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Esperança

Esta semana surgiu a notícia de que sujeitos ligados ao bolsonarismo estariam se infiltrando em ambientes progressistas, seja no Facebook ou nas outras mídias sociais, para pintar um cenário de derrota iminente da candidatura Lula. O objetivo é óbvio: desmobilizar, esmorecer, refrear as manifestações a favor da chapa liderada por Lula. Porém, esta é uma estratégia eleitoral. Para a libertação do nazifascismo bolsonarista a estratégia em longo prazo deve ser a orientação sedimentada pela razão. Não vejo futuro na troca de uma mistificação por outra, mesmo que a segunda seja infinitamente melhor que a primeira. A tarefa de libertar o sujeito só virá através do único atributo que nos diferencia dos outros animais: a razão, esta fina camada de verniz, a tênue fachada que nos livra dos medos e nos permite entender os fatos para prever o futuro

Entretanto, não se combate uma ideia que surge irracionalmente usando argumentos racionais. Portanto, para combater o fascismo e a pulsão de morte que Bolsonaro representa, precisamos usar e canalizar emoções.

Para derrotar Bolsonaro e seu plano totalitário nestas eleições é necessário usar as armas da sedução, do afeto e das emoções e mostrar o rastro de destruição crua causada por essa ideologia macabra. Esta é a estratégia para as eleições, em curto prazo, mas não o caminho em longo prazo que teremos de trilhar. O bolsonarismo não vai desaparecer apenas com a eliminação do seu mais importante expoente. Será necessário um processo muito mais complexo e difícil para desentranhá-lo da mentalidade do brasileiro. Para exterminar o fascismo é preciso educação é paciência.

Temos que manter o foco e a esperança. Lula nunca esteve atrás em nenhuma pesquisa. Ganhou o primeiro turno contra a máquina dinheiro e corrupção do governo de contra o derramamento de fake news. Não há porque esmorecer agora. Na última manifestação em Porto Alegre havia 70 mil pessoas na rua. O mesmo aconteceu em Recife, Curitiba, em Padre Miguel – multidões gigantescas nas ruas clamando por Lula e o que ele representa para as ideias de solidariedade e progresso com distribuição de renda. Apesar de estarmos presenciando a eleição mais desonesta da história da República, Lula continua na frente, desafiando as gigantescas quantias de dinheiro do governo derramadas com o objetivo de comprar votos, além da enxurrada de fake news que foram usadas neste ano. Desta vez o “banheiro unissex” toma o lugar do “kit gay” e da “mamadeira de piroca”.

Para aqueles que estão, como eu, à esquerda de Lula, o momento é de apostar no pragmatismo. Lula está muito mais próximos dos ideais revolucionários do que seu oponente – que representa o oposto desta perspectiva. Portanto, está em nós continuar ao lado de Lula nas ruas e em todos os ambientes que formos chamados à luta. Não acredito que as provas da obsessão sexual do atual presidente por adolescentes, o desprezo pela população das favelas e as agressões ao nordeste não terão uma resposta das urnas. Precisamos livrar o Brasil da tragédia que representaria Bolsonaro por mais 4 anos.

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Um século de atraso civilizatório

Sim, sou da tese de que a homofobia é um fenômeno fortemente amplificado nos anos 70-80. Por certo que havia discriminação anterior a esta data, mas não do tipo que passou a ocorrer quando os gays resolveram assumir abertamente a sua orientação sexual. Antes disso eram eram tratados como doentes e degenerados, mas não eram uma ameaça a nossa “sexualidade normal”. Por esta razão foi possível no início dos anos 80, por exemplo, a criação aqui no sul da 1ª torcida (abertamente) gay do Brasil: A Coligay do tricolor gaúcho (formada pelo nome Coliseu, a boate que frequentavam, acrescido da palavra “gay”, que passava a assumir outro significado na cultura). Temo que, se esta torcida fosse criada hoje em qualquer clube brasileiro, ela ainda seria expulsa a pauladas do estádio.

Foi o “Stonewall Uprising” o fenômeno mais marcante da cultura gay na aurora dos anos 70. A boate Stonewall Inn, no Greenwich Village em Nova York, no dia 28 de junho de 1969 foi mais uma vez invadida pela polícia que, costumeiramente, batia e humilhava os frequentadores – em sua maioria homossexuais masculinos. Nestas “batidas policiais” os gays eram espancados, ilegalmente revistados e humilhados publicamente, demonstrando através da ação da polícia o ódio dissimulado aos gays. Os clientes eram presos temporariamente e os gerentes tinham a bebida confiscada. Entretanto, nesta madrugada de sábado, eles pela primeira vez reagiram. Fecharam a porta do estabelecimento, revidaram as agressões, bateram nos policiais com seus tamancos dourados e exigiram respeito à sua condição humana.

“Quando você viu um bicha revidar? Agora os tempos estão mudando; essa vai ser a última noite para essa porcaria acontecer”. Predominantemente, o tema era: “essa merda tem que parar!” (participante anônimo dos motins de Stonewall)

A partir de então os motins e manifestações de apoio à comunidade gay em Nova York se multiplicaram. Exigiam a liberdade de se encontrar sem serem humilhados, revistados e presos apenas por se vestirem com roupas do sexo oposto. As suas práticas e modos de vida eram toleradas apenas enquanto se escondiam no escuro da noite, em guetos, apartados da vida social e, em especial, longe das crianças. Leprosos e possuidores de uma doença contagiosa, eram dignos somente de pena. Todavia, com a emergência do “orgulho gay” e a reivindicação de cidadania por parte da comunidade, espalhou-se o vírus da insegurança, em especial entre aqueles cuja sexualidade conflituosa era motivo de tormentoso sofrimento silente. Em poucos anos esta nova consciência dos direitos gays se espalhou pelo mundo todo.

A saída do armário, entretanto, criou o contrafluxo brutal contra a manifestação pública da sexualidade, que fica evidente ainda hoje na fala dos conservadores: “Se quiser ser que seja, mas faça com discrição, não na frente de todos”. Ou seja: “não crie em mim esta angústia que me faz arder por dentro, e me consome de incertezas”. A visibilidade dos gays despertou os sentimentos recalcados em um contingente grande da população, o que, por sua vez, acabou gerando a homofobia como hoje a conhecemos.

O bolsonarismo nada mais é do que a organização desse desconforto sob uma sigla. Personagens como Bolsonaro e Damares, e sua fixação na temática sexual e na perversão, nada mais são do que a manifestação na sociedade deste sintoma social. O guru de ambos, Olavo de Carvalho era incapaz de falar três frases sem inserir descrições pormenorizadas de pênis e ânus – e o fatídico encontro entre eles. Portanto, a crítica à maior exposição das infinitas formas de manifestação sexual não se dá pelo medo da “degenerescência da sociedade” – apesar de ser este o slogan – mais do quanto essa manifestação desabrida da expressão do desejo sexual pode afetar a tão combalida sexualidade de quem dela secretamente desconfia. O que não é simbolizado retorna no real, e esse retorno do recalcado pode vir através da destruição do outro.

Freud tratou dessa questão há quase 1 século em seu texto “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, onde deixava claro que a sexualidade nos humanos não é natural e que a orientação homoafetiva é tão problemática quanto a construção heterossexual, e que ambas não são infensas aos traumatismos. Mais ainda: essa construção é um processo de ordem subjetiva, e cada um de nós é o responsável único por dar conta dessa tarefa. Poucos autores foram tão atacados na história da cultura humana por suas palavras quanto Freud ao abordar a questão da sexualidade, em especial sua visão aberta e progressista sobre o afeto homoerótico. Tão avançado era que até hoje seus conceitos geram inquietude.

O que vemos hoje através dos adeptos do bolsonarismo – uma legião guiada pelo ressentimento – tem a gravidade de retroceder 1 século no processo civilizatório. Aceitar esse “retorno” aos conceitos e visões de mundo do século XIX serve apenas para reviver e promover o horror e a mentira que milhões de pessoas eram obrigadas a suportar apenas para dar conta de uma máscara social. O mundo precisa rejeitar o que este atraso significa.

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Essências

Eu confesso que torci pelo Biden na última eleição presidencial americana. Sei que a vitória de Trump poderia significar um estreitamento da relação entre o genocida daqui e o idiota de lá, então atirei no Trump para acertar no Bolsonaro. Entretanto, nada mais elucidativo do funcionamento do Imperialismo do que a vitória de Biden. Para quem, como nós, observa de fora, é impossível perceber qualquer diferença significativa entre a administração destes dois presidentes, mas se houver alguma, será no sentido de desmerecer o atual governante.

O anúncio das tensões crescentes na Ucrânia nos demonstra que qualquer presidente americano terá como objetivo principal o incremento do poder imperialista sobre o planeta, tanto quanto qualquer um dos seus antecessores – igualmente violentos. Não importa a quantidade de cadáveres de gente de língua estranha e de pele mais escura; o importante é manter a hegemonia, esta mesma que determina o “american way of life”. Não é possível notar diferença significativa na política externa, nas guerras e golpes, inobstante o vencedor das eleições americanas ser qualquer uma das sublegendas do imperialismo, a “direita A” ou a “direita B“. O mesmo ocorre há 70 anos em Israel: não importa quem vença as eleições por lá, a política de massacre e limpeza étnica dos palestinos será igual; o sionismo não é projeto de governo, mas uma política de Estado.

Existem coisas que fazem parte da essência do país, como o imperialismo e o sionismo. Da mesma forma, não faz diferença onde o capitalismo se instale; sua essência é o empobrecimento da população, a concentração de renda, a destruição do meio ambiente e a tendência à formação de grandes oligopólios e monopólios. Depois disso, uma máquina absurda de propaganda e a instalação de um Estado policial de brutalidade crescente será institucionalizada, para desta forma manter a classe operária comportada e satisfeita com as migalhas recebidas.

Assim como a paz mundial não será decidida pelas eleições americanas e o futuro da Palestina não estará nas cadeiras conquistadas no Knesset, o desenvolvimento das potencialidades humanas, a divisão equânime das riquezas e a solidariedade entre os povos deste planeta jamais chegará através do modelo capitalista, pois que o caráter predatório do capitalismo está entranhado inexoravelmente em sua essência mais profunda. Não será fazendo concessões à classe burguesa que conquistaremos a justiça e o equilíbrio.

E lembrando: também não haverá humanização do nascimento e respeito à fisiologia das mulheres enquanto o parto for controlado por cirurgiões. Afinal, intervir sobre os corpos está na essência destes profissionais. Como seria possível que agissem contra suas mais profundas inclinações? Uma política de “reformismo” e a manutenção do sistema de poderes nos levou a situação de agora. Desta forma, por que deveríamos continuar numa rota que jamais nos levou a mudanças consistentes?

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Consensos Manufaturados e Religião

Esta semana a direção da UDV, União do Vegetal – uma seita cristã criada por Mestre Irineu usando plantas (Mariri e Chacrona) para fazer um chá usado de forma iniciática, declarou apoio ao atual presidente da República, Jair Bolsonaro. Do pouco que conheci do perfil dos frequentadores desta religião (eu mesmo já escrevi sobre o tema e já participei de um encontro), eu tive um nível zero de surpresa com essa declaração de voto. A mesma sensação que tive ao testemunhar o bolsonarismo dos espíritas. Percebam; há um padrão de conexão entre as religiões dos países imperialistas com os valores conservadores. Por esta razão a UDV, os evangélicos, os espíritas cristãos, muitos católicos e outros estão todos ligados pelos fios invisíveis do conservadorismo brasileiro, uma estrutura social que namora com o fascismo. Creio que já escrevi muito sobre minha desilusão com os religiosos, e ainda lembrei com dos amigos de infância que se tornaram bolsonaristas, defensores do Jesus com arma na cintura, desconsiderando as falas racistas, violentas, misóginas, homofóbicas e genocidas do líder. Para mim ainda é inacreditável que, aqueles mesmos que falavam do Jesus que oferece a outra face, justificam abertamente as ações racistas, homofóbicas e terroristas do atual presidente.

A justificativa? O fantasma comunismo, por certo, que serve como um “homem do saco” para adultos. Mas também se encontra com frequência a associação de Lula com “ditaduras”, como a Venezuela, Cuba e a Coreia Popular (um trio que é tanto usado pela direita quanto desconhecido por ela), em especial no que diz respeito ao envio de dinheiro para estas “ditaduras”, assim como a “ladroagem de Lula” (que só não foi condenado porque houve um erro no CEP – uma tecnicalidade). Todavia, estes mesmos moralistas desconversam quando questionados sobre as fotos do presidente Bolsonaro com o Sheik da Arábia Saudita, este sim um ditador sanguinário e cruel, ou os inúmeros casos de corrupção no seu governo.

Entre estes aficionados do capitão encontramos gente educada, estudiosa, com curso superior, pais de família, diretores de Centros Espíritas, pastores, padres, crentes de todo tipo; todos irmanados em uma luta contra os “vermelhos”, os vagabundos dos sindicatos, os invasores de terra, os ativistas do MST (que mal sabem usar uma enxada) e os indefectíveis “socialistas de IPhone”.

“Vai pra Cuba”, “Empacote tudo que você tem e distribua para os pobres”, “Ahh, reclama do capitalismo mas usa luz elétrica(??), celular(??) e computador(??)”. “Quer ficar como a Venezuela? Na Coreia do Norte é proibido cortar o cabelo igual ao Kim, e na China você é condenado à morte em 30 dias e a família ainda precisa pagar a bala. Quer isso no nosso país?”

Somos bombardeados todos os dias por uma avalanche impressionate de propaganda via redes sociais, que em muitos causa uma profunda lavagem cerebral. “Credo quia absurdum“, como diria Agostinho, “acredito nas fake News porque são absurdas, e isso prova minha fé e o meu engajamento”. São 80 anos de propaganda anticomunista diária subliminar, insidiosa, camuflada, sub-reptícia e constante. Não importa o quão ridículas são as fake news sobre “comunistas que comem criancinhas“, ou “Na Coreia Popular mentem que a seleção venceu o Brasil na Copa do Mundo“. Todo santo dia, martelando na cabeça, criando ficções ridículas (como estas acima), produzindo narrativas baseadas em delações falsas, estrangulado as economias socialistas com boicotes, sanções e bloqueios. Condenando quem denuncia os crimes do Imperialismo – como foi feito com Edward Snowden, Chelsea Manning e Julian Assange – atacando (e matando) líderes dos direitos humanos (como na Colômbia) e usando religião como um escudo, uma identidade que precisa ser preservada dos ataques insanos dos depravados, gayzistas, abortistas e ateus, tudo pelo bem dos nossos valores e do santo nome de nosso senhor Jesus Cristo, amém.

Sobre esta ligação dos religiosos em geral com o conservadorismo e a propaganda anticomunista acho que o sobrinho de Freud, Edward Louis Bernays, tem mais a dizer do que Hippolyte Rivail, o filósofo de Lyon. Edward Bernays dizia que “somos controlados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos são formadas e nossas ideias são sugestionadas”. Ele foi quem primeiro entendeu a importância da propaganda na criação do que passou a ser chamado de “Consenso Manufaturado”, um conceito primeiramente criado por Walter Lippmann em 1922 e posteriormente disseminado pelo intelectual americano Noam Chomsky. . Não se pode desprezar décadas de propaganda violenta que, junto com os aparatos de repressão do Estado, tentam evitar a explosão inevitável da barragem produzida pelas lágrimas de milhões que são excluídos pelos privilegiados do capitalismo. Propaganda e Estado policial. Publicidade e Forças armadas a serviço do Império. Salve-nos Luke Skywalker

Praticamente todas as religiões derivadas do cristianismo – enquanto fenômeno social, não como doutrina – replicam uma visão individualista do progresso onde cada um, através da penitência, da fé, da “reforma intima”, do sacrifício, da dedicação à Igreja e o pagamento do dízimo, será responsável pela evolução espiritual do planeta, um conceito que se adapta maravilhosamente à meritocracia do nosso modelo capitalista. Assim, as mudanças vão ocorrer na dependência de ações individuais, inobstante os modelos sociais a que estamos submetidos. Outro fator é o pacifismo alienante de muitos religiosos, um idealismo paralisante que os impede de aceitar a sociedade de classes como o resultado inexorável do capitalismo, a qual só será derrubada através da luta de classes e do enfrentamento.

Quando eu vejo o “cristão mediano”, frequentador da sua Igreja, que toma passes, faz comunhão, se confessa, toma hóstia ou água fluida e entoa os cânticos não consigo perceber nenhuma diferença substancial entre todas as modalidades de fé cristã. Todos eles reproduzem condicionamentos sobre costumes e política, da mesma forma como qualquer um que tenha sido intoxicado por oito décadas de violenta propaganda contra a luta organizada dos trabalhadores. Espíritas, católicos, protestantes em suas diversas denominações são semelhantes demais aos “crentes” e os neopentecostais nesse terreno para que se perceba qualquer diferença. A religião, no dizer de Hegel em “Crítica da Filosofia do Direito, , é o “Ópio do Povo” (Die Religion … Sie ist das Opium des Volkes), canalizando a energia de milhões para a contemplação e a aceitação das mazelas, ao invés de seguir as palavras de Cristo e agir objetivamente para diminuir a iniquidade no planeta e a dor de seus semelhantes.

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Armadilhas

Acho que é essencial esclarecer que os conceitos de “direita” e “esquerda” nada tem a ver com moral, costumes, sexualidade, aborto, feminismo, drogas, combate à criminalidade etc. Sua origem está no parlamento francês na época da Revolução Francesa, onde os jacobinos – exaltados e radicais representantes dos pequeno-burgueses – sentavam-se à esquerda enquanto os girondinos – considerados mais moderados e conciliadores, representantes interesses comerciais e a visão de mundo da burguesia ilustrada, que oscilava entre a monarquia constitucional e a república – sentavam-se à direita. Os conceitos clássicos de esquerda e direita tem a ver com o tamanho do estado e o foco que se dá ao proletariado e à burguesia no conflito de classes. Também se relaciona com o valor da propriedade e as questões que envolvem o valor do indivíduo e sua inserção nas forças produtivas de uma determinada sociedade.

A partir desse entendimento, é plenamente possível a um direitista ser um ferrenho defensor da liberação e descriminalização do aborto. Aliás, é o que os liberais pregavam: cada sujeito é dono do seu corpo e do seu destino. O mesmo pode ocorrer com a liberação das drogas, tratada como uma decisão pessoal que só diz respeito à quem usa. Da mesma forma nada impede a um comunista ser contra a liberação do aborto por questões pessoais e religiosas, até porque as crenças de cada sujeito em nada impedem alguém de adotar o socialismo como ideário de lutas.

Essa confusão ocorre apenas porque se criou a ideia de que as formas de organização social e econômica devem se misturar com posições religiosas, sexuais e de costumes. Esta confusão não foi natural; ela foi induzida pelos capitalistas americanos para dividir a consciência nacional entre republicanos e democratas. De um lado os conservadores “wasp” (anglo saxão branco protestante) no “Bible Belt” (cinturão da Bíblia)do meio-oeste americano, religiosos e anti-gays, contra a liberação das drogas, contrários ao aborto, etc. Do outro lado feministas, pró-escolha (pro choice), negros, gays, trans, usuários de maconha, universitários, professores, etc.

Nessa configuração as elites americanas retiraram do campo simbólico de disputas os debates relativos à saúde universal, brutalidade policial, moradia, pobres, moradores de rua, epidemia de narcóticos, despesas militares e passariam a ditar a narrativa, estimulando o debate sobre pronomes neutros, censura, ataques às piadas machistas, representatividade negra, feminina, trans, etc. Seria a arena da moralidade e dos costumes.

Assim, todos concordariam com o “fim da história” de Francis Fukuyama, com a vitória definitiva do capitalismo, a livre iniciativa, o imperialismo, a invasão de outros países, as classes sociais, a meritocracia, o militarismo, os golpes, os ataques por procuração, o massacre dos palestinos etc, mas teríamos um espaço enorme para debater se um professor deve ser expulso da escola por chamar uma aluna trans pelo nome que consta na chamada.

O mesmo ocorre desde sempre no Brasil. A direita historicamente procura as pautas morais no sentido de criar pânico na população. Desde o “mar de lama” de Getúlio, o apartamento de Juscelino, “Lula é abortista“, “Lula vai fechar igrejas“, “o PT é ladrão”, “mamadeira de piroca“, “ideologia de gênero nas escolas“, “kit gay” e agora o “banheiro unissex“. Essas são pautas plantadas no debate nacional como manobra diversionista, para que não se discuta financiamento do SUS, salário mínimo, suporte às universidades públicas, ensino de qualidade, salário de professores, fomento do pequeno produtor, política de preservação ambiental, papel das Forças Armadas, reforma tributária, reforma política e do judiciário, desindustrialização, BRICS e controle público das mídias, entre tantas outras questões essenciais para o país.

Enquanto a extrema direita mais reacionária se afasta dos temas realmente relevantes, ela insiste em empurrar o debate para a arena que escolhe – e nós frequentemente caímos nessa armadilha. Não é por acaso que sempre ao se aproximarem as eleições surgem os assuntos e as “fake news” relacionadas ao “satanismo” de pessoas da esquerda, o tema do fechamento (ou tributação) das igrejas, dos direitos das pessoas trans, do casamento gay, dos costumes “depravados” nas universidades, de Nossa Senhora, de Jesus na goiabeira, etc.

É tempo de educar as pessoas, em especial do campo progressista, que o socialismo não é uma doutrina que se importa com o rabo de qualquer um de nós, mas um modelo de sociedade pautado na colaboração, na solidariedade e na definitiva eliminação das classes sociais que nos dividem.

Chega dessa p*rra de moralismo f*did* do caralh*.

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Divisões

Em termos políticos e sociológicos, dividir para conquistar (ou dividir para reinar) consiste em ganhar e manter o controle de uma determinada região por meio da fragmentação das maiores concentrações de poder, impedindo sua unidade e força. Esse conceito foi utilizado pelo governante romano César (divide et impera), Filipe II da Macedônia e o imperador francês Napoleão (divide ut regnes). Maquiavel cita uma estratégia semelhante em “A Arte da Guerra” (Dell’arte della guerra), dizendo da importância imperiosa em fragmentar as forças inimigas. Divisões sempre foram o maior interesse do Imperialismo. O sonho do Império Atlantista – ou Otanistão – liderado pelos Estados Unidos, era uma Iugoslávia dividida, e para isso fomentou a guerra fratricida do Kosovo, destruindo o sonho de Tito de uma nação eslava forte e unida. O desejo americano sempre foi uma Alemanha dividida, o que conseguiu por um certo tempo. O interesse do Império sempre foi dividir o Vietnã, a Coreia e a Rússia, assim como tentou com a China durante todo o século XIX. Para a América Latina – como bem cantou Pablo Milanés – ocorreu uma divisão artificial produzida pelo Império Britânico, contrária aos sonhos de Simón Bolivar. Mais modernamente, o Sudão foi dividido arbitrariamente com esta mesma lógica, claramente estimulado pelas nações colonialistas.

Até hoje se estimulam rivalidades e até guerras regionais na América Latina, como os ataques a Cuba, Nicarágua e Venezuela, não por acaso os três países que se impuseram orgulhosamente contra as determinações do Império Americano e, por isto, sofrem boicotes, ataques, sanções, atentados e golpes frequentes, todos eles financiados pelo grande capital internacional.

O próprio identitarismo parte da mesma percepção de mundo, e a través da estratégia de estímulo ao divisionismo como forma de enfraquecer a reação ao domínio. Uma sociedade pulverizada por identidades regradas por identidade sexual, raça, orientação sexual, etnias – onde um negro miserável se sente inimigo do branco explorado e pobre, a quem chama de “opressor” – também foi uma estratégia de sucesso do capitalismo americano, através do “leftismo” do partido democrata que, ao invés de abraçar as pautas socialistas e progressistas (eliminação da miséria, fim dos sem teto, sistema único de saúde, estímulo à reindustrialização), se entregou à defesa das minorias oprimidas, fragmentadas e divididas, assim como da “diversidade”, colocando operários e trabalhadores uns contra os outros como se a cor de sua pele ou sua sexualidade fossem reais barreiras para a integração, mais importantes do que a sua condição de classe.

É curioso que agora tantos falem no Brasil que “eles querem impor a divisão”. A frase é verdadeira, desde que se defina quem são eles. Falta a estes, que agora atacam os nordestinos pelo seu maciço apoio à candidatura de Lula, a percepção geopolítica de que “eles” se refere ao IMPERIALISMO, força que aqui no Brasil está ligada à extrema direita – Bolsonaro e seus seguidores. Quem realmente aposta na união nacional são os partidos da esquerda revolucionária e internacionalista, os quais reconhecem a importância da união dos povos em torno das pautas de apoio e de fortalecimento do operariado. É importante também, em meio a tantos ataques xenofóbicos contra o nordeste, entender o significado desta região para a construção do que hoje entendemos como Brasil. Nossa mensagem deve ir direto ao coração do eleitorado do sul e sudeste, este que deram seus votos a um racista declarado – Bolsonaro – e que agora depreciam o nordeste tratando esta parte do Brasil como subdesenvolvida e atrasada.

Os nordestinos salvaram o Brasil do fascismo que está presente em toda a história e as ações de Bolsonaro e – também por isso – seremos desta região eternamente devedores.

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Censura

Eu me acostumei a ver os humoristas brasileiros – em especial os stand-up da última geração – sendo acusados de fazer bullying contra grupos oprimidos. Com o tempo, a partir da vigência do “politicamente correto”, criaram-se lugares fechados, vedados ao humor, ambientes proibidos às piadas, pois que tais espaços estariam ligados ao sofrimento de grupos tradicionalmente oprimidos por sua etnia, orientação sexual, identidade de gênero, deficiências físicas, etc. O humor a partir de tal imposição cultural transformou-se. Através de um patrulhamento feroz do que era dito o humorismo amansou-se, tornou-se civilizado e domesticado. A censura não ocorria mais por parte de “escolhidos” pelo estado para filtrar o que era adequado para os ouvidos sensíveis de nossa população cristã e conservadora, mas por mecanismos culturais descentralizados. Fazer graça se tornou perigoso, mas o humor perdeu uma de suas principais funções: a crítica social mordaz, ferina.

Segundo David L. Paletz, a sátira é uma forma de humor em que as instituições sociais e políticas, os indivíduos são ridicularizados e humanizados. Isso pode nos levar a liberar a tensões e, assim, levar a mudanças no sistema. Dado que a frustração é uma das principais causas da agressão, não surpreende que as pessoas que frustram nossos objetivos e prazeres sejam os principais alvos do humor (como reis, rainhas, políticos, médicos, policiais, clérigos, professores, mandatários, etc.). Com a introdução do humor “controlado”, que evitaria ofender, criou-se um humorismo contido, uma comédia amordaçada, que serviria ao impedimento da segregação desses grupos. Aliás, praticamente todos os programas de humor dos anos 80 e 90 seriam proibidos atualmente. Pense em Chavez, Trapalhões, Viva o Gordo, Zorra Total etc. Nada disso seria aceitável no mundo de hoje.

É compreensível esse movimento. A empatia nos impulsiona a tentar proteger essas pessoas mais fracas de um determinado espaço social, como uma mãe faria com seus filhos. Este para mim é o padrão “maternal”, que abriga criando uma cápsula da amor protetivo, impedindo as agressões que vem de fora. Por esta perspectiva, a censura poderia ser aplicada a qualquer um que estivesse fazendo zombarias sobre esses grupos. Seria uma “censura do bem”, para proteger sujeitos fragilizados dos ataques de uma cultura degenerada e excludente.

Apesar de entender as razões pelas quais se adotam estas medidas na cultura, sempre me posicionei de forma absolutamente contrária a esta proposta. Não acredito que, em médio e longo prazos, qualquer censura possa ser benéfica. A censura sempre é a imposição de força de um grupo sobre a liberdade de expressão de um sujeito ou de coletivos. Baseada em critérios morais ou políticos, julga a conveniência da publicação ou divulgação de uma obra humana impedindo sua liberação à exibição pública. A censura se baseia na ideia autoritária de que existem sujeitos em uma sociedade capazes de julgar o que devemos ou podemos escutar, ver ou admirar. Todavia, da mesma forma como não existe “ditador do bem”, a censura falha em seu intento principal de livrar a sociedade de uma ideia que tenta se expressar; com o tempo – por melhores que sejam suas intenções – ela apenas mantém essa ideia prisioneira no inconsciente social, onde se nutre e cresce.

O que é recalcado não desaparece, e fatalmente se fortalece.

Danilo Gentili foi um dos principais comediantes atacados por grupos identitários. Sofreu processos, ataques e violências por contar piadas sobre mulheres, crianças, nutrizes e muitos outros grupos. Apesar de ele se situar no ponto oposto ao meu no espectro político, creio que ele está correto em sua perspectiva sobre o humor. Ele é vítima da censura que uma parte da esquerda faz e se tornou incansavelmente perseguido pelos identitários e pelas patrulhas de costumes, algo absolutamente medieval. A “hegemonia da ofensa” – onde as piadas são inadequadas apenas a partir de uma escolha política – que ele denuncia é real. Nela se condena por preconceito alguns grupos, enquanto outros são liberados. Fazer piadas com gays, afirma ele, é errado, mas com a pretensa homossexualidade do filho de um presidente de direita, está liberado.

As punições que os stand-up receberam nos últimos anos são a imagem mais clara da absoluta falta de respeito com a liberdade de expressão que existe no Brasil. Acreditar que uma piada possa ser proibida daria arrepios na espinha de qualquer liberal que aceita as liberdades individuais como elemento fundador da democracia, mas no Brasil recebe aplausos até daqueles que repudiam o fascismo e se se acreditam democratas. Censurar uma música do Chico Buarque ou uma piada tosca do Rafinha Bastos tem o mesmo peso, pois na censura não há debate sobre o mérito e a qualidade da obra, apenas sua conveniência moral ou política. Portanto, deveríamos reagir com a mesma energia contra qualquer uma destas arbitrariedades.

O grande problema com a proteção aos grupos “frágeis” é que a blindagem destes grupos – mulheres, gays, negros, deficientes, trans, etc, sobre o que se pode – ou não – dizer gera mais exclusão do que algum efeito pedagógico. Uma pessoa cujas falhas não podemos apontar e zoar (como fazemos todos os dias com nossos amigos) é alguém diferente de nós; frágil e intocável. Estes grupos passam a carregar o status de crianças, fracas demais, demandantes de proteção. Existe um preço a ser pago se alguém se considera (ou é considerado) acima das críticas – ou abaixo delas. Se você não pode brincar com suas características, não vai conseguir proximidade. Entre os próprios protegidos existe reação, pois que o preço da proteção é a eterna imaturidade.

“Ahhh, mas negros, gays, loiras etc eram humilhados com piadas que os diminuíam”. Isso é verdade, mas a maneira de lidar com esse problema não pode ser a repressão, que só piora a exclusão – como bem nos ensinou Freud. A forma mais justa é, diante de um ataque contra estes grupos, valorizar o fato de alguém ser mulher, ser gay, ser negro, ser loira ou ter alguma deficiência e não excluí-los das piadas, pois estas auxiliam na criação de um fator especial nas comunidades humanas: a intimidade. Além disso, todos nós aprendemos desde muito cedo a diferenciar as piadas e seus contextos, em especial reconhecer quando a piada é um simples veículo usado para um ataque preconceituoso. Esta sim é deletéria, mas não passa de uma falsa piada, um gracejo que apenas dissimula uma agressão. Entretanto, mesmo ela não se extermina com censura, apenas com educação e convivência. Aliás, o grande elixir para curar o preconceito é esse: jamais segregar e sempre estimular o convívio dos diferentes; esta sempre foi grande arma para derrubar os muros entre nós.

Tenho profunda admiração por humoristas que rompem essa barreira. Danilo Gentili tem meu total repúdio por sua postura política, mas minha solidariedade pelo direito de fazer e contar piadas sem a ameaça de ser censurado. Muitos outros humoristas enfrentam o bombardeio da “correção política” e se colocam como linha de frente da ampla e irrestrita liberdade de expressão. Entre eles, Rick Gervais e Dave Chappelle são os melhores exemplos de humoristas do politicamente incorreto, e por isso merecem minha admiração e respeito.

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A burguesia e seus candidatos

Tenho visto muitas queixas sobre os candidatos para as próximas eleições. Leio posts de sujeitos que acreditam que temos uma representatividade desqualificada, feita de subcelebridades, figuras midiáticas, gente sem qualidade e/ou preparo. Queixam-se das candidaturas de atores pornôs, palhaços, cover da Dilma, cosplay do Wolverine, youtuber, ex jogadores de futebol e vôlei, técnico de futebol, humoristas, viúvas de celebridades, cantores de axé, ex BBB, atriz aposentada, filhos de políticos, cantores bregas, etc. Por certo que estas queixas tem um caráter inequívoco de classe, como a dizer que apenas pessoas com “preparo”, curso superior, cultura e refinamento poderiam decidir sobre os destinos das cidades, estados e da nação.

Mas eu pergunto: qual o real problema desses personagens aparecerem na política?? Que tipo de crítica moralista é essa, e ao quê serve? Apesar de haver nestas candidaturas uma supremacia da “notoriedade” sobre o trabalho político, estes candidatos ainda são muito mais representativos do Brasil de verdade do que os playboys, os farialimers, os empresários, os militares, os pastores e seu “rebanho”, os policiais (em especial os justiceiros e fascistas) e os latifundiários do agro que ameaçam o meio ambiente. A mim esta interdição “cultural” é uma imensa tolice, uma forma de excluir as classes populares do debate nacional, um deboche contra o povo brasileiro e suas figuras populares, como se o fato de ser palhaço, jogador de futebol ou cantor fosse indigno e traduzisse uma incompetência para a política.

Tenho certeza que as pessoas que insistem nas críticas à “qualificação” dos candidatos jamais se escandalizaram com o fato de dois terços dos 513 deputados federais eleitos e reeleitos são empresários e profissionais liberais, segundo levantamento feito pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Isto é: dois terços dos representantes no Congresso não vivem de salário!!! Dois terços dos representantes parlamentares, aqueles que lançam e aprovam leis, não pertencem a classe trabalhadora. Na população em geral 10% dos brasileiros são empreendedores, mas no congresso são 66%. Para quem eles irão legislar??

Esses empresários e profissionais liberais vão cuidar da vida e dos proventos de todos brasileiros e exercerão controle sobre uma classe da qual pretendem se distanciar ou dar as costas. Todavia, esse tipo de disparidade típica das democracias liberais – um parlamento de ricos que controlam uma massa de pobres – não causa espanto, sequer nojo ou indignação. Já um ex palhaço parece insuportável.

A melhoria da nossa representatividade política jamais vai ocorrer em um sistema em que o gasto para ser deputado federal é altíssimo, completamente inatingível para um sujeito comum – mesmo da classe média. Um bom exemplo é o da Deputada Feederal Shéridan (PSDB-RR), que teve o valor mais alto na relação entre despesas e número de votos na última eleição (2018). Na disputa por manter sua cadeira no congresso federal ela recebeu 12.129 votos e declarou ter gasto R$ 2,3 milhões. Shéridan desembolsou R$ 190,22 por cada voto que conquistou.

Quem se escandaliza com isso? Por outro lado, o fato do sujeito ter sido atleta, ator pornográfico ou BBB parece ser inaceitável para a sensibilidade dos liberais meritocráticos ingênuos. Parece que ainda acreditamos que a classe burguesa tem melhores condições para gerenciar os destinos de uma nação, e existe um investimento pesado nesta crença. A forma mais simples e popular é debochar das candidaturas populares, de gente simples, de pessoas do povo e iguais a nós, da nossa classe. Quem pode esquecer o fato de que os candidatos do espectro de esquerda são tradicionalmente tratados como “cachaceiros” tão logo pretendam se candidatar?

A revolução do voto não será por aí; ela vai ocorrer pela real participação popular nos destinos do país, e isso jamais vai acontecer na vigência da democracia liberal burguesa. Para isso precisamos de uma revolução e um povo com a necessária consciência de classe para mudar seu destino.

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Rejeição

Há algumas semanas conversei com uma mulher sobre uma série de assuntos relacionados à sua gravidez e, depois de um certo tempo, ela fez um comentário de caráter político que me deixou curioso. Como ela tocou no assunto, resolvi espichar um pouco a conversa para entender onde ela se situava nesse espectro político. Por curiosidade, perguntei:

– Mas afinal, em quem você vai votar?

Ele fez uma cara de quem estava pensando e por fim, respondeu:

– Ainda não escolhi, mas vai ser qualquer um, menos o Lula.

Um pouco surpreso, perguntei a razão de eliminar preliminarmente o ex-presidente de suas preferências, ao que ela explicou:

– Não adianta, não gosto dele. E não adianta tentar me convencer do contrário. O Lula trata as pessoas como se fossem coitadinhas, incapazes, fracas. Eu jamais precisei de ajuda para chegar onde cheguei. Não é porque sou negra que preciso ser tratada como inferior.

Ela era, por certo, uma mulher negra de classe média baixa. Havia estudado, tinha acumulado alguns bens (normais para seu estrato econômico) e tinha seu próprio pequeno negócio. Perguntei como poderia ser essa a visão que tinha de um sujeito simples, nordestino, operário, etc. Na minha cabeça, era pouco compreensível que as pessoas mais prejudicadas por uma estrutura social injusta como a nossa rejeitassem o personagem que mais representa a esperança de reversão dessa dura realidade.

As respostas dela foram tão subjetivas que se tornam até inúteis para uma análise de suas causas. Falou coisas como “O jeito que ele olha para os pobres”, ou “as palavras (falsas) que usa para falar deles”, e até “essa mania de falar da própria mãe, pobre e retirante“. Eu me convenci de que não havia nada em sua fala sobre o que Lula havia feito de errado, mas seu rechaço se fundava sobre o que Lula é: um homem que, reconhecendo as dificuldades do povo mais oprimido – negros, pobres, mulheres, operários, gays, etc – lança sobre eles um olhar de reconhecimento e cuidado, mas que para alguns parece ofensivo.

Perguntei sobre os candidatos ricos, de outras classes sociais, preocupados com suas próprias realidades próximas, e como ela lidava com o fato de que nenhum olhar seria direcionado aos pobres e destituídos. Questionei também se ela entendia que esta rejeição a Lula nos levou a eleger um sujeito racista, homofóbico, misógino e que despreza os pobres e até a própria democracia. Sua resposta foi curiosa:

– Ora, todos são racistas; ele é apenas mais um. O Brasil é um país racista; você, lá no fundo também é – e não adianta negar. Esse presidente ao menos é sincero e verdadeiro. Transparente.

Por fim disse não aceitar nenhum tipo de postura, assim dita, assistencialista. Afinal, não é justo que os outros ganhem “de presente” o mesmo que ela batalhou tanto para alcançar. As ajudas do governo acabavam por diminuir o valor de tudo que ela havia conquistado em sua vida, algo inaceitável e injusto.

Isso me fez lembrar os médicos que reclamavam do pagamento dado às doulas. Um deles, antigo e reacionário membro do conselho médico local, dizia que as doulas eram como “verdureiras”, no sentido de atuarem em uma “profissão” sem qualquer regulamentação, e que seria injusto ganharem bem quando os médicos – após anos de esforço – ganhavam quase o mesmo que elas.

Sim, mais fácil depreciar o trabalho alheio do que reivindicar a valorização do seu.

Quando a esquerda oferece mais equidade e justiça social esta promessa incomoda algumas pessoas por parecer desmerecer suas conquistas, ao menos nesta percepção deteriorada delas. Acreditam que, para que suas coisas ganhem valor, é importante que outros só as obtenham mediante sacrifício.

As ideias socialistas geram desde sempre a ilusão de extermínio da meritocracia, como se a justiça que apregoam fosse oferecer “igualdade para os desiguais”. Na verdade apenas promete que ninguém poderá ser privado de suas necessidades fundamentais e que o trabalho deverá ser remunerado com equilíbrio e sem exploração. Porém, diante da proposta de que todos devem ser remunerados com justiça, é chocante ver o quanto de rejeição isso ainda provoca.

Desisti de convencê-la a trocar seu voto, mas ao menos deixei claro que sua escolha era muito mais baseada na aversão à ideia de justiça social e muito menos nos defeitos de Lula. Ou seja, seu preconceito estava mais ligado às virtudes do que às imperfeições do candidato. Por outro lado, percebi que esse tipo de discurso é muito mais prevalente do que se pensa, e que é importante escutar o que estas pessoas têm a dizer.

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Ditaduras

“Mas o Brasil de Lula apoiou ditaduras pelo mundo afora”…

Quem já não escutou esta frase provocativa vindo dos elementos mais afoitos da direita nacional? Quem já não teve que dar explicações para quem acusa os governos socialistas de serem antidemocráticos, cruéis e genocidas? Todavia, antes de explicar os governos petistas de terem uma política externa que favoreceu os países em desenvolvimento, cabem alguns esclarecimentos importantes sobre os países mais frequentemente acusados.

Em primeiro lugar, entre as nações que “os comunistas do PT” protegeram por acaso uma delas é Israel, que ocupa com armas a Palestina após uma invasão que expulsou 750 mil habitantes da região há 70 anos? Ou talvez entre estes países favorecidos pelo PT está a Arábia Saudita, uma ditadura feroz apoiada pelos americanos em troca de petróleo, que enforca pessoas em praça pública e em pleno século XX pratica penas de morte por decapitação? Sim, porque ambos estes países são idolatrados por Bolsonaro. Tanto Israel quanto a Arábia Saudita foram visitados recentemente pelo mandatário brasileiros e seus filhos. Porém, aqui cabe uma pergunta: em alguma das “ditaduras” que o PT é acusado de apoiar alguma vez um presidente foi impedido de concorrer por um golpe envolvendo um juiz e procuradores corruptos? Pois, vale lembrar, Bolsonaro se tornou presidente apenas porque o ex-juiz Sérgio Moro acertou-se com o departamento de justiça americano, produzindo uma sentença condenada pela totalidade do meio jurídico independente. Este mesmo juiz posteriormente abandona a toga e se transforma no Ministro linha dura e punitivista Bolsonaro – a quem ajudou eleger. Isso pode ser considerado uma democracia?

Mas quando vocês se referem à Venezuela é bom lembrar que este país sofre um brutal embargo americano por ser um bastião da autonomia e da soberania das nações da América Latina. Seu presidente – legitimamente eleito – sofreu diversos atentados contra sua vida por forças reacionárias patrocinadas pelo imperialismo. A Venezuela está longe de ser um país socialista, quanto menos comunista, mas ousou declarar-se livre das imposições americanas para a compra do seu petróleo por preço vil. Esse país tem eleições cada dois anos, economia de mercado, imprensa livre, voto controlado e auditado por dezenas de países. Por que poderíamos chamar a Venezuela de “ditadura” mas nunca nos referimos assim à Colômbia, um país tradicionalmente controlado por uma direita brutal e assassina, associada aos Estados Unidos, onde 199 ativistas dos direitos humanos foram assassinados pelas milícias armadas ligadas ao governo, isso apenas no ano de 2020. Não seria justo chamar de ditadura um país onde lutar pelos direitos de seus compatriotas representa uma sentença de morte? Se você chama Cuba de “ditadura”, sabia que lá os políticos trabalham de graça para o povo? Os parlamentares em Cuba, de qualquer nível (provincial ou nacional), não possuem qualquer pagamento ou salário. Geralmente seguem atuando em suas áreas/profissões, ao mesmo tempo em que atuam em suas funções legislativas. Outro fato curioso é que não existe nenhuma proibição em Cuba para a fundação de outros partidos; não há lei alguma com essa restrição. Não existe exigência de filiação partidária para a participação política. Por que seria ditadura quando existe total liberdade para organização partidária?

Em 2018 a Comissão Nacional Eleitoral de Cuba ratificou os resultados das eleições gerais. Um total de 85,65% dos eleitores exerceram seu direito ao voto e 7.399.891 de eleitores compareceram às urnas, em uma população de 11 milhões e meio de cubanos. É importante ressaltar que o voto em Cuba não é obrigatório como no Brasil, mas opcional. Cada circunscrição (agrupamento de bairros) escolhe seu candidato em assembleias abertas, o qual irá para as eleições onde todos (cidade/província/país) poderão decidir se aprovam, ou não, por meio de voto facultativo e secreto. Outro detalhe muito interessante do sistema cubano é que algumas categorias (trabalhadores, mulheres, estudantes e pequenos agricultores) têm cotas no Parlamento, estabelecendo uma diversidade notável na política da ilha. Em 2018 as mulheres detinham 53% das cadeiras da assembleia do povo e os negros 40% – compare isso com os míseros 15% de mulheres e 24% de negros no congresso brasileiro. Esses elementos são o Poder Popular, que preserva o contato permanente entre lideranças e a base. Por que chamar Cuba de ditadura, mas não achar o Brasil uma ditadura onde quem manda são os banqueiros, os rentistas, os latifundiários e as redes de TV? (leia mais nesta reportagem de Jornalistas Livres)

E sobre a Coreia do Norte? Pois existem 3 partidos por lá e você pode ser eleito para a Assembleia Popular sem estar ligado a qualquer um deles, assim como em Cuba. Sabia que, assim como em Cuba, não existe nenhuma pessoa sem moradia ou vivendo em malocas na Coreia do Norte? Sabia que o presidente Kim Jong-Un é apenas chefe do executivo, eleito pela Assembleia do Povo, mas o país tem um sistema legislativo e judiciário independentes? Não esqueçam que Venezuela, Cuba e Coreia do Norte sofrem embargos brutais, um verdadeiro terrorismo econômico por parte do Império americano, apenas pela ousadia de se declararem independentes do poder central do capitalismo. Estes países enfrentam a escassez de produtos porque sabem que muito pior do que isso é a subserviência aos interesses do países imperialistas. Eles são exemplos de autonomia e soberania, povos altivos que perceberam muito antes do que nós, o valor de serem livres.

Enquanto isso, em nossa democracia liberal, existem mais armas nas mãos de bolsonaristas do que em posse das polícias e forças armadas brasileiras. Apenas Bolsonaro ameaça a ordem instituída dizendo que não vai aceitar o resultado das eleições. Uma democracia em que as Forças Armadas atuam constantemente ameaçando o legítimo desejo popular pode ser descrita desta forma? Pode ser considerada um governo do povo? Não há dúvidas de que estes países tão atacados por nossa mídia liberal burguesa têm problemas estruturais importantes. É fato que existem problemas sérios até mesmo em relação aos direitos humanos, mas é injusto acusá-los de “regimes ditatoriais” como o fazem os jornais do mundo inteiro sem conhecer sua história, suas particularidades, suas dificuldades, os crimes cometidos contra sua soberania por forças estrangeiras e seu empenho em manter independência dos poderes imperialistas que massacram populações inteiras por todo o mundo. E também é incorreto utilizar as democracias liberais como paradigmas de justeza e transparência quando, por certo, estão muito distantes dessa realidade.

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