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Parto é Pauta

Em uma reunião político-partidária na qual estive envolvido há alguns meses escolhi fazer parte do grupo temático que debateria as questões das mulheres. Minha experiência de quase 40 anos escutando suas queixas, sonhos e alegrias (acreditava eu) poderia ser útil para o debate. Por certo que acabei chamando a atenção por ser o único homem em um círculo composto por duas dezenas de mulheres de várias partes do Brasil, de diferentes etnias e de distintas classes sociais. Mas, como acho que todos temos o direito de cultivar e expor nossas perspectivas sobre qualquer problema social, permaneci sentado aguardando humildemente a oportunidade de me manifestar. Eu temia o que estava para ocorrer, e por isso mesmo estava preparado para desafiar o padrão dos debates. A coordenadora listou, como sugestão, que fossem debatidos três temas essenciais, os quais eu já sabia de antemão que estariam presentes.

1. Trabalho doméstico
2. Descriminalização do aborto
3. Violência contra a mulher

Fácil adivinhar, não? Estes são os três temas mais comuns em todos os debates feministas, e não há como negar sua importância ou relevância. O trabalho doméstico é um ponto nevrálgico da sociedade capitalista ao manter a mulher atrelada a uma rotina de trabalho estafante e não remunerado, condenando-a à dependência econômica e/ou à tripla jornada, sacrificando sua saúde e seu lazer. O debate sobre a dinâmica desse labor é essencial para a emancipação da mulher, a qual jamais ocorrerá sem a conquista de sua independência financeira.

Já o aborto é uma questão de saúde pública mas, anterior a isso, está o direito das mulheres de disporem livremente sobre seus corpos e seus destinos. É, portanto, um tema relacionado aos mais básicos direitos humanos reprodutivos e sexuais, pois tem repercussão na saúde e na proteção das mulheres. A luta pelo aborto livre e seguro não pode faltar em nenhum debate que se proponha a proteger socialmente as mulheres e seus filhos.

Por último, a violência doméstica contra a mulher. Triste perceber que esta drama social teve um aumento de significativo durante a tragédia social dos governos Temer/Bolsonaro, mas também em função da pandemia e da crise que a antecedeu. Durante todo ano de 2020, 1.350 mulheres foram vítimas de feminicídio, número 0,7% maior que no ano anterior. O número de chamadas por violência doméstica para o 190 (Polícia Militar) subiu 16,3% e chegou a 694.131 no ano passado. Todavia, a única resposta que temos oferecido a este problema nos últimos anos tem o caráter punitivista da Lei Maria da Penha que jamais solucionou o problema da violência de gênero porque ataca apenas a ponta do iceberg: o resultado social das frustrações acumuladas transformadas em violência. Como todas as ações que apontam para a punição, esta é mais uma medida de resultados pífios; a causa, como sabemos, é a perversidade do capitalismo, porém nos parece mais fácil encarcerar pretos e pobres do que sanar nossa ferida social crônica da iniquidade e da opressão. Finda a apresentação eu sabia que a mesma lacuna desses grupos se repetiria e, por isso mesmo, pedi a palavra em primeiro lugar para que as pessoas que se manifestassem depois de mim pudessem pautar suas falas com o que eu tinha para lhes dizer. Olhei para minhas colegas de causa socialista e disse:

“É provável que a maioria de vocês nunca passe por um aborto. Algumas, espero, nunca serão vítimas de violência de gênero, ao menos por aquelas agressões mais grosseiras. Algumas de vocês talvez tenham companheiros dispostos a dividir tarefas no lar. Entretanto, TODAS vocês estarão marcadas pelo parto, sem exceção. Sim, porque se não tiveram a oportunidade de parir, ou sequer desejam passar por esta experiência, certamente chegaram a este mundo através de um parto. Não é exagero dizer que o nascimento é um dos eventos mais marcantes na vida de homens e mulheres e nele podemos ver claras as marcas do capitalismo e do patriarcado, momento em que seus valores serão impostos e reforçados.

O nascimento de uma criança é o momento onde mais ocorre violência contra a mulher, que vai se manifestar na visão diminutiva e defectiva sobre ela, nas práticas desnecessárias, nos procedimentos anacrônicos, na perda dos seus direitos, no silenciamento da sua voz e na visão depreciativa que a sociedade lança sobre suas capacidades de gestar, parir e maternar com segurança.

Não haverá nenhum avanço nas lutas das mulheres sem que o parto e o nascimento livres tenham um lugar de destaque nas lutas pela dignificação feminina. É preciso que a esquerda se dê conta da importância do parto no discurso de emancipação das mulheres. Como dizia Máximo Gorky “só as mães podem pensar no futuro, porque dão a luz à ele em suas crianças”, mas, digo eu, elas também vão parir e educar os reacionários, e por isso estas mulheres precisam encontrar no parto o momento de revolução de sua autoimagem, tornando clara sua nova trilha de autonomia, valor, coragem e liberdade – na direção do socialismo”.

Surpreendentemente todas as mulheres presentes concordaram que esse deveria ser um tópico que não poderia faltar, e muitas deixaram em suas falas depoimentos pessoais de maus tratos obstétricos, inclusive citando a epidemia de cesarianas como um aspecto dessa violência, que se mascara como cuidado tecnológico, limpo e asséptico, mas que, em verdade, é dominado por uma perspectiva autoritária e alienante, tornando as mulheres prisioneiras de uma lógica intervencionista e despersonalizante. Mais tarde o trabalho do grupo temático foi lido na plenária e fiquei muito orgulhoso de ver a violência obstétrica levada a todos os congressistas como um tema que não deve jamais ser esquecido – como historicamente o foi – nas pautas de luta das mulheres. Por fim, mesmo que ainda testemunhemos violência e abusos na atenção ao parto, não há porque naufragarmos no mar do pessimismo, pois sempre haverá motivos para manter a esperança.

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Garoto Neymar

Para além de ser um futebolista, o garoto Neymar é mais um ídolo negro desprezado pelas elites. Essa é a razão da disputa de narrativas que envolve há muito tempo a figura desse jogador e a controversa defesa que o PCO faz de sua representatividade no imaginário nacional.

Basta uma pesquisa simples para vermos que ninguém jamais se perguntou se Zico, Piquet, Fittipaldi ou Airton Senna sonegavam impostos, se tinham amantes, e muito menos a qualidade do seu caráter. Senna já morreu, mas os outros três são, a propósito, bolsonaristas. Mas é claro que não se pergunta isso para ídolos brancos. Por outro lado, Neymar não pode ter esse tipo de falha.

Eu pessoalmente acho o Neymar um chato; um bebê imaturo. Um Michael Jackson da bola, gênio desde os 11 anos, infantilizado e mimado. Ser tratado como Rei – ou Rainha – desde a mais tenra infância costuma destruir personalidades brancas de Hollywood, mas Neymar não tem esse direito, por ser negro. Ainda por cima é cercado de gente do pior tipo, como o seu pai trambiqueiro e sonegador. Mas só ele é julgado por ser assim, e essa é uma clara face do racismo e do ataque sistemático ao futebol brasileiro.

A chantagem que recebeu naquele caso de falso abuso sexual há alguns anos mostra que, ao colocar-se automaticamente ao lado da suposta vítima, estimulando um linchamento público, e antes que as evidências (ou a falta delas) viessem à tona, a imprensa fazia coro às tentativas de destruir um ídolo que ousa ser negro em uma sociedade fortemente racista.

Desta forma o PCO tem razão ao criticar quem tenta destruir a imagem do Neymar e do próprio futebol, tratando-os como fenômenos menores. Assim como fizemos com Pelé e as críticas à sua paternidade, Neymar é outro ídolo negro que precisa ser destruído – assim como o futebol brasileiro, um dos poucos fatores de integração do negro em nossa sociedade.

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Hegemonia das Ruas

Essa foi a manifestação do professor Luis Felipe Miguel da UnB, sociólogo da esquerda liberal: “Há setores da esquerda que são presas de um tipo de machismo discursivo que equivale “violência” e “revolução”. Os neostalinistas ficam nas palavras, o PCO vai às vias de fato. Mas não tem nada de revolucionário nesta violência. É só uma compensação psicanalítica vulgar pela própria impotência.”

Desta vez estou em pleno desacordo.

O PCO – um partido diminuto e marxista – ganhou as manchetes do Brasil inteiro por fazer o que deveria ter sido feito em 2013: expulsar a direita das manifestações. Precisou ser feito por um grupo de corajosos que não se deixaram seduzir pela ideia de “frente ampla”. Existe uma confusão bem clara aqui: tirar a direita golpista das manifestações NÃO É o mesmo que afastá-la institucionalmente dos debates no congresso e no senado.

Que os líderes do PSDB se juntem nas votações pelo impeachment, tudo bem, mas não podemos permitir que eles sejam a VOZ DAS RUAS. O que estava em jogo era a HEGEMONIA das passeatas, e a infiltração da direita foi claramente planejada. Basta ver que foram às ruas fazendo provocações apenas grupos LGBT do PSDB, para colocar na esquerda a pecha de “homofóbicos”.

E mais: quanto tempo ainda vamos cair na falcatrua dos “black blocks”. Algumas fotos mostram claramente a incompetência dos farsantes de mimetizar um ativista. Usando botas da polícia e incapazes de fazer um simples símbolo de anarquia? Sério que vamos insistir em dar palanque para este tipo de armação velha, antiquada e espertinha, que visa apenas insuflar o terror no povo mais ignorante para colocá-los contra os movimentos de esquerda?

Acreditar que vamos fazer DE NOVO a mesma conciliação de 2013 e esperar resultados diferentes é ridículo. Pensem como seriam recebidos os grupos de direita nas manifestações do Chile ou da Colômbia. O PSDB é a fonte de onde surgiu o golpismo do Brasil, ou esquecemos todos do emblemático discurso de Aécio Neves negando a possibilidade de Dilma governar? Tudo começou com o PSDB, e ainda hoje eles apoiaram 92% das pautas apresentadas por Bolsonaro!!!! Como podemos aceitar a BASE DE APOIO de Bolsonaro como protagonista deste tipo de manifestação?????

Quem pode aceitar que o movimento das RUAS permita a infiltração de golpistas – que só estão lá para que esqueçamos a sua participação nos golpes e para posarem de “moderninhos” e democratas? Acha mesmo que é possível dialogar com os mesmos fascistas que espancam estudantes, professores, alunos e que roubam o dinheiro da merenda? Que tipo de civilidade subserviente é essa? Quantos tapas na cara é preciso que a gente tome até se dar conta que pedir para que parem não basta? Sim, precisamos ser “estratégicos e racionais” e retirar das ruas os grupos que tentam roubar o protagonismo das manifestações. Precisamos expulsar das manifestações os grupos que querem excluir o nome de Lula e levar o verde e amarelo dos conservadores para manchar a hegemonia vermelha. Precisamos retirar de nossas marchas os grupos que querem passar pano para as votações de desmonte do Estado que protagonizam no Congresso. Este sim é o exemplo mais claro de ENERGIA e RACIONALIDADE na construção de um movimento de rua forte e coeso.

Agora a esquerda liberal decide que temos que “juntas esforços” para derrubar Bolsonaro, como se ele fosse o problema!!! Bolsonaro é o SINTOMA de um golpe da direita para o desmonte do estado brasileiro e a manutenção do país como quintal do império. A infiltração da direita nos movimentos lhes garantiria legitimidade para colocar-se contra Bolsonaro e poder impulsionar o fascistinha do Leite, Dória, Huck ou mesmo Moro. E isso sendo feito pela nossa covardia em delimitar territórios.

Sobre a frase usada pelo cientista político Luis Felipe Miguel chamando as manifestações do PCO de “compensação psicanalítica vulgar sobre a própria impotência”…. talvez fosse mais justo dizer que os discursos que tentam normalizar e justificar a impotência e/ou a inação sejam, em verdade, a compensação discursiva e psicológica da covardia e da incapacidade de agir.

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Cristo

PPCV – Post Pequeno pra me Cancelar de Vez

Quero dizer que se Cristo voltasse à terra agora seria preto, pobre, moraria na comunidade periférica, trabalhador do IFood e filiado ao PCO, mas poucos estão preparados para essa verdade.

Ahhh…“Partido do Cristo Onisciente”? Pode até chamar assim, mas sua pregação seria (de novo) pela causa operária. Falaria em nome dos oprimidos, os pretos, os malditos, os miseráveis e os pobres. Apoiaria as put*s, os vi*dos e os trabalhadores precarizados mas seria de briga e de rua, enfrentaria policia racista e fascistas na porrada – e “tirando a roupa”.

Ele estaria na porta das fábricas e subindo em caixa de verdura no CEASA para falar para as massas. Seria um Cristo marginal, carismático, intenso. Uma mistura de Luther King, Che Guevara e Malcolm X. Aliás, três que, como Ele, morreram assassinados por seus opressores.

Seria um mais uma vez um Cristo da quebrada e do enfrentamento, e não um Cristo de amor e perdão. Mas… como eu disse, vocês ainda acreditam que ele seria loiro, de olhos azuis e pregaria a ideia fantasiosa de uma felicidade em outro mundo, longe daqui.

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Censura gringa

Dar a uma empresa americana o direito de censurar o que se fala no Brasil é uma tolice inaceitável e uma ação suicida. Uma burrice e um tiro no pé. Hoje é o idiota propagador de Fake News, mas amanhã será alguém da esquerda por liderar uma marcha contra o governo. Aplaudir esse cancelamento é como elogiar o Bonner por bater no Bolsonaro.

“Cria cuervos y ellos te comerán los ojos”

Nossa esquerda está recheada de liberais que não conseguem perceber a estupidez de armar os inimigos. Festejar ações do judiciário (como muitos fizeram com as ações de Moro na Lava Jato) ou das empresas americanas de mídia só porque circunstancialmente nos beneficiam é uma declaração inacreditável de imaturidade política.

Se você acha que o Alan dos Santos passou dos limites que seja julgado pela justiça brasileira e não por burocratas do Vale do Silício (ou gente contratada por eles). Se ele cometeu crimes que a lei brasileira o puna, mas que não seja apagado pelos critérios morais do Mark Zuckerberg!!!

Pessoas que lutam contra o apartheid de Israel e contra o genocídio palestino são continuamente censuradas no YouTube e no Facebook, sendo tratadas como “terroristas”, apenas porque o dono do Facebook é conhecido apoiador do estado de Israel. Mesmo os pacifistas são cancelados!!! A liberdade de expressão não pode estar sujeita ao humor e às paixões de um ou outro milionário.

Entendem agora como é grave dar a estes caras o poder de escolher quem eles “cancelam” e quem promovem?

Acordem liberais.

Os liberais infiltrados na esquerda são uma praga. Defensores da censura deveriam voltar para a escola para entender que nossa soberania não pode ser entregue a um fascistinha americano para ELE decidir o que pode ou não ser publicado aqui.

Se as TVs não podem falar o que quiserem – por serem concessões públicas – porque não usar a mesma regra para o Facebook? Por que permitir que uma narrativa americana e imperialista controle as mentes dos brasileiros?

Muitos agora se aprisionam à figura nefasta do Alan dos Santos e não conseguem perceber o monstro da censura gringa que está por trás. No esqueçam que Alan dos Santos é bolsonarista e trumpista, e todas as Big Techs do Vale do Silício apoiaram Biden. Não se pode admitir ingenuidade nessa guerra de narrativas.

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