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Portugal

Ao que tudo indica, Portugal está a caminho de um desastre por nós conhecido, e prepara-se para eleger um candidato da extrema direita nas próximas eleições, alguém que se oferece ao eleitorado como algo “diferente”, moralmente “superior” e “impoluto”. Diferente “disso tudo que está aí, taokei?”. Há pouco o Brasil passou pelo mesmo processo e elegeu um psicopata para a presidência, que quase destruiu a estrutura energética do Brasil, roubou mais do que nenhum outro presidente da história do Brasil, comprou 51 imóveis com dinheiro vivo sem ter ganhos para isso, entre outras falcatruas como propinas e joias. Foi uma aventura macabra que causou milhares de mortes por descaso e negligência na pandemia. A Argentina, pelas mesmas razões, escolheu a tragédia anarcocapitalista de Milei, e pagará um preço ainda mais alto, com a destruição do patrimônio público, desemprego, inflação, recessão e revolta popular.

O que existe de semelhante na história destes mandatários é a escolha ilusória pelo “diferente” sem perceber que estes três políticos representam o mesmo neoliberalismo que, aplicado nas economias emergentes de todo o planeta, afundou suas finanças. Em comum, eles atacam seus adversários através de uma pauta moral – os outros são sempre ladrões e de caráter nefasto – mas não demonstram nenhuma diferença do que tanto criticam assim que assumem o poder. Apelam para a força, prometendo mais cadeia, mais repressão, o uso da mão dura contra os criminosos, liberação de armas, ataques às artes e à academia, sem questionar a estrutura social que produz e dissemina a criminalidade. Todos erram no diagnóstico mais essencial: o problema não está nos políticos e sequer na política (que deploram), mas no sistema capitalista decadente que se mostra incapaz de resolver as grandes questões do século XXI – entre elas a miséria crescente, a iniquidade, a concentração crescente de riquezas, os conglomerados financeiros – verdadeiros abutres – as guerras e o declínio do meio ambiente. O que tanto denunciam em seus discursos inflamados – mas sem ousar dizer seu nome – nada mais é que o próprio capitalismo, a doença ardente e corrosiva que consome o planeta. Como na medicina, continuam a se fixar nas lesões na pele sem perceber que elas são apenas os sintomas externos de um envenenamento interno, insidioso, progressivo e incurável. Ao invés de combatê-lo, preferem tomar ainda mais veneno, na vã esperança de que isso possa produzir algum benefício.

Bolsonaro será preso nos próximos dias, pela quantidade imensa de provas de sua incompetência e de seus desmandos. Sérgio Moro, o juiz do projeto “mani pulite” brasileiro, será preso também por ter agido como a ponta de lança imperialista dentro do judiciário, tendo se corrompido por usar a justiça com objetivos políticos. Os filhos e ministros de Bolsonaro também se dirigem céleres para a prisão pelos ataques à democracia. Quase todo o “entourage” bolsonarista está em vias de ser condenado por conspiração contra o Estado Democrático de Direito e por corrupção.

Na Argentina a inflação disparou de forma descontrolada e o desmanche da estrutura pública por este governo – saúde, energia, educação – vai levar ao caos e ao levante operário. Inúmeros analistas demonstram clara desconfiança de que Milei possa chegar ao fim do seu mandato mantendo um discurso pró imperialista, neoliberal entreguista e de suporte ao genocídio sionista de Israel. A falta de consciência de classe está trazendo a emergência da extrema direita oligárquica e pró imperialista. Os exemplos desastrosos do Brasil, e agora da Argentina, deveriam criar anteparos para a eleição de novos líderes que se colocam “contra isso tudo”, pois que eles na verdade são a continuação do desastre, um modelo concentrador de renda que se baseia no desmanche do patrimônio público e na vinculação com os poderes imperialistas. Lamento que Portugal tenha que trilhar o mesmo caminho de retrocesso dos países da América Latina, que inevitavelmente o fará vítima do populismo da extrema direita – como nós já o fomos.

Boa sorte.

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Geni

Sim, é verdade que encontraram a minuta do golpe no gabinete de Bolsonaro, com as explicações para a tomada violenta do poder por parte da direita raivosa e ligada aos interesses imperialistas. Isso parece ser suficientemente grave para reconhecer que Bolsonaro tinha interesse em golpear a frágil democracia brasileira ao lado de seus comparsas da caserna. E não apenas isso: as provas materiais contra Bolsonaro se avolumam, não deixando qualquer dúvida de que ele planejava se manter no poder por meios obscuros e até violentos. Entretanto, não resta dúvida que as redes de comunicação do Brasil – Globo, Record, SBT e Band – também já tinham preparados, nas gavetas de seus executivos, os seus editoriais para divulgar em rede nacional no dia posterior ao golpe. Neles veríamos as explicações para a adesão ao ataque contra a democracia e, mais uma vez, a justificativa seria a “defesa da democracia” contra os interesses “comunistas”, para combater a “ditadura do judiciário” e o “mar de lama” da corrupção do PT. Seriam implacáveis com o Partido dos Trabalhadores e a esquerda, colocariam Lula e Alexandre de Morais na prisão e criariam do ar um apartamento, um barquinho de lata ou uma ligação com o PCC para jogar o povo contra seu líder.

Portanto, o combate ao bolsonarismo, como se ele fosse a origem do mal e o grande risco à democracia, é de uma ingenuidade inaceitável. Antes mesmo de Bolsonaro, o STF deu mostras de ser um órgão corrompido e politicamente orientado, legislando (sim, criando leis em estilo livre) sempre que os seus interesses foram ameaçados. Foi assim no golpe de 64, no mensalão, no golpe contra Dilma e na prisão criminosa de Lula, bastando lembrar o voto de Rosa Weber pela prisão do ex-presidente, uma das maiores vergonhas do judiciário brasileiro de todos os tempos, que rivaliza com a frase da mesma ministra no seu voto no julgamento do Mensalão: “Não tenho prova cabal contra Dirceu – mas vou condená-lo porque a literatura jurídica me permite”.

Já Bolsonaro não passa de um idiota útil para a direita. Não existe nenhum intelectual conservador ou liberal que tenha respeito pelas suas capacidades de liderança ou pelas suas inexistentes qualidades morais ou intelectuais. Bolsonaro é a Geni da direita: desprezado, mal visto, desconsiderado, mas ao mesmo tempo popular e sedutor para uma parcela considerável da população, aquela que cai facilmente no discurso de força e de autoridade que viceja nas democracias liberais decadentes – vide França, Itália, Inglaterra, Polônia, Hungria. Isso atrai as massas deserdadas pelo capitalismo que adoram um ditador “mão forte”, vingativo, que represente o poder fálico do qual se ressentem, basta lembrar de Adolf e Benito. Mas bem o sabemos que Geni, da obra de Chico Buarque, não tinha poderes, apesar de ter sido incensada pelos poderosos e tratada como rainha quando foi necessária ao sistema. Na verdade ela era apenas o marionete de decote avantajado, manipulada pelos poderosos que estavam por trás de suas ações, os burgueses da cidade.

A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni…

Portanto, à esquerda não cabe a tarefa de se postar como mero contraponto ao bolsonarismo. Quando este personagem for finalmente soterrado, outro pateta útil será colocado em seu lugar, e aqueles que outrora o aplaudiam, que o exaltavam e se acercavam dele, vão tratá-lo como um lixo, uma excrescência, algo a ser esquecido e até amaldiçoado.

Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni

Já tivemos Joaquim Barbosa, Dalanhol e Moro ocupando esta posição, os quais, sejamos francos, seriam muito mais danosos ao povo brasileiro do que o ex-militar bunda suja. Eles têm a mesma vinculação com o imperialismo e com a burguesia brasileira, mas não possuem o carisma dos ídolos da direita como Orbán, Netanyahu, Trump, Bukelele, e o próprio Bolsonaro. E ao lado destes ícones do neofascismo sempre esteve a imprensa corporativa, do Brasil e do mundo, sem exceção, apoiando ações golpistas em nome de seus interesses. Aqui na aldeia ela esteve ao lado de Bolsonaro, pelo menos enquanto a tragédia do seu governo ainda podia ser sustentada. Como esquecer a “escolha difícil” do Estadão?

A solução para o Brasil é resistir à tentação de atacar Bolsonaro como se fosse a “origem de todo o mal”, mas educar o povo, mostrando que a solução será pela luta de classes, inobstante o espantalho que seja colocado pela burguesia para manter intocados seus poderes.

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Jogos de Sedução

Não é necessário muita imaginação para perceber que não existe nada de “prático” nas roupas femininas; elas não foram concebidas para deixar as mulheres mais felizes ou relaxadas, nem mesmo mais bonitas. As roupas foram feitas para nos deixar mais desejáveis, ora escondendo (para ressaltar pela curiosidade), ora mostrando as virtudes (para atrair). O preço a ser pago sempre foi alto, basta lembrar das vestimentas torturantes que as mulheres usaram por séculos, como os espartilhos, os sapatos deformantes nas meninas chinesas, até os saltos altos e os jeans apertados que perduram até hoje e são vestimentas usuais desde a adolescência. “There’s more to clothes than to keep warm” já diziam os ingleses; tudo na moda é erotismo, e o preço de despertar o desejo é o desconforto. O sacrifício brutal em nome do narcisismo é milenar, transcultural e essencial – pensem nos rituais de escarificação das adolescentes indígenas e nas inúmeras cirurgias plásticas a que se submetem as mulheres do ocidente com o claro objetivo de oferecer uma chance maior ao seu destino reprodutivo. Todos esses sacrifícios imensos servem essencialmente para torná-las mais desejáveis através de signos sexuais que podem ser traduzidos pela aparência, e a história nos prova que a recompensa vale a pena.

Assim sendo, uma sociedade em que as mulheres se revoltassem contra estas imposições culturais e decidissem usar saltos normais, pele natural, lábios sem batom, calças confortáveis e calcinhas largas, de algodão e que não marcassem as curvas voluptuosas do seu corpo seria um lugar bem menos desconfortável para se viver, mas pareceria tão diferente do que temos hoje que sequer seria reconhecível como humana. Uma adolescente que privilegiasse o seu bem estar e conforto corporal em detrimento da sedução e do impacto que causa ao olhar do outro seria vista como “esquisita” ou pelo menos “estranha”. Enquanto a estrutura psíquica feminina for narcísica as mulheres farão qualquer sacrifício para garantir seu lugar ao sol.

Deveria ser igualmente evidente que as mulheres não precisam tolerar toda essa opressão da aparência; cabe a elas decidir qual jogo jogar. Não há nada de errado ou imoral em desmerecer todas estas convenções sociais e valorizar virtudes “internas”, como conhecimento, dedicação, estudo, etc e desprezar as formas externas, deixando de consumir cosméticos, cirurgias, adereços e roupas que ressaltam o corpo. O mesmo se pode dizer dos homens; eles podem decidir de forma diferente a respeito de suas estratégias e alternativas na corrida para garantir seu espaço no “pool genético” do planeta. Um homem, por exemplo, pode desconsiderar seu poder de sedução e não fazer o que os homens tipicamente fazem para conquistar as mulheres, mas talvez isso reduzisse muito suas chances para encontrar parceria. São escolhas legítimas; todavia, o que não parece correto é romper apenas com as regras que não nos agradam. Por exemplo: quero jogar o jogo da sedução, mas não quero o esforço de seduzir e não quero ser vista como “objeto sexual”. Quem pretende participar da disputa sexual deve entender as regras.

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ONGs

Há alguns anos, quando rompi minhas ligações com uma instituição pela sua intenção de se vincular economicamente com ONGs imperialistas, fui acusado de radical e de intransigente por querer “politizar” esta luta. Afinal, que mal poderia haver em receber recursos para uma causa tão nobre? Esse, aliás, é o mesmo dilema que todo médico consciente precisa enfrentar com a oferta cotidiana de brindes – de canetinhas a viagens aéreas para congressos – entregues pelas empresas farmacêuticas, que desta forma compram a simpatia e lealdade aos seus produtos. Que liberdade tem um profissional que aceita este tipo de “mimo”? Se há uma coisa que aprendi, a duras penas, é que não existe enfrentamento no âmbito social que não seja político em sua essência. No âmbito da prática médica, desde muito cedo ficou claro que a única linha eticamente defensável seria não aceitar qualquer presentinho “desinteressado” por parte das empresas que lucravam com as minhas prescrições; no que diz respeito às instituições, não permitir que organizações imperialistas tenham controle econômico sobre suas jnossas lutas e nossas pautas.

Isso se aplica às instituições ligadas à saúde também, em especial àquelas que oferecem suporte às populações em vulnerabilidade, como as mulheres, gays, trans, comunidades negras, etc. Nos anos 70 o foco era a esterilização de mulheres, levada a cabo por um grupo multinacional americano, pois o crescimento populacional nos países satélites sempre foi um temor para as forças imperialistas. Hoje em dia muito dinheiro é direcionado aos grupos identitários, e esse suporte merece ser questionado de forma muito séria e contundente. Afinal, por que tanto investimento na divisão da sociedade em identidades, produzindo a fragmentação da sociedade em pequenos grupos, cada um lutando isoladamente por seus interesses e privilégios, encarando a todos os outros como inimigos na disputa pelos mesmos direitos? Ora, a resposta é óbvia: o resultado dessa luta é o enfraquecimento da consciência de classe.

Aceitar dinheiro – ou suporte de qualquer natureza – de organizações visceralmente conectadas ao imperialismo é um erro clássico de quem apenas procura resultados cosméticos e parciais. O tempo acaba mostrando o equívoco de associar-se a estas organizações, que agem como pontas de lança das forças hegemônicas internacionais. Estas, com a fachada da benemerência, usam de seu poder econômico para controlar a narrativa nacional. O caso da Transparência Internacional – que defendia a transparência mas aceitava os crimes da LavaJato – é emblemático: a face nobre do “combate à corrupção” esconde interesses imperialistas que usam da chantagem e da manipulação da opinião pública para levar adiante uma agenda alinhada aos interesses das grandes potências.

A autonomia de um país se demonstra também através da atenção que se dá aos grupos que se infiltram no tecido social para implantar uma agenda ligada aos interesses estrangeiros. As ONGs que atuam junto aos indígenas brasileiros, seja oferecendo roupas, remédios ou tão somente a “palavra do senhor” são outro exemplo histórico da invasão alienígena sobre nosso histórico problema com as populações nativas. Monitorar, vigiar e até mesmo expulsar estas organizações é uma ação necessária para que nossa estrutura social não seja degenerada pela infiltração de grupos estrangeiros. A autonomia tem preço, e este é a vigilância constante sobre ações de grupos travestidos de boas intenções, mas que em seu bojo carregam interesses de dominação através do poder econômico.

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Intactos

Ao participar de congressos nos Estados Unidos sobre humanização do nascimento nas primeiras duas décadas deste século eu conheci um lado da cultura americana que muito me impressionou. No intervalo das palestras era possível passear pelos estandes coloridos dos patrocinadores. Espremidos entre as cabines que vendiam produtos como sonares, bonecas de ensino, livros e seus autores, bijuterias e aromas de ambientação, notei a presença de ativistas que divulgavam temas variados, mas sempre relacionados com o público que participava do movimento de humanização. No meio do burburinho de participantes do evento, encontrei o movimento contra a prática disseminada da circuncisão, o “Intact America“, e sua presença logo captou minha atenção. Depois de ficar alguns instantes tentando entender do que se tratava, fui prontamente abordado por uma simpática senhora com panfletos nas mãos e um sorriso no rosto. Foi desta vez que, pela primeira vez´, tomei contato com pessoas que lutavam pela preservação da integridade anatômica dos meninos, e posso dizer que foi uma experiência marcante.

Da minha conversa com as ativistas anticircuncisão aprendi muito sobre a importância de manter intacta esta parte do corpo em função dos inúmeros benefícios (para mim até então desconhecidos) de manter pele do prepúcio e assim garantir a sensibilidade e o prazer sexual masculino. A história desta cirurgia ritualística e mutilatória vem de tempos imemoriais. Foi Maimonides, judeu sefardita da idade média, filósofo e estudioso da Torá que viveu entre os muçulmanos da costa ocidental da África e do Egito, o mais conhecido proponente da circuncisão. É dele a frase: “A lesão corporal causada a esse órgão é exatamente a desejada”, deixando claro que acreditava haver benefício nos traumas causados aos homens que se submetiam a este tipo de procedimento. Para ele, “Não há dúvida de que a circuncisão enfraquece o poder da excitação sexual e, às vezes, diminui o prazer natural.” Desta forma fica fácil entender que esta prática tem como finalidade última a obstrução da potencialidade prazerosa sexual dos homens. Segundo Maimonides, os homens assim “domesticados” teriam menos interesse no sexo e liberariam mais tempo para as coisas mais nobres, como o estudo da Torá. Em uma perspectiva histórica é notável o fato de que esta cirurgia sempre foi realizada exatamente para atingir a sexualidade, colocando sobre ela a marca indelével da cultura, como que a afirmar que tudo que se passa ali está sob o olhar cuidadoso do Grande Outro que, em última instância, determina nossa posição no mundo.

É interessante notar como a circuncisão é um não-assunto no Brasil. Se você pensar que ela está restrita aos judeus no Brasil, e a população de origem judaica no nosso país não tem mais do que 150 mil pessoas (0.06% da população brasileira), é possível perceber que não se trata de um tema de alto impacto. Já os Estados Unidos são o país que congrega a segunda maior população judaica do mundo, atrás apenas de Israel, e lá vivem mais de 5 milhões de judeus, algo próximo de 1.5% da população. Entretanto, nos Estados Unidos a prática da circuncisão se alastrou para os não judeus, tornando-se uma das cirurgias mais prevalentes no país. O Centro Nacional de Estatísticas de Saúde estima que cerca de 64% dos recém-nascidos do sexo masculino americanos são submetidos à circuncisão. No entanto, esse número varia entre grupos socioeconômicos, étnicos e geográficos. Apesar da taxa de circuncisão estar em lenta queda, estima-se que 80,5% dos homens com idade entre 14 e 59 anos nos Estados Unidos sejam circuncidados. Apesar do número espantoso, existem números ainda mais impactantes: o Afeganistão tem uma taxa de 99.8%, e Gana 91.6% de crianças circuncidadas. Muitos argumentam a existência de benefícios na realização desta cirurgia, entre eles as questões higiênicas, a diminuição do risco de câncer, proteção potencial de infecções do trato urinário e até diminuição da transmissibilidade da AIDS. Estes dados são motivo de constante questionamento, porém mas mesmo que fossem válidos seria como dizer que câncer de mama desaparece depois de mastectomia, cáries igualmente são exterminadas ao se colocar próteses dentárias ou que fumar diminui a incidência de aftas na mucosa oral. Para além disso, existem questões éticas muito sérias, pois estas cirurgias podem ter consequências para toda a vida, É interessante notar como a circuncisão é um não-assunto no Brasil. Se você pensar que ela está restrita aos judeus no Brasil, e a população de origem judaica no nosso país não tem mais do que 150 mil pessoas (0.06% da população brasileira), é possível perceber que não se trata de um tema de alto impacto. Já os Estados Unidos são o país que congrega a segunda maior população judaica do mundo, atrás apenas de Israel, e lá vivem mais de 5 milhões de judeus, algo próximo de 1.5% da população. Entretanto, nos Estados Unidos a prática da circuncisão se alastrou para os não judeus, tornando-se uma das cirurgias mais prevalentes no país. O Centro Nacional de Estatísticas de Saúde estima que cerca de 64% dos recém-nascidos do sexo masculino americanos são submetidos à circuncisão. No entanto, esse número varia entre grupos socioeconômicos, étnicos e geográficos. Apesar da taxa de circuncisão estar em lenta queda, estima-se que 80,5% dos homens com idade entre 14 e 59 anos nos Estados Unidos sejam circuncidados. Apesar do número espantoso, existem números ainda mais impactantes: o Afeganistão tem uma taxa de 99.8%, e Gana 91.6% de crianças circuncidadas. Muitos argumentam a existência de benefícios na realização desta cirurgia, entre eles as questões higiênicas, a diminuição do risco de câncer, proteção potencial de infecções do trato urinário e até diminuição da transmissibilidade da AIDS. Estes dados são motivo de constante questionamento, porém mas mesmo que fossem válidos seria como dizer que câncer de mama desaparece depois de mastectomia, cáries igualmente são exterminadas ao se colocar próteses dentárias ou que fumar diminui a incidência de aftas na mucosa oral. Para além disso, existem questões éticas muito sérias, pois estas cirurgias podem ter consequências para toda a vida, com potencialidade danosa ou mesmo devastadora, realizadas em menores de idade, que são obviamente incapazes de fazer escolhas informadas sobre riscos e benefícios.

Outra aspecto da minha conversa que me impressionou foi o fato de que as ativistas com quem conversei eram todas mulheres. Elas lutavam pela integridade física de seus filhos, netos e tentavam alertar a todos os homens sobre os riscos inerentes a uma amputação, sem que lhes fosse garantido a oportunidade de escolha. Estas senhoras falaram comigo do pênis e suas funções com detalhadas explicações anatômicas e fisiológicas, como se fosse parte do corpo delas, ou como fossem diretamente afetadas. Não pude evitar lembrar de uma aula do saudoso Contardo quando ele, jocosamente, dizia: “O pênis é um órgão feminino colocado no corpo dos homens”. Intrigado e curioso, perguntei a elas se, em algum momento, um homem defensor da circuncisão havia jogado em suas faces uma “ameaça de cancelamento” ao estilo “não é seu lugar de fala” ou “deixe esse assunto para nós, homens”. Elas sorriram por saber onde eu queria chegar; afinal, estávamos em um imenso congresso sobre parto e eu era um dos poucos homens a ter espaço para trazer minhas propostas e ideias. Uma delas respondeu: “Os homens são nossos parceiros. São nossos filhos, maridos, amigos e netos. É com os homens que fazemos amor, e garantir seu prazer é um assunto que também nos pertence. Não, nenhum homem jamais disse para eu me calar usando este argumento”.

A luta pela integridade física dos sujeitos uniu aqueles que lutam contra a violência obstétrica – cuja intervenção paradigmática e exemplo mais clássico é o das episiotomias injustificadas – e os ativistas pela integridade peniana, que lutam pelo direito dos homens de manter seu corpo e sua sexualidade livre de invasões e amputações. Desta forma, lutar contra a violência obstétrica através das múltiplas intervenções danosas sobre o corpo das gestantes e a luta contra cirurgias mutilatórias ritualísticas sobre o corpo dos homens é um assunto que tem a ver com cada um de nós, inobstante a identidade sexual de que somos investidos.

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Parto e Revolução

Humanização do nascimento, enquanto ciência, não pode tolerar certas falácias. Muito já foi dito sobre o parto e suas implicações psicológicas, afetivas, morais, espirituais, fisiológicas e sociais; agora cabe a nós agora mudá-lo, transformá-lo. As revoluções no campo do conhecimento humano se sucedem, atropelam umas às outras. O que antes era o novo, hoje já é o antigo, e resta-nos incorporar a metamorfose de ideias e projetos a nos oferecer o ânimo da mutação. O parto, como o conhecemos, é fruto de uma revolução tecnológica que, iniciando-se com a anestesia na memorável apresentação de uso do éter em 1846 com o cirurgião Warren e o anestesista Thomas Morton, culminou algumas décadas mais tarde com a realização da cesariana em Julia Covallina, pelo cirurgião Edoardo Porro em Pávia, na Itália, já nos estertores do século XIX. Esta cirurgia, criada com o intuito de salvar vidas condenadas pelos efeitos dramáticos do raquitismo no trajeto pélvico, conduziu-nos à suprema interferência no milenar mecanismo do parto, garantindo-nos, com razoável segurança, a entrada no claustro escuro onde dormita o amnionauta. Depois de quase um século os anticoncepcionais desvincularam o sexo da gestação e permitiram que as mulheres deixassem de ser prisioneiras da gestação; seria possível retirar do sexo todos os prazeres sem o temor de uma gestação indesejada. Tamanha a euforia com estas conquistas que por um tempo imaginamos que o domínio completo sobre os mistérios do nascer havia sido estabelecido. Entretanto, tamanha interferência nos ciclos que governam a reprodução e a vida não poderia ocorrer sem que, de alguma forma, houvesse uma ruptura com os delicados liames que nos conectam com a natureza.

As cesarianas, assim como as analgesias de parto tornaram-se mais do que simples e corriqueiras; sua aplicação no mundo ocidental tem aspectos de epidemia, tamanha a sua abrangência. No Brasil, a taxa de cesarianas atingiu o índice inédito de 59.7%, um número assustador se imaginarmos que a OMS estabeleceu como 15% o percentual máximo que pode oferecer vantagens. Multiplicamos por 4 este valor, e por certo que existem consequências nefastas por esta medida. Bem o sabemos o quanto as cesarianas, ao tornar previsível um evento dominado pela imprevisibilidade, beneficiam os médicos e as instituições, e aqui está uma boa razão para os abusos que testemunhamos. Além disso, as cesarianas multiplicam os riscos, tanto para as mães quanto para os bebês. As analgesias de parto também são extremamente prevalentes nas salas de parto, diminuindo a propriocepção materna e dificultando as mudanças posturais ativas da mãe na adaptação do seu bebê ao canal de parto. Hoje em dia apenas 5% das mulheres brasileiras tem um parto sem intervenções médicas potencialmente perigosas para a mãe e seu bebê. Além disso, existem repercussões de caráter emocional, psicológico e social das cesarianas, que afetam o desenvolvimento do apego da recém mãe com seu bebê. O caminho das intervenções e o parto na perspectiva médica mostravam suas falhas e seus senões.

Por esta razão, a partir do final dos anos 70 do século passado surgiu um movimento de usuárias e profissionais da saúde com o objetivo de “humanizar o nascimento”, na medida que a postura meramente objetual das pacientes – como é a característica daqueles que se submetem à ação médica – não é aceitável para uma mulher saudável que está diante de um evento natural do seu corpo, sobre o qual não cabe nenhuma intervenção sem justificativa. Passou-se a admitir – de novo – que parto faz parte da vida sexual de uma mulher, que deve ser governado por estes pressupostos, e que o nascimento de uma criança é algo que ela faz…. e não algo que fazem por ela. Iniciou-se, então, um movimento de caráter internacional de questionamento sobre as múltiplas e exageradas intervenções sobre as mulheres no momento do parto, assim como no pré-natal e nas semanas que se seguem ao nascimento. A ideia central que impregnou esta geração de pensadores sobre o nascimento foi a “desmedicalização” do nascimento, o respeito à fisiologia, o uso consciencioso e restrito das intervenções, o entendimento do parto como um processo interdisciplinar e, acima de tudo, a garantia do protagonismo à mulher e à família, recuperando a centralidade feminina e familiar do nascimento humano.

Muito já se avançou no debate sobre a necessária retomada de um percurso de atenção ao parto que respeite a mulher e sua fisiologia. Muitas publicações, estudos, análises, pesquisas e literatura acadêmica contribuiu para esta lenta mudança. Todavia, ainda há um caminho longo a percorrer, porque as modificações na assistência ao parto não carecem de retoques ou de revisões de protocolos; é necessário o que se faça uma revolução, na medida em que estas transformações estão relacionadas ao poder sobre os corpos, mantido sob a guarda dos profissionais da medicina. Como diria Gramsci, se fosse parteiro: “o parto na lógica da intervenção já morreu, mas o parto na perspectiva do sujeito tarda a nascer. Neste lapso temporal ainda testemunhamos a barbárie da violência contra as gestantes”. Humanização do nascimento não é uma ideologia que se encerra no mundo das ideias, mas uma filosofia da prática cotidiana. A prática sem arcabouço teórico é perigosa e caótica; porém a teoria sem a prática é vazia e inútil, servindo apenas para devaneios filosóficos e especulativos.

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Senectude – ou Crepúsculo

Chega um tempo em que a fragilidade dos corpos nos obriga a abrir mão de um dos bens mais preciosos: a autonomia, valor que tanto exaltamos quando tratamos dos direitos humanos mais elementares. Todavia, em algum momento da existência precisaremos deixar a autonomia em nome da manutenção da própria vida. Esse é um tema que percorre a vida de quase todos, e eu mesmo passei isso com meus avós paternos e minha mãe. Em um determinado momento nossos familiares – em especial os avós e depois os pais – perdem sua independência e sua autonomia em função da fraqueza, de alguma doença, da idade avançada ou das perdas cognitivas. A forma de reagir a esta situação é variável, mas ela estará inscrita nos detalhes de toda a vida pregressa de quem envelhece, e por isso é muitas vezes possível prever como cada um lidará com este evento.

Muitos, como meu avô, lutaram contra a inexorabilidade da sua dependência; resistiu o quanto pode, mas foi literalmente carregado à força para fora de casa. Outros, como minhas avós, minha mãe e minha sogra, aceitaram de forma mais tranquila, como se esta passagem fosse uma parte natural da vida – alguém cuidaria delas como elas cuidaram de tantos durante suas vidas.

Talvez aqui seja possível estabelecer uma diferença essencial entre a vivência da senescência para os homens e para as mulheres, mesmo sabendo que esta vivência será sempre única e pessoal. Para os homens a perda da autonomia é muitas vezes vista como um golpe mortal em seu amor próprio. Retire-o de seu domínio e ele se tornará vulnerável, fraco e impotente. Por seu turno, muitas mulheres (todas da minha família) se comportam de forma dócil e aceitam o fato de que, em algum momento, é chegada a hora de serem cuidadas e amparadas, da mesma forma como o destino determinou que cuidassem de tantos filhos e netos. Já meu pai sempre disse que não aceitaria os cuidados de ninguém. Deixou isso claro quando ficou viúvo aos 90 anos e não aceitou se mudar para a casa de qualquer um dos filhos. Quando, por fim, adoeceu, morreu muito rápido, sem se submeter à “tortura” de viver sob os cuidados de alguém. Antes dele meu avô, por sua vez, xingou, sapateou e nunca perdoou meu pai por tê-lo retirado de sua casa, mesmo quando sequer conseguia se mover. Nunca aceitou “viver de favores”.

Para o homem sua casa é seu mundo, e de minha parte, já reconheço de que material sou feito. Portanto, não tenho dúvida alguma de que também vou resistir até onde tiver força. Viver sob o cuidado alheio é humilhante para quem sempre valorizou a liberdade e a autodeterminação.

Algum momento, entretanto, haverá em que alguém chegará ao meu ouvido e dirá: “Pai, não dá mais. Chega. Não vamos aceitar ver você sofrendo por este orgulho insano. Você terá que sair de onde está e ficar sob os nossos cuidados”. Nesse momento eu saberei que não tenho como me defender e, mesmo resistindo, serei obrigado a aceitar. Diante desse destino inescapável, eu já me preparo para perdoar meus filhos e netos pela palavras duras que sei que vou ouvir; é melhor fazer isso enquanto ainda existe lucidez suficiente. Aceitar o declínio da vida é preparar-se lentamente para a morte. Antes mesmo, quando percebemos nossa sutil e crescente desimportância na tessitura da vida, já é o momento de compreender que estas são as suas sábias regras, e que cabe tão somente aceitar o quinhão que a nós é determinado.

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As Dores do Parto

Poucos temas tem tanta relevância cultural quanto o debate sobre a dor do parto. Desde a famosa “parirás com dor e sangrarás todos os meses”, que na Bíblia estabelecia a pena para a luxúria feminina e o abandono do paraíso, até a epidemia de analgesias obstétricas, tudo gira em torno da dor da expulsão fetal e o sacrifício (sacro ofício) das mulheres em nome da manutenção da espécie. Esta valorização da dor materna, como todo elemento cultural, é diferente quando analisamos culturas, geografia e tempos distintos.

A dor do parto pode se manifestar em uma gama infinita de apresentações, transitando dentro de uma variação que vai desde aquelas dores absolutamente ausentes até aquelas descritas como extremamente fortes, no limite do suportável. Por esta variedade e sua conexão com os estados da alma, podemos descrever a dor do parto muito mais como um “sentimento” e uma amálgama de sensações físicas e emocionais, do que como um fato objetivamente mensurável. Para qualquer investigador mais sério, fica muito claro que é impossível analisar objetivamente um fenômeno absolutamente subjetivo, pois que as contrações e a dilatação cervical ocorrem num arcabouço psíquico único e irreprodutível.

Algumas mulheres vão descrever tais dores como excruciantes enquanto outras referem que mal sentiram uma leve sensação de pressão – a qual sequer poderiam chamar de dor. Também é claro que a dor do processo de parturição é aumentada ou diminuída de acordo com as expectativas de dor de cada sujeito. Os ambientes de parto no ocidente, frios, impessoais e invasivos, com pessoas desconhecidas que não transmitem confiança e privacidade, também concorrem para o incremento da percepção dolorosa.

Luís Miguel Torres, presidente da Sociedade Espanhola de Dor Multidisciplinar, disse à AFP que a ideia da dor insuportável que pode ser medida “não existe no mundo clínico nem no de pesquisas” e assegurou que “é invenção de alguém, que não tem nenhum fundamento, nenhuma base científica”. Dominique Truan, ginecologista obstetra da Universidade do Chile, também explicou: “A dor é muito subjetiva, muito pessoal, muito sobre o contexto”. E apontou que é fantasioso falar em “unidades de dor”. Mario Sebastiani, doutor em medicina e obstetra do Hospital Italiano de Buenos Aires, disse em uma recente entrevista que a dor “é uma das questões mais controversas da medicina, já que não há medidores de dor eficazes”. (em “O Estado de Minas“)

Assim sendo, a dor do parto não é um “mito”, uma fantasia ou uma fabricação cultural, mas é um evento sobre o qual a cultura determina um valor específico, de acordo com os tempos e latitudes. O ocidente contemporâneo lança sobre ela uma lente de aumento, cujo objetivo é empoderar quem controla a intervenção e a analgesia química. Culturas diferentes, como as culturas nativas do Brasil, não descrevem a dor do parto como os descendentes de europeus, dando uma ênfase muito menor à dor de parir.

Percebe-se, então, que essa caracterização da dor do parto como “extremamente violenta“, “insuportável” “a pior das dores”, “algo que os homens não suportariam”, “igual a 20 ossos quebrados” ou “acima do limite que os humanos suportam” etc., é uma criação moderna, sem qualquer comprovação científica, cujo objetivo sempre foi empoderar as corporações, sejam elas os hospitais e/ou a instituição médica, em especial a dos anestesistas, justificando ideologicamente a intensa invasão tecnológica do processo de parir.

Hoje sabemos que a maior responsável pelas “dores de parto” contemporâneas é a violência obstétrica institucional, que não oferece às mulheres as condições físicas, ambientais e psicológicas para o parto fisiológico. Isso ocorre pela incapacidade do sistema médico obstétrico em compreender as necessidades emocionais, afetivas, psicológicas e espirituais das mulheres que enfrentam os desafios do parto.

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Parto com Jesus

Recebo através de amigos a noticia de que a EACH (USP Leste), aprovou em seu currículo um curso de extensão (não obrigatório) chamado “Parto e Espiritualidade Cristã”, com os seguintes objetivos:

“Refletir a espiritualidade em suas etapas fisiológicas: concepção fetal; desenvolvimento e crescimento fetal; e no processo do parto, nascimento e pós parto. ( …) O curso respeitará a abordagem cristã ao apresentar cada temática com seu arcabouço teórico e científico.” O texto ainda cita os gametas, o núcleo familiar composto pela dualidade homem-mulher, assim como sua importância na estrutura do tecido social.

Ora, se o parto faz parte da vida sexual normal de toda mulher, então é justo afirmar que as mesmas leis gerais que regem um controlam também o outro. Assim, se é corriqueiro testemunhar o sexo enquadrado pela fé cristã, como se pode ver nos inúmeros cursos sobre o tema, seria de se esperar que os fenômenos da gestação, parto e amamentação sejam igualmente controlados pela mesma ideologia cristã. A sedução em controlar a sexualidade humana sempre foi um dos pilares de sustentação do patriarcado. Em verdade, sexualidade e parto são duas forças extremamente poderosas da natureza sobre as quais faz-se necessária a domesticação, para que sua potência criativa seja utilizada de forma eficiente. Para o patriarcado nascente era essencial que tamanho poder fosse submetido aos interesses produtivos da sociedade complexa, a qual se iniciou após a revolução do neolítico.

Por outro lado, a humanização do nascimento, um movimento de mulheres e profissionais da atenção ao parto que luta pela mudança do paradigma obstétrico – inclusive sendo inspiração para a criação de escolas de obstetrizes como esta da EACH – se instala no polo oposto dessa proposta. A visão humanista que estes profissionais defendem há décadas não admite a existência de torniquetes ideológicos de qualquer natureza, sejam eles políticos, étnicos ou religiosos. Para estes grupos, existe a clara certeza de que, se há algo que precisa ser livre das constrições impostas pela cultura, sem as amarras determinadas pelo capitalismo e o patriarcado, este fenômeno é o parto. De uma forma clara, o trabalho mais nobre do movimento de humanização do nascimento é o resgate dos seus aspectos selvagens, primitivos e pulsionais, pois que a cultura, as religiões, a moral e quaisquer outras forças sociais atuam como condicionantes negativos para a livre expressão dos processos psíquicos e sexuais do parto. Desta forma, a tarefa dos profissionais que se ocupam do nascimento é criar um círculo de proteção em volta da gestante, mesmo sabendo que, por estar imerso na cultura, é impossível não ser tocado por ela.

Ou seja, um “parto cristão” – mas poderia ser islâmico, budista ou ateu – é o oposto do que propomos há décadas, que se resume na liberação das capas de condicionamento cultural que atrapalham a livre expressão fisiológica do parto. Lamentamos a criação de cursos que vinculam o nascimento humano a qualquer corrente religiosa, pois que a verdadeira religião do parto é o gozo da vida.

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Empatia e Bondade

Diz-se que a forma mais rebuscada de empatia é fingir não ter visto algo para não constranger a pessoa. Muito fiz isso, mas acho que esse sentimento merece uma análise mais fria.

Eu questiono que a motivação para essa atitude seja simplesmente a empatia. Muitas vezes fingimos não ver um malfeito apenas para nos livrarmos do enorme constrangimento de compartilhar com alguém algo condenável ou embaraçoso. Ao fingir não ver, você está livrando a ambos da necessidade de reconhecer e debater sobre o que ocorreu. Desta forma, quando fazemos isso é mais para nos livrar da situação embaraçosa do que por empatia ou caridade. Ou seja, há bastante de egoísmo nesta ação, talvez até mais do que bondade.

O mesmo ocorre quando damos um presente. Acredito que há mais desejo de satisfação pelo agradecimento que se segue do que a legítima e desinteressada alegria de presentear. Por isso é que quando damos a alguém um “mimo” e esta pessoa não agradece na medida que esperamos, o chamamos de “ingrato” ou “mal-agradecido”, porque o agradecimento (efusivo e explícito) fazia parte da negociação desde o princípio.

Minha análise se debruça sobre a observação crua e sem condescendência sobre as motivações inconscientes que nos levam a praticar atos de caridade, seja uma ajuda humanitária ou um simples presente oferecido à uma criança. À luz das evidências, sobre estes fatos simples se inserem outras razões, mais profundas e inconscientes. Existe um componente egoístico inerente a todas estas atitudes e comportamentos, mas a vaidade nos impede de enxergar e reconhecer tais motivações.

Entretanto, a senda de crescimento pessoal passa pela necessidade de reconhecer nossas facetas menos nobres, ao mesmo tempo que nos oferece a sabedoria para depurar o quanto de auto exaltação buscamos nestas ofertas.

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