nas “medicinas de grupo” (Unimeds, Amil, Sulamérica, etc.) – a taxa de cesarianas se aproxima de 90% de todos os nascimentos. A forma mais “normal” de nascer no Brasil é através de uma cirurgia abdominal de grande porte, carregada de custos e riscos associados. Por esta razão pensadores do mundo inteiro, e também do Brasil, começaram a questionar sobre qual o real sentido da suprema artificialização do processo de nascimento e quais as consequências dessa perspectiva para a própria humanidade.

Entre as críticas à minha matéria algumas foram formuladas por pessoas pelas quais tenho profunda admiração por sua postura política e como pensadores com abrangência em várias áreas do conhecimento. Em verdade, a principal crítica foi pela dificuldade em aceitar um termo utilizado na matéria, quando falei que para entender o novo paradigma de atenção ao parto era necessário “descolonizar mentes“. Essa expressão foi alvo de críticas, pois dava a entender que se tratava de uma postura idealista.

Ora, eu não cobraria de ninguém que viesse a entender as engrenagens da assistência médica ao parto, algo que refleti durante 40 anos, mas me parece um equívoco acreditar que para combater o idealismo é necessário afirmar que “as ideias de nada valem”. O idealismo parte do pressuposto de que o mundo não pode ser compreendido e que os sentidos humanos deturpam a análise das coisas exteriores. Ora, as ideias movem o mundo e o mundo como podemos enxergar é constituído por elas. Quando se diz que a “mudança das ideias não modifica nada” é um erro. As ideias impulsionam as ações. Enquanto solitárias elas serão estéreis e infrutíferas, mas sem as ideias as ações são caóticas e incapazes de produzir transformação. Além disso, a proposta de que o problema da violência no parto seria solucionado com a simples suplantação do capitalismo não passa de uma ilusão. Um exemplo fácil é a constatação da brutalidade da assistência aos partos na União Soviética, baseada na atenção médica, intervencionista, tecnocrática e mecanicista do parto.

Os dilemas e as concepções sobre o corpo e seus limites não poderiam se esgotar somente pela queda do capitalismo, e os relatos dos partos e dos protocolos utilizados na Rússia soviética não deixam dúvida sobre sua violência estrutural que extrapola os aspectos relacionados ao capitalismo. Seria necessário acreditar que o sistema econômico tivesse o poder de moldar relações de opressão que são anteriores ao próprio capitalismo. O parto já era brutal muito antes do capitalismo se estabelecer, tornado assim por forças culturais de outra natureza. O controle do corpo e da sexualidade das mulheres, surgido com o modelo patriarcal, não pode ser negado se quisermos entender a dinâmica da violência obstétrica. Uma pesquisa rápida sobre as modalidades de assistência ao parto no mundo inteiro – e seus graus variados de violência, inobstante o sistema econômico vigente – pode nos mostrar que precisamos de novas perspectivas, além da suplantação do horror capitalista, para resolver estas questões.

Portanto a “descolonização das mentes” é essencial para que a AÇÃO possa ocorrer, até porque a assistência ao parto no Brasil é uma cópia mal acabada – e mais pobre – do modelo capitalista americano de assistência ao parto que historicamente produz maus resultados. O “extermínio” das parteiras se iniciou nos Estados Unidos no início do século XX, e se estendeu para os países do terceiro mundo – mas não para o consolidado e milenar paradigma europeu de assistência centrada na figura da parteira profissional. Por esta razão é que nossa ação, enquanto ativistas, deve ser lutar junto com as mulheres (em especial) para que abandonemos um sistema ruim, como o americano, para adotar o sistema europeu – igualmente capitalista!!! – centrado na figura da parteira profissional, que apresenta os melhores resultados que a experiência humana já conquistou.

Percebam: tratam-se de dois modelos inseridos em sociedades capitalistas e com resultados absolutamente díspares. Dois paradigmas de atenção conflitantes, divergentes e que competem pela hegemonia da assistência mesmo que compartilhando – em essência – o mesmo modelo econômico.

Assim, a ideia de “descolonizar as mentes” se ampara na proposta de escolher entre os modelos existentes (o modelo tecnocrático, de matriz americana, e o modelo humanista, de matriz europeia), e não é “idealista”, pois reconhece a realidade material dos fatos – a assistência violenta oferecida às mulheres – ao mesmo tempo em que afirma que uma compreensão mais abrangente dos fenômenos é essencial para que as ações possam ser direcionadas e produzir seus efeitos. Não devemos esquecer que o próprio Marx asseverava que “Uma ideia torna-se uma força material quando ganha as massas organizadas”.

Não há dúvida que o fim do capitalismo diminuiria muitas idiossincrasias da atenção médica, mas esta mudança não seria capaz – por si só – de mudar muitos dos conceitos equivocados sobre o que seja a assistência à saúde, qual o sentido da cura e qual o propósito último de um tratamento de saúde. Essas transformações só podem brotar do conflito de ideias, do choque de concepções e novas percepções de realidade. Somente depois que estes paradigmas entrarem em choque, e que a falência dos modelos anteriores produzir uma crise, é que partiremos para a ação e a mobilização políticas, para que assim seja viável a transformação.

Não há dúvida, então, de que entre estes conceitos que precisam ser transformados estão aqueles referentes à assistência médica contemporânea ao parto, uma ideia baseada num sistema de poderes que vai muito além da visão capitalista. A assistência tecnocrática contemporânea parte do conceito de que o acréscimo de tecnologia e intervenções sobre o processo de nascimento poderia mudar para melhor os resultados – uma proposta que se mostrou um fracasso, pois que a objetualização das mulheres pela mecanização do parto produz efeitos deletérios ao negar-se a reconhecer as necessidades psíquicas, físicas, sociais, e espirituais das mulheres durante o nascimento de seus filhos. Como diria a antropóloga Wenda Trevathan, em “Evolutionary Medicine”:

“(…) as raízes do suporte emocional e social às mulheres durante o trabalho de parto são tão antigas quanto a própria humanidade, e a crescente insatisfação com o modo como conduzimos o nascimento humano em muitos países industrializados está baseada na falha do sistema médico em reconhecer e trabalhar com as necessidades afetivas relacionadas com este evento”

Berçário em hospital chinês

Ou seja: o sistema médico é contaminado por uma ideologia que enxerga os pacientes de forma objetualizada e, por isso, as parturientes são frequentemente alienadas das decisões sobre seus próprios corpos. Se essa visão objetual sobre o outro pode produzir alguns benefícios para o exercício da profissão (em especial a proteção psíquica dos cuidadores) ela esteriliza e dessensibiliza as relações entre médicos e pacientes. O parto, por não ser uma intervenção médica, tem essa clara particularidade, pois ao contrário da exérese de um tumor – algo que o médico faz – o parto é algo que a paciente faz, e a expropriação do processo com a consequente alienação das mulheres só poderia ter, em longo prazo, consequências deletérias.

Durante décadas eu apoiei a visão reformista e revisionista da obstetrícia. Acreditei que a informação dos médicos e sua educação para as vantagens do modelo humanístico de atenção ao parto poderia fazer que ocorresse uma “modificação por dentro” do sistema. Fui levado a crer que o problema das práticas defasadas era a ausência de uma adequada orientação aos profissionais. Todavia, foi apenas depois de experiências frustrantes que eu me dei conta que esta é uma estratégia fracassada. Não existe nenhuma maneira de fazer médicos trabalharem contra suas próprias vontades e inclinações, contrapondo-se à própria lógica intervencionista e tecnocrática da medicina. A única solução é encarar a assistência ao parto como um campo de batalha em que poderes competem para o controle dos corpos e da reprodução, muitas vezes alienando as próprias mulheres dos processos decisórios. É para a luta que devemos estar preparados, e não para a inútil tentativa de convencer médicos a contrariar seus próprios interesses.

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Cura

Existem coisas que só aprendemos com o passar dos (muitos) anos e uma delas é a dura tarefa de entender o papel do curador. Lacan, em uma famosa manifestação, dizia que “A Medicina a única forma terapêutica que trata o sujeito a despeito do seu desejo“. Isso ficou marcado para mim durante muito tempo, pois eu percebia que agir no tratamento de doenças sem questionar o desejo do sujeito, sem contextualizar seu sofrimento, sem observar de perto as escolhas que fez no processo de adoecimento e sem analisar os caminhos tortuosos que o trouxeram a uma consulta, estaríamos apenas exercendo uma espécie de violência, negando ao outro a oportunidade de curar-se através do próprio mal que o aflige.

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O Mínimo

No grupo que participo sobre “Minimalismo” o pessoal insiste em fazer perguntas ao estilo “ter carro novo é contra o minimalismo?”, “posso ter ar condicionado?”, “comprar IPhone é contra os ideais minimalistas?” Fazem estas perguntas como se minimalismo fosse uma religião, para a qual questionam seus “dogmas”, como quem pergunta ao padre se “flertar na Igreja é pecado“. No fundo estão atrás de ideologias e líderes para seguir, já que decidir por si mesmo implica muita responsabilidade.

Minimalismo é essencialmente uma atitude e uma proposta de vida. Não tem regras, mas princípios. Parte da ideia da otimização dos recursos do planeta, para não gastamos mais do que necessitamos, deixando os outros em falta. É um estímulo à solidariedade entre os povos. Porém, é mais do que isso: em um planeta de recursos limitados o minimalismo é uma proposta de sobrevivência global.

Também significa retirar dos objetos uma parte do desejo que os contamina, tentando fazer da obtenção das coisas uma ação mais racional, mais útil e menos perdulária, questionando nosso egoísmo e nossa propensão acumulativa.

Sem regras rígidas, sem catecismo, sem culpas, sem cobranças, apenas olhando as necessidades acima dos desejos.

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Os amores

Mas… quem poderia imaginar que sexo, entre humanos, seja algo “natural”? Precisa ser ingênuo para pensar que existe algo de natural em nós. Lacan já dizia há mais de 50 anos que “a palavra matou o real”.

Somos construções das palavras, não mais de moléculas e átomos. Desde que levantamos para comer a fruta da razão o sexo não seguiu mais as regras da biologia e da reprodução, mas da teia intrincada surgida da ruptura bizarra da ordem cósmica a qual chamamos amor.

Este só surgiu do despejo abrupto do feto distópico, incompetente massa amorfa, rodeado de espaço sufocante e carente de afago. Foi ali, no desamparo, na perda angustiosa do idílio perfeito, que a treva se produziu pelo brilho intenso das duas estrelas que, piscando, lhe dizem “meu filho querido”.

E dessa conexão se fez o amor, pois que se ele existe foi aí semeado, e de tanto amor todos os outros amores são desse princípio derivados.

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Dores e sons

Essa imagem é de um debate ocorrido em um grupo de Whatsapp – de esquerda!! – a respeito de um artigo que escrevi sobre a necessidade dos partidos marxistas se engajarem na luta pela humanização do nascimento e pelo fim da violência obstétrica, mas se afastando dos discursos identitários de viés individualista.

O primeiro comentário diz respeito ao aborto, mas fala que assim como ele a cesariana também não é crime. Bem, do ponto de vista da humanização do nascimento a cesariana é uma cirurgia maravilhosa e capaz de salvar vidas. Todavia, isso apenas ocorre quando esta cirurgia de grande porte é bem indicada, sem os abusos que presenciamos cotidianamente quando seu uso ocorre para satisfazer as necessidades dos profissionais e das instituições – e não das mães e dos seus bebês. Criticar o abuso de cesarianas não significa desmerecer sua importância e validade. Parece incrível ainda ser necessária oferecer este tipo de explicação.

O segundo comentário – que elogia a anestesia – é uma visão largamente disseminada na cultura ocidental. Desde o dia 16 de outubro de 1886, quando John Collins Warren – o velho e empertigado cirurgião – retirou um tumor da boca de Gilbert Abbot sob anestesia por éter sulfúrico, conduzida por um tal Thomas Green Morton, que a humanidade exalta a possibilidade do uso das drogas para exterminar o sofrimento e as dores. Nada mais justo este entusiasmo, visto que desde a aurora da humanidade a dor nos acompanha como sombra mórbida a nos fustigar e torturar.

Todavia, do entusiasmo inicial e o nascimento da moderna cirurgia, vieram também como consequência muitos questionamentos: até quanto é possível isolar os sujeitos da experiência da dor, e quais as consequências de uma vida sem ela? E se para as dores físicas temos os múltiplos analgésicos (e os anestésicos para as cirurgias), como lidar com as dores da alma? Serão elas igualmente passíveis de extermínio? Ou serão estas dores um alvo para aqueles ávidos por descobrir novos mercados?

É minha visão que as dores são constitutivas dos sujeitos e que é impossível viver sem elas. Também creio que as dores de parir produzem seus efeitos não apenas na mulher que as suporta, mas também no sujeito que nasce. É claro que para isso as dores precisam de sentido, significado e função, e não ser apenas o sinal corporal de uma disfunção onde a tecnologia pode ajudar e produzir alívio. Há que discernir para não abusar e tornar ruim algo que é, em essência, bom.

A terceira manifestação, foi feita por um médico, que acredita no mito do “culto ao parto normal”, que seria produzido por uma “seita de identitários avessos à tecnologia e aos recursos cirúrgicos”. Sua aversão à humanização do nascimento se sustenta no “recurso do espantalho”: a criação de um adversário fictício que facilitaria nossas críticas ao direcioná-las a uma mera caricatura das opiniões e posições que se opõem às nossas.

Não restam dúvidas de que existem identitários na humanização do nascimento. Por certo que muitas ativistas abusam de recursos espúrios como cancelamentos, silenciamentos, ataques sexistas, essencialismos e preconceito. Entretanto, apesar de serem por vezes vocais, são uma minoria nesse movimento. Este se estrutura na garantia do protagonismo à mulher, na visão interdisciplinar do parto e na atenção baseada em evidências, e não em misticismos ou revanchismos sectários. Tratar um coletivo pela imagem de uma parcela diminuta é desonestidade.

Em verdade, a ideia de que o objetivo dos humanistas seria tornar a cesariana ilegal é tola e apartada da dura realidade do parto, porque é exatamente o oposto que acontece: é o parto normal que lentamente desaparece do horizonte das mulheres, expropriado pela tecnocracia médica que possui nas mãos o mapa único, a versão de uma realidade que insidiosamente evapora. Se existe nobreza neste movimento é a tarefa de lutar para que um processo fisiológico como o parto não seja exterminado pela arrogância cientificista.

Hoje em dia, nos países colonizados pela medicina drogal e intervencionista, é o parto normal que em breve precisará “habeas corpus”. Sim, “que tenhas o teu corpo” é a melhor definição para o desejo de uma mulher que pretende ter seu filho em paz, sem ser interrompida ou incomodada. É o fluxo normal e fisiológico da vida que está em perigo de extinção; é o parto que corre o risco sério de desaparecimento.

Repito a pergunta que fiz há 20 anos: o que será da humanidade quando os gritos lancinantes primais que constituem nossa estrutura psíquica mais primordial forem substituídos pelo som duro e metálico dos instrumentos cirúrgicos de uma sala gelada e repleta de luzes? Se a música é realmente feita da reverberação infinita desse som, que se repete indefinidamente em nossa memória mais precoce, que humanidade será essa onde não haverá mais nenhuma canção a nos aliviar as inevitáveis dores de viver?

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Messianismo

Muitos ainda cultuam uma visão messiânica da medicina, cuja crise na área da obstetrícia poderia ser explicada pelo fato de estar sendo “atacada por hordas de bruxas que odeiam a ciência”.

Mal sabem eles que a atenção ao parto oferecida pelas enfermeiras obstétricas e obstetrizes é ciência de ponta, enquanto o parto atendido pela tecnocracia médica é um resquício autoritário que ainda se mantém pela força do poder econômico e da propaganda.

A assistência ao parto realizada por parteiras profissionais é a verdadeira revolução sexual feminista que, ao mesmo tempo em que exige a autonomia e o protagonismo garantido às mulheres, não se permite abrir mão das especificidades femininas de gestar e parir, encontrando nestas funções fonte de realização e empoderamento

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