Vou deixar bem claro: eu acho uma profunda ingenuidade imaginar que os Conselhos de Medicina deveriam “proteger a sociedade”. Essa é uma acusação injusta a estas entidades. Um conselho é feito para proteger a CORPORAÇÃO, os médicos e suas práticas, as quais são validadas por seus pares (e não necessariamente pelas evidências científicas).
Não existe NENHUM compromisso explícito de defender a saúde da população e isso é mais do que óbvio. Afinal, você cidadão comum, em quem vai votar na próxima eleição do Conselho de Medicina? Ahhh, só os médicos votam? Então como é posível imaginar que um grupo que não aceita seu voto vai lhe representar?
Não… os conselhos de Medicina protegem a medicina, seus profissionais e seus privilégios sociais, mesmo quando sua prática é capaz de prejudicar pacientes. A cesariana é apenas um dos exemplos fáceis para demonstrar que não se pode confiar num Conselho de Medicina para tomar ações que contrariam os desejos dos médicos que, em última análise, elegem os conselheiros para representar seus desejos – e não os de seus clientes.
Por isso é importante sempre ter no horizonte que os conselhos médicos – estaduais ou federal – são órgãos corporativos e que tem como compromisso o médico e sua proteção, e não a saúde dos pacientes. Para estes objetivos é necessário criar outros representantes ou modificar o MS para que este possa trabalhar de forma efetiva na defesa dos pacientes e suas questões. Talvez esteja no horizonte a “Ordem dos Doentes”, uma organização criada para a defesa dos pacientes em todas as instâncias e que, em inúmeras circunstâncias, vai se opor diametralmente à “ordem dos médicos” na defesa dos seus interesses.
Não é justo cobrar dos Conselhos de Medicina algo que eles não tem obrigação de fazer, mas também é ingenuidade acreditar que eles trabalham por você ou por sua saúde.
Se é verdade que “os cabelos brancos são bonitos, mas são tristes” eu vou mais além e digo que a velhice é bela porém lúgubre, e a nostalgia nada mais é do que a saudade de um mundo menos belo, mas cuja esperança o tornava mais feliz. A tristeza da velhice é a desilusão; a alegria da juventude é imponência das fantasias.
Carolina de Mont’Alverne, “Manuscritos da Guerra”, Ed. Shapiro, pág 135
Carolina Amaral de Mont´Alverne é uma poetisa maranhense, nascida em Imperatriz em 1950. Alfabetizou-se aos 18 anos de idade através do Mobral – Movimento Brasileiro de Alfabetização – tendo concluído o ciclo secundário com a idade de 25 anos através do “Artigo 99”. Entrou para a faculdade de Letras logo a seguir e começou a escrever poesias assim que tomou controle das letras e das palavras. Publicou seu primeiro livro de poesia chamado “Vitupério” através de uma produção caseira, com mimeógrafo e “stencil”, distribuindo as cópias entre amigos, colegas e professores. Depois foi convidada a participar de coletâneas com escritores iniciantes até que pôde lançar seu primeiro livro oficial, “Imperoza” em que apresenta sua poesia romântica entrelaçada com o ambiente semiárido de sua região e sobre a Reserva Biológica do Gurupi, o que restou da mata Atlântica no Maranhão. Escreveu “Manuscritos da Guerra” como uma série de poesias sobre a fome, a falta de recursos, o abandono e os preconceitos de classe com as populações do interior do nordeste. Mora em São Luis, é casada e tem 4 filhos.
O atraso no debate sobre direitos humanos, nossa larga historia de violações e abusos contra minorias e o desprezo sistemático pela democracia são o adubo que explica o crescimento de figuras públicas que defendem cesarianas neste país – que já é um recordista em seu abuso.
Na Nova Zelândia 100% dos nascimentos contam com a presença de uma parteira, inclusive nas cesarianas – que não passam de 20% – onde elas permanecem ao lado oferecendo apoio às gestantes. Todo o sistema é centralizado na figura da parteira profissional. Ela é a soberana nos partos, mas os médicos estão sempre à disposição quando seu trabalho se torna necessário.
Nestes contextos uma deputada defendendo a liberalidade no uso das cesarianas – com o apoio de boa parte da corporação médica – seria visto como uma aberração, um desrespeito com as mulheres e seus corpos e uma violência contra um sistema baseado em evidências científicas e o protagonismo feminino no parto.
Para mudar nosso sistema perverso, comecemos por informar e educar as mulheres, para que suas escolhas reflitam o que é melhor para elas e seus bebês, e não para aqueles que – autoritariamente – desejam controlar seus corpos e suas decisões.
Autoridades afirmam que o medo é fator preponderante que leva medicos e pacientes a uma escalada inusitada de (ab)uso de medicamentos, em geral não direcionados à cura, mas para controlar doenças crônicas e mitigar o sofrimento.
Esse medo, ao contrário do que pensam aqueles que acreditam na fragilidade essencial humana, é uma construção social que tem como objetivo o controle e a dominação por parte das corporações diretamente beneficiadas por ele.
Ainda parecemos muito reticentes em apontar a origem dessa distopia. Fazemos rodeios, elogiamos os “bons remédios”, criticamos apenas o que nos parecem ser abusos e parecemos fugir da verdade que nos incomoda. Titubeamos ao falar que, por trás dessa tragédia medicamentosa, está o capitalismo, que faz da doença uma fonte inesgotável de clientes e do medo sua mais eficiente estratégia de captação.
Enquanto a doença for fonte de lucros estratosféricos a medicalização da sociedade será uma realidade inexorável. Para cada desassossego com o estilo de vida consumista e competitivo que vivemos mais uma pílula salvadora será lançada. As revistas semanais vão continuar a nos inundar com as promessas da “cura do câncer que se aproxima”; os novos brinquedos tecnológicos que nos vasculham as entranhas continuarão a mostrar o que desejamos ver e as injeções vão aumentar nossa potência sexual, sem contudo mexer no desejo que se esvai na coisificação biologizante do sexo.
Assim, continuaremos na ilusão de descobrir a cura fora de nós, sem nós e a despeito de nós. Para cada angústia nova mais um entorpecente, um estupefaciente ou um analgésico. E as dores que deveras sentimos continuarão no lado escuro da rua, junto com a chave que não queremos encontrar.
Aos 5 anos de idade eu caminhava na rua Salgado Filho quando vi uma banca de jornais que vendia loterias. Olhei os números recheados de zeros no prêmio estampado e perguntei para o gigante que segurava minha mão:
– Pai, por que não compra um bilhete da loteria? Se você ganhar podemos ficar ricos e comprar qualquer coisa que quisermos.
Ele continuou andando firme e olhando para frente e me disse, do jeito sisudo e objetivo que sempre o caracterizou:
– Só acredito em dinheiro que foi ganho através do trabalho. Esse aí pode ser legal, mas é imoral.
É desses pequenos fragmentos dispersos que somos constituídos. Obrigado, pai, por essa lembrança.
Mais de uma vez escrevi sobre a questão dos “domínios” nos âmbitos familiares, que sempre me pareceram tão importante quanto o desejo real de participação. Mas num universo onde os homens são sempre culpados, como questionar este ponto importante? O caminho mais fácil é sempre o maniqueísmo…
A perspectiva contemporânea que aborda de forma mais equilibrada os espaços de conflito nas tarefas do lar é um sopro de frescor na aridez dos embates acusatórios. Ainda hoje reconheço como padrão a prática de acusar os homens de não participarem das tarefas domésticas e da educação dos filhos. Apesar de ser uma queixa verdadeira, ela deixa de apresentar outras facetas da realidade que são, via de regra, negligenciadas.
Uma das questões pouco abordadas é o que chamo de “domínios”. Eles se referem aos espaços de controle e saber reconhecidos, confinados a um gênero. É esse tipo de controle que faz muitos homens levantarem para ver um barulho estranho na porta dos fundos, abrirem o capô do carro para ver o defeito ou pegarem a chave do carro quando a família vai sair. O mesmo que faz as mulheres decidirem de forma autocrática a comida, as roupas e o tipo de educação dos filhos. São domínios culturalmente construídos dentro do patriarcado, mas que apenas enxergamos quando somos vítimas, não quando estamis na posição de opressores.
Muitos homens – e mulheres – se adaptam a essas construções milenares – por comodismo ou cansaço – mas muitos começam a questionar tais posições. Por que não posso (homem) arrumar – ou escolher – a roupa do meu filho? Por que não posso (mulher) dirigir o carro quando a família sai? Por que não posso (homem) decidir a comida que todos vamos comer? Por que não posso (mulher) trocar o pneu do carro ou fazer tarefas mais pesadas da casa?
Para haver equilíbrio é necessário que todos aceitem as mudanças e concordem com as inevitáveis concessões. Homens precisam ter o direito de participar dessas decisões sem o martírio das críticas e sem o peso do escárnio de suas companheiras que se sentem invadidas em seus domínios. As mulheres também precisam ter o direito de “invadir” as funções historicamente assumidas por homens sem sofrer com o deboche e o desprezo que estes oferecem como resposta ao que sentem como a tomada de um lugar cativo que lhes era destinado.
Os domínios antigos estão paulatinamente ruindo. Creio que o desmanche os limites pode ser celebrado como uma nova era de colaboração. Todavia, para que isso ocorra é preciso que a desconstrução de modelos ancestrais seja um exercício constante para os homens e também para as mulheres.
“Enquanto as Mães da Praça de Maio são um exemplo de cidadania e luta por justiça, nossas Mães da Praça do Rosário são um exemplo de intolerância e atraso. Que diferença.”
Ao ver as mães reacionárias fazendo passeata na frente do Rosário, escola da elite branca de Porto Alegre por que não me surpreendo?? “Mais cristianismo e menos doutrinação” dizia um dos cartazes. É essa elite branca alienada que merece ser varrida pela história.
“Marista sim, marxista não”. Tem como esse pessoal ser mais ridículo???
Há muito me desiludi com os espíritas, não com o espiritismo e sua idéia renovadora centrada na mediunidade e na reencarnação. Infelizmente os espíritas via de regra cursam o mesmo caminho moralista dos evangélicos e outras denominações. Possuem um desprezo explícito pelas raízes sociais da pobreza e cultivam um discurso meritocrático ao estilo “é pobre porque na vida passada foi rico e não teve compaixão“. Acreditam que as “leis do karma” se sobrepõem às experiências explícitas de desigualdade que testemunham no seu cotidiano. Acreditam na desigualdade e na exploração como experiências que não nos cabem interferir, sob pena de interferir nas leis divinas de causa e efeito
Ora, que profunda tolice!! Quanto desprezo pelas forças sociais que condenam grandes massas à exploração ao arbítrio dos poderosos. O espiritismo – por sua origem intelectual, europeia e progressista – poderia ter sido a grande força renovadora das religiões no Brasil, mas se manteve como uma seita evangélica carola e conservadora. Uma pena.
Repito o que já disse: só as religiões de matriz africana, por conterem a massa de pobres e negros da nossa sociedade, têm a potencialidade de reverter a má imagem criada pelas religiões neste país. Só elas – e uma parcela minoritária dos católicos – tem massa crítica suficiente para produzir mudanças no cenário de desigualdade no Brasil.
O resto cultiva a compaixão burguesa mais rasteira e inócua.
Sim, eu me desiludi com os espíritas. Isso não é uma acusação; é uma confissão. Para se desiludir é necessário, primeiro, se iludir. Mea culpa, mea máxima culpa…
Em relação à postura política os espíritas são decepcionantes. Certamente que há espíritas de vanguarda e politicamente bem posicionados, mas são exceção. A imensa maioria é composta de conservadores e entre eles um grupo claramente reacionário. As palmas à manifestação absurda e subserviente de Divaldo Franco para com Moro e a “República de Curitiba” (sic) em Goiás são inquestionáveis e demonstram o apoio majoritário dos espíritas às vertentes mais atrasadas e punitivistas do judiciário e à direita no espectro da política nacional.
Sim, nem todos os espíritas são reacionários, e alguns deles são bem explícitos com suas posições políticas. Entretanto, estes espíritas de esquerda são a minoria e não representam o conjunto desse movimento. São exceção dentro de um quadro de conservadorismo, elitismo e preconceito com os movimentos sociais. É muito difícil encontrar um espírita que não seja antipetê, coxinha, apoiador da Lava Jato e que se dedica a atacar Lula.
Sim, até mesmo a reencarnação – como forma de entender as idiossincrasias do mundo – é usada de forma simplista pela maioria dos espíritas e por isso mesmo merece ser criticada. Por esta razão citei a frase que tanto escutei durante a minha vida e que revela esse primarismo. Olhar para a reencarnação e não enxergar a iniquidade fomentada pelo capitalismo é outro absurdo conservador do movimento espírita.
E para finalizar, dá para generalizar, sim. Como movimento o espiritismo é socialmente retrógrado e conservador. É moralista e crítico aos avanços sociais, de forma evidente no que diz respeito à sexualidade – em especial ao universo LGBT. Politicamente é de centro direita e se aproxima da direita clássica. Raros espíritas são progressistas ou de esquerda. Boto mesmo essa gente toda no mesmo barco, pois essa é a imagem que seus líderes difundem desde sempre, de Chico Xavier a Divaldo, passando pela FEB e por inúmeros palestrantes que cruzam o Brasil oferecendo esta postura política de forma explícita ou nas entrelinhas.
Em suma, mesmo sabendo de notáveis espíritas de esquerda – tivemos um espírita Ministro da Saúde de Dilma – ainda assim a imagem do espiritismo é conservadora e moralista, muito semelhante à percepção que tenho do movimento evangélico no Brasil.
Os espíritas estão mais próximos de Malafaia do que de Francisco.
Há algumas semanas debati com um ex-amigo de Facebook sobre seu conceito de compaixão. Eu dizia que sua distopia anti estado colocaria qualquer nação em um estágio pré-civilizatório e ele respondia que isso jamais aconteceria porque os ricos teriam “compaixão” pelos pobres e os ajudariam diante das suas necessidades.
Hoje escutei um fragmento da entrevista do Zé Dirceu (“não tenho provas, mas a literatura me permite”) ao Nassif onde ele falava do seu encontro com Bush e Condoleeza Rice onde estes falavam de sua profunda admiração por Lula, mas pediam que o PT abandonasse a ideia de equidade e distribuição de renda como objetivo máximo do governo. Arremataram dizendo: “Para os pobres devemos reservar nossa compaixão”. Não é à toa que a compaixão era o tema do meu ex-amigo neoliberal e seus parceiros de ideologia do norte. A compaixão é um artifício para manter as castas sociais intocadas. Ao invés de justiça, “genuína” comiseração.
Na nossa sociedade existem muitas madames da sociedade que devotam tempo e dinheiro em obras sociais. Uma vez almocei com um grupo delas em uma creche onde atendia. Enquanto ofereciam alimentos e brinquedos para as crianças, não se furtavam a fazer comentários depreciativos e racistas. Eram, obviamente, contrárias ao presidente Lula (o presidente na época) e insistiam em chamá-lo de incompetente, ladrão e bêbado. Ficou para mim o perfeito exemplo da compaixão brasileira. A mulher racista, classe média alta, arrogante e pretensiosa que devotava algum tempo para os miseráveis para assim aplacar sua culpa, criando a ilusão de ter feito algo pelos “desfavorecidos”.
É o mesmo caso do pequeno empresário que se veste de papai Noel e distribui balas para as crianças no fim do ano, para desta forma diminuir o peso de tantas falcatruas cometidas. A compaixão burguesa é esse ato de ajudar os pobres para que eles se mantenham vivos e pobres, sempre à disposição.
Eu me acostumei a ouvir a acusação de “radical” por muitos anos. Na verdade este radicalismo que tanto eu ouvia como ofensa e com dedos rígidos apontados se resumia apenas a… cumprir a lei. Chamar de radical é uma forma usual de acusar o outro para desobrigar-se de fazer o que é certo. Assim quando você acha uma carteira na rua e se esforça para achar o dono e alguém lhe diz, constrangido pela sua atitude: “Ora, não precisa ser tão radical; achado não é roubado”...
… é sim; não existe “meia-ética”, e jamais será abusivo tratar com respeito aqueles com quem se divide essa curta estrada chamada vida.
Mary Lemont Ashcroft, “Pictures in Exhibition”, Ed. ELP, pág. 135
Mary Lemon Ashcroft é uma professora de direito em Yale Nasceu em Siracusa, USA e durante muitos anos exerceu sua profissão na famosa banca de advogados Cohen, Weisberg and Ashcrof. Nestes anos dedicou-se a muitas causas sociais, como o movimento “pro-choice” – pelo direito ao aborto legal – pelos direitos dos negros e o “Black Lives Matter” e igualmente pela defesa das pessoas trans. Suas experiências com os movimentos sociais americanos a estimularam a escrever “Pictures in Exhibition”, que mostra um mapa do preconceito sexual, étnico e de orientação sexual nos Estados Unidos através das inúmeras histórias reais retratadas no livro. É casada com Peter Ascroft, igualmente advogado e que serviu como consultor do governo democrata de Bill Clinton. Mora em Siracusa e tem dois filhos.