Lei das doulas

Parece que hoje, 16 de março de 2022, foi aprovada uma “Lei Nacional de Doulas”. Ainda não pude ler a lei – e a regulamentação que a acompanha – mas este parece ser um capítulo muito importante e significativo de uma luta que algumas doulas empreenderam no sentido do reconhecimento e da certificação das doulas em nível nacional.

Pelo que eu pude entender nas informações que me foram passadas, a nova “lei das doulas” determina uma formação mínima de 180 horas, e conclusão do ensino médio, e este para mim é o ponto crucial, porque estabelece um ponto de corte; depois disso, nada será como antes. Ainda não tenho conhecimento de como se pretende estabelecer o currículo para esses cursos de 180 horas, mas posso apostar como haverá aula de “feminismo”, “diversidade”, “direitos da mulher”, “violência de gênero”, “anatomia”, “fisiologia” e o escambau. Pelo que eu pude captar no Encontro Nacional de Doulas, realizado há alguns anos, a grade curricular destes cursos alargados deverá seguir por esse caminho, formando “doulas feministas”.

Entretanto, se colocaram na letra da lei as horas indispensáveis para um curso, por certo que por para além disso vão criar a necessidade de um certificado, depois um conselho autorizado a oferecer esta certidão e, por fim, vão proibir que doulas não registradas auxiliarem no atendimento às gestantes. As portas dos hospitais (parto domiciliar é outra realidade) se fecharão para quem não tiver a “carteirinha”.

Os ideólogos dessa profissionalização acabaram criando uma função – ou uma profissão – inserida na área médica; uma auxiliar de parto, formada e certificada. O que era uma grande virtude da doula – ser uma mulher tanto quanto a mulher que ela atendia – vai deixar de existir. Doulas serão técnicas, auxiliando o serviço médico do parto. Por certo que esta modificação na essência e na natureza das doulas vai enriquecer grupos que investem nesses cursos longos, mas a certamente a abrangência e a pervasividade dos cursos vai cair.

Pergunto: quem terá dinheiro para pagar cursos de 180 horas? E como vai acontecer com as doulas pobres? E as doulas analfabetas, ou com educação formal rudimentar? E a comadre que acompanha sua vizinha no interior e atua nessa função? Como vamos oferecer assistência de doulas para mulheres dos rincões afastados do país e que não tem condições para fazer um curso que – em última análise – pouco vai acrescentar para uma tarefa de dar suporte às necessidades básicas das gestantes?

Essa regulamentação parece servir ao que os médicos sempre desejaram. Agora vão parar de entrar mulheres “desqualificadas” nas maternidades, segurando suas “bolas de ginástica”, colocando incenso, com CDs da Enya dentro da bolsa. A partir de agora só vão entrar doulas formadas, com diploma e carteira do Conselho. Os médicos, por certo, devem estar comemorando.

A imagem que tínhamos das doulas ficará no passado. Caso isso se confirmar, acabou o movimento como nós o concebemos até então.

Quando li a notícia vindo pela Internet não pude me furtar de sorrir com uma velha piada que eu sempre contei sobre os “tipos de enfermeiras”. Por muitos anos eu falei das duas modalidades que cruzavam meu caminho: as primeiras são as “enfermeiras de tailleur”, que são enfermeiras chefes, chiques, lindas e arrumadas, executivas de maternidades e CEO de centro obstétrico, vestindo tailleurs que deixariam morrendo de inveja as aeromoças da SwissAir. Estão sempre limpas e falam um português perfeito.

Já as outras, que se contrapõem a estas, são as “enfermeiras de crocs”, desarrumadas, usando roupa de bloco cirúrgico, cabelo preso, sem maquiagem, mal dormidas, estressadas, angustiadas, cansadas ao extremo mas profundamente realizadas com seu trabalho de “chão de fábrica… de bebês”.

Pois agora, no bojo da certificação e da gentrificação das doulas, poderemos conhecer as “doulas de tailleur”, que serão as doulas chiques, com diploma na parede e crachá no peito; doulas com PhD, com anel de formatura e trabalhos publicados em periódicos reconhecidos. E vão chegar no hospital com laquê no cabelo…

Eu acho que muito cedo vamos ter saudade das “doulas roots”. Talvez este tipo de equívoco – no meu ver – seja necessário para que entendamos, finalmente, qual a verdadeira e profunda essência da doulas. Creio que fizemos uma tolice movida pela nossa vaidade, por uma necessidade muito primitiva enraizada na cultura sul-americana de sustentar seu saber – e a autoridade associada a ele – em um documento, um papel. É a nossa fome por “certificados”, que é muito característica dos brasileiros.

Lembro muito bem da vergonha que eu passei em Cleveland quando fiz uma palestra na Case Western Reserve University (em 2003, quando o Dr. John Kennell esteve presente) e pedi para a secretária do departamento de antropologia um “certificado”. Recordo nitidamente seu espanto quando lhe expliquei do que se tratava, e como ela não sabia o que era isso me pediu que a acompanhasse até sua sala para lhe ditar o que precisava escrever no papel. Perguntei para minha amiga Robbie como os americanos colocam essas coisas em um “resume” (currículo) e ela explicou que apenas informava o congresso, o local, data e o título da apresentação; não era necessário comprovar com papelzinho assinado pelo presidente do evento, pois ninguém arriscaria sua credibilidade mentindo ter realizado uma palestra que na verdade não fez.

Quando ela me contou isso me senti um perfeito caipira…

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Sobre censura, abusos e filmes ruins

Percebo que nesse assunto – a censura de um filme do Danilo Gentili – estamos tocando na ferida moralista desse país. Nunca vi o filme e nem pretendo ver, mas proibições lembram a minha infância na ditadura militar e acho que o debate sobre a veiculação desse filme serviu apenas para tirar do esquecimento um filme chato pra caramba. Como princípio não aceito censura de jeito nenhum, e se o problema são as crianças, proíbam-no para menores de idade, mas permitam que as pessoas adultas façam suas escolhas, por mais estúpidas que sejam.

Ainda lembro uma manchete do Pasquim do início dos anos 80: “Estaremos maduros o suficiente para pentelhos?” na época em que os filmes no Brasil censuravam o “nu frontal”. Essa foi uma manchete sensacional que debochava da nossa infantilidade cultural e nossa renitente exaltação à censura. Posso apostar que deve haver documentos da época que justificavam essa censura afirmando que a liberação dos “pentelhos” poderia “estimular a violência sexual”. Hoje sabemos o quanto é tola a ideia de que algum pervertido vai realizar um estupro apenas por ver um filme miseravelmente erótico.

O mesmo eu posso dizer de alguém que vai praticar um crime – como abuso sexual da infância – apenas por ver uma porcaria de filme do Danilo Gentili. O ser humano não é tão facilmente condicionado assim. Fosse verdade, bastaria condicionar a todos contra cigarro, bebida, fumo e homossexualidade e todas essas manifestações desapareceriam, para a alegria dos moralistas e o desespero dos pastores evangélicos, que veriam seu mercado de curas milagrosas murchar da noite para o dia. Sabemos o quanto isso é ridículo.

Portanto, proibir este filme é um erro duplo: por abrir as porteiras – de novo!! – da censura por razões morais, e porque esta ação é absolutamente inútil. Nenhum efeito positivo pode surgir do proibicionismo – não esqueçam da Lei Seca e seu retumbante fracasso!! – a não ser fazer crescer o interesse por aquilo entendido como interdito. Os psicanalistas bem sabem o quanto uma porta trancada é importante para fomentar o desejo e as fantasias sexuais na infância. Querem apostar como um filme esquecido voltou a ser visto agora?

O problema é que o moralismo canhestro, uma das manifestações características do identitarismo, deixa claro que se você defende que obras ruins e sem graça tenham o direito de ser apresentadas (guardadas as limitações etárias) você estará fatalmente concordando com o conteúdo delas. Ou seja: se você se posiciona contra a censura de um filme que contém cenas que insinuam abusos você é a favor desses abusos, o que é simplesmente absurdo. Esses moralistas não conseguem entender uma defesa “em tese”, e confundem a “defesa do princípio” com a “defesa da causa”. Bastaria conhecer a frase de Evelyn Beatrice Hall que nos diz “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las” para entender que expressar-se livremente é um direito sagrado. Mutatis mutandis, posso discordar profundamente do filme chato do Gentili, mas acredito no seu direito de apresentá-lo para quem se interessa por assistir.

Para finalizar, eu me associo à indignação com a esquerda que pede cancelamentos, censura e apoia nazistas, mas sei o quanto este tipo de discurso autoritário é difícil de retirar das mentes contemporâneas.

PS: Eu avisei, mas os moralistas dessa nação formada por hordas infinitas de “irmãs Cajazeiras” não quiseram escutar. O filme, de tanto criticarem, agora está bombando, enchendo os bolsos de quem eles tanto criticavam. Lembro ainda do cancelamento massivo que recebi quando pedi para não ficarem fazendo propaganda enviesada do Rodrigo Constantino. Tem gente que custa a aprender.

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Parto, nascimento e autonomia

Este é o meu primeiro texto para o blog da Causa Operária e gostaria de tratar de um tema que sempre me deixou muito interessado: o Movimento de Humanização do Nascimento no Brasil, suas origens e suas propostas, questionando as dificuldades que atrasam a adoção de seus postulados.

No Brasil o nascimento – a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos, mas não na Europa – é comandado pelos médicos. Essa assistência centrada no profissional de medicina como principal cuidador – que eu chamo de iatrocêntrica – é aquela que produz os piores resultados, inobstante sua implantação em países ricos ou pobres. Os modelos centrados na “parteira profissional” (enfermeiras com pós-graduação em obstetrícia ou parteiras de “entrada direta”) são aqueles que obtém os resultados mais adequados, tanto do ponto de vista de bem estar de mães e bebês quanto dos custos. Essa diferença de modelos de atenção é fundamental para entender os problemas do nascimento no Brasil.

Os médicos sempre se posicionaram à direita do espectro político, e por isso só muito raramente encontramos médicos comunistas, socialistas ou mesmo fazendo parte da esquerda liberal. Minha impressão é de que esta escolha se faz pelos estratos sociais dos quais são egressos. Os profissionais médicos emergem da pequena burguesia brasileira, e isso fica muito evidente desde o primeiro dia de aula na Escola Médica. Meu olhar sempre foi crítico em relação a este fato por ser filho de um funcionário público, da baixa classe média, para quem o mundo da burguesia era bastante estranho. Ver colegas de 18 anos chegando para a aula com seus carros novos e reluzentes era algo bastante distante do meu mundo proletário.

Assim, todo a meu período de estudante se deu como um escafandrista, mergulhado no universo das classes mais altas, mas tentando manter o tubo intacto para a conexão com universo de relações, de gente simples, que lutava pelas suas pequenas conquistas com razoável dificuldade. Eu me mantive sempre conectado com minhas raízes operárias, o que me ajudou a questionar este universo de valores burgueses com razoável distanciamento crítico. Da mesma forma, a atenção ao parto – por congregar aspectos da política do corpo – não poderia ficar longe da minha atenção e desde muito cedo percebi que a obstetrícia contemporânea se expressa como um braço do patriarcado e desempenha um papel opressor sobre a livre expressão das mulheres.

Minha formação médica seguiu uma trilha bastante interessante. Fui pai no terceiro e no sexto ano de medicina. Comecei a trabalhar em hospitais já no segundo ano da faculdade e, quando entrei para a residência em obstetrícia, eu já contabilizava uma razoável experiência na atenção ao parto, enquanto meus colegas sequer haviam assistido meia dúzia de partos. Isso me colocava com uma vantagem pela experiência, mas também me trouxe uma visão muito mais crítica daquilo que na época eu entendia como uma questão de gênero: a violência sutil e corrosiva que ocorria na atenção às mulheres durante o parto, mas que sempre foi ignorada pelos olhos desavisados.

O nascimento dos meus filhos, antes ainda de entrar na residência, também tiveram essa marca, mas, assim como muitos, eu não conseguia perceber nas rotinas, nos protocolos, nos afastamentos e nas agressões morais a violência que elas disseminavam e perpetuavam. Pareciam ser “as coisas como sempre foram”, ou as entenda da msma forma como as palmadas – que apesar de brutais era usadas para “ajudar” no desenvolvimento das crianças. Quando eu era criança por serto que ninguém ousava discordar da pedagogia das palmadas e surras, muito menos questionar episiotomias (cortes vaginais), manobras agressivas como o Kristeller (empurrar o fundo do útero), afastamento do bebê após o parto, enemas (lavagem intestinal), raspagem de pelos, etc.

Com o passar do tempo ficou claro que o que ocorria em sala de parto era a imagem em microcosmo de um modelo social que penaliza qualquer manifestação da sexualidade feminina. O modelo patriarcal precisa controlar qualquer manifestação erótica para manter o controle sobre a estrutura social. Depois de alguns anos de formado conheci o obstetra francês Michel Odent que me ensinou dois pontos fundamentais para entender a encruzilhada do parto no planeta: o primeiro é de que “o parto faz parte da vida sexual normal de uma mulher”, o que transformaria radicalmente a forma como deveríamos entender e enxergar esse evento: como uma real manifestação em forma bruta da sexualidade, que demanda os mesmos critérios de proteção do encontro sexual: privacidade, autonomia, silêncio, respeito e intimidade.

O segundo ponto é que “para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”, deixando claro que as violências na sociedade estão conectadas com as violências pelas quais somos recebidos ao mundo. Em verdade, não existem sociedades justas e dignas onde ocorrem partos violentos e abusivos, muito menos ocorrem partos respeitosos e adequados em sociedades agressivas e desiguais. A violência social não se expressa em vasos estanques, e por isso essa manifestações devem ser combatidas em sua raiz: a desigualdade, elemento essencial do modelo capitalista, Portanto, cabe aos parteiros mudar o “imprint” de chegada, para que esses sujeitos assim recebidos possam levar consigo a marca do afeto e do suporte, para disseminar como valores estruturais em todas as suas relações.

Por certo que eu sempre soube que a luta pelo empoderamento das mulheres, e o esforço para que pudessem parir a partir dos seus valores e com respeito às suas crias me levaria a entrar em choque com o sistema de poderes que controla a medicina. Não haveria como imaginar que a crítica veemente ao que é feito nos centros obstétricos de todo o país seria tratada de forma serena e madura, muito menos que ela seria aceita sem enfrentamento. O tratamento que é oferecido àqueles que questionam os pilares centrais do poder médico é o de hereges, traidores da corporação.

Já no início desse século iniciaram-se as agressões sistemáticas a vários médicos no Brasil que adotavam um modelo respeitoso e humanizado na assistência ao parto. Não foram poucos os processos abertos por pura vingança, ou para pressionar os profissionais a manterem uma conduta conservadora, que se caracterizava como centrada no médico, na patologia e no hospital, desvalorizando os outros profissionais que atendem o parto, a fisiologia e a normalidade do processo de nascimento e repudiando qualquer assistência oferecida fora do ambiente hospitalar.

Esse é o ponto em que nos encontramos agora. A corporação médica aferrada aos seus conceitos, mantendo procedimentos agressivos e perigosos contra as mulheres e seus bebês, utilizando procedimentos anacrônicos, com taxas de cesarianas obscenas – 55% no país, sendo que a classe média chega a atingir 85% de cesarianas, enquanto a OMS determina a inexistência de qualquer vantagem para as mulheres e seus filhos quando esse valor ultrapassa 15 a 20%. Para piorar, iniciaram uma campanha nacional para sepultar o termo “violência obstétrica”, como se a simples supressão dessa expressão tornasse as ações suaves e respeitosas como um passe de mágica

A luta pela humanização do nascimento é também uma luta contra um sistema que coloca mães como vítimas dessa violência e os médicos como reféns de um sistema igualmente violento e vingativo. É uma luta de mulheres exigindo liberdade, autonomia e participação em todas as decisões sobre seus corpos, a exemplo das lutas pela liberdade sexual que se intensificaram no pós-guerra. Afinal, essas lutas são irmãs, mas foram artificialmente separadas para que a frente de confrontação se enfraquecesse.

A defesa do parto humanizado também está inserida nas lutas de classe, na medida em que os direitos à autonomia dos corpos e à liberdade devem ultrapassar as barreiras das classes sociais e devem ser garantidos à todas as mulheres, pois que se referem aos direitos reprodutivos e sexuais a que todas têm direito.

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Notícias da Guerra

Pelo que escutei hoje as tropas do exército vermelho estão a 15 km da Praça Maidan. Creio que Putin está esperando um aceno de Zelensky, e por isso a chegada a Kiev parece progredir em câmara lenta. Mas concordo com John Mearsheimer: “se for necessário – na perspectiva russa – os exércitos entram em Kiev e colocam tudo abaixo”. E isso está no DNA de um país que passou por invasões e ameaças durante séculos. Putin não vai deixar um novo Fuhrer se criar na casa ao lado.

É só uma questão de tempo a queda de Kiev, mas creio que a Rússia se preparou muito para as sanções. Putin sempre teve isso no horizonte. Para a Rússia a questão da Ucrânia é uma ameaça à sobrevivência da nação russa, e por isso o arsenal nuclear foi colocado em alerta máximo. Como disse o professor John Mearsheimer (veja aqui sua excelente análise), não havia escolha a não ser a invasão e a destruição do arsenal militar da Ucrânia. E sobre as sanções… quem vai perder mais? A Europa ou a Rússia? Se estas sanções não derrubaram Cuba, Nicarágua, Coreia do Norte ou Irã, porque iriam derrubar a Rússia?? É apenas um castigo cruel dos feitores americanos punindo o que acreditam ser seus vassalos rebeldes.

Por outro lado, ainda vejo pessoas insistindo em debater a crise do leste europeu pelas lentes da “esquerda x direita”. Ora gente… são dois governos de direita se digladiando ferozmente!!! Não podemos entrar nessa fantasia de direita contra esquerda. Essa guerra não tem nada a ver com essas ideologias. A Ucrânia seria igualmente invadida se fosse comunista e estivesse ameaçando a Rússia dessa forma.

“Ah, mas não havia sinal algum de que a Ucrânia seria uma ameaça à Rússia. Por que a OTAN haveria de invadir ou ameaçar um país gigante como a Rússia?”

Ora, basta perguntar para Napoleão, as dez nações que invadiram a Rússia durante a Guerra Civil para auxiliar os mencheviques contrarrevolucionários. Podemos também perguntar quais os planos de Hitler e porque desfez o pacto Molotov-Ribbentrop para dominar os recursos – em especial o petróleo – da Rússia.

Se não fosse para ameaçar a Rússia, qual seria a razão de expandir as fronteiras da OTAN? Se não fosse para cutucar o urso no olho, porque as ameaças? Por que Zelensky falou explicitamente em colocar armas nucleares da OTAN em seu território? Por que a idolatria a figuras como Stepan Bandera, um colaboracionista nazi, e os símbolos do III Reich que enfeitam até os shoppings de Kiev?

E por que agora passamos a falar de “expansionismo russo” se jamais usamos este termos para as mais de duzentas invasões americanas nos últimos 70 anos? Quando os gringos invadiram o Panamá e sequestraram seu presidente, chamamos a isso de “expansionismo americano”? Por que – mais uma vez – dois pesos e duas medidas?

A Rússia não vai anexar a Ucrânia, pois isso seria uma estupidez, e os russos não são burros. A campanha russa é para criar um “buffer”, uma zona neutra desmilitarizada, e para desnazificar esse país, lotado de fascistas e nazi-lovers declarados. É exatamente por isso que, ao contrário de todas as invasões do Império (inclusive na Iugoslávia) não houve uma destruição massiva do país. Na Ucrânia não está ocorrendo nenhum abalo nas cidades, apenas de alvo militares – e, por certo, algumas adjacências, mas o número de mortos desta guerra é menor do que um fim de semana de carnaval nas estradas brasileiras. O objetivo da incursão russa é limpar, não destruir o país.

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Lembranças

A Igreja do Cebrero, no município de Pedrafita, província de Lugo na Galícia

As pacientes costumavam me contar do seu passado assim: “Bahhh, naquela época eu andava muito louca”, ou diziam “Só agora estou conseguindo sair de um período muito triste”. Entretanto, também falavam coisas do tipo “sim, aquele foi o período mais feliz da minha vida, mas eu não tinha consciência disso”.

A análise que faziam era sempre pretérita, como se a felicidade ou alegria só pudessem ser analisadas na distância garantida pelo tempo. Hoje eu penso que o futebol “das onze à meia noite” com meu filho e seus amigos eram momentos de esfuziante alegria, assim como os almoços de domingo quando meus pais eram vivos, com filhos e netos pequenos a colorir os espaço da casa deles.

Mas, quando essas coisas aconteciam, a vida real e concreta obliterava a precisa avaliação do esplendor de cada um desses momentos. O mundo que passa diante dos nossos olhos nos dificulta avaliar a real dimensão dos acontecimentos. É como postar-se diante de uma montanha que de tão alta nos impede avistar seu cume, e só quando nos afastamos é que podemos ver seu verdadeiro tamanho. Quando fiz o Caminho de Santiago com minha filha e minha sobrinha tive breves “flashes” em que eu conseguia sentir o êxtase daquela aventura, tentando apreender o gozo feliz do futuro antes que ele se tornasse memória.

Quisera guardar para sempre a emoção das crianças que tiram de cada momento a total emoção que lhe cabe. Queria voltar o tempo, sentar à mesa na casa da minha mãe e perguntar ao meu pai da vida e do mundo. Queria jogar bola com a garotada e sentir o prazer dos gols e das vitórias. Queria de novo caminhar livre pela Meseta contando os passos para chegar no Cebrero e depois em Santiago. Agora, só me resta viver cada um desses momentos na lembrança.

Mas sei que a vida é sopro e que os dias tristes e frios que se aproximam poderão se aquecer nas memórias felizes e assim afastar a inevitável tristeza destes tempos vindouros de sombra e despedida.

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Você é romântico?

Muitas vezes ouvi esta pergunta dirigida a um homem e até para mim mesmo. Sempre achei essa questão interessante, em especial porque ela esconde um truque.

Eu acredito que existem dois tipos de românticos. Via de regra, quando as mulheres fazem este tipo de pergunta estão querendo saber se aquele sujeito é um “romântico performático”. Isto é: um sujeito que manda flores, escreve bilhetes, faz declarações de amor, produz performances públicas de afeto, etc. Em verdade, se refere a uma manifestação exterior, uma encenação – verdadeira ou não – de conteúdos internalizados de desejo e afeto.

Todavia, esta não é a minha definição preferida, pois ela se refere a uma manifestação externa e superficial, que bem pode ser enganosa. Não são poucos os psicopatas que exercem o “donjuanismo“. Em verdade, a literatura e as colunas policiais descrevem sujeitos especializados em roubar senhoras solitárias usando essas sofisticadas técnicas de sedução com extrema capacidade e eficiência. Muitos são “românticos” que possuem um deserto no peito, e uma vida afetiva vazia. Outros amam a si mesmos, e usam o outro como escada para seu narcisismo.

Todavia, a definição que me atrai é a do “romântico raiz“, como um sujeito que acredita – de forma irracional – na ideia do amor romântico. Isto é: alguém que acha que a vida é melhor a dois, que uma união estável é prazerosa, que dormir de conchinha, ter alguém para contar as agruras do seu dia, ter filhos e netos e envelhecer juntos tem valor e sentido. O romântico seria alguém que sonha em ter alguém “para si”. Por esta classificação, o “romântico raiz” parte de uma posição subjetiva que dispensa qualquer performance. Não se trata de como atua, como se expressa, mas como sente e percebe sua própria sexualidade.

E vejam, aqui não faço nenhum julgamento de mérito. Acho o amor romântico um fetiche como qualquer outro, apesar de reconhecer que – ao contrário das cintas liga, dos chicotes e das roupas de couro – ele é socialmente aceito, admirado e estimulado. Creio que esse engajamento ajuda a oferecer mais estabilidade social ao patriarcado, e por isso valorizamos tanto os longos casamentos de figuras públicas – e mesmo dos nossos amigos.

Porém, não acredito que um sujeito seja mais feliz se for casado, ou eroticamente “comprometido”. Não existe nada que me convença que uma ligação amorosa estável, única e perene produz maior chance de uma vida feliz. Mesmo assim, reconheço que em nossa cultura amar e desejar seu/sua parceiro(a) para sempre é a suprema fantasia erótica.

E, por essa definição, sou um romântico irrecuperável

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Fragmentação e Unidade

Ah, mas a Rússia de hoje – e a União Soviética antes dela – é uma nação violenta e que só se importa com armas e guerra

Lembrem que se não fosse por uma preocupação obsessiva com a guerra e a defesa a Rússia não existiria, e estaria hoje dividida em múltiplas pequenas nações, frágeis e independentes umas das outras, mas subservientes ao poder das nações imperialistas. Seriam orientadas pelo controle central do Império a se odiarem de morte, soterrando suas semelhanças em nome de diferenças ridículas e desprezíveis. E sobre armar-se, em quantos dias a Coreia do Norte seria varrida do mapa não fosse por seu arsenal nuclear? As suas bombas continuam sendo a garantia de sobrevivência. Em quantas pequenas nações seria dividida a China, não fosse a revolução socialista de 1949 que criou o estado gigantesco e poderoso de hoje? As suas bombas continuam sendo a garantia de sobrevivência.

A intenção do imperialismo sempre foi dividir para enfraquecer, e desta forma facilitar a dominação. A guerra da Bósnia, no início deste século, foi o capítulo final da fragmentação da Iugoslávia, uma nação diversa, com uma cultura rica e multiétnica. O país era composto por seis repúblicas regionais e duas províncias autônomas, e estava dividido de acordo com os grupos étnicos que as compunham e que, após a morte do Presidente Tito na década de 1990, separou-se em vários nações autônomas. Estas oito unidades federais passaram a ser seis repúblicas: Sérvia, Macedônia, Eslovênia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro e as duas províncias autônomas ficaram com a Sérvia: Kosovo e Vojvodina. A guerra do Kosovo levou à perda desta região para os combatentes do ELK (Exército de Libertação do Kosovo – combatentes de etnia albanesa) após 79 dias consecutivos de intenso bombardeio da OTAN contra a Sérvia, destroçando a economia do país e provocando, posteriormente, a deposição do presidente Slobodan Milosevic. Mas na base destas ações no final do século passado e início deste estavam os interesses imperialistas de enfraquecer a região para mais facilmente controlá-la, incorporando as nações dissidentes à frente bélica da OTAN.

Existe um claro interesse do imperialismo em dividir as nações, torná-las minúsculas, facilmente controladas pela centralidade do Império, assim como foi feito pelos grandes impérios durante toda a história da humanidade. Após fragmentada a nação inimiga torna-se muito mais fácil colocar um títere qualquer no comando e comandá-lo com os cordões invisíveis da subserviência, do endividamento e do colonialismo.

É evidente que estas sempre foram as intenções das grandes potencias imperialistas em relação à Rússia. Um país gigante, com uma cultura poderosa, multiétnico, rico em recursos naturais que sempre despertou o interesse de seus vizinhos, de Napoleão a Hitler, mas que se mantém unida e cada vez mais forte em função de uma ideologia nacionalista de fortalecer a união de seu povo em torno da grande “Mãe Rússia”.

Também a multi fragmentação africana pelo colonialismo objetivava enfraquecer os antigos reinos e etnias que compunham a África pré-colonial. Mas não é necessário irmos tão longe: basta olhar para a América Latina fragmentada e perceber que sua divisão e o incentivo às disputas locais sempre foi do interesse do imperialismo para nos manter separados. As desavenças entre Chile e Argentina, Bolívia e Chile, Colômbia e Venezuela sempre estiveram na pauta do Império, estimulando desavenças para impedir uma real união contra as forças exteriores que nos exploram.

Qué pagará este pesar
Del tiempo que se perdió.
De las vidas que costó,
De las que puede costar.
Lo pagará la unidad
De los pueblos en cuestión,
Y al que niegue esta razón
La Historia condenará.”
(Canción por la Unidad Latinoamericama – Pablo Milanés)

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Psicopatas

Nas redes sociais adoram dizer que Putin é um “assassino psicopata”. Afinal, ele é russo e tivemos mais de 100 anos de propaganda imperialista para nos convencer que este povo comia criancinhas. Tudo isso é claramente intoxicação produzida por estes anos todos de propaganda americana. Aliás, aposto o quanto quiserem como estes que atacam o presidente russo são incapazes de sustentar a afirmação. Desafio que mostrem onde ele foi assassino e onde foi psicopata.

Ninguém responde a isso, o mesmo silêncio que sempre escutei quando pedíamos as provas de que “Lula é ladrão”.

Só uma dica: estima-se que Clinton + Bush + Obama mataram diretamente por volta de 11 milhões de pessoas em suas guerras. Isso sem contar as mortes decorrentes dos embargos, sanções, boicotes e sabotagens, ou as guerras por procuração, como as mortes produzidas por Israel. Digam onde o “assassino psicopata” Putin chegou perto disso.

Agora peço que mostrem a guerra que ele iniciou, o país que invadiu em busca de petróleo, o número de mortos, os governos nacionais que derrubou, os golpes que patrocinou e as cidades que destruiu.

Vamos, desafio…

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Os biscoitos

Há uns 20 anos atrás eu estava tomando um espresso em uma cafeteria do segundo andar do shopping Total aqui em Happy Harbor num dia chuvoso como hoje. Subitamente vi bem à minha frente uma senhora tropeçar no degrau que dava acesso às mesas e cair de forma espalhafatosa ao chão. Eu me levantei reflexamente para ajudá-la, mas fui impedido pelo seus gritos.

– Não me toque, eu quebrei a perna. Tenho osteoporose, sei como é!!

Minha reação foi pensar: “Senhora, não foi pra tanto. Foi apenas um tombo. Não precisa fazer esse drama todo“, mas quando cheguei bem perto e pude ver a barra da calça levantada ficou fácil constatar a evidente fratura da tíbia esquerda. Senti vergonha de ter desconfiado, ainda que em pensamento, da sua percepção da seriedade da queda.

Quando me dei conta da gravidade da cena falei para as pessoas ao meu lado: “Não mexam nela, a perna está mesmo quebrada na altura da canela. Chamem o SAMU para removê-la com cuidado. Eu sou médico e ficarei aqui aguardando”.

A dona da cafeteria, esbaforida e nervosa, ligou para o SAMU imediatamente. Naquele momento me vieram à mente meus anos de pronto-socorro e lembrei dos atendimentos de mais de duas décadas passadas. Lembrei da dor produzida pelas bordas ósseas desalinhadas e resolvi ajudar fazendo uma manobra para aliviar a for.

– Senhora, me chamo Ric e sou médico. Eu posso ajudar tracionando seu pé. Vai aliviar a dor. A senhora me permite?

Ela respondeu dizendo “se passar essa dor, pode ser”. Ato contínuo, tracionei o calcanhar em direção oposta ao corpo e percebi que ela imediatamente sentiu a dor diminuir. “Obrigado moço, aliviou bastante”.

Acho que devo ter ficado mais de uma hora parado no meio da cafeteria puxando aquele calcanhar enquanto esperávamos o SAMU. Quando chegou a equipe de emergência, ela foi rapidamente transportada de maca para uma ambulância e posteriormente atendida no Pronto Socorro.

Semanas mais tarde recebi uma caixa no consultório onde havia um pote biscoitos e um bilhete. A desafortunada senhora descobrira meu endereço pelo nome completo que eu havia lhe dado. No bilhete que acompanhava os biscoitos ela escreveu que havia sido submetida a uma cirurgia e que o traumatologista do hospital elogiou minha iniciativa de tracionar o tornozelo. Em tom de brincadeira, o colega falou que, apesar do azar do tombo, foi muita sorte ter alguém com rudimentos de traumatologia por perto para dar a primeira assistência.

Os biscoitos eu lembro até hoje como os mais saborosos do universo. Eram tão bons que eu não comia mais do que um por dia e deixava o pote escondido, para durar mais tempo e não ter que dividir. Mas por certo a oportunidade fortuita de ser a pessoa certa no momento certo é a parte mais saborosa dessa memória.

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Paradoxo da Paz

“Desculpe, sou contra o Putin, um diabo medonho, e porque tenho horror a qualquer guerra. Não existe justificativa para elas. Ah, e dizem que o Putin é homofóbico”

É impressionante a dificuldade dessa esquerda liberal de entender que essa guerra não pode ser avaliada por critérios morais aplicados a seus personagens principais. Também parece difícil entenderem que a guerra já estava acontecendo há 8 anos mas, curiosamente, só quando a Rússia reagiu é que os “pacifistas” se escandalizaram. Lembra muito o horror que surge quando uma bombinha Palestina atinge Israel alertando os “pacifistas” – que saem as ruas vestindo branco e pedindo paz – mas são os mesmos que respondem com absoluta apatia quando ocorrem os repetidos massacres em Gaza (que os sionistas tratam como “mowing the lawn” – aparar a grama).

Pois agora aparecem oportunistas que são contra a Guerra da Ucrânia, mas sequer ficam com a cara vermelha ao apoiar nazistas “old school” – que sequer podem ser chamados de neonazis, porque de novo nada têm. Querem a paz, mas só a paz do domínio, da submissão e do silêncio.

Em nome de uma russofobia e um ódio infantil à “pessoa do Putin” (e não sua política nacionalista e seu governo de direita) aceitam de bom grado passar pano para fascistas e assassinos, que queimaram mais de 50 pessoas vivas em um sindicato em Odessa, construíram laboratórios para guerra química, amarram cidadãos em postes, espancam ciganos e aniquilaram – através de suas brigadas de ultradireita – mais de 14 mil cidadãos em Donetsk e Lugansk desde o golpe de 2014

Por que apenas agora a guerra se tornou inaceitável? Por que admitiram até então que um país dominado por nazistas se juntasse à OTAN e se armasse com bombas atômicas ao mesmo tempo em que rasgavam o acordo de Minsk? Por que se negaram a perceber que uma ogiva nuclear em Kiev leva 4 minutos para atingir Moscou e estaria sendo colocado em uma cabeça de ponte da OTAN na Europa Oriental? Qual país no mundo inteiro aceitaria essa ameaça no seu vizinho? Por certo que o Império americano não, visto que a crise dos mísseis de Cuba em 1963 teve a mesma motivação.

É impossível não se indignar quando vemos xenofobia e desrespeito à todas as pessoas que defendem a Rússia e que cometem o “crime” de refletir com conhecimento de causa e sensatez, fugindo da propaganda imperialista massacrante, entreguista e oportunista que nos invade. A mesma imprensa corporativa que, em nome dos interesses do sistema financeiro internacional, emporcalha redações e redes de TV com mentiras que transformam nazistas declarados em “nacionalistas” e “forças da resistência”.

Estar contra o Putin (que é um direitista, autoritário, anticomunista e, talvez, homofóbico – who cares??) significa cerrar fileiras com a OTAN e a barbárie maligna e genocida do Império americano. Putin, por mais defeitos que tenha, está do nosso lado, lutando por um mundo multipolar, contra o Imperialismo corrupto e racista. Muitos ainda confundem a paz com a falta de reação e a apatia diante da violência imposta. Muitos mais acreditam numa “pax americana”, onde o imperialismo reinaria sem reação. Esta é uma visão ingênua e paradoxalmente violenta, pois condena muito mais pessoas à opressão e à morte.

Ninguém que se diga de esquerda pode estar ao lado dos golpistas ucranianos e do Império Americano. Uma improvável vitória dos nazistas da Ucrânia poderia determinar as bases irreversíveis para uma terceira guerra mundial. Aí reside o maior paradoxo: os pacifistas pró imperialismo e defensores da OTAN esperam como resultado desse conflito algo que inevitavelmente levaria a uma guerra de proporções catastróficas.

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