Chima

Muitas coisas na vida custam caro, outras são absolutamente gratuitas. Quer dizer: não são monetizáveis e sobre elas não se pode arbitrar um valor convertido em moeda.

Perguntada por uma repórter se haveria algo pelo que ela trocaria toda sua fama e fortuna, Madonna respondeu sem pestanejar: “uma mãe” (Madonna perdeu a sua muito cedo na vida). Este amor primordial não pode ser mensurado, mas para ela valeria mais do que qualquer fortuna que porventura pudesse ser acumulada.

Outra coisa que não tem valor monetário eu só percebi depois de velho. Numa das viagens de Robbie ao Brasil, caminhando comigo por um parque aqui em Porto Alegre, ela me perguntou se poderíamos sentar num bar e pedir um chimarrão. Somente naquele momento me dei conta que a bebida símbolo dos Gaúchos não pode ser vendida. Não existe comércio de chimarrão, e vendê-lo seria um crime tão grave que daria espaço para discutir a aplicação da pena capital.

Uma roda de chimarrão é das coisas mais bonitas do Sul, e sempre aparece a história da “véia que morreu com uma cuia na mão”, entre outros folclores. Imaginar que o chimarrão pudesse ser vendido causaria arrepios em qualquer pessoa que vive aqui. Nem a água quente para regar o mate pode ser cobrada nos parques. É o que eu chamaria de uma verdadeira bebida sagrada.

Você pode pagar por cerveja, tequila, cachaça, café, talvez até ayahuasca (escutei isso mas não tenho certeza), porém não é possível pagar por um chimarrão. Ele é oferecido graciosamente como um gesto de amizade e confiança, estabelecendo um laço afetivo e de comunhão com quem entra em nossa casa, ou no nosso coração.

O amor também deveria ser assim, totalmente livre e desmonetizado. Deveria ser oferecido como um gesto de absoluta confiança e desapego, uma conexão das almas que não se vergam ao mundo das coisas. Um encontro onde apenas a felicidade daqueles envolvidos é o prêmio superior.

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Medicinas

Então está combinado: agora é o chá de ayahuasca que tem a potencialidade de curar dependência química e muitos outros distúrbios orgânicos. O programa Fantástico, da Rede Globo, fez uma extensa matéria sobre o tema, outras mídias igualmente falam constantemente das propriedades desta combinação de plantas há anos. Entretanto, agora parece que o chá está definitivamente na moda e muitos estão comentando.

Também a maconha exerce esse fascínio, muito pela sua relativa proibição (que comparte com a ayahuasca) e também por apresentar resultados positivos em algumas doenças – em especial transtornos neurológicos. Aliás, a Cannabis também é regulamentada, em muitos lugares do mundo. Entretanto, por tantos decênios de proibição ela carrega a aura de “erva proibida”. Sobre a ayahuasca também paira – de forma diversa – essa aparência de droga exótica e mágica, mas também proibida ao consumo geral. Existem, por certo, experts no seu uso medicinal que descrevem maravilhas sobre sua ação no organismo.

Não duvido do uso benéfico da ayahuasca (que usei e tive uma reação folclórica) e muito menos das ações da cannabis no organismo – que fumei uma vez e que me produziu uma crise irresistível de riso. Tão evidente é a ação da maconha que ela tem seus efeitos tabulados na Matéria Médica homeopática em suas duas versões: sativa e índica.

Todavia, apesar de confiar na ação farmacológica dessas medicações, creio que elas apontam para a mesma direção: a busca da cura das doenças através de um elemento exterior, que seja capaz de curar múltiplas doenças através de um elixir totipotencial. Na verdade o uso dessas plantas é uma vertente paralela à medicina alopática exógena, que entende que a cura surge de fora, pela adição de um elemento curativo, e não pela transformação interna do sujeito. Trata as doenças como elementos passíveis de conserto de “fora para dentro”, exatamente como o faz a biomedicina tecnológica contemporânea. É importante deixar claro que “medicina exógena” não tem valor negativo, é apenas a sua classificação na perspectiva antropológica. Tem a ver com a compreensão de um elemento de fora do corpo que o penetra para produzir ou devolver a saúde.

Pessoalmente, não acredito em medicinas heroicas. Minha perspectiva é de que a cura da maioria das doenças se dará com elementos muito mais simples, como dietas saudáveis, exercício e a diminuição da angústia causada pelo modelo de vida produzido pelo nosso modelo econômico. Entretanto, é óbvio que estas ações são contrárias à roda da fortuna do capitalismo, não geram lucros e não vendem produtos. As doenças já são um negócio trilionário. Em nível planetário a indústria de drogas atingiu US$ 1,74 trilhões em vendas no ano de 2020. Já o mercado brasileiro movimentou R$ 76,98 bilhões no mesmo ano, com uma alta de 8,58% sobre o exercício anterior, representando 4,7 bilhões de unidades (caixas) vendidas.

A ayahuasca é uma substância química que produz alterações psíquicas. Portanto, é uma terapêutica exógena, um processo endorcista, de fora para dentro. É regulamentada hoje, mas depois de anos de luta para ser vista como elemento ritualístico de uma cerimônia de caráter espiritual, e não como psicotrópico. De resto concordo com você no que fiz respeito à responsabilidade e seu valor subjetivo.O modelo exógeno de tratamento das doenças (outside in) não começou com a biomedicina tecnológica atual, mas tem suas raízes na aurora da humanidade. Desde sempre desejamos (ou nos iludimos com) a panaceia, o elixir da juventude, a poção mágica, o espinafre do Popeye, os raios Gama do Hulk, o elixir do Asterix ou o amendoim do Super Pateta. A indústria trilionária de drogas apenas aproveita essa característica humana de encontrar fora de si mesmo a cura dos seus males. Cabe a nós entender que a maioria das doenças está nos vícios e maus hábitos e na estrutura perversa da sociedade capitalista, onde viceja o “homo homini lupus”.

Mesmo com aparência de “medicina natural” ou de possuir uma perspectiva inovadora, a entrada dessas terapêuticas segue o mesmo caminho das outras drogas no mercado: uma solução externa para dar conta de comida ruim e cancerígena, sedentarismo atrofiante e uma vida pautada na ansiedade e na competitividade destrutiva do nosso modelo econômico. Produzimos muletas químicas para os nossos desajustes sociais mais profundos, sem perceber o quanto eles são criados – e até estimulados – por essa mesma sociedade. Não resta dúvida que a ayahuasca e a cannabis serão em breve incorporadas pela farmacopeia das grandes multinacionais de drogas, para gerar indicações exageradas e lucros imensos.

Continuamos a oferecer soluções exógenas para dramas que a sociedade capitalista – que lucra com as doenças – impõe a todos nós. Ainda agimos como o médico do Posto de Saúde que repete prescrições de vermífugos para crianças infestadas de parasitas que vivem à beira do esgoto à céu aberto.

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Orgulho Hétero

Cuiabá decreta “Dia do Orgulho Hétero”. Resta saber como será o desfile.

Sugestões:

  • Haverá bandeirinhas penduradas em mastros artificialmente erguidos por Viagra.
  • Cada membro na marcha carrega um banner com o número exato de anos em que está mantendo sua heterossexualidade. Será a ala “Ainda, mas tá difícil”.
  • Haverá um grupo de homens vestidos de mulher dançando freneticamente. Será a ala “Viu, é só brincadeira”.
  • O porta bandeiras será um gordão peludo com um chinelo matando baratas e levando o lixo pra fora.
  • Na apoteose eles farão com seus corpos um desenho na pista (que só se vê com os drones) onde aparece a cara do presidente fazendo arminha com a mão.
  • Na rabeira do desfile uma série de executivos de maleta, paletó e gravata com os filhos e a mulher, segurando uma bíblia na mão. Será a ala “Casado procura no sigilo”

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Freud e Bolsonaro

Eu escutei uma fala do Breno Altman que serve para entender o bolsonarismo e a razão pela qual a evidência de corrupção em toda família Bolsonaro não parece abalar seu núcleo duro de apoiadores. Em sua fala Breno contava sobre uma convenção fascista na Itália de Mussolini. Em determinado momento, após falas violentas e inflamadas, um ativista se vira para outro e pergunta:

– Certo, eu entendi. Temos ódio aos políticos, à própria política e às instituições podres e corrompidas da Itália. Odiamos o sistema e queremos destruí-lo com todas as nossas forças. Sabemos que somente a morte desse modelo poderá produzir uma Itália livre e poderosa. Mas, e depois? Preciso saber qual é o nosso plano.

Seu colega, mais experiente e conhecedor do âmago da proposta fascista, responde:

– Você não entendeu, seu tolo? É o ódio. O ódio é o nosso plano.

Sem Freud não há como entender Bolsonaro…

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Dinheiro

Falso dilema. O dinheiro REALMENTE não compra a felicidade, mas dizer isso NÃO significa romantizar a pobreza, e tão somente reconhece que o dinheiro se relaciona aos desejos, os quais são infinitos por definição. Boa comida não é felicidade, apesar de nos propiciar momentos felizes. Pobreza é carência material no nível das “necessidades”, e para eliminá-la pouco dinheiro se faz necessário. A frase que mais bem sintetiza esse conflito vem de Sêneca: “A pobreza não surge pela carência dos recursos, mas pela profusão dos desejos”. Assim, quem muito deseja, muito sofre.

Para não se romantizar a pobreza acabamos seduzidos pelo seu antípoda e romantizamos o dinheiro, como se a riqueza material fosse capaz de dar conta da angústia essencial humana. O número gigantesco de milionários infelizes, adictos ou autocidas, cuja miséria humana se constata no vazio existencial que cultuam no seu mundo cercado de dinheiro e posses, mostra que a capacidade do dinheiro em produzir completude e felicidade é limitada – e talvez inexistente.

Já tive muito dinheiro e hoje tenho uma vida modesta. Não vejo nenhuma diferença de qualidade entre as vida que tive. Em ambas recordo os encontros e todas as coisas gratuitas que a vida me proporcionou. Tenho como ideia de que “todas as coisas na vida realmente valiosas são gratuitas”. O olhar do seu amor, o nascimento dos filhos e dos netos, as conversas com meu pai, o almoço com minha mãe, as brincadeiras com meus irmãos, as piadas, as histórias; todas lembranças feitas de encontro e convívio. Todo o resto, aquilo que pode ser comprado, não me traz nenhuma memória afetiva superior às coisas simples da vida.

Uma vez convidei um amigo para viajar à Europa comigo. Ele estava muito deprimido e declinou do convite. Diante da minha insistência respondeu: “Para quem está deprimido a beleza de Paris desaparece, seu encanto se esconde por detrás da tristeza e do amargor. De que valeria tanto brilho para uma alma incapaz de sentir sua luz?”

Uma pergunta sincera: vale a pena investir no enriquecimento e morrer de cirrose ou infarto aos 40 anos? Com a família destruída e os filhos se matando pela herança? Cheio de amores falsos e interesseiros? Vivendo de aparências? Colocando valor em coisas e objetos ao invés de afetos e relações? Sabendo que todos à sua volta valorizam o que você tem é não quem você é?

Bem… isso se chama romantizar o dinheiro, acreditando numa potencialidade falaciosa que lhe garantiria a compra de algo que – em verdade – não se pode comprar.

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Ressentimentos antigos

Há uns 25 anos organizei um seminário em Porto Alegre para homenagear uma instituição na qual eu era diretor e que estava completando 55 anos. A homenagem se estendia também ao seu fundador, falecido há algumas décadas. Fizemos vários painéis e convidamos alguns palestrantes da área de atuação do ambulatório para falar das múltiplas características do nosso atendimento.

Resolvemos convidar também um colega do fundador que ainda estava vivo, um velho farmacêutico que trabalhou com ele nos anos 50-60. Eu, particularmente, achei que seria uma ótima oportunidade de escutar alguém falando de uma personalidade que havia morrido antes mesmo de termos nascido, mas que havia criado com imenso sacrifício a instituição que nos abrigava.

Dizem as más línguas que o terreno onde a instituição ficava havia sido comprado com dinheiro ganho por este personagem em uma mesa de cartas, mas aí a lenda se confunde com a história.

Deixamos a palestra do velhinho para o encerramento do seminário. Não consegui esquecer suas palavras, mesmo com tantas décadas já passadas. Convidamos ele para compor a mesa e apresentamos sua história de vida. Depois solicitamos que nos falasse da sua relação com o nosso homenageado, o fundador da instituição, e do convívio que tiveram. Ele olhou a plateia, estalou os lábios e disse.

– Muitos anos já se passaram desde que convivemos nesta casa. Entretanto não poderei jamais esquecer seu temperamento irascível, seu caráter rabugento, sua falta de escrúpulos e sua má índole. Eu não tenho nenhuma boa palavra para dizer sobre ele. Em verdade preferia tê-lo esquecido por completo, pois nenhuma lembrança boa parece surgir em minha memória.

A coordenadora da mesa tentou tergiversar, mudar de assunto, mas o constrangimento foi inevitável. Agradeci sua presença e ainda lhe entreguei uma placa comemorativa.

O fato de serem contemporâneos e terem atuado na mesma área não deveria nos fazer supor que eram amigos. No caso, eram desafetos de muitos anos mas não nos ocorreu que isso fosse possível.

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A Serviço do Imperador

Sim, Haruki, eu escrevo sobre qualquer coisa, todos os dias. Tão logo um pensamento galopa pelas ondas escuras do meu cabelo, ele cai à minha frente vertido em tinta. Escrevo qualquer coisa que se possa acomodar entre as letras, qualquer lembrança que faça cócegas pretéritas, qualquer ideia, todas as percepções, todas as imagens vívidas do passado, de qualquer lugar, modo e circunstância. Faço isso de forma compulsiva, metódica e premente, mas não de uma maneira laboriosa e dolorida. Porém, reconheço seu caráter exonerativo; escrevo como quem aperta um abscesso cuja dor alivia quando se abre para o ar.

Escrevo ainda mais pela premência da morte, o desenlace definitivo, o fim que me aguarda num ponto adiante qualquer no traçado da vida. Escrever passou a ser meu contrato para driblar o esquecimento inexorável que me aguarda. Paradoxalmente, enquanto a vida se restringe às quatro paredes desta cela, parece que nunca me aventurei tão distante nas minhas lembranças; a constrição do corpo abriu um portal de memórias que a pletora de liberdade não me oferecia. Como um cego que agora saboreia com requinte os ruídos e cheiros – outrora subtraídos pela volúpia da luz – minha fantasia corre solta, minhas lembranças são vívidas e claras e minha saudade colore de dor cada reminiscência. Nunca fui tão longe sem precisar me mover.

Pela nossa minúscula janela gradeada vejo a neve vergar o galho da cerejeira no Kōkyo Higashi Gyoen, o parque Imperial, mas só o sei porque a enxergo todos os dias nas minhas memórias. Para mim o peso dos flocos dobrando os galhos finos é tão real quanto o som da sirene avisando a chegada da noite ou o barulho metálico das trancas nas portas de ferro.

Não me pergunte, Haruki, porque escrevo. Escrever é o que ainda me permite respirar.

Tatsuki Shinkai, “A Serviço do Imperador” (天皇陛下のお仕えに.) Ed. Orient Press, pag 135.

Tatsuki Shinkai é um escritor japonês nascido em 1925 em Osaka e que lutou na guerra contra os Estados Unidos. Formou-se em literatura mas logo depois alistou-se no exército Imperial japonês no esforço de guerra. Patriota e entusiasmado com o expansionismo japonês na Ásia, fazia parte da tripulação do porta-aviões Akagi que foi afundado pelos navios americanos na batalha de Midway. Conseguiu saltar do navio em chamas e foi resgatado pelos inimigos, enviado posteriormente como POW (prisioneiro de guerra) para Pearl Harbor, onde permaneceu em um campo de concentração até o final da guerra.

Tatsuki foi libertado em 1946 e voltou para sua cidade Osaka, encontrando-a parcialmente destruída. Durante os anos em que esteve prisioneiro escreveu um diário em formato de diálogos com seus parceiros de cela, onde aborda assuntos como o sentido da vida, a liberdade (e sua ausência), honra, guerra, pátria e fé. Negou-se a publicar seus diários durante os 20 anos que se seguiram à derrota japonesa, e só após a morte de seus pais em 1966 resolveu entregar seus manuscritos a uma editora japonesa.

Seu livro obteve um enorme sucesso no Japão, mas também nos Estados Unidos, em função das graves acusações ao governo americano a respeito dos campos de concentração para os americanos de ascendência nipônica. Depois do sucesso do livro, este foi vertido para o cinema, numa produção japonesa de 1973 do diretor Hayato Watanabe e com Fukuyo Hiroshi no papel do soldado Tatsuki. O famoso diretor Akira Kurosawa refere que o clima melancólico e intimista deste filme, que aborda o trauma e a vergonha da derrota na guerra, produziu enorme influência em sua obra cinematográfica.

Posteriormente, Tatsuki mudou-se para os Estados Unidos para dar aulas de literatura japonesa em Princeton e, a partir desta segunda fase em sua escrita, produziu vários outros ensaios, crônicas e romances, que fizeram grande sucesso entre o público americano. Perto de sua morte revelou que os personagens do seu livro “A Serviço do Imperador” (天皇陛下のお仕えに) pediram que seu nomes verdadeiros jamais fossem revelados, pois que suas histórias poderiam causar vergonha para suas famílias, promessa que Tatsuki cumpriu até sua morte em janeiro de 2010, em Portland, Oregon. Tatsuki nunca se casou e não deixou filhos.

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Honorários

Minha singela opinião sobre honorários, espero que entendam…

Durante mais de 20 anos a minha rotina era dar cursos, palestras, entrevistas e participar de congressos em várias partes do Brasil e do exterior. Meus fins de semana eram cheios de convites de várias localidades que desejavam debater o “Evangelho da Humanização do Nascimento”. No início estas atividades eram por puro diletantismo; fazia porque me dava prazer e porque me ajudavam a levar adiante meu ideário. Quase nunca cobrava pelas palestras, entrevistas e seminários.

Houve evento em que, durante uma palestra (para a qual não ganharia honorários) em uma cidade do interior do meu estado, uma jovem na plateia veio me informar que um famoso mestre estava na cidade realizando um workshop de um tema que guardava semelhanças com o meu, e ele desejava me convidar para inserir uma palestra minha no seu curso. Aceitei, por certo, e lá fui eu dar uma aula no curso dele. O sujeito era o Leonard Orr, recentemente falecido, criador da técnica de “Renascimento”.

Depois da minha palestra – para um grupo de 50 pessoas que estavam fazendo seu curso de imersão – o mestre me convidou para almoçar, quando então pudemos trocar umas ideias e jogar conversa fora. Logo depois de nos despedirmos sua secretária se aproximou de mim e me perguntou sobre os meus honorários.

Pego de surpresa, disse que não cobraria nada, afinal estava na cidade para outra atividade, que era um prazer ajudar, que esta tinha sido uma semente plantada para as ideias de humanização, etc. Ela sorriu e agradeceu. Poucas horas depois, conversando com uma aluna do curso do Leonard fiquei sabendo que aquela imersão de 4 dias havia custado 5 mil reais de cada aluno. Fiquei com cara de tolo pensando que não seria errado cobrar alguma coisa pelo meu trabalho. Mas percebi que o erro havia sido meu…

Entretanto, acho que é importante se fazer uma distinção e “desmoralizar” a questão. Isto é: o pagamento – ou não – do trabalho do palestrante não é uma questão moral, mas uma questão de “costume”, portanto, algo inserido na cultura. A partir de um determinado momento (acho que esse evento foi determinante) eu passei a cobrar pelas palestras e cursos, e avisava desde o primeiro telefonema na hora em que era feito o convite. Sequer perguntava se havia “previsão de honorários”; eu apenas avisava do quanto custava a minha palestra. Se eu sentisse qualquer titubeio eu explicava que para me deslocar para outra parte do país eu precisava ser ressarcido. Mostrava o quanto essa é uma tarefa custosa, difícil e que demanda uma boa parcela de sacrifício.

No pequeno mundo de partos e nascimentos por onde eu circulava as pessoas até já sabiam de antemão os meus honorários, porque isso é uma informação que corria fácil entre os ativistas. Nunca recebi qualquer reclamação por cobrar, mas reconheço até que posso ter deixado de receber convites porque sabiam do pagamento. Por outro lado, jamais cobrei para dar uma entrevista, para ir à TV ou para ir num programa de rádio. Mas por quê? Ora… porque é o costume. Quase ninguém que eu conheço – nem reais artistas de cinema – fazem isso, apesar de ser algo tão custoso quanto dar uma palestra.

As pessoas convidam sem ter noção do valor do profissional. Não oferecer pagamento não me parece desprezo pelo trabalho, mas NÃO COBRAR pelo que se faz com denodo e paixão, sim. Se você reconhece o quinhão de esforço pessoal na preparação e na execução do seu trabalho você estará falhando ao não precificá-lo. Portanto, aqueles que solicitam seu trabalho só vão saber do valor que ele tem se você demonstrar, deixar explícito, se disser o quanto custa e puder cobrar aquilo que é ganho com honra (honorário) de cabeça erguida.

Portanto, quando aquele que convida não aborda a questão do pagamento pode não se tratar de uma “falta de educação”, vindo de pessoas que “abusam” do nosso ofício, mas pode ser apenas uma questão de cultura local. Entretanto, cabe sempre ao palestrante estabelecer regras e limites sobre o seu próprio trabalho. Minha experiência diz que as pessoas normais (excluo os perversos) não se ofendem com o preço que você determina, mas passam a lhe tratar de uma maneira diferente, talvez até mais respeitosa. Assim, acredito que o valor que nos pagam está na exata proporção do quanto demonstramos respeitar o nosso ofício.

Espero ter ajudado…

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Censura

Hoje, assistindo o noticiário, escutei de um jornalista de esquerda a ideia de que a liberdade o autoriza pensar, “mas não pode externar“. Ufa… quer dizer que ter pensamentos livres ainda é permitido?? Sim, mas falar o que pensa é “crime de opinião”, por certo…

É esse o pensamento de esquerda? É assim que defendemos a ampla liberdade de expressão? Quem arbitra o que pode ou não ser dito? O Ministro colocado no cargo pelo golpista Temer????

Quando o cortador de pé de maconha voltar suas baterias contra a liberdade de imprensa e contra as esquerdas será que esses liberais de esquerda vão continuar a exaltar o careca dessa forma subserviente e genuflexa como o fazem agora? O PCO é um partido pequeno e foi covardemente atacado pelo ditador de toga, mas nessa ocasião poucos reclamaram. Rui Costa Pimenta foi censurado “preventivamente” em vários canais pelo crime de acertar em quase tudo. O Brasil 247 teve centenas de vídeos censurados, mas afinal foi para combater “fake news”, certo?

Quando os ataques forem contra o governo Lula quem estará a postos para defender a liberdade de expressão? Preciso citar o pastor luterano Martin Niemöller mais uma vez aqui? “Quando os nazistas vieram buscar os comunistas, eu fiquei em silêncio; eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas…” etc.

Pois eu já sei quem estará na defesa da liberdade irrestrita de expressão: o PCO – combatente da primeira hora – mas terá ao seu lado não o conjunto de partidos à esquerda do espectro político, mas a direita mais fascista que temos, porque a esquerda de hoje se junta aos reacionários do judiciário em nome da luta contra o Bolsonaro, como se ele, e não o fascismo que representa, fosse o inimigo. A franja reformista liberal dos nossos dias é o maior exemplo de bundamolismo de que se tem notícia. É triste reconhecer isso quando a luta contra a censura já foi a grande bandeira na minha juventude, e agora esta turma brada aos quatro ventos “Somos contra a censura…. mas depende”.

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Guerra Moral

Eu entendo as boas intenções desses religiosos, mas sei que existe um conceito por trás desse gesto que frequentemente nos leva para o lado errado do debate.

Esses três personagens – clérigos das três grandes religiões abrahâmicas – estão igualmente relacionados aos massacres ao povo Palestino, em especial em Gaza. Em geral, querem nos fazer crer que existe um elemento religioso nessas disputas. Todavia, apenas os tolos acreditam que a solução desses problemas se dará através da comunhão de pastores, rabinos e padres, como se as questões do colonialismo e da iniquidade fossem morais e as religiões pudessem resolvê-las. Isso é falso. Minha perspectiva é de que, se esse encontro pudesse trazer qualquer solução ao bolsonarismo que nos aflige, bastaria ir a Gaza, dar as mãos, fazer uma marcha ecumênica pela paz envolvendo estas religiões e o conflito se resolveria. Entretanto, todos sabemos que o drama da pobreza no Brasil e a ocupação sionista da Palestina NADA tem a ver com as religiões.

Imaginar o contrário é seduzir-se pela mentira. Nada se resolve com esse tipo de iniciativa. Aliás, o próprio Jesus dizia que “não vim trazer a paz, mas a espada“. A solução só poderá através da luta de classes, pelo enfrentamento ao colonialismo assassino e contra o Imperialismo opressor. Às religiões nada tem a ver com os dilemas profundos do Brasil e não são a solução para nossa miséria. O fundamentalismo religioso evangélico no Brasil não tem nada de religiosidade – basta ver o amor à violência e a veneração às armas – mas tem uma adesão clara aos valores conservadores e apenas por essa interface se comunica com a política. Ambos – conservadorismo e religião – aceitam a opressão como natural, e só por isso estão irmanados. Não há cristianismo em Bolsonaro assim como não há nada de judaísmo nos invasores europeus que fazem limpeza étnica na Palestina.

Misturar esse debate é ação diversionista. As religiões nunca foram motivo para as guerras, mas foram frequentemente usadas para camuflar interesses geopolíticos e econômicos. Esses três clérigos estão, mesmo sem o saber, estimulando o uso dessa camuflagem ao nos fazer crer que as religiões unidas poderiam ser um obstáculo ao avanço do bolsonarismo. Para mim o que existe de mais chato nos debates atuais é quando os liberais reclamam de posições radicais, dizendo que o radicalismo impede o consenso. Confundem o conceito de radicalismo com o extremismo. Extremismo é o que vai até o extremo – e dificulta uma posição que possa produzir acordos – enquanto o radical (do latim “radix”) vai à RAIZ, por isso o nome. Por certo que sou radical, e por isso mesmo não me deixo seduzir pelas propostas de amor e comunhão que os religiosos tentam nos oferecer, que nada mais são que uma versão romantizada e contemporânea da “pax romana”.

Ou seja: “calem-se, deixem tudo como está e não toquem nas feridas sociais pois isso atrapalha a nossa “paz” e a comunhão entre as classes“. Eu prefiro o barulho das espadas se chocando em combate do que o silêncio das adagas na garganta. Isso é ser “radical”: entender que não existe paz oferecida graciosamente, muito menos uma paz que trata conflitos geopolíticos e econômicos como simples questões morais, como uma guerra do “bem contra o mal”.

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