Vocês que ainda apoiam um sujeito como Bolsonaro na presidência jamais vão entender que o capitalismo brasileiro pode ser bom, mas apenas para uns 50 milhões de cidadãos – nossa classe média. O resto é tratado como massa de manobra, escravos modernos do neofeudalismo corporativo, pobres carregadores de carga numa divisão perversa de classes. Para eles os deveres, para nós os direitos.
O que vocês não perceberam é que qualquer miserável americano, que mora numa “maloca” de lona das ruas de Detroit, Seattle ou Los Angeles adoraria se mudar para Cuba para ter assistência médica, segurança e educação de qualidade para os seus filhos.
Portanto, essa história de “ninguém vai para lá” é uma meia verdade. Ninguém da burguesia dos países com classes opressoras vai para um lugar de justiça social; sempre vão procurar um lugar onde seus privilégios de classe serão mantidos e exaltados. Procurarão sempre um sistema que lhes proverá vantagens indevidas e que lhes garantirá um sentimento de superioridade.
Desta forma, aqueles que pertencem à classe média vão preferir ir para o centro do império, onde haverá gente pobre para lhes servir. O drama é que vocês não conseguem olhar para NADA longe dos vossos radiantes umbigos. Não conseguem perceber o sofrimento de milhões de brasileiros esquecidos, maltratados, mal pagos, espoliados, explorados e muitos passando fome. Essas pessoas são desumanizadas ao extremo, enquanto são desconsideradas ao seu olhar.
A questão central é que quando vocês são assaltados, ou quando seu pequeno negócio vai à falência, vocês culpam o governo, o “socialismo”, o Lula, a lei Rouanet, a polícia “frouxa”, os direitos humanos, as esquerdas, a falta de presídios ou a impunidade (como se a pobreza já não fosse uma punição eterna para esses grupos) ao invés de perceber que a culpa é do sistema perverso, de um capitalismo desumano, da sociedade de classes e da resistência produzida por uma classe média tola e racista que teima em não aceitar a necessidade de mudanças profundas e sistêmicas.
Sobre a polêmica de cursos de graduação em psicanálise creio que esta discussão é a EXATA reprise de um debate que eu iniciei há mais de 10 anos sobre “cursos de formação de Doulas”, os quais pretendiam sua transformação em profissão regulamentada e desejavam tornar a doula uma “profissional da saúde” – como médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, etc.
Quando me posicionei sobre o tema – fazendo oposição à tentativa de encaixar as doulas no nosso modelo acadêmico e trabalhista – fui atacado, xingando, cancelado e tratado como “traidor”. Claro, ainda tive que escutar o famoso “lugar de fala”, mesmo que eu estivesse presente desde os primeiros cursos de capacitação de doulas no Brasil. Mas isso não foi suficiente para me fazer mudar de opinião.
Agora o debate é sobre um ramo centenário do conhecimento humano, a psicanálise. Entretanto, percebi que os argumentos que sustentam a ideia dos “Cursos de Graduação em Psicanálise” visando uma formação acadêmica na área tem os mesmo problemas estruturais que eu questionava na formação de Doulas. Tomo aqui emprestadas as palavras de Diogo Fagundes em um texto que circula na internet sobre a “domesticação” da psicanálise, mudando apenas o campo ao qual ele se refere.
“Graduação em Doulagem oferecida pelo Estado – ou pior, empresas de educação privada visando lucro – é algo análogo à possibilidade hipotética de graduação em marxismo. Faz sentido haver escolas de doulas (aliás, desejo muito isto) associadas a organizações ligadas à humanização do nascimento, grupos de mulheres ou clubes de mães, mas não cursos de graduação estabelecidos pelo Estado ou proprietários privados em busca de dinheiro fácil.
Ambos – doulas e psicanalistas – são formas de pensamento implicados na construção de um sujeito não necessariamente ligados ao que Lacan chama de “discurso da universidade” – não à toa o francês recusou chefiar o departamento de psicanálise (o primeiro da França) quando convidado por Foucault na criação da Paris VIII.
Na prática, vai haver um monte de biboca de esquina transformando o trabalho das doulas em “coaching de gestação”, autoajuda e coisas do gênero. Entretanto, a formação não pode prescindir de habilidades humanas e acompanhamento pessoal, uma experiência subjetiva complexa não balizada por prazos e exercícios determinados burocraticamente.”
Como pode ser visto, a mesma ideia de criar cursos de formação em psicanálise ou formação de doulas esbarra no fato de que ambas as funções sociais não são aprendidas exclusivamente nos bancos escolares mas pressupõe uma vivência no trabalho direto com os clientes, um mergulho na subjetividade destes, um aprendizado que surge do atrito com a infinita diversidade dos clientes, a alegria e o sofrimento com as vitórias e frustrações que esta função nos impõe. A academia e seus diplomas são incapazes de fornecer este tipo de construção, o qual não pode ser delimitada no tempo ou na carga teórica de conhecimento oferecida.
Eu não tenho problema com o uso de vacinas. Se houver ciência de qualidade com fontes seguras e isentas e com resultados positivos, por que não? Entretanto, acho terrível – e inaceitável – a lógica frequentemente usada para defendê-las. Agora mesmo vi uma:
“Seu filho tomou 24 vacinas logo depois de nascer e só agora você resolveu perguntar do que esta última é feita? Confie na ciência!! Vacinas salvam vidas!!”
Quer dizer que agora – depois de anos ensinando as pessoas a pensarem por si mesmas e a tomarem decisões informadas sobre sua saúde e a dos seus filhos – estamos estimulando que não se façam mais perguntas e que nenhum questionamento incômodo seja feito? Querem nos convencer que é preciso acreditar cegamente nas drogas que nos indicam? Mais ainda, confundem prescrição de drogas com “ciência”, quando muitas vezes a ciência se expressa exatamente pelo combate ao mau uso das drogas!! Se Isso não é um retrocesso, não sei como chamar.
Pensem apenas o que se conquistou até agora na humanização do nascimento. Achariam justo dizer às mulheres para interromperem os questionamentos e passarem a ter fé nas decisões dos médicos?
“Nessa cidade milhares de pessoas vem ao mundo por cesariana e usamos cirurgias e internações para os bebês nascerem. Por que só agora você resolveu perguntar por qual razão queremos lhe operar?? Confie na ciência!! Confie nos médicos!! Cesarianas salvam vidas!!”
Se os médicos tem responsabilidade pelo descalabro das cesarianas no Brasil, por que deveríamos ter fé cega na decisão de um grupo de cientistas, em detrimento de outros? Qual o problema em perguntar os efeitos que as drogas potencialmente têm sobre as pessoas e, em especial, as crianças?
É para esse mundo que penaliza a autonomia e as perguntas indiscretas que estamos rumando?
Eu acho o sentimento do ator gay cujo pai votou em Bolsonaro legítimo. É decepcionante ver alguém que admiramos e amamos votar em um sujeito que a gente despreza por sua conduta, suas ideias, sua postura, seus valores e sua história. Entretanto, acho que essa decepção é fruto de uma idealização exagerada.
Meu pai não votava há muitos anos, mas me disse que jamais votaria em Bolsonaro. Sofreu na ditadura de Vargas e tinha horror aos governos militares. Entretanto, era um conservador, um liberal tipo tucano, e jamais aceitou o comunismo. Ele era um produto perfeito do pós guerra, da Guerra Fria, dos mitos e mentiras sobre a União Soviética. Por essa estrutura psíquica, jamais me perdoou quando saí do armário e me declarei para a família…
– Pai, vou contar pra família algo que vocês já devem saber, mas eu preciso dizer. Prefiro que escutem de mim do que ouvindo fofoca de vizinhos: eu, eu, eu… sou comunista.
Ele respeitou minha decisão, mas nunca aceitou. Sempre se irritava quando falava de “luta de classes”. Dizia algo como “Para que lutar se podem se entender?”. Pior ainda se eu falava da “ditadura do proletariado” ou do “controle dos meios de produção”, “Lá vem você defender ditaduras!”. Acreditava nos mitos ao estilo “divide todo teu dinheiro com os pobres, então”, “ahh, socialistas de carro novo” e todas as fantasias criadas sobre o comunismo. Ele era um homem do seu tempo e seu estranhamento com o comunismo é semelhante ao estranhamento que um homem de 90 anos teria com a súbita popularidade da homossexualidade.
Digo isso porque eu acho que é possível ter um filho gay e mesmo assim votar num sujeito da extrema direita e que tem desprezo por homossexuais – apesar de obviamente não concordar com isso. Creio que o voto do pai do ator não foi relacionado à pauta moral, mas a um rechaço ao PT, à “corrupção” (fabricada diuturnamente pela Globo), à lava jato e à crença de que Bolsonaro poderia livrar o Brasil da “ameaça comunista”. O pai desse rapaz provavelmente tem esse tipo de visão de mundo – com a qual não concordo e até combato – mas isso não o torna necessariamente um homofóbico. Ele votou nessas pautas APESAR de Bolsonaro não respeitar os gays e a diversidade o quanto deveria.
Meu pai votaria em sujeitos como Aécio ou Alckmin, mas pelas suas crenças no liberalismo econômico e suas propostas por um capitalismo “domesticado”. Entretanto, a vinculação desses personagens com a Opus Dei ou o uso de drogas não teria nenhuma influência em sua escolha; ele votaria neles apesar dessas falhas pessoais.
Parto é encruzilhada, momento de decisão. Pode jogar para cima tanto quanto pode dizimar perspectivas. Parto pode ser transformador, mas pode confirmar o mau destino que o mundo havia prescrito. Parto não trata de sobrevivência, mas sobre a vivência de um momento ímpar, absoluto e apoteótico, ápice da feminilidade.
Não há como cursar seu túnel sombrio e tortuoso sem ser tocado por sua energia. Os partos são as causas de grandes traumas e grandes metamorfoses. Podem arremessar seus personagens ao chão impiedosamente, mas da mesma forma podem alçá-los ao infinito.
Aqueles que porventura dele se ocupam precisam saber que estão situados precisamente na quina do cruzamento. Suas ações, posturas, ideias e palavras podem levar estas mulheres às escolhas diminutivas, ressaltando sua velha companheira – a menosvalia. Por outro lado, também podem ser o trampolim para o voo mais alto de suas vidas, aquele que vai desfazer a maldição sobre um corpo chamado imperfeito.
Para estes últimos, as palavras de minha mãe: “Cuida como vives, o que fazes e dizes; talvez sejas o único Evangelho que teu irmão lê”.
Em meados dos anos 80 eu estava de plantão no hospital de Pronto Socorro da minha cidade, o mais tradicional dos hospitais da capital. Estava atuando como interno do 5o ano da faculdade de medicina e era na cabeça dos embriagados que treinávamos as nossas primeiras suturas. Claro, com “supervisão” dos contratados plantonistas do hospital, o que nem sempre era a regra.
Em um determinado fim de semana o plantão estava movimentado acima da média com os casos usuais: acidentes de trânsito, brigas em “bailões”, acidentes domésticos, embriaguez, assaltos, ferimentos a bala etc. Eu notei que aquela noite, um sábado de verão, estava mais movimentada que o habitual. Como estava recém iniciando o estágio eu frequentemente pedia orientação para os velhos plantonistas a respeito do tipo de sutura a utilizar ou os rituais de degermação dos ferimentos. Por sorte, naquele dia em especial, os médicos de plantão eram solícitos e amistosos.
Subitamente irrompe na sala de pequenas suturas um jovem negro banhado em sangue. O rosto se encontrava coberto por caudalosos rios vermelhos que cruzavam sua face e coloriam de rubro todo o seu corpo. Usava apenas um calção folgado e chinelos de dedo, e se percebia que estava muito alcoolizado. Ele provavelmente mal havia passado da puberdade.
– Um entrevero, doutor. Na festa de aniversário da Michelle. Briga por causa de guria, vê só…
Quem explicou o caso foi um rapaz um pouco mais velho que havia empurrado a cadeira de rodas com o jovem semi desfalecido para a sala de pequenas cirurgias.
– Bateu com a cabeça no chão. Depois chutaram ele. Animais…
Pedi ao acompanhante e aos enfermeiros da sala que me ajudassem a colocá-lo na maca para ser avaliado. A pressão estava boa, mas os batimentos acelerados. Devia ter perdido já uma boa quantidade de sangue. Quando o examinei não encontrei nenhum ferimento sangrante pelo corpo além da cabeça, onde havia um corte de 10 cm de extensão que aparentemente já havia sangrando muito.
– Precisamos fazer um Raio X de crânio. Vou chamar os técnicos aqui para ver se houve fratura ou se temos apenas essa lesão superficial para suturar. Fique de olho nele; se houver lesão interna ele pode até convulsionar. Já volto.
Era o médico da sala pedindo que eu tivesse atenção redobrada com o jovem enquanto solicitava o exame radiológico.
Olhei mais uma vez para o jovem deitado na maca com o canto do olho enquanto preenchia os papéis de identificação e a descrição do ferimento. Havíamos colocado nele um curativo de gaze provisório, antes de fazer a costura dos tecidos. Estava desacordado, respirando profundamente, com as mãos cruzadas sobre o peito e um pé para fora da maca de onde se pendurava um chinelo havaianas empapado de sangue.
Com os olhos voltados para o relatório à minha frente, não foi necessário mais do que um minuto de desatenção para que a cena aterrorizante se chocasse contra minha retina. Da distância de 3 ou 4 metros vi o corpo do rapaz corcovear no que parecia uma convulsão clônica, fazendo a perna que pendia para fora da maca hospitalar subir e descer freneticamente.
Assustado, imediatamente me joguei sobre seu corpo ensanguentado para evitar que a convulsão o fizesse cair, aumentando ainda mais os traumas que já carregava no corpo. Com todas as forças do meu pulmão gritei histericamente por ajuda enquanto me abraçava ao corpo do jovem, apertando-o contra o curvim azul e gasto da cama onde estava.
No silêncio que se seguiu ao meu grito consegui escutar uma voz:
– Ei, dá licença moço…
Soltei o corpo magro do rapaz e pude ver, com espanto, que era ele mesmo quem falava. Ainda atônito gritei:
– Cara, o que está acontecendo? Achei que você estava tendo um “troço”. Que houve? Estava se balançando todo, parecia uma convulsão!!
O rapaz, com um sorriso na face que só os ébrios conseguem fazer, respondeu:
– Convulsão doutor? Que é isso rapá!! Eu estava só tentando tirar o chinelo do pé porque está todo sujo!! Não inventa moda doutor!!! Eu hein…
Um plantão também é feito de sustos e suspiros de alívio…
Ao raiar do ano que surge, parece que as histórias do mundo subitamente se tornaram claras à minha frente. Todos os detalhes, as filigranas, o colorido de cada emoção, os contextos e seus cheiros. Foi como se, ao se fechar meu corpo, minha alma pudesse subitamente voar sem restrições. Hoje, no parapeito da janela do quarto, ouvi pela primeira vez o trinado de um “asa de cera”1. É como se o som banal de um pássaro a me desejar um feliz ano novo fizesse sentido pela primeira vez, e sua melodia magicamente pudesse me tocar o espírito, como antes sempre pareceu impossível. Foi Andropov2 quem me disse, com sua característica falta de humor, que as perdas carregam ganhos invisíveis aos olhos desarmados, da mesma forma como os ganhos nos impõem perdas que custamos a perceber. Agora reconheço o quanto havia de sabedoria em suas simples palavras.
Perdi tudo o que mais valorizava, mas apenas agora percebo que ganhei a plena noção da grandeza da vida. Meu corpo imóvel agora é objeto de cuidados, uma prisão onde habita minha mente, agora liberta. Como presente inesperado, hoje encontrei a chave para Shermak3 e o significado último da renúncia de Natália4. Um encanto súbito que já estava desistindo de encontrar. Parece mesmo que um portal se abriu à frente, ou talvez sempre estivera aberto, mas meu corpo grosseiro impedia a passagem para um mundo de clareza. Percebo que só agora essa avalanche de pensamentos sobrecarrega de imagens e sentidos as minhas ideias. Espero que o ano que começa me permita curar as feridas que teimam em cobrir o que resta desse corpo. Agora vejo o quanto ainda há para escrever, para dizer, para gritar. Que eu tenha as forças que meu desejo demanda.
Ygor Ivanov Petrov foi um escritor, romancista e ensaísta russo, nascido em São Petersburgo em 9 de fevereiro de 1881, no mesmo dia da morte de Fiódor Dostoiévski, que também exerceu grande influência em sua obra. Com forte caráter revolucionário e marxista, escreveu na juventude vários artigos de caráter político, em especial com críticas a Nicolau II e sua corte, o que lhe valeu um mandado de prisão pela Okhrana, a polícia política do Czar, e uma inexorável fuga para Londres. Lá escreveu seu primeiro romance, “Sob o gelo do Volga”, que conta a história de amor entre Ekaterina e Nikolai ambientado na decadente e faminta Rússia czarista. Depois desta estreia na ficção escreveu “Chuva de Fogo”, “Vidas de Vidro” e “O Tocador de Balalaika”, todos no exílio londrino.
Foi em Londres, com 22 anos, que conheceu Vladimir Ilyich Ulianov conhecido para a posteridade por Lênin. Em 1903, encontrou-se com o grande revolucionário e outros marxistas russos, quando na ocasião criaram o Partido Social-Democrático dos Trabalhadores Russos. Ygor percebeu a cisão entre os bolcheviques (majoritários) aliados de Lênin que defendiam a ação revolucionária e os Mencheviques que se postavam a favor de um movimento reformista. Imediatamente colocou-se ao lado do grande líder, o que lhe custaria várias represálias e a própria morte prematura com apenas 39 anos durante a guerra civil.
Voltou para a Rússia com Lênin em 1905 e passou a colaborar com vários jornais de cunho revolucionário. Em 1910, com Voltou para a Rússia com Lênin em 1905 e passou a colaborar com vários jornais de cunho revolucionário. Em 1910, com 29 anos, escreveu sua obra mais reconhecida, “O Legado de Gannibal”, que tratava da história dos negros influentes na corte de Pedro, o Grande. É dito que este livro valeu elogios do próprio Lev Tolstoi que, já velho e frágil, morreria neste mesmo ano. anos, escreveu sua obra mais reconhecida, “O Legado de Gannibal”, que tratava da história dos negros influentes na corte de Nicolau II. É dito que este livro valeu elogios do próprio Lev Tolstoi que, já velho e frágil, morreria neste mesmo ano.
A carta de ano novo, ditada por Ygor Petrov apenas 11 meses antes de sua morte, foi escrita no hospital após ter sido ferido por um tiro durante a guerra civil russa que o deixou paralisado do pescoço para baixo. No período que se seguiu ao ferimento jamais conseguiu deixar o hospital, até sua morte por septicemia. Lá conheceu Jack Reed, o jovem que escreveu “10 dias que abalaram o mundo” e puderam trocar ideias sobre o futuro da revolução que apenas se iniciava. Ygor morreu pouco mais de um mês após a morte de Jack, mas neste período de confinamento conseguiu terminar dois de seus mais importantes livros, “Mar Gelado” e “As cartas de Bóris”, ditados para sua secretária Ivanova. Morreu em 18 de novembro de 1920, em Moscou.
1- “Asa de cera” é um pássaro muito comum na Rússia ocidental. Tem uma bela plumagem e uma crista marrom chamativa em sua cabeça. Seu canto é o murmúrio “svir-ri-ri-ri”, que muito se parece com o som de uma flauta tocada, com tom agudo e repetitivo. 2- Andropov era o comandante de sua divisão na guerra civil e seu parceiro desde os tempos de exílio na Inglaterra. 3- Shermak era o navio do romance “Mar Gelado” que tinha como centro narrativo o dilema moral do comandante Ivan Mileiovich entre o ideal e a sobrevivência de seus homens, sintetizado na sua frase antológica dirigida aos marinheiros reunidos no convés do Shermak: “A honra e a liberdade valem mais do que estes blocos de gelo que nos prendem.” Essa história foi posteriormente transformada em filme pelo cineasta Alexei Bakov. 4- No romance “As cartas de Bóris” Natália era a amante de Dimitri Ustalov, prefeito da cidade de Vyborg que escondeu a gravidez e fugiu para Irkutsk, às margens do lago Baikal, na Sibéria, para que sua gestação não destruísse a reputação do seu amado. Lá nasceu Vladimir (uma pouco sutil homenagem a seu camarada Lênin) que, sem o saber, combateria o próprio pai na revolução russa.
Não se deixem enganar tão facilmente pelos filtros, maquiagens, jogos de luz e cirurgias plásticas. De manhã cedo, logo ao acordar, no trajeto entre a cama e o banheiro, todo mundo tem a exata idade da certidão…
Uma lembrança que tive hoje de uma história antiga sobre as inúmeras hipocrisias na medicina.
Em um hospital de periferia no qual trabalhei logo após me formar em medicina diagnostiquei uma paciente com um tumor ovariano. Como era jovem e tinha características chamativas na ecografia (um ovário aumentado, com materiais densos como dente, osso, cabelo, etc) percebi que se tratava de um teratoma cístico benigno, tumor de células totipotenciais do ovário que produz este tipo de material. Nada grave, mas pelo tamanho valia a pena ser retirado.
Marquei a cirurgia para a semana seguinte. No dia marcado, solicitei que a paciente subisse ao centro cirúrgico para o preparo e fui me escovar. Ao entrar na sala encontrei a paciente em uma posição pouco usual (deitada de costas com as pernas afastadas) e perguntei à enfermeira do bloco a razão por terem deixado a paciente nesta posição.
– Ora, para a cirurgia doutor. Não vai manipular o colo?
– Não. Essa é uma ooforectomia (retirada de ovário) por teratoma. Olhe na grade de cirurgias. Vocês confundiram a paciente?
– Não doutor, claro que não!!! Sabemos que é uma cirurgia de “ovário”. Por isso a preparamos assim.
Disse isso e fez com os dedos das mãos curvados o sinal de aspas enquanto falava “ovário”.
Puxei a enfermeira para o lado enquanto o anestesista preparava seus equipamentos para anestesiar a paciente. Falei com um misto de espanto e rispidez, mas sussurrando para não causar desconforto na sala. A enfermeira, também surpresa, me explicou a situação.
– Desculpe doutor, eu não sabia que era uma cirurgia de ovário de verdade!! Por favor, me perdoe. Já vou arrumar a paciente na mesa como o senhor quiser.
– Ok, mas explique porque isso, por favor…
Ainda envergonhada ela explicou.
– Acontece que os médicos da cidade usam “cirurgia de ovários” para falsear os relatórios de ligadura tubária. Sempre que vemos essa cirurgia marcada na grade do bloco cirúrgico sabemos que se trata de outra coisa. Por isso preparamos a paciente para a ligadura, na forma como é usualmente feita.
No início dos anos 90 as ligaduras eram proibidas ou seguiam uma burocracia muito difícil de ser alcançada. Boa parte delas era realizada secretamente durante as cesarianas. Quem não se atrevia a engravidar apenas para “desligar” acabava engrossando a estatística de tumores ovarianos. Até hoje lembro do espanto da enfermeira quando lhe expliquei que a cirurgia era mesmo no ovário. Sim, de verdade. Juro…
Muito melhor do que “Não olhe para cima” é o último filme da Sandra Bullock, “Imperdoável”. Relata a história de uma mulher que sai da prisão após duas décadas de encarceramento e sua busca para resgatar o que resta da sua vida. Muitos momentos do filme foram preciosos, mas em uma de suas fala ela responde a alguém “As pessoas da prisão são iguais às daqui“, e isso sempre me pareceu uma verdade que tentamos esconder.
Para aceitar as ações selvagens e indignas impostas aos prisioneiros é necessário desumanizá-los, enxergá-los como animais ou como se fossem de outra espécie, diferente da nossa. Esta é a mesma estratégia que usamos ao tratar os inimigos em uma guerra ou os escravos que nos servem. Apenas quando criamos uma barreira entre a nossa essência e a deles é que se torna possível aceitar a violência que lhes impomos, seja produzindo ou testemunhando