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Inquisição

Acho triste e decepcionante ver gente da esquerda contrariada com o fim da censura explícita do Facebook. Para estas pessoas a mentira desapareceria como mágica ao silenciarmos os mentirosos, sem perceber que isso apenas garante a eles ainda mais força. Para um verdadeiro democrata, a liberdade de expressão não pode ter freios nem limites, pois sabe que a mentira só pode ser exterminada com o contraponto da verdade. Por que haveria de ser a censura solução para os enganos e a falsidade? Silenciar vozes que atrapalhavam seu projeto político é exatamente o que os militares faziam após o golpe de 64. Eu mesmo já fui banido dezenas de vezes, e sou repreendido todos os dias por denunciar os crimes sionistas na Palestina. Ou seja: a censura atinge preferencialmente aqueles que se contrapõem às normas sociais burguesas e os interesses do capitalismo global. A solução aventada há alguns anos foi a criação de agências de “checagem”, mas restava a pergunta: quem controla os controladores? O que se viu é que estas agências se tornaram braços do poder burguês, órgãos do Estado Americano e instituições financiadas por bilionários como Soros e Gates, e o resultado só poderia ser o travamento do discurso público. Neste campo, os identitários – adoradores da censura e do silenciamento – são os que estão mais furiosos, porque não conseguem verdades suficientes para contrapor as mentiras que julgam encontrar nas redes sociais. Porém, inobstante as boas intenções que algumas pessoas possam ter, a política do cancelamento e o silêncio imposto a quem expõe divergências é uma prática fascista, de quem tem medo de enfrentar a falsidade apresentando o contraditório da verdade.

Vocês não eram nascidos, mas nos anos 70 e 80 eu saí às ruas contra a censura e levei borracha no lombo por agir assim. Por esta razão dói minha alma ver a esquerda aplaudindo essa aberração. Entendam: não existe censura do bem!! Não existem silenciamentos e cancelamentos bem intencionados; o que estas ações escondem é o medo do debate, o pavor de ver ideias que não gostamos sendo espalhadas e conquistando mentes e corações.

“Ahhh, mas isso vai espalhar ideias fascistas; eles vão tomar conta das redes sociais”. Provavelmente, mas e daí? Precisamos criar um sistema de combate a este discurso através da apresentação de uma perspectiva justa da realidade, e não calando a boca dos opositores. Também é obvio que Mark Zuckerberg não tomou essa atitude por amor à verdade, mas por razões claramente econômicas. As redes sociais estavam se tornando insuportáveis. As milícias identitárias, que querem calar e processar a todos, tomaram conta das esquerdas, impedindo um debate aberto e franco. A patrulha do “politicamente correto” produziu uma geração de hipócritas que falam “é o que acho, mas você sabe que não posso dizer isso publicamente”. O Facebook estava perdendo clientes pelo nível absurdo de censura, e pela checagem fraudulenta que fazia.

A resposta só pode ser pela liberdade irrestrita para pensar e dizer, e não pela perspectiva fascista de censurar, calar e amordaçar os inconvenientes. Por acaso acham mesmo que censurar comentários estúpidos sobre sujeitos trans produz(iu) algum tipo de efeito positivo? Acham que censurar e prender os comunistas produziu o extermínio do ideário comunista? Por acaso testemunhamos o fim do comunismo ou, pelo contrário, ele saiu o fortalecido? Acreditam que censurar os fascistas vai gerar algum benefício? Os nazistas são proibidos na Alemanha e são o grupo que mais cresce!! Nazismo é proibido no Brasil e existem mais de 500 células nazistas à luz do dia. Impedir que as fascistas digam tolices sobre pessoas trans não faz – e nunca fez – nenhuma diferença. E se as razões do Zuckerberg e do Elon Musk são oportunistas e fascistas, nisso não há nenhuma novidade, mas – repito – a solução só poderá ser através do combate sistemático à perspectiva de mundo que eles defendem, e não apoiando a censura. Além disso, a censura no Facebook ataca naturalmente a esquerda, e apenas pontualmente a direita, até porque as agências de checagem são totalmente controladas pela burguesia.

Esse tipo de ingenuidade não tem mais sentido, e lamento que a esquerda embarque nesse erro de forma tão fácil. Aqueles que apoiam soluções de censura, cancelamento e silenciamento sobre opiniões a respeito de temas delicados estão sentados ao lado dos acusadores de Galileu Galilei em seu famoso julgamento em 1633. Aqueles que pagam o preço de escutar o que não querem por um debate franco e aberto em nome do progresso das ideias estarão ao lado do nobre cientista polonês, mesmo sabendo que isso poderá lhes custar prestígio e quiçá a própria vida.

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Censura

Agora o Facebook impõe a concepção imperialista de “organização terrorista”, que não está em sintonia com a visão do governo brasileiro. Essa é uma verdade cristalina que conhecemos há anos, desde o tempo em que o Facebook censurava imagens de amamentação baseado em concepções americanas de pudor, e não na forma como nós abordamos a naturalidade do aleitamento materno.

Isso é grave, porque o Facebook impõe censura a mando do governo americano através de suas instituições afiliadas, como Facebook e Google. Um país soberano não pode ser governado e regulado por legislações alheias à sua norma jurídica. É urgente que as redes sociais sejam entendidas pelo governo federal como concessões públicas, assim como acontece com as rádios e TVs, para que obedeçam às regras locais e não as regras dos seus países de origem. Terrorismo é o que fazem Israel e os Estados Unidos, matando mulheres e crianças, espalhando o terror e disseminando o horror e a destruição no mundo. Quem resiste a isso exerce o legitimo direito à vida e à dignidade.

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Quem decide por nós?

No Brasil você é proibido de defender a legalização de um partido nazista; isso está na legislação. Entretanto, a gente sabe que nossa constituição é maleável; ela pode ser suplantada pelo simples desejo de um ministro do STF, bastando para isso que ele sinta ameaçada sua perspectiva burguesa e liberal. E vejam: não se trata sequer de defender um partido nazista ou sua plataforma racista, opressora e excludente, mas simplesmente reconhecer o direito de fascistas aparecerem à luz do dia e saírem do esgoto. Pois isso, para Alexandre de Moraes, já é motivo para perseguições. Monark, o menino ancap, está sendo perseguido por querer bancar o Voltaire em terra de Xandão (*).

Por outro lado, você pode criar um partido de inspiração e financiamento sionista no Brasil de forma absolutamente livre. O sionismo é uma ideologia supremacista e colonial que já matou milhões de palestinos, direta ou indiretamente, nos últimos 75 anos. Durante o Nakba, em 1948, expulsou 750 mil palestinos de suas casas e criou um país artificial, roubando a terra dos seus moradores originais. Israel se tornou a última colônia opressora ocidental, onde só uma identidade tem plenos direitos, em detrimento de todas as outras. Estabeleceu um regime explícito de Apartheid, separando os judeus do “resto”, em especial os árabes – a população nativa do local. No último massacre, ainda em vigor, mais de 30 mil pessoas, a maioria de mulheres e crianças foram mortas. Os crimes de guerra – ataque a hospitais, aos campos de refugiados, aos médicos, enfermeiras e jornalistas, etc. – são difundidos abertamente pela Internet e pela TV, crimes escancarados, vistos por milhões de pessoas no mundo inteiro. Cinicamente matam, prendem, humilham e abusam. Apesar disso, as redes de TV e os jornais podem defender abertamente esse regime, sem sofrer qualquer admoestação por parte das instituições jurídicas.

Ou seja, o problema não é a defesa de sistemas de poder fascistas, racistas e opressivos; isso podemos ver como acontece abertamente pela defesa de um país terrorista como Israel. O drama está em quem tem o poder de discriminar o que pode ou não ser proibido. Por certo que não é o povo brasileiro, mas uma elite jurídica que determina o que pode ou não ser visto por nós. No caso brasileiro, os ministros do STF concentram esse poder, atuando por cima de todos os outros poderes; a palavra de um Xandão vale mais do que a do presidente ou mesmo do Congresso Nacional inteiro – que ao contrário daquele, foram escolhidos diretamente pelo povo.

Assim, dá para entender as razões pelas quais a extrema direita autoritária e a extrema esquerda focam no mesmo ponto: o autoritarismo do STF é perigoso. A extrema direita fascista, por certo, por questões oportunistas: eles são as vítimas de hoje, uma vez que seus líderes estão a ponto de serem encarcerados pela ação do STF. Porém, seria uma suprema ingenuidade acreditar que a extrema direita preza valores como a liberdade, se estão sempre à frente das ditaduras que destroçaram a democracia no mundo inteiro. Já para a esquerda radical a questão é mais estrutural; entende que o mesmo Alexandre que deseja “limpar” as redes sociais foi o sujeito que apoiou o golpe contra Dilma, a prisão ilegal de Lula e rasga elogios ao traidor da pátria Michel Temer sempre que pode. Portanto, Xandão está longe de ser um legalista e alguém que defende a democracia e a constituição; ele é de fato um golpista e mais um árduo defensor dos poderes burgueses. Repetindo: é possível denunciar Alexandre de Moraes como um autoritário – um sujeito colocado no poder por um traidor e que abusa do seu poder – sem ser simpático ao bilionário, drogadito, ancap, golpista que estimula e patrocina golpes na América Latina.

(*) sim, eu sei que Voltaire não disse aquela famosa frase, mas se eu colocasse o nome de sua verdadeira autora – Evelyn Beatrice Hall, biógrafa de Voltaire – ninguém iria sacar a analogia.

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Proibições

Proibir os comentários perversos e ofensivos da internet acreditando que isso possa “limpar” o ambiente das redes sociais é o mesmo que passar massa e tinta nova nas rachaduras da casa imaginando que assim ela ficará mais firme e segura. Prefiro combater os monstros no claro do que escondidos na escuridão do silêncio. A censura nunca é boa para a verdade, mas pode ser útil para quem usa a falsidade e a mentira como ferramentas. Como diria Douglas Hawthorne, “Se há uma virtude nas redes sociais esta é a capacidade de mostrar a feiura que a hipocrisia esconde“.

Admoeser Rufus, personal communication

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Silêncio

Por volta de dez anos atrás eu fui convidado a participar de uma comunidade de “blogueiros” que escreviam sobre a temática do parto e do nascimento. Na época eu já possuía meu tímido blog, que usava apenas para manter uma cópia guardada e protegida de tudo o que eu escrevia. Eu já tinha plena noção de que o meu tempo na Terra seria curto, e que poderia ser interessante manter minhas ideias resguardadas como uma espécie de “legado”, algo que poderia ser usado por alguém no futuro. Um pouco de arrogância, quem sabe…

Aceitei o convite de migrar o meu blog para esta comunidade com a ideia de que “unidos seríamos mais facilmente ouvidos”. Tinha a ideia de que uma comunidade de pessoas com temáticas próximas poderia produzir um efeito positivo de multiplicação de informações e conceitos. Sabia também que seria o único homem a escrever em um pequeno universo de mulheres, mas este tipo de posição jamais havia me inibido ou constrangido até então.

Desta forma, passei a escrever minhas ideias nesta comunidade sem muito alarde, apenas avisando às pessoas das minhas redes sociais que passaria a ter meus escritos depositados lá. Com o passar das semanas acabei gostando do compromisso de escrever, o que antes acontecia apenas quando eu achava algo interessante para relatar; a pressão de entregar uma “matéria” fez bem à minha criatividade.

O problema aconteceu exatamente por essa minha liberdade de escrever o que me interessava, sem me preocupar com a recepção positiva ou negativa que os meus textos produziam nos leitores. Uma certa vez fiz críticas a algo que, já há dez anos, começava a me incomodar: o identitarismo. Percebia nesse movimento elementos que não me pareciam adequados, em especial no que se relacionava à humanização do nascimento e a amamentação. Mais do que a defesa do parto fisiológico, seguro, com autonomia e liberdade, havia um interesse em atacar o masculino, em especial quando representado por médicos obstetras e mesmo pediatras, sempre tratados com desdém e como se fossem portadores de chagas morais a comprometer seu comportamento diante de mães e bebês. Havia um crescente maniqueísmo nas propostas, que colocava de um lado mães e bebês como vítimas e pessoas moralmente superiores, e de outro lado médicos e homens perversos que agiam condicionados por valores como o egoísmo, o interesse, o despeito e a arrogância.

Eu não podia aceitar esta visão diminutiva das relações entre médicos e pacientes, mas também, escamoteado entre as linhas, as mulheres e os homens. Quando – a exemplo do que faz até hoje a extrema direita – acreditamos que a sociedade é dividida pelos valores morais, pela decência, pelos princípios éticos e não por um sistema opressor que coordena a todos nós, produzimos o meio de cultura adequado para o crescimento de uma sociedade apartada entre “homens de bem” e “vagabundos ladrões”. Eu não aceito que isso seja feito sequer entre as distintas visões políticas, menos ainda poderia aceitar que essa divisão exista entre os gêneros.

Médicos são, via de regra, espelhos dos valores sociais. Médicos fazem no seu mister diário aquilo que a sociedade espera deles. O mesmo se pode dizer da polícia, que age de forma violenta e abusiva porque assim o queremos – mesmo que de forma inconsciente e/ou inconfessa. O mesmo pode ser dito da Medicina, que atua dentro das expectativas criadas pelo conjunto da sociedade. Médicos não são “vasos estanques” dentro de uma sociedade; não, seus valores se comunicam dentro da complexidade de significantes do campo simbólico. Assim, o abuso de intervenções da obstetrícia é tolerado – e até exaltado – porque o conjunto da sociedade acredita em seus pressupostos. Médicos respondem a esta demanda; eles não a criam.

Escrevi um texto duro, dizendo que as demandas feministas não poderiam espelhar as mesmas violências que as mulheres historicamente reclamavam dos homens dentro do modelo patriarcal. A ideia preconceituosa e machista de tratar as mulheres como seres “emocionais” e, portanto, incapazes de decisões racionais não poderia ter como contrapartida o discurso de que os homens são “estupradores em potencial”, maus, malignos, egoístas, violentos e desleais – em essência. A crítica ao masculino – que trata os homens como moral e intelectualmente inferiores – só poderia gerar uma ideologia supremacista de gênero. Ora, se é moralmente abjeta a divisão das competências entre etnias, religiões ou orientações sexuais, no que diz respeito às suas capacidades intelectivas e afetivas, porque ainda admitimos e se faça isso com os gêneros?

Lutar pela equidade não é defender os mais fracos usando as mesmas armas que condenamos nos opressores. Esta luta deve se basear no respeito à diversidade, mostrando que em todas as cores, todas as religiões, todas orientações sexuais e em ambos os gêneros existem pessoas de todo tipo: boas, más, honestas, pilantras, gênios e tolos. Qualquer um que discorde desse valor primordial de respeito ao diferente estará sendo um arauto do preconceito.

Chamei as pessoas que atacavam os homens e o masculino de “corporativistas de gênero”, pois que lutavam pela causa do seu gênero acima dos valores da igualdade e do respeito às diferenças. Essa foi a gota d’água.

No dia seguinte dezenas (centenas?) de pessoas vieram se manifestar. Muitas concordaram, enquanto outras diziam que minha postagem apenas fazia dividir o grupo de pessoas que lutavam contra um “mal comum”: o patriarcado. Não só algumas leitoras se indignaram, mas as outras blogueiras que compartilhavam o espaço comigo fizeram um abaixo assinado e um pedido de expulsão, um cancelamento peremptório pela minha postura de criticar o feminismo (delas) e suas bases excludentes e belicosas. Fui contactado pela dona do coletivo de blogs (a mesma que algumas semanas antes havia me chamado) e convidado a me retirar. Disse ela que estava sofrendo “pressões terríveis” e que seria melhor eu sair.

É evidente que eu saí imediatamente de um lugar que jamais deveria ter aceitado ir. Coletei todos os meus escritos e voltei para o meu humilde blog, que já conta com quase 2500 textos postados desde então. Todavia, eu acredito que sobrou mais uma lição. Durante a polêmica em que estive envolvido o blog explodiu suas visualizações. Nunca tantas pessoas participaram, escreveram, contestaram, apoiaram e se solidarizaram. Muitas pessoas ficaram ao meu lado, clamando por maior respeito com os homens e com os significados últimos do masculino; outras me odeiam até hoje. Pois imediatamente após a minha saída nesta comunidade passou a reinar a mais serena e plácida de todas as calmarias. Ninguém mais reclamou, não houve ataques, discussões ou cartas de repúdio. Todas estavam em perfeita sintonia em suas crenças e ideais. Não houve mais nenhuma briga ou contestação, nenhum contraditório ou discordância.

Para a surpresa de ninguém, o que poderia ser um veículo de difusão de ideais e propostas sobre parto, nascimento, maternagem e amamentação começou a atrofiar poucas semanas depois, na mais absoluta inanição. Não houve mais o mesmo interesse por um lugar que “chovia no molhado”, sem energia, sem enfrentamento, sem polêmica e sem audiência. As pessoas rejeitam lugares mornos, sem graça e sem surpresas. Sobrou o ensinamento de que o silêncio imposto, os cancelamentos e a censura produzem – de imediato – uma falsa sensação de paz, mas que esconde a destruição da energia propulsora e a capacidade de renovação.

Calar a boca daqueles de quem discordamos retira de nós a possibilidade de aprender com as diferenças. Porém, como todo movimento de transformação, respeitar as opiniões divergentes demanda coragem e força para suportar a terrível experiência de escutar o que não se quer.

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O Império dos Sentidos

Em 1976, quando eu ainda era adolescente, foi lançado com grande furor um filme chamado “O Império dos Sentidos” do diretor japonês Nagisa Oshima. No enredo uma ex-prostituta se envolve num caso tórrido, obsessivo e altamente erótico com seu patrão, numa história que envolve possessão, sexo e morte. O filme tinha como atrativo inédito uma cena de sexo explícito que ficou famosa, apesar do filme ter seus méritos para além desta cena, e ser um drama tenso, pesado e com final trágico. Claro, eu fui assistir com a mesma cara de pau de quem comprava revista Playboy e depois dizia que era “pelas entrevistas”. Sim, eu fui ver o filme porque sempre fui “um amante do cinema japonês”…

Outra curiosidade era que, quando as pessoas falavam que no filme havia essa cena de sexo explícito, logo emendavam a frase dizendo que os protagonistas eram “casados na vida real”, o que oferecia uma curiosa “liberação” para esta exposição pública do sexo entre eles. Tipo, “ahh, se eles são casados, tudo bem”. Parecia que o fato de estarem legalmente unidos através dos sagrados laços do matrimônio retirava da cena uma grande parcela de pecado, e aposto que essa desculpa foi uma das razões para permitir que este filme pudesse ser exibido em plena ditadura militar.

Na verdade, eu lembrei do filme por outras razões. Foi o nome da película que me fez imaginar uma interpretação alternativa. Digo isso porque hoje vivemos, de uma certa forma, no “Império dos Sentidos“, mas não nos “sentidos” com o significado das percepções que captamos do exterior e que nos impressionam, como o tato, o paladar, a visão, etc. Não, eu me refiro aos “Sentidos” com a conotação de “magoados” ou “ofendidos“.

Vivemos, assim, no “Império dos Magoados” onde os sentimentos alheios valem mais do que a própria verdade. Qualquer palavra, expressão, dependendo de sua origem (e não do seu conteúdo), pode ofender pessoas, grupos, etc. As piadas e os gracejos não podem mais se arriscar a tocar as feridas de todos os “(re)sentidos”, pois estes podem se machucar ao ouvi-las. Com isso a cultura fica paralisada, imóvel, temendo os cancelamentos inexoráveis que podem partir de qualquer pessoa e coletivo que se julgam ofendidos. Os comediantes, em especial, vivem sob vigilância extrema, e vivemos hoje em um tempo em que o humor perdeu boa parte da sua potência transformadora. Humor que não rompe barreiras e que não agride conceitos recalcitrantes é entretenimento anestesiante. Nesse Império os grupos historicamente oprimidos se tornaram os mais poderosos na cultura, ditando de forma autoritária o que pode e o que não pode ser dito. Como afirma Zizek, “ser branco, cis, hetero e homem nos tempos atuais tornou-se um crime para o qual não há mais perdão“.

Não nego que houve avanços em algumas áreas – em especial nas agressões que eram travestidas de piada – mas as perdas também são inegáveis. Por isso uma reação evidente já pode ser vista no horizonte. O “Império dos Sentidos” começa lentamente a ver sua força diminuir diante da reação de pessoas e grupos que não acreditam mais na capacidade da censura, dos silenciamentos e dos cancelamentos em oferecer solução para as desigualdades ou para acabar com o preconceito. Não se muda a cultura proibindo e punindo, mas educando e transformando as relações de poder.

A ideia de que os sentimentos feridos devem ser considerados superiores à justiça, à realidade e à verdade é um conceito que precisa acabar. O modelo de “maternagem” condena os oprimidos à uma posição inferior e reativa na sociedade, mas o que eles precisam é de protagonismo e poder de decisão, não de proteção infinita.

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Cassação

Precisamos parar com essa mania de pedir cassação de parlamentares por qualquer motivo. Há que se respeitar a vontade do povo. Colocar a democracia nas mãos da justiça burguesa será sempre uma tragédia para a classe operária – mesmo que as vezes pareça nos favorecer. Para usar esse instituto (a mais grave das punições) é preciso provas contundentes de crimes gravíssimos, não o simples uso de perucas, palavrões ou o deboche. É inaceitável entregar o poder popular do voto para ser usado de forma arbitrária pelos membros do judiciário. Repito: quem paga por isso sempre serão os partidos populares e de esquerda. Não é necessário lembrar que a lei de ficha limpa, que parecia um avanço, foi manipulada até o limite e usada como instrumento para impedir a candidatura de Lula.

Os partidos da esquerda precisam aprender que pedir cassação dos inimigos todos os dias tentando aplicar censura da palavra sobre os adversários é um expediente que um dia se voltaria contra si mesmos. A esquerda precisa abandonar imediatamente a ideia de que censura e justiça burguesa podem resolver nossos problemas. Assumam a liberdade de expressão como princípio básico e combatam as mentiras com a devida responsabilização e com o contraponto da verdade.

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Caçada a Bolsonaro

Rui Costa Pimenta, em uma análise publicadas nas redes sociais há poucos dias, está certo ao denunciar os riscos de uma caçada jurídica a Bolsonaro & Filhos. Nesse caso, a esquerda liberal cirandeira – como sempre – está errada. Rui percebeu que a criação de um mito da direita, um “mártir da liberdade de expressão”, poderá ressuscitar Bolsonaro, retirando-o do limbo político onde se encontra depois de saiu do seu cargo e que seu inúmeros crimes foram descobertos. Os crimes que apareceram até agora – como a adulteração do cartão de vacinas – não vão mantê-lo muito tempo afastado da política. São crimes muito frágeis para colocar em risco – ainda mais destruir – o mito bolsonarista.

Pensem bem: o mesmo ocorreu com Lula. Eu questiono se essa estratégia de ataques insistentes pelo aparato judicial não tende a fracassar da mesma forma como aconteceu com os ataques à Lula; pouco tempo se passou e Lula voltou à cena política, e ainda por cima concorreu e venceu as eleições. Por que não poderia ocorrer o mesmo com Bolsonaro? É chato ter que concordar com as visões mais racionais e abandonar nossas ilusões, mas a preocupação que muitos têm demonstrado com o futuro do bolsonarismo – com ou sem Bolsonaro – é legítima e faz todo o sentido. Pode ser até que nossas preocupações estejam sendo superestimadas, afinal Bolsonaro não tem 10% da capacidade de articulação política de Lula, mas ainda assim olhar este movimento de extrema direita como uma força popular viva e atuante é essencial para poder vencê-lo. Neste aspecto, a postura do PCO sempre foi absolutamente coerente: contra o bolsonarismo, mas sem se iludir com os ataques (inúteis) à pessoa de Bolsonaro e aos bandidos que o cercam.

Querem exemplos? Ferdinand Marcos Júnior é o atual presidente das Filipinas, e isto ocorre porque a deposição de seu pai por uma revolução não exterminou a ideologia de vassalagem ao imperialismo que ele representava. A filha de Keiko Fugimori, quase foi eleita (e não há dúvida que existem chances grandes de que será em breve). A direita se revigora, mesmo quando as personalidades (Fugimori pai, Ferdinand Marcos pai, Bolsonaro) são caçados pelos cirandeiros e a esquerda de visão curta. Enquanto perdemos tempo obcecados por personalidades, as ideologias se metamorfoseiam em novos corpos e retornam ao poder.

Todavia, não sou contra a penalização de Bolsonaro, assim como acredito que Heleno, Mourão, Moro, Dalanhol, os militares et caterva devem pagar pelos crimes cometidos desde os golpes de 2016 contra Dilma e a prisão arbitrária de Lula. Mais do que isso: se esses personagens passarem incólumes por seus crimes, como aconteceu com os torturadores e os militares da ditadura militar, nosso país estará condenado a mergulhar no fosso do atraso e da estagnação por mais 50 anos. A impunidade criminosa dos artífices do regime de 64 nos condenou a repetir na atualidade a promiscuidade da caserna com o poder. Todavia, permitir que nossos ataques sejam centrados em personalidades – e não na ideologia fascista que eles representam – é um erro grosseiro, que poderá nos custar muito caro. Não é possível atacar Bolsonaro enquanto deixamos a direita de Alexandre de Morais, Waldemar da Costa, Temer, Tarcísio etc, correr solta, ainda mais quando vemos tanta gente que se considera de esquerda exaltar o autoritarismo performático de um juiz do supremo.

Não esqueçam: a história ensina que em todas as épocas da humanidade o abuso de autoridade e o punitivismo sempre acabaram penalizando a classe operária, mesmo que nos primeiros momentos possam ter nos iludido, atingido de raspão a classe burguesa – que, em última análise, sustenta e o promove o sistema judiciário.

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Mentiras

Afinal, o que é uma mentira?

O conhecido aforismo de Friedrich Nietzsche, em um fragmento de 1887, onde afirma que “não existem fatos, apenas interpretações”, deve ser entendido como a submissão do real ao simbólico, a ideia de que a verdade não existe como um ente absoluto e positivo e, acima de tudo, como um alerta crítico de que a verdade não é definitiva, muito menos imutável, e que o que consideramos verdade hoje merece ser criticado e sofrer o devido contraditório. Muitas vezes estas verdades sólidas se desmancham no ar, necessitando para isso apenas a passagem do tempo. Afinal, o que é uma mentira? Se houvesse uma Verdade Absoluta – e portanto mentiras definitivas – quem decide sua essência e como ela se configura? Quem são os vestais, acima do bem e do mal, que podem objetivamente decidir o que é verdadeiro e o que não é?

É disso que se trata agora, quando tantos afirmam serem favoráveis à censura para barrar as mentiras disseminadas pelas redes sociais. Quanto mais você retira essa decisão do povo e a coloca sob o escrutínio das instituições do Estado burguês – um sistema de poder criado para calar as ambições populares – mais a esquerda será penalizada, mesmo que circunstancialmente a extrema direita possa estar sofrendo seu ataque.

A censura sempre vai favorecer os poderosos, e negar isso significa não compreender a origem e a estrutura da própria democracia liberal. Estimular a censura (mesmo quando maquiada de democracia e até quando bem intencionada) é uma estratégia conservadora, que fatalmente acaba se voltando contra as aspirações do povo. A lei anti terror, a lei da ficha limpa, a lei contra fake News…. todas elas foram aparentemente bem intencionadas e chegaram até ser usadas para punir membros da direita, mas todas – mais cedo ou mais tarde – acabaram sendo usadas para atacar as forças políticas populares e de esquerda. Lula, por exemplo, foi atacado, punido e impedido de concorrer às eleições de 2018 pela lei da ficha limpa. Poderíamos pensar que, talvez, desde o início ela foi pensada para, eventualmente, ser usada contra a esquerda em uma situação limite – como a volta de um líder popular ao governo do Brasil.

Não podemos ser vítimas dessa farsa… mais uma vez.

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Patrulheiros

Na foto um policial multa uma banhista em uma praia da Itália em 1957.

Há algum tempo li nas redes sociais os ataques a um músico, um garoto de 20 anos, negro e de periferia, que ganhava a vida compondo músicas de funk. Depois que ficou famoso, e passou a ter notoriedade e dinheiro, descobriram em seu twitter várias manifestações questionáveis.

Eram piadas inocentes, apesar de serem claramente homofóbicas e misóginas, cheias de deboche e humor adolescente. Por causa disso, ele passou a ser duramente atacado pelos identitários e suas patrulhas morais de cancelamento. Continuei a leitura e li que as manifestações eram antigas, feitas ao redor de 6 anos antes da data do cancelamento.

Ou seja, ele escreveu os posts (brincadeiras de mau gosto) quando não tinha mais que 14 anos de idade, o que explicava o tipo de humor infantil utilizado. Fiquei lembrando das coisas tolas e até desrespeitosas (para os padrões atuais) que eu dizia na infância e as piadas que eu contava aos 14 anos de idade e me dei conta do quão violentas e brutais são essas patrulhas.

Imediatamente me veio à mente as patrulhas de costumes do Irã e as polícias que multavam mulheres pela ousadia dos seus biquínis em meados dos anos 50 do século passado. Qual das ofensas é mais perigosa: a nudez do corpo ou aquela da alma?

Punir um garoto recém entrando na vida adulta por piadas bobas que contou durante a puberdade é a suprema injustiça. Mais ainda… quantas dessas pessoas de dedos apontados também não foram preconceituosos nessa fase da vida?

Quando é que vamos superar este tipo de controle moralista, reacionário e religioso sobre o comportamento? Não existe nada de progressista nesse retrocesso das relações, e muito menos humanista e de esquerda.

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