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Jornalismo isento

Uma conhecida jornalista, da maior rede de televisão brasileira, ao prestar homenagem ao dia das mulheres, apontou solenemente seus dedos para as “mortes de mulheres israelenses cometidas pelo Hamas”, sem que uma palavra sequer fosse dita sobre as milhares de mulheres mortas pela fúria assassina sionista que ocorre agora em Gaza, no primeiro genocídio televisionado pela humanidade. Também não fez referência ao fato de que as mulheres palestinas são executadas há décadas, e números de mortes seriam ainda mais tétricos se acrescentarmos aquelas que pereceram nos 75 anos de ocupação brutal de Israel, que se iniciou no Nakba e perdura até hoje. Mas é claro que sabemos o quanto de blindagem se produz sobre jornalistas de grandes emissoras. Não há como criticá-las publicamente sem pagar um alto preço, pois é fácil ser acusado de misoginia e/ou racismo – pelo menos na perspectiva dos identitários. Aliás, está é uma das razões (além da qualidade profissional) para as empresas jornalísticas apostarem no identitarismo, pois esta estratégia cria uma barreira bem sólida contra as notícias enviesadas que veiculam.

A mesma estratégia ocorre na representatividade política onde as ações mais brutais e destrutivas do imperialismo são comunicadas por negros (ou “afro-americanos”), basta lembrar a recente negativa de cessar fogo comunicada pela embaixadora americana na ONU, Linda Thomas-Greenfield, uma diplomata negra que afirmou que o veto americano à proposta ocorreu por este não citar o “direito de Israel de se defender”, sem explicar que, pelas leis internacionais, apenas o país ocupado tem o direito de se defender das agressões dos invasores. É evidente que esta desculpa esfarrapada tem o claro intuito de manter viva a guerra, levando adiante a limpeza étnica sobre a palestina e tornando realidade a “solução final” que a mesma diplomata acabou citando – em um curioso e horrendo “lapso” – algumas semanas depois.

“Ahhh, mas eles apenas cumprem ordens. Eles somente reproduzem o que os seus superiores lhes determinam”. Estes argumentos que isentam de culpa os jornalistas que oferecem seu rosto às notícias ou os representantes políticos que comunicam atrocidades se baseiam, por um lado, na tese da neutralidade da imprensa, que seria apenas um veículo imparcial dos fatos e por outro lado na cadeia de responsabilidades que coloca os representantes como apenas aqueles que comunicam as decisões. Sabemos da impossibilidade de uma imprensa positivista, baseada em fatos concretos e sem qualquer viés; não existe jornalista sem lado que apenas “cumpre ordens”. Também não há embaixadores sem opinião e sem valores morais. Usar como defesa a impossibilidade de se insubordinarem às determinações dos seus superiores é inaceitável. Os jornalistas que representam uma empresa francamente engajada nos interesses americanos e com evidentes interesses de proteger Israel, o sionismo e o apartheid na Palestina, assim como os representantes legais deste poder transnacional são responsáveis pelas atrocidades que escondem e pelas ações de terror que disseminam.

Ora, essa desculpa não pode mais ser aceita. Um policial que só prendesse negros dizendo estar cumprindo ordens também é responsável pelo racismo de suas ações. Ninguém é obrigado a cumprir ordens ilegais ou que ferem a decência. Qualquer sujeito a quem fosse exigido veicular mentiras ou narrativas sectárias poderia se negar a cumprir estas ordens, por um mecanismo de “escusa de consciência”. Sua condição de empregados não pode levar ao extremo aceitar e reproduzir qualquer mentira ou desinformação como se não fosse dono de sua consciência, como que transformado em um mero megafone humano das ideias de quem representa.

Aliás, “eu só cumpria ordens” foi o que mais se ouviu em Nuremberg, mas ninguém se tornou inocente usando esta estratégia. Caso um oficial alemão oferecesse como justificativa as ordens recebidas de seus superiores, ficando sem alternativa para desobedecê-las, não foi aceita a possibilidade de absolvição, mas apenas de redução de pena. Da mesma forma, um jornalista que aceita narrativas enviesadas na condução de um noticiário torna-se responsável pelos danos a que elas estiverem vinculadas. A responsabilidade do jornalista ocorrerá sempre que ele foi fonte ou veículo de uma notícia ou opinião.

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Suzane

Suzane Von Richthofen, pivô de um crime bárbaro ocorrido no início deste século que levou à morte seus pais,  decide voltar à escola aos 40 anos, e está cursando faculdade na Universidade São Francisco, no campus de Bragança Paulista (SP), onde mora com seu marido, um médico da cidade, com quem teve um filho e trocou seu nome para Suzane Louise Magnani Muniz. Também decidiu não comparecer na primeira semana de aulas para não precisar se apresentar e revelar quem é. A notícia causou indignação entre muitos internautas que, nas redes sociais, afirmam que se trata de um erro, que ela “jamais deveria ter uma vida normal”, que “os pais estão mortos e ela aproveitando”, que nosso judiciário é brando demais com este tipo de crime e que isso “só ocorreu porque o governo é de esquerda”.

Nada de novo no discurso punitivista ressentido que conhecemos tão bem. O ponto principal da perspectiva destes indignados é a crença de que alguém que cometeu um ato terrível não tem o direito de ser feliz; algo como uma danação eterna.  Há outros que acreditam que o encarceramento infinito dessa moça seria capaz de diminuir – por um efeito mágico – a criminalidade, as taxas de homicídio ou a pervasividade dos crimes hediondos. Infelizmente para estes, não há um estudo comprovando a relação direta entre encarceramento e queda dos níveis de criminalidade em longo prazo. Por esta razão, o desejo de manter eternamente sua punição através da rejeição social, do impedimento de estudar e da censura pública, mesmo depois de duas décadas de regime fechado em uma penitenciária, em nada ajudará a sociedade a resolver o seu problema com a criminalidade e apenas poderá satisfazer nossos desejos mórbidos e inconfessos de vingança.

Por acaso o sofrimento de Suzane pode nos deixar mais felizes? Qual a punição que nos deixaria mais alegres? Qual o sofrimento terrível imposto a ela nos arrancaria sorrisos? Por que nos importamos que ela sofra ainda mais, depois de tudo que já passou? O que deve fazer uma pessoa que cometeu erros e pagou por eles para ser deixada em paz? O que é interessante é que exigimos que nossos erros sejam contextualizados, entendidos e até perdoados, mas não aceitamos que alguém que errou possa minimamente reconstruir sua vida.

Diante da vontade dessa moça de voltar a estudar só o que permito dizer é: “Muito bem, Suzanne; siga sua vida”. Parafraseando um gracejo corriqueiro do meu pai, que repetia a frase de Jesus, eu diria apenas: “Vá e não peques mais”. No Brasil não existe prisão perpétua; continuar a penalizá-la depois de tantos anos é injusto. Todos têm o direito de continuar sua história após o pleno pagamento de sua dívida com a sociedade. É importante lembrar que seu crime pode não ter perdão, mas ela tem. Não é lícito confundir o crime com o criminoso. O que foi objeto de julgamento foi seu crime, o delito pelo qual foi acusada, não ela. Até onde sei ela já pagou pelo que fez e não foi pouco: foram quase 20 anos de prisão, com tudo o que representa de negativo passar pela juventude sem liberdade. Depois de saldar a conta com a justiça ela agora ela tem o direito de viver em paz. Este é um preceito básico do direito.

“Se fosse com você não responderia dessa forma”, disseram muitos internautas com quem troquei ideias nas redes. Bem, se fossem os meus pais as vítimas dessa moça minha opinião não teria valor necessário para emitir um juízo, pois meu envolvimento emocional impediria uma análise isenta. Mas há os que dizem que ela pode ter pago sua dívida com a justiça, mas para o “tribunal popular” ela será eternamente culpada pela barbárie dos seus atos.

Suspeito que, realmente, ela jamais terá a possibilidade de plena recuperação. O crime cometido se reveste de uma gravidade especial na nossa cultura, e não surpreende que até nas tábuas sagradas trazidas por Moisés está gravado “Honrará teu pai e tua mãe”. Esta marca jamais sairá de sua persona pública, mas eu lamento que assim seja. O perdão é uma característica dos sábios, pois revela a capacidade de se colocar no lugar do outro, e a compreensão profunda da fala de Terêncio que nos ensinou “Sou humano, e nada do que é humano me é estranho”.  Quem sabe, fossem outras as circunstâncias e contextos eu não teria o mesmo desvario, a mesma brutalidade e igual perversidade? Quem pode atirar esta pedra? E no que me concerne, não é justo apontar dedos. Ela pagou sua dívida com a sociedade e não me cabe aumentar a pena com meu desprezo. É também importante lembrar que perdoar não é o mesmo que absolver, apenas não permitir que o mal de outrem lhe afete. Por fim, que Suzane seja feliz da maneira que for possível, e que tenha forças para carregar o fardo de culpa que sempre terá sobre os ombros.

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Horror e Culpa

Na segunda guerra mundial é dito que as câmaras de gás foram criadas porque os fuzilamento de inimigos carregavam dois graves problemas: o uso de uma munição cada vez mais escassa em não combatentes e as graves repercussões psíquica nos soldados a quem era dada a tarefa de matar com tiros na nuca jovens, mulheres e até crianças. Não raro, os soldados nazistas tiravam a própria vida como forma desesperada de escapar do martírio de culpa e dor diante da barbárie de seus atos. Com o tempo, apenas os psicopatas mais renitentes suportavam as execuções. Diante de tamanho custo, uma forma mais asséptica de assassínio coletivo foi elaborada.

Na campanha genocida de Gaza, um fenômeno semelhante começa a acontecer. Incapazes de justificar os massacres, o assassinato de mulheres e crianças indefesas pelos bombardeios de seus modernos aviões, Israel começa a ver crescer um enorme contingente de soldados transtornados por suas ações criminosas. Da mesma forma como ocorreu com os nazistas, os recrutas e aviadores agora tomam consciência plena do que significa bombardear uma mesquita, uma igreja, um hospital, matando tudo e a todos sem qualquer respeito pela vida de um povo. Não há como manter a sanidade diante de tantas atrocidades, algo que o filme “Corações e Mentes” já denunciava quando avaliou a repercussão da guerra do Vietnã na saúde psíquica dos soldados americanos que retornavam para casa.

Em Israel, muitos são os soldados que se recusam a atuar na Palestina. Em um caso famoso de 2014, um grupo de elite do exército sionista que atuava na Cisjordânia negou-se a compactuar com a opressão sistemática exercida sobre os habitantes palestinos das cidades ocupadas. Para estes militares, serem os agentes de uma brutal opressão sobre uma população oprimida e sem recursos tornou-se um fardo moral demasiado pesado para carregarem. A questão moral passou a se tornar um elemento crucial na coesão do exército sionista, deteriorando sua união e ameaçando as hierarquias. Assim como era impossível passar pelo charco das execuções nazistas sem enlamear suas botas, também agora é impossível cometer todos os crimes de guerra até hoje catalogados e não se sentir participante de um holocausto racista e desumano. Os próprios recrutas – jovens de diferentes nacionalidades e culturas – aos poucos perceberão o quão destrutivas são – para si mesmos – suas ações contra um grupo humano desarmado e indefeso. Não há como manter a sanidade mental quando se adentra o inferno de uma guerra racista e genocida.

No filme “Valsa com Bashir” toda a narrativa é construída sobre o sentimento de culpa obliterante de um jovem judeu que participou do massacre de Sabra e Chatila. Seu esquecimento dos acontecimentos daquela madrugada de 16 de setembro de 1982 estava relacionado com sua vã tentativa de apagar da memória os fatos e cenas terríveis que protagonizou ao lado de seus amigos soldados no sul do Líbano. Como o filme deixa claro, não há recalque que se mantenha para sempre; um dia “o retorno do recalcado” há de cobrar de cada um de nós a responsabilidade pelos eventos que constroem nossa subjetividade. Não pode ser diferente para estes que, agora, participam do horror e dos massacres em terras palestinas; mais cedo ou mais tarde haverá uma cobrança, seja ela social e jurídica, ou pela culpa mortífera que, por fim, destruirá o sujeito por dentro.

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Birthright

Lembrei hoje de um colega da escola médica porque na época da faculdade ele fez a conhecida viagem de “intercâmbio” de jovens para Israel – chamada de Taglit, ou Birthright Israel – que muitos, se não todos, judeus de classe média faziam ainda quando bem jovens. Quando voltou estava transformado, com incontido patriotismo por Israel. Perguntei a ele, por curiosidade, qual sua opinião sobre a região, o país, as guerras, a construção da nação e sua experiência com o povo de lá. Ele me descreveu detalhadamente sua perspectiva sobre o “conflito” na Palestina, trazendo uma visão totalmente enviesada, que é exatamente para o que servem estas viagens com a juventude judaica: produzir uma lavagem cerebral profunda, para introduzi-los na narrativa sionista.

Na sua explicação escutei todos os clichés que me acostumei a ouvir a partir de então sobre “um povo sem terra para uma terra sem povo”, “a guerra dos bárbaros árabes contra os bravos judeus”, “os heróis da independência”, “a villa in the jungle”, “a única democracia entre ditaduras sangrentas” etc. Outra coisa que me chamou a atenção foi sua visão sobre “Sabra e Chatila“. Ele estava em Israel exatamente na época da invasão e ocupação do sul do Líbano, quando ocorreu o massacre do campo de refugiados palestinos por milícias cristãs libanesas. Na madrugada do dia 15 de setembro de 1982, o Exército de Israel ocupou Beirute Ocidental, mesmo depois de se comprometer a não fazê-lo, tendo como contrapartida a saída da OLP para a Tunísia. “Tão logo a ocupação foi concluída, as tropas israelenses – comandadas por Ariel Sharon – cercaram os campos de refugiados de Sabra e Chatila. No dia 16 de setembro, o alto comando israelense autorizou às tropas falangistas cristãs, sedentas de sangue, a entrarem nesses dois campos de refugiados para realizar uma chacina contra a população civil que ali vivia, concretizando a vingança pela morte do ultradireitista Bachir Gemayel, presidente do Líbano ocupado”. (Breno Altman, vide mais aqui). Um filme muito interessante sobre este massacre patrocinado por Israel (entre tantas outras atrocidades) é a animação “Valsa para Bashir“. 

Tão logo voltou ao Brasil, sua explicação sobre o massacre que ocorreu tão próximo de si, está em plena sintonia com as narrativas sionistas que percorrem o campo simbólico até hoje. “Permitimos que dois inimigos nossos – libaneses e palestinos – se matassem mutuamente. Onde está a falha ética? Eles que se entendam”, explicou-me, de forma altiva. Na época eu nada sabia sobre a causa Palestina, o Nakba, e a resistência da OLP. Também acreditava que Yasser Arafat era um “terrorista”, que os árabes eram selvagens e que os sionistas desejavam a paz; por ignorar tantos aspectos importantes do conflito, lembro com vergonha de ter concordado com vários dos seus argumentos. Afinal, como poderia contestar, quando toda informação sobre a região na época era filtrada por uma imprensa claramente imperialista e favorável ao colonialismo?

Hoje resolvi olhar no seu Facebook para saber o que ele pensava sobre o massacre de agora, os 30 mil palestinos mortos, as crianças amputadas, o horror do genocídio contra a população civil, a limpeza étnica e, sem surpresa, percebi que ele se mantém aferrado ao preconceito sionista, usando palavras de ordem que vão desde “os palestinos não existem”, “vamos destruir o Hamas”, “eles morrem porque usam crianças como escudos humanos” e até “é imoral comparar o holocausto com essa guerra”. E, claro… não poderiam faltar os ataques a Chomsky, todos os judeus que apoiam a Palestina e os indefectíveis ataques ao presidente Lula e à esquerda, pelo crime de se posicionarem contra o mais brutal massacre contra civis do século XXI. O Birthright cumpriu seu objetivo, e manteve um sujeito prisioneiro de uma ideologia racista e supremacista desde a juventude até quase a velhice. Não há como não reconhecer a potência de um modelo que engessa mentes utilizando o holocausto como fonte de inspiração e identidade.

Com tristeza percebi que a faculdade de Medicina não é capaz de criar profissionais capazes de um olhar crítico sobre a sociedade, prontos para enxergar esta profissão de uma forma mais abrangente e complexa do que as simples tarefas operacionais de classificar, diagnosticar doenças e aplicar sobre os pacientes as drogas que nos ensinaram a prescrever. Acabamos sendo o sustentáculo de uma sociedade capitalista e patriarcal, sem perceber o quanto disso se reflete nas próprias doenças que tentamos tratar. Meus contemporâneos do tempo de escola médica, com raríssimas exceções – acreditem, ser de esquerda na Medicina é uma posição muito solitária – se tornaram conservadores em sua grande maioria, sendo alguns deles despudoradamente reacionários e fascistas, cuja paixão pela humanidade – a arte de curar e o questionamento das razões últimas que produzem as doenças – foi esquecida no banco de uma sala de aula da faculdade, durante uma classe de fisiologia, há muitas décadas.

Só me cabe agora lamentar…

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O Futuro da Palestina

A narrativa que Israel e seus defensores tentam nos impor é de que antes de 7 de outubro de 2023, entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo havia um país em paz, com equidade, justiça social e democracia. Tanto é verdade que uma festa para a juventude israelense ocorria poucas quadras distante dos muros do campo de concentração, onde estavam aprisionados “terroristas” perigosos – em sua maioria mulheres e crianças. Eis que, subitamente e sem qualquer motivo, um bando de “pessoas más”, árabes perversos e assassinos, fugiu da prisão de Gaza, matando e sequestrando inocentes. Por que razão fariam isso, se vivem num país que celebra há poucos metros a liberdade, a vida e a democracia? O mundo imediatamente se solidarizou com os pobres israelenses pegos de surpresa enquanto celebravam seu amor pela vida. Os relatos imediatos sobre “estupros”, bebês em fornos e crianças com suas “cabeças decepadas” foram disseminados largamente pela imprensa ocidental, e com o correr das semanas mostraram-se absolutamente falsos, mas a mídia continuava a oferecer a imagem de uma luta do bem (o ocidente) contra o mal (o oriente).

Para fazer prevalecer a perspectiva sionista era necessário dar a entender que o 7 de outubro era uma espécie de “big bang”, a explosão primordial de revolta árabe que deu início a uma reação intensa de vingança e retaliação. Com esta perspectiva, os israelenses – e 90% da imprensa corporativa ocidental – procuravam apagar o Nakba (a catástrofe de 1948) e o que se seguiu: 7 décadas de torturas, mortes, assassinatos, violências, massacres, despejos, desrespeito e a tentativa de eliminar o povo palestino de seus direitos, expulsando-o de sua própria terra. Para justificar suas ações retaliatórias desproporcionais, que atingem crianças e mulheres em sua maioria, desumanizam o povo palestino chamando-o de “animais”, e usam o termo “terrorista” para se referir aos combatentes do Hamas e outros grupos de resistência, rotulando negativamente os guerreiros que lutam há décadas, sem recursos e sem exército, pela dignidade do seu povo, resistindo à ocupação violenta e ilegal.

Todavia, as táticas de controle da narrativa e desinformação produzidas pela mídia corporativa não podem funcionar indefinidamente. Não é mais possível mentir para todos o tempo todo. A “carta do holocausto”, usada como salvo conduto para as atrocidades de Israel, não está mais funcionando, como já alertava Norman Finkelstein em seu livro “A Indústria do Holocausto”. Não há como justificar o morticínio palestino usando como desculpa algo que vitimou as comunidades judaicas na Europa há um século, e uma tragédia não pode oferecer ‘as suas vítimas um passe livre para toda sorte de perversidades. Inobstante o numero assustador de mortes e as crueldades cometidas pelo “exército mais covarde do mundo”, o povo palestino jamais desistirá de sua luta por liberdade, segurança e autonomia. A verdade já chegou ao mundo inteiro, e Israel está se encaminhando célere para a condição de pária internacional. Com o tempo, até os seus maiores apoiadores, os americanos – que consideram este país como seu maior porta aviões em uso – vão desistir de Israel, e aqueda dos governos racistas será inevitável.

Lula está certo em denunciar ao mundo que as práticas de Israel são as mesmas levadas a cabo por Adolf Hitler na guerra mundial de meados do século passado. A crítica de que o “holocausto judeu”  não é comparável a nenhuma outra tragédia humanitária é, em si, um resumo do racismo sionista. Este mesmo sofrimento ocorreu diariamente nos 75 anos de ocupação da Palestina através da fome, da miséria, dos abusos, da segregação e da violência. A exigência de exclusividade do termo para o sofrimento do povo judeu é uma das marcas do sionismo. Por se julgarem especiais, o “povo escolhido”, acreditam que sua dor é única, como se não houvesse outras tragédias, inclusive aquelas que eles mesmo impuseram ao donos da terra que agora ocupam.

Por estas razões, Israel é um país destinado ao fracasso, da mesma forma como o racismo e o apartheid da África do Sul também estavam condenados a desaparecer. Não há como manter um modelo racista e um apartheid explícito sem que, com o tempo, o resto da comunidade das nações reconheça sua imoralidade. O mundo inteiro testemunha o massacre em Gaza, e a imagem internacional de Israel é de uma nação criminosa, sem qualquer respeito pela vida humana, comandada por psicopatas e genocidas e com o apoio de sua população. Nunca Israel teve suas entranhas tão escancaradas e pudemos ver suas vísceras apodrecidas, produzidas por arbítrio, abuso, intolerância e preconceito. O destino do racismo israelense só pode ser o desaparecimento, para que de suas cinzas possa nascer um país multinacional que congregue judeus, árabes, cristãos e palestinos de todas as raças, cores e credos, numa nação plural e democrática.

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Portugal

Ao que tudo indica, Portugal está a caminho de um desastre por nós conhecido, e prepara-se para eleger um candidato da extrema direita nas próximas eleições, alguém que se oferece ao eleitorado como algo “diferente”, moralmente “superior” e “impoluto”. Diferente “disso tudo que está aí, taokei?”. Há pouco o Brasil passou pelo mesmo processo e elegeu um psicopata para a presidência, que quase destruiu a estrutura energética do Brasil, roubou mais do que nenhum outro presidente da história do Brasil, comprou 51 imóveis com dinheiro vivo sem ter ganhos para isso, entre outras falcatruas como propinas e joias. Foi uma aventura macabra que causou milhares de mortes por descaso e negligência na pandemia. A Argentina, pelas mesmas razões, escolheu a tragédia anarcocapitalista de Milei, e pagará um preço ainda mais alto, com a destruição do patrimônio público, desemprego, inflação, recessão e revolta popular.

O que existe de semelhante na história destes mandatários é a escolha ilusória pelo “diferente” sem perceber que estes três políticos representam o mesmo neoliberalismo que, aplicado nas economias emergentes de todo o planeta, afundou suas finanças. Em comum, eles atacam seus adversários através de uma pauta moral – os outros são sempre ladrões e de caráter nefasto – mas não demonstram nenhuma diferença do que tanto criticam assim que assumem o poder. Apelam para a força, prometendo mais cadeia, mais repressão, o uso da mão dura contra os criminosos, liberação de armas, ataques às artes e à academia, sem questionar a estrutura social que produz e dissemina a criminalidade. Todos erram no diagnóstico mais essencial: o problema não está nos políticos e sequer na política (que deploram), mas no sistema capitalista decadente que se mostra incapaz de resolver as grandes questões do século XXI – entre elas a miséria crescente, a iniquidade, a concentração crescente de riquezas, os conglomerados financeiros – verdadeiros abutres – as guerras e o declínio do meio ambiente. O que tanto denunciam em seus discursos inflamados – mas sem ousar dizer seu nome – nada mais é que o próprio capitalismo, a doença ardente e corrosiva que consome o planeta. Como na medicina, continuam a se fixar nas lesões na pele sem perceber que elas são apenas os sintomas externos de um envenenamento interno, insidioso, progressivo e incurável. Ao invés de combatê-lo, preferem tomar ainda mais veneno, na vã esperança de que isso possa produzir algum benefício.

Bolsonaro será preso nos próximos dias, pela quantidade imensa de provas de sua incompetência e de seus desmandos. Sérgio Moro, o juiz do projeto “mani pulite” brasileiro, será preso também por ter agido como a ponta de lança imperialista dentro do judiciário, tendo se corrompido por usar a justiça com objetivos políticos. Os filhos e ministros de Bolsonaro também se dirigem céleres para a prisão pelos ataques à democracia. Quase todo o “entourage” bolsonarista está em vias de ser condenado por conspiração contra o Estado Democrático de Direito e por corrupção.

Na Argentina a inflação disparou de forma descontrolada e o desmanche da estrutura pública por este governo – saúde, energia, educação – vai levar ao caos e ao levante operário. Inúmeros analistas demonstram clara desconfiança de que Milei possa chegar ao fim do seu mandato mantendo um discurso pró imperialista, neoliberal entreguista e de suporte ao genocídio sionista de Israel. A falta de consciência de classe está trazendo a emergência da extrema direita oligárquica e pró imperialista. Os exemplos desastrosos do Brasil, e agora da Argentina, deveriam criar anteparos para a eleição de novos líderes que se colocam “contra isso tudo”, pois que eles na verdade são a continuação do desastre, um modelo concentrador de renda que se baseia no desmanche do patrimônio público e na vinculação com os poderes imperialistas. Lamento que Portugal tenha que trilhar o mesmo caminho de retrocesso dos países da América Latina, que inevitavelmente o fará vítima do populismo da extrema direita – como nós já o fomos.

Boa sorte.

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Geni

Sim, é verdade que encontraram a minuta do golpe no gabinete de Bolsonaro, com as explicações para a tomada violenta do poder por parte da direita raivosa e ligada aos interesses imperialistas. Isso parece ser suficientemente grave para reconhecer que Bolsonaro tinha interesse em golpear a frágil democracia brasileira ao lado de seus comparsas da caserna. E não apenas isso: as provas materiais contra Bolsonaro se avolumam, não deixando qualquer dúvida de que ele planejava se manter no poder por meios obscuros e até violentos. Entretanto, não resta dúvida que as redes de comunicação do Brasil – Globo, Record, SBT e Band – também já tinham preparados, nas gavetas de seus executivos, os seus editoriais para divulgar em rede nacional no dia posterior ao golpe. Neles veríamos as explicações para a adesão ao ataque contra a democracia e, mais uma vez, a justificativa seria a “defesa da democracia” contra os interesses “comunistas”, para combater a “ditadura do judiciário” e o “mar de lama” da corrupção do PT. Seriam implacáveis com o Partido dos Trabalhadores e a esquerda, colocariam Lula e Alexandre de Morais na prisão e criariam do ar um apartamento, um barquinho de lata ou uma ligação com o PCC para jogar o povo contra seu líder.

Portanto, o combate ao bolsonarismo, como se ele fosse a origem do mal e o grande risco à democracia, é de uma ingenuidade inaceitável. Antes mesmo de Bolsonaro, o STF deu mostras de ser um órgão corrompido e politicamente orientado, legislando (sim, criando leis em estilo livre) sempre que os seus interesses foram ameaçados. Foi assim no golpe de 64, no mensalão, no golpe contra Dilma e na prisão criminosa de Lula, bastando lembrar o voto de Rosa Weber pela prisão do ex-presidente, uma das maiores vergonhas do judiciário brasileiro de todos os tempos, que rivaliza com a frase da mesma ministra no seu voto no julgamento do Mensalão: “Não tenho prova cabal contra Dirceu – mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”.

Já Bolsonaro não passa de um idiota útil para a direita. Não existe nenhum intelectual conservador ou liberal que tenha respeito pelas suas capacidades de liderança ou pelas suas inexistentes qualidades morais ou intelectuais. Bolsonaro é a Geni da direita: desprezado, mal visto, desconsiderado, mas ao mesmo tempo popular e sedutor para uma parcela considerável da população, aquela que cai facilmente no discurso de força e de autoridade que viceja nas democracias liberais decadentes – vide França, Itália, Inglaterra, Polônia, Hungria. Isso atrai as massas deserdadas pelo capitalismo que adoram um ditador “mão forte”, vingativo, que represente o poder fálico do qual se ressentem, basta lembrar de Adolf e Benito. Mas bem o sabemos que Geni, da obra de Chico Buarque, não tinha poderes, apesar de ter sido incensada pelos poderosos e tratada como rainha quando foi necessária ao sistema. Na verdade ela era apenas o marionete de decote avantajado, manipulada pelos poderosos que estavam por trás de suas ações, os burgueses da cidade.

A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni…

Portanto, à esquerda não cabe a tarefa de se postar como mero contraponto ao bolsonarismo. Quando este personagem for finalmente soterrado, outro pateta útil será colocado em seu lugar, e aqueles que outrora o aplaudiam, que o exaltavam e se acercavam dele, vão tratá-lo como um lixo, uma excrescência, algo a ser esquecido e até amaldiçoado.

Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni

Já tivemos Joaquim Barbosa, Dalanhol e Moro ocupando esta posição, os quais, sejamos francos, seriam muito mais danosos ao povo brasileiro do que o ex-militar bunda suja. Eles têm a mesma vinculação com o imperialismo e com a burguesia brasileira, mas não possuem o carisma dos ídolos da direita como Orbán, Netanyahu, Trump, Bukelele, e o próprio Bolsonaro. E ao lado destes ícones do neofascismo sempre esteve a imprensa corporativa, do Brasil e do mundo, sem exceção, apoiando ações golpistas em nome de seus interesses. Aqui na aldeia ela esteve ao lado de Bolsonaro, pelo menos enquanto a tragédia do seu governo ainda podia ser sustentada. Como esquecer a “escolha difícil” do Estadão?

A solução para o Brasil é resistir à tentação de atacar Bolsonaro como se fosse a “origem de todo o mal”, mas educar o povo, mostrando que a solução será pela luta de classes, inobstante o espantalho que seja colocado pela burguesia para manter intocados seus poderes.

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Jogos de Sedução

Não é necessário muita imaginação para perceber que não existe nada de “prático” nas roupas femininas; elas não foram concebidas para deixar as mulheres mais felizes ou relaxadas, nem mesmo mais bonitas. As roupas foram feitas para nos deixar mais desejáveis, ora escondendo (para ressaltar pela curiosidade), ora mostrando as virtudes (para atrair). O preço a ser pago sempre foi alto, basta lembrar das vestimentas torturantes que as mulheres usaram por séculos, como os espartilhos, os sapatos deformantes nas meninas chinesas, até os saltos altos e os jeans apertados que perduram até hoje e são vestimentas usuais desde a adolescência. “There’s more to clothes than to keep warm” já diziam os ingleses; tudo na moda é erotismo, e o preço de despertar o desejo é o desconforto. O sacrifício brutal em nome do narcisismo é milenar, transcultural e essencial – pensem nos rituais de escarificação das adolescentes indígenas e nas inúmeras cirurgias plásticas a que se submetem as mulheres do ocidente com o claro objetivo de oferecer uma chance maior ao seu destino reprodutivo. Todos esses sacrifícios imensos servem essencialmente para torná-las mais desejáveis através de signos sexuais que podem ser traduzidos pela aparência, e a história nos prova que a recompensa vale a pena.

Assim sendo, uma sociedade em que as mulheres se revoltassem contra estas imposições culturais e decidissem usar saltos normais, pele natural, lábios sem batom, calças confortáveis e calcinhas largas, de algodão e que não marcassem as curvas voluptuosas do seu corpo seria um lugar bem menos desconfortável para se viver, mas pareceria tão diferente do que temos hoje que sequer seria reconhecível como humana. Uma adolescente que privilegiasse o seu bem estar e conforto corporal em detrimento da sedução e do impacto que causa ao olhar do outro seria vista como “esquisita” ou pelo menos “estranha”. Enquanto a estrutura psíquica feminina for narcísica as mulheres farão qualquer sacrifício para garantir seu lugar ao sol.

Deveria ser igualmente evidente que as mulheres não precisam tolerar toda essa opressão da aparência; cabe a elas decidir qual jogo jogar. Não há nada de errado ou imoral em desmerecer todas estas convenções sociais e valorizar virtudes “internas”, como conhecimento, dedicação, estudo, etc e desprezar as formas externas, deixando de consumir cosméticos, cirurgias, adereços e roupas que ressaltam o corpo. O mesmo se pode dizer dos homens; eles podem decidir de forma diferente a respeito de suas estratégias e alternativas na corrida para garantir seu espaço no “pool genético” do planeta. Um homem, por exemplo, pode desconsiderar seu poder de sedução e não fazer o que os homens tipicamente fazem para conquistar as mulheres, mas talvez isso reduzisse muito suas chances para encontrar parceria. São escolhas legítimas; todavia, o que não parece correto é romper apenas com as regras que não nos agradam. Por exemplo: quero jogar o jogo da sedução, mas não quero o esforço de seduzir e não quero ser vista como “objeto sexual”. Quem pretende participar da disputa sexual deve entender as regras.

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ONGs

Há alguns anos, quando rompi minhas ligações com uma instituição pela sua intenção de se vincular economicamente com ONGs imperialistas, fui acusado de radical e de intransigente por querer “politizar” esta luta. Afinal, que mal poderia haver em receber recursos para uma causa tão nobre? Esse, aliás, é o mesmo dilema que todo médico consciente precisa enfrentar com a oferta cotidiana de brindes – de canetinhas a viagens aéreas para congressos – entregues pelas empresas farmacêuticas, que desta forma compram a simpatia e lealdade aos seus produtos. Que liberdade tem um profissional que aceita este tipo de “mimo”? Se há uma coisa que aprendi, a duras penas, é que não existe enfrentamento no âmbito social que não seja político em sua essência. No âmbito da prática médica, desde muito cedo ficou claro que a única linha eticamente defensável seria não aceitar qualquer presentinho “desinteressado” por parte das empresas que lucravam com as minhas prescrições; no que diz respeito às instituições, não permitir que organizações imperialistas tenham controle econômico sobre suas jnossas lutas e nossas pautas.

Isso se aplica às instituições ligadas à saúde também, em especial àquelas que oferecem suporte às populações em vulnerabilidade, como as mulheres, gays, trans, comunidades negras, etc. Nos anos 70 o foco era a esterilização de mulheres, levada a cabo por um grupo multinacional americano, pois o crescimento populacional nos países satélites sempre foi um temor para as forças imperialistas. Hoje em dia muito dinheiro é direcionado aos grupos identitários, e esse suporte merece ser questionado de forma muito séria e contundente. Afinal, por que tanto investimento na divisão da sociedade em identidades, produzindo a fragmentação da sociedade em pequenos grupos, cada um lutando isoladamente por seus interesses e privilégios, encarando a todos os outros como inimigos na disputa pelos mesmos direitos? Ora, a resposta é óbvia: o resultado dessa luta é o enfraquecimento da consciência de classe.

Aceitar dinheiro – ou suporte de qualquer natureza – de organizações visceralmente conectadas ao imperialismo é um erro clássico de quem apenas procura resultados cosméticos e parciais. O tempo acaba mostrando o equívoco de associar-se a estas organizações, que agem como pontas de lança das forças hegemônicas internacionais. Estas, com a fachada da benemerência, usam de seu poder econômico para controlar a narrativa nacional. O caso da Transparência Internacional – que defendia a transparência mas aceitava os crimes da LavaJato – é emblemático: a face nobre do “combate à corrupção” esconde interesses imperialistas que usam da chantagem e da manipulação da opinião pública para levar adiante uma agenda alinhada aos interesses das grandes potências.

A autonomia de um país se demonstra também através da atenção que se dá aos grupos que se infiltram no tecido social para implantar uma agenda ligada aos interesses estrangeiros. As ONGs que atuam junto aos indígenas brasileiros, seja oferecendo roupas, remédios ou tão somente a “palavra do senhor” são outro exemplo histórico da invasão alienígena sobre nosso histórico problema com as populações nativas. Monitorar, vigiar e até mesmo expulsar estas organizações é uma ação necessária para que nossa estrutura social não seja degenerada pela infiltração de grupos estrangeiros. A autonomia tem preço, e este é a vigilância constante sobre ações de grupos travestidos de boas intenções, mas que em seu bojo carregam interesses de dominação através do poder econômico.

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Intactos

Ao participar de congressos nos Estados Unidos sobre humanização do nascimento nas primeiras duas décadas deste século eu conheci um lado da cultura americana que muito me impressionou. No intervalo das palestras era possível passear pelos estandes coloridos dos patrocinadores. Espremidos entre as cabines que vendiam produtos como sonares, bonecas de ensino, livros e seus autores, bijuterias e aromas de ambientação, notei a presença de ativistas que divulgavam temas variados, mas sempre relacionados com o público que participava do movimento de humanização. No meio do burburinho de participantes do evento, encontrei o movimento contra a prática disseminada da circuncisão, o “Intact America“, e sua presença logo captou minha atenção. Depois de ficar alguns instantes tentando entender do que se tratava, fui prontamente abordado por uma simpática senhora com panfletos nas mãos e um sorriso no rosto. Foi desta vez que, pela primeira vez´, tomei contato com pessoas que lutavam pela preservação da integridade anatômica dos meninos, e posso dizer que foi uma experiência marcante.

Da minha conversa com as ativistas anticircuncisão aprendi muito sobre a importância de manter intacta esta parte do corpo em função dos inúmeros benefícios (para mim até então desconhecidos) de manter pele do prepúcio e assim garantir a sensibilidade e o prazer sexual masculino. A história desta cirurgia ritualística e mutilatória vem de tempos imemoriais. Foi Maimonides, judeu sefardita da idade média, filósofo e estudioso da Torá que viveu entre os muçulmanos da costa ocidental da África e do Egito, o mais conhecido proponente da circuncisão. É dele a frase: “A lesão corporal causada a esse órgão é exatamente a desejada”, deixando claro que acreditava haver benefício nos traumas causados aos homens que se submetiam a este tipo de procedimento. Para ele, “Não há dúvida de que a circuncisão enfraquece o poder da excitação sexual e, às vezes, diminui o prazer natural.” Desta forma fica fácil entender que esta prática tem como finalidade última a obstrução da potencialidade prazerosa sexual dos homens. Segundo Maimonides, os homens assim “domesticados” teriam menos interesse no sexo e liberariam mais tempo para as coisas mais nobres, como o estudo da Torá. Em uma perspectiva histórica é notável o fato de que esta cirurgia sempre foi realizada exatamente para atingir a sexualidade, colocando sobre ela a marca indelével da cultura, como que a afirmar que tudo que se passa ali está sob o olhar cuidadoso do Grande Outro que, em última instância, determina nossa posição no mundo.

É interessante notar como a circuncisão é um não-assunto no Brasil. Se você pensar que ela está restrita aos judeus no Brasil, e a população de origem judaica no nosso país não tem mais do que 150 mil pessoas (0.06% da população brasileira), é possível perceber que não se trata de um tema de alto impacto. Já os Estados Unidos são o país que congrega a segunda maior população judaica do mundo, atrás apenas de Israel, e lá vivem mais de 5 milhões de judeus, algo próximo de 1.5% da população. Entretanto, nos Estados Unidos a prática da circuncisão se alastrou para os não judeus, tornando-se uma das cirurgias mais prevalentes no país. O Centro Nacional de Estatísticas de Saúde estima que cerca de 64% dos recém-nascidos do sexo masculino americanos são submetidos à circuncisão. No entanto, esse número varia entre grupos socioeconômicos, étnicos e geográficos. Apesar da taxa de circuncisão estar em lenta queda, estima-se que 80,5% dos homens com idade entre 14 e 59 anos nos Estados Unidos sejam circuncidados. Apesar do número espantoso, existem números ainda mais impactantes: o Afeganistão tem uma taxa de 99.8%, e Gana 91.6% de crianças circuncidadas. Muitos argumentam a existência de benefícios na realização desta cirurgia, entre eles as questões higiênicas, a diminuição do risco de câncer, proteção potencial de infecções do trato urinário e até diminuição da transmissibilidade da AIDS. Estes dados são motivo de constante questionamento, porém mas mesmo que fossem válidos seria como dizer que câncer de mama desaparece depois de mastectomia, cáries igualmente são exterminadas ao se colocar próteses dentárias ou que fumar diminui a incidência de aftas na mucosa oral. Para além disso, existem questões éticas muito sérias, pois estas cirurgias podem ter consequências para toda a vida, É interessante notar como a circuncisão é um não-assunto no Brasil. Se você pensar que ela está restrita aos judeus no Brasil, e a população de origem judaica no nosso país não tem mais do que 150 mil pessoas (0.06% da população brasileira), é possível perceber que não se trata de um tema de alto impacto. Já os Estados Unidos são o país que congrega a segunda maior população judaica do mundo, atrás apenas de Israel, e lá vivem mais de 5 milhões de judeus, algo próximo de 1.5% da população. Entretanto, nos Estados Unidos a prática da circuncisão se alastrou para os não judeus, tornando-se uma das cirurgias mais prevalentes no país. O Centro Nacional de Estatísticas de Saúde estima que cerca de 64% dos recém-nascidos do sexo masculino americanos são submetidos à circuncisão. No entanto, esse número varia entre grupos socioeconômicos, étnicos e geográficos. Apesar da taxa de circuncisão estar em lenta queda, estima-se que 80,5% dos homens com idade entre 14 e 59 anos nos Estados Unidos sejam circuncidados. Apesar do número espantoso, existem números ainda mais impactantes: o Afeganistão tem uma taxa de 99.8%, e Gana 91.6% de crianças circuncidadas. Muitos argumentam a existência de benefícios na realização desta cirurgia, entre eles as questões higiênicas, a diminuição do risco de câncer, proteção potencial de infecções do trato urinário e até diminuição da transmissibilidade da AIDS. Estes dados são motivo de constante questionamento, porém mas mesmo que fossem válidos seria como dizer que câncer de mama desaparece depois de mastectomia, cáries igualmente são exterminadas ao se colocar próteses dentárias ou que fumar diminui a incidência de aftas na mucosa oral. Para além disso, existem questões éticas muito sérias, pois estas cirurgias podem ter consequências para toda a vida, com potencialidade danosa ou mesmo devastadora, realizadas em menores de idade, que são obviamente incapazes de fazer escolhas informadas sobre riscos e benefícios.

Outra aspecto da minha conversa que me impressionou foi o fato de que as ativistas com quem conversei eram todas mulheres. Elas lutavam pela integridade física de seus filhos, netos e tentavam alertar a todos os homens sobre os riscos inerentes a uma amputação, sem que lhes fosse garantido a oportunidade de escolha. Estas senhoras falaram comigo do pênis e suas funções com detalhadas explicações anatômicas e fisiológicas, como se fosse parte do corpo delas, ou como fossem diretamente afetadas. Não pude evitar lembrar de uma aula do saudoso Contardo quando ele, jocosamente, dizia: “O pênis é um órgão feminino colocado no corpo dos homens”. Intrigado e curioso, perguntei a elas se, em algum momento, um homem defensor da circuncisão havia jogado em suas faces uma “ameaça de cancelamento” ao estilo “não é seu lugar de fala” ou “deixe esse assunto para nós, homens”. Elas sorriram por saber onde eu queria chegar; afinal, estávamos em um imenso congresso sobre parto e eu era um dos poucos homens a ter espaço para trazer minhas propostas e ideias. Uma delas respondeu: “Os homens são nossos parceiros. São nossos filhos, maridos, amigos e netos. É com os homens que fazemos amor, e garantir seu prazer é um assunto que também nos pertence. Não, nenhum homem jamais disse para eu me calar usando este argumento”.

A luta pela integridade física dos sujeitos uniu aqueles que lutam contra a violência obstétrica – cuja intervenção paradigmática e exemplo mais clássico é o das episiotomias injustificadas – e os ativistas pela integridade peniana, que lutam pelo direito dos homens de manter seu corpo e sua sexualidade livre de invasões e amputações. Desta forma, lutar contra a violência obstétrica através das múltiplas intervenções danosas sobre o corpo das gestantes e a luta contra cirurgias mutilatórias ritualísticas sobre o corpo dos homens é um assunto que tem a ver com cada um de nós, inobstante a identidade sexual de que somos investidos.

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