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Sustentação

O que me entristece e preocupa não é o fato de que Bolsonaro seja racista, machista, homofóbicos e um completo incompetente, mas o fato de que tantas pessoas parecem não se importar com isso, sequer com o flagrante nepotismo da indicação de seu filho para a embaixada nos Estados Unidos. Para além disso, o que me espanta é o número de cidadãos que reconhecem a corrupção de Moro, Dalanhol, Gebran, Dodge, Fux, Barroso e até Toffoli, mas parecem não dar a menor importância para o fim da democracia. Pelo contrário, até celebram sua morte insidiosa.

Bolsonaro um dia deixará de ser presidente, assim como essas figuras do judiciário que dão suporte legal ao arbítrio; todavia, as pessoas comuns que apoiam o desmonte civilizatório no Brasil continuarão por aqui. Assim, fica claro que todos os gritos e marchas contra a corrupção que marcaram o país desde 2013 eram tão somente uma gigantesca cortina de fumaça a esconder nossas verdadeiras motivações inconfessas.

O que motivou essa população branca e de classe média contra os governos anteriores e seu desejo de “renovação” na política foi a ideia compartilhada com os votantes de Trump: “queremos nosso país de volta”. Um país onde todos saibam seu lugar, como sempre foi. Empregados e patrões. Ricos e pobres. Um país onde negro é negro, branco é branco, família é pai e mãe, meninos vestem azul e meninas rosa. Essas ilusórias certezas diante de um mundo de fronteiras incertas são as verdadeiras motivações que nos jogam nos cultos à personalidade e nas seitas, que são a melhor definição para o trumpismo e o bolsonarismo.

Assim como nos Estados Unidos somos herdeiros de uma nação cuja fratura formativa é a escravidão. Ela se manifesta de forma dissimulada na interação social, mas continua sendo a base de onde tiramos os nossos conceitos. Não é à toa que a “direita chucra” (para usar a expressão de Reinaldo Azevedo) costuma chamar os petistas e membros do MST de “vagabundos” , com o mesmo tipo de desprezo que tinham pelos negros escravos. Sem a cura dessa ferida seremos eternamente condenados a um destino violento, dividido e injusto.

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Mitos espíritas

Não passem pano para seus mitos espíritas…

Acho curioso quando surge esse tipo de argumento: “sim, Moro é um juiz corrupto e Dalanhol cometeu crimes como promotor, mas, mas, …. quem pode falar qualquer coisa contra esses combatentes corajosos contra a chaga da corrupção no Brasil???

Ora… o trabalho de Chico e Divaldo deve ser reconhecido pelo seu valor, mas o fato de serem dois notórios reacionários deve ser dito e exposto, até para retirar a aura de divindade que carregam.

Querem mais? Passei a infância lendo Monteiro Lobato, um racista e eugenista asqueroso. Valorizo seus livros infantis e deploro seus preconceitos. Humberto de Campos era um racista nojento e grande cronista. Fernando Pessoa, ele mesmo, nutria profundo desprezo pelos negros e foi o maior poeta da língua portuguesa. John Lennon era um perverso e sádico. David Bowie pedófilo, assim como Simone Beauvoir nos anos 60. Todos humanos e falíveis, alguns com máculas morais terríveis. Não passo pano para nenhum deles, e ainda assim separo o autor da obra.

Chico e Divaldo apoiaram regimes de força. Foram coniventes com as ditaduras de outrora e com o golpe juridico-midiático de agora. São golpistas com um pezinho no autoritarismo e na ditadura. Divaldo exaltou publicamente um juiz criminoso que combinava sentenças secretamente com a promotoria.

Ambos poderiam ter ficado quietos, mas deixaram claro seu apoio à brutalidade da direita nesse país.

Ahhhh, mas e os livros, a Mansão do Caminho, as palestras?” É curioso quando trazem esse argumento pois é o mesmo argumento usado pelos milicianos. Eles esperam ser desculpados pelas assistência oferecida aos pobres e pelas benfeitorias que realizam nas favelas que comandam (a ferro e fogo). Pablo Escobar, os donos de Escolas de Samba e os barões do jogo do bicho sempre agiram assim. Sei que a comparação é dura, mas não comparo as figuras e sim a lógica usada para passar pano em seus erros. Não tem como usar a obra de Chico e Divaldo como blindagem para sua vinculação clara com o ditadura de 64 ou os crimes terríveis desse magistrado corrupto que envenenou a democracia no Brasil.

Blindagem de espíritas? O mesmo que faziam com os crimes de papas, suas orgias e lambanças da Igreja.

Para finalizar, eu não reduzo essa dupla de mitos espíritas às suas opções políticas autoritárias ou a exaltação de corruptos como heróis nacionais. O trabalho deles, para os que creem, ultrapassa esse limite. Entretanto, exatamente pela importância que eles tem, não há como perdoar e desviar o olhar de sua vinculação com a barbárie e o atraso do nosso país.

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O Sofá da Sala

Acabo de ler a nota do governo brasileiro – claramente inspirada pela corporação médica – que tenta impedir o uso do termo “violência obstétrica”, curiosamente na mesma semana em que o presidente, usando a mesma lógica, diz que “racismo é algo raro de ocorrer no Brasil”. A mesma tentativa tola de tirar o sofá da sala imaginando que assim o problema deixaria de existir.

O problema não é o termo utilizado, mas a “misoginia essencial” que permeia a atenção ao parto e nascimento, resultado de 100 séculos de modelo patriarcal a conduzir nossas vidas. Violência obstétrica existe sim – e dói.

Creio que não resta nenhuma dúvida dos interesses por trás dessa manobra; elas visam, em essência, a mudança de narrativa através da supressão de expressões consagradas. Estas são atitudes muito coerentes com o modelo revisionista que se pretende implantar no Brasil de hoje. Assim, não tivemos golpe em 64, mas “governos militares”. Dilma sofreu um “Impeachment” e não outro golpe patrocinado por grupos ressentidos, o que abriu caminho para outras aberrações jurídicas como prender o ex presidente Lula sem apresentar provas.

Desta forma sorrateira o Brasil inaugura oficialmente o uso da “novilingua” acreditando que assim fazendo exterminará como por encanto a violência física e moral a que são submetidas milhões de mulheres no país, algo que o termo – agora suprimido – sempre pretendeu denunciar.

Sabemos que tais iniciativas grosseiras e ofensivas fazem parte da cobrança da dívida que o bolsonarismo tem com a corporação médica. Esta corporação foi parceira de primeira hora nas manifestações golpistas de 2013-16, que culminaram com a queda de Dilma e a prisão de Lula, e posteriormente na eleição de Bolsonaro. Aqui mesmo no sul o sindicato médico já se apressou em mandar uma nota e um vídeo parabenizando o governo Bolsonaro pela proibição. Nenhuma surpresa.

Nada disso deveria nos espantar: a corporação médica mostra seu caráter reacionário de forma explícita desde o surgimento de canais na internet como Dignidade Médica, que disseminam todo o racismo, classismo, preconceitos de cor, raça e orientação sexual há muitos anos. Antes das redes sociais este fenômeno ficava restrito às salas acarpetadas de cafezinho dos hospitais. Agora… os monstros estão todos à solta.

Cabe a nós, ativistas da humanização, mostrar que o combate à violência obstétrica não é obra de “hippies”, “radicais comunistas” ou outras promotoras de “balburdia”, mas de um coletivo de pensadores e ativistas que se debruçam há muitos anos sobre o tema da violência de gênero no Brasil e no mundo. É digno de nota que inclusive elementos progressistas da própria corporação médica reconhecem a justeza do termo – além de sua consagração pelo uso – e entendem a necessidade de fazer algo a respeito dentro da prática cotidiana da obstetrícia, num exercício saudável de autocrítica e visão de futuro..

É importante que os ativistas, que sempre foram a locomotiva a puxar os movimentos articulados pela dignidade no parto e contra a violência obstétrica, se posicionem de forma vigorosa e contundente contra este tipo de iniciativa, denunciando o atraso em conquistas históricas por uma maternidade digna e segura que tal manifestação oficial significa.

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Americanos

A ideia que os americanos produzem de si próprios é uma das coisas mais curiosas da atualidade. Ainda influenciados pelo cinema, que os coloca como “salvadores do ocidente” pela (falsa) ideia de que venceram a segunda guerra mundial – essa guerra foi vencida pelos russos – cultivam a imagem de benevolentes e caridosos, povo especial que espalha a liberdade e a democracia pelo mundo afora.

Se é verdade que o liberalismo americano representa um avanço sobre sistemas fechados e tiranias, também é real que os americanos não tem uma democracia tão sólida quanto parece e muito menos são eles uma fonte de democracia a se espalhar pelo mundo. Os milhões de mortos, as dezenas de países invadidos, destroçados, aniquilados no mundo inteiro – em breve a Venezuela – em busca de poder, dominação e riquezas naturais só são menores que sua gigantesca máquina de propaganda que convence as mentes incautas de que eles são, acima de tudo, democratas e libertários.

Engano. Suas ações são apenas as manifestações do Império decadente se espalhando por todos os continentes para que se possa manter um padrão de vida irreal e destrutivo, o “American Way if Life” que é tão arraigado no nosso imaginário pela publicidade.

O mais engraçado é o espanto do cidadão médio americano quando se fala da possível (provável?) influência russa na eleição de Trump. Ora, tolinhos… os Estados Unidos influenciam eleições e governos do mundo inteiro, de forma velada ou explícita, para controlar os países que consideram como seus asseclas, empregados da Casa Grande americana, para os quais nos mandam em troca espelhinhos, colares e IPhones. Agora se escandalizam quando o que SEMPRE fizeram aos outros pode ter ocorrido em sua própria casa.

Aqui no Brasil esse entreguismo nunca foi tão explícito como agora. Nosso governo sequer tem pudores de prestar continência à bandeira americana e oferecer nosso próprio território para exploração e incursões de exércitos estrangeiros.

É preciso entender que sem autonomia e soberania seremos miseráveis subalternos, e para nossos dominadores jamais teremos importância ou significado. Pode apostar que os americanos podem não gostar de Fidel, Chávez, Maduro ou Kim, mas devotam a estes líderes um respeito e uma reverência que jamais terão com o fascista e sua família de gangsters que guardam, para eles, as riquezas do seu quintal.

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Propostas 2019

Representando extraoficialmente a patrulha de esquerda que frequenta este espaço venho ratificar nossa posição e nosso compromisso de fornicar com a paciência de todo e qualquer sujeito que ser se alinha com as políticas e ações reacionárias, excludentes, preconceituosas, racistas, misóginas e homofóbicas do novo (des)governo que se instala no Brasil. Sabemos da importância de nossa tarefa na depuração do ambiente cibernético das ervas daninhas do fascismo e rogamos sua compreensão. Acredite, não é algo pessoal, e o que nos move é o fervor socialista.

A regra será não dar trégua ao fascismo travestido de “combate às ideologias“. Enfrentaremos com as armas do contraditório, mesmo através das piadas, claro, com pitadas de sarcasmo. Acostume-se porque agora vocês são da situação e vão levar porrada sem parar. E quando vocês estiverem muito putos com nossas críticas e protestos tem uma forma muito fácil de se acalmar:
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Faz arminha.

Atenciosamente
URSAL

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Imprensa e miséria

O Brasil tem mesmo um jornalismo miserável. Quando o Queiroz refugou ao dizer o nome do hospital em que estivera internado um jornalista de verdade perceberia a manobra e pularia imediatamente no seu pescoço para colocá-lo em contradição. Com duas ou três perguntas faria ele gaguejar e se perder. Ele se entregaria sozinho, apenas com a exposição de suas mentiras.

O que fez a entrevistadora? Nada, deixou passar. Apenas disse “ok”…

Aliás, todo mundo sabia de antemão que a desculpa oferecida por Queiroz seria furada e mentirosa. Todo mundo brincava com a versão que seria apresentada, mesmo que todos saibam que é uma fraude para acobertar a “rachadinha”, manobra típica do baixo-clero

Certamente que o judiciário – como Moro já sinalizou – deixará por isso mesmo e aceitará como verdadeira a versão. Por que haveríamos de duvidar da palavra de Queiroz? Se ele diz que foram carros então está encerrado o caso. Talvez pague uma multa por sonegar, mas é certo que diante do “grande acerto nacional” – com o supremo, com tudo – nada será feito para ir adiante nas investigações.

No fim teremos mais uma farsa grosseira para colorir o grande golpe aplicado contra a democracia

Pior, ainda nossa imprensa chapa-branca acovardada não irá atrás dos carros vendidos e comprados, dos recibos e dos supostos compradores e não investigará um por um os funcionários do gabinete.

Nosso jornalismo de grande imprensa é uma fraude.

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Pedra de Tropeço

O Brasil ameaça cair numa arapuca terrível, uma mistura de intervenção militar, religiosa e fundamentalista da qual não será fácil suplantar, mas condenará o país ao atraso e à obscuridade. O ódio de classe misturado com a manipulação midiática das eleições não poderiam produzir um resultado diferente. Por outro lado, é possível que o descalabro de um governo incompetente, um presidente bufão e a condição de ditadura em pleno século XXI sejam a queda vertiginosa no poço da miséria que possibilitará uma reação popular.

Eu tenho pensado na “pedra de tropeço” ultimamente. Quando vi os alemães se horrorizarem com as palavras do Coiso penso que isso é possível apenas porque sua sociedade conseguiu absorver as lições do horror e da degradação fascistas. A nossa ainda não, e por isso namoramos com o arbítrio e o intolerância.

É forçoso reconhecer que nossa democracia nunca se consolidou. Falhamos com a democracia. O que é impensável em muitos países civilizados para nós é natural. Nunca tivemos instituições fortes. Nosso STF é covarde, o congresso é fisiológico e votamos em sujeitos que são notórios desqualificados.

O Coiso, Tiririca, Alexandre Frota e tantos outros nos fazem pensar sobre nossa educação e nossa ideia de nação. Uma das razões dessas fragilidades institucionais é que jamais tratamos os crimes da ditadura com a energia necessária. Não punimos os assassinatos e as torturas dos anos de chumbo produzidas pelo Estado. Ficaram todos livres e com total impunidade. Ustra não foi tratado como devia e acabou falecendo antes de pagar por seus crimes. Nossa anistia não permitiu o fechamento do ciclo. Ele se manteve aberto e por isso mesmo a sombra da ditadura e do autoritarismo paira sobre nós.

Tenho pensado que a possível eleição de um fascista confesso produzirá – na melhor das hipóteses – um choque de realidade. O caos que por certo vai se instalar a partir de um governo truculento, estúpido, arrogante e desvinculado das necessidades dos pobres poderá produzir uma reação da sociedade – que ainda não ocorreu. Bolsonaro talvez venha a ser a barbárie que nos faça fechar o ciclo.

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Futebol e Política

É evidente que manifestações de jogadores de futebol relativas à política são raras e a imensa maioria dos jogadores e clubes não se posiciona politicamente, por desinteresse, ignorância ou pura alienação.

Entretanto cabe ressaltar 4 episódios recentes que demonstram as relações de personagens do futebol com a política:

  1. Os apoios de Neymar e Ronaldo Fenômeno à campanha de Aécio Neves;
  2. A intenção de Ronaldinho Gaúcho de concorrer ao senado no mesmo partido do candidato da direita mais reacionária;
  3. A frase gritada de cima do caminhão de bombeiro, por Renato Portaluppi, em apoio ao “juiz” da Lava Jato, nas comemorações do campeonato da América;
  4. Os jogadores Felipe Melo, Jadson e Roger declaram apoio a um candidato de extrema direita à presidência, cujas posições incluem racismo, misoginia, ditadura, apoio a torturadores, penas capitais e ataque aos homossexuais

Existem, mesmo que de forma tímida, manifestações de caráter político circulando no mundo futebol. Entretanto é evidentemente um setor dominado pelos conservadores e pelas posições à direita no espectro político-partidário. A esquerda é uma expressão bissexta na cultura do futebol. Os clubes são controlados desde sempre pela burguesia empresarial, advogados, membros do MP e magistrados aposentados. Na CBF quem manda é o dinheiro e as ligações com as empresas de TV, material esportivo, etc. Isto é: o futebol está ligado de forma umbilical à nata das classes altas. São estes atores que puxam os cordéis dos marionetes de chuteira, enquanto manipulam a paixão do povo pelo ludopédio. Berlusconi e Macri são os ícones máximos dessa realidade.

Não é difícil de entender as razões para este divórcio entre os jogadores de periferia pobre e o mundo de significantes que deixam para trás. Ao ascender socialmente eles entram no mundo da fama e do consumo e, via de regra, assumem os valores da cultura que os recebe. Esquecem rápido de onde vieram e olham deslumbrados para o mundo de luzes que os recebe. Muitos, como Ronaldo Fenômeno, chegam a mudar de cor e assumem o tom de pele que mais representa suas aspirações.

Assim, o que é mesmo raro não é a adoção de posições política ativas e explícitas, mas que estas sejam relacionadas com o desejo de transformar o mundo do qual os jogadores são egressos. As posições progressistas e de esquerda podem ser contadas nos dedos; já as conservadoras se multiplicam na mídia. Na contramão do conservadorismo chamou atenção o apoio do técnico Wanderley Luxemburgo ao presidente Lula durante o cerco ao Sindicato dos Metalúrgicos, uma ilha de legalismo de esquerda num oceano de punitivismo, conservadorismo e o mais escancarado reacionarismo. As posições de Casagrande, sobrevivente da democracia do mito Sócrates, são notáveis exceções no universo da bola.

Há política no futebol, mas o que nos falta são personagens verdadeiramente engajados numa postura de esquerda, pelas minorias, pela democracia e, principalmente, pelos pobres, exatamente o que eles tentam de toda forma esquecer que um dia foram.

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Função paterna

Só incautos se assustam com a proximidade ideológica entre boleiros e extrema direita. Eu posso apostar que a maioria dos jogadores estão desse lado. Não é muito difícil entender as razões para esta escolha.

Boa parte dos jogadores emergem de bolsões de pobreza e até miséria. Qual a maior carência relacionada à pobreza? Para além das necessidades de sobrevivência podem ter certeza que não é nenhum brinquedo, roupa ou aparelho eletrônico. O que estes meninos mais carecem é de pai.

Uma recente estatística mostra que 70% dos encarcerados no Brasil não tinham essa figura em casa. Um pai é mais do que um provedor; ele é o melhor e mais tradicional representante de uma instância psíquica que oferece à criança a noção de “lei”. Depois de ultrapassada a fase de “castração” os meninos buscam – desde que a castração tenha sido eficaz – a identificação com essa figura com quem dividem o amor da mãe. Essa aproximação é extremamente estruturante para o sujeito e vai construir sua futura relação com a sociedade. Na ausência dessa figura real o menino buscará a função em outros lugares: na escola, nos vizinhos, nos parentes, em ídolos, no exército etc…

O que é Bolsonaro senão uma grande figura paterna tentando instituir a “lei”, doa a quem doer? Que figura de poder, autoridade, força, arbítrio e dureza ele representa? Ora…. não é difícil entender que ele atrai para perto de si aqueles jovens (ou nem tanto) sequiosos por ouvir uma voz de autoridade inquestionável que preencha a lacuna da figura paterna ausente em suas vidas. São os mesmos jovens que adoravam Hitler e cujos pais haviam morrido na primeira guerra, ou que haviam saído da Alemanha despedaçada para conseguir emprego longe de casa. São os despossuídos do capitalismo que sonham com o cavaleiro salvador que vai resgatá-los da solidão, o herói que seu pai não pôde ser.

Figuras como Felipão tiveram enorme sucesso no futebol porque sabiam usar esse poder. Os jogadores o enxergava como pai. Nas palavras de um atleta que jogou com ele “Nós jogávamos POR ele e PARA ele.” Entender essa dinâmica deixa mais fácil perceber o sentido de usar “Família Scolari” na Copa do Mundo. Felipão era o pai para quem os meninos faziam gols e venciam adversários.

Ronaldinho Gaúcho não foi o primeiro a declarar amor a Bolsonaro. Antes dele houve várias manifestações de jogadores (Felipe Melo, Aluízio…) a favor do representante da extrema-direita. Para entender essa escolha é preciso mergulhar na infância desses jovens e entender o que essa escolha representa em suas vidas. A própria vida do craque do Barcelona nos ensina o quanto a morte precoce e trágica de um pai pode trazer de consequências.

Entender a sutileza de uma sociedade complexa, com suas contradições e tensões é muito difícil. Entender autoridade, força e poder é simples. Qualquer brucutu entende e dá gargalhadas com as prisões arbitrárias feitas por juízes megalomaníacos que posam com metralhadora no Instagram. Precisa sofisticação intelectual para entender a importância de garantias constitucionais e respeito aos direitos humanos, mesmo que isso, ocasionalmente, livre criminosos de penas pelos seus delitos. Não é a toa que Hitler, com esse exato discurso, seduziu tanta gente na Alemanha e fora dela.

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Armário aberto

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Durante a minha infância eu fui educado no cultivo de valores morais e espirituais cristãos, como a honestidade, o perdão, a fraternidade e uma visão teleológica de “evolução espiritual”. Poderia ter sido Rock n’ Roll, Elvis ou Stones, mas foi Allan Kardec. Nada contra nenhuma das possibilidades, mas isso tem um pouco de responsabilidade pelo que eu me tornei.

Em 1973 estávamos em plena ditadura militar e nessa época eu contava 13 anos de idade. Foi nesse período que moldei o meu coração vermelho, mesmo mantendo minha camiseta azul, preto e branco. A falta de liberdade e a sensação de constrição social começavam a gritar mais alto do que a visão perseverante, cristã, patriarcal e claramente conservadora que as vertentes religiosas – todas – ensinam nas entrelinhas dos versículos bíblicos e mensagens de Chico Xavier. Minha adolescência, que coincidiu com a entrada na escola médica, produziu esta guinada à esquerda aliada a uma visão social, já na própria medicina, que me acompanha até hoje.

Pois em 1973 eu tinha um amigo que morava há poucas quadras de minha casa e com quem conversávamos muito. Filho de uma família austera de alemães (a classe média de Porto Alegre é de “alemães” em sua maioria), seu pai era veterinário e ele tinha apenas uma irmã. Creio que foi por convite dele que fomos assistir o primeiro “filme proibido” no falecido cinema Carlos Gomes. Claro que no meio da sessão de “chanchada” brasileira – e antes de conseguir ver os almejados peitos descobertos da protagonista – a Polícia deu uma batida e todos os “dimenor” foram expulsos do cinema. O que poderia ser uma vergonha para nós foi motivo de orgulho, pois, mais do que uma sessão de cinema, participamos de uma aventura policial. Quem diria que naquela época seriam necessários pequenos crimes como este para ver inocentes mamilos. Pois este amigo, um certo dia, veio conversar sobre política comigo. Não era um assunto comum; era um tabu. Falamos da ditadura, do AI5, da falta de eleições e outros temas dentro da perspectiva de dos meninos entre 13 e 14 anos. O que fez essa conversa se tornar inesquecível é que os argumentos do meu amigo eram muito parecidos com os que a direita brasileira usa até hoje. A meritocracia ingênua, o culto ao “Cidadão de Bem”, a pobreza como escolha, o sucesso reservado aos competentes, a miséria como natural e a reação a este modelo como “ação criminosa”. Entretanto, em dado momento, diante dos meus argumentos de que a educação seria capaz de melhorar as condições de vida e fazer o Brasil alcançar níveis de civilização como na Europa, ele me respondeu:

Isso é inútil, Ricardinho. O filho do ladrão será ladrão e o filho deste também. São valores que se perpetuam nas gerações que se seguem. Não há solução. É como meu pai sempre diz: tem que colocar uma bomba na favela, explodir tudo, acabar com esses vagabundos e começar tudo de novo.

Fiquei por instantes calado e, um pouco tempo depois, ainda chocado, perguntei: “Teu pai disse isso mesmo?” Ele aquiesceu com a cabeça e continuou explicando porque achava que a “solução final” era o único caminho, mas a partir de então eu já não consegui escutar mais nada. Não podia acreditar que as pessoas pensassem assim. Os valores ingênuos de tolerância e amor ao próximo que recebi na infância não me permitiam aceitar um argumento desses sem me espantar. Nos despedimos e acho que nunca mais falamos sobre esses assuntos. Passamos décadas sem nos ver e hoje sei que ele milita em grupos de extrema direita. Nesse ponto ele tinha razão; o filho saiu ao pai, e o filho do filho tem a cama das ideias prontas para se deitar.

O que me fez lembrar essa história foi o fato de que, nos anos 70, uma ideia genocida e preconceituosa era contada apenas na família, com o rádio ligado, no meio do jantar e não saía dali a não ser por uma inconfidência de meninos. Era feio e socialmente condenável ser fascista, ter pensamentos totalitários e sem nenhuma noção sobre a gênese social da pobreza. Eu acho que a proximidade com a II Guerra Mundial e os horrores do nazismo nos ofereciam essa possibilidade de vergonha. Alguns combatentes vivos e seus depoimentos mantinham a história viva entre nós.

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Sobre essa transmissão transgeracional de valores eu lembro da imagem de crianças de 6 anos em Topeka, no Kansas, participantes da Westboro Baptist Church que carregam cartazes tipo “God Hates Fags” (Deus Odeia Gays). Não há como uma criança odiar homossexuais por seus próprios valores ou seu entendimento das “escrituras”. Estas atitudes só podem ter sido geradas através dos pais. Assim o ódio – tanto como o amor – pode ser ensinado para as crianças desde a mais tenra idade.

Entretanto, há alguns anos vi um documentário sobre adolescentes que conseguiram se libertar do torniquete mental do fanatismo fundamentalista da família que controla esta igreja, provando com isso que as duas proposições coexistem: as frutas não caem longe das árvores, mas é possível sair de perto delas através da informação e da ampliação dos horizontes. E isso tudo munido de muita coragem. Hoje em dia essas vergonhas se foram, o horror nazista pode ser “questionado”, o darwinismo social está em alta, a perseguição às minorias está liberada, questiona-se abertamente o estado laico, Bolsonaro é “mito” e o fascismo pode, finalmente, sair da toca depois de 70 anos de hibernação.

Um comentário como o do meu amigo de infância? Sim, ontem de tarde, no bar da esquina, entre uma cerveja e uma gargalhada.

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