Narcisismo

Gente essa coisa de rotular narcisismo e de apontar os narcisistas ao nosso redor… quando essa moda vai parar??? Não há nenhuma – literalmente – característica de narcisistas que eu não tenha e a qual reconheça como peça essencial da minha estrutura psíquica. Quando leio essas “peritas em narcisismo” descrevendo as várias características dessas “aberrações” eu fico falando baixinho “eu…. eu… eu… também eu, eu de novo…”.

“Ahhh, o narcisista vai te manipular, vai te machucar e depois se colocar como vitima”… gente, qualquer um que fique 5 minutos ao lado de dois irmãos de 10 e 7 anos vê esse tipo de manipulação umas dez vezes. E mais, o mesmo vai ocorrer na vida adulta, entre dois namorados, dois sócios, um casal, entre amigos, etc. Quem não se coloca como vítima? Quem não manipula os outros? Quem não dissimula e perverte?

O narcisismo é uma faceta natural do todo e qualquer sujeito e esta rotulagem moderninha pode dar a entender que o “narcisista” é um ser de outro planeta, de outra origem, constituído de uma matéria especial, diferente na “nossa”. Os narcisistas – uns mais outros menos – somos todos nós.

Narciso acha feio o que não é espelho

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Cães imperialistas

Alguns esquerdistas liberais criticavam o fim da ocupação imperialista no Afeganistão e usavam como argumento a pretensa perda de “liberdade” das meninas afegãs, impedidas de irem à escola pela volta do Talibã – o que, aliás, nunca passou de especulação e ameaça. Na verdade os Americanos fizeram do Afeganistão a central de produção de opioides para o mundo, além de criarem uma rede imensa de abuso sexual de crianças no país. Tudo isso com o conhecimento e a conivência – é segundo alguns, com a promoção – dos senhores da guerra do imperialismo.

Assim, a derrubada do Imperialismo no Afeganistão era uma questão de vida ou morte, tanto para as mulheres e crianças quanto para os homens e combatentes do país. Entretanto, os identitários usavam a falácia das “liberdades individuais” das meninas na Escola (assim como fazem com os gays e feministas no mundo árabe) para fomentar revoluções coloridas, onde as minorias funcionam como uma oportunista massa de manobra do capitalismo mundial para a derrubada de governos nacionalistas.

Ou seja, para a nata da esquerda liberal, as meninas abusadas e seus pais mortos pelos drones yankees não são nada comparados à glória de ver alunas indo uniformizadas para a escola. Para estes menos importa que o país seja ocupado, mulheres sejam mortas e crianças fiquem órfãs, desde que essas identidades sejam aparentemente protegidas. E ainda será a suprema vitória se tiverem acesso irrestrito a uma parada gay com direito a assistir trans enroladas na bandeira americana.

“Ahh, não são excludentes. É possível proteger a escolarização de meninas e a autonomia do país”, dizem os liberais. É verdade, mas não vai acontecer nenhum avanço enquanto não houver um país autônomo e livre. As meninas, os gays, os trans e todas as minorias só terão seu justo espaço depois que o país se livrar dos cães imperialistas. Enquanto formos comandados por forças externas esses grupos serão sempre atingidos.

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Sentimentos feridos

Já pensaram em que etapa do desenvolvimento da humanidade, no que diz respeito ao progresso das ideias, estaríamos se, antes de dizer alguma coisa, levássemos em consideração se o objeto do nosso comentário poderia se ofender? Já imaginaram se isso fosse usado de verdade? Pense apenas: se antes de criticar Bolsonaro ou Trump (ou Lula, ou Mandela, ou Cristo) a gente fosse perguntar se eles se ofenderiam com a nossa observação? Por certo que eles poderiam dizer “Sim, sinto-me ofendido por ser chamado de incompetente e salafrário”, o que nos obrigaria a silenciar imediatamente. Eles, portanto, poderiam impedir qualquer crítica feita a eles apenas por afirmarem-se pessoalmente ofendidos.

Ou seja: teríamos uma sociedade controlada pelos sentimentos, pelas subjetividades, pelas suscetibilidades pessoais. Não esqueça que até chamar alguém de “careca” pode ferir seus sentimentos.

Já pensou que tudo o que dizemos precisasse ser “útil”? Quem decide o que tem utilidade na sociedade? Uma música é útil? Um filme? Uma crítica? Um comentário? Mais ainda: já imaginou se todos os “palpites” fossem considerados inadequados? Palpite vem do verbo “palpitar”, e tem a ver com as batidas do coração. Portanto, os palpites são emissões do “coração”, da intuição, das emoções, dos pressentimentos e das suposições. Oferecer nossas propostas mais emotivas é errado, inadequado ou indelicado? É justo considerar os palpites que damos diariamente sobre tudo e todos como erros, crimes ou ataques?

Duvido que uma sociedade assim organizada conseguisse se libertar do jugo da selva e pudesse alcançar uma organização social mais complexa do que um coletivo de silvícolas, um pequeno grupo de não mais do que meia centena de pessoas. Nenhuma sociedade minimamente organizada poderia sobreviver a este tipo de censura, abdicando de todo o progresso que emana do choque, do conflito e do atrito. A proteção dos sentimentos ocorreria às custas do progresso e da própria paz.

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Redpills

No universo onde vivo, sempre cercado de mulheres por todos os lados, escutar o que dizem os redpills (basicamente masculinistas, cujo nome foi tirado da antológica cena de Matrix) é visto como levantar a mão numa convenção do partido comunista e citar uma frase de Mises. Não há como aceitar este tipo de intromissão. Por isso, algumas pessoas colocam estes personagens como demônios, sexistas, maldosos, excludentes e preconceituosos. Existe uma gama enorme de estereótipos que descrevem estes personagens. Eu diria: escutem os redpill. O sucesso desse movimento merece atenção. Lembrem apenas que a radioatividade deles é semelhante ao que se dizia há poucos anos das próprias feministas. “Destroem a família”, “subvertem a ordem natural”, “não aceitam o progresso”, “malévolas”, “promíscuas”, “abortistas”, etc. Os redpill são apenas os pontas de lança de uma inquietação masculina que se iniciou junto com os próprios movimentos feministas, a qual aponta para um processo de lenta e insidiosa acomodação de placas. Eu falo dos redpill o mesmo que falo da extrema direita: escutem o que eles estão falando para entenderem o que precisamos fazer. E, da mesmo forma que as feministas mais radicais, existe algo de dolorido, mas ao mesmo tempo justo e compreensível nas queixas dessa turma. Acima de tudo, você não precisa ser um redpill para tentar entender sua perspectiva de mundo.

Essa visão não está muito longe da verdade. Porém, como em todo movimento, existe um matiz de ativistas dos masculinistas que deve ser levado em consideração. Essas caricaturas – que variam do Viking ao Orc do Senhor dos Anéis – em nada ajudam a entender o fenômeno. Da mesma forma, os estereótipos produzidos sobre as feministas (não se depila, não gosta de homens, faz aborto por esporte, odeia casamentos, etc) são falsos e não contemplam a complexidade do movimento em suas infinitas facetas. Entre uma “radfem”, uma “feminista de centro acadêmico” e uma dona de casa que exige divisão de tarefas existem milhares de possibilidades.

Como eu disse, esse tipo de crítica poderia ser (e, na verdade o foi) feita às pioneiras do feminismo. Tente olhar para os redpill como aqueles que primeiro se opuseram à uma ordem com a qual não concordam. Existem algumas queixas feitas por eles que, quando racionalmente analisadas, estão plenas de sentido e razão. Entretanto, os redpill caricatos, aqueles que escondem sua misoginia no discurso racional, serão facilmente descobertos com o correr do tempo. Mas eles são apenas os mais grosseiros e violentos, os mais evidenciados pela cultura, mas não é justo olhar suas reivindicações a partir da análise desses expoentes.

“Ok, mas eu não quero ver, escutar e muito menos me relacionar com este tipo de gente”. Você e nenhuma outra pessoa tem obrigação de dar conta. O falecido psicanalista Contardo Caligaris nos falava das experiências que seu pai teve durante a vigência do fascismo italiano. Sendo seu pai um conhecido médico e comunista ele se opunha aos “camisas pretas” de Mussolini. Durante o regime fascista ele foi preso pelos fascistas e sofreu muito em suas mãos. Como médico ele atendeu como pacientes líderes de fábricas que foram atingidos nos joelhos pelos tiros das brigadas fascistas – um método conhecido para aleijá-los e mandar um aviso a qualquer um que quisesse entrar em greve.

Contardo, muitos anos depois e já atendendo clínica psicanalítica, recebe em consulta um paciente de mais idade. No meio dos seus relatos ele fala que participou de brigadas na Itália de perseguição a ativistas comunistas. Naquele momento Contardo percebeu seu limite; não era possível continuar aquela relação. Deu uma desculpa qualquer e encaminhou o paciente para um colega. Para ele era insuportável a escuta de um personagem cujo grupo foi responsável pelos horrores que presenciou em sua infância. Ali estava um paciente cuja neurose poderia – e talvez deveria – ser escutada, mas não por aquele específico analista que tangenciou nos relatos de violência as bordas de sua atuação. Portanto, todo o respeito àqueles que reconhecem até onde são capazes de escutar.

Julgar um livro pela capa é um equívoco, como bem o sabemos. Julgar as teses de alguns masculinistas pelas figuras grotescas de alguns redpills também é. Repito o que disse: assim como me ensinaram a escutar as teses de algumas feministas para extrair dali alguma informação e até ensinamento, eu acredito que estas teses (que crescem muito e no mundo todo) merecem atenção. Não é necessário concordar, apenas escutar e entender. Recomendo o brilhante livro da feminista americana Susan Faludi sobre a traição ao homem americano, que está na raiz desses transtornos no organismo social e que hoje extrapolam os limites da epiderme e nos mostram a purulência acumulada.

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A Salvação do Capitalismo

Segundo minha perspectiva – e a de vários analistas – Lula é um Roosevelt brasileiro, guardadas as proporções. Sim, porque Lula é muito mais brilhante, preparado e inteligente do que o presidente americano. Apesar das diferenças, tanto para Franklin quanto para Luís Inácio coube a estupenda tarefa de salvar o moribundo capitalismo de seus países e lhes oferecer uma ilusória sobrevida. Franklin conseguiu adiar uma grande revolução por quase um século, mas não acho que Lula conseguirá o mesmo sucesso. As condições do capitalismo mundial não suportarão por mais tanto tempo.

Porém, os limites de Lula se situam nas fronteiras da democracia burguesa; ou seja: Lula se limita a jogar “dentro das 4 linhas”, como diria seu antecessor de má memória. É por essa paixão pela instauração de um “capitalismo com face humana” que liberais como Reinaldo Azevedo agora o aplaudem Lula com pleno entusiasmo, a ponto de afirmar que “Lula está salvando o capitalismo brasileiro, enquanto Bolsonaro trabalhava pelo seu extermínio”.

O problema, como sabemos, é que as democracias liberais capitalistas são insustentáveis em médio prazo. Com o tempo essas democracias burguesas reagem com violência aos avanços do poder popular. É um sistema criado para manter a artificialidade do poder burguês, que tem como característica a concentração crescente de riqueza (e de poder) na mão de poucos. Nossa história mostra que ela serve a uma classe, e quando essa classe se sente ameaçada ela manda às favas a própria democracia. Assim foi com Getúlio, em 1964, em 2016 e após a vitória de Lula. Há poucos meses, com a eleição de Lula, já havia um contingente considerável de brasileiros pedindo ditadura, para que os poderes ficassem intactos. O capital, nesse modelo realçado pelos liberais, é o “dono da bola”: será democracia quando me interessar, mas mando apagar a luz e levo a bola pra casa se meu time estiver perdendo.

O modelo de democracia vinculada ao poder econômico, que controla os processos de produção e os meios de comunicação acaba invariavelmente entrando em crise, tão logo os 99% de pessoas que são exploradas pela elite financeira começam a exigir seu quinhão no bolo da riqueza nacional. Desta forma, sustentar o poder burguês indefinidamente, é uma ilusão que ainda vai nos atormentar, e nem a figura brilhante de Lula vai conseguir mantê-lo vivo. Estamos na UTI do capitalismo, e nada poderá salvá-lo; nem o mais brilhante estadista do planeta.

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Milan

O escritor Milan Kundera faleceu aos 92 anos. Alguns defendem o trabalho do escritor – um notório anticomunista – dizendo que as acusações de Milan Kundera aos dramas do bloco soviético eram baseadas na verdade. “As coisas que ele relata eram reais” dizem. Todavia, o mesmo tipo de narrativa aconteceu faz pouco aqui no Brasil quando os golpistas falavam: “sim, mas as queixas contra Dilma eram todas reais” – o que justificaria o golpe. Neste caso, o “real” é aquela perspectiva apresentada pelos vencedores, né? As coisas na União Soviética eram realmente conturbadas durante a Guerra Fria (entre outras razões pelo esforço armamentista, que destruiu sua economia, mas é o que faz a Rússia ainda existir e estar vencendo a guerra – exatamente o que a Coreia Popular historicamente faz), mas o golpe de Yeltsin – a serviço do Império – fez a Rússia mergulhar no Caos do qual levou 25 anos para se reerguer.

Quem reclama do período Temer-Bolsonaro pode imaginar como seria uma economia reduzir-se a 1/3 do que era nos meses que se seguiram à fragmentação do bloco soviético. A destruição da União Soviética e o poder popular por ela criado era visto como o grande objetivo para a expansão do Império. Não foi possível com os tanques, mas o foi pela guerra gelada do comércio.

E quanto à “Primavera de Praga”, o eurocentrismo que ela denuncia é apenas espetacular. Claro, tanques em Praga são inaceitáveis, não? Já no Vietnã, qual o problema? Por que será que a gente não dá nomes bonitos para os 70 países invadidos pelo Império nas últimas décadas? Só esse episódio parece causar horror aqui no Ocidente. Mas e a Síria? E a Líbia, que retrocedeu um século após a invasão (por que não a “Primavera de Trípoli”?)? E Gaza? E o Afeganistão? E o Iraque? E o Panamá? Não deveríamos tratar por ‘Verão Panamenho” quando o país foi invadido e o presidente Noriega sequestrado pelos americanos? Não haveria uma estação do ano para adornar e dar nomes às sanguinárias invasões do imperialismo em países soberanos?

Eu li Milan Kundera e “A insustentável leveza do ser” me cativou. Poético, tocante, duro e delicado. Mas também li Vargas Llosa, que foi um baluarte de sustentação de Fugimori – e inclusive de sua filha, além de ter apoiado Orbán e Bolsonaro. E isso porque é possível ser reacionário e um gigante da literatura. Da mesma forma eu adoro Zizek e fiquei chocado ao ler seu apoio ao Otanistão, para tristeza de todo mundo que deseja o fim da guerra. As posições políticas desses escritores e intelectuais (inclusive Kundera) eu ponho na conta da russofobia que muitos ainda carregam. Se aqui no Brasil ainda acreditamos nas mentiras contadas sobre a USSR, imaginem o que é feito pela máquina de propaganda da burguesia entre os vizinhos da Rússia, e o grau de manipulação que deve existir até hoje. Mesmo com os graves erros cometidos na Cortina de Ferro – e que devem ser denunciados – nada justifica a adesão ao imperialismo mortal e destruidor que esses personagens adotaram. Meu interesse não é diminuir a importância do escritor Kundera, apenas lembrar desse aspecto da sua personalidade. Um grande escritor, mas um reacionário no campo da politica.

Por outro lado eu nunca deixo de me surpreender com o anticomunismo da esquerda brasileira. Essa característica pode ser explicada pela cultura ocidental que afunda no oceano de propaganda anticomunista que já tem mais de 1 século. Esses ataques é que nos fazem ver o cisco da “primavera” e não enxergar a trave das inúmeras invasões genocidas do Império. Talvez Milan seja “menos” anticomunista do que os francamente direitistas, como Soljenítsin ou Vargas Llosa, ou quem sabe nunca saberemos ao certo até onde o seu anticomunismo poderia chegar. Como saber?

Aliás, sabe o que mais choca as pessoas quando lembram do “A insustentável leveza ser”? O fato de um médico ter se tornado um mísero limpador de vidros. Acho que essa é a ideia central do autor: como pode haver uma subversão de classes a ponto de um médico, alguém que representa os valores das classes superiores, ter se tornado um simples operário. Para a burguesia é um horror imaginar que alguém da “nobreza capitalista” seja “reduzido” a um mero proletário. Todo o livro de Milan é recheado por esse pânico burguês de imaginar um mundo sem classes, onde limpadores e cirurgiões podem sentar na mesma mesa.

Mas, como eu já disse, os reacionários podem ser grandes literatos. Ferdinand Céline, um dos maiores escritores frances do século XX, era nazista, mas foi ele quem escreveu a melhor e mais bela biografia de Ignaz Phillop Semmelweis. Não posso cobrar dele que seja como eu quero. Milan escreveu maravilhosas obras, mas seu reacionarismo não pode passar em brancas nuvens.

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Silêncio

Por volta de dez anos atrás eu fui convidado a participar de uma comunidade de “blogueiros” que escreviam sobre a temática do parto e do nascimento. Na época eu já possuía meu tímido blog, que usava apenas para manter uma cópia guardada e protegida de tudo o que eu escrevia. Eu já tinha plena noção de que o meu tempo na Terra seria curto, e que poderia ser interessante manter minhas ideias resguardadas como uma espécie de “legado”, algo que poderia ser usado por alguém no futuro. Um pouco de arrogância, quem sabe…

Aceitei o convite de migrar o meu blog para esta comunidade com a ideia de que “unidos seríamos mais facilmente ouvidos”. Tinha a ideia de que uma comunidade de pessoas com temáticas próximas poderia produzir um efeito positivo de multiplicação de informações e conceitos. Sabia também que seria o único homem a escrever em um pequeno universo de mulheres, mas este tipo de posição jamais havia me inibido ou constrangido até então.

Desta forma, passei a escrever minhas ideias nesta comunidade sem muito alarde, apenas avisando às pessoas das minhas redes sociais que passaria a ter meus escritos depositados lá. Com o passar das semanas acabei gostando do compromisso de escrever, o que antes acontecia apenas quando eu achava algo interessante para relatar; a pressão de entregar uma “matéria” fez bem à minha criatividade.

O problema aconteceu exatamente por essa minha liberdade de escrever o que me interessava, sem me preocupar com a recepção positiva ou negativa que os meus textos produziam nos leitores. Uma certa vez fiz críticas a algo que, já há dez anos, começava a me incomodar: o identitarismo. Percebia nesse movimento elementos que não me pareciam adequados, em especial no que se relacionava à humanização do nascimento e a amamentação. Mais do que a defesa do parto fisiológico, seguro, com autonomia e liberdade, havia um interesse em atacar o masculino, em especial quando representado por médicos obstetras e mesmo pediatras, sempre tratados com desdém e como se fossem portadores de chagas morais a comprometer seu comportamento diante de mães e bebês. Havia um crescente maniqueísmo nas propostas, que colocava de um lado mães e bebês como vítimas e pessoas moralmente superiores, e de outro lado médicos e homens perversos que agiam condicionados por valores como o egoísmo, o interesse, o despeito e a arrogância.

Eu não podia aceitar esta visão diminutiva das relações entre médicos e pacientes, mas também, escamoteado entre as linhas, as mulheres e os homens. Quando – a exemplo do que faz até hoje a extrema direita – acreditamos que a sociedade é dividida pelos valores morais, pela decência, pelos princípios éticos e não por um sistema opressor que coordena a todos nós, produzimos o meio de cultura adequado para o crescimento de uma sociedade apartada entre “homens de bem” e “vagabundos ladrões”. Eu não aceito que isso seja feito sequer entre as distintas visões políticas, menos ainda poderia aceitar que essa divisão exista entre os gêneros.

Médicos são, via de regra, espelhos dos valores sociais. Médicos fazem no seu mister diário aquilo que a sociedade espera deles. O mesmo se pode dizer da polícia, que age de forma violenta e abusiva porque assim o queremos – mesmo que de forma inconsciente e/ou inconfessa. O mesmo pode ser dito da Medicina, que atua dentro das expectativas criadas pelo conjunto da sociedade. Médicos não são “vasos estanques” dentro de uma sociedade; não, seus valores se comunicam dentro da complexidade de significantes do campo simbólico. Assim, o abuso de intervenções da obstetrícia é tolerado – e até exaltado – porque o conjunto da sociedade acredita em seus pressupostos. Médicos respondem a esta demanda; eles não a criam.

Escrevi um texto duro, dizendo que as demandas feministas não poderiam espelhar as mesmas violências que as mulheres historicamente reclamavam dos homens dentro do modelo patriarcal. A ideia preconceituosa e machista de tratar as mulheres como seres “emocionais” e, portanto, incapazes de decisões racionais não poderia ter como contrapartida o discurso de que os homens são “estupradores em potencial”, maus, malignos, egoístas, violentos e desleais – em essência. A crítica ao masculino – que trata os homens como moral e intelectualmente inferiores – só poderia gerar uma ideologia supremacista de gênero. Ora, se é moralmente abjeta a divisão das competências entre etnias, religiões ou orientações sexuais, no que diz respeito às suas capacidades intelectivas e afetivas, porque ainda admitimos e se faça isso com os gêneros?

Lutar pela equidade não é defender os mais fracos usando as mesmas armas que condenamos nos opressores. Esta luta deve se basear no respeito à diversidade, mostrando que em todas as cores, todas as religiões, todas orientações sexuais e em ambos os gêneros existem pessoas de todo tipo: boas, más, honestas, pilantras, gênios e tolos. Qualquer um que discorde desse valor primordial de respeito ao diferente estará sendo um arauto do preconceito.

Chamei as pessoas que atacavam os homens e o masculino de “corporativistas de gênero”, pois que lutavam pela causa do seu gênero acima dos valores da igualdade e do respeito às diferenças. Essa foi a gota d’água.

No dia seguinte dezenas (centenas?) de pessoas vieram se manifestar. Muitas concordaram, enquanto outras diziam que minha postagem apenas fazia dividir o grupo de pessoas que lutavam contra um “mal comum”: o patriarcado. Não só algumas leitoras se indignaram, mas as outras blogueiras que compartilhavam o espaço comigo fizeram um abaixo assinado e um pedido de expulsão, um cancelamento peremptório pela minha postura de criticar o feminismo (delas) e suas bases excludentes e belicosas. Fui contactado pela dona do coletivo de blogs (a mesma que algumas semanas antes havia me chamado) e convidado a me retirar. Disse ela que estava sofrendo “pressões terríveis” e que seria melhor eu sair.

É evidente que eu saí imediatamente de um lugar que jamais deveria ter aceitado ir. Coletei todos os meus escritos e voltei para o meu humilde blog, que já conta com quase 2500 textos postados desde então. Todavia, eu acredito que sobrou mais uma lição. Durante a polêmica em que estive envolvido o blog explodiu suas visualizações. Nunca tantas pessoas participaram, escreveram, contestaram, apoiaram e se solidarizaram. Muitas pessoas ficaram ao meu lado, clamando por maior respeito com os homens e com os significados últimos do masculino; outras me odeiam até hoje. Pois imediatamente após a minha saída nesta comunidade passou a reinar a mais serena e plácida de todas as calmarias. Ninguém mais reclamou, não houve ataques, discussões ou cartas de repúdio. Todas estavam em perfeita sintonia em suas crenças e ideais. Não houve mais nenhuma briga ou contestação, nenhum contraditório ou discordância.

Para a surpresa de ninguém, o que poderia ser um veículo de difusão de ideais e propostas sobre parto, nascimento, maternagem e amamentação começou a atrofiar poucas semanas depois, na mais absoluta inanição. Não houve mais o mesmo interesse por um lugar que “chovia no molhado”, sem energia, sem enfrentamento, sem polêmica e sem audiência. As pessoas rejeitam lugares mornos, sem graça e sem surpresas. Sobrou o ensinamento de que o silêncio imposto, os cancelamentos e a censura produzem – de imediato – uma falsa sensação de paz, mas que esconde a destruição da energia propulsora e a capacidade de renovação.

Calar a boca daqueles de quem discordamos retira de nós a possibilidade de aprender com as diferenças. Porém, como todo movimento de transformação, respeitar as opiniões divergentes demanda coragem e força para suportar a terrível experiência de escutar o que não se quer.

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Visitar o Passado

O mestre Rubem Alves nos propõe a seguinte reflexão:

“Se você amou muito um lugar não faça a besteira de visitá-lo. Isso porque você vai pensando que encontrará o tempo daquele lugar, mas o tempo não estará mais lá. É melhor você ficar com a antiga imagem na sua cabeça…”

O mesmo vale para as coisas que te emocionaram ou te fizeram rir na infância. Eu, por exemplo, nunca assisto “Três Patetas” por essa mesma lógica. As piadas são as mesmas, mas eu mudei; não sou mais a criança que rolava de rir das palhaçadas que eles faziam. Tenho medo de que a minha incursão às piadas do passado desfaçam a mística que eu nutro pela alegria simples dessa época. E não é sequer necessário se reportar aos programas em P&B dos anos 40; até “Os Trapalhões” não teriam hoje o mesmo impacto dos anos 80 – e talvez fossem cancelados, assim como seria o “humor de bullying” dos Três Patetas.

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O tempo é um juiz severo, por vezes cruel, e somente os gênios vencem a barreira dos anos; estes a gente conta nos dedos das mãos. Grace Kelly seria linda ainda hoje, Marylin Monroe(*) não. Beethoven, Bach, Vivaldi, Pixinguinha e Chico ultrapassaram décadas, enquanto a maioria dos músicos de sucesso de hoje serão esquecidos em alguns pouco anos.

Acredito ser possível visitar os lugares que amamos outrora, mas apenas se tivermos plena consciência de que eles se mantiveram parados – num prédio, num filme, numa música, numa piada – mas nós, e o mundo que nos cerca, continuamos seguindo em frente. Se é verdade, como dizia Heráclito de Éfeso, que “é impossível cruzar duas vezes o mesmo rio”, também é justo dizer que não vamos nos emocionar duas vezes com o mesmo filme, lugar ou música, pois que se eles ainda são iguais, nós já não somos mais os mesmos.

Tenho uma amiga que foi abandonada pela mãe no parto. Esta mãe era muito jovem, bonita e ambiciosa, mas sua filha nasceu prematura e com graves problemas de saúde. Deixou a filha ainda no hospital, aos cuidados do pai, e voltou ao seu país de origem. Esta criança cresceu sob os cuidados do pai e da madrasta, que a adotou com poucos meses de vida. Sempre carregou a imagem da mãe linda e frágil que a abandonou por ser imatura demais para as responsabilidades da maternidade.

Passados mais de 30 anos decidiu-se por conhecê-la. Juntou o marido e os filhos e rumou ao encontro da mãe biológica, uma senhora que morava em um continente distante e que formou outra família, já com filhos e netos. Infelizmente para minha amiga esta visita foi o momento mais destrutivo de sua vida. A imagem de mãe que acalentara por tantos anos foi totalmente despedaçada pela mãe real, e desse trauma ela jamais se recuperou totalmente. Conhecer sua mãe verdadeira, para além das idealizações, foi um choque profundo demais, talvez porque ela não estava preparada para entender que o mundo de todos havia andado, seguido o fluxo dos tempos, enquanto sua imagem materna permanecera estática por mais de três décadas.

Se queres mesmo penetrar em seu passado deixe todas as ilusões de fora; não espere encontrar lá algo que tenha para si agora o mesmo valor de então.

(*) De maneira alguma eu acredito que Marylin Monroe seja “feia”. Aliás, quem chamasse Marylin de feia deveria ser preso – ou internado. Todavia, essa Marylin de formas rechonchudas nos dias de hoje não seria Miss nem da escola secundária. Ela está fora dos padrões de beleza de agora. Sua beleza teria valor nos anos 50, mas hoje seria desvalorizada. Mulheres como Marylin nos dias atuais estão fazendo dieta e tratamentos caros para celulite. Não existe aqui um julgamento de mérito; apenas pontuo que os padrões de beleza são mutantes, e nos padrões contemporâneos ela não se encaixaria.

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Jovem de Novo

Existem basicamente dois tipos de filmes de “volta ao passado”. Inobstante o truque de mágica envolvido nessa passagem, em um deles a pessoa retorna à sua persona de garoto ou adolescente e volta ao passado dentro de seu próprio corpo. Espanta-se ao ver sua imagem renovada no espelho, mas mantém a mentalidade e o conhecimento acumulados nos anos passados. Um exemplo clássico é “Young Again”, de 1986, com Keanu Reeves. Por outro lado, existe um outro tipo de filme em que a volta ao passado faz o personagem encontra-se, e até interagir consigo mesmo. Neste caso duas facetas separadas pelo tempo – jovem e maduro – interagem no mesmo espaço. O exemplo mais conhecido é a brilhante trilogia “De Volta ao Futuro”, onde os personagens encontram a si mesmos em outras épocas.

Vou me deter na primeira, porque durante toda a minha vida escutei expressões de remorso sobre acontecimentos ao estilo: “queria voltar no tempo, ter de novo 25 anos e agir diferente diante daquele acontecimento”. Ou ainda: “queria retornar à minha juventude, mas mantendo a cabeça que tenho hoje”. Eu então pergunto: seria bom ter um corpo jovem em uma cabeça madura? Seria bom para a humanidade ter jovens de 25 anos com a maturidade de velhos? Mais ainda: seria suportável para um sujeito ter sua cabeça madura confinada em um corpo jovem?

Digo isso porque penso que existem decisões que só tomamos porque a juventude, a energia e o ímpeto da pouca idade são mais fortes do que o juízo e o bom senso. As coisas – certas e erradas – que fizemos no passado são fruto da energia vital vigorosa que coordenava nossa vida. Boa parte das conquistas da humanidade ocorreram porque a impetuosidade estava à frente da sensatez, o que nos impeliu a aventuras arriscadas mas que acabaram trazendo descobertas novas e progresso. Duvido que um Menelau mais velho teria atacado Troia apenas para retomar sua Helena do troiano Páris. Mas um jovem o faria, mesmo às custas de uma década de guerra.

Muitos, como eu, foram pais muito cedo. Se a minha cabeça à época fosse como hoje é provável que não tivesse filhos tão cedo, ou talvez nem os tivesse. Nossa progressão na vida parece uma disputa entre desejo e razão, onde a razão vai aos poucos tomando o espaço do desejo com o passar do tempo. Entretanto, a razão nos dificulta a decisão de arriscar, e o desenvolvimento da cultura sempre se dá através dos passos mais largos que damos pela coragem de enfrentar os riscos.

Uma juventude artificialmente madura nos levaria à contenção do furor das descobertas, bloquearia a energia das aventuras e estancaria a busca pelas novidades arriscadas. Tomaríamos muito menos decisões incorretas, cometeríamos poucos equívocos e erraríamos bem menos, por certo; todavia, nossa maturidade extemporânea nos impediria de avançar através dos nossos erros e das descobertas que fazemos através deles.

A maturidade na juventude não seria o paraíso de sabedoria que imaginamos. Talvez fosse uma verdadeira tragédia, que condenaria os corpos jovens a uma vida mais segura, porém insossa e previsível. Até porque somos constituídos tanto pelos nossos erros quanto pelos nossos sucessos e acertos.

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Culpa e Responsabilidade

Parto de uma premissa que entende que a responsabilidade pelas escolhas no terreno dos direitos reprodutivos e sexuais, no que diz respeito a parto e nascimento, certamente é das mulheres. Quem não se responsabiliza pelo que escolhe não têm autonomia; aqueles que assim agem não passam de crianças grandes, para quem jamais pode ser dada qualquer tarefa que exija comprometimento. Portanto, é importante pontuar a arrogância de algumas mulheres que acham possível mudar a essência de seus parceiros – ou de seus médicos – usando apenas a ferramenta da sedução. Dizendo isso, assevero que criticar esta postura ainda muito disseminada na sociedade não é “culpar as mulheres” por questões sobre as quais não possuem qualquer controle. Trata-se tão somente de fazer as mulheres serem donas de seu destino, garantindo a elas o protagonismo e a responsabilidade que está a ele associada. Há que se entender as diferenças entre “culpa” e “responsabilidade” para evitar conflitos desnecessários.

Aliás, esse maniqueísmo também precisa acabar. As pessoas podem ser vítimas e culpadas ao mesmo tempo. Um sujeito que é assaltado porque deixou o seu dinheiro saindo para fora do bolso traseiro é vítima de um assalto e ao mesmo tempo culpado pela falta de cuidado com o que possui. Mulheres vítimas de vivência obstétrica da mesma forma. Podem ser vítimas de ações abusivas, mas culpadas pela ingenuidade de suas escolhas ou pela sua …. arrogância. Não são situações excludentes, em hipótese alguma.

Prefiro tratar da responsabilidade das mulheres de serem protagonistas de suas escolhas. Sim, no Brasil a maioria das mulheres não pode escolher os médicos ou serviços de assistência ao parto, e esta é uma questão que está relacionada às dificuldades do nosso sistema de saúde. Todavia, o que eu proponho aqui é algo mais simples: aquelas mulheres que podem fazer escolhas não devem ser vítimas da ilusão auto infligida de que serão capazes de mudar a essência dos seus cirurgiões através da pura sedução, para que eles – por elas “transformados” – atuem contra suas próprias tendências e preferências. Isso está em paralelo com o exemplo de mulheres que acreditam ter a capacidade de mudar a essência de seus parceiros – muitos deles violentos, abusivos e alcoolistas – através dos recursos do afeto. Isso é uma arrogância que testemunhei durante décadas entre as mulheres que procuravam assistência no setor privado de assistência ao parto.

Além disso, o discurso de que as “mulheres são vítimas, não tem agência, não podem escolher nada” já cansou. Quem se coloca como vítima eterna e imutável jamais assume o protagonismo; agente e vítima são posições antípodas. O fato de ser vítima não determina a paralisia e não retira a responsabilidade da reação!!! Só as mulheres poderão transformar o parto; esperar que médicos se humanizem (de novo, pela sedução idealista de algumas mulheres) é arrogância. Médicos jamais vão modificar sua postura em relação ao parto e nascimento sem que ocorra uma pressão intensa da parte de quem se sente prejudicado. Apenas a luta organizada protagonizada pelas próprias mulheres poderá – através da luta e do confronto – mudar esta realidade. Portanto, não se trata de estabelecer culpas – que são via de regra inúteis – mas de responsabilizar as mulheres pelas escolhas que precisam ser feitas. Enquanto os médicos forem os únicos responsáveis só a eles será garantido o protagonismo. Nenhuma conquista ocorre sem luta e essa luta não pode ser alienada a ninguém.

Esse tipo de postura arraigada na cultura propõe a existência de dois grupos em disputa: os bons (as mulheres) e os maus (os homens). Portanto, se os homens são os culpados da violência no parto a responsabilidade de transformar o mundo seria… deles?

Não seria preciso falar sobre o fato de que hoje, no Brasil e no mundo, a maioria dos obstetras “maldosos e cruéis” que cometem violências contra mulheres são, adivinhem… mulheres. Mas para além disso, essa perspectiva baseada na culpa explica o atraso em qualquer conquista civilizatória na direção da equidade. Enquanto as mulheres acreditarem que a mudança da sociedade partirá dos homens (e a mudança do parto partirá dos médicos) ficaremos esperando que uma ilusória iluminação recaia sobre suas cabeças e, a partir disso, eles decidam fazer algo que jamais ocorreu na história do planeta. Ou seja: nenhum grupo abriu mão do seu poder pela transformação interna; todos foram forçados pelos conflitos e pela pressão que vem de fora.

Assim, a perspectiva de culpar os homens ou culpar os médicos – cujas atitudes são basicamente reflexos da sociedade onde estão inseridos, no tempo e no espaço – além de equivocada e injusta não produz nada, não faz nada, não ajuda nada e não transforma nada da realidade contemporânea. Quem acha que o problema da violência obstétrica recai exclusivamente sobre os médicos eu convido a passear pela seção de comentários de qualquer notícia de parto nos periódicos nacionais. Ali poderão testemunhar o quanto as mulheres aplaudem cesarianas, condenam partos humanizados, adoram episiotomias e exaltam os abusos de tecnologia. Com isso fica claro que os médicos, em verdade, se adaptam aos valores sociais vigentes em sua época, se dobram ao imperativo tecnológico e se rendem à demanda tecnocrática. Além do mais, afirmar o que “as mulheres querem” é arriscado; muitas vezes (acredito que na maioria) elas desejam até o oposto do que nós, humanistas, defendemos.

Acreditar que os homens são os culpados por todas as mazelas do mundo é tão ingênuo quanto dizer que o problema da violência obstétrica é culpa dos médicos. Além de fulanizar e criar um fosso sexista onde “os homens são maus e as mulheres vítimas doces e inocentes” esta perspectiva não enxerga a complexidade dos direitos reprodutivos e sexuais e cai na sedução de criar uma dualidade que separa “os bons e os maus”, sendo os maus (que surpresa!!) os médicos, os homens, os brancos etc. enquanto as mulheres são nobres, justas, doces e inocentes. A realidade material mostra que não é assim que o mundo funciona.

Eu, pessoalmente, cansei dessa perspectiva que se baseia no apontar de dedos. Não apenas porque ela é falsa, mas porque perdemos tempo em organizar a mobilização necessária para pressionar o sistema de saúde para as mudanças na atenção ao parto. Atacar os médicos, acreditando que eles são o problema central, é uma espécie de bolsonarismo, um recurso característico da extrema direita, pois aposta nas acusações de ordem moral (médicos egoístas, maldosos, cruéis, orgulhosos, malandros, canalhas, etc.) sem perceber que o problema é sistêmico e estrutural, onde médicos e pacientes são peças de um gigantesco quebra-cabeças e prisioneiros de um jogo no qual são manipulados por interesses alheios.

Eu não aguento mais esse tipo de debate. Não existe chance de mudança através do idealismo. a solução e o avanço para uma maternidade mais justa, humana, respeitosa e segura apenas surgirá pelo caminho do materialismo, pelos confrontos e pela conscientização das massas sobre os direitos reprodutivos e sexuais. Culpar os homens, tratando-os como inimigos é a rota mais segura para o fracasso, e foi isso que vimos até hoje.

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