Arquivo da tag: Palestina

Sionismo canhoto?

Nesta semana (10 outubro 2023) o professor e pesquisador Michel Gherman abandonou um debate sobre a crise da palestina na PUC do Rio de Janeiro. Na ocasião ele proferiu a seguinte frase “O Hamas é um grupo terrorista e o que aconteceu foi uma ação da pior espécie”. Neste debate é possível ver uma universitária, que afirma ser judia, protestando contra a presença do professor Gherman e dizendo que “95% (dos que estão aqui) não estão se sentindo representados por Michel Gherman”. Surge então a questão: como pode este professor defender uma proposta colonialista e racista como o sionismo, atacar a resistência palestina, aceitar a revanche sangrenta de Israel e ainda assim considerar-se de “esquerda”?

O proclamado “sionismo de esquerda” – um oxímoro ridículo – tem em Michel Gherman uma de suas mais potentes vozes há muito tempo. A narrativa usada pelos defensores da “conciliação” para o drama na Palestina é sempre a mesma: a culpa não é da ocupação, nem da opressão, muito menos da limpeza étnica. Não ocorre por causa do apartheid ou do racismo; a culpa é da extrema direita que governa o país na figura de Benjamin Netanyahu. Para estes personagens (que recebem um destaque incompreensível do jornalismo nacional, inclusive entre os progressistas) se a esquerda estivesse no poder não haveria tanta e tão disseminada violência, esquecendo que nas primeiras duas décadas da existência de Israel os governos eram encabeçados por elementos da esquerda israelense. Porém, apesar do esquerdismo de fachada, a brutalidade era a mesma que hoje testemunhamos – apenas sem câmeras nos celulares para testemunhar o horror dos massacres.

Entretanto, como toda dissimulação, a pretensa postura condescendente e “pacifista” destes falsos democratas desaparece como num passe de mágica nos momentos de crise. Os eventos apicais, seja no contexto dos sujeitos ou dos partidos, são pródigos em revelar nossa natureza mais íntima. Podemos enganar muitos sobre o nosso caráter durante períodos de calmaria e fartura, mas basta que a fome, a guerra, o caos social ou qualquer ameaça – interna ou externa – brote da placidez do nosso cotidiano para que surja a verdadeira essência, escondida sob as capas de civilidade.

Nesta exato momento Israel bombardeia sem dó ou piedade uma população composta majoritariamente por mulheres e jovens, indefesos dentro de uma prisão a céu aberto, privados das condições básicas para a sobrevivência de seu povo. Quando confrontado sobre o que faria no lugar de Netanyahu diante dos impasses da guerra contra o povo palestino, sua resposta se encontra em sintonia com os valores sionistas – excludentes, violentos e racistas – mais básicos: “Se tivesse chegado onde chegamos (faria) a mesma coisa. Só traria gente competente para assessorar”, disse em uma recente entrevista o professor Michel Gherman. Ou seja, mataria milhares de crianças, asfixiaria Gaza deixando-a sem eletricidade, água ou medicamentos, bombardearia hospitais matando médicos, enfermeiras e feridos e tudo isso em nome do regime racista, opressor e colonial criado no solo Palestino. Ou seja, para ele a manutenção do colonialismo brutal de Israel está acima dos valores humanos mais essenciais.

Não existe possiblidade de juntar no mesmo partido – ou no mesmo sujeito – uma proposta colonial e racista com a perspectiva solidária, humanista e justa que compõe a proposta socialista. Esses sujeitos pró Israel são direitistas, colonialistas e imperialistas até a medula dos seus ossos, mesmo quando seus discursos estão repletos de clichês pacifistas e lugares comuns pela “paz”. Não há verdade alguma em suas palavras quando falam de diálogo, diplomacia e entendimento entre as partes em conflito pois que para o sionismo a única possibilidade em seu horizonte é continuar tratando os Árabes como serviçais e cidadãos de segunda categoria. Pior ainda, gente (ou “animais”, como disse Yoav Gallant, ministro de defesa de Israel) que deveria deixar a Palestina ou morrer, pela expulsão ou pelo extermínio.

A mídia brasileira, acostumada a passar pano para essa falsidade, precisa acordar para o que estes personagens realmente representam. Não existe possiblidade de paz que não surja de uma pressão internacional intensa e sem tréguas contra o sionismo racista e colonial, contra o apartheid e contra o imperialismo. Dar ouvidos aos sionistas é atacar a autonomia e o sonho de democracia na Palestina, pois que o centro das reivindicações sionistas é a manutenção do colonialismo e da opressão do povo palestino.

FREE PALESTINE!!! 

Deixe um comentário

Arquivado em Causa Operária, Palestina

Pesos e Medidas

Para quem acha que os ataques do Hamas foram horríveis, deixo claro que numa guerra nada é bonito. Só é menos feio do que bombardear um edifício de apartamentos enquanto crianças dormem em seus quartos. Responda: a revolução americana que em 1776 encerrou o colonialismo britânico foi realizada com flores, abraços, despedidas e convenções de paz? Os insurgentes americanos não cometeram atrocidades durante a revolta? Seria imaginável que a Revolução Francesa ocorresse sem derrubar a Bastilha e sem as prisões (e morte) de membros da Realeza? As revoluções anticoloniais de Angola, Moçambique e Argélia – que encerraram as dominações cruéis e brutais do imperialismo europeu em África – poderiam ocorrer sem violência? Com diálogo? Com debates? Com acertos e cumprimentos? Ou alguém acha que Zumbi deveria ter sido gentil e “civilizado” com os colonos portugueses que escravizavam e brutalizavam seu povo? Por que esse tipo de civilidade só se cobra quando os oprimidos se insurgem?

A libertação da Coreia do jugo japonês e posteriormente do controle imperialista americano seria possível sem uma guerra sangrenta? Que povo opressor até hoje na história desistiu de seu domínio sem terror? A libertação do Vietnã da dominação da França e dos Estados Unidos seria viável sem utilizar o terror e a guerra sangrenta? Que tipo de libertação de um povo ocorreu sem guerra? Se a guerra é evitável, por que Israel massacra o povo Palestino desde o Nakba? Por que atacam agora ao invés de negociar a paz?

Estes que se horrorizam com as mortes de israelenses quantas vezes se manifestaram contra o terrorismo de Estado de Israel nos últimos 70 anos, que destrói famílias inteiras em nome do colonialismo sionista? Será mesmo que só agora souberam dos massacres, das torturas, das humilhações e do confinamento em Gaza? Por que só agora, quando os oprimidos finalmente reagem, puderam enxergar a brutalidade e a violência “injustificáveis”? Se o ataque do Hamas permitiu que a realidade do horror Palestino viesse à tona, então ao menos algo de bom brotou de tamanha tristeza. Por que dois pesos e duas medidas? Por que desumanizamos mais uma vez os palestinos, condenando-os a sofrer em silêncio, imóveis, sem sequer o direito de reagir ao seu próprio extermínio?

Deixe um comentário

Arquivado em Palestina

Direita israelense

“Isso é culpa da extrema direita judaica”

Até quando vamos aceitar esse tipo de confusão proposital, que tenta nos dizer que a culpa pelos ataques sistemáticos à população palestina é de uma “direita israelense” de caráter fascista e racista? Este tipo de informação quer nos fazer acreditar que a “esquerda judaica” seria progressista e pró Palestina, e que a culpa das arbitrariedades e da limpeza étnica na Palestina é da direita – o que é claramente um absurdo que pode ser comprovado analisando a própria história do Estado Sionista de Israel. É preciso, abandonar essa confusão criada pela “esquerda sionista”, da mesma forma como já está na hora de acabar com a velha conversa de que este grupo “apoia a população palestina e desejam uma solução de dois Estados”, algo que sempre existiu apenas como recurso retórico e diversionismo durante décadas. Jamais houve, por parte de Israel, o interesse de produzir uma solução negociada com os palestinos, pois que eles sabem que o futuro de Israel está vinculado ao desaparecimento dos palestinos. Tanto os governos de esquerda quanto os de direita boicotaram todas as tentativas de uma negociação justa, porque uma solução que reconheça os palestinos e um Estado Palestino soberano não lhes interessa.

Vamos assumir que o culpado para as tensões infinitas e crescentes na Palestina atende pelo nome de sionismo. Esse modelo etnocrático e excludente de colonialismo é uma questão de Estado, não de governo. O sionismo é a força unificadora de Israel, inobstante o partido no comando. Por exemplo; o Ha-Avoda é um dos grandes partidos do país, de centro-esquerda. É um partido social-democrata e sionista, membro da Internacional Socialista. Ou seja, até a esquerda israelense é sionista, portanto luta por um Estado judeu exclusivo, que visa a expulsão dos palestinos – ou os considera cidadãos de segunda classe.

Os massacres contra os palestinos não se relacionam com a direita ou a esquerda israelense, mas com o núcleo ideológico sionista que mantém a coesão do país. No último grande massacre em Gaza em 2014 foram mortos 2500 palestinos, dos quais 500 crianças. Ao se realizar uma pesquisa em Israel durante os ataques 95% da população apoiou abertamente os bombardeios contra a cidade sitiada. Pergunto: havia 95% de fanáticos de extrema direita em Israel? Não… porém 95% dos habitantes daquele lugar não aceitam a existência da Palestina e de seu povo. A ideia de que os problemas de direitos humanos contra Palestinos é por causa da direita israelense não passa de um mito. Não convém esquecer que Israel foi criado por socialistas ateus.

E sobre a grande supremacia da direita em Israel…. a direita sempre se evidencia nas crises. Israel está em eterna crise desde o Nakba em 1948, a qual jamais acabará. A tendência é o crescimento das contradições e um lento abandono do suporte internacional à Israel, em especial dos sionistas evangélicos do “Bible Belt” americano. Aí recai toda a esperança das futuras gerações de palestinos.

“Uniforme nazi? Não pode, manda prender. O contexto não interessa”.

Quanto aos ataques a Roger Waters, acusando-o de ser antissemita, esta é uma tática antiga. Qualquer um que critique a política de Israel – em especial sobre os direitos humanos de palestinos – receberá este rótulo, com o claro objetivo de desqualificar todos que ousem criticar os desmandos de Israel. Assim, se não é possível atingir a mensagem, que se ataque o mensageiro, chamando-o de “racista”, ou antissemita – o que o aproxima dos executores do holocausto. A mesma estratégia foi usada para o líder trabalhista inglês Jeremy Corbyn e qualquer outro que coloque o dedo na ferida viva da Palestina. Portanto, nenhuma novidade nas acusações contra o músico Roger Waters – ex Pink Floyd – mas já podem ser observadas grandes diferenças, pois que hoje se observa um grande apoio ao músico que chegam da comunidade artística internacional e de todos aqueles que desejam a paz no Oriente Médio.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Pinkwashing(ton)

Militante invadiu o campo com a bandeira do arco íris e a camiseta do Superman, com apoio às mulheres do Irã e o apoio à Ucrânia

Durante o jogo de Portugal contra o Uruguai pela Copa do Mundo de 2022 o jogo foi interrompido pela entrada de um manifestante vestindo uma camiseta do “Super Homem” contendo um explícito apoio aos gays e às mulheres do Irã. Entretanto, na sua camiseta à frente, em letras grandes apareciam os dizeres…. “Salvem a Ucrânia”. Claro, não poderia faltar o símbolo Tryzub do nacionalismo ucraniano no braço do ativista.

Sim, o objetivo era associar a luta pelos direitos gays e femininos com a guerra do Otanistão contra a Rússia. Para os novatos parece uma manifestação de apoio aos oprimidos, mas para quem conhece as manobras do poder hegemônico esta é uma tática antiga frequentemente utilizada. Entretanto, é inacreditável como ainda é fácil vender propaganda imperialista para identitários. Como sempre, de início a gente engole sem mastigar mas o problema depois é defecar todo essa mistura indigesta de boas causas com guerra e dominação ideológica e militar. Aliás, a camiseta do Superman é quase um deboche para as mentes ingênuas ou descrentes. Não há nada de nobre e de ingênuo nessa mistura de causas.

Neste caso, a defesa dos oprimidos vem acompanhada de propaganda para a manutenção do poder do Império criando, de forma esperta, um “combo” indissociável. Assim, se você é a favor da causa dos gays, trans, mulheres e qualquer outra minoria precisa estar associado à aventura belicista e russofóbica da guerra da Ucrânia, nem que para isso precise estar também apoiando os grupos nazistas mais violentos, brutais e abjetos da atualidade.

O mesmo é feito em qualquer invasão americana a países soberanos. A isca é sempre “direitos humanos”, “democracia” e “derrubada de tiranos sanguinários” – cujos feitos maléficos são fabricados nos laboratórios de fake news da imprensa hegemônica. Todavia, com isso compramos no “pacote” as guerras de dominação, que ao invadir para controlar o petróleo e outros recursos naturais deixamos um rastro de mais de 1 milhão de mortos durante a invasão no Iraque, grande parte deles de mulheres e crianças.

Aos identitários cabe uma boa parte de responsabilidade pela ingenuidade que os leva a comprar essa propaganda nojenta travestida de boas intenções. A nobre causa dos negros, trans, mulheres, gays, imigrantes, etc não pode ser tratada desta forma repugnante, prostituindo suas intenções originais em nome da garantia de privilégios ao Império. O exemplo do “pinkwashing sionista“* – que criou a falsa ideia de uma democracia sexual em Israel contra a “barbárie” do Islã para encobrir o massacre da população da Palestina – recebe de muitos brasileiros simpatia e apoio, como ocorreu com um ex deputado que defende a causa gay.

É contra esse tipo de engodo que a esquerda – e todos os grupos e partidos anti imperialistas – precisam se opor. Dar voz aos “Cavalos de Troia” que levam o imperialismo escondido no ventre de suas boas intenções aparentes é um crime contra a soberania dos povos.

* Pinkwashing (lavagem rosa ou lavagem de imagem rosa) é um empréstimo linguístico (do inglês pink, rosa, e whitewash, branquear ou encobrir) para referir-se, no contexto dos direitos LGBT, à variedade de estratégias políticas e de marketing dirigidas à promoção de instituições, países, pessoas, produtos ou empresas apelando a sua condição de simpatizante LGBT. A expressão é especialmente usada para referir à “lavagem de imagem” do Estado de Israel que, promovendo a sua população LGBT+, disfarça a violação sistêmica dos direitos humanos da população palestina. (wikipedia)

Deixe um comentário

Arquivado em Palestina, Política

A Coragem de Denunciar

Um professor de história, de ascendência judaica e que no passado lecionou no Colégio Israelita de Porto Alegre durante dez anos, publicou uma “postagem desabafo” sobre o que ocorreu há alguns dias, quando um grupo de adolescentes da referida escola protagonizou um espetáculo hediondo de preconceito de classe, desprezo pelos mais pobres, arrogância e xenofobia. Isso tudo em uma escola de confissão judaica.

A resposta de algumas pessoas da comunidade foi acusar o professor de hipocrisia. Afinal, se havia percebido sinais claros desse tipo de comportamento, por que permaneceu na escola por mais de dez anos? Por que razão não se demitiu ao primeiro sinal? “Ora… deve ser despeito por ter sido demitido, e falta de reconhecimento pela escola que lhe deu sustento”, disseram, em outras palavras, alguns interlocutores.

Curioso: um professor sendo acusado por não ter se demitido. Ou seja: ele está envolto num contexto recheado de atitudes que reconhece como racistas e fascistas atitudes que testemunhou quando do exercício do próprio ofício de educador, mas quando denuncia estas graves arbitrariedades é tratado como culpado por não ter abandonado a instituição previamente.

Filme antigo, não? Essa é a velha inversão de valores, a mesma que é aplicada à mulher que apanha do marido por 10 anos. Quando, esgotada e exausta, decide se afastar do companheiro passa a ser a culpada por não ter pedido “demissão” do casamento a mais tempo. No caso do professor a mesma retórica: ele é o culpado por ter permanecido no cargo, mas esquecem de analisar os condicionantes que afligem qualquer profissional, como salário, contas, família, projetos, profissão, sonhos e também a sua própria ação humanizadora na escola. Sim, por acaso a escola, onde ele estudou e onde criou laços afetivos, ficaria melhor com sua desistência precoce? Ou seria exatamente sua missão manter-se numa escola judaica (que mostrava sinais claros de condescendência com o racismo) para ser o contraponto a essa postura, que é (ou deveria ser) contrária ao próprio projeto pedagógico de uma escola judia: denunciar o racismo e a exclusão?

Não me surpreende que tantos judeus se apressaram a atacar o professor e estejam empenhados em “passar pano” para a Escola. Talvez sejam os mesmos que há poucos anos aplaudiram aquele candidato que falou dos “negros que eram pesados em arrobas“, ou quando disse que sua filha era uma “fraquejada“. Ahh, sim…. houve protestos de vários judeus contrários ao fascismo!! Por certo que sim, assim como há inúmeros judeus que têm consciência dos crimes cometidos contra a população palestina. Todavia, as palmas e os apupos ouvidos no salão da Hebraica do Rio de Janeiro não podem ser apagados da memória, assim como as palavras de desprezo pelos humildes e a aporofobia ditas pelos jovens do Colégio Israelita continuam reverberando em nossas mentes e corações. Benditos sejam aqueles que, diante dessas palavras, sentiram nojo e vergonha e perceberam o quanto elas estão erradas. Triste saber que muitos ainda se esforçam para justificar a barbárie e – pior ainda – atirando no mensageiro.

Os fatos que todos nós presenciamos confirmam essa perspectiva. Não há como passar pano para a barbárie. Não há como fazer de conta que esse não é um problema sistêmico. Dizer que é um fato isolado é uma mentira; ele é a representação de algo que está entranhado nas classes mais abastadas desse país, acostumado com a exploração e o apartheid de classes. É preciso denunciar – não as adolescentes, que de certa forma são vítimas de uma educação falha – mas todos aqueles que as formaram, e aí temos que olhar para a família e a escola. Qualquer coisa diferente disso significa alimentar o monstro do fascismo.

Ao professor Iair Grinschpun (que não conheço, mas já admiro pacas) minha solidariedade e meu apoio pela sua ação e pelo seu posicionamento. Não há porque ele mostrar o vídeo e sequer expor os adolescentes em sua página no Facebook; eles são apenas a parte visível do iceberg que a nossa sociedade terá de enfrentar. É preciso olhar de frente e com coragem para o fascismo e a exclusão antes que eles sejam o sinal dos tempos a anunciar a nossa extinção.

Deixe um comentário

Arquivado em Palestina, Pensamentos

Idealismo Espírita

Falar do espiritismo enquanto doutrina progressista e baseando-se em seus ensinamentos e sua perspectiva científica e adogmática é puro idealismo. Na materialidade, na concretude do real, o espiritismo se apresenta como uma seita cristã (e cristólatra), conservadora, à direita no espectro político e caracteristicamente moralista. O espiritismo não difere de forma consistente de outras expressões religiosas ocidentais no que se refere ao perfil dos seus prosélitos. É uma lástima, pois sua base ideológica prometia ser revolucionária.

No Brasil, justiça seja feita, só as religiões de matriz africana se aproximam discretamente da atenção ao povo preto, pobre e oprimido pelo capital, e ainda assim de forma muito sutil. O cristianismo brasileiro é, acima de tudo e em todas as suas expressões, muito mais ligado à Roma e ao Sinédrio do que ao povo chinelão que comia poeira e gafanhotos na Palestina.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Guerra Moral

Eu entendo as boas intenções desses religiosos, mas sei que existe um conceito por trás desse gesto que frequentemente nos leva para o lado errado do debate.

Esses três personagens – clérigos das três grandes religiões abrahâmicas – estão igualmente relacionados aos massacres ao povo Palestino, em especial em Gaza. Em geral, querem nos fazer crer que existe um elemento religioso nessas disputas. Todavia, apenas os tolos acreditam que a solução desses problemas se dará através da comunhão de pastores, rabinos e padres, como se as questões do colonialismo e da iniquidade fossem morais e as religiões pudessem resolvê-las. Isso é falso. Minha perspectiva é de que, se esse encontro pudesse trazer qualquer solução ao bolsonarismo que nos aflige, bastaria ir a Gaza, dar as mãos, fazer uma marcha ecumênica pela paz envolvendo estas religiões e o conflito se resolveria. Entretanto, todos sabemos que o drama da pobreza no Brasil e a ocupação sionista da Palestina NADA tem a ver com as religiões.

Imaginar o contrário é seduzir-se pela mentira. Nada se resolve com esse tipo de iniciativa. Aliás, o próprio Jesus dizia que “não vim trazer a paz, mas a espada“. A solução só poderá através da luta de classes, pelo enfrentamento ao colonialismo assassino e contra o Imperialismo opressor. Às religiões nada tem a ver com os dilemas profundos do Brasil e não são a solução para nossa miséria. O fundamentalismo religioso evangélico no Brasil não tem nada de religiosidade – basta ver o amor à violência e a veneração às armas – mas tem uma adesão clara aos valores conservadores e apenas por essa interface se comunica com a política. Ambos – conservadorismo e religião – aceitam a opressão como natural, e só por isso estão irmanados. Não há cristianismo em Bolsonaro assim como não há nada de judaísmo nos invasores europeus que fazem limpeza étnica na Palestina.

Misturar esse debate é ação diversionista. As religiões nunca foram motivo para as guerras, mas foram frequentemente usadas para camuflar interesses geopolíticos e econômicos. Esses três clérigos estão, mesmo sem o saber, estimulando o uso dessa camuflagem ao nos fazer crer que as religiões unidas poderiam ser um obstáculo ao avanço do bolsonarismo. Para mim o que existe de mais chato nos debates atuais é quando os liberais reclamam de posições radicais, dizendo que o radicalismo impede o consenso. Confundem o conceito de radicalismo com o extremismo. Extremismo é o que vai até o extremo – e dificulta uma posição que possa produzir acordos – enquanto o radical (do latim “radix”) vai à RAIZ, por isso o nome. Por certo que sou radical, e por isso mesmo não me deixo seduzir pelas propostas de amor e comunhão que os religiosos tentam nos oferecer, que nada mais são que uma versão romantizada e contemporânea da “pax romana”.

Ou seja: “calem-se, deixem tudo como está e não toquem nas feridas sociais pois isso atrapalha a nossa “paz” e a comunhão entre as classes“. Eu prefiro o barulho das espadas se chocando em combate do que o silêncio das adagas na garganta. Isso é ser “radical”: entender que não existe paz oferecida graciosamente, muito menos uma paz que trata conflitos geopolíticos e econômicos como simples questões morais, como uma guerra do “bem contra o mal”.

Deixe um comentário

Arquivado em Palestina, Religião

Religiões e conflitos

As religiões unificam perspectivas de mundo e de produzem forte fator de coesão e identidade. São modelos de compreensão da realidade sobre aspectos onde a ciência não tem acesso, como o sentido da vida e os significados transcendentais. Acima de tudo, uma religião não é algo que produz ideias e conceitos, mas onde colocamos nossa visão de mundo e nossas perspectivas. Religião é onde colocamos algo de nós, e não de onde retiramos. Culpar as religiões pelas mazelas do mundo – como há muito fazem os new-atheists – é uma tarefa simples, mas para isso é preciso ignorar o sentido último das religiões negando o fato de que de qualquer religião se retira o que se quer, basta procurar, interpretar e divulgar fora do contexto histórico. .

Durante anos testemunhei a tentativa de criar uma visão demeritória das religiões, mas aplicando um viés distorcido da real essência delas. No atual conflito entre os colonizadores sionistas e o povo palestino no oriente médio ainda é comum ver analistas tratando os bombardeios como uma disputa entre “judeus x muçulmanos”, como se a questão não fosse o colonialismo brutal, os massacres, o apartheid e a limpeza étnica, mas sim um choque de crenças religiosas. Usando este mesmo critério dissimulador as Cruzadas perdem todo o sentido comercial e objetivo, pela conquista de um ponto geopolítico essencial para o comércio primitivo no Mediterrâneo, para se tornarem apenas incursões militares movidas pela crenças distintas. Aliás, o mesmo truque foi usado para chamar a guerra de libertação da Irlanda como “católicos x protestantes”, apagando os séculos de colonialismo britânico na ilha.

Colocar a culpa nas religiões como elementos divisionistas na história das sociedades é um erro, mas que ainda faz muito sucesso, inclusive entre intelectuais. A religião não é o bem e muito menos o mal. Uma religião não é mais do que um conjunto de símbolos e metáforas para expressar o inexpressável – assim como o mito o é para aquilo para o qual não há verbo. As religiões são construções puramente humanas que se expressam como um idioma, uma língua a conectar através do mesmo poço a água que corre por debaixo da terra. Os diversos poços criados para saciar nossa sede por respostas são as infinitas religiões, mas a água da fé – aqui entendida como a busca por respostas – é a mesma.

É possível então argumentar – contrapondo-se à onda dos novos ateus – que as religiões são o espelho das aspirações, desejos e valores humanos, e não a fonte de onde surgem. As religiões, em verdade, são criadas exatamente para dar conta dessa necessidade, e desta maneira nós não seguimos as religiões; são elas que nos seguem. Para entender melhor o que está no âmago das religiões existem inúmeros estudiosos – como Reza Aslan – que procuram oferecer às religiões o lugar que elas merecem.

Não existe dúvida que católicos e os protestantes não guerrearam por causa de religião na Irlanda e nem mesmo na Guerra dos Cem anos, mas por questões políticas, dinheiro, comércio, influências regionais, etc., pela mesma razão que os judeus e muçulmanos lutam até hoje por terra na Palestina, e não por discordâncias em suas escrituras. Em verdade católicos e protestantes da Irlanda lutaram durante muitos anos pela independência da Irlanda tendo de um lado os nacionalistas católicos e do outro os ingleses protestantes invasores, da mesma forma que as guerras pela Palestina são travadas entre colonos europeus e a população nativa. As religiões são falsamente colocadas como origem dos conflitos, mas elas são falsamente colocadas nesta posição apenas para deslocar o debate das verdadeiras questões.

Para as pessoas que carecem de uma compreensão mais profunda das causas dos conflitos é muito fácil moralizar as guerras, e para isso usamos artifícios como chamar de “infiéis”, “corruptos”, “fanáticos” ou “terroristas” todos os nossos adversários, desreconhecendo suas razões e desumanizando seus combatentes. Para entender melhor veja como as elites financeiras no mundo inteiro – e agora de forma bem marcante no Brasil – colocam a corrupção como seu cavalo de batalha, mas os governos que elas administram são tão ou mais corruptos do que os governos que combatiam, e para isso os adjetivavam de forma derrogatória todos os adversários, chamando-os de “corruptos“. Então por quê? Ora, porque os liberais são fixados na questão moral (como a religião), pois que ela desvia a atenção das pessoas e produz identificação com um dos lados, mas afasta as razões verdadeiras do radar de cada um de nós. No caso da Palestina o colonialismo brutal, o genocídio, o apartheid, os crimes de guerra, etc. Mas todo aquele que se contrapõe à barbárie sionista agora pode ser chamado de “apoiador de terroristas“.

Veja mais sobre o tema aqui, na entrevista com Karen Armstrong.

Deixe um comentário

Arquivado em Palestina, Pensamentos

Corações e Mentes

Quando eu estava no primeiro ano do ensino médio nossa professora de português nos levou ao cinema para ver um filme recém lançado que se chamava “Corações e Mentes”. Tratava-se de um documentário sobre a guerra do Vietnã, produzido um ano após a retirada das tropas americanas da Indochina e um ano antes da “Batalha de Saigon”, que selou o fim da guerra em 1975. Entre 1 e 3 milhões de vietnamitas perderam a vida nos combates, numa luta insana pelo direito de escolherem seu próprio destino após séculos de dominação estrangeira.

O filme me marcou profundamente pelas cenas de bombardeios, a crueza das torturas, o depoimento tocante dos soldados – que eram obrigados a despejar bombas sobre vilarejos – e tantas outras crueldades. Entretanto, nada me chocou mais do que a fala de um general americano chamado William Westmoreland – curiosamente seu sobrenome significa “mais terras para o oeste” – tanto é que suas palavras e sua expressão apática não me saíram da memória passados já mais de 40 anos. A fala que tanto me impactou se situa no final do documentário. Em breves segundos ele dizia textualmente que “Os orientais não dão o mesmo alto valor à vida que um ocidental. Para eles a vida é abundante e barata. A filosofia do Oriente expressa isso: a vida não é importante”.(minuto 1:43:15 do documentário de 1974 “Hearts and Minds”)

Para mim foi um choque, mas é possível entender perfeitamente as motivações desse general. Para quem pode determinar com um simples aceno de quepe a matança de mulheres e crianças em um vilarejo pobre da Indochina a única forma de suportar tamanha crueldade e covardia é criar a fantasia de que, aquilo que chamamos “vida”, para eles tem um valor menor. Assim, as lágrimas de uma mãe americana sobre o caixão do filho que volta morto da guerra têm muito mais valor do que aquelas vertidas por uma mãe oriental que carrega seu filho sem vida descarnado pelo Napalm. Desta forma, desumanizando o inimigo, é mais fácil cometer as mais brutais atrocidades, pois criamos uma barreira que nos impede o acesso à empatia. Tratamos os inimigos – incluindo seus anciãos, mulheres grávidas e crianças – como gado, ovelhas, para que o extermínio de suas vidas não nos cause dor, culpa ou remorso.

Quando eu presenciava alguém fazendo acusações criminosas contra os palestinos dizendo que usam os próprios filhos como “escudos humanos” – sem uma prova qualquer dessa barbárie – eu sempre lhes perguntava: “Se uma nação estrangeira viesse ocupar sua cidade você colocaria seus filhos na janela de casa para serem o alvo das balas inimigas?” e a reação era sempre um sonoro “NÃO“. Eu, então, questionava: “E por que acha que um palestino faria isso com seus próprios filhos?” e a resposta que se seguia cursava a mesma linha do General William Westmoreland citada acima: basicamente, “a vida tem um valor no centro do Império e outro para as colônias. Matar servos não é muito diferente de sacrificar animais”.

Para perpetuar os massacres covardes contra crianças, bebês e famílias inteiras em todos os lugares destruídos pelo Imperialismo é necessário criar e disseminar um projeto de desumanização dessa população. Só assim o odor de sua carne em brasa se torna suportável, suas perdas insignificantes e seus atos monstruosos aceitáveis. Chamar de “terroristas” todos os povos que lutam por sua terra, por sua autonomia, pela sua liberdade e pelo fim do Imperialismo é tão equivocado quanto usar a mesma palavra para descrever a Resistência Francesa e os bravos Vietcongues, que fizeram exatamente o mesmo. Criar a falsa narrativa de desapego dos insurgentes à vida dos próprios filhos é uma covardia sustentada por uma farsa. O mundo precisa enfrentar o imperialismo e o colonialismo racista que nos asfixia, se é que ainda temos esperança de sobreviver enquanto espécie.

Aqui o link para o documentário completo que pode ser visto no YouTube.

1 comentário

Arquivado em Causa Operária, Palestina, Violência

Miko

Não resta dúvida que para as esquerdas é fundamental nos aprofundarmos na luta antirracista, na luta por direitos humanos reprodutivos e sexuais (incluindo aí a luta pelo parto humanizado), na conquista da autonomia de corpos, na proteção aos grupos vulneráveis, etc. Modelos sectários baseados em identidades não cabem mais na nossa sociedade e não podem mais ser confundidos com as bandeiras históricas que defendemos. A segmentação artificial engendrara pelos laboratórios e “think-tanks” liberais americanos precisa produzir uma crítica consistente, severa, firme e dura.

Diante dos massacres a que são submetidos os palestinos, no maior ataque contra civis do século XX, é importante lembrar de um dos mais importantes combatentes da causa palestina da atualidade, figura constante em todas as entrevistas realizadas sobre a questão. Este homem se chama Miko Peled, que provavelmente poucos conhecem, mas é um israelense, por volta dos 60 anos e judeu. É filho do general israelense Matti Peled, herói da guerra do “Yom Kipur“, que assinou a declaração de independência de Israel e participou de ações de limpeza étnica na Palestina em 1948 e 1967, mas que ao se aproximar do fim da vida foi um das primeiros sionistas adeptos da aproximação com os representantes da Palestina para estabelecer um diálogo na busca de uma solução pacífica. Quando jovem, ainda vivendo em Jerusalém, Miko viu sua sobrinha morrer em um ataque suicida causado por um homem bomba do Fatah em 1997. No dia seguinte políticos e jornais israelenses clamavam por vingança e retaliação contra os terroristas árabes. Diante das câmeras a irmã de Miko, Nurit Peled, mãe da menina morta e uma conhecida professora judia israelense, disse em lágrimas para os jornalistas: “A culpa dessa morte é do governo de Israel, que nunca deu aos palestinos qualquer alternativa para além do terror. Não aceito nenhuma retaliação em meu nome ou de minha família, porque jamais aceitarei que uma mãe Palestina sofra a dor que agora estou sentindo”. Após a tragédia da morte de sua sobrinha de 13 anos, Miko começou sua jornada como ativista contra quem considera o principal responsável por essa violência: o regime racista de Apartheid sionista e o seu contínuo plano de ocupação violenta na Palestina.

Miko, alguns anos depois e já morando em Los Angeles, nos Estados Unidos, e trabalhando já como um profissional de artes marciais, conheceu na Universidade um grupo de ativistas palestinos e, apesar da desconfiança, aceitou escutá-los. Ao inteirar-se pela primeira vez da narrativa dos “inimigos”, dos “terroristas”, dos “bárbaros árabes” com mais de 30 anos ele viu seu mundo de crenças sionistas desabar.

Sim, eles – os sionistas – eram os terroristas, não os palestinos. Pela primeira vez entendeu o Nakba, a expulsão, os massacres, o êxodo e o exílio palestinos. No ano de 2012 escreveu um livro chamado “O Filho do General” e iniciou sua trajetória como palestrante, ativista, defensor dos palestinos, pela paz, na busca de uma solução desarmada, pelo BDS (Boycott, Divestment and Sanctions) e por uma consciência mundial sobre o regime de Apartheid de Israel. A importância de sua história está relacionada ao fato de que Miko não é um palestino árabe; nunca sofreu diretamente na pele a dor de ser estrangeiro em sua própria terra. Também não teve sua família morta ou sequestrada pelo exército de ocupação e sequer foi preso por jogar pedras em quem matou seus vizinhos e primos. Porém, Miko foi convencido por amor e não por oposição.

Um palestino “identitário” o veria como um inimigo de sua identidade árabe, por não ter sua língua e sua pele mais escura. Por ser judeu jamais seria aceito, e suas palavras seriam bloqueadas com o silenciamento do “lugar de fala”. Ora, “como você ousa falar da Palestina, seu judeu opressor?”, poderia ser a reação dos que não enxergam nele a identidade palestina, a única que lhe garantiria direito de falar. Entretanto, Miko sabe que a Palestina é o seu lar também e por isso mesmo não aceitou jamais ser calado. Ao lado de outros ativistas, árabes e judeus, debate abertamente uma solução para a Palestina, sem levar em consideração a cor da pele, a origem, a cultura ou a língua. Ousa discordar em alguns temas com o direito que a paixão pela Palestina lhe confere. Para Miko Peled, o que une todos esses personagens na busca para a paz na Palestina é o que nos faz humanos, o traço que nos une para acima das diferenças étnicas e culturais.

Da mesma forma, muitos homens brancos sabem que um mundo que oprime mulheres, gays, trans e que despreza negros também é o seu mundo e por esta razão desejam falar de sua inconformidade e lutar contra estas injustiças. Porém, muitos são silenciados por um identitarismo sectário que se move por ressentimentos e preconceitos, que apenas afastam muitos dos possíveis aliados. Precisamos de um mundo com mais personagens como Miko Peled e menos revanchismos estéreis.

1 comentário

Arquivado em Ativismo, Causa Operária, Palestina