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Aventuras tecnológicas

Eles copiaram até o nome que eu dei a este tipo de exame, mas de forma cínica. O preço a ser pago por essa aventura tecnológica ainda não foi totalmente avaliado. Mexer em valores e segredos tão ancestrais sem nenhuma vantagem médica pode ter consequências deletérias que nao foram ainda analisadas em profundidade.

Acho mesmo que a civilização ocidental ainda não se deu conta do que significa o afastamento do ser humano de sua essência mais íntima. Invadir o útero dessa forma, fazendo da gestação e do nascimento um espetáculo e uma diversão, retira desse evento o que carrega de misterioso, mágico e sagrado

A questão é que tais elementos são formativos do sujeito. Somos a soma dos desejos sobre nós projetados, e não o ultra-som despejado sem nossa autorização. Não há como encarar da mesma forma uma gestação assim banalizada e outra onde nossos elementos mais profundos, inconscientes e ancestrais são levados em conta e respeitados.

A banalização desses exames retira das mulheres a soberania sobre seus corpos, escravizando-as à tecnologia e gerando um ciclo de dependência sem fim. Romper essas amarras e libertar-se de tais grilhões é tarefa difícil, mas que se faz com apoio, informação, evidências científicas e reforço da autoestima.

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Luz e Sombra

Muito poucos se preocupam em dar apoio e suporte aos cuidadores. Quando as perdas acontecem eles se tornam invisíveis ou se transformam em alvos fáceis para nossas frustrações. Humanizar o nascimento também é cuidar de quem cuida. Se para cuidar é preciso aparentar força e confiança, quem haveria de duvidar de uma máscara tão bem costurada à pele, a ponto de nos fazer crer que nada a pode perturbar, nem mesmo “a dor que deveras sente”.

Esta escolha é sempre complexa pois se baseia em fatores subjetivos e questões circunstanciais e, em verdade, ela está na base de toda a opção que fazemos por cuidar das pessoas. Você pode escolher o contato nos limites do necessário para realizar sua função específica; entretanto poderá entender que somente ao raspar as crostas superficiais do sujeito é possível entender o que se passa para além de sua epiderme.

Assim sendo, diante de nós duas portas se oferecem: uma delas nos leva ao mundo do aparentemente manifesto, do discurso, da evidência, do sinal aparente e do sintoma mais grosseiro. Um mundo muito próximo da biologia, da física e do real que (ilusoriamente) nos envolve. Já a outra porta nos leva ao mundo do simbólico, do relativo, do subjetivo e do pessoal. Um universo de significados e significantes dispersos e fora de ordem, onde moram nossas verdades mais sombrias. A casa das verdades perenes, das memórias sombrias e do medo.

Ambas as portas nos oferecem a oportunidade de conhecer os pacientes, mas enquanto a primeira permite um contato superficial a segunda nos obriga à criação de um vínculo que também nos impõe – em contrapartida – a conexão afetiva e emocional. Por isso mesmo adentrar desta forma no universo mais profundo dos pacientes nos leva obrigatoriamente à empatia e à conexão, à alegria e ao sofrimento.

Quem escolhe a segunda porta sabe que as alegrias serão sempre o tempero da vida; a luz que nos faz caminhar e seguir adiante. Todavia, sabe também que as perdas e os insucessos não poderão passar pela vida de quem cuidamos sem nos afetar da mesma forma.

A dor de perder na luta inglória contra a morte será sempre maior quando nossos corações se conectam com quem vestiu as capas do luto. Quem escolhe a com-paixão – o afeto compartilhado – sabe “a dor e a delicia de ser o que se é”. Sabe também que o preço das alegrias supremas é estar junto de quem sofre, para poder auxiliar quem se depara com as dores mais profundas que a vida pode reservar. Merece um abraço todo aquele cuja dor de hoje lhes rasga a alma, exatamente porque são pessoas de luz e espíritos especiais.

Reese Waldorf, “Who cares”, ed Epigram, pág. 135

Rose Waldorf nasceu em San Diego, na Califórnia, em 1977. Muito cedo se interessou pelas questões do parto e do nascimento e após terminar o “high school” na sua cidade resolveu estudar enfermagem para se dedicar à parteria. Foi criadora da “Heaven”, uma Casa de Parto que atua no mais puro modelo de parteria, atendendo a população pobre e as imigrantes mexicanas da fronteira. Escreveu seu livro “Who Cares” após sofrer uma crise de pânico por excesso de trabalho (burnout) e perseguições da corporação médica de sua região. Seu livro rapidamente se tornou uma espécie de “manual emocional para parteiras iniciantes”, pois descrevia não apenas as partes belas e sublimes da tarefa de atender partos, mas também as sombras, as violências, as agressões e as perseguições a que são submetidas. Rose continua atendendo partos e morando em San Diego. É casada e tem dois filhos, Jeremy e Jason.

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Médicos do bem

O fato de existir ainda uma escassez de médicos em ambientes de humanização prova a minha tese de que é preciso seduzi-los a entrar.

A questão que eu considero relevante é a posição de destaque do médico no contexto tecnocrático e em relação aos conhecimentos autoritativos.

Como exemplo trago a conversa que tive por Skype com uma ativista do parto no Japão, especificamente em Kyoto. Ela viu uma palestra minha e queria me perguntar algumas coisas sobre o Brasil e o modelo interdisciplinar de atenção ao nascimento. Ela me relatou não haver “birth doulas” na sua cidade, apenas doulas para pós parto. Disse também que fará em um futuro próximo um curso para doulas nos Estados Unidos, mas reconhece que terá dificuldade para trabalhar porque nenhum médico aceita essa função no Japão. O Japão está uns 20 anos atrasado em relação a nós no que diz respeito ao movimento de doulas. (desculpe falar assim, mas essa deve ser a unica cousa que estamos na frente deles).

Eu argumentei com minga amiga japonesa que sem essa “fissura na ordem médica” – isto é, a existência de um(a) obstetra humanizado(a) em um contexto tecnocrático – as doulas de parto ficam de mãos amarradas. Entretanto, o surgimento de UM médico apenas sendo “convertido” abrirá as portas para dezenas de doulas – e até parteiras. Eu mesmo sou um exemplo vivo disso; outros médicos no nosdo país também.

Portanto, não se trata de valorizar mais os médicos, mas de reconhecer que seu poder na atenção ao parto é estratégico. Por que não usá-lo em nosso favor?

Lembro quando Marsden Wagner dizia que odiava ser chamado de “doutor, mas notava que quando era obrigado a se anunciar assim “todas as portas se abriram facilmente”. Portanto, por que não permitir que os “doutores” possam abrir portas para os que vem atrás? Por que não usar esse poder médico a favor da humanização do nascimento?

Quem conheceria Marsden Wagner se ele não tivesse se tornado um médico rebelde e fosse – por exemplo – uma doula ou parteira? E Michel Odent? E Klauss, Kennell, Caldeto-Barcia e Paciornik? Quem leria Leonardo Boff se ele não fosse um padre heterodoxo e “herege”?

Poisceu afirmo que as suas condições DISTÓPICAS dentro de suas corporações é que lhes garantitam a merecida notoriedade, a qual estaria escondida se estivessem ocupando outras funções menos autoritativas.

Por isso os médicos convertidos são tão importantes do ponto de vista estratégico. Eles abrem as picadas e trilhas no meio da selva da tecnocracia, que depois poderão ser pavimentadas pelos outros atores da cena do parto, como as doulas e parteiras.

Eu seria o último sujeito do mundo a olhar para o movimento de humanização como uma organização “medicalizada”. Aliás, lutei toda minha vida contra a medicalização do parto. Entretanto, sou obrigado a reconhecer a importância capital dos obstetras e neonatologistas como pontas de lança na mudança de paradigma.

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Vilanias

Em minha modesta opinião é preciso ver se existe na no discurso de quem apoia o projeto de “liberalidade para as cesarianas” um real desejo de aprender e mudar seus conceitos. Se for permeável às informações então seria possível estabelecer uma troca e auxiliar na produção de um projeto que tenha como finalidade o estímulo ao protagonismo diante da informação de qualidade. Caso contrário é melhor reconhecer nossa incapacidade de cooptar os defensores da cesariana e entender que estão inexoravelmente do outro lado do espectro da defesa das mulheres e seus bebês. Serão adversários, infelizmente.

Pela minha visão parcial a maioria dessas pessoas não é a favor da “livre escolha”, mesmo que seu discurso pareça libertário. Isso é só uma bandeira feminista fácil, porém falsa em seu uso. Estes sujeitos são a favor da cesariana mesmo, sem rodeios, sem parto, sem gritos e sem dor. Afinal, “liberdade é uma calça velha, azul e desbotada, que você pode usar, do jeito que quiser”.

Este projeto temerário deseja a anestesia plena; a obliteração daquilo que nos joga no “vazio do feminino”. Os apologistas da “cirurgia de extração fetal” tem horror a isso. A questão da cesariana é exatamente desviar o olhar do que significa ser mulher; a radicalidade do feminino; quem não suporta a explosão de sentimentos e sentidos de um parto faz de tudo para sabotá-lo. Usam até slogans manjados do feminismo como “autonomia” e “escolha”, mas que não passam de cortina de fumaça para não encarar de frente seus medos e traumas.

O caso de tais ativistas NÃO É falta de informação. É surdez auto imposta, mas as causas deste fechamento estão mergulhadas nos porões escuros e úmidos do inconsciente. Resta a nós reconhecer que pouco adiantam argumentos racionais para combater ideias que não brotam da razão, mas das tripas.

Mais uma vez as mulheres pagarão o preço dessa vilania. As mortes maternas pelo abuso de cirurgias se multiplicarão e não haverá nenhum progresso na qualidade de vida dos bebês. A prematuridade iatrogênica vai explodir assim como os custos para repará-la. A tudo isso assistiremos com horror, a não ser que tenhamos a sabedoria de dar um basta nessa aventura feminicida.

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Golfinhos

Lembrei por ocasião do debate sobre a exaltação da “cesariana salvadora” e os “malefícios do parto normal” da velha história dos “bons golfinhos”. Uma historia sobre viés de percepção….

Há um mito que conta que os golfinhos são bons e que tem o costume de empurrar os náufragos para a praia. Vários relatos existem de pessoas salvas por golfinhos depois de barcos virados. A fama desses mamíferos sempre foi positiva entre nós e estas histórias sempre reforçam essa percepção. O problema surgiu quando, mais recentemente, se observou a ação dos golfinhos a partir de um helicóptero durante um naufrágio.

O que se viu foi surpreendente. Os golfinhos, em verdade, brincam com as pessoas e as empurram para QUALQUER lado – inclusive para longe da costa – mas só aqueles que – por sorte – são empurrados para praia sobrevivem para contar a historia. Daí ocorre a boa fama de salvadores que, como pode se ver, não é merecida. As mortes causadas pelo brincalhões aquáticos nunca foram computadas a eles, pelo menos até sabermos a verdade.

O mesmo ocorre em muitas situações do parto. Nos “sequelados do parto normal” a culpa só pode ser do parto, da natureza cruel, da “vagina dentada destruidora de crânios” e dos profissionais relapsos que “nada fizeram” mesmo tendo a “tecnologia salvadora” à mão. Nos sequelados da cesariana houve, por certo, uma fatalidade. Afinal “fizemos tudo o que podia ser feito“. Como se poderia culpar o uso da tecnologia se ela é o sustentáculo da emergência e hegemonia do saber obstétrico sobre a parteria?

Sem entender essas armadilhas psicológicas jamais fugiremos da fatalidade do “imperativo tecnológico” que nos obriga à intervenção pela crença cega na IDEOLOGIA tecnocrática.

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Posições

Eu li o livro de Moisés Paciornik – Aprenda a Nascer com os Índios – em 1986 durante a residência médica no Hospital de Clínicas. Fiquei estarrecido pela simplicidade da argumentação, que se chocou contra meu peito com a violência de uma verdade escondida. “Mulheres somente deitam para parir porque os médicos mandam. Nenhuma pessoa deitaria para evacuar; por que faria isso para parir?“.

Meus professores se juntaram ao coro do deboche criado pelos meus colegas. “Mulheres têm o períneo fraco pela vida civilizada. Índias sobem em coqueiros; elas podem, mulheres da cidade não.” Toda a tolice oportunista da velha obstetricia pode ser sintetizada nesse conceito. Nesta época todos os meus professores ensinavam episiotomia (e posição de litotomia) mesmo que os trabalhos que desacreditavam as episiotomias de rotina já tivessem sido publicados. Nenhum professor aceitava que mudar a postura das mulheres ao parir pudesse ter qualquer relevância. Em verdade, sequer percebiam que a posição de parir era apenas uma forma de materializar conteúdos ideológicos subliminares (e inconfessáveis): a crença na defectividade das mulheres para a realização de suas tarefas femininas. Esta perspectiva diminutiva das mulheres confirmava a imagem auto proclamada de “salvadores”. Como dizia meu colega Max “Sou o Caminho, a verdade e a vida; só parirás se for por mim“.

A posição deitada e com as pernas abertas é uma metáfora complexa e poderosa a sinalizar submissão entre os mamíferos. Quem tem cachorro e gato em casa sabe que é assim que eles demonstram sua rendição ao poder magnânimo dos donos. Às mulheres determinamos o mesmo: “Submetam-se ao poder fálico da medicina e em troca permitiremos que vocês sobrevivam ao parto“. Para isso foi necessário convencer a todas elas que a dor do parto é insuportável, que anestesias são inócuas, que cesarianas são modernas e seguras, que os cordões são assassinos e que seus corpos foram mal planejados, obras imperfeitas de uma natureza cruel e injusta.

Na vigência do patriarcado foi fácil convencê-las de tantos conceitos equivocados. Rodeadas de medo e sem suporte social, quem não abraçaria a promessa de redenção da tecnocracia? Quem colocaria cera nos ouvidos para não escutar o canto mavioso e inebriante da obstetrícia intervencionista?

Todavia, o engodo da defectividade feminina e a mentira de seus corpos falhos durou o tempo do patriarcado em êxtase. Bastou se analisar com um mínimo de isenção estes fatos para que a construção secular do paradigma médico despencasse aos nossos pés como um castelo de cartas.

Assim, nas últimas três décadas, caíram por terra a episiotomia, o Kristeller, a tricotomia, os enemas, a restrição ao leito, a roupa de anjo-com-bunda-de-fora, o “sorinho” para hidratar e “manter veia”, a hospitalização, a superioridade médica na atenção e até mesmo a posição de parir. Hoje em dia toda a construção machista da assistencia aos partos sucumbe lentamente, dobrada pelos ventos das pesquisas e pela pressão política contrária às múltiplas violências aplicadas à mulher gestante. Tudo isso embasado em evidências científicas.

Custei a enxergar o que se ocultava por detrás do meramente manifesto nas “posturas de parir”. Escondido sorrateiramente entre protocolos e rotinas estava o cerne da dominação; a submissão precisava ser explícita e determinante, expressa de forma inquestionável na estética dos partos. “Mulheres abaixo; médicos acima”.

Moisés tinha razão: Enquanto elas estiverem deitadas e impotentes a opressão sobre seus corpos triunfará. Todavia, uma vez que as mulheres se levantem de seu leito de medos toda a história do nascimento se transformará.

Salve, mestre!!

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O Sofá da Sala

Acabo de ler a nota do governo brasileiro – claramente inspirada pela corporação médica – que tenta impedir o uso do termo “violência obstétrica”, curiosamente na mesma semana em que o presidente, usando a mesma lógica, diz que “racismo é algo raro de ocorrer no Brasil”. A mesma tentativa tola de tirar o sofá da sala imaginando que assim o problema deixaria de existir.

O problema não é o termo utilizado, mas a “misoginia essencial” que permeia a atenção ao parto e nascimento, resultado de 100 séculos de modelo patriarcal a conduzir nossas vidas. Violência obstétrica existe sim – e dói.

Creio que não resta nenhuma dúvida dos interesses por trás dessa manobra; elas visam, em essência, a mudança de narrativa através da supressão de expressões consagradas. Estas são atitudes muito coerentes com o modelo revisionista que se pretende implantar no Brasil de hoje. Assim, não tivemos golpe em 64, mas “governos militares”. Dilma sofreu um “Impeachment” e não outro golpe patrocinado por grupos ressentidos, o que abriu caminho para outras aberrações jurídicas como prender o ex presidente Lula sem apresentar provas.

Desta forma sorrateira o Brasil inaugura oficialmente o uso da “novilingua” acreditando que assim fazendo exterminará como por encanto a violência física e moral a que são submetidas milhões de mulheres no país, algo que o termo – agora suprimido – sempre pretendeu denunciar.

Sabemos que tais iniciativas grosseiras e ofensivas fazem parte da cobrança da dívida que o bolsonarismo tem com a corporação médica. Esta corporação foi parceira de primeira hora nas manifestações golpistas de 2013-16, que culminaram com a queda de Dilma e a prisão de Lula, e posteriormente na eleição de Bolsonaro. Aqui mesmo no sul o sindicato médico já se apressou em mandar uma nota e um vídeo parabenizando o governo Bolsonaro pela proibição. Nenhuma surpresa.

Nada disso deveria nos espantar: a corporação médica mostra seu caráter reacionário de forma explícita desde o surgimento de canais na internet como Dignidade Médica, que disseminam todo o racismo, classismo, preconceitos de cor, raça e orientação sexual há muitos anos. Antes das redes sociais este fenômeno ficava restrito às salas acarpetadas de cafezinho dos hospitais. Agora… os monstros estão todos à solta.

Cabe a nós, ativistas da humanização, mostrar que o combate à violência obstétrica não é obra de “hippies”, “radicais comunistas” ou outras promotoras de “balburdia”, mas de um coletivo de pensadores e ativistas que se debruçam há muitos anos sobre o tema da violência de gênero no Brasil e no mundo. É digno de nota que inclusive elementos progressistas da própria corporação médica reconhecem a justeza do termo – além de sua consagração pelo uso – e entendem a necessidade de fazer algo a respeito dentro da prática cotidiana da obstetrícia, num exercício saudável de autocrítica e visão de futuro..

É importante que os ativistas, que sempre foram a locomotiva a puxar os movimentos articulados pela dignidade no parto e contra a violência obstétrica, se posicionem de forma vigorosa e contundente contra este tipo de iniciativa, denunciando o atraso em conquistas históricas por uma maternidade digna e segura que tal manifestação oficial significa.

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Tango

A Humanização do Nascimento, como qualquer movimento social que desafia sistemas de poder alicerçados sobre o patriarcado e o capitalismo, caminha dois passos para frente e um para trás. Sua diversidade e complexidade, albergando em seu seio correntes e visões bastante diferentes, são suas maiores virtudes, ao mesmo tempo que são seus maiores entraves. Apenas a brutalidade do autoritarismo é capaz de fazer um movimento assim se apressar, mas suas conquistas se tornam frágeis – como nossa democracia – se não tiverem a lhe sustentar a maturação lenta produzida pelo choque incessante (e por vezes enfadonho) do contraditório.

A esperança de um porvir radiante para o parto e nascimento, onde o protagonismo da mulher será garantido por uma visão interdisciplinar e uma prática baseada em evidências, ficará para as próximas gerações. Por enquanto ainda teremos que debater muito sobre papéis, funções, direitos e lugares. Enquanto isso, a violência continuará sendo combatida com tenacidade e perseverança, enquanto os progressos serão como o vai-e-vem dos passos lentos e sensuais de um tango.

Como exemplo dessa dança de idas e vindas faz alguns dias eu li sobre uma médica ginecologista do norte do Brasil que resolveu investigar a possibilidade de o relaxamento produzido pela música auxiliar em casos de apresentação pélvica (bebês sentados). Analisou seis casos na sua clínica nos quais quatro deles mostraram resultados positivos (os bebês migraram para a posição cefálica). Entusiasmada com os resultados dessa abordagem, e perseguindo a ideia de que a posição fetal se estabelece pela presença ou não de sintonia entre mãe e bebê, ela inscreve este estudo de casos em um congresso no estrangeiro para apresentá-lo.

Quando da aceitação desse trabalho foi entrevistada por um jornal de sua cidade. Certamente que, por estar distante do centro do país em uma cidade de pequena expressão, sua presença como expositora em um congresso internacional foi uma notícia de maior relevância local.

Quando a notícia atingiu os defensores da humanização do nascimento ela foi, para a surpresa de alguns, mal recebida. A razão para essas críticas foi que o pressuposto de que a posição fetal era determinada por questões maternas aumentaria nas mulheres a carga que elas precisam carregar. A interpretação de algumas ativistas foi: “querem aumentar a carga de culpa das mulheres, algo que já é por demais pesado”.

A recepção depreciativa do trabalho dessa pesquisadora me deixou inquieto. Afinal, qual o crime de investigar uma forma suave e não intervencionista de virar bebês dentro do útero? Fiquei intrigado com tamanha má vontade pelo tema.

Curiosamente, algumas das manifestações me soaram extremamente parecidas com as opiniões expressas por médicos reacionários a respeito da influência das doulas nos aspectos emocionais e psicológicos das mães durante o trabalho de parto e do parto. Diziam eles: “Agora era só o que me faltava botar uma desqualificada para fazer massagem e vir me dizer que isso vai resolver um transverso persistente. Pufff…”

Fiquei impressionado com o grau de preconceito que (ainda) viceja na humanização do nascimento. Percebi que uma parcela expressiva dos profissionais humanistas não acredita que o estado emocional de uma gestante tem influência em aspectos absolutamente grosseiros do estado físico dela e do seu bebê. Pareceu a mim existir um consenso cartesiano de que os estados emocionais e os aspectos somáticos são vasos incomunicáveis e estanques. Todavia, eu lembro que se apostamos tanto no conceito “mãebebê” não seria de se pensar que as questões que afligem a mãe também se refletiam no bebê? E a forma como o bebê reage a estas emoções – que são estudadas há décadas por psicólogos – não poderia se refletir em sua adaptação no útero a partir de uma adaptação postural reativa à atitude corporal da mãe?

Assim, por que tanta resistência em aceitar as relações entre questões emocionais e físicas? Por que negar com tanta veemência que bebês respondem, já dentro do útero, às manifestações de angústia, medo, apreensão e até alegria de sua mãe? Se alegamos em alguns momentos a unicidade entre mãe e bebê porque a negamos quando as coisas não ocorrem da forma como desejamos?

Eu me pergunto: quem não ficaria entusiasmado caso tivesse no consultório seis pacientes de apresentação pélvica para as quais fosse utilizado música e QUATRO delas virassem o bebê? Mesmo sabendo que isso não tem valor estatistico, não seria motivo de euforia? Não seria um estímulo para se aprofundar no tema? Já vi gente abandonar práticas comprovadamente seguras para a assistência ao parto após o aparecimento de apenas UM caso funesto…

Outra pergunta que me atingiu: por que tamanha insistência no tema da culpa? Será realmente necessário usar essa palavra SEMPRE? Eu creio que continuamos a confundir “culpa” com “responsabilidade” por razões diversas e até mesmo inconscientes, todavia, a insisteência de livrar a mulher da culpa por sua situação acaba produzindo um desagradável parefeito: a alienação. De fato, se acreditamos que as mulheres nunca tem responsabilidade pelo que lhes acontece, já que tudo é imposto a elas pela natureza ou pelo modelo social que as manipula, então jamais poderão ser protagonistas. Isto é: sem assumir a possibilidade de arcar com responsabilidades as mulheres não poderarão alcançar o protagonismo. Não há como ser passiva e exigir o controle de suas vidas.

E, só para terminar, era mesmo necessario mesmo fazer uma queimação pública – com pitadas de escárnio – de uma profissional que se aproxima de muitos temas que nos são caros? Precisava rotular como charlatanismo? Não seria justo lembrar que este foi o tom usado contra a humanização durante 30 anos? Vamos repetir este modelo cibernético de “fritagem de reputações” sempre que discordamos do trabalho de alguém?

Ela é cesarista? Ela promove abuso de tecnologia? Ela objetualiza pacientes? Ou ela pesquisa uma forma de deixar as mulheres mais livres colocando em suas mãos o poder (ou a possibilidade) de mudar a posição do seu bebê?

Será mesmo que haverá um dia em que viraremos o jogo, tomaremos as rédeas, assumiremos a narrativa hegemônica do parto, com plena comprovação de nossas teses mestras e agiremos como perfeitos opressores vingativos contra qualquer proposta dissidente que nos ameace?

Parece que o mestre Thomas Kuhn tinha razão e clarividência.

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Invasões Bárbaras

As manifestações de médicos atacando os avanços do protagonismo feminino – em especial planos de parto – são parte do velho modelo anacrônico, carcomido, ultrapassado e embolorado da obstetrícia misógina brasileira. Tais profissionais usam a retórica oportunista de se vitimizar, colocando-se como perseguidos e injustiçados por uma horda de mulheres enfurecidas e cheias de “sangue nos olhos”. Posso garantir que mulheres que fazem planos de parto não são movidas por ódio, mas são as pontas de lança da idéia de “gestação participativa”

As acusações contra as mulheres que se informam e reivindicam são pura balela. Quem já passou 5 minutos dentro de um centro obstétrico de hospital privado sabe como acontecem as pressões e os constrangimentos a elas impostos. Estes sequer se iniciam ali; em verdade são o corolário de um processo que começa no primeiro comentário sobre a “bacia pequena”, a pouca (ou muita) idade, os riscos de sofrer todo o processo e não “ter passagem”, a segurança da medicina “moderna” (tecnológica), a crueldade dos partos “animais” e os riscos de ocorrer algo muito grave num parto pela vagina. Sem falar no “estrago” que uma criança é capaz de fazer ao “parquinho de diversões” do marido.

O discurso da obstetrícia nacional ainda é uma expressão de poder que, em cada detalhe – do excesso de exames à forma depreciativa como se descreve o processo de parir – traduz a visão diminutiva que ela (a obstetricia) cultiva sobre a mulher e sua fisiologia. É o que chamo de “misoginia estrutural”

A fala desses sujeitos apenas reproduz o que se escuta na Escola Médica e nos corredores e cafezinhos do hospital. Os médicos são descritos por si mesmos como vítimas de pacientes obcecadas e transtornadas, sem que possam entender de onde vem tanta ingratidão. Não raro culpam a Internet e as “ativistas loucas”.

Ingratas….

Sim, porque para eles cada mulher que vai parir não deve ao seu obstetra menos de que a mais absoluta gratidão por salvá-la de uma natureza má e cruel, que ofereceu como veículo de sua alma nada mais do que uma “máquina defeituosa e ineficiente”.

É contra essa imagem deturpada do corpo das mulheres e o questionamento radical de quem verdadeiramente o controla que se faz um Plano de Parto. É para que os médicos saibam que seu conhecimento tem valor e merece respeito, mas que não está acima da soberania que todos nós temos sobre nossos corpos e almas.

A história lembrará desse tempo como a invasão bárbara sobre o território dos corpos femininos. Lembraremos dessas falas reacionárias como os estertores do domínio espúrio sobre a sexualidade das mulheres. A partir daí um novo tempo surgirá, onde as parcerias serão feitas de forma mais livre e justa, garantindo o respeito pela autonomia, que se manterá pairando impávida sobre todas as palavras e gestos.

E que assim seja.

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Desejo maternal

A vontade de ser mãe não é um desejo genuíno? É culturalmente construído? Bem, podemos pensar que o patriarcado tem 100 séculos, portanto muito recente para uma humanidade que tem 200 mil anos de idade. Passamos 95% da nossa existência fora do patriarcado, que é uma criação social razoavelmente nova.

Então eu pergunto: como era antes disso? As mulheres tinham filhos por qual razão? Não havia “pulsão” sexual e desejo de gestar? Todo o desejo de maternar é socialmente construído? Ou, como penso, socialmente “moldado”, mas pertencente à essência de qualquer espécie?

Penso que o desejo de ser mãe é genuíno e constitutivo. É feminino e essencial (da essência, para além da cultura). Não há grupamento animal em que esse instinto não apareça de forma gritante e violenta, irrefreável e inexorável, obedecendo ao único ditame pétreo da vida: a sua perpetuação.

Por outro lado, não aceitar como fato o relógio biológico que a natureza criou nas entranhas femininas não faz nenhum sentido. Como querer negar que uma mulher perde gradativamente sua capacidade reprodutiva ao passar dos 40 anos? E como negar que os homens a mantém indefinidamente? Tenho parentes homens que foram pais depois dos 50, coisa que não ocorreu com nenhuma mulher da minha família. A senescência ovariana, e a consequente perda da capacidade reprodutiva, talvez sirvam mesmo ao que alguns antropólogos chamam de “efeito avó” que aumentaria o sucesso reprodutivo das comunidades primitivas.

Sem dúvida que é possível falar da sociedade que massacra as mulheres com um essencialismo reprodutivo anacrônico. É válido inclusive denunciar uma cultura que coloca a maternidade como única forma de expressão social das mulheres. Todavia, a exaltação de todas as outras potencialidades femininas não pode chegar ao ponto de negar a pulsão de vida inscrita e expressa na maternidade ou não reconhecer a importância do relógio biológico. E este tal “Relógio biológico” apita mesmo e, por isso, as mulheres que desejam gestar e parir precisam levar em conta que o relógio não perdoa. Aí estão as “clínicas de fertilidade” em cada esquina que não me deixam mentir.

Circunscrever a felicidade ou a realização da mulher à maternidade é uma tolice, que aos poucos vai desaparecendo na cultura. Porém, acreditar que na inexistência de um desejo genuíno de gestar, ou que não existe um tempo (curto nos dias de hoje) para parir, é muito pior.

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