Mitos médicos

Como barrar um exame ritualístico que foi incorporado ao imaginário popular nas últimas três décadas? O sucesso das ultrasonografias ocorreu de forma avassaladora mesmo sem ter jamais comprovado seu impacto positivo sobre o parto, tanto para as mães quanto para seus bebês. Poderíamos chamar de “um case de sucesso“.

Entretanto, por agir sobre os mistérios que envolvem o amnionauta, jogando luz sobre as capas de escuridão que o envolvem, esse exame assumiu uma posição tão primordial quanto imerecida no cenário do pré-natal.

De lição nos resta o fato de que a medicina não se move por descobertas que vão imprimir qualidade e segurança aos pacientes, mas pelas mesmas regras que movem o capitalismo e o mercado. Muitas luzes e propaganda, quase nada de efeito real.

O que realmente tem valor no pré-natal é o contato, a vigilância sobre os possiveis desvios, o vínculo, poucos exames e medicamentos e uma atitude de confiança e positividade sobre o parto. Todavia, estas não são coisas que podem ser facilmente embrulhadas, colocadas em uma prateleira e vendidas aos clientes.

Veja aqui https://midwiferytoday.com/mt-articles/prenatal-ultrasound-does-not-improve-perinatal-outcomes/ os resultados das pesquisas sobre o uso de ecografias na gestação. 

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Militares

Minha experiência de seis anos como militar serviu para sacramentar a minha visão da caserna.

No tempo que fui militar vi colegas meus, militares médicos (anestesista), se aposentando com 43 ANOS. O ministro astronauta (aquele brutal desperdício de recursos para passear em foguete) se aposentou bem antes dos 50. As forças armadas são cheias de pequenas falcatruas institucionais, essa é uma realidade de longa data. Não sei como isso é hoje, mas fui militar há 30 anos e achava inacreditáveis os desvios LEGAIS atuando em benefício dos militares. Não esqueçam que o pagamento do imposto de renda só passou a acontecer a partir de 1964.

Vou citar alguns exemplos do que vivenciei:

Naquela época você tinha direito a pedir adiantamento de 13o salário. A medida era para auxiliar no pagamento de dívidas ou estimular o consumo. Se você ganhasse 1000 dinheiros mensais podia tirar 500, metade do seu salário. Todo mundo fazia, e eu não entendia exatamente o porquê. A verdade era simples quando lembramos que tínhamos inflação se 80% ao mês no tempo do Sarney. Você tirava 500 em junho e no fim do ano ganhava o 13o menos os 500 que tirou antes. Só que o salário já não era mais mil, mas 5 mil ou mais, e você ganhava 4.500!!! Sim, 5 mil de salário menos os 500 já recebidos. O desconto era NOMINAL e não percentual!!!. Isso oferecia quase um salário a mais por ano!!! (Bem verdade que naquela época meu salário de tenente médico chegou a ser 500 dólares mensais).

As transferências “fantasma” pré aposentadoria eram comédia. Umas poucas semanas antes de ir para a reserva – com menos de 50 anos – os militares eram transferidos para onde o diabo perdeu as botas. Recebiam auxílio transporte, mudança, auxílio uniforme, passagens e o escambau. Chegavam na unidade, se apresentavam ao comandante e avisavam que estavam entrando para a reserva. Toda a manobra – conhecida por qualquer militar – era para garantir uma boa grana extra “falsificando” uma transferência para ganhar as indenizações. Tudo legal, e tudo absolutamente imoral, tipo auxílio moradia de juiz com casa(s) própria(s).

No hospital da Policia Militar da minha cidade, onde atendi como civil há mais de 25 anos, eu não tinha salário, mas atendia pacientes do IPE (previdência dos funcionários do Estado) e recebia direto da instituição através de uma lista de atendimentos. Entretanto, os médicos militares do hospital atendiam estes mesmos pacientes em seu horário de trabalho e recebiam DUPLAMENTE – do IPE e pelos seus salários. A direção do hospital sabia, o Instituto sabia, todo mundo conhecia essa malandragem, mas ninguém tinha coragem de denunciar essa falcatrua e se indispor com a Polícia Militar e com a corporação médica. Havia boa razões para o silêncio: afinal, quem julgaria este caso? Um juiz que ganha penduricalhos também!!! Portanto, era caso perdido….

Militares são tão honestos quanto qualquer outro cidadão, e tão desonestos quanto todos nós. Não há diferenças morais e éticas, mas são poderosos (como médicos e juízes) e em nome desse poder (e não do seu valor ou do trabalho) acabam recebendo vantagens indevidas, imorais e injustas, mesmo quando legais. Assim como juízes ou médicos. A aposentadoria dos militares, mesmo que reconheçamos algumas peculiaridades menores, deve ser como a aposentadoria de TODO O BRASILEIRO. Sem castas especiais.

Eu não creio que as Forças Armadas sejam o Mal sobre a terra. Conheci militares íntegros, dignos, honestos e dedicados. O mesmo digo de médicos e magistrados. O que eu não aceito é o abuso de poder – em especial dessas categorias – que se expressa através de penduricalhos de toda ordem para garantir vantagens legais sobre as outras categorias, como se a proteção das fronteiras do país, a justiça e a saúde fossem atividades mais nobres e necessárias do que alimentar, educar, cuidar ou garantir a segurança interna da nação. As vantagens absurdas do judiciário, e algumas das forças armadas, existem apenas pela ameaça dessas corporações de produzir retaliações. O judiciário contra o legislativo (como agora na Lava Jato) e as forças armadas pela ameaça constante de golpe e ruptura democrática (como ficou claro nas ameaças do general no dia anterior ao julgamento de Lula).

Militares fora da reforma da previdência é mais um capítulo do golpe militar “branco” que estamos vivendo no Brasil .

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Quotas

Fernandinho Feriado, vereador negro e gay de SP, quer acabar com cotas para negros em concursos públicos para a prefeitura. Ele é um opositor ferrenho das cotas raciais em todos os níveis. Chama esse processo de coitadismo e vitimismo e usa a si mesmo como exemplo de meritocracia. “Se eu venci sendo negro, qualquer um consegue“.

Eu pergunto: quem seria a favor da discriminação? Se nascemos iguais deveríamos todos ser tratados iguais, certo? Portanto, seria justo pensar que qualquer sujeito que acredita que “somos todos iguais perante a lei” defenderia o fim das cotas raciais e sociais (positivamente) discriminatórias.

Verdade. Todavia, o fim das cotas não é a questão, mas quando. Eu mesmo serei o primeiro a festejar o fim das cotas quando elas não forem mais úteis e necessárias para acelerar o processo de equidade, e não precisemos mais dessa ferramenta para tapar o fosso que separa brancos e negros surgido com quase 400 anos de escravidão. Da mesma forma, quando tivermos uma sociedade economicamente mais equilibrada não quero mais que sejam oferecidas vagas sociais para pobres. Que todos lutem por seu espaço com igualdade de condições.

Enquanto houver racismo e a brutal iniqüidade social que separa os brasileiros em castas o dispensável não são as cotas, mas os capitães do mato que tanto a criticam.

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Atitude

Afinal, onde está a humanização? Será ela um protocolo, uma rotina, uma série de regras a seguir? Ou estará ela no espaço que separa as palavras e nas finas camadas etéreas que separam nossos olhares? Que corpo tem uma ideia que se expressa muito mais pelos silêncios do que pelos discursos?

Diante da criação de espaços para a atenção ao parto altamente sofisticados nos Estados Unidos, creio que se impõe uma análise  sobre os significados e perspectivas da criação destes Centros de Atenção ao Parto caro e acessíveis a uma fatia muito pequena da sociedade. Por certo que não acho errado a existência desses lugares, mas acho perigosa a relação que se pode estabelecer entre parto humanizado e “sofisticação de ambiência” tornando esse produto algo que apenas pessoas abastadas podem pagar; como se dignidade, respeito e atenção às evidencias cientificas fossem artigos de luxo, muito caros, cuja aquisição seria reservada apenas às elites econômicas de uma localidade. Este é um risco que precisa ser entendido e assimilado.

Há 32 anos quando comecei a atender partos pela perspectiva da humanização a ideia era outra: só teria condições de se submeter a um parto humanizado – de cócoras – quem tivesse “preparo”. Físico, sim, como se o parto fosse um desafio atlético para poucas mulheres determinadas e preparadas com denodo. “Eu queria muito parto humanizado (SQN), mas não tive como me preparar“. Lorota. O preparo para o parto emergia como a desculpa ideal para a desistência do projeto de um parto onde a mulher era protagonista. A alienação sempre é muito sedutora.

Essa foi uma das razões para começar a fotografar partos. Minhas primeiras fotografias – com maquininha Kodak – foram tiradas em hospitais do SUS de periferia, sem banqueta, sem mesa elétrica de parto, sem doula, sem óleos e essências, sem glamour, sem nada de sofisticado, apenas eu e alguém para escorar a paciente por trás, no chão da sala forrado de campos limpos sobre um colchonete.

Sim, a gourmetização é um risco ali na esquina e precisamos estar atentos à sedução que ela nos apresenta. Por outro lado, oferecer o melhor ambiente possível para o mais importante momento é um esforço que sempre vale a pena. Todavia, se é verdade que um atendimento humanizado pode ocorrer em qualquer lugar, por outro lado a humanização não exclui ambiência; só não pode se reduzir a ela

Podemos concordar que não é o óleo, o incenso, a banqueta, os quadros na parede, a música ou a parafina que se situam no centro da humanização, e não seria a sua presença o que caracterizaria uma atenção humanizada. Esta, nas palavras de Robbie, se constitui em uma ATITUDE onde os recursos externos – dos óleos essenciais às suítes de luxo – desempenham tão somente papel secundário. O cerne da humanização está no olhar de quem ajuda.

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Preconceitos

A publicidade que foi dada ao escritor medíocre que afirmou não gostar de sexo com mulheres de mais de 50 anos é muito mais chamativa do que sua frase tosca e provocativa. Primeiro, vamos deixar claro que seus gostos pessoais não podem ser julgados; seus conceitos generalizantes, sim, mas este é um outro assunto. Eu, por acaso, acho as mulheres de 50 esplendorosas, mas esta é uma visão subjetiva sobre a qual não cabe julgamento.

Entretanto, ficou muito curiosa a reação a esta afirmação grosseira. Homens e mulheres (em geral coroas como eu) indignados com a manifestação o chamaram de “feio”, “horroroso” e de “maracujá de gaveta” (uma mistura de velho, feio e enrugado). Pergunto: por acaso preconceito com a idade é pior que preconceito com feiúra alheia? A resposta ao preconceito dele foi uma chuva de…. preconceitos. Eu, como feio, me senti ofendido por tabela. Não somos nós também dignos de receber amor?

Esse escritor completamente desconhecido conseguiu, através dessa estratégia de marketing, fazer como o assassino na cena final de Se7en: obrigar os outros a mostrar o mal que tem dentro de si mesmos, mas que só enxergam nos outros.

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Venezuela

Pois eu pergunto se a eleição do partido do presidente Maduro, nas repetidas consultas populares, por acaso não é democrática? Qual o sentido em desmerecer os pleitos realizados durante o período que se inicia com Chavez? Nesta última eleição mais de 200 observadores internacionais convidados participaram da fiscalização e garantiram a justeza do resultado. Por que insistimos em questionar a voz das urnas?

Por que não reconhecer o óbvio: os lobos do capitalismo querem o petróleo da Venezuela – a maior reserva do planeta – e que tudo o que está acontecendo é, de um lado, uma tentativa de rapina desse tesouro e, por outro lado, o desejo do povo organizado de defender sua soberania. Acha mesmo que os relatos da imprensa brasileira (a mesma que esta semana esquece Queiroz e põe uma suposta amante de Lula na capa da IstoÉ) e relatos isolados podem nos informar o que está verdadeiramente ocorrendo? Por que nunca chamamos os chefes de Estado da Arábia de “ditadores sanguinários”, mas sim o presidente da Venezuela, o qual foi ELEITO DEMOCRATICAMENTE?

A solução é voltar ao modelo entreguista pré-Chavez? Ou realizar eleições? Quem sabe propor uma constituinte? Opsss, tudo isso a revolução já fez. E o povo organizado votou por manter os ideais da revolução bolivariana. Ou não?

É óbvio que existem erros e excessos na Venezuela, ninguem tem dúvida sobre isso, mas também havia na Inglaterra durante a guerra contra o eixo. As eleições foram abolidas nesse período mas ninguém ousa chamar Churchill de “ditador”, não?

Pois o presidente da Venezuela sofreu um atentado há algumas semanas!! O presidente americano deixou claro que uma solução bélica está sendo estudada. O Brasil acena com uma base americana nessa fronteira e o “nosso” “presidente” diz que fará tudo para derrubar o governo de Maduro. O país está sendo ameaçado interna e externamente. A Venezuela está sob embargo americano, como Cuba. Acha que é hora de republicanismo? Churchill não entrou nessa, por que Maduro entraria?

Por que podemos dizer que o que estamos vendo nas repetidas eleições de Maduro não é exatamente a resistência da sociedade civil contra a ameaça de golpe com a finalidade de se apoderar das reservas de petróleo? Será que os exemplos da Líbia, da Síria e do Iraque não tem NADA A NOS ENSINAR? Não dá para perceber o MESMO ROTEIRO de fomentar uma dissidência interna, desestabilizar o país, criar milícias e guerras campais, manifestações violentas nas ruas e forçar uma queda do governo colocando um testa de ferro pró americano? Olhe como aconteceu no Oriente médio!!!! Só não aconteceu na Síria pela intervenção russa, e o mesmo se desenha agora na Venezuela. A Venezuela resiste a uma invasão!!!!!

A resposta seria como? Sendo republicano e democrático como foi o PT, permitindo o aparelhamento do judiciário pela pior corja de juízes que já tivemos? Aceitando o julgamento falso de Lula que o impediu de ser democraticamente eleito? Ou deveriam os venezuelanos ir às ruas, apoiar o projeto nacionalista de Maduro pela garantia da autonomia do país, mesmo correndo o risco de cometer abusos e exageros?

E o PT? Deveria se associar à Colômbia, Brasil, EUA e Argentina – dominados por governos alinhados aos americanos – ou defender a DEMOCRACIA que elegeu Maduro, a mesma que nos faltou para eleger Lula?

Estou fazendo perguntas porque não sou venezuelano e não tenho todas as respostas. Apenas acho que a condenação peremptória do governo da revolução bolivariana pelo filtro que recebemos da imprensa golpista – um lixo insuperável no mundo inteiro – não me parece justo.

Quer saber o que é a Venezuela hoje, sob ameaça constante de ataques internos e externos? É o Brasil se Haddad tivesse vencido. Se você fosse venezuelana seria correto condenar o governo do PT e de Haddad se tudo que soubesse do Brasil fosse pelas capas da Veja e da IstoÉ? Pense nisso….

Gostaria que os democratas me dessem soluções para a crise da Venezuela. Com todo o respeito, informes anedóticos não me tocam, em especial de gente da classe média que saiu de lá. Precisa mais consistência e abrangência para me convencer. A crise de lá é terrível, disso não há dúvida alguma, mas alguém me explique por qual via um golpe de Estado patrocinado pelos americanos ávidos por petróleo poderia melhorar a situação. Como? O Iraque melhorou? A Síria melhorou? Como está a Líbia e seu petróleo agora? Nas mãos de quem? Podemos acreditar na imprensa que descrevia Gaddafi – nacionalista – como o diabo sanguinário encarnado? Ou podemos aprender que tudo isto é PROPAGANDA GOLPISTA?

E por último, descrever a “opulência” da vida do ditador – que foi visto num restaurante chique numa visita oficial – é uma estratégia absurda que foi usada contra Castro e contra Lula milhares de vezes. Isso é apenas baixaria e fofoca.

Quero soluções que passem pela democracia e pela proteção da autonomia e da soberania do país. Quem tem?

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Os Tempos e as Dores

Certo que perdemos muito tempo antes de empreender um tratamento para nossos dramas psíquicos. Certo também que sempre lamentamos não ter começado a resolvê-los antes de se agravarem. Não há como fugir dessa culpa. Todavia, todo aquele que consegue resolver seus problemas numa roda de cerveja é porque realmente não estava “pronto” para procurar uma psicóloga para auxiliá-lo na busca das origens profundas de suas angústias.

A mesma lógica eu usaria para o sujeito que quer colocar um quadro na parede ou fazer uma mudança na casa que se limitava a trocar os móveis de posição. Nesse caso não era necessário um arquiteto ou engenheiro. Pela simplicidade do problemas, soluções simples. Posso oferecer mil exemplos com médicos, advogados, cozinheiros e decoradores com este mesmo raciocínio.

Minha tese é que para procurar uma analista – e vou me deter na análise – é necessário ter passado por estes passos intermediários sem sucesso, como um processo lento de maturação. Comprar roupas, trocar de namorado(a), rezar, viajar, emagrecer, fazer cirurgia plástica, mudar de emprego etc. são ações que podem aplacar a sua angústia, caso esta seja superficial e conjuntural. Entretanto, depois que todas estas atitudes foram tomadas e o vácuo na alma ainda estiver presente e a dor ainda persistir, somente aí teremos o momento adequado de procurar uma análise. Antes disso o sofrimento imposto pelo tratamento psicanalítico será muito penoso e provavelmente intolerável.

Assim sendo, não há como procurar tais recursos sem um quinhão adequado de neurose. A curiosidade ou a “vontade de resolver alguns problemas” não são motivações suficientemente fortes para empreender tal aventura nos domínios do inconsciente.

” And,of course, there’s the financial problem of people who really need and want a psychological help but that such a thing is not available, or is too expensive so that the regular person cannot afford it. Certainly, millions would get relief for their pains and suffering if we offer them adequate psychological treatment instead of giving the false idea that consumerism is the ultimate path to happiness.”

Portanto, não se culpe por ter retardado por tanto tempo sua procura por uma ajuda mais profunda. As borboletas nos ensinam que sair do casulo demanda uma espera para secar as asas. Se ela se apressar, cai sob o peso das asas molhadas. Para nós, o tempo para amadurecer o mergulho no inconsciente é o exato tempo de aceitar a dor como ferramenta de crescimento.

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Rituais médicos

Quando vejo protocolos de utilização de ultrasonografias durante a gestação, em especial escritos por médicos com especialização em medicina fetal ou imagem, eu sempre desconfio que as recomendações partem de um profissional com um viés absolutamente desviado por sua formação. Em verdade, a introducao (ou manutenção) de uma tecnologia qualquer aplicada à gestação deveria partir de um ponto bem específico: demonstrar quais as referências bibliográficas que justificam seu uso de rotina em gestações de baixo risco e o impacto que elas produzem no bem estar materno e fetal. Isto é: quantas vidas de mães e bebês salvamos com a introdução desses procedimentos e quantos problemas são evitados NA PRÁTICA (e não teoricamente) com sua realização rotineira.

Apenas acho importante lembrar que não cabe a mim trazer evidências sobre a falta de benefícios como exames ou cirurgias. No caso das ecografias, aqueles que modificam o status quo é que precisam comprovar que uma tecnologia tremendamente dispendiosa e potencialmente arriscada produz inequívocos benefícios às mães e seus bebês. Isto é: há 30 anos que aguardo pacientemente os trabalhos comprovando que as ultrassonografias utilizadas de rotina na gestação produzem incremento na qualidade do pré natal e que se refletem numa melhoria das condições de mães e bebês. Minha preocupação durante estas décadas de convívio com esse exame foi que sua aplicação cria uma série de expectativas, receios, angústias, custos elevados e alienação na relação mãe bebê (que passa a se estabelecer com um intermediário tecnólogico) sem jamais ter comprovado impacto positivo na saúde de ambos.

A pergunta é bem simples: se um ato divino (ou demoníaco) exterminasse de uma só vez todas as máquinas de fazer “beep” ultrassonográficas, qual seria o resultado para a saúde dos envolvidos depois de um período de, digamos, um ano? Sabemos que a saúde (financeira) dos Sr Siemens e do Sr Toshiba melhoram muito com esse exame, e que uma gigantesca corporação de profissionais de diagnóstico por imagem vivem da aplicação desse exame, mas…. é para o bem estar deles que existe a medicina e a tecnologia usada em seu nome? Ou é para impactar positivamente a saúde dos pacientes? Pois os estudos sté hoje realizados nos mostram que o impacto é…. ZERO.

Enquanto não for provado que ecografias produzem efeito positivo usadas rotineiramente todas as pacientes deveriam ser informadas de sua inutilidade e potencial risco, até que alguma novidade sobre o tema surja mostrando uma marcada melhora nos resultados.

Todavía, o que continuo achando interessante debater, e o fiz nos mais de 30 anos de clínica obstétrica, é como tratar um fenômeno social (como a ecografia) que não possui benefícios médicos, mas atinge em cheio o imaginário social sobre a gravidez. Ao meu ver deveria ser uma abordagem restritiva semelhante àquela adotada com a postectomia (circuncisão) a tonsilectomia (retirada de amígdalas) e a episiotomia (corte vaginal na vulva durante o parto), que são todas cirurgias ritualisticas e mutilatórias da medicina ocidental (para diferençar da circuncisão feminina, a clitoridectomia, que é oriental) que não tem base científica que sustente sua aplicação mas cujo uso é regulado pelos mitos que as cercam. Todas elas são realizadas em momentos cruciais (nascimento, adolescência e parto) como marcadores de passagens psíquicas relevantes.

As ecografias funcionam da mesma forma, como um “passaporte” oferecido pelo “oficial obstétrico” que representa a ordem médica e o controle sobre o corpo. Funciona como o Rx nos aeroportos, cujo fim explícito é vigiar e punir, mas no que tange ao parto nossos exames são oferecidos sob o manto encobri dor da “seguranca” e da “prevenção”.

Hoje em dia as gestantes são prisioneiras desse controle sobre suas gestações, que não lhes oferece segurança mas as mantém atreladas ao controle profissional.

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Amor, esse mistério

Ter filhos é um ato de amor e amar é da ordem do pulsional, portanto irracional. Assim, se você encontrar “razões” para ter filhos é porque não ouviu o chamado, o qual nunca lhe chegará pela racionalidade. Quem encontra razões para amar alguém não está amando de verdade, pois que este sentimento não se baseia no involucro acinzentado e racional que recobre nosso cérebro, mas nos porões cálidos, escuros e úmidos do nosso inconsciente. A razão para ter filhos está onde ela não está.

Zbigniew Andropov, ” люблю эту тайну” (Amor, esse mistério), Ed. Vogazes, pág. 135

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Da nossa inutilidade

É bem provável que os homens venham a se tornar paulatinamente desimportantes e inúteis para a reprodução. Talvez seja mesmo o que nos espera ali na esquina e é lícito imaginar que seguimos nesta direção.

Entretanto, a ciência também descobre aceleradamente meios de produzir gestações fora do útero, e a facilidade de construir um espermatozóide deve ser tão complexa quanto a de construir um óvulo. Assim sendo, a desnecessidade de mulheres na perspectiva biológica também é uma sombra no futuro. Isso sem falar nas gestações implantadas no peritônio de homens e sua subsequente suplementação hormonioterápica. “Homens-mãe” pairam sobre nosso espectro de possibilidades há muito mais tempo do que a criação de “girinos biônicos“.

Para quem acha o sexo oposto um entrave à felicidade e uma fonte inesgotavel de mágoas insolúveis, tais avanços tecnológicos poderão ser encarados como boas notícias. Para aquela “minoria” que enxerga a diversidade psíquica advinda do dimorfismo sexual uma das chaves para o nosso sucesso neste planeta, podemos antever o prenúncio do Armagedom.

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